De repente
Abro a coluna com uma historinha da Paraíba.
Um ano da década de 60. O governador Pedro Gondim, da Paraíba, sai em campanha política pelo interior do Estado. Numa cidade, esbarra em uma cantoria de viola. Os organizadores da festa o levam até a dupla de poetas populares para as apresentações:
- Eis aqui o nosso governador, saúda o anfitrião.
- Conhece-o pessoalmente? Indaga a um dos cantadores.
O artista acena afirmativamente e lasca de improviso.
- Eu conheço vários Pedros
- Pedro Bom e Pedro Ruim
- Pedro ruim igual a Pedro
- Só conheço o Pedro Gondim!
O governador esboçou um sorriso amarelo.
(Da coleção de Orlando Rodrigues em Segura Essa)
O enigma Serra
José Serra começa a se vestir de enigma. Para onde vai o ex-senador, o ex-governador, o ex-prefeito e o recorrente candidato à presidência da República? Chovem versões nos bastidores políticos. Ora, ouve-se a versão de que apenas faz onda, mas acabará se conformando com a candidatura ao Senado pelo PSDB, em 2014. Afinal, tucano de bico grande não abandonaria a floresta. Ora, ouve-se à boca pequena que estaria de mala e cuia pronto para embarcar na canoa do PPS, do deputado Roberto Freire. Nesse caso, seria candidato pelo partido à presidente. Há quem o veja entrando no PDS de Kassab, hipótese sem chances, eis que a legenda já assentou pé na base governista de Dilma.
Alternativa mais viável
Pelo andar da carruagem e levando-se em conta a fala do deputado Roberto Freire, no Roda Viva, da TV Cultura, desta segunda-feira, o noctívago Serra quer mesmo ser candidato a presidente - "o melhor perfil", segundo o presidente do PPS. O fato é que os tucanos estão rachados em SP. O grupo de Serra tem birra e bica o grupo de Alckmin. Fernando Henrique tenta apartar a contenda e não consegue. Diz-se, ainda, que Serra não teria aprovado a iniciativa de FHC de pedir a Aécio que colocasse seu bloco na rua. Muito cedo, considera. Mas Aécio tinha de dar resposta à provocação de Lula, que anunciou a presidente Dilma como candidata à reeleição.
O quadro com 5 candidatos
Se Serra entrar no pleito e se Marina conseguir formar seu partido antes de outubro, a moldura seria composta por : Dilma, candidata governista, e mais quatro candidatos de oposição: Serra, pelo PPS; Eduardo Campos, pelo PSB; Marina, pela Rede Sustentabilidade e Aécio, pelo PSDB. Nesse caso, as possibilidades de um segundo turno são bastante previsíveis, mesmo sob um cenário de estabilidade econômica, crescimento médio do PIB e bolso cheio da galera das margens com a grana das Bolsas. Mas há outras hipóteses a considerar. Vejamos.
O fator Marina
Digamos que Marina Silva não consiga arrumar a sua Rede. Teria duas alternativas: ser vice do Serra, na chapa do PPS. Nesse caso, teria de ingressar no partido ou em outro que firmasse parceria com a sigla de Roberto Freire. Ou poderia compor a chapa de Eduardo Campos, do PSB. Este consultor acredita que esta última hipótese é mais provável, levando-se em conta o passado de Marina e a identidade tucana de Serra, mesmo que este venha a sair do PSDB. Campos/Marina seria uma chapa mais identificada com novidade, coisa diferente.
Segundo turno
Em qualquer hipótese, confirmando-se a candidatura do governador de PE, a questão se apresenta desta forma: com quem Campos faria parceria em um segundo turno? Com o candidato tucano Aécio Neves ou com a presidente Dilma, considerando-se que sejam os mais prováveis candidatos a entrar na segunda rodada eleitoral? Este consultor tem dúvidas. Lembro que Campos já me confessou uma vez : meu sonho é reunir a geração pós-64 e tomarmos conta do país. Naquela noite, em Comandatuba, essa geração abrigaria perfis como os Gomes (Ciro e Cid), Aécio Neves, Kassab e ele, Eduardo Campos, entre os mais visíveis. Por isso, não se pode descartar a possibilidade de Campos entrar na seara de Aécio, apesar da forte influência que deverá exercer, numa situação dessas, seu "irmão mais velho", Luiz Inácio Poderoso Lula da Silva.
Teria ele chances?
Campos tem chances de entrar em um segundo turno? Vejamos. Primeiro, teria de unir todo o PSB em torno de seu nome. Coisa complicada, quando se sabe que o governador Cid Gomes já manifestou sua preferência por Dilma, com o conselho ao correligionário para se preservar e ser candidato em 2018. Segundo, teria de conquistar o território do Sudeste, onde é um perfil praticamente desconhecido. SP, com 30 milhões de eleitores; MG, com 15 milhões e RJ, com 12 milhões serão Estados decisivos. E Campos passa longe das urnas nesses três maiores colégios eleitorais do país. E mesmo no Nordeste, o maior colégio eleitoral é a Bahia, onde Campos também não tem penetração. Tudo isso pode mudar? Sim. Mas a análise fria dos dados aponta para uma posição de parceiro menor em 2014.
E qual a vantagem?
Ora, a vantagem de entrar na campanha de 2014 é mesmo o da meta da visibilidade. Desconhecido, o governador passaria a ser bastante conhecido. Aplainaria o caminho para a chegada ao pódio em 2018. Como sempre tem lembrado este consultor: a menor distância entre dois pontos na política nem sempre é uma reta como na geometria euclidiana. É uma curva. Que o digam Lula e tantos outros que colecionaram derrotas e, depois, foram glorificados pelas urnas.
Papáveis
Entremos, agora, na Capela Sistina, onde se realiza o Conclave para eleger o sucessor de Bento XVI. A Igreja Católica de Roma padece de forte crise: as finanças estão combalindo e graves denúncias têm corroído a imagem da instituição que governa mais de 1,2 bilhão de pessoas. O melhor perfil seria o de um Papa carismático, que tivesse condições de colocar a Igreja nos trilhos da modernidade, uma pessoa de ares santificados, que não fosse carimbado com os rótulos de conservador, progressista, reacionário, moderno. Um papa do século XXI.
Principais nomes
Dom Odilo Scherer, o brasileiro, tem condições? Sem dúvida. Mas entra no círculo dos rótulos. Para o Brasil, seria ótimo. Afinal, temos a maior população católica do mundo. E SP, sua arquidiocese, a maior população de católicos do Brasil. Mas é considerado conservador e candidato da poderosa, porém polêmica, Cúria Romana. Angelo Scola, o arcebispo de Milão? Considerado muito avançado. E que tal um meio termo, como Gianfranco Ravasi, italiano, culto e carismático? O canadense Marc Ouellet tem chances, mas o simbolismo do poderio da América do Norte pode ser inconveniente.
Orater frater
O padre Edmondo Kagerer é austríaco, mas adora o Brasil em especial os sertões do Seridó, onde fundou e mantém em pé as Aldeias Infantis SOS. Fuma cachimbo e gosta de cerveja. Mas os motivos que o levaram a deixar a paróquia de São José e, por certo período, a região, foram a língua portuguesa e sua pronúncia. Chamava o motorista Paulo de Apaula, Caboré, um amigo, de Acabaré, e assim por diante. Mas quem complicou mesmo a situação foram as pressões das beatas junto ao bispo depois de tanto ouvirem e, claro, não entenderem, essa revelação do reverendo estrangeiro em seus sermões:
- Ajude a igreja. A nossa piroca também é de vocês! (o reverendo se referia à paróquia)
(Quem conta em Segura Essa é Orlando Rodrigues)
E o Tristiciano, hein?
O sobrenome acima, claro, é um contraponto ao Feliciano. Isso mesmo, o sobrenome do deputado Marco, do PSC, elevado ao cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. A polêmica se estabeleceu. O deputado deu declarações discriminatórias e parece mesmo embalado por um celofane fundamentalista. A esta altura, o PSC, para evitar desgaste, deveria substituí-lo. Sob pena de ter de conviver com reações negativas que acabarão estreitando mais ainda seus votos em 2014.
Ponto e contraponto
E por falar em ponto e contraponto, levanto mais uma comparação : a alga e o silicone. A alga é elemento que pode descobrir a verdade. O silicone, o elemento usado para encobrir a verdade. Vejamos. Um biólogo analisou o sapato do advogado Mizael Bispo e descobriu nele uma alga que existe na represa, onde foi encontrada sua namorada, Mércia Nakashima. Ou seja, uma alga pode ser a pista para a descoberta do crime. Abrindo, agora, a outra historinha. Em SP, uma médica de 29 anos foi presa por suspeita de fraudar o ponto eletrônico nos plantões de um hospital público, usando, para tanto, dedos de silicone com a digital de médicos e enfermeiros. 11 médicos e 20 enfermeiros participariam do esquema. Tecnologia a serviço do bem e do mal. E uma pitada de cultura brasileira. A cultura do jeitinho.
Temas ferventes
A pauta política no horizonte deixa a ver temas candentes em intensa discussão: pacto federativo, royalties do petróleo, MP dos portos, orçamento impositivo. O pacto federativo abrigará fóruns de governadores e prefeitos interessados em aumentar a participação de Estados e municípios no bolo da União; o assunto está pra lá de discutido. RJ, ES e SP buscam, no STF, recompor a situação dos chamados Estados produtores e garantir contratos do passado. Os portos estaduais, como Suape, em PE, temem perder sua autonomia. A presidente quer acabar com prerrogativas de Centrais Sindicais de interferir no regime de contratação de avulsos. Há outros imbróglios na MP. E os deputados não vêem a hora de decidir sobre o orçamento impositivo, promessa do presidente da Câmara, Henrique Alves. Essa modalidade resgata a autonomia orçamentária aprovada pelo Congresso.
Facilidade impossível
Prefeito de Mossoró, João Newton da Escóssia sempre foi conhecido pelo rigor no trato das coisas públicas. Nada e ninguém poderiam violar o erário municipal. Apesar do rigor de João Newton na administração da prefeitura de Mossoró, não faltam excessos e incursões a pecados. Detectado por João Newton, o deslize era imediatamente reparado. O prefeito, ninguém tem dúvidas, não tem qualquer tipo de flexibilização, quando o assunto fere a lei. Em sua sala de trabalho, João Newton vê entrar um antigo amigo, num dia de expediente normal. Trata-se do conhecido "Telé". Após cumprimentos normais, algo comum entre amigos, Telé assinala o que o levara ao gabinete do prefeito:
- João, eu vim aqui para lhe pedir uma coisa!
- Pode falar, Telé - estimula o prefeito João Newton.
- Eu quero que você facilite uma coisa para mim - diz.
O prefeito, então, pondera bem ao seu estilo:
- Olha, Telé, se tiver tudo certinho, dentro da lei, direito mesmo, eu lhe ajudo.
Casmurro, Telé vê logo como é inexpugnável o senso de legalidade do prefeito e amigo.
- João, eu vim aqui para você facilitar uma coisa. Se fosse assim, tudo direito, eu não vinha lhe procurar.
(O relato é de Carlos Santos em seu livro Só Rindo)
Conselho aos pré-candidatos
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado às Centrais Sindicais. Hoje, dedica sua atenção aos pré-candidatos que começam a correr o país para viabilizar planos eleitorais.
1. No momento em que Vossas Excelências começam a pôr o carro nas ruas e abrir um amplo processo de articulação com as forças da sociedade organizada, é aconselhável que portem ideias claras, objetivas, viáveis, abrangentes. Essa sugestão visa despersonalizar o processo político/eleitoral e adensar o discurso com propostas para o país.
2. Ouçam as demandas dos grupamentos sociais, procurando compor a radiografia da realidade brasileira. E evitem fazer crítica por crítica. Façam elogios a programas/projetos que estejam mostrando resultados.
3. Evitem parolas populistas e molhadas no caldo do oportunismo que costuma embalar os pacotes de compromissos.
____________
(Gaudêncio Torquato)
Este espaço se quer simples: um altar à deusa Themis, um forno que libere pão para o espírito, uma mesa para erguer um brinde à ética, uma calçada onde se partilhe sonho e poesia!
quarta-feira, 13 de março de 2013
terça-feira, 12 de março de 2013
JOSÉ CORIOLANO DE SOUSA LIMA

Faculdade de Direito do Recife. Prédio lendário, desenho imperial, arquitetura solene, postura memorial, arquivo incomensurável, atmosfera histórica. Os jardins que circundam aquele edifício memorável exibem bustos de nomes famosos – como Rui Barbosa e Castro Alves – que salpicaram de estrelas as folhas cadentes da literatura nacional.
Piso os pés no envolvente silêncio que domina aquele tablado clássico. Interrogo uma servidora se poderia me prestar informações sobre um ex-aluno da Instituição. Ela responde afirmativamente e, na mesma pisada, indaga qual o período em que estudou e o nome completo desse ex-aluno. Respondo que se trata de José Coriolano de Sousa Lima e que foi aluno nos idos de 1850. Depois de pesquisar, ela me afirma que o nome do autor de O Touro Fusco e Impressões e Gemidos consta na relação de bacharéis em direito que se perfilaram como concludentes no ano de 1859.
Admirador contumaz do meteórico e insuperável poeta de Crateús, saí dali com minha taxa de estima ainda mais inflada por esse ser constelado. José Coriolano, que deixou a existência terrena dez anos após concluir o curso de direito, em apenas uma década fincou mourões indeléveis. Construiu uma rampa de madeira imorredoura. Acessou o portal da glória. Conheceu a copa do sucesso e nos distinguiu com um legado luminoso que o redemoinho dos anos não conseguiu apagar.
Com atuação destacada no Maranhão e no Piauí, percorreu o leito da história como Magistrado de escol, Jornalista de renome, Político ilustrado e Poeta insuperável. Juiz de Direito em várias freguesias, sua pena de Jornalista passeou ativamente nos vales da linotipia da imprensa no Recife e Teresina. Foi deputado provincial pelo Piauí, por duas legislaturas, e presidente da Assembleia Legislativa (pois, à época em que viveu, Crateús pertencia ao Piauí). Aclamado Príncipe dos Poetas Piauienses, é considerado o talhador da pedra fundacional da literatura Piauiense.
José Coriolano é a comprovação inequívoca de que a distribuição dos dons Celestes não segue a perversa lógica mercantilista. Enquanto o poder econômico é atraído pelo magnetismo da concentração do capital e brota, via de regra, nos grandes centros de exibição da riqueza, a gratuidade divina escolhe os estábulos e as manjedouras mais inesperadas para parir os seus rebentos. O primado da inteligência - produto da mão que gera o imprevisível, dádiva do Ser Superior – lateja em solos inimagináveis. Germina nas capoeiras mais desprezadas. No tempo de Jesus, os doutores da Lei se questionavam como Nazaré, uma região sobre a qual pairava a nuvem do preconceito, era capaz de gerar um Profeta! Logo aquele Jovem questionador, que era filho de um carpinteiro!...
José Coriolano é a materialização inconteste dessa assertiva bíblica. Nascido entre as babugens destes solitários torrões, na fazenda Boa Vista, quando Crateús era conhecida por Vila Príncipe Imperial, resplandeceu nos cerimoniosos espaços em que pontificavam os luminares da cultura nacional.
Coriolano foi um fidalgo das letras que construiu uma obra impagável e inapagável de devoção às maravilhas Divinas, de paixão pela Natureza e por todos os animais, de modelar sintonia com a mulher amada, de culto aos altos valores da Justiça e da Liberdade! Seu busto, reexposto em praça pública, é uma doce provocação à nossa massa encefálica: estudemos sua trajetória, miremos seu exemplo!
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
OBSERVATÓRIO
Mahatma Gandhi, que provou para o mundo ser possível mobilizar toda uma Pátria em torno de um projeto revolucionário de transformação social pela via da não violência ou da resistência pacífica, protagonizou cenas de extraordinário valor pedagógico. Conta-se que, em determinada ocasião, uma mãe pediu uma audiência com o Mahatma. Indagada a razão do pleit, ela disse: - Mestre, quero que peça meu filho para parar de comer açúcar. Gandhi olhou para ambos, silenciou por alguns segundos e pediu que voltassem 15 dias depois. A Mãe, mesmo contrariada - pois não entendia a razão de demorar tanto tempo para solucionar coisa tão simples – aquiesceu. Quinze dias depois, retornou ao encontro com o “Grande Alma”. Ao entrarem, Gandhi mirou nos olhos do filho trazido ao seu encontro e vaticinou: “Pare de comer açúcar!”. Surpresa, a mãe perguntou o motivo que tinha levado o Mestre a deixá-los esperando tanto tempo para pronunciar aquela pequena frase quando podia tê-lo feito quinze dias antes. Gandhi respondeu: - É que eu também comia açúcar!
Coerência - ou harmonia entre prédica e prática, palavra e ação – eis o grande desafio dos tempos atuais, sobretudo para os homens públicos...
JOSÉ CORIOLANO
No último dia 08 de março, sexta-feira passada, a população da cidade de Crateús recebeu de volta o busto do seu poeta maior, José Coriolano de Sousa Lima, recolocado na praça ao lado da Catedral. A iniciativa foi da Academia de Letras de Crateús, representada por Edmilson Providência, Flávio Machado e Raimundo Cândido, mas contou com a colaboração do Poder Público e de vários conterrâneos. À solenidade compareceram diversos artistas, intelectuais, populares e autoridades, como o Prefeito, doutor Carlos Felipe e o Representante do Ministério Público, doutor José Arteiro Goiano. A imagem de um homem de existência curta, porém extremamente radiosa e laboriosa, retorna ao espaço donde nunca deveria ter sido retirado: o pátio da admiração coletiva. Ivens Roberto de Araújo Mourão, trineto do poeta, militante entusiástico e pesquisador incansável do legado do poeta, representou a família e brindou a Academia de Letras de Crateús com uma relíquia: um manuscrito poético de José Coriolano. (vide crônica ao lado).
DIA DA MULHER
A homenagem a José Coriolano ocorreu no mesmo dia em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, 08 de Março. A coincidência é emblemática, porque o autor de “Impressões e Gemidos” amava incondicionalmente sua musa, Maria Cesalpina. Na ocasião, a Professora Rosa Morais recebeu das mãos do seu sobrinho Zacarias Bezerra e do Prefeito Carlos Felipe o pergaminho contendo a benção Papal em honra do seu centenário, que ocorrerá em outubro, da nossa eterna professora e catequista.
LIVRO
Por falar na longeva família Morais, o doutor José Maria Bonfim de Morais, também sobrinho da Professora Rosa, estará lançando nos próximos dias um volumoso e primoroso livro sobre o Monsenhor Morais.
CURTAS
O Vereador João de Deus cumprimentou-me efusivamente no evento em louvor a José Coriolano para dizer que, como aniversariante da noite, não poderia receber presente melhor: o retorno da nossa pioneira Rádio Educadora de Crateús, que voltou a emitir suas ondas sonoras...
No dia 17 de março vai acontecer mais uma Eleição do Conselho Tutelar de Crateús. Longe de ser um espaço para teste eleitoral convencional, o Conselho Tutelar é um organismo pulsante e vital para a conformação social do núcleo familiar, célula mãe da sociedade, e no que pertine à conscientização dos deveres e direitos das Crianças e Adolescentes...
Os integrantes da Administração Municipal convidam para o lançamento da pedra fundamental do Campus Avançado da UFC, cujo terreno foi doado pelo empresário Lulu Cavalcante...
João Coelho Soriano, o Massaroca, noticiou: o Prefeito lhe confidenciou que vai renunciar à Prefeitura e pleitear uma vaga à Assembleia Legislativa. Com isso, o bastão do Poder Municipal sairá das rédeas do PCdoB e passará, pela primeira vez, às mãos do PT...
PARA REFLETIR...
Há na minha província uma ribeira,
Um sertão, onde eu vi a vez primeira
Sorrir-me da existência a doce luz:
Tem o nome da tribo que o habitava,
Quando ao rude tapuia entregue estava,
Esse nome, sabei-o, - “Crateús.”
(José Coriolano)
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
Coerência - ou harmonia entre prédica e prática, palavra e ação – eis o grande desafio dos tempos atuais, sobretudo para os homens públicos...
JOSÉ CORIOLANO
No último dia 08 de março, sexta-feira passada, a população da cidade de Crateús recebeu de volta o busto do seu poeta maior, José Coriolano de Sousa Lima, recolocado na praça ao lado da Catedral. A iniciativa foi da Academia de Letras de Crateús, representada por Edmilson Providência, Flávio Machado e Raimundo Cândido, mas contou com a colaboração do Poder Público e de vários conterrâneos. À solenidade compareceram diversos artistas, intelectuais, populares e autoridades, como o Prefeito, doutor Carlos Felipe e o Representante do Ministério Público, doutor José Arteiro Goiano. A imagem de um homem de existência curta, porém extremamente radiosa e laboriosa, retorna ao espaço donde nunca deveria ter sido retirado: o pátio da admiração coletiva. Ivens Roberto de Araújo Mourão, trineto do poeta, militante entusiástico e pesquisador incansável do legado do poeta, representou a família e brindou a Academia de Letras de Crateús com uma relíquia: um manuscrito poético de José Coriolano. (vide crônica ao lado).
DIA DA MULHER
A homenagem a José Coriolano ocorreu no mesmo dia em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, 08 de Março. A coincidência é emblemática, porque o autor de “Impressões e Gemidos” amava incondicionalmente sua musa, Maria Cesalpina. Na ocasião, a Professora Rosa Morais recebeu das mãos do seu sobrinho Zacarias Bezerra e do Prefeito Carlos Felipe o pergaminho contendo a benção Papal em honra do seu centenário, que ocorrerá em outubro, da nossa eterna professora e catequista.
LIVRO
Por falar na longeva família Morais, o doutor José Maria Bonfim de Morais, também sobrinho da Professora Rosa, estará lançando nos próximos dias um volumoso e primoroso livro sobre o Monsenhor Morais.
CURTAS
O Vereador João de Deus cumprimentou-me efusivamente no evento em louvor a José Coriolano para dizer que, como aniversariante da noite, não poderia receber presente melhor: o retorno da nossa pioneira Rádio Educadora de Crateús, que voltou a emitir suas ondas sonoras...
No dia 17 de março vai acontecer mais uma Eleição do Conselho Tutelar de Crateús. Longe de ser um espaço para teste eleitoral convencional, o Conselho Tutelar é um organismo pulsante e vital para a conformação social do núcleo familiar, célula mãe da sociedade, e no que pertine à conscientização dos deveres e direitos das Crianças e Adolescentes...
Os integrantes da Administração Municipal convidam para o lançamento da pedra fundamental do Campus Avançado da UFC, cujo terreno foi doado pelo empresário Lulu Cavalcante...
João Coelho Soriano, o Massaroca, noticiou: o Prefeito lhe confidenciou que vai renunciar à Prefeitura e pleitear uma vaga à Assembleia Legislativa. Com isso, o bastão do Poder Municipal sairá das rédeas do PCdoB e passará, pela primeira vez, às mãos do PT...
PARA REFLETIR...
Há na minha província uma ribeira,
Um sertão, onde eu vi a vez primeira
Sorrir-me da existência a doce luz:
Tem o nome da tribo que o habitava,
Quando ao rude tapuia entregue estava,
Esse nome, sabei-o, - “Crateús.”
(José Coriolano)
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
segunda-feira, 11 de março de 2013
O PODER DA ACEITAÇÃO
Sempre que surge em nós alguma emoção negativa, estresse ou qualquer tipo de desconforto emocional, é um sinal de que, em algum nível, entramos em um processo de não aceitação da realidade. Situações acontecem e reagimos internamente contra a realidade nos causando sofrimento.
Os pensamentos de não aceitação são os mais diversos. Alguns desses pensamentos falam sobre coisas que estão acontecendo no presente momento, e outros focam em situações já passadas: Eu não deveria ter feito isso; fulano deveria ter falado comigo de outra forma; as pessoas deveriam se comportar de tal maneira; eu deveria ter feito outra coisa e não fiz; o mundo deveria ser mais justo; eu não aceito o que aconteceu comigo; não suporto o jeito de falar de fulano (pensamento que deixa implícito que fulano deveria ser de outra forma); o avião não deveria estar atrasado e etc...
Imediatamente ao entrarmos em conflito com a realidade, surge desconforto. Ditamos internamente como a realidade e as pessoas deveriam ser. Mas elas são sempre do jeito que são, e não há pensamento no mundo dentro de nós que possa mudar a realidade do jeito que ela está se apresentando naquele momento, ou o que já passou.
Uma das formas mais comuns de não aceitação da realidade é o hábito de reclamar. Existem pessoas que reclamam continuamente de tudo o que acontece e que não se encaixa com o ideal imaginário que ela criou. Reclamam do trânsito, da fila, do atraso, do salário, das atitudes de alguém, e até do clima, o que as deixam eternamente estressadas e insatisfeitas.
Existem uma crença que está profundamente enraizada no inconsciente coletivo que diz que se nós aceitarmos as coisas como elas são, não vamos fazer nada e assim tudo ficará do jeito que está. Essa crença deixa implícito que nós só vamos agir se ficarmos infelizes e estressados, o que ajuda a alimentar o estado de não aceitação. O que acontece é que a maioria das pessoas continua reclamando, gerando muito desconforto para si e para a coletividade, e não toma providências práticas para melhorar a realidade.
Será que é possível entrar em um estado de aceitação e agir mesmo assim para mudar algo? Sim, é claro que é possível. Aceitação é diferente de acomodação. Aceitação é apenas o fim da guerra interna com a realidade; o fim da ditadura interior que diz que a realidade deveria ser de outra forma enquanto ela é do jeito que é, nos causando apenas estresse. A acomodação acontece quando podemos fazer algo e não fazemos. Podemos aceitar a realidade, ou seja, deixar de ficar brigando internamente com ela, já que isso não ajuda e apenas nos causa desconforto, e ao mesmo tempo fazermos o melhor que pudermos para tornar a realidade mais prazerosa.
A acomodação é sempre um reflexo de medos, inseguranças e processos de autossabotagem se manifestando em alguém. Não faz sentido poder fazer alguma coisa e simplesmente não fazer. Um ser humano em perfeito equilíbrio emocional consegue aceitar em paz a realidade e ao mesmo age da melhor forma que puder se tiver algo que possa ser melhorado com sua ajuda. Se você faz um pedido ao garçom e ele traz a comida errada, é possível simplesmente aceitar o erro que ele cometeu (e assim não se sentirá estressado) e ao mesmo tempo pedir pra que ele traga o prato correto.
Uma pessoa acomodada sente medo, preguiça, vergonha e acaba não tomando a providência necessária. Já a pessoa que está no modo da não aceitação, toma a providência mas acaba gerando muito desconforto para si mesma. Conforme todos nós sabemos, o estresse afeta a nossa saúde emocional e física, gera tensões no corpo e diversas outras somatizações.
A ação que vem de uma pessoa em um estado de aceitação é mais eficiente pois está livre de qualquer negatividade. Assim não há exageros, dramas ou distorções. É uma ação lúcida, que vem de alguém que sabe lidar bem com a realidade.
Os melhores diplomatas, negociadores e conciliadores são pessoas que não ficam brigando internamente com a outra parte, eles aceitam e fazem o melhor possível e assim conseguem resultados muitas vezes surpreendentes.
Mas em muitos casos, não há nada realmente a fazer. Reclamar do transito, por exemplo, não o fará ir mais rápido. Nesses casos a única coisa sensata a se fazer é entrar no estado interior da aceitação. O mesmo é válido para qualquer fato que tenha acontecido no passado.
Toda a negatividade que criamos em torno da não aceitação, além de gerar estresse, ajuda a atrair mais situações desagradáveis. Atraimos para a nossa realidade aquilo que estamos sentido, e se nosso estado interior é de desconforto, mais situações desagradáveis surgem. O estado de não aceitação faz ainda a nossa mente ficar focada nas coisas negativas da vida, consumindo nossa atenção que poderia estar direcionada para coisas boas ou para criar soluções e transformar a realidade.
Talvez você já tenha passado pela seguinte experiência. Ao se desapegar de um determinado problema que você tentou de várias formas resolver e não conseguiu, surge uma solução sem que seja preciso a sua intervenção ou que exija apenas uma ação bem simples. O desapego faz parte do estado de aceitação.
Removamos todos os sentimentos desconfortáveis que surgem ao pensarmos em situações do passado, situações futuras e outros pensamentos quaisquer. Isso nos coloca em um estado profundo de aceitação. Nesse estado de paz interior nossa sabedoria aumenta e sabemos de uma forma intuitiva se é possível agir, e caso seja possível, a melhor ação a ser tomada.
(André Lima)
Os pensamentos de não aceitação são os mais diversos. Alguns desses pensamentos falam sobre coisas que estão acontecendo no presente momento, e outros focam em situações já passadas: Eu não deveria ter feito isso; fulano deveria ter falado comigo de outra forma; as pessoas deveriam se comportar de tal maneira; eu deveria ter feito outra coisa e não fiz; o mundo deveria ser mais justo; eu não aceito o que aconteceu comigo; não suporto o jeito de falar de fulano (pensamento que deixa implícito que fulano deveria ser de outra forma); o avião não deveria estar atrasado e etc...
Imediatamente ao entrarmos em conflito com a realidade, surge desconforto. Ditamos internamente como a realidade e as pessoas deveriam ser. Mas elas são sempre do jeito que são, e não há pensamento no mundo dentro de nós que possa mudar a realidade do jeito que ela está se apresentando naquele momento, ou o que já passou.
Uma das formas mais comuns de não aceitação da realidade é o hábito de reclamar. Existem pessoas que reclamam continuamente de tudo o que acontece e que não se encaixa com o ideal imaginário que ela criou. Reclamam do trânsito, da fila, do atraso, do salário, das atitudes de alguém, e até do clima, o que as deixam eternamente estressadas e insatisfeitas.
Existem uma crença que está profundamente enraizada no inconsciente coletivo que diz que se nós aceitarmos as coisas como elas são, não vamos fazer nada e assim tudo ficará do jeito que está. Essa crença deixa implícito que nós só vamos agir se ficarmos infelizes e estressados, o que ajuda a alimentar o estado de não aceitação. O que acontece é que a maioria das pessoas continua reclamando, gerando muito desconforto para si e para a coletividade, e não toma providências práticas para melhorar a realidade.
Será que é possível entrar em um estado de aceitação e agir mesmo assim para mudar algo? Sim, é claro que é possível. Aceitação é diferente de acomodação. Aceitação é apenas o fim da guerra interna com a realidade; o fim da ditadura interior que diz que a realidade deveria ser de outra forma enquanto ela é do jeito que é, nos causando apenas estresse. A acomodação acontece quando podemos fazer algo e não fazemos. Podemos aceitar a realidade, ou seja, deixar de ficar brigando internamente com ela, já que isso não ajuda e apenas nos causa desconforto, e ao mesmo tempo fazermos o melhor que pudermos para tornar a realidade mais prazerosa.
A acomodação é sempre um reflexo de medos, inseguranças e processos de autossabotagem se manifestando em alguém. Não faz sentido poder fazer alguma coisa e simplesmente não fazer. Um ser humano em perfeito equilíbrio emocional consegue aceitar em paz a realidade e ao mesmo age da melhor forma que puder se tiver algo que possa ser melhorado com sua ajuda. Se você faz um pedido ao garçom e ele traz a comida errada, é possível simplesmente aceitar o erro que ele cometeu (e assim não se sentirá estressado) e ao mesmo tempo pedir pra que ele traga o prato correto.
Uma pessoa acomodada sente medo, preguiça, vergonha e acaba não tomando a providência necessária. Já a pessoa que está no modo da não aceitação, toma a providência mas acaba gerando muito desconforto para si mesma. Conforme todos nós sabemos, o estresse afeta a nossa saúde emocional e física, gera tensões no corpo e diversas outras somatizações.
A ação que vem de uma pessoa em um estado de aceitação é mais eficiente pois está livre de qualquer negatividade. Assim não há exageros, dramas ou distorções. É uma ação lúcida, que vem de alguém que sabe lidar bem com a realidade.
Os melhores diplomatas, negociadores e conciliadores são pessoas que não ficam brigando internamente com a outra parte, eles aceitam e fazem o melhor possível e assim conseguem resultados muitas vezes surpreendentes.
Mas em muitos casos, não há nada realmente a fazer. Reclamar do transito, por exemplo, não o fará ir mais rápido. Nesses casos a única coisa sensata a se fazer é entrar no estado interior da aceitação. O mesmo é válido para qualquer fato que tenha acontecido no passado.
Toda a negatividade que criamos em torno da não aceitação, além de gerar estresse, ajuda a atrair mais situações desagradáveis. Atraimos para a nossa realidade aquilo que estamos sentido, e se nosso estado interior é de desconforto, mais situações desagradáveis surgem. O estado de não aceitação faz ainda a nossa mente ficar focada nas coisas negativas da vida, consumindo nossa atenção que poderia estar direcionada para coisas boas ou para criar soluções e transformar a realidade.
Talvez você já tenha passado pela seguinte experiência. Ao se desapegar de um determinado problema que você tentou de várias formas resolver e não conseguiu, surge uma solução sem que seja preciso a sua intervenção ou que exija apenas uma ação bem simples. O desapego faz parte do estado de aceitação.
Removamos todos os sentimentos desconfortáveis que surgem ao pensarmos em situações do passado, situações futuras e outros pensamentos quaisquer. Isso nos coloca em um estado profundo de aceitação. Nesse estado de paz interior nossa sabedoria aumenta e sabemos de uma forma intuitiva se é possível agir, e caso seja possível, a melhor ação a ser tomada.
(André Lima)
domingo, 10 de março de 2013
AMORES E CLAMORES DA CIDADE

Desde a minha juventude, lembro que a defesa da Justiça e da democracia se interpôs na minha caminhada. É por isso, com certeza, que escolhi a profissão que exerço: ser advogado. Sei que a palavra e o seu significado me seduzem até a exaustão, e que a ética e os valores supremos da beleza estão na raiz do meu equilíbrio psíquico, mas sem a busca incessante da Justiça sei também que não faz sentido viver.
Sempre me aproximei daqueles que defendem esses valores, que lutam pela afirmação da cultura popular, que clamam no deserto contra a injustiça e a perversão do capital, que sabem palmilhar seus caminhos, instalando neles a iluminação, sem nunca reclamar a busca do tempo que se foi.
A afirmação da cultura, para a minha visão pessoal, não está nas Universidades, tampouco nas Academias, esses nichos de petulância e de quase nenhuma produção, mas naqueles que fazem a cultura prosperar, em todos os quadrantes do mundo e especialmente no sertão.
Os grandes produtores de cultura do Ceará não estão somente em Fortaleza, como pensavam, até bem pouco tempo, os pesquisadores eruditos, mas em toda extensão da terra de Alencar. Patativa do Assaré, Dideus Sales, Oswald Barroso e Gilmar de Carvalho conhecem o Ceará e suas tradições muito mais do que os poetas que mourejam no Ideal; ou muito mais do que os eruditos que estudam a extensão da sua ignorância nos corredores do Benfica.
Júnior Bonfim, poeta e pastor de estrelas nas margens do Poty, com banca de advogado em Fortaleza, é um dos nomes da cultura cearense que resplende em todo o Ceará. Sabe os ofícios da Justiça e da reparação da Igualdade, o alfabeto da Ética e os inventários máximos que se plantam nos rios da cultura.
É poeta de vários instrumentos, viajante lírico dos melhores e arauto de uma épica que se quer, a qualquer custo, incrustada em nossos corações. A emoção se coloca no centro das suas preocupações. O tecido amoroso o envolve. E a poesia por ele praticada é toda ela uma imensa jitirana de luz, brilhando entre veredas de sol, iluminando os cafundós do nosso empedernido sertão.
E para além de poeta e de autor de livro de poemas que se impõe aos ofícios da leitura, Júnior Bonfim é produtor de cultura que não para nunca de criar. Exemplo desse seu desassombro de esteta é o seu livro de crônicas e ensaios Amores e Clamores da Cidade (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2008), que agora tive o privilégio de reler.
Trata-se de uma radiografia e de um inventário de amores (e de clamores) da cidade que o viu nascer, em que se mesclam personagens e cenários, e paisagens e fulgores de um estilo de vida que se quer, também, fazer representar, tamanha a verossimilhança dos afetos e o recorte à clef dos atores com os quais o escritor Júnior Bonfim interage.
Não me vou alongar nesta exposição. Digo tão somente que Júnior Bonfim para mim é irmão, porque preza o Direito, sabe defender a Justiça e sustentar a Ética do desejo pela urbe, como se o tecido das relações urbanas fosse a morada do ser e a reprodução da cena social.
(Dimas Macedo, Poeta, jurista, historiador e crítico literário.Professor da Universidade Federal do Ceará, membro da Academia Cearense de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste)
quinta-feira, 7 de março de 2013
UMA PROSA PARA UMA ROSA
No final da Rua Cel. Giló avista-se o solitário Casarão dos Morais. Na sala de estar, repleta de quadros, exibem-se os vultos que outrora se abancavam na calçada para uma genuína prosa sobre o imponderável tempo arrematando as conclusões da vida. Hoje, estamparam-se nas paredes, numa saudosa galeria mnemônica. As janelas abertas, de par em par, observam atentamente os inquietos transeuntes que passam rumo ao Bairro dos Venâncio. Havia, até recentemente, mais o que se ver, porém o impiedoso tempo corroeu a robustez das coisas e as volúveis lembranças. Um frondoso Flamboyant, fincado em frente à senhorial casa, é testemunha daquelas fulgurantes eras.Às vezes o intempestivo rio, que passa ali em frente, ilhava o casarão. Irrequietos remos de canoas, num esforço hercúleo, trabalhavam para ir de uma margem a outra. A meninada, em algazarra, fazia estripulias nos banhos do Poti. De quando em quando, o intermitente fluído aquoso, esquecia-se de voltar. As forças da natureza, que fazem desaguar as providenciais chuvas, se afastavam do sertão. O verão, outra vez doloridamente infecundo, estica o mês de abril destroçando as esperanças de um ser que teima em sobreviver, que insiste na agreste ilusão. Naqueles tórridos dias o homem do campo veste um aviltante gibão do inaceitável padecer. Tudo perdido, esgotada as provisões, a fome é um ranger de dentes nas mirradas carne dos filhos pequeninos e o único apelo é campear um minguado auxílio nas cidades. Até a insensível caatinga agoniza no aspecto desolador, árvores sem folhas, galhos estorcidos e secos afeito a dolorosa paisagem que concebe a tristezas dos ermos.
Assim, transcorrem pesarosos os ressequidos meses de 1951. Como Portinari a pintar “Os Retirantes”, uma solene senhora, debaixo de um imenso chapéu abriga-se de um sol escaldante, exibe paleta e pincel nas mãos a tingir um quadro sobre um cavalete. Bem próximo, no leito do Rio Poti, os retirantes montaram imensas latadas de moitas de mufumbo, onde diversas famílias de maltrapilhos sertanejos descansam, após uma manhã de suplicantes esmolas campeadas pelo centro da cidade. Enquanto a jovem Rosa Morais imprime aquele momento histórico na oleosa tela intitulada “Realidade Nordestina” recorda-se de outros momentos marcantes de sua vida. Foi em outra grande seca, a de 21, mal completara 4 anos de ingenuidade infantil e já se deslumbra com as belezas da natureza nas margens do Poti. Vendo o exemplo dos retirantes experimenta o frutinho verde de jaramataia, atitude que lhe custa a boa saúde, mesmo com tanto purga de leite que sua mãe lhe obrigara a beber.
Fora as graves consequências do envenenamento pelo fruto silvestre, a jovem Rosa Morais é uma pessoa temperada na disposição de fazer, na vontade aprender e, principalmente, na vigorosa fé pela busca da vida. Transporta uma considerável cultura, aprendida de forma quase autodidata, como uma mestra de si mesmo em constante evolução, num sábio fluir, mas os pés na realidade. Mal termina o 3º Ano Primário no Colégio Lourenço Filho, passa no concurso para professora do Estado indo substituir uma professora na cidade de Novo Oriente.
Recorda-se de quando o senhor Agostinho Teixeira, da fazenda campestre, chama os dois netos, e ordena: - Oh, Antônio Cândido, chame o Raimundinho, selem três cavalos e vão buscar a professora Rosa, na cidade de Novo Oriente. Ela vem passar o fim de semana com a gente. Os meninos vão satisfeitos, pois têm a meiga Rosa como uma querida irmã. Na volta, a professora, sentada de lado numa sela especial, conversa amenidades com os rapazes, relata seus acontecimentos na terra da Lagoa do Tigre, aponta displicente para um carcará na copa de uma aroeira a vigiar a solidão do sertão e pergunta o que os meninos fizeram na semana.
Uma de suas amigas, com ciúmes, até afirmara: - A Rosa, agora, só quer saber dos Teixeiras!
Mas amizade é um amor que nunca morre! O jovial Antônio Cândido, espirito brincalhão, confiante na lealdade da companheira, se faz até de confidente ao contar que noivara em Ipueiras e socorria-se com ela nos momentos de apertos: - Rosa, você tem um dinheirinho aí? Mas não diga a Joaninha, que depois eu lhe pago! Sabia que ele gostava de se entreter numa mesa de bilhar. Já o Raimundo era mais pacato, concentrado, e já caprichara ao escrever o discurso que ele iria pronunciar na posse de Presidente da Congregação Mariana, na cidade de Sobral e com certeza Dom José Tupinambá estaria na plateia! Nunca entendeu direito porque seu grande amigo Raimundinho se afastara de sua companhia, só desconfia, pois tudo aconteceu depois que ele conheceu a professora Delite. Não viam a hora de chegar logo na cidade para, a noitinha, ir a praça da Matriz e ficar ouvir a banda tocar no coreto.
Imensa é sua gratidão ao professor Luiz Bezerra, pois o mesmo a obrigou aceitar um convite para ensinar desenho na Escola Normal. Na apreensão pela missão imposta, ele a tranquiliza: - Rosa, mesmo faltando um semestre para você se diplomar, sei que és capaz e dará conta, até vai lhe ajuda no pagamento da mensalidade! Desta experiência, ao longo dos anos, foram surgindo as 42 belas obras que compõem o tema “Natureza e Arte” a maioria das telas com perspectivas nordestinas que estão espalhadas pelo mundo.
Lecionava pela manhã, estudava a tarde e à noite, na luz do lampião, fazia florzinhas de fécula de batata, de papel, de couro, de parafina, enfeites de velas de primeira comunhão para adquirir dinheiro e pagar a escola. Concorrido foi o Curso de pintura, que montou na Escola Normal, entre os alunos tinha um padre francês, chamado João, que pincelava os quadros como se fosse uma oração.
Outro amigo que a digníssima professora Rosa Morais recorda com carinho é do Pe. Moacir, que planejou sua entrada para a Congregação Religiosa das Josefinas. A irmã Rosita permitiu que ela passasse 17 dias internada, para pensar e se avaliar. Rosa afirma: – Eu rezei muito para o Senhor mostrar minha vocação. Tive vontade, mas me faltou aptidão para usar o habito das freiras. Não sabia o que fazer, nunca usei batom, nem esmaltes nas unhas. Eu sou eu mesma, sempre me pertenci! Não fiquei na irmandade, mas também não tive coragem de casar! Apareceu um rapaz, era um ex-seminarista e eu lhe disse que ele foi bobo, por ter jogado os pés no Senhor.
Rosa sempre esteve em contado com os padres, inclusive o irmão, Francisco Ferreira de Morais que foi um deles, na cidade do Ipu. Do Pe. Bonfim, em Crateús, lembra-se do temperamento explosivo e de quando surgia um probleminha no colégio, onde ensinou por 37 anos, ela mesma tentava resolver, com ajuda do Senhor Expedito Paiva, antes de o levar ao conhecimento do duro Monsenhor. No famoso colégio da Firmino Rosa exerceu mais um dos seus dotes artísticos, o poético, é a autora do belo hino que glorifica o Colégio Pio XII.
Hoje, o velho casarão dos Morais tem um ar nostálgico, que transparece no olhar das
Janelas abertas ao horizonte, mirrando a calha seca do rio. E na sala de estar, Dona Rosa repousa de uma longa batalha para educar gerações de crateuenses, assistindo uma destas emissoras católicas de TV. Nem imagina que nesta sexta-feira, dia 8 de Março, receberá uma homenagem, que pouquíssimas pessoas no mundo tiveram a honra de receber, uma Benção Papal, assinada pelo punho do próprio Bento XVI, antes de renunciar. Sem falar que já se prepara a grande festa para o dia 26 de outubro quando completará 100 anos de admirável existência. A professora Rosa Morais, com tantos motivos para ser feliz, sendo a própria dona da felicidade autêntica, ainda ganha mais uma longeva e poética satisfação: vida cônscia! Obrigado, Mestra!
Raimundo Cândido
quarta-feira, 6 de março de 2013
CONJUNTURA NACIONAL
Enxergando tudo verde
Os cientistas envolvidos com o estudo da agropecuária garantem que o gado bovino somente visualiza uma cor, a escura. Mas o fazendeiro (falecido) Honorim Medeiros, da Fazenda Pedra do Sino, em Caicó, não foi na conversa e, com o respaldo do seu próprio rebanho, jogou por terra a tese dos doutores em zootecnia. Foi na seca dos anos 50. Exauridos todos os recursos de pastagem, o gado rejeitava os restos do capim seco, duro, esturricado, preferindo apenas a torta de algodão, verdinha, fresquinha, ótimo sabor. Honorim vivia preocupadíssimo, aperreado, sem mais saber o que fazer:
- Tô lascado, desse jeito vou alisar!
Matutou, matutou, e, criativo, bolou a ideia genial. Foi até a Paribana, casa comercial do amigo Antonio da Viola e fez uma inflacionada compra, deixando o comerciante boquiaberto:
- Tem óculos de carnaval? Pois então me dá todo o estoque, todos da cor verde (antigamente, eram comuns os óculos de plástico, com alças de elásticos, usados exclusivamente no período momesco).
O fazendeiro levou-os para a Pedra do Sino e fantasiou o rebanho. Na volta à cidade, o amigo quer saber dos resultados:
- Como é Honorim, deu certo?
O fazendeiro abriu um sorriso de orelha a orelha e deu a nova:
- Mas, home, é um milagre. O gado tá comendo até as cercas e os mourões das porteiras!
(Quem conta em Segura Essa é Orlando Rodrigues)
O diabo se prepara
A presidente Dilma começa a lubrificar as armas do seu arsenal. A partir da linguagem, equipamento pesado em uma campanha. Nesta semana, na Paraíba, deu mostras de que vai atirar forte: "podemos fazer o diabo na hora da eleição, mas, no exercício do mandato, temos que nos respeitar, pois fomos eleitos pelo voto direto". A presidente, mesmo sem querer usar a linguagem de campanha, na verdade já está disparando chumbo grosso. O alvo é Aécio Neves, o tucano que começa a atirar no governo, com estilhaços atingindo Eduardo Campos, o governador pernambucano que, por enquanto, permanece na base governista. O verbo mais popular de Dilma é inspirado na verve de Lula.
Eliot
"Somente aqueles que se arriscam ir longe são capazes de saber até onde podem chegar". T.S. Eliot
Danos ao país
A campanha antecipada ocasionará sérios danos ao país, pois as agendas serão embasadas pelo espírito eleitoral. Prioridades se invertem. As ações governativas são atropeladas pelo marketing eleitoreiro. Dos quatro eventuais candidatos, apenas a ambientalista ex-senadora Marina Silva está mais contida. Aécio começa a despejar suas baterias. Eduardo Campos bate forte na tecla do pequeno crescimento e acena para os sindicalistas. E a presidente Dilma começa a correr o país. Sob o empuxo do comandante Luiz Inácio.
Vinícius
"A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida...". "Viver é Amar". "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure". Vinicius de Moraes, o poetinha.
É muito cedo, porém...
É muito cedo para desenhar cenários. Mas nada impede que tentemos uma expressão sobre potenciais de eventuais candidaturas. É pouco provável a aliança entre Aécio Neves e Eduardo Campos, como muitos defendem. Entre esses muitos, estão tucanos interessados em colocar o governador de PE na chapa do mineiro, como vice, e oposicionistas que sonham em destronar o petismo/Lula/Dilma do poder central. Pois bem, é pouco provável uma aliança entre ambos. Porque já fizeram as contas e chegaram à conclusão de que, separados, terão melhores condições de empurrar a eleição para o segundo turno. Os dois e mais os votos de Marina Silva poderiam tirar a vitória do governismo no primeiro turno.
Millôr
A palavra bem humorada de Millôr Fernandes: "o preço da fidelidade é a eterna vigilância". "O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima". "Eu sei do que estou falando. Tirando isso, não sei mais nada". "O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro". "Às vezes, você está discutindo com um imbecil... e ele também". "O Brasil? Ah, está condenado à esperança".
Fatores de cada um
Dilma contará com o fortalecimento dos bolsões sociais (garantia de estômago satisfeito) e melhoria nos patamares de crescimento. Algo em torno de 3% a 3,5% de crescimento em 2013/14 seria suficiente para garantir a continuidade. Enquanto a equação do voto for garantida (bolso, estômago, coração, cabeça), a posição de nossa mandatária-mor não será ameaçada. Aécio Neves seria elevado em cenário de destroço econômico, significando crescimento zero, desemprego em massa, inflação em alta, clima de instabilidade geral. Ademais, carece de um discurso convincente, denso, capaz de mobilizar e animar os contingentes eleitorais. Se ficar apenas no diagnóstico - coisa comum entre os tucanos - ficará defasado. Deve ainda ter cuidado com a artilharia de críticas que baterá nos costados pessoais.
O novo, o charmoso
Eduardo Campos apresenta grande potencial de crescimento. Principalmente se ganhar bom espaço midiático, a partir das alianças. Quem o conhece sabe que não encarna o perfil da inovação, da modernidade (trata-se de um herdeiro do coronel Arraes), mas, pela boa apresentação pessoal, pode vir a ser considerado o de maior assepsia política. O fato de não ser conhecido garantirá boa penetração e avaliação junto a segmentos mais jovens. Mas o PSB não tem palanques abertos no Sudeste e no Sul, regiões de alta densidade eleitoral. Por isso mesmo, procurará se ancorar na fosforescência midiática. Claro, em cenário de baixo crescimento e deterioração econômica. Já Marina Silva terá um eleitorado fiel, mais orgânico e com apoio em setores bem organizados nas frentes sociais. Encarnará o conceito de renovação/depuração.
Chico
"Saudade é o revés de um parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Chico Buarque nos brinda com Saudade, palavra que só a beleza poética da língua portuguesa conhece.
O sindicalismo de oportunidades
Nunca o sindicalismo brasileiro ganhou tanta oportunidade para se expandir e fortalecer quanto nesses tempos comandados pelo PT. Pois bem, o petismo fez subir às alturas não apenas a bandeira da CUT, mas as flâmulas de todas as Centrais. Que recebem uma fortuna para fazer pressão (causar má impressão), barganhar e ganhar espaços na administração federal. Vamos lá : o sindicalismo tomou conta da área do trabalho. É quem dá as cartas. Mas se mostra frequentemente contra o governo do qual faz parte. Ou seja, faz oposição a ele mesmo. Jogo inteligente, não? (Quem não se lembra do Lula presidente reverberando contra o governo que ele mesmo comandava?)
Bandeiras sindicais
O que defendem as Centrais Sindicais ? Algumas questões são bastante concretas : redução da jornada de trabalho, fim do fator previdenciário, reforma agrária (apesar da polêmica e divisões de abordagens que o tema sugere), ratificação da Convenção da OIT que impede demissão imotivada e regulamentação de outra Convenção que estabelece negociação coletiva no serviço público. Outras propostas descambam para o terreno do discurso mais abrangente, distanciando-se de posições fechadas, como igualdade de oportunidades para homens e mulheres, valorização dos aposentados, etc.
E o ministério, hein?
Veja-se o Ministério do Trabalho. Foi entregue ao deputado Brizola Neto, um bom perfil, do PDT gaúcho, endossado pela Força Sindical, comandada pelo deputado Paulinho (PDT/SP). O PDT é um partido rachado. O comando é do ex-ministro Carlos Lupi. Brizola quer apagar os vestígios por ele deixados na pasta. Lupi, que faz parte da base governista, tenta resistir. O sindicalismo organiza grande passeata em Brasília para pressionar o governo. O PDT ameaça uma greve geral nos portos. Tudo por conta da MP que cassa a autonomia dos Estados em relação aos portos, tirando o poder do Órgão Gestor de Mão de Obra, enquanto os sindicalistas defendem a continuidade dessa autonomia. Tal prerrogativa passaria a ser da União.
Campos na jogada
Eduardo Campos entra nessa onda e defende a autonomia estadual. Paulinho da Força, que integra a base governista, alia-se ao governador de PE, e atira forte contra o governo. O samba do crioulo doido se completa quando se sabe que o ministro dos Portos, Leônidas Cristino, pertence aos quadros do PSB, tendo sido indicado pelos irmãos Gomes (Cid e Ciro), do CE. E assim caminha o Brasil...!
PMDB e PT nos Estados
PMDB e PT intentam apresentar candidatos ao governo em todos os Estados da Federação. Essa é a estratégia de adensamento do poder. Mais governadores implicarão mais deputados Federais, mais senadores, mais prefeitos e vereadores. Alongamento do ciclo do poder partidário. Mas é possível que, em alguns Estados, haja recuo de um e de outro parceiro para amparar a aliança.
No Rio
Pezão, pelo PMDB, e Lindberg, pelo PT, irão às urnas. Sem chance de parceria PT/PMDB. O PMDB do Rio ameaça não apoiar Dilma. Este consultor não crê na hipótese de Cabral vir a apoiar Aécio Neves.
No RS
Diz-se que Tarso Genro, o governador, quer ser candidato a senador. Não quer administrar um Estado sem recursos. A senadora do PP, Ana Amélia, é forte candidata ao governo. Beto Albuquerque, o líder do PSB de Eduardo Campos, também é candidato.
Em SC
Raimundo Colombo, do PSD de Kassab, é candidato à reeleição. Os tucanos deverão ir com o senador Paulo Bauer, enquanto Ângela Amin será candidata ao Senado.
Em MG
O PT deverá fechar posição em torno do ministro Fernando Pimentel, enquanto Clésio Andrade tentará ser o candidato do PMDB. Newton Cardoso, o deputado e ex-governador, será candidato ao Senado pelo PMDB.
Em PE
Todos apostam na ficha do ministro Fernando Bezerra, como candidato do governador Eduardo Campos.
No RN
Uma incógnita: o senador Garibaldi Alves, muito bem avaliado como ministro, toparia voltar ao governo? Este consultor acredita que não. E o seu filho, Walter Alves, deputado estadual? Já tem idade para ser candidato (32 anos), mas aconselham-no a pegar mais experiência. E o presidente da Câmara, Henrique Alves? Mais uma incógnita.
Garrote e garoto
Voz melosa como poucos, o professor Gumercindo Amorim era mestre em português, lecionando nas escolas em Currais Novos, onde gozava de grande prestígio. Como locutor de rádio, na Brejuí, vez ou outra escorregava :
- Atenção, garrote perdido. Procura-se um garrote trajando calça curta azul marinho, camisa de algodão, branca, conga azul com meias brancas, cabelo busca pé, aproximadamente 10 anos de idade. Quem souber do paradeiro, favor informar aqui na Brejuí ou na residência dos pais do mesmo na Avenida Desembargador Tomaz Salustino, que será bem gratificado.
O sonoplasta, que também redigia os avisos para a leitura dos locutores, percebeu o trocadilho e sinalizou. Sem perder a compostura, eis de novo Gumercindo:
- Mais uma vez, atenção. Retificando o aviso lido há pouco. Onde se lê garrote, leia-se ga-ro-to!
(Essa é também de Orlando Rodrigues)
Conselho às Centrais Sindicais
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos aos gurus do PT, Lula, e do PSDB, FHC. Hoje, dedica sua atenção às Centrais Sindicais :
1. O movimento sindicalista faz parte de uma sociedade democrática. Mas o sindicalismo não pode e não deve dormir eternamente nos cobertores do Estado.
2. É importante saber o que reivindicar, o que defender, o que propor. É irresponsável defender uma agenda que não condiz com as sensíveis economias da contemporaneidade.
3. É preciso saber recuar e não apenas fustigar as instituições. O mundo atual cultiva os valores da racionalidade, flexibilidade, diálogo, contemporização, respeito à ordem constituída. Tentem zelar por este escopo.
____________
(Gaudêncio Torquato)
Os cientistas envolvidos com o estudo da agropecuária garantem que o gado bovino somente visualiza uma cor, a escura. Mas o fazendeiro (falecido) Honorim Medeiros, da Fazenda Pedra do Sino, em Caicó, não foi na conversa e, com o respaldo do seu próprio rebanho, jogou por terra a tese dos doutores em zootecnia. Foi na seca dos anos 50. Exauridos todos os recursos de pastagem, o gado rejeitava os restos do capim seco, duro, esturricado, preferindo apenas a torta de algodão, verdinha, fresquinha, ótimo sabor. Honorim vivia preocupadíssimo, aperreado, sem mais saber o que fazer:
- Tô lascado, desse jeito vou alisar!
Matutou, matutou, e, criativo, bolou a ideia genial. Foi até a Paribana, casa comercial do amigo Antonio da Viola e fez uma inflacionada compra, deixando o comerciante boquiaberto:
- Tem óculos de carnaval? Pois então me dá todo o estoque, todos da cor verde (antigamente, eram comuns os óculos de plástico, com alças de elásticos, usados exclusivamente no período momesco).
O fazendeiro levou-os para a Pedra do Sino e fantasiou o rebanho. Na volta à cidade, o amigo quer saber dos resultados:
- Como é Honorim, deu certo?
O fazendeiro abriu um sorriso de orelha a orelha e deu a nova:
- Mas, home, é um milagre. O gado tá comendo até as cercas e os mourões das porteiras!
(Quem conta em Segura Essa é Orlando Rodrigues)
O diabo se prepara
A presidente Dilma começa a lubrificar as armas do seu arsenal. A partir da linguagem, equipamento pesado em uma campanha. Nesta semana, na Paraíba, deu mostras de que vai atirar forte: "podemos fazer o diabo na hora da eleição, mas, no exercício do mandato, temos que nos respeitar, pois fomos eleitos pelo voto direto". A presidente, mesmo sem querer usar a linguagem de campanha, na verdade já está disparando chumbo grosso. O alvo é Aécio Neves, o tucano que começa a atirar no governo, com estilhaços atingindo Eduardo Campos, o governador pernambucano que, por enquanto, permanece na base governista. O verbo mais popular de Dilma é inspirado na verve de Lula.
Eliot
"Somente aqueles que se arriscam ir longe são capazes de saber até onde podem chegar". T.S. Eliot
Danos ao país
A campanha antecipada ocasionará sérios danos ao país, pois as agendas serão embasadas pelo espírito eleitoral. Prioridades se invertem. As ações governativas são atropeladas pelo marketing eleitoreiro. Dos quatro eventuais candidatos, apenas a ambientalista ex-senadora Marina Silva está mais contida. Aécio começa a despejar suas baterias. Eduardo Campos bate forte na tecla do pequeno crescimento e acena para os sindicalistas. E a presidente Dilma começa a correr o país. Sob o empuxo do comandante Luiz Inácio.
Vinícius
"A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida...". "Viver é Amar". "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure". Vinicius de Moraes, o poetinha.
É muito cedo, porém...
É muito cedo para desenhar cenários. Mas nada impede que tentemos uma expressão sobre potenciais de eventuais candidaturas. É pouco provável a aliança entre Aécio Neves e Eduardo Campos, como muitos defendem. Entre esses muitos, estão tucanos interessados em colocar o governador de PE na chapa do mineiro, como vice, e oposicionistas que sonham em destronar o petismo/Lula/Dilma do poder central. Pois bem, é pouco provável uma aliança entre ambos. Porque já fizeram as contas e chegaram à conclusão de que, separados, terão melhores condições de empurrar a eleição para o segundo turno. Os dois e mais os votos de Marina Silva poderiam tirar a vitória do governismo no primeiro turno.
Millôr
A palavra bem humorada de Millôr Fernandes: "o preço da fidelidade é a eterna vigilância". "O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima". "Eu sei do que estou falando. Tirando isso, não sei mais nada". "O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro". "Às vezes, você está discutindo com um imbecil... e ele também". "O Brasil? Ah, está condenado à esperança".
Fatores de cada um
Dilma contará com o fortalecimento dos bolsões sociais (garantia de estômago satisfeito) e melhoria nos patamares de crescimento. Algo em torno de 3% a 3,5% de crescimento em 2013/14 seria suficiente para garantir a continuidade. Enquanto a equação do voto for garantida (bolso, estômago, coração, cabeça), a posição de nossa mandatária-mor não será ameaçada. Aécio Neves seria elevado em cenário de destroço econômico, significando crescimento zero, desemprego em massa, inflação em alta, clima de instabilidade geral. Ademais, carece de um discurso convincente, denso, capaz de mobilizar e animar os contingentes eleitorais. Se ficar apenas no diagnóstico - coisa comum entre os tucanos - ficará defasado. Deve ainda ter cuidado com a artilharia de críticas que baterá nos costados pessoais.
O novo, o charmoso
Eduardo Campos apresenta grande potencial de crescimento. Principalmente se ganhar bom espaço midiático, a partir das alianças. Quem o conhece sabe que não encarna o perfil da inovação, da modernidade (trata-se de um herdeiro do coronel Arraes), mas, pela boa apresentação pessoal, pode vir a ser considerado o de maior assepsia política. O fato de não ser conhecido garantirá boa penetração e avaliação junto a segmentos mais jovens. Mas o PSB não tem palanques abertos no Sudeste e no Sul, regiões de alta densidade eleitoral. Por isso mesmo, procurará se ancorar na fosforescência midiática. Claro, em cenário de baixo crescimento e deterioração econômica. Já Marina Silva terá um eleitorado fiel, mais orgânico e com apoio em setores bem organizados nas frentes sociais. Encarnará o conceito de renovação/depuração.
Chico
"Saudade é o revés de um parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Chico Buarque nos brinda com Saudade, palavra que só a beleza poética da língua portuguesa conhece.
O sindicalismo de oportunidades
Nunca o sindicalismo brasileiro ganhou tanta oportunidade para se expandir e fortalecer quanto nesses tempos comandados pelo PT. Pois bem, o petismo fez subir às alturas não apenas a bandeira da CUT, mas as flâmulas de todas as Centrais. Que recebem uma fortuna para fazer pressão (causar má impressão), barganhar e ganhar espaços na administração federal. Vamos lá : o sindicalismo tomou conta da área do trabalho. É quem dá as cartas. Mas se mostra frequentemente contra o governo do qual faz parte. Ou seja, faz oposição a ele mesmo. Jogo inteligente, não? (Quem não se lembra do Lula presidente reverberando contra o governo que ele mesmo comandava?)
Bandeiras sindicais
O que defendem as Centrais Sindicais ? Algumas questões são bastante concretas : redução da jornada de trabalho, fim do fator previdenciário, reforma agrária (apesar da polêmica e divisões de abordagens que o tema sugere), ratificação da Convenção da OIT que impede demissão imotivada e regulamentação de outra Convenção que estabelece negociação coletiva no serviço público. Outras propostas descambam para o terreno do discurso mais abrangente, distanciando-se de posições fechadas, como igualdade de oportunidades para homens e mulheres, valorização dos aposentados, etc.
E o ministério, hein?
Veja-se o Ministério do Trabalho. Foi entregue ao deputado Brizola Neto, um bom perfil, do PDT gaúcho, endossado pela Força Sindical, comandada pelo deputado Paulinho (PDT/SP). O PDT é um partido rachado. O comando é do ex-ministro Carlos Lupi. Brizola quer apagar os vestígios por ele deixados na pasta. Lupi, que faz parte da base governista, tenta resistir. O sindicalismo organiza grande passeata em Brasília para pressionar o governo. O PDT ameaça uma greve geral nos portos. Tudo por conta da MP que cassa a autonomia dos Estados em relação aos portos, tirando o poder do Órgão Gestor de Mão de Obra, enquanto os sindicalistas defendem a continuidade dessa autonomia. Tal prerrogativa passaria a ser da União.
Campos na jogada
Eduardo Campos entra nessa onda e defende a autonomia estadual. Paulinho da Força, que integra a base governista, alia-se ao governador de PE, e atira forte contra o governo. O samba do crioulo doido se completa quando se sabe que o ministro dos Portos, Leônidas Cristino, pertence aos quadros do PSB, tendo sido indicado pelos irmãos Gomes (Cid e Ciro), do CE. E assim caminha o Brasil...!
PMDB e PT nos Estados
PMDB e PT intentam apresentar candidatos ao governo em todos os Estados da Federação. Essa é a estratégia de adensamento do poder. Mais governadores implicarão mais deputados Federais, mais senadores, mais prefeitos e vereadores. Alongamento do ciclo do poder partidário. Mas é possível que, em alguns Estados, haja recuo de um e de outro parceiro para amparar a aliança.
No Rio
Pezão, pelo PMDB, e Lindberg, pelo PT, irão às urnas. Sem chance de parceria PT/PMDB. O PMDB do Rio ameaça não apoiar Dilma. Este consultor não crê na hipótese de Cabral vir a apoiar Aécio Neves.
No RS
Diz-se que Tarso Genro, o governador, quer ser candidato a senador. Não quer administrar um Estado sem recursos. A senadora do PP, Ana Amélia, é forte candidata ao governo. Beto Albuquerque, o líder do PSB de Eduardo Campos, também é candidato.
Em SC
Raimundo Colombo, do PSD de Kassab, é candidato à reeleição. Os tucanos deverão ir com o senador Paulo Bauer, enquanto Ângela Amin será candidata ao Senado.
Em MG
O PT deverá fechar posição em torno do ministro Fernando Pimentel, enquanto Clésio Andrade tentará ser o candidato do PMDB. Newton Cardoso, o deputado e ex-governador, será candidato ao Senado pelo PMDB.
Em PE
Todos apostam na ficha do ministro Fernando Bezerra, como candidato do governador Eduardo Campos.
No RN
Uma incógnita: o senador Garibaldi Alves, muito bem avaliado como ministro, toparia voltar ao governo? Este consultor acredita que não. E o seu filho, Walter Alves, deputado estadual? Já tem idade para ser candidato (32 anos), mas aconselham-no a pegar mais experiência. E o presidente da Câmara, Henrique Alves? Mais uma incógnita.
Garrote e garoto
Voz melosa como poucos, o professor Gumercindo Amorim era mestre em português, lecionando nas escolas em Currais Novos, onde gozava de grande prestígio. Como locutor de rádio, na Brejuí, vez ou outra escorregava :
- Atenção, garrote perdido. Procura-se um garrote trajando calça curta azul marinho, camisa de algodão, branca, conga azul com meias brancas, cabelo busca pé, aproximadamente 10 anos de idade. Quem souber do paradeiro, favor informar aqui na Brejuí ou na residência dos pais do mesmo na Avenida Desembargador Tomaz Salustino, que será bem gratificado.
O sonoplasta, que também redigia os avisos para a leitura dos locutores, percebeu o trocadilho e sinalizou. Sem perder a compostura, eis de novo Gumercindo:
- Mais uma vez, atenção. Retificando o aviso lido há pouco. Onde se lê garrote, leia-se ga-ro-to!
(Essa é também de Orlando Rodrigues)
Conselho às Centrais Sindicais
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos aos gurus do PT, Lula, e do PSDB, FHC. Hoje, dedica sua atenção às Centrais Sindicais :
1. O movimento sindicalista faz parte de uma sociedade democrática. Mas o sindicalismo não pode e não deve dormir eternamente nos cobertores do Estado.
2. É importante saber o que reivindicar, o que defender, o que propor. É irresponsável defender uma agenda que não condiz com as sensíveis economias da contemporaneidade.
3. É preciso saber recuar e não apenas fustigar as instituições. O mundo atual cultiva os valores da racionalidade, flexibilidade, diálogo, contemporização, respeito à ordem constituída. Tentem zelar por este escopo.
____________
(Gaudêncio Torquato)
terça-feira, 5 de março de 2013
POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL
O crescimento além do PIB
O resultado do PIB que apresentou um crescimento de apenas 0,9% em 2012 não reflete apenas a realidade objetiva no curto prazo. É direto, espelho de um país que se distancia de suas possibilidades, estas muito mais grandiosas. O problema não é o "estático" desempenho de um ano para o outro, mas a ausência de "dinâmica". O consumo também capenga porque, a despeito do elevado nível de emprego, a população se engalfinhou em dívidas caríssimas no tempo da euforia lulista. A indústria está visivelmente pouco competitiva – 21% dos produtos industriais são importados numa arena cambial onde a indústria local não pode prevalecer. Neste contexto, falta ao governo visão estratégica e à iniciativa privada a vontade política de agir em prol de seus interesses. Todos parecem letargicamente esperar que algo aconteça. Não acontecerá. Enquanto isso, o PIB pode subir 3,0% ou 4,0%, mas a realidade subjacente está sólida e não é nada boa.
Copom vai manter juros
Num cenário que combina atividade econômica débil e emprego positivo, o BC vai tecer a sua estratégia em relação à inflação extremamente elevada para um país que zela pela sua moeda. O primeiro ato do teatro da autoridade monetária já foi cumprido: Tombini e seus diretores vieram a público para dizer que estão presentes e que a situação será controlada. Foi um calculado (e combinado) jogo de palavras que esclareceu o mercado e alinhou expectativas dos agentes e do próprio governo (que andava meio ausente neste tema). Agora começa a chegar o momento em que o BC terá de passar da prosa para a ação. Todavia, com o PIB lá embaixo e os indicadores de atividade ainda incipientes (no que tange ao crescimento) é provável que tudo fique como está para ver como é que fica. Depois desta próxima reunião do Copom é possível uma alta de juros porque palavras, como se sabe, não movem montanhas (ops!), não reduzem inflação.
Perguntas sem respostas
Digamos que o PIB deste ano não seja nem 3,0% e muito menos 4,0%. Seja apenas algo entre 1,0% e 2,0%. O que fará a presidente Dilma: removerá a equipe econômica que segue cegamente suas recomendações? Quem viria a substituí-la?
Mantega e a guerra cambial
O ministro Guido Mantega tem sido um exemplar alferes na retórica na qual prega contra a "guerra cambial" que os países centrais (liderados pelos EUA) estariam fazendo contra os emergentes. O Brasil neste tema tem sido o mais loquaz dentre os emergentes – repetiu a dose na última reunião do G-20 em Moscou. A China já pregou há dois anos com mais ênfase em favor da tese da "guerra cambial". Hoje, tem sido mais discreta e prefere cuidar dos vastos interesses cambiais, enquanto o Brasil se consolida como um país exportador de commodities. Em meio a toda esta retórica, Mantega acumula uma contradição substantiva frente ao largo esforço que faz alhures: está fortalecendo o real para manter a inflação baixa. Difícil sustentar argumentos contra os países ricos desta forma.
O preço das bravatas
O governo tem feito um esforço interno e externo – principalmente externo com as caravanas para atrair investidores nos Estados Unidos sob a batuta do ministro Guido Mantega e à Europa pela palavra da ministra Gleisi Hoffmann – na tentativa de convencer possíveis parceiros de que o Brasil é um porto seguro para quem quer fazer negócios. Não tem sido tão bem sucedido em sua logorréia tanto quanto esperava. Os empresários que ouviram Dilma quarta-feira no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, se publicamente saíram sorridentes, no fundo mantiveram suas reversas.
O preço das bravatas - II
Lá fora, Mantega e Gleisi também tiveram recepção simpática, mas as perguntas com que eles e outros expositores brasileiros foram bombardeados indicam que o clima de desconfiança e temor permanece vivo. A razão é muito simples: (1) contradições no discurso oficial, (2) certo irrealismo nas análises dos fatos reais da economia nacional e (3) algumas bravatas de governistas e aliados no âmbito interno. O que forma um caldo bem chacrianiano (de Abelardo "Chacrinha" Barbosa: aquele que não explica (ou convence), confunde). No primeiro caso, ainda não foram bem deglutidas, por exemplo, as divergências de ênfase entre o BC e o Ministério da Fazenda em relação à política de juros e à política cambial. Ou, ainda, a respeito da manutenção ou não do tripé macroeconômico que sustentou a economia brasileira desde a última fase do governo FHC até o fim do mandato de Lula antes da eclosão da crise em 2008.
O preço das bravatas - III
Questões como a confusão provocada pelas mudanças no setor elétrico também pesam nessas análises. O ministro Guido Mantega, na sexta-feira depois da divulgação do PIB de 0,9% em 2012, voltou a dizer que a economia do Brasil sofreu este novo baque por conta da crise externa (sem considerar que vários emergentes foram poupados, em grande medida, dela) e que o país este ano vai crescer 4%, o que nem o BC, por sua última projeção, parece acreditar possível. Tais procedimentos levam os analistas a desconfiar que a equipe econômica nacional não está com um diagnóstico correto da situação e, portanto, não sabe como agir. Ou que quer engambelar o distinto público. É por essas e outras que o prestigioso Financial Times classificou Mantega como um "vaticinador".
O preço das bravatas - IV
As bravatas são aquelas coisas que os governantes e seus partidos dizem apenas para agradar seu público interno, sem intenções (ou condições) de cumpri-las de fato. Por aqui, não são levadas tão a sério, mas para o estrangeiro, não tão acostumado a certas nuances da brasilidade política, é para valer. Há ainda uma quarta vertente desse estilo: o que se poderia chamar de "Lei de Gerson do setor público" : uma tentativa de levar vantagem em tudo. Isto é visível na atual safra de concessões de serviço público em preparação. Praticamente todos os programas inicialmente preparados para os setores de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos já foram alterados, para melhorar as ofertas feitas aos possíveis concorrentes. O governo Dilma parece estar necessitando urgentemente, além de um choque gerencial, de um choque de realidade.
Hora da verdade para o BNDES
Anuncia-se que o governo, nos próximos dias, por exigência do TCU, vai divulgar documento o qual torna público os subsídios implícitos nos repasses do Tesouro Nacional para o BNDES. Foram R$ 250 bi desde 2008, captados ao custo da Taxa Selic e emprestados pela TJLP, de taxas menores. Essa diferença não está registrada ainda nas contas públicas. Pode ser o início da hora da verdade financeira também para o BNDES. Os problemas da política de liberalidade e de escolha de "campeões nacionais" do banco já começaram a aparecer. O lucro da instituição caiu 9,55% no ano passado ante 2011. Teria sido ainda pior – de mais de 30% - se o Conselho Monetário Nacional (CMN) não tivesse autorizado a instituição a contabilizar diferentemente de outros bancos, o valor das ações de alguns de seus investimentos em empresas mais complicadas. Já se analisa a possibilidade de o Tesouro injetar mais R$ 8 bi no banco.
Como no Soneto da fidelidade?
Quem acompanhou as juras de amor trocadas na semana passada entre a presidente Dilma Rousseff (coadjuvada pelo ex-presidente Lula e o PT) e o PMDB e, ao mesmo tempo, conhece o temperamento da presidente, o pragmatismo de Lula, o apetite do PT e as rusgas às vezes nada discretas entre os dois partidos, logo se lembra dos últimos versos de um dos poemas mais citados de Vinicius de Morais:
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Como no Soneto da fidelidade? - II
Uma parcela do PMDB já saiu das festas de núpcias com uma caraminhola na cabeça : apesar de todos os elogios de Dilma e Lula ao PMDB e as referências a Temer, nenhum dos dois ousou confirmar o presidente do PMDB como parceiro (vice, entenda-se) na chapa reeleitoral da presidente. Alegou-se que a não referência direta foi para evitar complicações com a legislação. Ora, desde quando a Justiça Eleitoral é respeitada nesse universo ? Ou não foi Lula quem falou da candidatura de Dilma na festa do PT semana retrasada em SP ? A solidez dessas núpcias será testada logo. Hoje, por iniciativa dos peemedebistas presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, será votado pelo Congresso Nacional o veto presidencial à lei com a nova divisão dos royalties do petróleo. O Palácio do Planalto não queria esta votação agora, pois sabe o poder explosivo que a derrubada do veto pode ter. E se houver votação, o veto cai. Pode rachar a unidade do PMDB e a unidade do partido em torno da presidente.
Como no Soneto da fidelidade? - III
É esperado para esta semana também o início da reforma (ou ajuste, como prefere o governo) ministerial imaginada pela presidente. O PMDB quer recompensas por serviços já prestados e por outros serviços que deverá prestar no Congresso. Parece certo já que a seção do partido em MG vai ganhar o Ministério dos Transportes. O PMDB, porém, quer mais, quer mais "cartórios eleitorais", ou seja, postos que ajudem o partido a conquistar votos. Os peemedebistas costumam dizer que os ministérios que eles têm hoje "não elegem nem ao menos um vereador".
Verdade histórica
Ao contrário do que andam dizendo alguns e escrevendo outros, não foi o ex-presidente Lula o autor do lançamento da recandidatura da presidente Dilma Rousseff. Lula apenas avalizou o que já era fato. Foi a própria Dilma que se lançou, de forma muito pouco subliminar em seu último pronunciamento oficial em rede de rádio e televisão. Lula foi a reboque, com gosto ou sem gosto. Tudo para evitar que Lula crescesse no vácuo da ausência de declarações da presidente.
Uma nova Dilma?
Os afagos públicos da presidente Dilma ao PMDB e suas conversas com outros aliados estariam indicando que a presidente Dilma, mesmo sob o risco de desenvolver algumas urticárias, está mais afável aos contatos políticos, sua mais evidente dificuldade na chefia do governo. Talvez não seja sem tempo. O mundo da política não tem a presidente na mesma conta dos eleitores, que dão a ela quase 80% de popularidade no momento. Duas pesquisas recentes realizadas em Brasília indicam que com os deputados e senadores o prestígio da presidente é menor e está em queda. A consultoria Arko Advice constatou que a aceitação de Dilma caiu de 54,7%, em 2011, para 45,8% em 2012. Com 220 entrevistas, a FSB Tracking registrou que a nota dada pelos parlamentares à relação entre o governo Federal e o Congresso caiu de 5,9, em maio de 2011, para 4,4 em dezembro de 2012. Curioso é que a base parlamentar de Dilma conta com 80% dos parlamentares. Como a eleição já está no ar e deputados e senadores só pensam na reeleição, Dilma terá de ser um pouco mais generosa com seus aliados se não quiser colher dissabores.
Troféu político
Se no Brasil houvesse um troféu para o maior "cara de pau" da política dificilmente em 2013 ele escaparia das mãos do senador Renan Calheiros. Qualquer outro pretendente terá de fazer muito esforço para bater o senador alagoano. E olha que neste país não faltam bons candidatos a este privilegiado título.
Desembarque
É cada vez mais visível: Lula e o PT estão a cada dia um pouco mais distantes dos companheiros mensaleiros. Solidariedade sim, morrer pela causa, jamais.
Agora, os projetos
A oposição, com o PSDB, e, ainda na surdina, com Eduardo Campos, assanhou-se com o precipitado lançamento da recandidatura de Dilma Rousseff e está com o flanco adversário aberto para críticas e provocações. Mas, precisa ir além das críticas, como as que Aécio Neves tem feito nos últimos dias, tem de mostrar o que vai fazer para corrigir os erros que aponta. Discurso por discurso, ninguém bate Lula.
(José Márcio Mendonça e Francisco Petros)
O resultado do PIB que apresentou um crescimento de apenas 0,9% em 2012 não reflete apenas a realidade objetiva no curto prazo. É direto, espelho de um país que se distancia de suas possibilidades, estas muito mais grandiosas. O problema não é o "estático" desempenho de um ano para o outro, mas a ausência de "dinâmica". O consumo também capenga porque, a despeito do elevado nível de emprego, a população se engalfinhou em dívidas caríssimas no tempo da euforia lulista. A indústria está visivelmente pouco competitiva – 21% dos produtos industriais são importados numa arena cambial onde a indústria local não pode prevalecer. Neste contexto, falta ao governo visão estratégica e à iniciativa privada a vontade política de agir em prol de seus interesses. Todos parecem letargicamente esperar que algo aconteça. Não acontecerá. Enquanto isso, o PIB pode subir 3,0% ou 4,0%, mas a realidade subjacente está sólida e não é nada boa.
Copom vai manter juros
Num cenário que combina atividade econômica débil e emprego positivo, o BC vai tecer a sua estratégia em relação à inflação extremamente elevada para um país que zela pela sua moeda. O primeiro ato do teatro da autoridade monetária já foi cumprido: Tombini e seus diretores vieram a público para dizer que estão presentes e que a situação será controlada. Foi um calculado (e combinado) jogo de palavras que esclareceu o mercado e alinhou expectativas dos agentes e do próprio governo (que andava meio ausente neste tema). Agora começa a chegar o momento em que o BC terá de passar da prosa para a ação. Todavia, com o PIB lá embaixo e os indicadores de atividade ainda incipientes (no que tange ao crescimento) é provável que tudo fique como está para ver como é que fica. Depois desta próxima reunião do Copom é possível uma alta de juros porque palavras, como se sabe, não movem montanhas (ops!), não reduzem inflação.
Perguntas sem respostas
Digamos que o PIB deste ano não seja nem 3,0% e muito menos 4,0%. Seja apenas algo entre 1,0% e 2,0%. O que fará a presidente Dilma: removerá a equipe econômica que segue cegamente suas recomendações? Quem viria a substituí-la?
Mantega e a guerra cambial
O ministro Guido Mantega tem sido um exemplar alferes na retórica na qual prega contra a "guerra cambial" que os países centrais (liderados pelos EUA) estariam fazendo contra os emergentes. O Brasil neste tema tem sido o mais loquaz dentre os emergentes – repetiu a dose na última reunião do G-20 em Moscou. A China já pregou há dois anos com mais ênfase em favor da tese da "guerra cambial". Hoje, tem sido mais discreta e prefere cuidar dos vastos interesses cambiais, enquanto o Brasil se consolida como um país exportador de commodities. Em meio a toda esta retórica, Mantega acumula uma contradição substantiva frente ao largo esforço que faz alhures: está fortalecendo o real para manter a inflação baixa. Difícil sustentar argumentos contra os países ricos desta forma.
O preço das bravatas
O governo tem feito um esforço interno e externo – principalmente externo com as caravanas para atrair investidores nos Estados Unidos sob a batuta do ministro Guido Mantega e à Europa pela palavra da ministra Gleisi Hoffmann – na tentativa de convencer possíveis parceiros de que o Brasil é um porto seguro para quem quer fazer negócios. Não tem sido tão bem sucedido em sua logorréia tanto quanto esperava. Os empresários que ouviram Dilma quarta-feira no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, se publicamente saíram sorridentes, no fundo mantiveram suas reversas.
O preço das bravatas - II
Lá fora, Mantega e Gleisi também tiveram recepção simpática, mas as perguntas com que eles e outros expositores brasileiros foram bombardeados indicam que o clima de desconfiança e temor permanece vivo. A razão é muito simples: (1) contradições no discurso oficial, (2) certo irrealismo nas análises dos fatos reais da economia nacional e (3) algumas bravatas de governistas e aliados no âmbito interno. O que forma um caldo bem chacrianiano (de Abelardo "Chacrinha" Barbosa: aquele que não explica (ou convence), confunde). No primeiro caso, ainda não foram bem deglutidas, por exemplo, as divergências de ênfase entre o BC e o Ministério da Fazenda em relação à política de juros e à política cambial. Ou, ainda, a respeito da manutenção ou não do tripé macroeconômico que sustentou a economia brasileira desde a última fase do governo FHC até o fim do mandato de Lula antes da eclosão da crise em 2008.
O preço das bravatas - III
Questões como a confusão provocada pelas mudanças no setor elétrico também pesam nessas análises. O ministro Guido Mantega, na sexta-feira depois da divulgação do PIB de 0,9% em 2012, voltou a dizer que a economia do Brasil sofreu este novo baque por conta da crise externa (sem considerar que vários emergentes foram poupados, em grande medida, dela) e que o país este ano vai crescer 4%, o que nem o BC, por sua última projeção, parece acreditar possível. Tais procedimentos levam os analistas a desconfiar que a equipe econômica nacional não está com um diagnóstico correto da situação e, portanto, não sabe como agir. Ou que quer engambelar o distinto público. É por essas e outras que o prestigioso Financial Times classificou Mantega como um "vaticinador".
O preço das bravatas - IV
As bravatas são aquelas coisas que os governantes e seus partidos dizem apenas para agradar seu público interno, sem intenções (ou condições) de cumpri-las de fato. Por aqui, não são levadas tão a sério, mas para o estrangeiro, não tão acostumado a certas nuances da brasilidade política, é para valer. Há ainda uma quarta vertente desse estilo: o que se poderia chamar de "Lei de Gerson do setor público" : uma tentativa de levar vantagem em tudo. Isto é visível na atual safra de concessões de serviço público em preparação. Praticamente todos os programas inicialmente preparados para os setores de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos já foram alterados, para melhorar as ofertas feitas aos possíveis concorrentes. O governo Dilma parece estar necessitando urgentemente, além de um choque gerencial, de um choque de realidade.
Hora da verdade para o BNDES
Anuncia-se que o governo, nos próximos dias, por exigência do TCU, vai divulgar documento o qual torna público os subsídios implícitos nos repasses do Tesouro Nacional para o BNDES. Foram R$ 250 bi desde 2008, captados ao custo da Taxa Selic e emprestados pela TJLP, de taxas menores. Essa diferença não está registrada ainda nas contas públicas. Pode ser o início da hora da verdade financeira também para o BNDES. Os problemas da política de liberalidade e de escolha de "campeões nacionais" do banco já começaram a aparecer. O lucro da instituição caiu 9,55% no ano passado ante 2011. Teria sido ainda pior – de mais de 30% - se o Conselho Monetário Nacional (CMN) não tivesse autorizado a instituição a contabilizar diferentemente de outros bancos, o valor das ações de alguns de seus investimentos em empresas mais complicadas. Já se analisa a possibilidade de o Tesouro injetar mais R$ 8 bi no banco.
Como no Soneto da fidelidade?
Quem acompanhou as juras de amor trocadas na semana passada entre a presidente Dilma Rousseff (coadjuvada pelo ex-presidente Lula e o PT) e o PMDB e, ao mesmo tempo, conhece o temperamento da presidente, o pragmatismo de Lula, o apetite do PT e as rusgas às vezes nada discretas entre os dois partidos, logo se lembra dos últimos versos de um dos poemas mais citados de Vinicius de Morais:
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Como no Soneto da fidelidade? - II
Uma parcela do PMDB já saiu das festas de núpcias com uma caraminhola na cabeça : apesar de todos os elogios de Dilma e Lula ao PMDB e as referências a Temer, nenhum dos dois ousou confirmar o presidente do PMDB como parceiro (vice, entenda-se) na chapa reeleitoral da presidente. Alegou-se que a não referência direta foi para evitar complicações com a legislação. Ora, desde quando a Justiça Eleitoral é respeitada nesse universo ? Ou não foi Lula quem falou da candidatura de Dilma na festa do PT semana retrasada em SP ? A solidez dessas núpcias será testada logo. Hoje, por iniciativa dos peemedebistas presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, será votado pelo Congresso Nacional o veto presidencial à lei com a nova divisão dos royalties do petróleo. O Palácio do Planalto não queria esta votação agora, pois sabe o poder explosivo que a derrubada do veto pode ter. E se houver votação, o veto cai. Pode rachar a unidade do PMDB e a unidade do partido em torno da presidente.
Como no Soneto da fidelidade? - III
É esperado para esta semana também o início da reforma (ou ajuste, como prefere o governo) ministerial imaginada pela presidente. O PMDB quer recompensas por serviços já prestados e por outros serviços que deverá prestar no Congresso. Parece certo já que a seção do partido em MG vai ganhar o Ministério dos Transportes. O PMDB, porém, quer mais, quer mais "cartórios eleitorais", ou seja, postos que ajudem o partido a conquistar votos. Os peemedebistas costumam dizer que os ministérios que eles têm hoje "não elegem nem ao menos um vereador".
Verdade histórica
Ao contrário do que andam dizendo alguns e escrevendo outros, não foi o ex-presidente Lula o autor do lançamento da recandidatura da presidente Dilma Rousseff. Lula apenas avalizou o que já era fato. Foi a própria Dilma que se lançou, de forma muito pouco subliminar em seu último pronunciamento oficial em rede de rádio e televisão. Lula foi a reboque, com gosto ou sem gosto. Tudo para evitar que Lula crescesse no vácuo da ausência de declarações da presidente.
Uma nova Dilma?
Os afagos públicos da presidente Dilma ao PMDB e suas conversas com outros aliados estariam indicando que a presidente Dilma, mesmo sob o risco de desenvolver algumas urticárias, está mais afável aos contatos políticos, sua mais evidente dificuldade na chefia do governo. Talvez não seja sem tempo. O mundo da política não tem a presidente na mesma conta dos eleitores, que dão a ela quase 80% de popularidade no momento. Duas pesquisas recentes realizadas em Brasília indicam que com os deputados e senadores o prestígio da presidente é menor e está em queda. A consultoria Arko Advice constatou que a aceitação de Dilma caiu de 54,7%, em 2011, para 45,8% em 2012. Com 220 entrevistas, a FSB Tracking registrou que a nota dada pelos parlamentares à relação entre o governo Federal e o Congresso caiu de 5,9, em maio de 2011, para 4,4 em dezembro de 2012. Curioso é que a base parlamentar de Dilma conta com 80% dos parlamentares. Como a eleição já está no ar e deputados e senadores só pensam na reeleição, Dilma terá de ser um pouco mais generosa com seus aliados se não quiser colher dissabores.
Troféu político
Se no Brasil houvesse um troféu para o maior "cara de pau" da política dificilmente em 2013 ele escaparia das mãos do senador Renan Calheiros. Qualquer outro pretendente terá de fazer muito esforço para bater o senador alagoano. E olha que neste país não faltam bons candidatos a este privilegiado título.
Desembarque
É cada vez mais visível: Lula e o PT estão a cada dia um pouco mais distantes dos companheiros mensaleiros. Solidariedade sim, morrer pela causa, jamais.
Agora, os projetos
A oposição, com o PSDB, e, ainda na surdina, com Eduardo Campos, assanhou-se com o precipitado lançamento da recandidatura de Dilma Rousseff e está com o flanco adversário aberto para críticas e provocações. Mas, precisa ir além das críticas, como as que Aécio Neves tem feito nos últimos dias, tem de mostrar o que vai fazer para corrigir os erros que aponta. Discurso por discurso, ninguém bate Lula.
(José Márcio Mendonça e Francisco Petros)
segunda-feira, 4 de março de 2013
PORQUE NOTÍCIA RUIM DÁ TANTA AUDIÊNCIA
Existe uma atração em nós seres humanos que nos impulsiona a ler, ouvir, assistir e conversar sobre notícias negativas. Pouco vejo jornal na TV, mas sempre que vejo, presto atenção e percebo uma quantidade enorme de notícias que geram um monte de sentimentos negativos, e bem poucas que trazem bem estar, esperança ou uma mensagem positiva.
Não cheguei a fazer uma estatística, mas eu arriscaria dizer que em torno de 70 a 80% das notícias que saem acabam sendo sofre fatos negativos. São notícias que geram vários sentimentos desconfortáveis: raiva, tristeza, medo, impotência, indignação...
O padrão é bem parecidos em todas as emissoras, seja nos jornais locais ou nos de abrangência nacional. Algumas pessoas acham que a culpa é da mídia que escolhe esse tipo de notícia para ser veiculada. Entretanto, eu vejo que o problema é mais profundo. A televisão vive de dar audiência, e, se as pessoas não se interessassem tanto por esse tipo notícia negativa, a mídia teria que melhorar ou mudar o que ela veicula.
A televisão passa aquilo que as pessoas se sentem atraídas em assistir. Notícias sobre tragédias costumam render semanas de notícias. Passam exaustivamente nos jornais da TV, são comentadas em programas de auditório, de fofoca ou de debate e as pessoas gostam de assistir.
Se algum canal resolver veicular um tele jornal com 90% de notícias boas e apenas 10% de notícias negativas, teria muito provavelmente uma audiência baixíssima.
Vemos programas de melhor qualidade em canais alternativos que tem públicos específicos com uma audiência bem menor. Não adianta colocar a culpa na mídia, pois só permanece no ar aquilo que a população aprova através da sua audiência.
O mais importante de tudo isso é entendermos o que leva os seres humanos a sentir atração por tanta negatividade. Essa é a razão pela qual estou escrevendo esse texto. Não é para culpar a televisão nem o público, e sim, para compreender o que está por trás desse problema.
A negatividade nos atrai devido ao fato de estarmos cheios que coisas negativas dentro de nós. Pensamentos, crenças, emoções guardadas do passado, sentimentos de tristeza, medo, mágoa, raiva e outros que acumulamos durante a vida passam a viver no nosso interior formando uma sombra. Essa sombra busca crescer e se fortalecer. Uma dos mecanismos pelos quais ela cresce, é através das notícias negativas que alimentam as emoções que guardamos.
Em maior ou menor grau, todos nós sentimos uma certa atração por notícias negativas. É a sombra atuando dentro de nós, de forma inconsciente, nos levando a escolher conteúdos que acabam gerando mal estar. Conheço pessoas que tem um verdadeiro fascínio por programas policiais que trazem as notícias sobre os mais diversos e bizarros tipos de crime. Como alguém pode gostar disso? Na verdade ninguém gosta, é a sombra agindo no nosso inconsciente.
Tem algumas notícias negativas que até podem ser vistas como sendo de interesse nacional. Mas tem outras que passam que não servem para absolutamente mais nada além de alimentar a negatividade da sombra. Uma tragédia como a que aconteceu na boate Kiss em Santa Maria no Rio Grande do Sul, levando a morte de 240 pessoas, pode ser visto como algo de interesse nacional já que vai levar a sociedade a aprender com a experiência e gerar melhorias na segurança das casas noturnas de todo país, evitando novas tragédias. Então, tem sentido que essa notícia seja veiculada em rede nacional.
Entretanto, vemos diversas notícias que não tem o menor sentido de serem passadas em rede nacional (nem localmente): uma pessoa que morreu afogada em um lago; um acidente de carro trágico que alguém filmou; alguém que tenha sido assaltado e morto em algum lugar do Brasil e etc... A quem interessa essas notícias? Somente as famílias e amigos das pessoas envolvidas.
Não bastasse os problemas, tragédias e perdas que temos em nossas vidas pessoais, que já nos causam muita dor, acabamos por absorver o sofrimento de outras pessoas desconhecidas. Isso ajuda a elevar os níveis de estresse, pessimismo, pânico e depressão da população e não ajuda em nada as pessoas que passaram pela tragédia. Pelo contrário. Quanto mais infelicidade individual geramos, mais aumentamos os níveis de infelicidade da coletividade. A negatividade é contagiosa. Ajudamos mais a humanidade quando somos mais felizes. O único propósito dessas notícias é alimentar a sombra.
Nas tragédias de interesse nacional, que devem ser veiculadas para gerar aprendizado e mudança na sociedade, haverá ainda uma intensa exploração de toda a reação emocional que elas causam, o que vai alimentar também a sombra.
Perceber essa força inconsciente que nos leva a ir em busca de coisas negativas é muito importante. Quando começamos a ver o mecanismo em ação sabendo que ele serve apenas para causar sofrimento, fica mais fácil despertar e escolher algo melhor. Enquanto estamos cegos sem perceber que estamos agindo guiados pela sombra é muito mais difícil mudar o comportamento.
Além da percepção da ação da sombra, é mais importante ainda curar a negatividade que guardamos. Quanto mais nos libertamos de emoções, pensamentos e sentimentos negativos acumulados, menor será a nossa atração por notícias negativas ou qualquer coisa que sirva para alimentar sofrimento.
(André de Lima)
Não cheguei a fazer uma estatística, mas eu arriscaria dizer que em torno de 70 a 80% das notícias que saem acabam sendo sofre fatos negativos. São notícias que geram vários sentimentos desconfortáveis: raiva, tristeza, medo, impotência, indignação...
O padrão é bem parecidos em todas as emissoras, seja nos jornais locais ou nos de abrangência nacional. Algumas pessoas acham que a culpa é da mídia que escolhe esse tipo de notícia para ser veiculada. Entretanto, eu vejo que o problema é mais profundo. A televisão vive de dar audiência, e, se as pessoas não se interessassem tanto por esse tipo notícia negativa, a mídia teria que melhorar ou mudar o que ela veicula.
A televisão passa aquilo que as pessoas se sentem atraídas em assistir. Notícias sobre tragédias costumam render semanas de notícias. Passam exaustivamente nos jornais da TV, são comentadas em programas de auditório, de fofoca ou de debate e as pessoas gostam de assistir.
Se algum canal resolver veicular um tele jornal com 90% de notícias boas e apenas 10% de notícias negativas, teria muito provavelmente uma audiência baixíssima.
Vemos programas de melhor qualidade em canais alternativos que tem públicos específicos com uma audiência bem menor. Não adianta colocar a culpa na mídia, pois só permanece no ar aquilo que a população aprova através da sua audiência.
O mais importante de tudo isso é entendermos o que leva os seres humanos a sentir atração por tanta negatividade. Essa é a razão pela qual estou escrevendo esse texto. Não é para culpar a televisão nem o público, e sim, para compreender o que está por trás desse problema.
A negatividade nos atrai devido ao fato de estarmos cheios que coisas negativas dentro de nós. Pensamentos, crenças, emoções guardadas do passado, sentimentos de tristeza, medo, mágoa, raiva e outros que acumulamos durante a vida passam a viver no nosso interior formando uma sombra. Essa sombra busca crescer e se fortalecer. Uma dos mecanismos pelos quais ela cresce, é através das notícias negativas que alimentam as emoções que guardamos.
Em maior ou menor grau, todos nós sentimos uma certa atração por notícias negativas. É a sombra atuando dentro de nós, de forma inconsciente, nos levando a escolher conteúdos que acabam gerando mal estar. Conheço pessoas que tem um verdadeiro fascínio por programas policiais que trazem as notícias sobre os mais diversos e bizarros tipos de crime. Como alguém pode gostar disso? Na verdade ninguém gosta, é a sombra agindo no nosso inconsciente.
Tem algumas notícias negativas que até podem ser vistas como sendo de interesse nacional. Mas tem outras que passam que não servem para absolutamente mais nada além de alimentar a negatividade da sombra. Uma tragédia como a que aconteceu na boate Kiss em Santa Maria no Rio Grande do Sul, levando a morte de 240 pessoas, pode ser visto como algo de interesse nacional já que vai levar a sociedade a aprender com a experiência e gerar melhorias na segurança das casas noturnas de todo país, evitando novas tragédias. Então, tem sentido que essa notícia seja veiculada em rede nacional.
Entretanto, vemos diversas notícias que não tem o menor sentido de serem passadas em rede nacional (nem localmente): uma pessoa que morreu afogada em um lago; um acidente de carro trágico que alguém filmou; alguém que tenha sido assaltado e morto em algum lugar do Brasil e etc... A quem interessa essas notícias? Somente as famílias e amigos das pessoas envolvidas.
Não bastasse os problemas, tragédias e perdas que temos em nossas vidas pessoais, que já nos causam muita dor, acabamos por absorver o sofrimento de outras pessoas desconhecidas. Isso ajuda a elevar os níveis de estresse, pessimismo, pânico e depressão da população e não ajuda em nada as pessoas que passaram pela tragédia. Pelo contrário. Quanto mais infelicidade individual geramos, mais aumentamos os níveis de infelicidade da coletividade. A negatividade é contagiosa. Ajudamos mais a humanidade quando somos mais felizes. O único propósito dessas notícias é alimentar a sombra.
Nas tragédias de interesse nacional, que devem ser veiculadas para gerar aprendizado e mudança na sociedade, haverá ainda uma intensa exploração de toda a reação emocional que elas causam, o que vai alimentar também a sombra.
Perceber essa força inconsciente que nos leva a ir em busca de coisas negativas é muito importante. Quando começamos a ver o mecanismo em ação sabendo que ele serve apenas para causar sofrimento, fica mais fácil despertar e escolher algo melhor. Enquanto estamos cegos sem perceber que estamos agindo guiados pela sombra é muito mais difícil mudar o comportamento.
Além da percepção da ação da sombra, é mais importante ainda curar a negatividade que guardamos. Quanto mais nos libertamos de emoções, pensamentos e sentimentos negativos acumulados, menor será a nossa atração por notícias negativas ou qualquer coisa que sirva para alimentar sofrimento.
(André de Lima)
domingo, 3 de março de 2013
AMIGOS
Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor.
Eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. É delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí.
E me envergonho, porque essa minha prece é em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer.
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que não desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.
Com o meu carinho!
Vinicius de Moraes
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor.
Eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências.
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. É delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.
E às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí.
E me envergonho, porque essa minha prece é em síntese, dirigida ao meu bem estar.
Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer.
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que não desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.
Com o meu carinho!
Vinicius de Moraes
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
CONJUNTURA NACIONAL
Vacas magras
Abro a coluna com Aliatá Chaves de Queiroz, figura polêmica de Pau dos Ferros, encravado na tromba do elefante. Foi prefeito da cidade, mas antes foi vice do prefeito José Fernandes, médico, e uma das celebradas figuras de políticos potiguares, sogro do ex-deputado Federal João Faustino. O titular entrou de licença saúde e viajou para SP, passando a administração ao vice, como manda a lei:
- Taí. Há dinheiro no cofre e nos bancos, e a prefeitura não deve a ninguém.
Aliatá, figura modesta, não dava valor à dinheiro, vivia como um peão, roupas surradas e alpargatas de rabicho, fez um rapa nas finanças da prefeitura. Quando Zé Fernandes voltou, reassumiu com a bronca:
- Mas Aliatá, cadê o dinheiro do município? Não resta um só centavo. Gastou com quê?
- Com o povo. Não ia deixar ninguém morrer de doença ou de fome, enquanto o dinheiro mofava nos cofres!
Na campanha para o Governo em 1986, Aliatá aparecia no palanque a Geraldo Melo, surpreendendo pela maneira maltrapilha de se apresentar. Surpresa maior viria a seguir, depois que o próprio Geraldo anunciava o nome de Aliatá como o próximo orador. Arredio a multidões e microfones, o homem desmaiou, quase acabando o comício...Não era só o dinheiro da prefeitura que Aliatá distribuía com a população de sua cidade. Tudo que ganhava, dividia com os munícipes. Mas ele também tinha seus rompantes, quando percebia que o eleitor queria enrolar. Como o daquela mulher com o filhinho recém-nascido nos braços:
- Dotô Latá, eu queria um dinheirim pra comprar uma lata de leite pro nenê.
Ríspido, o prefeito fuzila:
- E prá que a senhora quer esse par de peito, abarrotado de leite?
(Do livro de Orlando Rodrigues, Segura Essa...)
Campanha na rua
Lula antecipou o processo de 2014 ao lançar Dilma candidata à reeleição. O que o comandante petista quis dizer com essa antecipação? Ponto um: que não topa uma campanha "Volta, Lula"; ponto dois: Dilma é a candidata do PT e as alas petistas precisam dar um basta às arengas; ponto três: os partidos da base, desde já, são convocados a perfilar ao lado da candidata; ponto quatro: vamos ter de enfrentar novamente os tucanos e vamos derrotá-los mais uma vez. Essa é a moldura que se desenha em uma primeira leitura. Mas há quem discorde dessa projeção.
Gandhi
O verbo da paz e da verdade de Gandhi: "o caminho da paz é o caminho da verdade. Ser honesto é ainda mais importante do que ser pacífico. A mentira é a mãe da violência. Um homem sincero não pode permanecer violento por muito tempo".
Outra leitura
Pibinho, economia em baixa, administração travada, Dilma centralizadora, ministérios sem autonomia para decidir sobre coisas mínimas - esse é o pano de fundo que pode desestabilizar a candidatura da atual presidente. Nesse caso, o "Volta Lula" ganharia sentido e força. Pois bem, não são poucos os analistas que fazem essa segunda leitura. Por acreditarem que o ex-presidente ainda não desgrudou das amarras do Palácio do Planalto. Respira política 24 horas. Começa, agora, a correr o país, a partir de Fortaleza, para onde irá, amanhã.
Madre Teresa
O verbo generoso de Madre Teresa de Calcutá, uma vida dedicada à pobreza: "o mundo que Deus nos deu é mais do que suficiente para todos; existe riqueza mais do que sobra para todos. É só uma questão de reparti-la bem, sem egoísmo".
O racha no PSB
Lula quer rachar o PSB. Está chateado com seu amigo, "irmão mais novo", Eduardo Campos, que mostra, a cada dia, intenções de vir a ser o candidato socialista à presidência em 2014. Campos está muito bem avaliado no Nordeste. E começa a penetrar nos espaços do Sudeste. Encarna a alternativa de mudança, eis que os tucanos sofrem o fenômeno "desgaste de material". Campos promete dar apoio ao governo até o final do ano. Se a economia voltar a subir, o governador pernambucano pode permanecer na base governista. Mas, os seus correligionários dizem, à boca pequena, que a decisão já está tomada.
Luther King
O verbo da igualdade de Martin Luther King: "Sonho com o dia em que a Justiça correrá como água e a retidão como um rio caudaloso. Eu tenho um sonho em que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma Nação onde elas serão julgadas não pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter".
Trabalho escravo
Em boa hora, o Governo do Estado sancionou a lei estadual 14.946 de 2013. Agora, modesto convite: que tal o Governo ou o Ministério Público do Trabalho visitar o Metrô, na linha Norte-Sul? Poderá se deparar com um caso escandaloso de escravidão, perpetrado pela empresa de limpeza aos trabalhadores.
Perdendo, ganha
Eduardo Campos sabe que a menor distância, em política, nem sempre é uma reta, mas uma curva. Se for candidato e perder, poderá usufruir, mais adiante, a visibilidade alcançada em 2014. Por isso, mesmo perdendo ele ganhará. Seu potencial de crescimento é maior do que o de Aécio Neves. De qualquer forma, ele será decisivo, eis que a campanha de 2014 desembocará no segundo turno. As projeções mostram que o cenário poderá comportar quatro candidatos: Dilma, Aécio, Campos e Marina.
Mazzarino
O verbo da mentira de Mazzarino. Espelho da alma. Políticos, revolucionários, ditadores assim dela se utilizaram. Cardeal Mazzarino, tutor de Luis XIV, na França, usava a palavra como arma da política. Ensinava: "simula, dissimula, não confies em ninguém, fala bem de todo mundo, prevê antes de agir". Seu breviário dos políticos é uma obra prima da mistificação.
Cenários
Dilma continua sendo a favorita. Mesmo com economia em baixa, ela tem condições de sustentar o bolso das margens sociais, garantindo, dessa forma, a geografia (anatomia) do voto: bolso, barriga, coração, cabeça. Bolso com dinheiro significa geladeira cheia e estômago saciado; estômago saciado implica coração agradecido; coração agradecido sinaliza cabeça decidindo a favor da candidata das bolsas/bolsos. Ganhar no primeiro turno, isso seria difícil. Aécio teria a vantagem de fechar o segundo maior colégio eleitoral do país, MG, com seus 15 milhões de eleitores. E ainda contar com a alavanca de Geraldo Alckmin, em S ; de Beto Richa, no PR, e de Marconi Perillo, em GO. Mas esses governadores teriam boas performances? Essa é dúvida.
Maquiavel
O verbo escorregadio de Maquiavel, o mestre dos mestres na arte de usar os fins para justificar os meios: "a ofensa que se fizer a um homem deve ser de tal porte que não se tema a vingança. Um príncipe deve saber dosar a natureza animal, escolhendo a raposa e o leão. Porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos".
Tucanos desgastados
Em SP, Alckmin terá grandes dificuldades de superar o que se chama de "desgaste de material". São 20 anos de tucanato. A segurança pública será o carro chefe dos discursos. A violência se expande em SP. De qualquer maneira, os tucanos podem contar com 30% dos votos, índice que também é o do PT. Um terço petista, um terço tucano e um terço para o candidato alternativo à polarização. No PR, Beto Richa está desgastado, o mesmo ocorrendo com Perillo em GO. Por isso mesmo, não se pode aduzir que as máquinas tucanas multipliquem votos para Aécio. Abre-se, portanto, espaço a ser ocupado por Campos e Marina.
Mao Tsé-Tung
O verbo direto de Mao Tsé-Tung para conquistar o poder: "o poder político nasce do cano de uma espingarda". Em 1949, chefiando o exército revolucionário, foi proclamado presidente da nova República Popular da China. É dele a frase:"todos os reacionários são tigres de papel".
Marineiros
Marina Silva deverá obter as 500 mil assinaturas que credenciarão sua Rede Sustentabilidade. Mas sua performance não será tão boa quanto a de 2010, quando alcançou quase 20 milhões de votos. Os marineiros são compostos de segmentos jovens e setores médios indignados e identificados com a sustentabilidade. Como o próprio nome indica, a Rede será muito seletiva. Mas a entrada de Marina tem condições de ajudar a empurrar a campanha para o segundo turno. E nesse segundo turno, a possibilidade de união entre Aécio e Campos é muito alta. Já a ex-seringueira poderá, mais uma vez, não tomar partido e deixar suas bases optarem por um lado ou outro.
Hitler
O verbo mistificador de Hitler era mistificadora para enganar as massas: "a capacidade de compreensão das multidões é muito limitada e sua compreensão escassa. Elas esquecem facilmente. A propaganda deve se restringir a poucos pontos, expostos em forma de grito de combate, até que o último homem seja capaz de compreender o significado".
Candidatos estaduais
A campanha presidencial será atrelada às campanhas estaduais. Sob essa hipótese, mais uma vez SP estará definindo a situação. Afinal, a clássica polarização entre tucanos e petistas poderá ocorrer, apesar de ser visível o desgaste dessa renhida luta. Poderá sobrar para o candidato do PMDB, que deverá se unir em torno de Paulo Skaf, presidente da FIESP. O sonho de Lula é derrotar os tucanos na governança estadual. Dizem que pretende somar a força adquirida pelo prefeito Fernando Haddad.
Churchill
O verbo criativo de Winston Churchill, o grande líder inglês da II Guerra Mundial: "a política é quase tão excitante quanto a guerra, e quase tão perigosa. Na guerra, você só pode ser morto uma vez, mas em política, muitas vezes".
Haddad terá forças?
A questão é: Fernando Haddad terá forças para influenciar o pleito paulista? Em dois anos de administração, teria algo a apresentar de positivo? Pelo andar da carruagem, a resposta é não. O estilo haddadista é de assembleísmo. Centenas de reuniões se fazem em todos os espaços da municipalidade. Mas esses saraus discursivos acabam não dando frutos. SP está esburacada. As enchentes deterioram a anatomia urbana. E até 2014, o prefeito estará envolvido com a arrumação da maneira petista de governar.
Lincoln
O verbo histórico de Abraham Lincoln, ex-presidente dos Estados Unidos: "Podemos enganar alguns por todo o tempo, todos por algum tempo, mas não podemos enganar todos por todo o tempo". O ex-lavrador dizia: "não criarás a prosperidade, se desestimulares a poupança; não fortalecerás os fracos, por enfraquecer os fortes; não ajudarás o assalariado, se arruinares quem paga; não ajudarás os pobres, se eliminares os ricos".
A briga
Ademais, o PT deverá entrar na arena de guerra. A essa altura, já se notam os movimentos dos pré-candidatos Marta Suplicy, Aloísio Mercadante, Alexandre Padilha e Luiz Marinho. Lula será, mais uma vez, o artífice da escolha. Se der vazão ao estilo, o candidato menos conhecido - como Dilma e Haddad - é o ministro da Saúde, Padilha. Ora, mas a saúde está na UTI. As epidemias se espraiam. Esse ministro não tem coisas interessantes para apresentar. Mercadante, por sua vez, exibe uma estética de carranca zangada. E Marta sofre históricos índices de rejeição.
Zaratustra
O verbo ousado de Zaratustra, o profeta de Nietzsche: "novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga: como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas... Aprendi a voar, desde então não preciso de que me empurrem para sair do lugar. Agora, um deus dança dentro de mim".
PMDB unido
O PMDB deverá eleger, dia 2 março, Michel Temer, para um novo mandato à frente do partido. Michel, com sua habilidade, consegue unir as diferentes alas partidárias. Firma-se como candidato a vice na chapa de Dilma e o PMDB se organiza para apresentar candidatos ao governo em todos os Estados. A lógica do partido é: só fazer parcerias no segundo turno. Ceder o espaço para aliados, no primeiro turno, só em casos excepcionais. O partido quer fazer um bom número de governadores visando preparar terreno para 2018, quando deverá ter candidato próprio à presidência da República.
Rui
O verbo cidadão do nosso maior jurista e homem de letras, a Águia de Haia, Rui Barbosa: "Rompamos com a seita das pequenas Pátrias. O Brasil quer a Grande: a Pátria antiga, a Pátria unida, a Pátria vasta, a Pátria forte, a Pátria indissolúvel, com a ingênita vibratilidade nas veias e seu lugar entre as Nações".
Anvisa acima da Justiça?
Os fiéis consumidores de álcool líquido vivem um momento de insegurança, sem saber se poderão continuar contando com o produto nas prateleiras. A Anvisa resolveu antecipar a decisão do processo que discute a restrição do produto na forma líquida, acima de 46°INPM/ 54°GL, ordenando a proibição da venda antes mesmo que o TRF da 1ª região julgue a questão. São questionadas as estatísticas usadas como argumento para a medida, já que informações do SUS apontam números muito menores do que os apresentados. Mas a Anvisa ignora tudo. O próprio TRF informa que a medida não tem validade até que sejam julgados os recursos pendentes. Porém, fiscalizações e multas aos que venderem álcool líquido acima de 46°INPM/ 54°GL já estão sendo aplicadas. Ou seja, a Anvisa se considera acima da Justiça e da vontade dos consumidores.
Borges
"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Povoa um espaço com imagens: reinos, montanhas, baías, ilhas, peixes, moradas, astros, pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto". Essa é a imagem do verbo poético de Jorge Luis Borges, patrimônio da literatura universal.
Brizola firme?
O ministro do Trabalho está seguro no Ministério do Trabalho, apesar da pressão de um grupo do PDT, que pretende afastá-lo. Carlos Lupi estaria à frente dessa articulação. E Paulinho da Força, o que diz? Paulinho, ao que se sabe, quer mesmo fazer um "partido pra chamar de seu".
Conselho aos gurus
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos dirigentes da Câmara e do Senado. Hoje, dirige-se aos Gurus do PT, Lula, e do PSDB, FHC.
1. A antecipação da campanha presidencial de 2014 é perniciosa para o país. Todas as ações governamentais das administrações (Federal e estaduais) terão um viés politiqueiro.
2. Procurem auscultar as demandas sociais nesse momento em que a economia dá sinais de deterioração. E orientem seus candidatos para evitar medidas, ações e projetos de cunho eleitoreiro.
3. Como ex-presidentes da República, Vossas Excelências devem agir como magistrados, ícones da boa orientação aos governantes.
____________
(Gaudêncio Torquato)
Abro a coluna com Aliatá Chaves de Queiroz, figura polêmica de Pau dos Ferros, encravado na tromba do elefante. Foi prefeito da cidade, mas antes foi vice do prefeito José Fernandes, médico, e uma das celebradas figuras de políticos potiguares, sogro do ex-deputado Federal João Faustino. O titular entrou de licença saúde e viajou para SP, passando a administração ao vice, como manda a lei:
- Taí. Há dinheiro no cofre e nos bancos, e a prefeitura não deve a ninguém.
Aliatá, figura modesta, não dava valor à dinheiro, vivia como um peão, roupas surradas e alpargatas de rabicho, fez um rapa nas finanças da prefeitura. Quando Zé Fernandes voltou, reassumiu com a bronca:
- Mas Aliatá, cadê o dinheiro do município? Não resta um só centavo. Gastou com quê?
- Com o povo. Não ia deixar ninguém morrer de doença ou de fome, enquanto o dinheiro mofava nos cofres!
Na campanha para o Governo em 1986, Aliatá aparecia no palanque a Geraldo Melo, surpreendendo pela maneira maltrapilha de se apresentar. Surpresa maior viria a seguir, depois que o próprio Geraldo anunciava o nome de Aliatá como o próximo orador. Arredio a multidões e microfones, o homem desmaiou, quase acabando o comício...Não era só o dinheiro da prefeitura que Aliatá distribuía com a população de sua cidade. Tudo que ganhava, dividia com os munícipes. Mas ele também tinha seus rompantes, quando percebia que o eleitor queria enrolar. Como o daquela mulher com o filhinho recém-nascido nos braços:
- Dotô Latá, eu queria um dinheirim pra comprar uma lata de leite pro nenê.
Ríspido, o prefeito fuzila:
- E prá que a senhora quer esse par de peito, abarrotado de leite?
(Do livro de Orlando Rodrigues, Segura Essa...)
Campanha na rua
Lula antecipou o processo de 2014 ao lançar Dilma candidata à reeleição. O que o comandante petista quis dizer com essa antecipação? Ponto um: que não topa uma campanha "Volta, Lula"; ponto dois: Dilma é a candidata do PT e as alas petistas precisam dar um basta às arengas; ponto três: os partidos da base, desde já, são convocados a perfilar ao lado da candidata; ponto quatro: vamos ter de enfrentar novamente os tucanos e vamos derrotá-los mais uma vez. Essa é a moldura que se desenha em uma primeira leitura. Mas há quem discorde dessa projeção.
Gandhi
O verbo da paz e da verdade de Gandhi: "o caminho da paz é o caminho da verdade. Ser honesto é ainda mais importante do que ser pacífico. A mentira é a mãe da violência. Um homem sincero não pode permanecer violento por muito tempo".
Outra leitura
Pibinho, economia em baixa, administração travada, Dilma centralizadora, ministérios sem autonomia para decidir sobre coisas mínimas - esse é o pano de fundo que pode desestabilizar a candidatura da atual presidente. Nesse caso, o "Volta Lula" ganharia sentido e força. Pois bem, não são poucos os analistas que fazem essa segunda leitura. Por acreditarem que o ex-presidente ainda não desgrudou das amarras do Palácio do Planalto. Respira política 24 horas. Começa, agora, a correr o país, a partir de Fortaleza, para onde irá, amanhã.
Madre Teresa
O verbo generoso de Madre Teresa de Calcutá, uma vida dedicada à pobreza: "o mundo que Deus nos deu é mais do que suficiente para todos; existe riqueza mais do que sobra para todos. É só uma questão de reparti-la bem, sem egoísmo".
O racha no PSB
Lula quer rachar o PSB. Está chateado com seu amigo, "irmão mais novo", Eduardo Campos, que mostra, a cada dia, intenções de vir a ser o candidato socialista à presidência em 2014. Campos está muito bem avaliado no Nordeste. E começa a penetrar nos espaços do Sudeste. Encarna a alternativa de mudança, eis que os tucanos sofrem o fenômeno "desgaste de material". Campos promete dar apoio ao governo até o final do ano. Se a economia voltar a subir, o governador pernambucano pode permanecer na base governista. Mas, os seus correligionários dizem, à boca pequena, que a decisão já está tomada.
Luther King
O verbo da igualdade de Martin Luther King: "Sonho com o dia em que a Justiça correrá como água e a retidão como um rio caudaloso. Eu tenho um sonho em que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma Nação onde elas serão julgadas não pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter".
Trabalho escravo
Em boa hora, o Governo do Estado sancionou a lei estadual 14.946 de 2013. Agora, modesto convite: que tal o Governo ou o Ministério Público do Trabalho visitar o Metrô, na linha Norte-Sul? Poderá se deparar com um caso escandaloso de escravidão, perpetrado pela empresa de limpeza aos trabalhadores.
Perdendo, ganha
Eduardo Campos sabe que a menor distância, em política, nem sempre é uma reta, mas uma curva. Se for candidato e perder, poderá usufruir, mais adiante, a visibilidade alcançada em 2014. Por isso, mesmo perdendo ele ganhará. Seu potencial de crescimento é maior do que o de Aécio Neves. De qualquer forma, ele será decisivo, eis que a campanha de 2014 desembocará no segundo turno. As projeções mostram que o cenário poderá comportar quatro candidatos: Dilma, Aécio, Campos e Marina.
Mazzarino
O verbo da mentira de Mazzarino. Espelho da alma. Políticos, revolucionários, ditadores assim dela se utilizaram. Cardeal Mazzarino, tutor de Luis XIV, na França, usava a palavra como arma da política. Ensinava: "simula, dissimula, não confies em ninguém, fala bem de todo mundo, prevê antes de agir". Seu breviário dos políticos é uma obra prima da mistificação.
Cenários
Dilma continua sendo a favorita. Mesmo com economia em baixa, ela tem condições de sustentar o bolso das margens sociais, garantindo, dessa forma, a geografia (anatomia) do voto: bolso, barriga, coração, cabeça. Bolso com dinheiro significa geladeira cheia e estômago saciado; estômago saciado implica coração agradecido; coração agradecido sinaliza cabeça decidindo a favor da candidata das bolsas/bolsos. Ganhar no primeiro turno, isso seria difícil. Aécio teria a vantagem de fechar o segundo maior colégio eleitoral do país, MG, com seus 15 milhões de eleitores. E ainda contar com a alavanca de Geraldo Alckmin, em S ; de Beto Richa, no PR, e de Marconi Perillo, em GO. Mas esses governadores teriam boas performances? Essa é dúvida.
Maquiavel
O verbo escorregadio de Maquiavel, o mestre dos mestres na arte de usar os fins para justificar os meios: "a ofensa que se fizer a um homem deve ser de tal porte que não se tema a vingança. Um príncipe deve saber dosar a natureza animal, escolhendo a raposa e o leão. Porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos".
Tucanos desgastados
Em SP, Alckmin terá grandes dificuldades de superar o que se chama de "desgaste de material". São 20 anos de tucanato. A segurança pública será o carro chefe dos discursos. A violência se expande em SP. De qualquer maneira, os tucanos podem contar com 30% dos votos, índice que também é o do PT. Um terço petista, um terço tucano e um terço para o candidato alternativo à polarização. No PR, Beto Richa está desgastado, o mesmo ocorrendo com Perillo em GO. Por isso mesmo, não se pode aduzir que as máquinas tucanas multipliquem votos para Aécio. Abre-se, portanto, espaço a ser ocupado por Campos e Marina.
Mao Tsé-Tung
O verbo direto de Mao Tsé-Tung para conquistar o poder: "o poder político nasce do cano de uma espingarda". Em 1949, chefiando o exército revolucionário, foi proclamado presidente da nova República Popular da China. É dele a frase:"todos os reacionários são tigres de papel".
Marineiros
Marina Silva deverá obter as 500 mil assinaturas que credenciarão sua Rede Sustentabilidade. Mas sua performance não será tão boa quanto a de 2010, quando alcançou quase 20 milhões de votos. Os marineiros são compostos de segmentos jovens e setores médios indignados e identificados com a sustentabilidade. Como o próprio nome indica, a Rede será muito seletiva. Mas a entrada de Marina tem condições de ajudar a empurrar a campanha para o segundo turno. E nesse segundo turno, a possibilidade de união entre Aécio e Campos é muito alta. Já a ex-seringueira poderá, mais uma vez, não tomar partido e deixar suas bases optarem por um lado ou outro.
Hitler
O verbo mistificador de Hitler era mistificadora para enganar as massas: "a capacidade de compreensão das multidões é muito limitada e sua compreensão escassa. Elas esquecem facilmente. A propaganda deve se restringir a poucos pontos, expostos em forma de grito de combate, até que o último homem seja capaz de compreender o significado".
Candidatos estaduais
A campanha presidencial será atrelada às campanhas estaduais. Sob essa hipótese, mais uma vez SP estará definindo a situação. Afinal, a clássica polarização entre tucanos e petistas poderá ocorrer, apesar de ser visível o desgaste dessa renhida luta. Poderá sobrar para o candidato do PMDB, que deverá se unir em torno de Paulo Skaf, presidente da FIESP. O sonho de Lula é derrotar os tucanos na governança estadual. Dizem que pretende somar a força adquirida pelo prefeito Fernando Haddad.
Churchill
O verbo criativo de Winston Churchill, o grande líder inglês da II Guerra Mundial: "a política é quase tão excitante quanto a guerra, e quase tão perigosa. Na guerra, você só pode ser morto uma vez, mas em política, muitas vezes".
Haddad terá forças?
A questão é: Fernando Haddad terá forças para influenciar o pleito paulista? Em dois anos de administração, teria algo a apresentar de positivo? Pelo andar da carruagem, a resposta é não. O estilo haddadista é de assembleísmo. Centenas de reuniões se fazem em todos os espaços da municipalidade. Mas esses saraus discursivos acabam não dando frutos. SP está esburacada. As enchentes deterioram a anatomia urbana. E até 2014, o prefeito estará envolvido com a arrumação da maneira petista de governar.
Lincoln
O verbo histórico de Abraham Lincoln, ex-presidente dos Estados Unidos: "Podemos enganar alguns por todo o tempo, todos por algum tempo, mas não podemos enganar todos por todo o tempo". O ex-lavrador dizia: "não criarás a prosperidade, se desestimulares a poupança; não fortalecerás os fracos, por enfraquecer os fortes; não ajudarás o assalariado, se arruinares quem paga; não ajudarás os pobres, se eliminares os ricos".
A briga
Ademais, o PT deverá entrar na arena de guerra. A essa altura, já se notam os movimentos dos pré-candidatos Marta Suplicy, Aloísio Mercadante, Alexandre Padilha e Luiz Marinho. Lula será, mais uma vez, o artífice da escolha. Se der vazão ao estilo, o candidato menos conhecido - como Dilma e Haddad - é o ministro da Saúde, Padilha. Ora, mas a saúde está na UTI. As epidemias se espraiam. Esse ministro não tem coisas interessantes para apresentar. Mercadante, por sua vez, exibe uma estética de carranca zangada. E Marta sofre históricos índices de rejeição.
Zaratustra
O verbo ousado de Zaratustra, o profeta de Nietzsche: "novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga: como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer mais, o meu espírito, caminhar com solas gastas... Aprendi a voar, desde então não preciso de que me empurrem para sair do lugar. Agora, um deus dança dentro de mim".
PMDB unido
O PMDB deverá eleger, dia 2 março, Michel Temer, para um novo mandato à frente do partido. Michel, com sua habilidade, consegue unir as diferentes alas partidárias. Firma-se como candidato a vice na chapa de Dilma e o PMDB se organiza para apresentar candidatos ao governo em todos os Estados. A lógica do partido é: só fazer parcerias no segundo turno. Ceder o espaço para aliados, no primeiro turno, só em casos excepcionais. O partido quer fazer um bom número de governadores visando preparar terreno para 2018, quando deverá ter candidato próprio à presidência da República.
Rui
O verbo cidadão do nosso maior jurista e homem de letras, a Águia de Haia, Rui Barbosa: "Rompamos com a seita das pequenas Pátrias. O Brasil quer a Grande: a Pátria antiga, a Pátria unida, a Pátria vasta, a Pátria forte, a Pátria indissolúvel, com a ingênita vibratilidade nas veias e seu lugar entre as Nações".
Anvisa acima da Justiça?
Os fiéis consumidores de álcool líquido vivem um momento de insegurança, sem saber se poderão continuar contando com o produto nas prateleiras. A Anvisa resolveu antecipar a decisão do processo que discute a restrição do produto na forma líquida, acima de 46°INPM/ 54°GL, ordenando a proibição da venda antes mesmo que o TRF da 1ª região julgue a questão. São questionadas as estatísticas usadas como argumento para a medida, já que informações do SUS apontam números muito menores do que os apresentados. Mas a Anvisa ignora tudo. O próprio TRF informa que a medida não tem validade até que sejam julgados os recursos pendentes. Porém, fiscalizações e multas aos que venderem álcool líquido acima de 46°INPM/ 54°GL já estão sendo aplicadas. Ou seja, a Anvisa se considera acima da Justiça e da vontade dos consumidores.
Borges
"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Povoa um espaço com imagens: reinos, montanhas, baías, ilhas, peixes, moradas, astros, pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto". Essa é a imagem do verbo poético de Jorge Luis Borges, patrimônio da literatura universal.
Brizola firme?
O ministro do Trabalho está seguro no Ministério do Trabalho, apesar da pressão de um grupo do PDT, que pretende afastá-lo. Carlos Lupi estaria à frente dessa articulação. E Paulinho da Força, o que diz? Paulinho, ao que se sabe, quer mesmo fazer um "partido pra chamar de seu".
Conselho aos gurus
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos dirigentes da Câmara e do Senado. Hoje, dirige-se aos Gurus do PT, Lula, e do PSDB, FHC.
1. A antecipação da campanha presidencial de 2014 é perniciosa para o país. Todas as ações governamentais das administrações (Federal e estaduais) terão um viés politiqueiro.
2. Procurem auscultar as demandas sociais nesse momento em que a economia dá sinais de deterioração. E orientem seus candidatos para evitar medidas, ações e projetos de cunho eleitoreiro.
3. Como ex-presidentes da República, Vossas Excelências devem agir como magistrados, ícones da boa orientação aos governantes.
____________
(Gaudêncio Torquato)
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL
O Banco Central, os juros e o exemplo
Como não funcionou totalmente a verborragia oficial para convencer os agentes econômicos, especialmente o mercado, que o BC não tem nenhuma limitação em relação à política monetária e aos juros, começa-se a especular mais fortemente, inclusive nos corredores brasilienses, sobre a possibilidade de a autoridade monetária aprovar na reunião do Copom da próxima semana, ou na do final de abril, um ajuste na Taxa Selic. Seria apenas um aumento pequeno, de apenas 0,25 ponto percentual, apenas para mostrar que o BC continua independente, não sofre "ingerência" nem do Ministério da Fazenda nem do Palácio do Planalto. E mais: que as conveniências eleitorais não batem na porta do imponente edifício meio ocre de grande destaque na paisagem de Brasília, ao lado da Praça dos Três Poderes.
O Banco Central, os juros e o exemplo - II
O BC só voltaria a mexer nos juros básicos da economia para valer mesmo se as expectativas do governo em relação ao comportamento da inflação não se confirmarem. Pelas contas planaltinas, a inflação anualizada ficará alta até meados do ano, sempre acima de 6% podendo até estourar o centro da meta (6,5%) e depois cairia gradualmente até chegar a 5,5%, a mais recente aposta do ministro da Fazenda, Guido Mantega. O governo não desistiu de usar todos os instrumentos possíveis para fazer este ano um PIB bem melhor que o do ano passado, que deve ter ficado em torno de 1%. Inclusive os instrumentos monetários. Por isso, o ajuste de 0,25 ponto se vier é apenas para dar o recado de que o BC está vivo. Todavia, esse rumo pode mudar muito se os preços continuarem rebeldes no segundo semestre. Por uma simples razão: é melhor fazer o mal agora (aumentando os juros) quando a eleição está relativamente longe do que ter que mexer com um dos principais slogans da campanha de Dilma quando a luta eleitoral estiver pegando fogo.
Política econômica e campanha antecipada
Esta coluna ouviu de um dos futuros ouvintes das apresentações do Road Show que Mantega, Gleisi Hoffmann, Luciano Coutinho e outros farão no exterior a seguinte análise: "Nenhum empresário, especialmente na área de infraestrutura, faz apostas grandes, quando faz, em ano eleitoral. O governo, ao antecipar a corrida eleitoral, criou um problema para si mesmo. De um lado, pede dinheiro para quem hesita em dar. De outro, amplia as dúvidas políticas sobre os investimentos. Assim, fica bem difícil...". Obviamente que este não é um ponto de vista isolado. De fato, os maiores comentários dos investidores externos sobre o Brasil é sobre o governo e não os negócios. Questionam a interferência do governo nos setores, as disputas políticas e as reformas que não são feitas. "Na China temos dúvidas grandes sobre estes temas, mas o país cresce acima dos 8%. Por aqui, as dúvidas são grandes, mas o país não cresce", assinala o interlocutor.
Câmbio real
Os economistas costumam se jogar em cálculos de todas as cepas para saber se o câmbio está valorizado ou desvalorizado. Em países onde há liberdade cambial plena, estes cálculos são incertos. Em países como o Brasil e a China estes cálculos são ainda mais incertos. Todavia, se o governo e o BC quiserem uma informação objetiva, basta fazer uma simples pesquisa sobre os custos para a implementação de um projeto no Brasil e compará-los com outras partes do mundo. A resposta deixaria qualquer burocrata do governo preocupado.
Investimentos: caminho de volta
Sabe-se que o mundo está complicado. Há enormes incertezas, sobretudo nos países centrais. Isso, contudo, não tem impedido que capitais mais ariscos estejam tomando o rumo dos EUA. Por lá, percebe-se que lentamente o país está saindo da escuridão e os preços dos ativos são mais convidativos. Além do fato de existirem Estados com incentivos fiscais verdadeiramente estimulantes.
O segredo de polichinelo continua
Já foi dito aqui, mas vale repetir: nenhum governante gosta de antecipar sua sucessão, mesmo se ele for candidato à reeleição e estiver bem na fita de largada. É o caso da presidente Dilma Rousseff. A antecipação só traz desvantagens: divide a atenção do gestor; assanha os adversários que naturalmente aumentam o tom de suas críticas e cobranças e também entram em campanha; e assanha ainda mais os parceiros, que ganham mais uma arma de barganha para garantir a aliança partidária reeleitoral. É exatamente isto que Dilma está experimentando agora, depois que botou espontaneamente seu bloco na rua e, na semana passada, ganhou o aval de ninguém menos do maior eleitor do país, o ex-presidente Lula. O melhor exemplo são os parceiros que já estão com seus candidatos lançados à ministérios, postos de segundo escalão e boas diretorias de estatais e até de agências reguladoras. A presidente pretendia fazer uma reforma restrita, como já foi comentado aqui. Não vai dar mais. E por mais que ela se esforce, a presidente deixará os "mortos e feridos" pelo caminho. Um custo que poderá ser cobrado nas votações no Congresso e no palanque de 2014.
Pergunta e resposta incômoda
Por que Dilma correu todos esses riscos, antecipando ela própria o debate eleitoral? Há várias teorias circulando. Não erra, porém, quem acreditar que um dos alvos tem hoje residência em São Bernardo do Campo.
Lupas sobre a gestão de Haddad
Não são poucos os petistas de coturno alto que estão preocupados com a gestão de Haddad no prédio do Viaduto do Chá. Estes acham que o tutelado de Lula está condicionado a ficar longe dos holofotes do dia a dia como era o caso do Ministério da Educação. Há severas dúvidas se o prefeito paulistano aguenta uma enchente num dia e um incêndio no dia seguinte.
Ele vai nomear também?
Todos os indícios são de que a presidente Dilma "terceirizou" para o ex-presidente Lula as tarefas de manter a base aliada no Congresso unida e obediente e a de formar o grande palanque com o qual ela pretende disputar a reeleição do ano que vem. O objetivo é macro: é aceitável que fiquem de fora apenas o PSDB, o PPS, o DEM e o partido de Marina Silva (se vier a ser criado). Até mesmo o PSB de Eduardo Campos está sendo cercado para, na hora certa, ser cassado e jogado no redil oficial. Tais objetivos exigem amplas (e às vezes inconfessáveis) negociações. Todos estão dispostos a seguir com a presidente desde que sejam regiamente compensados. Com antecipação, nada de contas a pagar em 2015. É aqui e agora. A moeda de troca mais comum chama-se emprego, em ministérios e postos chaves na burocracia Federal. As perguntas são: (1) Lula recebeu carta branca para negociar como bem entender com os aliados? (2) Pode fazer qualquer oferta? (3) Ela vai nomear também ou só indicar? É bom lembrar que parte das indicações de Lula para Dilma no início do governo dela acabou "faxinada".
Eles não estão gostando
Uma parcela dos petistas, com todo o respeito que tem por Lula e Dilma e entendem que o objetivo maior do partido deve ser o poder maior da República, não está gostando muito dos movimentos para criar um palanque para Dilma inflado como nunca houve antes na história deste país. O temor se justifica: os aliados, como compensação pela adesão, deverão cobrar, além de empregos, apoios petistas para seus candidatos a governador, apoio preferencial a alguns candidatos ao Senado e alianças nas eleições para a Câmara dos Deputados sempre que for conveniente para eles. É a escola PMDB em ação : não disputa a presidência, mas garante algum poder nos Estados e bancadas de peso na Câmara e no Senado, seus dois grandes trunfos de barganha com a presidência. O PMDB, que é o modelo dos outros em menor escala, sonha em ter candidatos competitivos aos governos estaduais em pelo menos 20 dos 27 Estados. Muitos com o apoio do PT. Como no RJ, por exemplo, onde o petismo já está nas ruas com a candidatura do senador Lindeberg Faria.
Acomodação difícil
Acomodar tudo isto é uma tarefa complicada até para um político da estirpe de Lula. Uma de suas manobras parece já fracassada: a de fazer Eduardo Campos vice de Dilma e do poeta Michel Temer candidato a governador de SP com o apoio do PT. Nem PT nem PMDB gostaram da conversa e ela está sendo dada como encerrada.
Nem tudo são flores
Aparentemente, o PMDB está apaziguado e em harmonia depois das eleições de Renan Calheiros para a presidência do Senado e de Henrique Eduardo Alves para a da Câmara. Não é bem assim, porém. Está em convulsão nos bastidores partidários novamente, especialmente na bancada da Câmara e em alguns Estados, a insatisfação da "plebe" com o tratamento que recebe do governo Federal, com as relações sempre na base de intriga com o PT, e com os caciques partidários. Este sempre foi um tema recorrente no PMDB nos últimos tempos, mas que Michel Temer e seu grupo conseguiram contornar com habilidade e sem muitos danos, a não ser alguns sustos que os peemedebistas costumam pregar na presidente Dilma. Agora, porém, está diferente. Como já se entrou na reta final das eleições do ano que vem, os peemedebistas querem ser tratados, tanto pelo governo, quanto pelo PT e os manda-chuvas do partido com "mais respeito", como alguns deles andam dizendo abertamente pelos corredores do Congresso.
Ameaças de deserção
Há ameaças sérias de deserção, como a dos mineiros bandeando-se para a candidatura de Aécio Neves se não ganharem um ministério ou algo nas estatais que valha por isso. De um modo geral, o PMDB quer mais ministérios "eleitoralmente" melhores que os quase decorativos (sem importância ou porque eles não mandam de fato) que têm hoje. Esta insatisfação pode explodir na convenção do partido dia 2, sábado, quando Michel Temer, tido por muitos como mais dilmista e governista que peemedebista, pretende disputar a reeleição para mais um mandato à frente da legenda.
Aposta na deserção
Aécio Neves aposta sério na deserção. Não à toa ficou escondido quando a dupla Henrique Alves e Renan Calheiros estava sendo eleita para liderar o poder Legislativo. O risco de Aécio é evidente: pode estar tão sintonizado na "pequena política" que pode esquecer-se de que o eleitor está nas ruas. Aparentemente o mineiro percebeu este risco, mas o seu jogo tem limites: não para de pensar nos parceiros de palanque em 2014. Resta saber se haverá público para escutar o que tem a dizer na eleição presidencial. Além disso, o único aliado interno ao PSDB que tem no curto prazo e que tem voz própria chama-se Fernando Henrique Cardoso, com seus méritos e deméritos.
Teoria da conspiração
1. Com a campanha na rua, os fantasmas começam a rondar até cabeças bem assentadas. Alguns dilmistas, por exemplo, estão vendo nesta movimentação toda do governador Eduardo Campos para fixar sua candidatura como sendo, na verdade, um movimento em favor da candidatura de Lula. O governador já teria dito a mais de uma pessoa que a única coisa que o faria desistir de concorrer à presidência em 2014 seria o ex-presidente querer concorrer.
2. Outra teoria conspiratória diz que, em contrapartida, os dilmistas poderiam lançar o balão de ensaio de uma candidatura Lula do governo de SP, única forma segura de quebrar a hegemonia tucana de 20 anos em SP. Criaria certamente um fato quase consumado e um constrangimento para Lula. São teorias um tanto quando absurdas. Porém, em política, bruxas há.
Quinta coluna
Lula começa sua peregrinação pelo país quarta-feira por Fortaleza, no CE, considerado uma fortaleza inexpugnável dos irmãos Gomes. O governador Cid e o irmão sem mandato Ciro prometem prestigiar o evento do PT que Lula vai abrilhantar. Não está acontecendo de graça a escolha de Fortaleza para inaugurar a nova caravana da cidadania de Lula. No fim de semana, Ciro Gomes, político sem travas na língua, já soltou críticas do presidente do PSB, Eduardo Campos. Brasília conta com os irmãos Gomes para minar o prestígio de Campos por dentro da legenda.
Conspiração ou quinta coluna
Nas últimas semanas o governo já anunciou diversas revisões nos seus planos de concessão (ou privatização) de rodovias, ferrovias e portos. E outras poderão vir. Havia tantos erros assim ? Foram casos de descuido ou ações propositais de quem é contra essas concessões. Sabe-se que há muita resistência na burocracia e nos partidos às "malditas privatizações".
(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)
Como não funcionou totalmente a verborragia oficial para convencer os agentes econômicos, especialmente o mercado, que o BC não tem nenhuma limitação em relação à política monetária e aos juros, começa-se a especular mais fortemente, inclusive nos corredores brasilienses, sobre a possibilidade de a autoridade monetária aprovar na reunião do Copom da próxima semana, ou na do final de abril, um ajuste na Taxa Selic. Seria apenas um aumento pequeno, de apenas 0,25 ponto percentual, apenas para mostrar que o BC continua independente, não sofre "ingerência" nem do Ministério da Fazenda nem do Palácio do Planalto. E mais: que as conveniências eleitorais não batem na porta do imponente edifício meio ocre de grande destaque na paisagem de Brasília, ao lado da Praça dos Três Poderes.
O Banco Central, os juros e o exemplo - II
O BC só voltaria a mexer nos juros básicos da economia para valer mesmo se as expectativas do governo em relação ao comportamento da inflação não se confirmarem. Pelas contas planaltinas, a inflação anualizada ficará alta até meados do ano, sempre acima de 6% podendo até estourar o centro da meta (6,5%) e depois cairia gradualmente até chegar a 5,5%, a mais recente aposta do ministro da Fazenda, Guido Mantega. O governo não desistiu de usar todos os instrumentos possíveis para fazer este ano um PIB bem melhor que o do ano passado, que deve ter ficado em torno de 1%. Inclusive os instrumentos monetários. Por isso, o ajuste de 0,25 ponto se vier é apenas para dar o recado de que o BC está vivo. Todavia, esse rumo pode mudar muito se os preços continuarem rebeldes no segundo semestre. Por uma simples razão: é melhor fazer o mal agora (aumentando os juros) quando a eleição está relativamente longe do que ter que mexer com um dos principais slogans da campanha de Dilma quando a luta eleitoral estiver pegando fogo.
Política econômica e campanha antecipada
Esta coluna ouviu de um dos futuros ouvintes das apresentações do Road Show que Mantega, Gleisi Hoffmann, Luciano Coutinho e outros farão no exterior a seguinte análise: "Nenhum empresário, especialmente na área de infraestrutura, faz apostas grandes, quando faz, em ano eleitoral. O governo, ao antecipar a corrida eleitoral, criou um problema para si mesmo. De um lado, pede dinheiro para quem hesita em dar. De outro, amplia as dúvidas políticas sobre os investimentos. Assim, fica bem difícil...". Obviamente que este não é um ponto de vista isolado. De fato, os maiores comentários dos investidores externos sobre o Brasil é sobre o governo e não os negócios. Questionam a interferência do governo nos setores, as disputas políticas e as reformas que não são feitas. "Na China temos dúvidas grandes sobre estes temas, mas o país cresce acima dos 8%. Por aqui, as dúvidas são grandes, mas o país não cresce", assinala o interlocutor.
Câmbio real
Os economistas costumam se jogar em cálculos de todas as cepas para saber se o câmbio está valorizado ou desvalorizado. Em países onde há liberdade cambial plena, estes cálculos são incertos. Em países como o Brasil e a China estes cálculos são ainda mais incertos. Todavia, se o governo e o BC quiserem uma informação objetiva, basta fazer uma simples pesquisa sobre os custos para a implementação de um projeto no Brasil e compará-los com outras partes do mundo. A resposta deixaria qualquer burocrata do governo preocupado.
Investimentos: caminho de volta
Sabe-se que o mundo está complicado. Há enormes incertezas, sobretudo nos países centrais. Isso, contudo, não tem impedido que capitais mais ariscos estejam tomando o rumo dos EUA. Por lá, percebe-se que lentamente o país está saindo da escuridão e os preços dos ativos são mais convidativos. Além do fato de existirem Estados com incentivos fiscais verdadeiramente estimulantes.
O segredo de polichinelo continua
Já foi dito aqui, mas vale repetir: nenhum governante gosta de antecipar sua sucessão, mesmo se ele for candidato à reeleição e estiver bem na fita de largada. É o caso da presidente Dilma Rousseff. A antecipação só traz desvantagens: divide a atenção do gestor; assanha os adversários que naturalmente aumentam o tom de suas críticas e cobranças e também entram em campanha; e assanha ainda mais os parceiros, que ganham mais uma arma de barganha para garantir a aliança partidária reeleitoral. É exatamente isto que Dilma está experimentando agora, depois que botou espontaneamente seu bloco na rua e, na semana passada, ganhou o aval de ninguém menos do maior eleitor do país, o ex-presidente Lula. O melhor exemplo são os parceiros que já estão com seus candidatos lançados à ministérios, postos de segundo escalão e boas diretorias de estatais e até de agências reguladoras. A presidente pretendia fazer uma reforma restrita, como já foi comentado aqui. Não vai dar mais. E por mais que ela se esforce, a presidente deixará os "mortos e feridos" pelo caminho. Um custo que poderá ser cobrado nas votações no Congresso e no palanque de 2014.
Pergunta e resposta incômoda
Por que Dilma correu todos esses riscos, antecipando ela própria o debate eleitoral? Há várias teorias circulando. Não erra, porém, quem acreditar que um dos alvos tem hoje residência em São Bernardo do Campo.
Lupas sobre a gestão de Haddad
Não são poucos os petistas de coturno alto que estão preocupados com a gestão de Haddad no prédio do Viaduto do Chá. Estes acham que o tutelado de Lula está condicionado a ficar longe dos holofotes do dia a dia como era o caso do Ministério da Educação. Há severas dúvidas se o prefeito paulistano aguenta uma enchente num dia e um incêndio no dia seguinte.
Ele vai nomear também?
Todos os indícios são de que a presidente Dilma "terceirizou" para o ex-presidente Lula as tarefas de manter a base aliada no Congresso unida e obediente e a de formar o grande palanque com o qual ela pretende disputar a reeleição do ano que vem. O objetivo é macro: é aceitável que fiquem de fora apenas o PSDB, o PPS, o DEM e o partido de Marina Silva (se vier a ser criado). Até mesmo o PSB de Eduardo Campos está sendo cercado para, na hora certa, ser cassado e jogado no redil oficial. Tais objetivos exigem amplas (e às vezes inconfessáveis) negociações. Todos estão dispostos a seguir com a presidente desde que sejam regiamente compensados. Com antecipação, nada de contas a pagar em 2015. É aqui e agora. A moeda de troca mais comum chama-se emprego, em ministérios e postos chaves na burocracia Federal. As perguntas são: (1) Lula recebeu carta branca para negociar como bem entender com os aliados? (2) Pode fazer qualquer oferta? (3) Ela vai nomear também ou só indicar? É bom lembrar que parte das indicações de Lula para Dilma no início do governo dela acabou "faxinada".
Eles não estão gostando
Uma parcela dos petistas, com todo o respeito que tem por Lula e Dilma e entendem que o objetivo maior do partido deve ser o poder maior da República, não está gostando muito dos movimentos para criar um palanque para Dilma inflado como nunca houve antes na história deste país. O temor se justifica: os aliados, como compensação pela adesão, deverão cobrar, além de empregos, apoios petistas para seus candidatos a governador, apoio preferencial a alguns candidatos ao Senado e alianças nas eleições para a Câmara dos Deputados sempre que for conveniente para eles. É a escola PMDB em ação : não disputa a presidência, mas garante algum poder nos Estados e bancadas de peso na Câmara e no Senado, seus dois grandes trunfos de barganha com a presidência. O PMDB, que é o modelo dos outros em menor escala, sonha em ter candidatos competitivos aos governos estaduais em pelo menos 20 dos 27 Estados. Muitos com o apoio do PT. Como no RJ, por exemplo, onde o petismo já está nas ruas com a candidatura do senador Lindeberg Faria.
Acomodação difícil
Acomodar tudo isto é uma tarefa complicada até para um político da estirpe de Lula. Uma de suas manobras parece já fracassada: a de fazer Eduardo Campos vice de Dilma e do poeta Michel Temer candidato a governador de SP com o apoio do PT. Nem PT nem PMDB gostaram da conversa e ela está sendo dada como encerrada.
Nem tudo são flores
Aparentemente, o PMDB está apaziguado e em harmonia depois das eleições de Renan Calheiros para a presidência do Senado e de Henrique Eduardo Alves para a da Câmara. Não é bem assim, porém. Está em convulsão nos bastidores partidários novamente, especialmente na bancada da Câmara e em alguns Estados, a insatisfação da "plebe" com o tratamento que recebe do governo Federal, com as relações sempre na base de intriga com o PT, e com os caciques partidários. Este sempre foi um tema recorrente no PMDB nos últimos tempos, mas que Michel Temer e seu grupo conseguiram contornar com habilidade e sem muitos danos, a não ser alguns sustos que os peemedebistas costumam pregar na presidente Dilma. Agora, porém, está diferente. Como já se entrou na reta final das eleições do ano que vem, os peemedebistas querem ser tratados, tanto pelo governo, quanto pelo PT e os manda-chuvas do partido com "mais respeito", como alguns deles andam dizendo abertamente pelos corredores do Congresso.
Ameaças de deserção
Há ameaças sérias de deserção, como a dos mineiros bandeando-se para a candidatura de Aécio Neves se não ganharem um ministério ou algo nas estatais que valha por isso. De um modo geral, o PMDB quer mais ministérios "eleitoralmente" melhores que os quase decorativos (sem importância ou porque eles não mandam de fato) que têm hoje. Esta insatisfação pode explodir na convenção do partido dia 2, sábado, quando Michel Temer, tido por muitos como mais dilmista e governista que peemedebista, pretende disputar a reeleição para mais um mandato à frente da legenda.
Aposta na deserção
Aécio Neves aposta sério na deserção. Não à toa ficou escondido quando a dupla Henrique Alves e Renan Calheiros estava sendo eleita para liderar o poder Legislativo. O risco de Aécio é evidente: pode estar tão sintonizado na "pequena política" que pode esquecer-se de que o eleitor está nas ruas. Aparentemente o mineiro percebeu este risco, mas o seu jogo tem limites: não para de pensar nos parceiros de palanque em 2014. Resta saber se haverá público para escutar o que tem a dizer na eleição presidencial. Além disso, o único aliado interno ao PSDB que tem no curto prazo e que tem voz própria chama-se Fernando Henrique Cardoso, com seus méritos e deméritos.
Teoria da conspiração
1. Com a campanha na rua, os fantasmas começam a rondar até cabeças bem assentadas. Alguns dilmistas, por exemplo, estão vendo nesta movimentação toda do governador Eduardo Campos para fixar sua candidatura como sendo, na verdade, um movimento em favor da candidatura de Lula. O governador já teria dito a mais de uma pessoa que a única coisa que o faria desistir de concorrer à presidência em 2014 seria o ex-presidente querer concorrer.
2. Outra teoria conspiratória diz que, em contrapartida, os dilmistas poderiam lançar o balão de ensaio de uma candidatura Lula do governo de SP, única forma segura de quebrar a hegemonia tucana de 20 anos em SP. Criaria certamente um fato quase consumado e um constrangimento para Lula. São teorias um tanto quando absurdas. Porém, em política, bruxas há.
Quinta coluna
Lula começa sua peregrinação pelo país quarta-feira por Fortaleza, no CE, considerado uma fortaleza inexpugnável dos irmãos Gomes. O governador Cid e o irmão sem mandato Ciro prometem prestigiar o evento do PT que Lula vai abrilhantar. Não está acontecendo de graça a escolha de Fortaleza para inaugurar a nova caravana da cidadania de Lula. No fim de semana, Ciro Gomes, político sem travas na língua, já soltou críticas do presidente do PSB, Eduardo Campos. Brasília conta com os irmãos Gomes para minar o prestígio de Campos por dentro da legenda.
Conspiração ou quinta coluna
Nas últimas semanas o governo já anunciou diversas revisões nos seus planos de concessão (ou privatização) de rodovias, ferrovias e portos. E outras poderão vir. Havia tantos erros assim ? Foram casos de descuido ou ações propositais de quem é contra essas concessões. Sabe-se que há muita resistência na burocracia e nos partidos às "malditas privatizações".
(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)
domingo, 24 de fevereiro de 2013
O DIA TEMIDO POR EINSTEIN
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