quarta-feira, 21 de março de 2012

NENEN FRANCELINO

Se tivéssemos que extrair, do imenso e singular painel da vegetação nordestina, uma bandeira para homenagear a radiosa teimosia, a valente esperança, a gratuita hospitalidade, o horizontal sorriso do homem sertanejo, certamente esse estandarte atenderia por uma sagrada madeira chamada Juazeiro.

O nome Juazeiro, fruto de um matrimônio silábico do Tupi com o Português - "juá" ou "iu-á" (fruto de espinho) e o sufixo "eiro" – bem traduz o efeito da nossa “Invenção do Mar”, o achamento brasileiro e sua conseqüente miscigenação.

A mais voluptuosa mancha de solo do município de Crateús repousa no distrito de Monte Nebo, no calcanhar da Serra da Ibiapaba, que limita o Ceará com o Piauí. Nesse distrito pujante há uma localidade chamada Juazeiro. Ali nasceu, em 12 de fevereiro de 1932, um cidadão encomendado para se aparentar com a nossa árvore símbolo: Francisco Fernandes Sales, o Nenen Francelino, filho de José Francelino Sales e Maria Fernandes de Oliveira.

O Nenen Francelino, que recentemente recebeu os amigos para celebrar as oito décadas de vida, é um permanente som de viola tinindo um louvor à simplicidade da vida. Lembra um autêntico mourão voltado, aquela forma de cantoria tradicional apreciada pelo homem do campo nas noites enluaradas. Sua história é uma chuva de estrofes concatenadas com o povo que apreciou e representou. Fez da lida um verso dialogado, sempre obedecendo à rima que o outro escolheu.

Ao lado da esposa, Maria de Fátima Moreira Sales, dos filhos James Moreira Sales, Jane Moreira Sales e José Fernandes Sales Moreira Neto, Nenen Francelino se mantém renovado como o solo que o gerou ao receber os primeiros fios celestes.

Fiel às origens, deitou raízes na região em que nasceu. Como agricultor aprendeu que nossa passagem pelo roçado da vida é sempre uma prosa entre plantar e colher. E invariavelmente colhemos o que plantamos. Por isso optou por espalhar sementes de bem-aventuranças, caroços de ajuda, grãos de doação ao semelhante. Trabalhou com tranqüilidade a fecundação do óvulo da pacificação. Exerceu, durante trinta anos, a missão de Juiz de Paz na região.

A gente humilde da sua terra, identificando nele um apóstolo da causa pública, alguém capaz de “ver” a “dor” dos eleitores camponeses, o elegeu Vereador por quatro legislaturas.

Na primeira vez em que tomou assento no Parlamento Mirim de Crateús não recebia remuneração. Aqueles eram bons tempos. Tempos de políticos vocacionados. Tempos em que a fama de um homem público era construída por sobre a rocha da coerência. Com a argamassa da capacidade de ser firme e leal. De honrar a palavra empenhada. De ser inquebrantável no cumprimento dos compromissos. Duro como os troncos das velhas árvores. Bons tempos aqueles...

Tua biografia, Nenen, é um convite à reflexão. Para que estamos em cima deste chão? Certamente, para no alimento por o sal, servir o próximo de coração, acorrentar o mau e espalhar gratidão. Eis o teu recado. Isso é que é mourão voltado. Isso é que é voltar mourão!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste e na Revista Gente de Ação)

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Caro Junior,

Cumprimento-o pelo artigo sobre o meu bom amigo Nenen Francelino.

Tantas vezes fui recebido na casa dele lá no Juazeiro, sempre com o sorriso no rosto e em busca de melhoria para o seu povo.

O seu registro resgata a história do Nenen, político que sempre trabalhou em prol do povo daquela região.

Sergio Moraes

terça-feira, 20 de março de 2012

AMANHÃ É DIA DE MAIS UMA EDIÇÃO DO JORNAL GAZETA DO CENTRO OESTE

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

O pior já passou? (I)

O título desta nota é uma das perguntas mais repetidas em tempos de crise, especialmente quando se trata de uma crise de proporções equivalentes à de 1929. Há quem seja capaz de dar uma resposta clara em meio ao cenário obscuro que se desfralda perante os olhos do analista. De nossa parte, preferimos repisar alguns aspectos já abordados difusamente nos últimos meses. Vejamos:

1. A crise de crédito iniciada em meados do terceiro trimestre de 2008 ainda produzirá efeitos por mais alguns anos. Um montante enorme de capital foi "queimado", o que reduz a capacidade do sistema financeiro privado financiar o consumo e o investimento;

2. A perda de capital do sistema financeiro privado se transformou numa crise fiscal de Estados de vez que recursos públicos foram utilizados para resgatar, mesmo que imperfeitamente, o sistema privado. Assim...

3. A capacidade de consumo e investimento público também estão limitados, o que limita a criação de emprego via dispêndios públicos;

4. As taxa de desemprego das economias centrais devem permanecer elevadas por alguns anos, até que a produtividade (mais produção com o mesmo quantum de fatores de produção) cresça. O efeito é que o consumo está estagnado;

5. Faltam lideranças políticas capazes de mudar as expectativas dos agentes e, com efeito, alterar a debilitada confiança de consumidores e investidores;

6. Não houve alteração significativa na forma de operar dos mercados. Os reguladores não conseguiram alterar politicamente e de forma significativa os riscos sistêmicos relacionados à má alocação de recursos, sobretudo no que tange à especulação;

7. O preço do petróleo, bem acima de US$ 100/barril, retira ainda mais o poder de compra dos consumidores dos países centrais.

O pior já passou? (II)

Em larga medida os fatores de risco acima mencionados continuam presentes no cenário mundial e estão ainda a espalhar seus efeitos, desta feita sobre os países menos desenvolvidos (ou emergentes) dentre os quais o Brasil, a China e a Índia. Estes últimos começam a dar sinais de que vão crescer menos do que se projetava há poucos meses, sobretudo a China, que ainda cresce muito, mas bem menos (para os padrões chineses) quando se analisam os últimos trimestres em relação aos imediatamente anteriores. Paradoxalmente, é possível, e até mesmo provável, que os ativos reais e financeiros dos países mais implicados com a crise se valorizem. Isso se deve não propriamente em função de uma mudança estrutural nos frágeis fundamentos, mas em função da queda do risco espelhado na volatilidade dos mercados. Cai o risco, sobem os preços. É este fenômeno que estamos a identificar nos diversos segmentos do mercado acionário norte-americano, especialmente o de empresas tecnológicas (NASDAQ). No caso dos EUA, há tênues sinais de recuperação, mesmo que não sejam ainda seguramente promissores. Assim sendo, a nossa melhor visão indica que se esta calmaria atual permanecer mais algum tempo, o valor dos ativos vai subir ainda mais. Não é o caso de se desprezar os significativos riscos. Todavia, não é o caso de majorá-los.

O pior já passou? (III)

Na opinião da diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, já está passando sim. Embora alertando que há ainda muito o que fazer, ela percebe "os mercados financeiros estão mais calmos e os indicadores recentes sugerem um pequeno ímpeto na atividade econômica, basicamente nos Estados Unidos" e que "existem sinais de que as fortes ações de política econômica - especialmente na Europa - estão fazendo a diferença".

O BC: mais transparente e menos soberano

O anúncio da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do BC deixou ao mercado o entendimento de que a taxa básica de juros cai para o patamar de 9% e por aí fica por um bom tempo. Há quem critique o BC por esta linguagem "surpreendente". A nosso ver não há propriamente uma "surpresa". A mudança da linguagem da autoridade monetária, mais transparente e previsível, chega em boa hora. O futuro não é tão opaco desde 1929 e os BCs de todo o mundo têm procurado demonstrar que estão mais ocupados com a recessão que com a inflação. Para isto tem inovado na linguagem abandonando as frases mais tradicionais de seus informes. O Brasil segue esta linha e está correto. O que nos parece mais preocupante é que esta positiva mudança vem acompanhada por uma desconfiança crescente de que a soberania operacional do BC está mais reduzida. O governo parece interessado em dar as cartas na política monetária e isto não é institucionalmente interessante, sobretudo quando os problemas estruturais da economia brasileira estão se multiplicando e contaminando as expectativas dos agentes ansiosos por investir. O governo precisa mostrar que está operando para minorar os riscos macro e microeconômicos da economia brasileira, sem retirar da autoridade monetária a necessária soberania operacional para agir em favor do real. A bola esta com o Planalto e não com o BC.

E a caderneta de poupança?

Ou o governo propõe uma mudança em relação à remuneração da caderneta de poupança ou a política monetária do BC ficará limitada no que se refere à redução dos juros. Dificilmente isto ocorrerá nestes meses pré-eleição, mas esta questão é urgente e necessária.

O rumo do câmbio

É certo que o governo tem um "arsenal" para tentar controlar a valorizada taxa de câmbio. Isto não significa que as medidas combinadas com vistas a este objetivo vão funcionar bem, sobretudo porque os efeitos são bem elásticos, seja sobre o mercado financeiro, seja sobre a economia real. O maior risco de todos, a nosso ver, é que uma queda mais forte dos preços das commodities possa desvalorizar mais velozmente o real. Neste caso, podemos ter o recrudescimento da inflação e os consequentes efeitos sobre a taxa de juros. E o tal do "arsenal" pode ser inútil e o BC talvez tenha de mudar sua postura de acomodação monetária mais rapidamente. É lógico que estamos falando de uma hipótese ainda não muito visível, mas o governo deveria examinar esta possibilidade para fins de estabelecer políticas macroeconômicas que evitem riscos exacerbados.

A gerente e o seu perfil político

Ao que parece a presidente gostaria de projetar para o seu imenso eleitorado a imagem de "gerente" em detrimento da de "líder política". O noticiário carregado de informações que dão conta de atrasos significativos no cronograma de obras indica que o perfil tecnocrático pretendido pelos viventes palacianos de Brasília está distorcido e pode contaminar o eleitorado mais à frente. Como as coisas não vão bem também na arena política, há perda de identidade por parte da presidente. Apesar disso, Dilma goza de invejável taxa de aprovação popular por conta do "bom desempenho econômico". O fato é que a taxa de emprego está menos exuberante e os ganhos de renda andam caindo. A paciência popular pode tomar o sentido contrário e resvalar na popularidade presidencial. O governo talvez esteja exagerando na crença de que são imbatíveis. Mas enquanto o amparo popular bafejar a presidente, a rebeldia de seus aliados - entre os rebeldes inclua-se parte do PT - será limitada.

Dilma em seus labirintos

Segundo tese que as fontes oficiais fazem questão de alimentar, a mais recente crise política que Dilma está enfrentando com seus parceiros é uma "crise da política" (ou dos partidos), sem maiores consequências. Coisa de estômagos ávidos e mau atendidos. Não é bem assim, porém, no mundo real, embora a dose de fisiologismo esteja na origem das rebeliões contra a presidente. Tudo isso gera prejuízos sim, imediatos e de longo prazo:

1. A necessidade de nomear gente não qualificada para cargos no Executivo e de manter ministérios e órgãos e secretarias inúteis torna o governo mais ineficiente ainda do que qualquer governo normalmente já é e encarece seu custo para a sociedade.

2. Por causa desses desarranjos, o governo já desistiu de levar adiante qualquer uma das reformas estruturais que dariam mais segurança à economia nacional. A reforma tributária se restringirá, se ocorrer, apenas ao fim da guerra do ICMS entre os Estados; a reforma política dorme em berço esplêndido; a previdenciária vai se resumir à criação do fundo de aposentadoria dos servidores federais; a trabalhista e sindical a presidente acaba de descartar em conversa semana passada com líderes sindicais. E assim por diante.

3. A ANTT já está parada, por falta de quorum em sua diretoria para tomar decisões colegiadas.

4. Dificilmente será votado antes de julho o Código Florestal.

5. As novas regras de distribuição dos royalties do petróleo continuam suspensas, com prejuízos para os Estados e municípios que reivindicam parte desses recursos e atrasos na licitação de novas áreas para exploração.

O fisiologismo e a articulação política, ao contrário do senso comum, tem um custo elevadíssimo, não são para serem tratadas como "coisas da politiquinha".

Não é dela apenas

A crise que Dilma vem enfrentado praticamente desde que tomou posse, em intervalos cada vez menores entre um episódio e outro, não é uma crise do governo Dilma somente, embora a situação se agrave pelo estilo da presidente. É uma crise do "sistema político" de partilha do poder com um carrilhão de partidos. A presidente pode até mudar isso. O problema é que...

...Dilma é de choque

Dilma parece não admitir ser contrariada. Lula também não. Que o diga o senador Eduardo Suplicy, no index lulista desde que ousou disputar as prévias presenciais petistas com o ex-presidente em 2002. Só que Lula tinha jogo de cintura elástico, sabia como poucos usar o bambolê da política. Como se diz popularmente, fazia com a arte do limão uma limonada. Dilma até agora só mostrou que é capaz de fazer da limonada um limão. Carrega ressentimentos e os expõe, às vezes com truculência, como se deu agora na demissão dos líderes. Mantém ministros sob permanente tensão, com cenas de humilhação diante de terceiros. Está colhendo os azedumes que espalha.

Líderes sem liderança?

Eduardo Braga (Senado) e Arlindo Chinaglia (Câmara) vão ter de esforçar muito para confirmarem na prática a liderança que Dilma lhes entregou. Nenhum dos dois é conhecido por sua habilidade política, ambos costumam ser ásperos e ríspidos, ao contrário de seus antecessores, Romero Jucá e Cândido Vaccarezza. Mas Dilma não levou para casa o desaforo da derrota de Bernardo Figueiredo (ANTT) no Senado nem as conversas de Vaccarezza com os ruralistas para tentar mudar o texto do Código Florestal aprovado pelo Senado. Deu o rompante e até terá de segurar a ventania. Ontem, segunda-feira, ela já se meteu diretamente nas negociações para a aprovação da Lei Geral da Copa, ação que até agora evitava fazer. Vai ter se se meter cada vez mais.

Em fogo brando

Piora a situação o fato de a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, por culpa de seu estilo não raras vezes grosseiro, não estar mais nas graças de seus liderados. Ideli está sendo cozinhada em banho-maria por gente de diferentes partidos. Se não mudar, o óleo pode ferver e vai ser outra enxaqueca para Dilma.

Eduardo tropeça

Não foi muito feliz o senador Eduardo Braga em algumas de suas primeiras declarações como novo líder do governo no Senado, ao dizer coisas como, por exemplo, "a política do 'toma lá, dá cá' está no passado" e "os partidos terão direito de indicar, mas dentro de um novo contexto". Primeiro, é confessar que esta prática era normal, o que a presidente sempre fez questão de negar. Segundo, porque vai irritar os parceiros, que também detestam se apontados publicamente como fisiológicos. E terceiro, porque não é real: um governo que acaba de nomear o senador Marcelo Crivella para o inútil ministério da Pesca e se prepara para recolocar o PDT no ministério do Trabalho única e exclusivamente para adular aliados, não está mudando nada. E os aliados tanto sabem disso que vão continuar chiando e levando. O novo slogan do franciscanismo político pode até ser este: "É chiando (ou chantageando) que se recebe".

Este sabe o certo

Veja-se o PMDB nesta história: está amuado, mas ficou quietinho, pois sabe que as mudanças vieram para tudo permanecer como está. O PMDB teme mesmo é que tentem lhe "roubar" a presidência da Câmara (e até a do Senado) em 2013 e a vice-presidência da República em 2014.

Troco na agulha

Para lembrar a presidente Dilma de que ele existe, é forte e merece ser bem tratado, o PMDB já prepara uma armadilha para o Palácio do Planalto: escolhido por Renan Calheiros para relatar o Orçamento da União de 2013 no mesmo dia em que foi escorraçado a liderança do governo no Senado, Romero Jucá estuda a possibilidade de tornar as normas do orçamento impositivas e não apenas autorizativas. Hoje, pela lei, o governo é "autorizado" a gastar tanto em tais lugares. Não está obrigado. Se o Orçamento virar impositivo, ele terá de cumpri-lo rigorosamente. Uma camisa de força para a gestão da economia. E um possível desastre pela forma pouco séria como o Congresso trata do assunto. Mas o PMDB sabe como pouco criar o perigo para depois salvar a "mocinha".

Haddad na UTI

Lula não terá muito tempo de sossego quando for liberado pelos médicos até o fim desse mês. A candidatura do ex-ministro Fernando Haddad à prefeitura de SP inspira sérios cuidados. E somente Lula, com muito esforço, pode tirá-la da UTI. Baixou o desânimo em uma parte dos petistas. E há petistas com indisfarçável sorriso de vingança, com cara de "eu não avisei". Para mal de todos os pecados do ex-ministro, seu substituto na Educação, Aloizio Mercadante, sem querer ou querendo, está "desconstruindo" sua gestão aos poucos.

Depois é que serão elas

Tudo indica que Serra levará as prévias do PSDB paulistano neste domingo, contra os seus dois contendores na disputa, o deputado Ricardo Trípoli e o secretário estadual José Aníbal. Mas o processo todo, até pela ação tortuosa de Serra, deixará sequelas. E Serra nunca foi bom aparador de arestas. Pelo contrário.


(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 19 de março de 2012

MEU BOM JOSÉ

Tomara que chova hoje,

Em meu querido rincão

Quero fartura de milho,

Pras bandas do meu sertão.

Apostando em São José

O santo que tenho fé.

Vou fazer minha oração.

*

Meu querido São José,

Mande chuva de verdade

Pra nascer milho na roça,

De mim tenha piedade!

Quero pular a fogueira,

Comer milho e macaxeira,

Quero matar a saudade.

*

Dalinha Catunda

domingo, 18 de março de 2012

SERRA DO LUAR




Amor, vim te buscar
Em pensamento
Cheguei agora no vento
Amor, não chora de sofrimento
Cheguei agora no vento
Eu só voltei prá te contar
Viajei...Fui prá Serra do Luar
Eu mergulhei...Ah!!!Eu quis voar
Agora vem, vem prá terra descansar

Viver é afinar o instrumento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

Amor, vim te buscar
Em pensamento
Cheguei agora no vento
Amor, não chora de sofrimento
Cheguei agora no vento
Eu só voltei prá te contar
Viajei...Fui prá Serra do Luar
Eu mergulhei...Ah!!!Eu quis voar
Agora vem, vem prá terra descançar

Viver é afinar o instrumento (de dentro)
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo
Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

Autor: Walter Franco
Voz: Leila Pinheiro

sexta-feira, 16 de março de 2012

CAÇA


Quando o desenhista Jean-Baptiste Debret, um pintor devotado em homenagear Napoleão (Naipolloné como o chamavam seus compatriotas), aceitou o convite da Coroa Portuguesa para vir lecionar pintura na Academia de Artes e Oficio do Rio de Janeiro, em 1816, na certa já imaginava a diversidade incomum e exótica da paisagem do novo mundo para os seus ávidos e destros pincéis. Foram tantos os quadros que revelaram o cotidiano de um Brasil Colônia, que sua obra “Viagem Pitoresca” converteu-se num importante livro histórico. Há um belíssimo quadro em que um índio deitado de costa exibe uma extrema habilidade no manejo do arco e se faz acompanhar de dois outros nativos que espreitam um bando de patos voando em sua direção. É a figurinha predileta que ornamentava o famoso livro Exame de Admissão que muito estimulou o interesse dos estudantes pelos encantos da natureza.

Desde a pré-história, a luta pela sobrevivência induzia à caça. Do indígena com arco e flecha ao humilde caboclo com uma rústica espingarda de ouvido, a velha soca-soca, que a atividade da caça virou uma refinada arte e uma impreterível necessidade. A intervenção de um mito que habitava o mato, o Caipora, se fez necessário para controlar a situação e foi com certeza o primeiro empregado do IBAMA. Indispensável também era depositar uns farelos de fumo de corda no tronco de uma árvore e ainda contar com ajuda da sorte, pois o travesso negrinho montado num dentuço porco-do-mato era traiçoeiro e afugentava as caças despistando o caçador com estalos de galhos e simulando o ruído dos animais em fuga.

Um poeta e grande caçador, chamado Patativa cantou: ”Eu vou caçando/ a minha vida levando/ com meus cachorros fie,/ com eles nada me imbaraça,/ só não mato muita caça/ quando o caipora não quer.// É quem a caça defende/ e quando o caipora entende/ dos cachorros trapaiá/ o mato fica esquisito/ e o caçador fica aflito/ não mata nem um preá”.

O Curupira, esse estranho ser que tem os calcanhares voltados para frente, acabou vencendo a todos os caçadores!

Hoje, ouço a Sariema soltar sua gostosa gargalhada, quase nas portas da cidade sem o temor das flechas com ponta de osso ou do atordoante estampido da pólvora, que a fazia disparar em desenfreada carreira.

Outrora era comum o karati instalar-se num tosco jirau, entre os troncos das Aroeiras, feito cama de varas, só para espreitar a chegada dos animais no bebedouro. Do seu posto de observação arremessava flechas certeiras nas cutias, nas jaguatiricas, nos porcos-do-mato que se exibiam aos bandos, em marcha ligeira.

Quem passa pelas proximidades do Bar do Chico Correia, já na saída para o Curral Velho dos Poetas, avista Seu Aluísio Cavalcante, tolhido, sentado numa cadeira posta na calçada, pelo resultado de uma inesperada trombose, e nem imagina o fino caçador que fora um dia. Dizem que era protegido de Oxossi, o Orixá da caça. Ao embrenhar-se na mata já fazia parte dela, só se ouvia os estampidos de sua espingarda e ninguém, nem homem nem bicho, via sequer um vulto de um caçador, pela astúcia, pela sutileza e pelo jeito ardiloso de caçar. Numa caminhada, por uma região propícia, trazia rapidamente duas dúzias de saborosas codornizes, aí era só entregar nas casas que lhe solicitaram a incumbência.

Outro que não ficava muito atrás era o Quidé, um morador do bairro dos Patriarcas, caçador de olhos, ouvidos e faro apuradíssimos nesta milenar arte de Ártemis. Conhecia todos os segredos para uma caçada eficiente, camuflando-se na mata que nem camaleão. A ardilosa Nambu, a elegante Asa Branca, as tumultuosas Avoantes ou as preferidas Codornizes, ele ia buscar era ao meio dia de um sol escaldante, quando estavam serenamente malhando debaixo de uma moita.

Numa época, um pássaro malvado que come até cobra queimada, estava dizimando os recém nascidos borregos na Fazenda São Francisco. Os criadores diziam assim: Em céu de gavião, pinto não pia e cabrito não berra! Convocaram então o Quidé para caçar à vontade na região, contando que eliminasse àqueles que possuem mais coragem que o homem, os famigerados Carcarás. Por um contrato verbal, cada predador eliminado era um saboroso queijo que o caçador levava para casa. Aproveitou então a ocasião e construiu uma forja na beira de um grande açude no qual as aves iam beber, ficou camuflado pela água, por galhos e pelas folhas sobre a cabeça. Foi só recolhendo, rapidamente, com as duas mãos, uma centena de sedentas avoantes.

Um dos grandes espetáculos da natureza é um bando de marrecas viuvinhas fazendo uma barulhenta revoada sobre as chamas amarradas na beira da lagoa, é sem dúvida a mais clássica de todas as caçadas. Em baixo sobre as pedras, insistentemente, as duas chamas, a lavandeira e o rabo curto – todas as chamas tem um nome – esgoelavam-se num I-re rê, i-re-rê, i-re-rê contínuo. E lá de cima o bando todo grasna, respondendo ao chamado, sem perceber o perigo que lhes aguarda na descida. Desfazem aquele belíssimo V de vitoria que sempre nos emociona nos textos de auto-ajuda, e sucumbem ao engodo deslizando pelo ar, com suas asas tremeluzendo à luz da lua, para uma chuvarada de chumbo e o desesperado encontro com a morte.

Neste momento tomei conhecimento que o Tatu-bola virou Herói Nacional. Pasmado ainda estou, pois o matutão, o bobão achou que um dia aquela couraça conversível iria lhe salvar. Ele está mais é para um mártir santo em acreditar que estaria livre de seus atrozes inimigos, pois se esqueceu do pior deles: o homem. Naquele dia, havia dois cachorros latindo e correndo desesperados pela solta de catingueira, numa noite sem lua e uns destemidos caçadores de primeira viagem levando nos ombros enxadas, picaretas, foices, e lanternas, pulando cercas de um campo aberto, em que os carrapichos disputavam espaço com as jitiranas e as moitas de pega-pinto que rasgavam as roupas e os braços dos incautos aventureiros. No local em que os cachorros acuavam havia um razoável buraco, cavou-se até o amanhecer e tenho a leve impressão de que os pebas que moravam ali ainda riem dos bisonhos caçadores, mas pensei cá com meus botões, se fosse o inocente do bola...

O tolypeutes tricinctus está confirmado como o Mascote Oficial da Copa do Mundo de 2014, numa belíssima homenagem da Associação Caatinga da Serra das Almas, pois mesmo em fase de extinção, os que restaram e perambulam por esse imenso sertão de Crateús ainda pensam que o mundo é uma bolota e acho que por isso a Fifa o escolheu.

Agora que todos os olhos do planeta Terra estão direcionados para a Mata Branca deste nosso imenso sertão, devemos pensar duas vezes se formos cortar uns gravetos para acender o fogão a lenha ou se desejarmos uma saborosa avoante assada, nem pense mais em ofertar uma tora de fumo no tronco de uma árvore, o caminho é outro, os buliçosos Curupiras atuais são eficazes funcionários do Instituto do Maio Ambiente... Todo cuidado é pouco!

Raimundo Candido

quinta-feira, 15 de março de 2012

SERIDIÃO MONTENEGRO LANÇA HOJE "EXPRESSO PARA O FUTURO" NA OBOÉ DA MARIA TOMÁSIA

O Centro Cultural OBOÉ e a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - AMLEF - têm a honra de convidar para o lançamento do livro "EXPRESSO PARA O FUTURO" de autoria de Seridião Correia Montenegro com apresentação do Deputado Mauro Benevides.
Dia 15 de março de 2012
19h30min
Centro Cultural OBOÉ
Rua Maria Tomásia, 531.




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Eis o prefácio:


PREFÁCIO


Estimado Seridião, ditoso companheiro:

Sou – e sempre fui - apaixonado por rede. Há símbolo mais excelso da brasilidade cearense do que uma rede? Imagino que não. Herança indígena – que a chamavam de “ini” - a rede foi pioneiramente registrada no pergaminho linguístico português por Pero Vaz de Caminha – que, sem procurar saber o nome já usado pelos nativos, batizou-a de rede de dormir, pela semelhança com a rede de pescar.

A rede é tão carregada de força multiforme que virou pia batismal de todas as interligações relacionais, perpassando o desejo de comunicação entre os seres (redes sociais), à assepsia urbana (redes de drenagem) até a modernização tecnológica (redes de computadores), dentre outras.

Perscrutador e amante das redes de dormir, Câmara Cascudo demarcou muito bem as diferenças entre a rede e a cama: "A cama obriga-nos a tomar o seu costume, ajeitando-nos nela, procurando o repouso numa sucessão de posições. A rede toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo. A cama é dura, parada, definitiva. A rede é acolhedora, compreensiva, ondulante. A rede colabora com a movimentação dos sonhos. Entre a rede e a cama há a distância da solidariedade à resignação".

Por isso peço permissão para estender, entre dois generosos coqueiros, uma rede de tucum, de preferência a céu aberto. Rede confeccionada com a cristalina areia litorânea, bordada pelas mãos suaves da nossa brisa noturna, cujo balanço segue o ritmo das ondas do mar de Iracema.

Pois bem, só deitado em uma rede posso folhear adequadamente este teu fabuloso álbum memorial.

Disseste, Seridião, que eu teria liberdade para fazer a ponderação que julgasse necessária, sugerir alteração e, inclusive, lançar o petardo da crítica.

Começo pelo título. Condeno-o. Por que Expresso? Grande e rápido meio de transporte que anda sem fazer escalas?

Não, meu amigo, este teu precioso caderno de reminiscências deveria ter o nome da nossa principal insígnia simbólica, emblema da nossa hospitalidade militante, expressão telúrica do nosso oceânico espírito: a Rede. Este livro é, em todas as acepções, uma rede, efetivo emaranhado de cordéis afetivos, conjunto entrelaçado de fios vitais.

Esta tua delicada rede, Seridião, embora tenha os punhos amarrados nos armadores do presente, quando se balança tem uma varanda tocando o passado e a outra visitando o futuro.

Dormir nesta rede é viajar. É esparramar o corpo no córrego cristalino do embevecimento. É transmutar-se em um viajante imóvel. É fitar a trajetória de um legítimo pretor romano, que começa pela cidade maravilhosa, passa pela metrópole soteropolitana, sente o esplendor da construção na Capital da República e termina com o retorno à Terra da Luz. É divisar o itinerário de um servidor público que afixou no átrio da alma o código da decência. Como um autêntico cristão, expulsou da sala quem tentou aliciá-lo, profanando o seu sagrado espaço de trabalho. Amassou a folha rota do suborno. Esmurrou a pusilanimidade.

Por certo, em alguns momentos, olvidou de tragar o cálice da moderação e exorbitou. Usando a regra da igualdade de Ruy Barbosa – “não ser baixo com os grandes, nem arrogante com os miseráveis; servir aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade” – lançou-se sobre um Juiz de Direito para vingar o ferido sentimento paterno e lavar a honra familiar. Está perdoado porque só usou as garras da lei. Evitou as luvas de pugilista amador da categoria dos meio-médios ligeiros...

Deitar nesta rede é deleitar-se na história galante de um professor de sedução, cujo magistério nos bafeja com aquilo que Blaise Pascal chamava de l'esprit de finesse (o espírito de finesse).

Teu “S”, Seridião, é severo e sensível, singelo e solene, sutil e sonhador, sapeca e sereno, sementeiro e sentimental, simples e simpático, sábio e sóbrio. És, surpreendentemente, um sujeito sacral. Que acredita em milagre, pois ele se opera em ti. Fervoroso devoto de Nossa Senhora das Graças, daí graças. Graças à vida. Vida que se fez rede. E que tu nos entrega sob a forma de um livro.


Júnior Bonfim – poeta e advogado.

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Caro Júnior:

A cada página que você escreve, mostra a sua maestria literária. Este prefácio, além de belíssimo, é encantador. Nele o poeta se supera a cada palavra. Morro de inveja, mas minha inveja é sadia.

Meu abraço e, se possível, arranje-me um exemplar do livro do Seridião.

César Vale

quarta-feira, 14 de março de 2012

HOJE É O DIA NACIONAL DA POESIA

A POESIA

*

Poesia é o olhar

Diferente do poeta

Que lança sua seta

Na hora de contemplar.

E para nos enlevar,

Daquela contemplação

Vai brotando a inspiração

Alimento do dia-a-dia,

Que o poeta contagia

E transforma em criação.

*

Dalinha Catunda
--

CONJUNTURA NACIONAL

Einstein no Brasil

Abro a coluna contando uma historinha do amigo Sebastião Nery sobre a relatividade das coisas. Quando Einstein esteve no Brasil, foi ciceroneado por Austregésilo de Athayde. Saiu olhando as coisas, Austregésilo a tiracolo, explicando a relatividade do jeitinho brasileiro. A toda hora, Austregésilo tirava do bolso um caderninho e fazia anotações. Einstein ficou curioso:

- O que é que o senhor anda escrevendo aí?

- Suas opiniões, Mr. Einstein, suas observações. Às vezes as minhas também. Tenho o hábito de anotar sempre as ideias que me ocorrem para aproveitá-las nos meus artigos. O senhor não anota suas ideias?

- Não anoto, Dr. Austregésilo, porque até hoje só tive uma, a teoria da relatividade.

Tensão no Planalto

Parece pleonasmo falar em tensão no Planalto. Porque os ares de Brasília são permanentemente contaminados pela água em ebulição nos fornos do poder. A semana começou tensa com a substituição dos líderes do Governo no Senado e na Câmara. No Senado, Romero Jucá (PMDB/RR) cede lugar ao também senador da região amazônica, Eduardo Braga (PMDB/AM). Que já foi prefeito de Manaus, governador do Amazonas por duas vezes, depois de ter iniciado a carreira política como deputado Federal. Hoje, faz parte da ala que se diz independente do PMDB. Jucá vem lá de trás e já serviu o governo FHC. Passou pelo ciclo Lula e chegou até o governo Dilma. Cândido Vaccarezza (PT/SP) sai da liderança do Governo depois de um bom tempo. Trata-se de um perfil cordato, conciliador, um dos quadros do PT com melhor articulação junto aos partidos. Entra Arlindo Chinaglia (PT/SP), perfil também cordato. Foi presidente da Câmara e conhece bem os meandros das articulações.

O significado

A substituição dos dois líderes não se deu apenas por conta da insatisfação das bases governistas. Afinal, a não aprovação do nome de Bernardo Figueiredo para a ANTT não se deu por conta da inabilidade do senador Jucá. O nome não tinha bom conceito na casa. E passou a ser alvo do tiroteio do senador Roberto Requião. Já a indignação que se espraia nos corredores da Câmara também não pode ser contida por Vaccarezza. Afinal de contas, a rebeldia que ali se desenvolve é fruto de alguns fatores: 1º) represamento de verbas aprovadas no Orçamento para obras patrocinadas por deputados; 2º) a não contemplação dos pleitos partidários nos ministérios e o próprio fechamento de portas para as demandas parlamentares; 3º) a equação mal resolvida de preenchimento das vagas ministeriais a cargo da presidente Dilma.

Como será?

Pode ser que as coisas melhorem nas frentes de articulação. Mas outros atores também deverão ser trocados. Por exemplo, a ministra Ideli Salvatti faz muita força para acertar. Mas não tem sido eficaz. A esfera política não a considera com estofo para fazer articulação política. Que depende, e muito, do perfil pessoal, do DNA de cada um. Ideli é amarga e zangada. Um ente fora do habitat natural.

PMDB, o maior polo

O maior polo de insatisfação se encontra no PMDB. Que vê seus ministros sem autonomia decisória; monitorados por secretários executivos nomeados pelo PT; com verbas de seus parlamentares represadas. O PMDB acredita que essas barreiras são todas planejadas : o PT quer bloquear o crescimento do partido, temendo que ele continue com o maior número de prefeituras e vereadores. O projeto petista tem como meta fazer do partido uma gigantesca estrutura a serviço da continuidade de mando do PT.

Temer, o conciliador

Michel Temer, o vice-presidente da República, tem sido muito importante nesse momento de foguetório desvairado. É cercado de pressão por todos os lados. Tem agido como algodão entre vidros. E até suportado fogo amigo. Não se sabe até quando. Pequeno conselho aos fogueteiros : quando a fumaça é constante, ela mesma avisa onde se localiza a fogueira.

Tudo valerá

Nem bem o processo eleitoral começou e as jogadas no tabuleiro mostram que a campanha deste ano será a mais contundente da contemporaneidade. Uns contra uns e outros contra outros; podendo ser também de ex-adversários contra ex-aliados. Tudo valerá.

O jeito Dilma de ser

A cada dia, a presidente Dilma mostra seu jeito de ser. E de fazer política. Ouve um pequeno grupo. E toma decisões. Ao que parece, não faz consultas à área política. Apenas comunica suas decisões aos líderes. Sua cartilha é a cartesiana. Os políticos, segundo ela, precisam andar na linha reta. Mas a política, como se sabe, é, frequentemente, uma curva. Os tropeços ocorrem a cada momento. Lula tem aconselhado a presidente a ouvir mais os políticos. Por mais que ela tenha conversado com alguns, a sensação é a de que falta lábia nas conversas.

Churchill 1

O General Montgomery estava sendo homenageado, pois venceu Rommel na batalha da África, na 2ª Guerra Mundial. Discurso do General Montgomery:

'Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói'.

Churchill ouviu o discurso e com ciúme, retrucou:

'Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele'.

(As historinhas sobre Churchill, que continuam adiante, foram enviadas por Jorge Massad)

O Brasil vai bem

O Brasil vai muito bem. Essa é a versão que as autoridades fazem questão de expressar. Crise internacional? Ah, o Brasil passa ao largo. Estamos indo bem na frente de comércio exterior. Nossas commodities têm ajudado a alcançarmos bons resultados comerciais. Nossas reservas estão aumentando. O que nos permite um bom lastro para eventuais problemas cambiais. Esse é o discurso do ministro Guido Mantega. E a indústria? Ora, a indústria vive um momento difícil. Mas é um momento só, frisa o nosso ministro da Fazenda.

A indústria vai mal

A verdade é que a indústria vai mal. De cada quatro produtos adquiridos no mercado, um é importado. A indústria manufatureira registrava uma participação no PIB de 27,2% em 1985; esse índice despencou para 15,8% em 2010. A queda de emprego na indústria entre setembro de 1985 e setembro de 2010 foi de 28%; já a participação dos manufaturados na pauta de exportações baixou de 55% em 2005 para 39,4% em 2010. A pauta de importações engorda a olhos vistos. Em 2003, o coeficiente de importação era de 12,5%; no segundo trimestre do ano passado, 22,9%.

China ganha todas

E quem está devastando a indústria brasileira ? A China. Ganha concorrências a torto e a direito. E mais: vende gato por lebre. Não entrega as encomendas nos prazos. Não dá manutenção. Faz comparações absurdas. Compara o preço de um trem com 4 carros (o que fabrica) sendo apenas 50% motorizados, com um trem de 6 carros, todos motorizados. E há Estados que entram na "emboscada" chinesa, como o Rio de Janeiro, com a maior tranquilidade.

Churchill 2

Certa vez, Einstein recebeu uma carta da Miss New Orleans onde dizia a ele:

"Prof. Einstein, gostaria de ter um filho com o senhor. A minha justificativa se baseia no fato de que eu, como modelo de beleza, teria um filho com o senhor e, certamente, o garoto teria a minha beleza e a sua inteligência".

Einstein respondeu:

"Querida miss New Orleans, o meu receio é que o nosso filho tenha a sua inteligência e a minha beleza".

Capital e trabalho juntos

A FIESP e as Centrais Sindicais estabeleceram um programa de ações e eventos em defesa da indústria nacional. O primeiro evento em prol da indústria nacional está previsto para o dia 27 de março, com o lançamento de uma frente parlamentar no Congresso Nacional. Outro, em 4 de abril, reunirá cerca de 100 mil pessoas em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo. A mobilização de entidades empresariais e sindicais tem o objetivo de alertar o governo para a adoção de políticas que visem proteger a esfera industrial e, consequentemente, os empregos.

Desaceleração?

E se a economia mundial desacelerar em 2012 ? O Brasil será afetado ? Não há razão para acreditar que o Brasil é uma ilha de segurança em um mar agitado. Todos os continentes sofrerão com as águas batendo em suas costas.

Passando a perna nos trabalhadores

Funcionários de empresas terceirizadas, a serviço do Governo, que quebram e não arcam com os passivos trabalhistas vão precisar de paciência. É que a Subseção 1 Especializada em Dissídios Individuais (SDI-1) do Tribunal Superior do Trabalho, decidiu, por unanimidade, suspender a tramitação dos processos que tratam da responsabilidade subsidiária dos órgãos públicos tomadores de serviços, no caso de não cumprimento de obrigações trabalhistas pela empresa prestadora. Algumas decisões monocráticas têm acolhido liminares em reclamações e cassado decisões tomadas pelo TST em que se aplicou a súmula 331, alterada em maio de 2011 para limitar a responsabilidade subsidiária aos casos de conduta culposa do ente público no cumprimento da Lei das Licitações.

Churchill 3

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto. Convite de Bernard Shaw para Churchill: "Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver". Resposta de Churchill: "Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver".

8 mil recursos no TST

Mais de oito mil recursos extraordinários sobre o assunto estão paralisados no TST. Com a decisão da SDI-1, uma quantidade ainda maior de processos deve permanecer à espera da definição do STF. O fato é que não haveria impasse, se a contratação tivesse como preceito a idoneidade financeira, operacional, fiscal e a qualidade da prestação de serviços da contratada. Algo que pode ser perfeitamente definido por uma legislação específica.

Jegue para o Japão

A China quer importar do Brasil 300 mil jumentos. Que sairão do Nordeste. O jegue já inspirou poetas e escritores. E agora mobiliza os nordestinos que querem evitar sua exportação para a China, onde seriam industrializados - carne e derivados. As campanhas pela "salvação do jegue" estão no ar. Uma dela, "Adote um Jumento. O menino Jesus lhe agradecerá".

Churchill 4

Quando Churchill fez 80 anos, um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse:

- Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos.

Resposta de Churchill:

- Por que não? Você me parece bastante saudável.

Modernização no futebol?

Ricardo Teixeira, ufa, deixou a CBF. Poucos acreditariam que um cartola tão cheio de poder pudesse, um dia, renunciar a um dos mais ambicionados cargos por estas plagas. Teixeira saiu não apenas por conta de sua saúde, que merece cuidados. Mas por desgaste de material. Muito tempo no mesmo canto desgasta as pessoas. Por mais força que pareçam ter. É de esperar que, doravante, o futebol seja vitaminado com novas ideias, ajustes de programas e projetos, reordenação estratégica. Mas, sabem quem assumiu? Um cartola que vai completar em breve 80 anos. Nada contra ele. Felizmente, o próprio se comprometeu a implantar rodízio no comando da Confederação. A sociedade, hoje, tem o mando das coisas.

Lula puxará Haddad?

Essa é a pergunta que este consultor tem tentado responder. O candidato do PT, Fernando Haddad, está com apenas 3%. Pois bem, respondo : Lula vai arrastar Haddad para o patamar histórico do PT, cerca de 30%. E mais : Haddad continua competitivo. Por isso, qualquer tentativa de resgatar o nome de Marta Suplicy é coisa de apressadinhos.

E Serra é o favorito?

É. José Serra continua como favorito. Mas tem uma grande rejeição para administrar. É bem provável que seja um dos candidatos do segundo turno. Mas não se pode, a essa altura, apontar para nenhum vencedor ou perdedor.

Chalita entra no meio?

Esta é também mais uma pergunta que me fazem. Gabriel Chalita, hoje com 7%, poderá quebrar a polarização entre PT e PSDB. Vai depender dos tempos nebulosos ou claros de outubro.

O caldeirão eleitoral

O sistema cognitivo do eleitor tende a conjugar aspectos múltiplos: condições folgadas ou apertadas do bolso; mais alimentos ou menos alimentos na geladeira; simpatia proporcionada pelo candidato; proximidade/distanciamento que o candidato represente para o eleitor; qualidade das propostas - credibilidade, factibilidade, utopia/factóides, condições de realização; apoiadores do candidato; bom programa de TV; presença nos bairros e regiões da cidade, etc.

Churchill 5

Bate-boca no Parlamento inglês. Aconteceu num dos discursos de Churchill em que estava uma deputada oposicionista, Lady Astor, conhecida pela chatice, que pediu um aparte (Sabia-se que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos, mas concedeu a palavra à deputada. E ela disse em alto e bom tom:

- Sr. Ministro , se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá!

Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu toda a plateia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, mandou:

- Nancy, se eu fosse o seu marido, eu tomaria esse chá com prazer!

Conselho aos novos líderes

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado à presidente Dilma Rousseff. Hoje, sua atenção se volta aos novos líderes:

1. Cuidado. Examinem as demandas de grupos e regiões. Não prometam coisas que não poderão cumprir/realizar.

2. Procurem convencer a presidente Dilma que o governo de coalizão é uma via de duas mãos.

3. Tentem alcançar consenso junto às bancadas; a cartilha cartesiana da presidente Dilma há de conter sambas variados, não apenas um sambinha de uma nota só, ou seja, atendimento às demandas de um único partido.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 13 de março de 2012

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - I

Lula voltou neste fim de semana para casa, um tanto mais magro, curado da pneumonia. Até o fim do mês terá o exame definitivo para saber se está com o câncer da laringe "zerado", como se diz popularmente. Os médicos que o acompanham garantem que seguido um repouso absoluto até lá, já pelos meados de abril ele poderá retomar o que mais gosta na vida - fazer política. Porém, mesmo com esta chancela médica, as duas idas de Lula para o hospital em espaços de duas semanas, abatido por causa da queda de suas imunidades como consequencia do rigoroso tratamento a que se submeteu (e também pela inobservância de certa moderação de atividades nesse período), abriram para os aliados, de um modo geral, e os parceiros mais diretos, a terrífica visão de que não deverão (não poderão) contar com um Lula 100% provocador por um bom tempo.

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - II

Esta possibilidade real de ter que lidar com um Lula mais moderado já abriu também disputas na seara oficial tanto para o futuro imediato de 2012, como para o futuro mais distante de 2014. Este ano, quem contava com Lula para alavancar candidaturas e ajudar a impingir derrotas humilhantes na oposição, em outubro, já está tirando não somente "o cavalinho", mas "a tropa inteira da chuva". Queira ou não a presidente Dilma, tal situação vai obrigá-la a cair na vida eleitoral mais visivelmente do que apenas dando apoio "logístico" aos aliados. Terá de mostrar a cara - e não apenas em SP. (Aliás, São Paulo, com as brigas internas do PT para ver quem comanda a campanha de Fernando Haddad, politicamente e financeiramente, com o ex-ministro patinando nas pesquisas, e com a dificuldade de somar aliados à candidatura do ex-ministro da Educação, é o mais límpido sinal da falta que Lula faz. Em outros municípios, começam a pipocar também indícios de que a união dos aliados federais no nível das prefeituras também começa a desandar).

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - III

No plano de 2014, por mais cruel que isso possa parecer, os aliados também já dão indicações de que estão atordoados com a possibilidade de não terem mais "um craque no banco de reservas" (expressão usada por Gilberto de Carvalho como uma ameaça quando se falava no plano da oposição de desestabilizar politicamente Dilma). E já fazem movimentos para o jogo da sucessão presidencial nessas condições. Os movimentos do PMDB na Câmara (manifesto dos deputados Federais) e no Senado (participação decisiva, porém não única, na derruba do diretor-geral da ANTT) são lances que extrapolam as divergências por cargos e verbas e as eleições de outubro. O olho do furacão peemedebista está em 2014. Lula é o grande avalista de peso do PMDB na coalizão (mais parece uma "colisão") governista. Nunca foi sonho de consumo de Dilma, como ela tem demonstrado na prática ao tratar os ministros do PMDB como essência de segunda categoria.

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - IV

Os peemedebistas temem perder o lugar de vice de Michel Temer para o PSB e, ao mesmo tempo, preparam-se para uma eventual possibilidade, dependendo do andar da carruagem econômica, de as forças aliadas ficarem sem uma candidatura forte em 2014. Os mesmos passos do PSB do governador Eduardo Campos - vice ou candidatura própria no ano da Copa - é o foco do partido. As outras legendas olham também para o fato de Dilma, por modo próprio ou induzida por circunstâncias, entre elas um menor protagonismo forçado de Lula, estar redesenhando a correlação de forças na base aliada, não só com a redivisão da participação dos partidos no poder como também dentro do próprios partidos. No PT, por exemplo, é visível a perda de força do mundo baiano do governador Jaques Wagner (perdeu de uma só vez Florence no ministério do Desenvolvimento Agrário, Negromonte no ministério das Cidades e Gabrielli na Petrobras), a contenção do "paulistanismo" e a ascensão dos gaúchos de sua lavra política.

Dilma em transe

Há alguns meses escrevemos nesta coluna que o excesso de centralização que a presidente Dilma está imprimindo a seu governo estava deixando os ministros em pânico e inseguros, com medo de tomar iniciativas, de tomar decisões e depois serem "espancados" (figurativamente, esclareça-se) por ela. Havia, por isso, uma paralisia decisória e um enorme déficit de execução no governo, visível até para um míope. De repente, Dilma deu-se conta dessa situação e propaga "irritação" que teria crescido segundo fontes que nunca se identificam. Gerou, embora negada como motivação, até a demissão do ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence. Teria sido, segundo alguns, para dar um exemplo, para dar um recado do desgosto da presidente.

Dilma e a área econômica

A insatisfação atinge até a área econômica, exceção do BC que tem feito direitinho o dever de casa traçado por Dilma: incentivar de preferência a retomada do crescimento econômico em ritmo de avião supersônico. O carnaval já passou, mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai ter de botar seu bloco "desenvolvimentista" de novo esta semana na rua. A dúvida é saber se com a preocupação de Dilma com os detalhes a máquina vai desemperrar. Uma alma maldosa em Brasília diz que há ministro da Esplanada que não vai nem ao banheiro sem consultar antes o Palácio do Planalto.

Um novo estilo

Dilma, depois dos sustos políticos dos últimos dias, promete inaugurar esta semana um novo modelo de relações com os partidos aliados, o Congresso e os sindicatos. Vai amanhã ao Senado, o que não fez no ano passado, para a homenagem ao Dia das Mulheres. A presidente recebe na quarta-feira os dirigentes das centrais sindicais, a terceira vez em mais de um ano de governo. Inicia com o PMDB as rodadas de afagos aos parceiros de coalizão. Teria mandado (a conferir) as ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann apressarem a liberação das emendas dos parlamentares, segundo fontes oficiais emperradas mesmo por culpa da lentidão (e até uma certa desobediência, pasmem!) dos ministérios. Dilma está abrindo a porteira, mas a quer sob controle. Está pagando para ver. O risco é se a abertura for limitada e as confusões continuarem. Se houver uma brecha maior, o risco é a presidente ficar nas mãos dos nunca inteiramente saciáveis parceiros.

Dilma e o apoio das elites

A presidência de Lula se caracterizou por uma vontade férrea em se destacar das suas bases políticas originárias, sobretudo os sindicatos e os denominados "movimentos sociais", além de boa parte dos funcionários do Estado. Assim, forjou com inegável competência política a aquisição de credibilidade junto à burguesia financeira e empresarial. Aqui e lá fora. O resultado do PIB de 2011 o qual dá mais evidências do continuado processo de desindustrialização do Brasil é mais um sinal de que as elites empresariais estão dando conta de que o atual governo e sua agenda econômica já não atendem os seus interesses como no passado lulista recente. Junte-se a isso a ineficiência governamental em gerir a coisa pública no que tange às obras de infraestrutura e reformas estruturais. Por estas e por outras, está se abrindo um espaço político de insatisfação que apenas não está sendo aproveitado em função da ausência de uma oposição ativa e de uma maior organização política das elites.

Artilheiro sem precisão?

O ministério da Fazenda, em conjunto principalmente com o BC e o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior deverá, na sequência da queda de juros patrocinada pelo BC semana passada, anunciar nos próximos dias novas medidas para incentivar a produção nacional e para não deixar o real se valorizar (em economês se diz também "apreciar") demais. Sempre que as coisas se complicam para o ministro Guido Mantega, este avisa, em tom de ameaça, que o governo dispõe de um arsenal de medidas quase infinito para combater tais ameaças. É possível, mas até agora o arsenal parece composto de armas de antes da Primeira Guerra Mundial e/ou o artilheiro não anda bem de pontaria. Um levantamento feito na semana passada pelo jornal "Valor Econômico" mostra que desde o início do governo Dilma já foram adotadas 16 medidas de proteção comercial ou para aumentar a competitividade da indústria brasileira. Com efeitos muito limitados como provam as constantes novas providências ditas no embornal. Será por essa razão que a presidente Dilma ameaça ela mesma pegar em armas?

Um fato para complicar

O STF não tinha outra atitude a tomar que a de voltar atrás na decisão de considerar inconstitucional a transformação da MP que criou o Instituto Chico Mendes. Filustrias à parte, o caos jurídico que se instalaria no país, pois outras 500 leis resultantes de Medidas Provisórias, teriam o mesmo destino. Todavia, os ministros do Supremo criaram um enorme problema para o governo ao considerar que daqui para frente o rito de passar antes das MPs por uma comissão especial de deputados e senadores deve ser obrigatoriamente cumprido. O Palácio do Planalto terá de negociar muito mais com o Congresso para fazer valer sua vontade de legislar sem que os parlamentares opinem para valer, como ocorre hoje com o modo de tramitação das MPs. É um avanço democrático sério e vai despertar na Câmara a discussão sobre os ritos das MPs, que tem uma proposta de alteração profunda, de autoria conjunta José Sarney-Aécio Neves, já aprovada pelo Senado e ainda em suas gavetas. A proposta visa dar mais tempo ao Senado, "dividindo-o" melhor com a Câmara para analisar as MPs, acabar com o contrabando (inclusão de assuntos de todo o tipo numa MP, fora de seu objeto específico) de emendas, e forçar o Executivo a cumprir a norma de só editar o instrumento quando de fato ele cumprir os princípios constitucionais de urgência e relevância.

Novos vocábulos do economês

O brasileiro já começou a ouvir falar e vai ouvir muito mais ainda a respeito de três novos termos incorporados ao vocabulário diário do economês nacional nesses tempos em que o governo trata de adaptar a política econômica de meses atrás ao propósito oficial de turbinar o crescimento econômico. Acostumem-se:

1. PIB potencial - mede quanto a economia brasileira pode crescer sem provocar inflação nem problemas sérios nas contas externas.

2. Taxa neutra de juros - é a taxa básica de juros real (Selic menos inflação) que pode ser aplicada pelo BC sem gerar inflação e sem inibir o crescimento.

3 NAIRU, sigla em inglês para taxa de desemprego de equilíbrio ou neutra, aquela que não provoca aumentos salariais que onerem demais os custos das empresas por gerarem aumentos salariais muito acima da produtividade da economia.

É bom acompanhar porque não existe nenhum termômetro econômico para medir nenhum dos três com precisão. Ao contrário, estas estimativas tem um caráter experimental perigoso : podem gerar um desequilíbrio custoso para qualquer lado, sendo que somente a posteriori tais desequilíbrios podem ser corrigidos.

Se nem eles sabem

Não nos cobrem, por favor, informações sobre os movimentos da oposição que não sejam as mumunhas políticas e o nhem nhem nhem de sempre. Se nem os oposicionistas sabem direito o que está acontecendo e que seja relevante e mesmo ainda sabem o que fazer, o que podem dizer os pobres mortais que não têm bola de cristal?

O fator China

Já começam a pulular por aí os rebentos das informações que dão conta que a China está a reduzir a atividade econômica. Por alguma destas artimanhas desconhecidas o governo comunista de Pequim conseguirá limitar o crescimento em 7,5%, nada acima e nada abaixo. Os chineses parecem dotados de conhecimentos milenares, mas é difícil acreditar que quando se "freia" uma economia é possível se prever com precisão o quanto uma economia reduzirá em termos de produção, investimentos, etc. O certo é que o mundo teme tanto o assunto que nas últimas semanas andou aumentando a tensão no mercado financeiro que costuma ser pródigo neste tipo de especulação. Também parece bem razoável acreditar que nenhum país consegue crescer constantemente a taxas de 10% ao ano sem que se gerem desequilíbrios estruturais na formação fixa de capital (vulgo, investimentos) e no setor de crédito. A China não tem tais riscos mais identificados porque transparência não é o forte de Pequim e ninguém está (ainda) conseguindo saber algo diferente sobre o gigante do oriente. Todavia, as últimas tensões no mercado devem ser levadas a sério. A China pode não continuar sendo a força motriz que movimenta o mundo enquanto os países centrais do ocidente jogam hordas de desempregados nas ruas.

A China e o Brasil - I

A China está sustentando o preço de nossas commodities lá nas alturas. Mesmo com algum recuo nas últimas semanas, os bons comerciantes externos sabem que as cotações estão ótimas. Todavia, não se pode ficar pendurado na ideia de que isto é eterno. Alguém poderia imaginar que estamos exagerando. Convidamos o leitor a pensar no seguinte: estaria a taxa de câmbio neste patamar valorizado e haveria tranquilidade cambial não fossem os chineses comprando as nossas valorizadas exportações. Há, como se vê, um problema estratégico a ser resolvido: ou se aumenta o consumo doméstico (e se estimula uma pauta de exportações mais variável) ou estaremos pendurados num parceiro só, para o bem e para o mal.

A China e o Brasil - II

Se o risco chinês é considerável e merece atenção, mesmo que seja inescapável dado seus efeitos para o mundo atual repleto de destruição de empregos, redução de consumo e investimento, há de se considerar que políticas comerciais com excessos protecionistas, bem como ajustes que tornem elevada a volatilidade do câmbio não são boas práticas. É preciso fazer ajustes significativos em todas estas variáveis sem que isto reverta as boas expectativas de forma abrupta. Uma tarefa muito complexa e que o governo da presidente Dilma não parece muito preparado para fazer em vista de seus problemas de gestão. O Brasil tem perdido a sua dinâmica em meio aos parceiros de comércio exterior. Faltam às exportações conteúdo tecnológico e exploração de nichos. Sobra às importações uma taxa de câmbio tão favorável. O país parece querer brincar com fogo.

Ainda sobre a decisão sobre o juro básico

Ao que parece o BC está mesmo sensibilizado com a estagnação da atividade econômica que o país está metido. A queda de 0,75% da taxa básica de juros na semana passada foi realmente um recado para os agentes econômicos de que o BC está preocupado mesmo é com a queda da produção e que abandonou o regime de metas de inflação pelo menos em seus moldes mais tradicionais, para dizer o mínimo. Tombini e sua equipe estimulam a imaginação dos analistas de plantão em prever até que nível a taxa de juros básica pode cair. Note-se que o BC de Dilma está em pleno jejum de palavras no que tange à política fiscal e aos baixos ganhos de produtividade da economia brasileira. Isto não nos parece de boa cepa. Assim sendo, é bem possível que a taxa de juros caia para patamares nunca imaginados a princípio (8% ou menos) e que isto ocorra ainda neste primeiro semestre. Resta saber se será suficiente para estimular uma economia que parece estagnada, sobretudo no campo político.



(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 12 de março de 2012

COMO USAR AS PALAVRAS

Certa vez, uma jovem foi ter com o bom homem, São Filipe Neri, para confessar seus pecados. Ele já conhecia muito bem uma de suas falhas: não que ela fosse má, mas costumava falar dos vizinhos, deduzindo histórias sobre eles. Essas histórias passavam de boca em boca e acabavam fazendo mal, sem nenhum proveito para ninguém.

São Filipe lhe disse:

– “Minha filha, você age mal falando dos outros; tenho que lhe passar uma penitência. Você deverá comprar uma galinha no mercado e depois caminhar para fora da cidade. Enquanto for andando, deverá ir arrancando as penas e espalhando-as. Não pare até ter depenado completamente a ave. Quando tiver feito isso, volte e me conte".

Ela pensou com seus botões que era mesmo uma penitência muito singular! Mas não objetou. Comprou a galinha, saiu caminhando e arrancando as penas, como ele lhe dissera. Depois, voltou e reportou a São Filipe:

– "Minha filha" – disse o Santo – "você completou a primeira parte da penitência. Agora vem o resto."

– "Sim, e o que é, padre?"

– "Você deverá voltar pelo mesmo caminho e catar todas as penas."

– "Mas, padre, é impossível! A esta hora, o vento já as espalhou em todas as direções. Posso até conseguir algumas, mas não todas!"

– "É verdade, minha filha. E não é isso mesmo que acontece com as palavras tolas que você deixa sair? Não é verdade que você inventa histórias que vão sendo espalhadas por aí, de boca em boca, até ficarem fora do seu alcance? Será que você conseguiria seguí-las e cancelá-las, se desejasse?"

– "Não, padre..."

– "Então, minha filha, quando você sentir vontade de dizer coisas indelicadas sobre seus vizinhos, feche os lábios. Não espalhe essas penas, pequenas e maldosas, pelo seu caminho."

By William Bennett, em “O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral”.

domingo, 11 de março de 2012

ISSO TAMBÉM PASSARÁ

Havia certa vez um rei sábio e bom que já se encontrava no fim de sua vida.

Certo dia pressentindo a chegada da morte chamou seu único filho que o sucederia no trono, tirou do dedo um anel e o deu dizendo:” Meu filho, quando for rei leva sempre contigo este anel. Nele há uma inscrição, quando estiveres vivendo situações extremas, de glória ou de dor, tira e lê o que há nele”.

O rei morreu e o seu filho passou a reinar em seu lugar sempre usando o anel que o pai deixara. Passado algum tempo surgiram conflitos com um reino vizinho que acabaram culminando numa terrível guerra.

O jovem rei, a frente de seu exército, partiu para enfrentar o inimigo. No auge da batalha seus companheiros lutavam bravamente, mortos, feridos, tristeza, dor. O rei lembra-se do anel, tira-o e lê a inscrição: Isso também passará!

E ele continuou a luta, perde batalhas, vence outras, mas ao final saiu vitorioso.
Retorna então ao seu reino e coberto de glória entra em triunfo na cidade. O povo o aclama.

Neste momento ele se lembra de seu velho e sábio pai, tira o anel e lê: Isso também passará!

Todas as coisas na terra passam, os dia de dificuldades passarão, passarão também os dias de amargura e solidão, as dores, as lágrimas, as frustrações que nos fazem chorar, um dia passarão.

Os dias de glória, de triunfo em que nos julgamos maiores e melhores do que os outros, igualmente passarão.

Essa vaidade interna que nos faz sentir como o centro do universo um dia passará.

Dias de tristeza, dias de felicidade são lições necessárias que na terra passam deixando em nosso coração as experiências acumuladas.

Se hoje para nós é um dia desses repletos de amargura paremos um instante.
Com o coração entregue a Deus ouçamos Ele nos dizer: Isso também passará!


(Mensagem enviada por Wagner Vitoriano)

sexta-feira, 9 de março de 2012

FICHA LIMPA: RENO XIMENES, PROCURADOR DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO CEARÁ, ESCLARECE PARECER

Sobre críticas feitas pelo deputado estadual Ely Aguiar (PRTB) ao seu parecer contrário à emenda que quer instituir a Ficha Limpa nos cargos estaduais, proposta do pedetista Heitor Férrer, o procurador jurídico do Poder Legislativo, Reno Ximenes, manda a seguinte nota para o Blog. Confira:

Caro Eliomar de Lima,

Gostaria de prestar os seguintes esclarecimentos a respeito da polêmica criada em torno da Ficha Limpa no Estado:

1. Parecer jurídico é um exercício profissional que goza de imunidade profissional baseado no art. 133 da Constituição Federal, servindo apenas como orientação jurídica às condutas jurisdicionais, executivas ou legislativas, como é o caso concreto, podendo, serem discricionariamente ou politicamente despercebidos pelos gestores ou mandatários. Acerca da manutenção ou retratação de uma convicção jurídica, cabe exclusivamente, ao parecerista ou o responsável pelo ó rgão jurídico a sua condução, expedição ou retratação, não ficando suscetível ao tempo e espaço de ritos, principalmente, quando ocorre um fato novo, como foi a decisão do STF, emitida após o parecer exarado por mim e antes da decisão do plenário da assembléia. Parecer que mantenho pelos seguintes argumentos principais:

2. A matéria do “ficha limpa” para os Estados não pode ser copiada automaticamente, nos termos da decisão do STF. Embora não tenha efeito vinculante aos Estados, o que STF decidiu é afeto apenas aos casos de elegibilidade de candidaturas em matéria de Direito Eleitoral. Casos de investidura e exercício de servidores públicos são da área do Direito Administrativo, matéria diversa da tratada no Supremo.

3. Há controvérsias do teor da matéria e a Constituição Federal veda aos Estados legislarem sobre Direito Penal e Processual, competência privativa da União.

4. Mesmo que sobrevivesse algum argumento de cunho moral, o projeto está contaminado de vício de iniciativa, pois projetos de lei que tratem de gestão administrativa e servidores públicos, o próprio Supremo Tribunal Federal sustenta que é de competência privativa do Poder Executivo, cabendo a ele exclusivamente a faculdade de deflagrar o processo legislativo.

5. A decisão do STF é inconstitucional, como outras recentes que tem retirado direitos constitucionais pétreos, pois a Constituição Federal foi escrita por uma assembleia nacional constituinte eleita exclusivamente para tal fim, não cabendo ao STF poderes para revogar os direitos historicamente consagrados nela consignados, nem mesmo através de emenda constitucional, em razão da vedação do Art. 60.

6. As críticas políticas ao parecer fazem parte do exercício justo do cotidiano parlamentar ou da sociedade, o que não cabe a mim replicar, apenas quando elas surgirem com algum teor, substancialmente, jurídico.

7. A aprovação por outros Estados ou Municípios são decisões políticas, não necessariamente jurídicas ou constitucionais, movidas pelo torpor do moralismo, pois ainda não foram aferidas a sua constitucionalidade, o que necessariamente, apenas o futuro dirá.

8. Só falta o populismo jurídico aparecer agora com uma proposta para extinguir com o Habeas Corpus, sob o pretexto que esteja trazendo à liberdade, indevidamente, muitas pessoas.

9. Não se pode fazer reformas políticas com decisões judiciais baseadas em retóricas jurídicas. Para a probidade administrativa e eleitoral o país já possui inúmeras leis que são cotidianamente descumpridas, suspensas ou despercebidas. O que falta é postura e força política no combate à impunidade, principalmente no Brasil, em face do Direito Eleitoral ser eminentemente jurisprudencial, portanto, vulnerável e inseguro juridicamente.

10. Sou solidário à indignação social em face de muitos desmandos públicos, mas, garanto que não é construindo falsos horizontes jurídicos baseado no moralismo messiânico que resolveremos. Moralismo não é moralidade. Moralismo é apenas um bâlsamo que atenua a dor e o sintoma iludindo a doença, no caso, aquela que a sociedade brasileira hoje sofre, a desonestidade pública e a canalhice populista, fazendo retardar as atitudes efetivamente necessárias para uma reforma política inadiável.


* Reno Ximenes, Procurador Jurídico do Poder Legislativo do Ceará.

(No blog do Eliomar de Lima)

quinta-feira, 8 de março de 2012

MUI MULHER

Não sou de medir palavras

Não sou mulher recatada

O que serve para sua

Não serve pra minha estrada

Sou mulher de atitude

E nem sei se isto é virtude

Ou insolência dobrada.

*

Enfrento qualquer encrenca

Seja aqui ou no sertão

Já tive que puxar faca

Numa certa ocasião

Quando puxei a peixeira

Eu vi pegar na carreira

Quem armou tal confusão

*

Onde você estudou,

Não pude ser educada,

Pois tive que botar cedo

O meu pezinho na estrada,

Mas na escola da vida

Não virei uma perdida

Garanto, sou graduada.

*

Se quiser me enfrentar

Va prestando atenção

Não fujo de uma peleja

Sou mulher de opinião.

Gosto de diplomacia

Mas numa delegacia

Tenho argumentação.

*

Se quiser ganhar no grito

Alto também sei gritar.

Se vier na covardia

A mesma arma vou usar.

Porém se acordo quiser

A palavra desta mulher

Acordo não vai quebrar.

*

Dou um boi pra não entrar,

Pra não sair uma boiada

E contra raiva eu aviso

Que já estou vacinada.

E sou sim, flor que se cheira

Mas não caia na besteira

De querer me azucrinar.


--

Dalinha Catunda

VIVA A MULHER

quarta-feira, 7 de março de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Os quatro semáforos

Certo prefeito de Santa Rita do Sapucaí, nas Minas Gerais, ao ver nomeado um amigo para comandar o DETRAN, correu a Belo Horizonte, e não se fez de rogado. Foi logo pedindo:

- Amigo, me arranje umas sinaleiras para minha cidade. Vai ser o maior sucesso. Vai ajudar muito a minha popularidade.

O diretor, tomado de surpresa, ante tão inusitado pedido, procurou administrar a euforia do prefeito, mas não tinha como escapar à pressão:

- Compadre, está difícil arrumar esses aparelhos. Tenho de fazer uma grande reforma aqui na capital. Mas vou me esforçar para lhe arrumar quatro semáforos. Mas, por favor, não espalhe. Insisto: não espalhe.

E assim foi. Ao chegar a Santa Rita, um mês depois da entrega, ficou embasbacado. Viu os quatro semáforos colocados no mesmo lugar : o centro da cidade. Perguntou ao alcaide: "por que você mandou colocar todos eles naquele lugar"? Sorriso no canto da boca, o prefeito respondeu:

- Ora, compadre, você esqueceu? Me lembro bem: você bem que me pediu para não espalhar os faróis.

Manifesto do PMDB

O manifesto do PMDB, assinado pela maioria da bancada, é a gota d'água tirada do pote da insatisfação no qual mergulha o corpo partidário. O partido está insatisfeito com um 'certo' desprezo do governo. Não se trata apenas de queixas contra o menor espaço que tem hoje, comparado ao dos tempos de Lula. Trata-se da constatação de que a coalizão, na prática, não funciona. O Executivo quer os votos do PMDB. E só. Não faz consultas ao partido. Na hora H, a presidente Dilma vale-se da habilidade e do perfil harmônico do vice-presidente Michel Temer para acalmar os ânimos. Mas há limites nessa história de "vem-aqui-e-chega-pra-lá".

Mais reuniões

Diante da crise que pode se alastrar pelos desvãos do Parlamento, o vice-presidente Michel passa a ter papel transcendental. Não por acaso, a presidente Dilma quer fazer reuniões periódicas com ele. Agenda aberta, conversa franca.

Votação em peso

Por mais que existam divergências internas, o PMDB tem dado exemplo de unidade. Basta ver os votos por ocasião do Código Florestal e do Fundo Complementar do Servidor Público. Mostrou que vota unido. O líder Henrique Alves tem trabalhado com afinco para aprovar as matérias de interesse do Executivo. Mas não tem havido correspondência do governo. Só cobranças. Os peemedebistas desconfiam - e com razão - de que o governo quer minar suas forças e, ao mesmo tempo, ampliar as condições político-eleitorais do PT.

Presidência da Câmara

O PMDB quer presidir a Câmara Federal na próxima legislatura. E seu candidato é Henrique Alves, aliás, o parlamentar com o maior número de mandatos na Casa, 11. Henrique, para assegurar sua posição, procura se equilibrar entre a meta de atender os pleitos do Executivo e as demandas de sua bancada. Satisfazer, ao mesmo tempo, a uns e outros é tarefa quase impossível. Por isso, há um certo grupo - cerca de 20 - que tenta obstruir sua posição de liderança. Mas o vice-presidente, Michel Temer, do alto de sua índole equilibrada, funciona como algodão entre cristais.

Geddel, a trombeta

Há no PMDB alguns perfis que fazem barulho. Quem toca mais alto a trombeta é Geddel Vieira Lima, que exerceu o cargo de líder do partido, foi ministro da Integração Nacional, comanda o PMDB na Bahia, e hoje ocupa uma diretoria da Caixa Econômica Federal. Geddel é uma das melhores cabeças do partido. Pensa bem, mas é muito atirado. Não tem papas na língua. E não se cansa de fustigar, quase diariamente, o governador Jaques Wagner, adversário com quem quer medir forças. Ora, com tantas vozes dissonantes, torna-se mais complexa a tarefa do líder Henrique, de agradar todas as alas do partido.

Ameaça concreta

O PMDB está ameaçado de perder a posição de partido que detém o maior número de prefeituras do país, quase 1.200. O PT poderá tomar o seu lugar. E se isso ocorrer, o partido verá diminuídas as chances de poder vir a ser o parceiro principal do PT em 2014. Eis uma ameaça que paira sobre o PMDB.

Condições para ser governador

Solenidade de promoção da Polícia Militar em andamento, os agraciados com ascenso na carreira da corporação são chamados pelo cerimonial. Um a um recebe diplomação. Absorto em seu lugar, olhar atento a tudo, a maior autoridade presente à solenidade - governador Dinarte Mariz - resolve cochichar à orelha de Luciano Veras, secretário da Segurança do Estado:

- Coronel, eu não estou vendo entre os promovidos aquele meu afilhado que lhe fiz recomendação...

A resposta do secretário justifica o porquê da ausência do indicado pelo governador:

- Eu estive avaliando a carreira dele e observei que não havia condições para ganhar a promoção pretendida pelo senhor.

Sem maiores reservas, Dinarte alardeia sua contrariedade com a exclusão técnica:

- Luciano, que condições você está falando ? Se eu fosse atrás dessas condições nunca teria sido governador. (Quem conta o "causo" é Carlos Santos em seu livro Só Rindo 2)

Blocão

Há um bloquinho na Câmara, composto pelo PSB, PC do B, PMN e PRB. Pois bem, o sonho de Eduardo Campos é dar a esse ajuntamento o nome de blocão. A ideia é atrair o PSD de Kassab. Com essa junção, o bloco teria 110 deputados, que seria o maior da Casa. E, claro, com direito a reivindicar o comando parlamentar. Essa é mais uma ameaça que paira sobre o PMDB.

Mais insatisfeitos

Não é apenas o PMDB que se mostra insatisfeito com a participação no governo Dilma. Outros partidos também estão acusando o isolamento. Entre eles, o PSB, o PDT e o PR. A presidente reluta em nomear um indicado de Valdemar Costa Neto para o Ministério dos Transportes. Paulinho da Força quer indicar, pelo PDT, o novo ministro do Trabalho, mas a presidente tende a escolher o deputado gaúcho, Vieira da Cunha. O PSB, insatisfeito, deu apenas 2 votos favoráveis ao projeto do Fundo Complementar do Servidor Público.

Dilma, a durona

Pois é, depois de um ano, a presidente Dilma deixa ver, na plenitude, seu perfil: durona, cobradora, exigente, detalhista, apuro técnico, rigorosa, mandona, puxadora de orelha. O perfil da presidente amedronta ministros e assessores. Como consequência, distingue-se uma moldura de ministros sem autonomia, medrosos, pouco proativos. Muitas obras estão paradas. Verbas aprovadas para parlamentares não são liberadas. Esse é mais um motivo para descontentamento.

A humildade

"A humildade é virtude lúcida, sempre insatisfeita consigo mesma, mas que o seria ainda mais se não o fosse. É a virtude do homem que sabe não ser Deus". (André Comte-Sponville)

Militares da reserva

Pois é, os militares de pijama conseguiram o que queriam : ampla visibilidade. Fizeram um manifesto contra a Comissão da Verdade. E, de quebra, uma crítica ao governo. A presidente Dilma mandou puni-los. E, com essa decisão, a corrente de solidariedade entre os militares aposentados cresceu. Era o que eles queriam. Ora, a presidente deveria ter fechado os olhos a esses queixumes. Quem está na reserva só tem mesmo, como arma, o direito à livre expressão. Garantido pela Constituição. A impressão é a de que houve erro de conduta por parte do Executivo.

Quadro paulistano

A decisão de Serra, de participar do pleito paulistano, abre as seguintes hipóteses: maior probabilidade de segundo turno é com ele e Haddad. Mas tudo vai depender do papel de Lula. Terá o ex-presidente condições efetivas de participar ativamente do pleito? Até onde vai a motivação de Marta Suplicy com a candidatura Haddad? Geraldo Alckmin ajudará de maneira efetiva ou ficará na moita? Os tucanos estarão todos unidos ou haverá dissidentes/inconformados/indignados, como eventuais perdedores das prévias (Zé Aníbal e Ricardo Trípoli, por exemplo?).

Lula, corajoso

Quem conversou com Lula, recentemente, o achou muito deprimido. Ora, o ex-presidente passou por uma dura bateria de quimioterápicos. Os estados de depressão são previsíveis. Lula tem sido muito corajoso. Esta Coluna torce pela rápida recuperação deste grande brasileiro.

Governos sem grana

Os governos estaduais estão com a faca no pescoço. Os cofres estão vazios. Muitas obras paradas. Acorrem à Brasília. Ministros fazem ouvidos moucos.

Loucinha pintada

Etelvino Lins tomou posse no governo de Pernambuco. Logo no dia seguinte recebeu a visita de um tio do interior, que queria abraçar o sobrinho glorioso. O velho entrou meio desconfiado, sentou no sofá largo, começou a conversar. Mas tinha uma bronquite de abade. Tossia sem parar. Um emprego do palácio apanhou uma escarradeira toda desenhada em azul e a colocou discretamente ao lado. O velho tossiu, cuspiu no canto do chão. O empregado puxou a escarradeira mais para perto. O velho empurrou com o pé:

- Tervino, tira essa loucinha pintada daqui, senão eu acabo cuspindo dentro.

(Quem conta o "causo" é Sebastião Nery em seu Folclore Político)

O caso Valcke

Esse secretário-geral da FIFA, Jerome Valcke, é mesmo um desastrado. Sugeriu que o Brasil deveria ganhar "um chute no traseiro" para avançar na organização da Copa de 2014. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, pediu que a FIFA troque de interlocutor junto ao Brasil. Pano de fundo: soberania do Brasil e poderio da FIFA na organização/realização do evento. Até onde os poderes de ambos se cruzam?

Dilma para Merkel

A chanceler da Alemanha, Ângela Merkel, perguntou a presidente Dilma, que criticara "o tsunami" financeiro "o que você gostaria que nós fizéssemos?". Nossa mandatária respondeu: "primeiro, esterilizem a enxurrada de euros; segundo, queremos fazer boa parceria com Alemanha, desde que haja reciprocidade; terceiro, temos que tomar medidas de proteção à nossa moeda para proteger o mercado".

Ajudando Haddad

A presidente quer ajudar o pupilo de Lula, Fernando Haddad, a se eleger prefeito de São Paulo. Até toparia mexer no Ministério por conta dessa candidatura. Mas já avisou que não vai enfiar o pé na lama. Ajuda de longe. Para evitar desgaste. Aliás, esse tem sido o aviso da presidente aos correligionários.

Epílogo

"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto". (Jorge Luis Borges)

Conselhos à presidente Dilma

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado à José Serra. Hoje, sua atenção se volta à presidente Dilma Rousseff:

1. A insatisfação na base governista tende a se expandir caso não sejam liberadas as verbas aprovadas no Orçamento para as regiões indicadas pelos parlamentares. Em um ano eleitoral, fechar os cofres para a esfera política parece incongruente.

2. A postura técnica, elogiável e recomendada, precisa ter uma contrapartida política. Não se governa sem apoio da base política.

3. A responsabilidade deve iluminar os caminhos decisórios. E vossa Excelência acerta em cheio quando decide colocar a régua no meio das demandas e pressões. Mas tenha cuidado para não exacerbar na postura.

____________


*Gaudêncio Torquato

segunda-feira, 5 de março de 2012

PATATIVA DO ASSARÉ - 103 ANOS!


Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

Antônio Gonçalves da Silva, dito Patativa do Assaré, nasceu a 5 de março de 1909 na Serra de Santana, pequena propriedade rural, no município de Assaré, no Sul do Ceará. É o segundo filho de Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Foi casado com D. Belinha, de cujo consórcio nasceram nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina, em 1956, Cantos de Patativa, em 1966. Em 1970, Figueiredo Filho publicou seus poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal, sob a regência do Professor Raymond Cantel. Patativa do Assaré era unanimidade no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar onde chegou, tinha uma receita prosaica: dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. 'Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão', declamava.

Cresceu ouvindo histórias, os ponteios da viola e folhetos de cordel. Em pouco tempo, a fama de menino violeiro se espalhou. Com oito anos trocou uma ovelha do pai por uma viola. Dez anos depois, viajou para o Pará e enfrentou muita peleja com cantadores. Quando voltou, estava consagrado: era o Patativa do Assaré. Nessa época os poetas populares vicejavam e muitos eram chamados de 'patativas' porque viviam cantando versos. Ele era apenas um deles. Para ser melhor identificado, adotou o nome de sua cidade.

Filho de pequenos proprietários rurais, Patativa, nascido Antônio Gonçalves da Silva em Assaré, a 490 quilômetros de Fortaleza, inspirou músicos da velha e da nova geração e rendeu livros, biografias, estudos em universidades estrangeiras e peças de teatro. Também pudera. Ninguém soube tão bem cantar em verso e prosa os contrastes do sertão nordestino e a beleza de sua natureza. Talvez por isso, Patativa ainda influencie a arte feita hoje. O grupo pernambucano da nova geração 'Cordel do Fogo Encantado' bebe na fonte do poeta para compor suas letras. Luiz Gonzaga gravou muitas músicas dele, entre elas a que lançou Patativa comercialmente, 'A triste partida'. Há até quem compare as rimas e maneira de descrever as diferenças sociais do Brasil com as músicas do rapper carioca Gabriel Pensador. No teatro, sua vida foi tema da peça infantil 'Patativa do Assaré - o cearense do século', de Gilmar de Carvalho, e seu poema 'Meu querido jumento', do espetáculo de mesmo nome de Amir Haddad. Sobre sua vida, a obra mais recente é 'Poeta do Povo - Vida e obra de Patativa do Assaré' (Ed. CPC-Umes/2000), assinada pelo jornalista e pesquisador Assis Angelo, que reúne, além de obras inéditas, um ensaio fotográfico e um CD.

Como todo bom sertanejo, Patativa começou a trabalhar duro na enxada ainda menino, mesmo tendo perdido um olho aos 4 anos. No livro 'Cante lá que eu canto cá', o poeta dizia que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que para 'ser poeta de vera é preciso ter sofrimento'.

Patativa só passou seis meses na escola. Isso não o impediu de ser Doutor Honoris Causa de pelo menos três universidades. Não teve estudo, mas discutia com maestria a arte de versejar. Desde os 91 anos de idade com a saúde abalada por uma queda e a memória começando a faltar, Patativa dizia que não escrevia mais porque, ao longo de sua vida, 'já disse tudo que tinha de dizer'. Patativa morreu em 08 de julho de 2002 na cidade que lhe emprestava o nome.

NOS CAFUNDÓS DO SERTÃO - UM LIVRO EM LOUVOR A PATATIVA!


Dideus Sales, poeta magnífico e bondoso companheiro, nos abre a estante do novo milênio e dela retira uma preciosidade ímpar: um livro todo dedicado a Patativa, ou melhor, ao Sertão, visto que a ave e o homem, o mito e o sertanejo são raízes da mesma árvore lírica.

Homenagear muito cedo da vida ou somente após a morte é uma postura equivocada. Dideus trilhou o caminho certo: saúda o mestre da poesia popular no momento propício, na melhor idade.

Usando glosas decimais, amparado no mote “eu fui nascido e criado nos cafundós do sertão”, o poeta crateuense nos brinda com a densidade do seu cantar campesino.

Assim como Lampião, lâmpada justiceira na escuridão nordestina, Patativa enxerga com dificuldades. Talvez a luz que lhe falta nos olhos, Deus tenha colocado na alma.

Símbolo da genialidade matuta, o cancioneiro de Assaré conseguiu reunir – pasmem, letrados! – o vigor épico de um Camões, a sensibilidade ambiental de um Gonçalves Dias e o fulgor social de um Castro Alves.

Salve, Dideus, teu canto se eleva às alturas azuis do céu. Cantaste o mais luminoso dos nossos cantores, o poeta estrelado Patativa do Assaré.


(Por Júnior Bonfim, na Orelha do livro "NOS CAFUNDÓS DO SERTÃO", de Dideus Sales, em 2001, quando entre nós ainda cantava Patativa do Assaré. A propósito, o livro está sendo revisto, ampliado e reeditado agora.)