Inapetência e ativismo, as "saúvas" do Brasil
Em "Macunaíma", o retrato de um brasileiro sem nenhum caráter, Mário de Andrade avisava que "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil". A saúva, nome de várias espécies de formiga, era uma praga, hoje controlada, que costumava dizimar plantações. O escritor paulista, porém, utilizou a formiga como uma alegoria para condenar a politicalha existente na ocasião na vida nacional. Aliás, como antes e como sempre.
Inapetência e ativismo, as "saúvas" do Brasil - II
A vida burocrática brasileira, também tem as suas saúvas - aliás, muitas - dentre as quais a inapetência gerencial e o ativismo político-ideológico. Essas duas pragas, que grassam na esfera pública, principalmente nos gramados e no concreto de Oscar Niemeyer, viraram, com a politicalha, uma séria ameaça ao desenvolvimento do país. Nada exemplifica melhor o poder destrutivo dessas pragas que o programa de concessões de obras e serviços de infraestrutura do governo Federal. Já lá se vão mais de oito meses que a presidente Dilma lançou, com toda a pompa e circunstância que é capaz de produzir "o ministro sem pasta para assuntos de propaganda" [o marqueteiro João Santana], um pacote de concessões nas áreas de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Avaliado no total em mais de três centenas de bilhões de reais, era, segundo a propaganda oficial, o fim dos apagões logísticos que ameaçam sedar a economia, alguns bem visíveis neste momento exato em que mais uma safra nacional recorde começa a sair do campo.
Inapetência e ativismo, "as saúvas" do Brasil - III
Assim como os caminhões agora parados na beira das estradas nas portas dos portos, nada andou de lá para cá. Um caso gritante é da concessão de trechos da BR-040 (ligação Brasília-Rio de Janeiro, passando por Minas Gerais) e da BR-101, uma das estradas de integração nacional. O leilão foi suspenso às vésperas de sua realização e não tem data para acontecer. Também não há data certa para outros leilões na área de ferrovia e nas outras. As razões para tanta demora podem ser resumidas em duas :
1. A proverbial e conhecida dificuldade do setor público brasileiro para executar suas obrigações. As próprias concessões agora previstas nasceram depois que o Brasil finalmente admitiu que, além de não ter dinheiro suficiente para bancar os projetos, tem insuficiente capacidade de execução para levá-los adiante. Mesmo assim, não consegue soltar as amarras, tal a quantidade de órgãos indiretamente envolvidos no processo - há os ministérios respectivos, a Empresa de Planejamento Logístico com mais poder que alguns ministros, o BNDES com seus palpites e o ministério da Fazenda. Sem contar que nada sai do lugar sem o "aprovado" da presidente Dilma, cada vez com a cabeça dividida entre gestão e eleição.
2. O ativismo político e econômico do governo - e certa vergonha de "privatizar" - que o levam a tentar manter as concessões sob seu controle direto ou indireto e, por isso, a criar regras que acabaram afugentando possíveis investidores nacionais e estrangeiros.
Inapetência e ativismo, "as saúvas" do Brasil IV
O leilão das BRs 040 e 101 foi adiado porque não apareceram interessados de peso. Desde que anunciou o pacote, em agosto, já foram anunciadas várias mudanças nos editais, para contornar as resistências dos investidores. Um dia a notícia vem do presidente da EPL, Bernardo Figueiredo, no outro do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, no seguinte do ministro da Fazenda, Guido Mantega - e, de vez em quando, até de algum outro ministro. Não há um modelo fechado e, nesta altura, dificilmente qualquer obra nessas áreas será iniciada em 2013. Mais um ano perdido de investimentos. Para atacar as saúvas biológicas, a receita é formicida. Que tipo de formicida pode-se aplicar para matar as saúvas da burocracia ?
Banco Central em transe
Desde que seu presidente do BC, Alexandre Tombini, foi escalado para corrigir o barulho provocado pelas declarações meio destrambelhadas da presidente Dilma na África do Sul a respeito de inflação, crescimento do PIB, juros e mais outros assuntos, o BC parece tomado de um transe - reafirmar sua condição de autoridade monetária independente de condicionantes políticas. Tombini, em mais de uma ocasião, fez juras de amor à política de combate à inflação sem concessões - se necessário com elevação dos juros, tido como um dos tabus eleitorais de Dilma. O Boletim Trimestral de Inflação, além de contrariar as previsões "manteguianas", também faz menções críticas à algumas políticas fazendárias. Uma delas passou despercebida, incluída num anexo, desvendada pelo jornal "Valor Econômico" : o BC passou a considerar um novo cálculo para o superávit/déficit primário das contas federais, expurgando em boa parte as mágicas fiscais dos últimos anos que garantiram no papel um superávit na contabilidade oficial que não aconteceu no mundo.A primeira leitura desses movimentos é que "os incômodos" do BC com a inflação são maiores do que transparece a vã filosofia brasiliense. A outra é a de que Tombini e sua turma precisam dar uma satisfação, ainda que pro forma aos agentes econômicos de que não apenas está vivo como também ativo. A especulação é de que a resposta viria com um aumento de 0,25 ponto percentual na Selic na semana que vem.
Inflação: o curto prazo
Não é apenas de tomates que a elevada inflação vive. O que se vê é um sistemático e generalizado processo de aumento de preços. Já comentamos nesta coluna (na semana passada) que o problema não é apenas o fato da inflação ser 6% ou 6,5%, mas o conjunto das informações (alta generalizada de preços, câmbio valorizado, baixo crescimento, etc.). De fato, ponderados a política e a economia, a equação macro e microeconômica não fecha. Afora estes aspectos estruturais, o IPCA a ser divulgado amanhã vai "furar" a banda superior da meta de inflação. Um mau sinal que apenas mostrará que a água está subindo e o BC persiste de mãos atadas, seja pela presidente, seja pela conjuntura - o PIB que capenga não justificaria uma taxa de juros mais elevada. O mais estranho é a passividade da classe política, em geral, e da oposição em particular. A crise é emergente, mas também é imanente - a politicagem não pode ser distinguida da fragilidade da política econômica. Tudo deve continuar na mesma toada enquanto o desemprego não mostre seus dentes. O que pode demorar até o eleitor depositar o seu voto e descobrir que foi traído pelas aparências.
Recordando Lula 2002
"Mas é preciso insistir: só a volta do crescimento pode levar o país a contar com um equilíbrio fiscal consistente e duradouro. A estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação são hoje um patrimônio de todos os brasileiros". (Carta aos Brasileiros, 22 de junho de 2002)
Enquanto isso, nos EUA...
Todos os mais importantes sinais vitais da economia dos EUA são positivos, exceto o desemprego que deve permanecer elevado (acima de 7%), talvez por mais alguns anos. De outro lado, o crédito cresce, o país se reindustrializa (em novas bases), a produtividade cresce, e o consumo e produção, pouco a pouco, começam a dar sinais de vigor. Logicamente, o endividamento público (e privado) é elevado, mas o dólar, tantas vezes "enterrado" como sendo uma moeda decadente, permanece forte e o mundo financia docemente a América. Enquanto isso, Barack Obama estimula sua tropa palaciana a debater alternativas para a política econômica. Estuda-se desde o aprofundamento do quantitative easing (política monetária frouxíssima) até o estabelecimento de novas metas para o Federal Reserve (meta de PIB nominal ao invés de meta de inflação e crescimento). O mais importante é que o mundo assiste a evolução dos fatos nos EUA com maior otimismo, enquanto no campo interno os consumidores voltam às lojas e os investidores à bolsa de valores.
Algo além de aviões de carreira
Em menos de quatro dias, a presidente Dilma bateu continência duas vezes para o ex-presidente Lula. Na quinta-feira, ela veio a SP, para uma conversa de cerca de 7 horas - tempo suficiente para se fazer um bom resumo da Bíblia - com seu mentor, compartilhada em parte com o presidente do PT, Rui Falcão, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e o ex-ministro e o "consultor privado" Antonio Palocci. Uma reunião do apostolado petista, como se vê. No sábado, voltou à capital paulista para um jantar, na churrascaria Rodeio, ex-reduto tucano, em comemoração ao aniversário da ex-primeira dama, Marisa Letícia, na presença de uma parte da elite petista paulista. Os compromissos eram privados, mas Dilma cortou os ares entre Brasília e SP nos jatos oficiais. As reverências à Lula indicam que no ar da política também há algo a preocupar mais do que o normal dos "aviões de carreira". Podem apostar numa cesta que inclui inflação, crescimento econômico e as eleições presidenciais. O fantasma Eduardo Campos e o crescimento das críticas dele e de Aécio Neves ao governo estão fazendo caraminholas na cabeça do mundo oficial. Anotem : vem aí mais aperto contra os adversários e mais bondades na economia.
Aos amigos tudo...
...aos inimigos o rigor da lei. Este é um lema político-administrativo atribuído a Getúlio Vargas no Brasil, mas que por essas plagas tupiniquins não haja governante que não tenha abraçado. E seu peso agora começará a cair sobre a cabeça do governador de PE, Eduardo Campos.
Plumagens em alvoroço
Muitas penas tucanas começaram a voar depois que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em duro recado durante um encontro promovido pelo PSDB paulista, manifestou a sua inconformidade com as divisões de seu partido. Plumas devem ter voado principalmente no território paulista do tucanato, embora o aviso de FHC tivesse destino generalizado. Assim, não parece ter sido à toa a entrevista do presidente nacional do PSDB Sérgio Guerra, pernambucano ligado também ao governador Eduardo Campos, ao jornal "O Estado de Minas" de segunda-feira, elogiando Aécio Neves e até traçando um roteiro básico para sua campanha. Desconfiada, a turma mineira achava que Guerra poderia estar com um pé em dois barcos.
Será?
Se depender das entrevistas em jornais - duas exclusivas apenas na sexta-feira - de matérias positivas e notinhas em diversos veículos e das poses de papagaio de pirata com frequência ao lado da presidente Dilma não há menor dúvida de que o ministro da Educação, Aloizio Mercadante (também conhecido por alguns, não se sabe a razão, como o "José Serra do PT") já é o candidato petista ao governo de SP. Não se sabe ainda se isto foi combinado certinho com Marta Suplicy, Alexandre Padilha, José Eduardo Cardozo, Luiz Marinho e, principalmente, com o ex-presidente Lula. De todo forma, se confirmado, é o melhor presente que Geraldo Alckmin gostaria de receber para 2014.
Quantos votos eles têm mesmo?
José Batista Junior, dono da Friboi, da produtora de celulose Eldorado e do Banco Original (dirigido por Henrique Meirelles), bem como um dos fregueses mais importantes do BNDES, estava cobiçado pelo PSB de Eduardo Campos para candidato do partido ao governo de GO e dar um palanque recheado ao governador de PE no Estado. Por razões que os interesses empresariais explicam, acabou fisgado pelo PMDB do vice-presidente e poeta Michel Temer e, desta forma, vai engordar o palanque de Dilma, ou como candidato à sucessão de Marconi Perillo defendendo as cores do peemedebismo ou numa vice com o PT. Em MG, Josué Gomes da Silva, filho do ex-vice presidente José Alencar e principal acionista da Coteminas, uma das maiores indústrias têxteis do Brasil, é disputado pelo PT e pelo PMDB para a sucessão ao governo mineiro, ou como candidato titular ao Palácio da Liberdade ou como vice numa chapa encabeçada pelo ministro petista Fernando Pimentel. O que tem em comum o Junior e o Josué além de serem neófitos em política e bem sucedidos empresários? O risco de serem seduzidos para rechear arcas dos oposicionistas. Em casos assim, o que menos importa são os votos que eles podem carregar para as urnas de seus partidos-hospedeiros.
Thatcher, ideologia e realidade
Pode-se falar tudo da primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher, menos o fato de que a Iron Lady não era uma política definida ideologicamente. Verdade que vivíamos a denominada Guerra Fria, mas a definição da cepa política de um homem público ainda tem seu valor, muito embora seja coisa rara no globo. No Brasil, ultrapassa-se o limite entre esquerda e direita, liberal e conservador, socialista e capitalista, numa velocidade para além do jornalista Clark Kent quando sair das cabines de telefone. A identidade dos empresários brasileiros com os ideais do PT e sua aliança mostram que o ex-partido operário está ocupando não apenas espaços políticos, mas também contribuindo para que espaços econômicos sejam ocupados com galhardia pelos capitalistas, no passado, "nefastos" para o petismo. Seria difícil explicar para a Dama de Ferro a conjuntura política brasileira.
Dirceu e a Rede Globo
Comentário no blog do ex-ministro José Dirceu:
"Em editorial, o jornal carioca apoia uma outra "regulação" e, a pretexto de defender a cultura nacional, visa a impedir a concorrência com grandes sites e teles estrangeiras. O Globo ainda insiste em demonizar a proposta de uma verdadeira regulação, alegando desrespeito à princípios constitucionais. Mas é a própria Constituição que trata da necessidade da regulação."
Não são poucas as pressões que o ministro das Telecomunicações Paulo Bernardo (e marido de Gleise Hoffmann) vem sofrendo de dentro do PT para regular a mídia no Brasil. Resta saber o que pensa a presidente sobre o tema. Ela que é próxima do casal.
Jabuti não sobe em árvore
Marco Feliciano, o deputado-pastor, é mesmo uma excrescência, uma aberração, na presidência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Porém, ele não chegou lá sozinho. Seu partido, o PSC, nem número de deputados tem para ocupar a presidência de uma comissão permanente, segundo a praxe da casa. O lugar, tradicionalmente, é do PT, que por razões da política dos políticos, abriu mão dele. Ninguém no Congresso, em sã consciência, pode negar que sabia das posições de Feliciano. Ele nunca negou isto e tem todo o direito de ter as posições que tem. Ele foi indicado por seu partido e votado pelos membros da Comissão, de diversas legendas. Não subiu sozinho nesta árvore. E ninguém se deu conta da aberração antes das críticas vindas de fora? As reações do Congresso e dos partidos agora são pura hipocrisia, daquelas que consagraram grandes escritores...
(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)
Este espaço se quer simples: um altar à deusa Themis, um forno que libere pão para o espírito, uma mesa para erguer um brinde à ética, uma calçada onde se partilhe sonho e poesia!
terça-feira, 9 de abril de 2013
segunda-feira, 8 de abril de 2013
ESCUTATÓRIA

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que moram em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos, não são as árvores e as flores. Para ser ver é preciso que a cabeça esteja vazia.
Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos.(Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonita é a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma dela contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca acertava – dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim esperando, evidentemente, o aplauso, admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: "Mas isso não é nada..." A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.
Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma." Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas." Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não "evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório pra não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma.) Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essencais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado." Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou." Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou. E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: "Meus irmãos, vamos cantar o hino..." Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. É música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia que de tão linda nos faz chorar. Pra mim Deus é isso: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá tembém. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...
(Rubem Alves)
domingo, 7 de abril de 2013
DEUS E O DIABO NO TEATRO POLÍTICO
No Estado-Espetáculo, até Deus é usado como bengala de apoio aos representantes políticos. O ditador Francisco Franco, que governou a Espanha por 36 anos (1939-1975), usava a Providência divina para afirmar sua legitimidade: “Deus colocou em nossas mãos a vida de nossa Pátria para que a governemos”.
Não satisfeito, mandou cunhas nas moedas: “Caudilho pela graça de Deus”. Idi Amin Dada, o cabo que se tornou marechal de Uganda, sanguinário e paspalhão, dizia ao povo que falava com Deus nos sonhos.
Um dia deparou-se com a pergunta de um jornalista: “O senhor tem com frequência esses sonhos? Conversa muito com Deus?” Lacônico, o cara de pau respondeu: “Sempre quando necessário”.
A história é cheia de casos em que atores políticos organizam o próprio culto, ornando sua aura com atributos divinos. Nietzsche chegou a proclamar: “A apoteose da aventura humana é a glorificação do homem-Deus”. Mas o diabo também é avocado como protagonista do teatro da política fosforescente.
A desastrada declaração do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) de que, antes dele presidi-la, a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados era dominada por Satanás comprova a tese.
Nos últimos tempos, por nossas bandas, impulsionados por uma onda midiática que entra nas noites e madrugadas construindo um novo pentecostalismo, bispos, pastores e apóstolos não medem esforços para organizar exércitos do bem para enfrentar as forças do mal.
Do alto de uma montanha de dízimos, os comandantes de guerra contra as trevas estruturam impérios religiosos, ganham concessões do Estado (para execrar, frequentemente, o próprio Estado), locupletam cofres, organizam partidos e aumentam a fatia política com bancadas cada vez mais gordas.
A expressão radical torna-se arma de combate e de engajamento de milícias. Já a defesa de posições conservadoras funciona como escudo. A índole discriminatória explode. Essa é a composição que explica o imbróglio envolvendo o novo presidente da Comissão de Direitos Humanos.
Flagrado ao postar mensagens homofóbicas e racistas nas redes sociais, Feliciano arremata, em inflamado sermão, que, “pela primeira vez na história desse País, um pastor cheio de espírito santo” conquistou espaço dominado pelas tropas de Belzebu.
Destemperado, o deputado jogou no fogo do inferno companheiros que já comandaram aquele território “satânico”. E assim, comete um pecado ético, deixando transparecer a ruptura do princípio republicano que estabelece a separação entre igreja e Estado.
É evidente que o verbo messiânico tenta desenhar a figura de um “herói” sob proteção divina. Maquiavelismo. A linguagem cortante, claro, resultará em bacia cheia de votos em 2014. Atente-se para o espírito do nosso tempo: culto da personalidade, competitividade entre igrejas, organicidade social, multiplicação de grupos de pressão, expansão da democracia participativa, abertura da locução social.
Com o foguetório, o pregador consegue chegar aos píncaros da visibilidade, meta ambicionada por qualquer parlamentar. Vale lembrar que foi eleito pelos pares para comandar a Comissão de Direitos Humanos. Até ai tudo bem. Inaceitável é o uso (e abuso) de peroração discriminatória dentro de um organismo criado exatamente para defender os postulados da igualdade e da pluralidade.
Resta observar que o “enviado dos céus” ultrapassou seus 15 minutos de fama. E parece querer mais, ampliando espaços midiáticos e sendo eleito como o bastião da resistência evangélica no Congresso. Multiplicará o rebanho e consolidará a imagem de “guerreiro do Espírito Santo”? Não há certeza. Mas a ambição desvairada pelo poder acabou turvando a visão do ator.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos caiu na tentação de ultrapassar os limites do bom senso. Ao trazer Satanás para a mesa da política e identificá-lo com seus pares, abriu caminho para ser examinado pela lupa ética.
A imbricação de política e religião, na forma como o fez, e logo dentro da Comissão que espelha direitos humanos, pode ser o motivo para seu afastamento. Não é de hoje que objetos sagrados e profanos são embalados pelo celofane da política. No Brasil, a amálgama tem sido rotineira, a partir das concessões na área de rádio e TV para grupos e igrejas. Os dois territórios bifurcam-se, sob o olhar complacente de quem tem poder para evitá-la.
Até se admite que a concorrência entre católicos e pentecostais estimula os contendores a aprofundar as relações com o Estado, como se vê na recente proposta do deputado evangélico João Campos (PSDB-GO), que garante às entidades religiosas poder de contestar a constitucionalidade de leis no STF. (Por que não estender o privilégio aos ritos afrobrasileiros?)
Deslocar a religião para o palco da política, no molde feliciano, é pregar abertamente a ilicitude dentro da própria Casa que faz as leis e deve dar exemplo de disciplina. Não se pretende defender postura apolítica de igrejas e credos. Seu papel missionário implica tomar partido, lutar por ideários e convicções, ações que inescapavelmente adentram os corredores do Parlamento. Podem, até, sugerir a eleição de perfis identificados com os valores da República. Constituem motivo de aplauso, igualmente, ações sociais pela elevação e promoção do ser humano, particularmente dos contingentes marginalizados. Essa é a visão abrangente da política que as igrejas podem perseguir.
Outra coisa é política partidária, usar a religião como instrumento de negócios lucrativos, imã para atrair fiéis e posicioná-los nas siglas. A invasão religiosa no espaço público ameaça manchar o escopo republicano, apesar de sabermos que o ativismo eleitoreiro de certas igrejas acabará acentuando tal tendência. Urge dar um basta na construção da “Igreja-Estado”.
Foram-se os tempos em que líderes religiosos coroavam e descoroavam reis e rainhas. O bom senso aconselha: senhores políticos, muito cuidado para não trombetear o nome de Deus na tuba da politicagem.
(Gaudêncio Torquato)
Não satisfeito, mandou cunhas nas moedas: “Caudilho pela graça de Deus”. Idi Amin Dada, o cabo que se tornou marechal de Uganda, sanguinário e paspalhão, dizia ao povo que falava com Deus nos sonhos.
Um dia deparou-se com a pergunta de um jornalista: “O senhor tem com frequência esses sonhos? Conversa muito com Deus?” Lacônico, o cara de pau respondeu: “Sempre quando necessário”.
A história é cheia de casos em que atores políticos organizam o próprio culto, ornando sua aura com atributos divinos. Nietzsche chegou a proclamar: “A apoteose da aventura humana é a glorificação do homem-Deus”. Mas o diabo também é avocado como protagonista do teatro da política fosforescente.
A desastrada declaração do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) de que, antes dele presidi-la, a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados era dominada por Satanás comprova a tese.
Nos últimos tempos, por nossas bandas, impulsionados por uma onda midiática que entra nas noites e madrugadas construindo um novo pentecostalismo, bispos, pastores e apóstolos não medem esforços para organizar exércitos do bem para enfrentar as forças do mal.
Do alto de uma montanha de dízimos, os comandantes de guerra contra as trevas estruturam impérios religiosos, ganham concessões do Estado (para execrar, frequentemente, o próprio Estado), locupletam cofres, organizam partidos e aumentam a fatia política com bancadas cada vez mais gordas.
A expressão radical torna-se arma de combate e de engajamento de milícias. Já a defesa de posições conservadoras funciona como escudo. A índole discriminatória explode. Essa é a composição que explica o imbróglio envolvendo o novo presidente da Comissão de Direitos Humanos.
Flagrado ao postar mensagens homofóbicas e racistas nas redes sociais, Feliciano arremata, em inflamado sermão, que, “pela primeira vez na história desse País, um pastor cheio de espírito santo” conquistou espaço dominado pelas tropas de Belzebu.
Destemperado, o deputado jogou no fogo do inferno companheiros que já comandaram aquele território “satânico”. E assim, comete um pecado ético, deixando transparecer a ruptura do princípio republicano que estabelece a separação entre igreja e Estado.
É evidente que o verbo messiânico tenta desenhar a figura de um “herói” sob proteção divina. Maquiavelismo. A linguagem cortante, claro, resultará em bacia cheia de votos em 2014. Atente-se para o espírito do nosso tempo: culto da personalidade, competitividade entre igrejas, organicidade social, multiplicação de grupos de pressão, expansão da democracia participativa, abertura da locução social.
Com o foguetório, o pregador consegue chegar aos píncaros da visibilidade, meta ambicionada por qualquer parlamentar. Vale lembrar que foi eleito pelos pares para comandar a Comissão de Direitos Humanos. Até ai tudo bem. Inaceitável é o uso (e abuso) de peroração discriminatória dentro de um organismo criado exatamente para defender os postulados da igualdade e da pluralidade.
Resta observar que o “enviado dos céus” ultrapassou seus 15 minutos de fama. E parece querer mais, ampliando espaços midiáticos e sendo eleito como o bastião da resistência evangélica no Congresso. Multiplicará o rebanho e consolidará a imagem de “guerreiro do Espírito Santo”? Não há certeza. Mas a ambição desvairada pelo poder acabou turvando a visão do ator.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos caiu na tentação de ultrapassar os limites do bom senso. Ao trazer Satanás para a mesa da política e identificá-lo com seus pares, abriu caminho para ser examinado pela lupa ética.
A imbricação de política e religião, na forma como o fez, e logo dentro da Comissão que espelha direitos humanos, pode ser o motivo para seu afastamento. Não é de hoje que objetos sagrados e profanos são embalados pelo celofane da política. No Brasil, a amálgama tem sido rotineira, a partir das concessões na área de rádio e TV para grupos e igrejas. Os dois territórios bifurcam-se, sob o olhar complacente de quem tem poder para evitá-la.
Até se admite que a concorrência entre católicos e pentecostais estimula os contendores a aprofundar as relações com o Estado, como se vê na recente proposta do deputado evangélico João Campos (PSDB-GO), que garante às entidades religiosas poder de contestar a constitucionalidade de leis no STF. (Por que não estender o privilégio aos ritos afrobrasileiros?)
Deslocar a religião para o palco da política, no molde feliciano, é pregar abertamente a ilicitude dentro da própria Casa que faz as leis e deve dar exemplo de disciplina. Não se pretende defender postura apolítica de igrejas e credos. Seu papel missionário implica tomar partido, lutar por ideários e convicções, ações que inescapavelmente adentram os corredores do Parlamento. Podem, até, sugerir a eleição de perfis identificados com os valores da República. Constituem motivo de aplauso, igualmente, ações sociais pela elevação e promoção do ser humano, particularmente dos contingentes marginalizados. Essa é a visão abrangente da política que as igrejas podem perseguir.
Outra coisa é política partidária, usar a religião como instrumento de negócios lucrativos, imã para atrair fiéis e posicioná-los nas siglas. A invasão religiosa no espaço público ameaça manchar o escopo republicano, apesar de sabermos que o ativismo eleitoreiro de certas igrejas acabará acentuando tal tendência. Urge dar um basta na construção da “Igreja-Estado”.
Foram-se os tempos em que líderes religiosos coroavam e descoroavam reis e rainhas. O bom senso aconselha: senhores políticos, muito cuidado para não trombetear o nome de Deus na tuba da politicagem.
(Gaudêncio Torquato)
sexta-feira, 5 de abril de 2013
ARTIGO DE NIZAN GUANAES SOBRE O PAPA FRANCISCO
Que coisa mágica é a vida. Estava eu chegando a Buenos Aires na semana passada para uma reunião de trabalho e jamais poderia imaginar que estivesse ali naquele dia para presenciar a mão do Espírito Santo e da história.
Saí do Aeroparque, o belo aeroporto ribeirinho da capital argentina, e fui até o meu hotel trocar de roupa antes de minha reunião. Liguei a televisão e, para a minha surpresa, o papa já havia sido escolhido.
Durante a próxima hora, eu e o mundo esperamos para ver que novo papa a fumaça branca nos traria. E eis que ele chegou. Surpreendente como a vida. Um argentino. E eu em Buenos Aires.
Começava ali uma aula de comunicação para o mundo que resume e mostra de maneira instintiva tudo o que os teóricos enchem a paciência e perdem um tempo enorme para explicar: a comunicação de 360 graus.
O cardeal Jorge Mario Bergoglio mostrou sem PowerPoint nem lero-lero como uma palavra pode mudar tudo, como um nome pode ser capaz de transmitir para o mundo todo uma mensagem tão poderosa e precisa.
A palavra é Francisco.
Francisco é uma palavra rica de significados num mundo pobre de significado.
Francisco quer dizer coma moderadamente num mundo obeso. Francisco quer dizer beba com alegria num mundo que enfia a cara no poste. Francisco quer dizer consumo responsável em sociedades de governos e consumidores endividados. Francisco quer dizer o uso responsável do irmão ar, do irmão mar, do irmão vento e de todas as riquezas debaixo do irmão Sol e da irmã Lua.
Francisco é um freio de arrumação não só na Igreja Católica Apostólica Romana, mas na sociedade a quem ela deve guiar. Em 24 horas, Bergoglio pegou uma instituição que estava emparedada e a tirou da parede, transportou-a dos intramuros do Vaticano para o meio da rua, para o meio do rebanho.
Comunicar é o papel da igreja. Para isso, foram escritos o Velho Testamento e o Novo Testamento, e Jesus não deixa dúvida quando disse aos apóstolos: "Ide e anunciai o Evangelho".
Ide, ao contrário do que faz a gorda Cúria Romana, quer dizer ir, não quer dizer ficar em Roma. Quer dizer ir e anunciar.
E anunciar hoje é muito mais do que o comercial de 30 segundos. Anunciar hoje é usar todas as ferramentas disponíveis, todos os pontos de contato com seu público. Papa Francisco sabe disso muito bem.
Tanto sabe que muito antes de se apresentar ao mundo na sacada do Vaticano baixou um Steve Jobs nele, e, quando o monsenhor veio lhe oferecer uma veste toda rebuscada, Francisco Jobs retrucou: Se o senhor quiser, pode vesti-la, monsenhor, eu, não. O carnaval acabou.
É digno de reparo que Francisco não fez pesquisas nem testes antes de criar tudo isso. Não precisava. Foi buscar sua mensagem no DNA da igreja. E está escrevendo certo por linhas tortas.
Mesmo as coisas conservadoras que têm dito, coisas com as quais eu pessoalmente não concordo, são muito relevantes. A igreja não pode querer agradar a todo mundo. Ela tem que marcar territórios e significar coisas, e, ao fazê-lo, naturalmente exclui almas de seu rebanho.
Marca, design, conduta, relações públicas, endomarketing, alinhamento interno: "habemus papa".
Francisco se utilizou de todos os recursos do marketing para passar sua mensagem rapidamente, com alto impacto e precisão, para
o público interno e para o público externo.
Parece até que o 3G Capital assumiu o comando da igreja. Choque de gestão, orçamento base zero, alinhamento com a cultura perdida, volta às raízes, fé no trabalho, administração franciscana e disciplina de jesuíta de santo Inácio e professor Falconi.
Paradoxalmente, Francisco hoje acredita numa gestão mais parecida com Lutero do que com a tradição romana. Mas a igreja só teve que se enfrentar com Lutero porque ao longo do tempo se esqueceu da palavra Francisco.
Nizan Guanaes publicitário baiano, é dono do maior grupo publicitário do país, o ABC. Escreve às terças-feiras, a cada duas semanas, no caderno 'Mercado'.
Saí do Aeroparque, o belo aeroporto ribeirinho da capital argentina, e fui até o meu hotel trocar de roupa antes de minha reunião. Liguei a televisão e, para a minha surpresa, o papa já havia sido escolhido.
Durante a próxima hora, eu e o mundo esperamos para ver que novo papa a fumaça branca nos traria. E eis que ele chegou. Surpreendente como a vida. Um argentino. E eu em Buenos Aires.
Começava ali uma aula de comunicação para o mundo que resume e mostra de maneira instintiva tudo o que os teóricos enchem a paciência e perdem um tempo enorme para explicar: a comunicação de 360 graus.
O cardeal Jorge Mario Bergoglio mostrou sem PowerPoint nem lero-lero como uma palavra pode mudar tudo, como um nome pode ser capaz de transmitir para o mundo todo uma mensagem tão poderosa e precisa.
A palavra é Francisco.
Francisco é uma palavra rica de significados num mundo pobre de significado.
Francisco quer dizer coma moderadamente num mundo obeso. Francisco quer dizer beba com alegria num mundo que enfia a cara no poste. Francisco quer dizer consumo responsável em sociedades de governos e consumidores endividados. Francisco quer dizer o uso responsável do irmão ar, do irmão mar, do irmão vento e de todas as riquezas debaixo do irmão Sol e da irmã Lua.
Francisco é um freio de arrumação não só na Igreja Católica Apostólica Romana, mas na sociedade a quem ela deve guiar. Em 24 horas, Bergoglio pegou uma instituição que estava emparedada e a tirou da parede, transportou-a dos intramuros do Vaticano para o meio da rua, para o meio do rebanho.
Comunicar é o papel da igreja. Para isso, foram escritos o Velho Testamento e o Novo Testamento, e Jesus não deixa dúvida quando disse aos apóstolos: "Ide e anunciai o Evangelho".
Ide, ao contrário do que faz a gorda Cúria Romana, quer dizer ir, não quer dizer ficar em Roma. Quer dizer ir e anunciar.
E anunciar hoje é muito mais do que o comercial de 30 segundos. Anunciar hoje é usar todas as ferramentas disponíveis, todos os pontos de contato com seu público. Papa Francisco sabe disso muito bem.
Tanto sabe que muito antes de se apresentar ao mundo na sacada do Vaticano baixou um Steve Jobs nele, e, quando o monsenhor veio lhe oferecer uma veste toda rebuscada, Francisco Jobs retrucou: Se o senhor quiser, pode vesti-la, monsenhor, eu, não. O carnaval acabou.
É digno de reparo que Francisco não fez pesquisas nem testes antes de criar tudo isso. Não precisava. Foi buscar sua mensagem no DNA da igreja. E está escrevendo certo por linhas tortas.
Mesmo as coisas conservadoras que têm dito, coisas com as quais eu pessoalmente não concordo, são muito relevantes. A igreja não pode querer agradar a todo mundo. Ela tem que marcar territórios e significar coisas, e, ao fazê-lo, naturalmente exclui almas de seu rebanho.
Marca, design, conduta, relações públicas, endomarketing, alinhamento interno: "habemus papa".
Francisco se utilizou de todos os recursos do marketing para passar sua mensagem rapidamente, com alto impacto e precisão, para
o público interno e para o público externo.
Parece até que o 3G Capital assumiu o comando da igreja. Choque de gestão, orçamento base zero, alinhamento com a cultura perdida, volta às raízes, fé no trabalho, administração franciscana e disciplina de jesuíta de santo Inácio e professor Falconi.
Paradoxalmente, Francisco hoje acredita numa gestão mais parecida com Lutero do que com a tradição romana. Mas a igreja só teve que se enfrentar com Lutero porque ao longo do tempo se esqueceu da palavra Francisco.
Nizan Guanaes publicitário baiano, é dono do maior grupo publicitário do país, o ABC. Escreve às terças-feiras, a cada duas semanas, no caderno 'Mercado'.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
CONJUNTURA NACIONAL
O circo
Começo com um final de campanha numa cidadezinha mineira. Final de campanha política em Divinópolis/MG. O candidato governista patrocina uma sessão matinê de circo para a galera eleitoral. Animação geral. Depois das risadas com os palhaços, a vez do leão. O domador exibe suas qualidades com a fera. Rugindo muito, o leão abre a bocarra, arreganha os dentes e fura a gaiola. Bate o pavor. As pessoas começam a correr. O caos se instala. A criançada se atropela em alvoroço. O "mineirim", numa cadeira de rodas, com a perna engessada, se esforça para sair do sufoco. A galera, ao ver o pobre estropiado, começa a gritar para acudi-lo:
- O cara engessado, o cara engessado. Pegue o cara engessado.
Desesperado, o "mineirim" rodopia na cadeira de rodas, enquanto o leão se aproxima. As pessoas continuam a gritar:
- O cara engessado, o cara engessado.
Sem forças, quase desistindo, "o mineirim" grita, fulo da vida:
- Vão se lascar, cambada de filhos da mãe; deixa o leão iscoiê sozim....
O jogo de Dilma
A presidente Dilma Rousseff deixa de lado a feição técnica que caracteriza seu perfil e arremata, com precisão de experiente política, a moldura governativa. Acaba de confirmar a indicação do ex-senador César Borges (PR) para ocupar a Pasta dos Transportes, da qual saíra, tempos atrás, o presidente da legenda, senador Alfredo Nascimento. Ou seja, o espaço continua a ser ocupado pelo partido. Nascimento foi praticamente alijado do governo. Volta em grande estilo. Tudo por conta do pleito de 2014. Dilma quer ampliar e consolidar a base governista, nesse momento em que a competitividade eleitoral, ao que parece, tende a se acirrar. Borges, apesar de não contar com o apoio maciço da bancada, não sofre restrições da cúpula.
Afif no Ministério
A presidente Dilma, ainda na esteira de reforço à estratégia de consolidação da base governista, escolheu Guilherme Afif Domingos para comandar a Secretaria da Pequena e Média Empresa, que terá status de Ministério. Afif, do PSD de Kassab, conhece como ninguém as questões pertinentes às pequenas empresas. A escolha foi acertada. Mas Kassab faz questão de frisar que a indicação não é do partido, mas seleção pessoal da presidente. Claro, isso faz parte do jogo. Seria feio passar a impressão de que estaria negociando apoio ao governo com uma vaga no Ministério. Ademais, com cerca de 50 parlamentares, sendo a quarta bancada da Câmara, o PSD não se contentaria com uma Pasta recém-criada e sem força política. Por isso, Kassab quis se despregar da ideia do troco. Ademais, quer ver a banda passar. A banda de Eduardo Campos. Se tocar fazendo muito barulho, poderá arrastar o folião Kassab e sua trupe. Mais adiante, é claro.
Campos na arena
A essa altura, está praticamente decidida a entrada na arena de 2014 do governador de PE, Eduardo Campos. O neto de Arraes ouve interlocutores de todos os lados. Consenso: deve ser candidato. Não há uma opinião em contrário. Mesmo aqueles que não acreditam em suas chances, dizem a ele: você será vencedor em qualquer circunstância. Perdendo, ganha imensa visibilidade e credencia-se para 2018. Lula não perdeu três vezes? Campos tem boa penetração no empresariado. Mas encontra um paredão no Sudeste, particularmente nos dois maiores colégios eleitorais do país, SP, com mais de 30 milhões de eleitores, e RJ, com 15 milhões.
E Lacerda, hein?
Ademais, pode não contar com sua chave para abrir portas no Sudeste: Márcio Lacerda, o prefeito de BH, que é do PSB, partido de Campos. MG é o terceiro maior colégio eleitoral do país. Mineiros e não mineiros apostam que Lacerda acabará afagando a candidatura do tucano Aécio Neves.
Os Gomes
Pois é, com todo impulso dado pela mídia ao governador de PE, depois de jantares e almoços com empresários, eventos e conversas de bastidores, a hora da verdade está chegando: até os Gomes poderão deixar Campos correndo sozinho no prado. Cid Gomes não cansa de dizer que apoia a reeleição da presidente Dilma. O irmão, Ciro, lembra que o governador precisa comer, ainda, muito milho, o milho dos problemas brasileiros, para cavalgar a montaria presidencial. Mas, se Eduardo Campos ostentar algo como 10% de intenção de votos na primeira rodada de pesquisas de 2014, haverá uma avalanche de apoiadores. A conferir.
Segundo turno
O que parece ser mais visível é um cenário de segundo turno caso tenhamos no páreo: Dilma, pelo PT; Aécio Neves, pelo PSDB; Eduardo Campos, pelo PSB e Marina Silva, pela Rede Sustentabilidade. Em um quadro de economia estável e emprego em alta, o cenário de vitória de Dilma, em primeiro turno, ainda se sustenta. Mas quem aposta nisso? A inflação, pela visão dos melhores analistas, excede a meta; o crescimento neste ano ficará em torno dos 3%; o desemprego oscilará entre pequenas quedas e estabilização. Marina, recorde-se, teve quase 20 milhões de votos em 2010. Aécio e Campos teriam condições de arregimentar grandes fatias do eleitorado de classe média.
Outros cenários
E se Marina não conseguir formar sua Rede até outubro, hein? Tem boas alternativas a escolher: ser vice na chapa de Campos. Mas há também quem veja Aécio Neves como companheiro de Edu Campos ou este na chapa do mineiro. Formariam uma dupla de boa aparência. Mas e os bons votos? Viriam? Este consultor tende a acreditar que Eduardo Campos tem mais potencial de crescimento do que Neves. O neto de Tancredo é um novo-velho. Cara manjada. Campos exibe perfil mais asséptico. E onde estará José Serra, o tucano mais conhecido? Serra continua a conversar muito com o deputado Roberto Freire, que comanda o PPS. Especula-se que pode vir a ser candidato a presidente por esta legenda. A especulação chega às alturas com a alternativa de Serra ser juntar a Eduardo Campos. A fome com a vontade de comer.
O eleitorado
Seja quais forem as alianças e parcerias, o fato é que os candidatos se depararão com um eleitorado que incorpora, a cada ciclo eleitoral, novos valores. Vejam a planilha dos conceitos-chave que iluminarão o processo decisório: ética, racionalidade, exigência, novos padrões políticos, assepsia, transparência, crítica, organicidade, maior participação, democracia participativa em ascensão. É claro que esses valores estão mais próximos dos contingentes centrais do que das massas periféricas. Mas as margens que ascendem na pirâmide social também passam a abrigar escopos mais elevados.
Polarização PT versus PSDB
Percebe-se, hoje, esgotamento da polarização PT x PSDB. Esta polarização é particularmente observada em SP, capital por excelência da racionalidade eleitoral. O eleitor paulistano é um destruidor de mitos. Vota em um perfil de esquerda ou um quadro da direita, analisando as circunstâncias, o espírito do tempo. Mas os perfis que têm disputado as campanhas majoritárias - do PT e do PSDB- parecem contaminados pelo vírus da corrosão de material.
Sombras do passado
Por isso, os velhos nomes dos dois partidos que, por acaso, encabeçarem chapas majoritárias em 2014, poderão conhecer o caminho da roça, ou seja, de volta ao lar. Os ministros Mercadante e Marta Suplicy, o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho e mesmo esse Padilha, do Ministério da Doença, caso candidatos, enfrentarão o denso paredão da rejeição ao PT em SP. Já Alckmin, da mesma forma, vai se deparar com o fenômeno "desgaste de material". Sobraria, então, para um perfil mais asséptico, como o de Paulo Skaf, por exemplo.
Anastasia, decepção
Ouço de quem entende de política mineira: o governador Antonio Anastasia tem sido uma decepção. Não fez, até o presente, a revolução de gestão que se esperava, não tem nenhum carisma, é um burocrata que se enquadrou na moldura da velha política.
Neves fora?
Por isso, Aécio continua a ser o sonho de muitos mineiros, que querem vê-lo na cadeira do governador de Minas. Dizem que essa opção não está de todo afastada. Neves fora do páreo presidencial, e apoiando Eduardo Campos, é uma carta do baralho de alguns analistas.
Genro ruim
Comenta-se que outra decepção é Tarso Genro, do PT, que governa o RS. Tarso é um dos mais preparados quadros do PT. Ocorre que os Estados atravessam a mais séria crise da sua história. Crise na frente das finanças. E um governador preparado, seja ele Anastasia ou Genro, não pode fazer muita coisa. Fica no feijão com arroz sem tempero.
Aliás, safra ruim
Aliás, com exceção de um ou outro, a atual safra de governadores é fraca. Quem tem boa avaliação, como Eduardo Campos, ganhou respaldo do governo Federal. No ciclo Lula, PE ganhou uma enxurrada de recursos. Uma montanha de investimentos.
Cid, o grande
Já no CE, a fama de Cid Gomes se dá por conta de altos dispêndios com artistas, monumentos, eventos e objetos. Fala-se da aquisição de uma aeronave de última geração. Shows caríssimos pavimentam sua trajetória no governo cearense.
PMDB
O PMDB, sob a liderança de Michel Temer, está mais unido que em outros tempos. A divergência do senador Jarbas Vasconcelos, de PMDB de PE, é histórica. Se vir a apoiar Eduardo Campos, poderá receber censura e, até, ser enquadrado por uma intervenção no partido em PE. E Pedro Simon faz da zoeira discursiva o marketing da autoglorificação.
Camarão pede SOS
Produtores de camarão do CE reuniram-se, semana passada, para avaliar a situação do setor, ameaçado com a abertura da importação. O Banco do Nordeste cancelou, de forma abrupta, empréstimos à carcinicultura nordestina. Ocorre que os produtores investiram altos recursos em tecnologia para aumentar a produtividade das fazendas. Solicitaram à Concessionária de Energia do CE aumento da oferta. Para surpresa de todos, a Coelce informou não dispor de mais energia para fornecer além da contratada. Que país é este? Não há energia para abrigar novos investimentos. Detalhe: em novembro do ano passado, o Ministério da Pesca promoveu uma missão para que os empresários brasileiros fossem conhecer as fazendas de camarão mais produtivas do mundo em quatro países asiáticos. Os produtores voltaram entusiasmados e perguntam: e agora?
MP dos portos?
A MP 595 continua navegando em águas turbulentas dentro do Congresso. O governo quer que investidores privados aportem recursos, mas ainda há muita insegurança. Os trabalhadores querem manter o status quo. Fato é que as amarras nos cais precisam ser soltas em busca de competitividade urgentemente. Perguntar não ofende: se a matéria é de capital importância, não seria o caso de passar pelo rito das comissões temáticas para aprofundar as discussões e buscar-se o aperfeiçoamento do texto? O ditado diz que quem tem pressa come cru.
Os dois filhos
Sabem qual filme desapareceu das locadoras?
Os Dois Filhos de Francisco!
Mare nostrum
Embora este consultor saiba que a âncora da MP 595 esteja sendo baixada na seara mercantil e na necessidade premente de melhorar o escoamento das nossas exportações, o setor de Cruzeiros Marítimos é ator fundamental nessa discussão. O senador Vital do Rêgo, que vem adotando velocidade de cruzeiro frente à presidência da CCJ, entendeu essa importância e enviou requerimento para que a comissão mista possa ouvir a entidade que representa os Cruzeiros em nossas águas. A conferir.
É um bicho!
Todo mundo sabe que o ex-prefeito de Parnamirim, Agnelo Alves, e o ex-governador e atual deputado Lavoisier Maia não são símbolos de beleza masculina. Jamais seriam um "Deus" grego, como Apolo, que sintetizava esse privilégio estético. E no cotidiano de ambos não faltam situações hilariantes que os envolvem, porém sempre com os dois mostrando bom humor. Em certos casos, até mesmo ignorando algo de mais pesado. Governador do Estado, Lavoisier Maia é convidado a ir a SP para encontro político com uma liderança nacional. No mesmo voo está em sua companhia o jornalista Agnelo Alves, fazendo uma parceria de estilhaçar qualquer espelho. O enviado pelo político paulista para receber Lavoisier Maia é orientado de modo simplista e direto: "É o mais feio que descer do avião"! Não tinha como errar, calculava o emissário. No aeroporto o enviado vê descer Agnelo Alves e exclama em voz baixa: "É ele !" Aproximando-se de Agnelo, o assessor destacado para aquela ingente missão o aborda consciente: "Governador, por favor me acompanhe!" Agnelo logo esclarece o mal-entendido: "O governador vem aí atrás". A reação do enviado é de torpor: "Então é um bicho!".
(Quem conta é Carlos Santos, no livro Só Rindo)
Conselho a Marco Feliciano
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos pré-candidatos presidenciais. Hoje, volta sua atenção ao pastor deputado, Marco Feliciano, que preside a Comissão de Direitos Humanos:
1. Vossa Excelência já teve seus 15 minutos de glória. É hora de guardar os troféus alcançados por alta visibilidade, usar o bom senso e renunciar ao comando da Comissão de Direitos Humanos.
2. Vossa Excelência, ao convocar Satanás para o centro do debate político, acabou misturando questões religiosas com a pauta do Estado, o que não condiz com o escopo republicano.
3. Uma coisa é defender a pluralidade religiosa, nos termos da CF, outra coisa é usar a tribuna política para expressar um verbo de discriminação.
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(Gaudêncio Torquato)
Começo com um final de campanha numa cidadezinha mineira. Final de campanha política em Divinópolis/MG. O candidato governista patrocina uma sessão matinê de circo para a galera eleitoral. Animação geral. Depois das risadas com os palhaços, a vez do leão. O domador exibe suas qualidades com a fera. Rugindo muito, o leão abre a bocarra, arreganha os dentes e fura a gaiola. Bate o pavor. As pessoas começam a correr. O caos se instala. A criançada se atropela em alvoroço. O "mineirim", numa cadeira de rodas, com a perna engessada, se esforça para sair do sufoco. A galera, ao ver o pobre estropiado, começa a gritar para acudi-lo:
- O cara engessado, o cara engessado. Pegue o cara engessado.
Desesperado, o "mineirim" rodopia na cadeira de rodas, enquanto o leão se aproxima. As pessoas continuam a gritar:
- O cara engessado, o cara engessado.
Sem forças, quase desistindo, "o mineirim" grita, fulo da vida:
- Vão se lascar, cambada de filhos da mãe; deixa o leão iscoiê sozim....
O jogo de Dilma
A presidente Dilma Rousseff deixa de lado a feição técnica que caracteriza seu perfil e arremata, com precisão de experiente política, a moldura governativa. Acaba de confirmar a indicação do ex-senador César Borges (PR) para ocupar a Pasta dos Transportes, da qual saíra, tempos atrás, o presidente da legenda, senador Alfredo Nascimento. Ou seja, o espaço continua a ser ocupado pelo partido. Nascimento foi praticamente alijado do governo. Volta em grande estilo. Tudo por conta do pleito de 2014. Dilma quer ampliar e consolidar a base governista, nesse momento em que a competitividade eleitoral, ao que parece, tende a se acirrar. Borges, apesar de não contar com o apoio maciço da bancada, não sofre restrições da cúpula.
Afif no Ministério
A presidente Dilma, ainda na esteira de reforço à estratégia de consolidação da base governista, escolheu Guilherme Afif Domingos para comandar a Secretaria da Pequena e Média Empresa, que terá status de Ministério. Afif, do PSD de Kassab, conhece como ninguém as questões pertinentes às pequenas empresas. A escolha foi acertada. Mas Kassab faz questão de frisar que a indicação não é do partido, mas seleção pessoal da presidente. Claro, isso faz parte do jogo. Seria feio passar a impressão de que estaria negociando apoio ao governo com uma vaga no Ministério. Ademais, com cerca de 50 parlamentares, sendo a quarta bancada da Câmara, o PSD não se contentaria com uma Pasta recém-criada e sem força política. Por isso, Kassab quis se despregar da ideia do troco. Ademais, quer ver a banda passar. A banda de Eduardo Campos. Se tocar fazendo muito barulho, poderá arrastar o folião Kassab e sua trupe. Mais adiante, é claro.
Campos na arena
A essa altura, está praticamente decidida a entrada na arena de 2014 do governador de PE, Eduardo Campos. O neto de Arraes ouve interlocutores de todos os lados. Consenso: deve ser candidato. Não há uma opinião em contrário. Mesmo aqueles que não acreditam em suas chances, dizem a ele: você será vencedor em qualquer circunstância. Perdendo, ganha imensa visibilidade e credencia-se para 2018. Lula não perdeu três vezes? Campos tem boa penetração no empresariado. Mas encontra um paredão no Sudeste, particularmente nos dois maiores colégios eleitorais do país, SP, com mais de 30 milhões de eleitores, e RJ, com 15 milhões.
E Lacerda, hein?
Ademais, pode não contar com sua chave para abrir portas no Sudeste: Márcio Lacerda, o prefeito de BH, que é do PSB, partido de Campos. MG é o terceiro maior colégio eleitoral do país. Mineiros e não mineiros apostam que Lacerda acabará afagando a candidatura do tucano Aécio Neves.
Os Gomes
Pois é, com todo impulso dado pela mídia ao governador de PE, depois de jantares e almoços com empresários, eventos e conversas de bastidores, a hora da verdade está chegando: até os Gomes poderão deixar Campos correndo sozinho no prado. Cid Gomes não cansa de dizer que apoia a reeleição da presidente Dilma. O irmão, Ciro, lembra que o governador precisa comer, ainda, muito milho, o milho dos problemas brasileiros, para cavalgar a montaria presidencial. Mas, se Eduardo Campos ostentar algo como 10% de intenção de votos na primeira rodada de pesquisas de 2014, haverá uma avalanche de apoiadores. A conferir.
Segundo turno
O que parece ser mais visível é um cenário de segundo turno caso tenhamos no páreo: Dilma, pelo PT; Aécio Neves, pelo PSDB; Eduardo Campos, pelo PSB e Marina Silva, pela Rede Sustentabilidade. Em um quadro de economia estável e emprego em alta, o cenário de vitória de Dilma, em primeiro turno, ainda se sustenta. Mas quem aposta nisso? A inflação, pela visão dos melhores analistas, excede a meta; o crescimento neste ano ficará em torno dos 3%; o desemprego oscilará entre pequenas quedas e estabilização. Marina, recorde-se, teve quase 20 milhões de votos em 2010. Aécio e Campos teriam condições de arregimentar grandes fatias do eleitorado de classe média.
Outros cenários
E se Marina não conseguir formar sua Rede até outubro, hein? Tem boas alternativas a escolher: ser vice na chapa de Campos. Mas há também quem veja Aécio Neves como companheiro de Edu Campos ou este na chapa do mineiro. Formariam uma dupla de boa aparência. Mas e os bons votos? Viriam? Este consultor tende a acreditar que Eduardo Campos tem mais potencial de crescimento do que Neves. O neto de Tancredo é um novo-velho. Cara manjada. Campos exibe perfil mais asséptico. E onde estará José Serra, o tucano mais conhecido? Serra continua a conversar muito com o deputado Roberto Freire, que comanda o PPS. Especula-se que pode vir a ser candidato a presidente por esta legenda. A especulação chega às alturas com a alternativa de Serra ser juntar a Eduardo Campos. A fome com a vontade de comer.
O eleitorado
Seja quais forem as alianças e parcerias, o fato é que os candidatos se depararão com um eleitorado que incorpora, a cada ciclo eleitoral, novos valores. Vejam a planilha dos conceitos-chave que iluminarão o processo decisório: ética, racionalidade, exigência, novos padrões políticos, assepsia, transparência, crítica, organicidade, maior participação, democracia participativa em ascensão. É claro que esses valores estão mais próximos dos contingentes centrais do que das massas periféricas. Mas as margens que ascendem na pirâmide social também passam a abrigar escopos mais elevados.
Polarização PT versus PSDB
Percebe-se, hoje, esgotamento da polarização PT x PSDB. Esta polarização é particularmente observada em SP, capital por excelência da racionalidade eleitoral. O eleitor paulistano é um destruidor de mitos. Vota em um perfil de esquerda ou um quadro da direita, analisando as circunstâncias, o espírito do tempo. Mas os perfis que têm disputado as campanhas majoritárias - do PT e do PSDB- parecem contaminados pelo vírus da corrosão de material.
Sombras do passado
Por isso, os velhos nomes dos dois partidos que, por acaso, encabeçarem chapas majoritárias em 2014, poderão conhecer o caminho da roça, ou seja, de volta ao lar. Os ministros Mercadante e Marta Suplicy, o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho e mesmo esse Padilha, do Ministério da Doença, caso candidatos, enfrentarão o denso paredão da rejeição ao PT em SP. Já Alckmin, da mesma forma, vai se deparar com o fenômeno "desgaste de material". Sobraria, então, para um perfil mais asséptico, como o de Paulo Skaf, por exemplo.
Anastasia, decepção
Ouço de quem entende de política mineira: o governador Antonio Anastasia tem sido uma decepção. Não fez, até o presente, a revolução de gestão que se esperava, não tem nenhum carisma, é um burocrata que se enquadrou na moldura da velha política.
Neves fora?
Por isso, Aécio continua a ser o sonho de muitos mineiros, que querem vê-lo na cadeira do governador de Minas. Dizem que essa opção não está de todo afastada. Neves fora do páreo presidencial, e apoiando Eduardo Campos, é uma carta do baralho de alguns analistas.
Genro ruim
Comenta-se que outra decepção é Tarso Genro, do PT, que governa o RS. Tarso é um dos mais preparados quadros do PT. Ocorre que os Estados atravessam a mais séria crise da sua história. Crise na frente das finanças. E um governador preparado, seja ele Anastasia ou Genro, não pode fazer muita coisa. Fica no feijão com arroz sem tempero.
Aliás, safra ruim
Aliás, com exceção de um ou outro, a atual safra de governadores é fraca. Quem tem boa avaliação, como Eduardo Campos, ganhou respaldo do governo Federal. No ciclo Lula, PE ganhou uma enxurrada de recursos. Uma montanha de investimentos.
Cid, o grande
Já no CE, a fama de Cid Gomes se dá por conta de altos dispêndios com artistas, monumentos, eventos e objetos. Fala-se da aquisição de uma aeronave de última geração. Shows caríssimos pavimentam sua trajetória no governo cearense.
PMDB
O PMDB, sob a liderança de Michel Temer, está mais unido que em outros tempos. A divergência do senador Jarbas Vasconcelos, de PMDB de PE, é histórica. Se vir a apoiar Eduardo Campos, poderá receber censura e, até, ser enquadrado por uma intervenção no partido em PE. E Pedro Simon faz da zoeira discursiva o marketing da autoglorificação.
Camarão pede SOS
Produtores de camarão do CE reuniram-se, semana passada, para avaliar a situação do setor, ameaçado com a abertura da importação. O Banco do Nordeste cancelou, de forma abrupta, empréstimos à carcinicultura nordestina. Ocorre que os produtores investiram altos recursos em tecnologia para aumentar a produtividade das fazendas. Solicitaram à Concessionária de Energia do CE aumento da oferta. Para surpresa de todos, a Coelce informou não dispor de mais energia para fornecer além da contratada. Que país é este? Não há energia para abrigar novos investimentos. Detalhe: em novembro do ano passado, o Ministério da Pesca promoveu uma missão para que os empresários brasileiros fossem conhecer as fazendas de camarão mais produtivas do mundo em quatro países asiáticos. Os produtores voltaram entusiasmados e perguntam: e agora?
MP dos portos?
A MP 595 continua navegando em águas turbulentas dentro do Congresso. O governo quer que investidores privados aportem recursos, mas ainda há muita insegurança. Os trabalhadores querem manter o status quo. Fato é que as amarras nos cais precisam ser soltas em busca de competitividade urgentemente. Perguntar não ofende: se a matéria é de capital importância, não seria o caso de passar pelo rito das comissões temáticas para aprofundar as discussões e buscar-se o aperfeiçoamento do texto? O ditado diz que quem tem pressa come cru.
Os dois filhos
Sabem qual filme desapareceu das locadoras?
Os Dois Filhos de Francisco!
Mare nostrum
Embora este consultor saiba que a âncora da MP 595 esteja sendo baixada na seara mercantil e na necessidade premente de melhorar o escoamento das nossas exportações, o setor de Cruzeiros Marítimos é ator fundamental nessa discussão. O senador Vital do Rêgo, que vem adotando velocidade de cruzeiro frente à presidência da CCJ, entendeu essa importância e enviou requerimento para que a comissão mista possa ouvir a entidade que representa os Cruzeiros em nossas águas. A conferir.
É um bicho!
Todo mundo sabe que o ex-prefeito de Parnamirim, Agnelo Alves, e o ex-governador e atual deputado Lavoisier Maia não são símbolos de beleza masculina. Jamais seriam um "Deus" grego, como Apolo, que sintetizava esse privilégio estético. E no cotidiano de ambos não faltam situações hilariantes que os envolvem, porém sempre com os dois mostrando bom humor. Em certos casos, até mesmo ignorando algo de mais pesado. Governador do Estado, Lavoisier Maia é convidado a ir a SP para encontro político com uma liderança nacional. No mesmo voo está em sua companhia o jornalista Agnelo Alves, fazendo uma parceria de estilhaçar qualquer espelho. O enviado pelo político paulista para receber Lavoisier Maia é orientado de modo simplista e direto: "É o mais feio que descer do avião"! Não tinha como errar, calculava o emissário. No aeroporto o enviado vê descer Agnelo Alves e exclama em voz baixa: "É ele !" Aproximando-se de Agnelo, o assessor destacado para aquela ingente missão o aborda consciente: "Governador, por favor me acompanhe!" Agnelo logo esclarece o mal-entendido: "O governador vem aí atrás". A reação do enviado é de torpor: "Então é um bicho!".
(Quem conta é Carlos Santos, no livro Só Rindo)
Conselho a Marco Feliciano
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos pré-candidatos presidenciais. Hoje, volta sua atenção ao pastor deputado, Marco Feliciano, que preside a Comissão de Direitos Humanos:
1. Vossa Excelência já teve seus 15 minutos de glória. É hora de guardar os troféus alcançados por alta visibilidade, usar o bom senso e renunciar ao comando da Comissão de Direitos Humanos.
2. Vossa Excelência, ao convocar Satanás para o centro do debate político, acabou misturando questões religiosas com a pauta do Estado, o que não condiz com o escopo republicano.
3. Uma coisa é defender a pluralidade religiosa, nos termos da CF, outra coisa é usar a tribuna política para expressar um verbo de discriminação.
____________
(Gaudêncio Torquato)
terça-feira, 2 de abril de 2013
OBSERVATÓRIO
Publius Vergilius Maro, o excelso poeta latino que a humanidade festeja simplesmente por Virgílio, teve sua existência recheada de lendas. Uma delas conta que, no ano 17 antes de Cristo, o imperador Augusto promoveu a realização de uma grande festa, cuja programação constou jogos, corridas, peças de teatro, cerimônias religiosas e sacrifícios destinados a obter a proteção das divindades romanas. Porém, chovia a noite toda, e por sorte, durante o dia, o tempo ficava bom, permitindo, desta maneira, a continuidade festiva. Virgílio, ainda desconhecido, escreveu, então, na porta da entrada da cidade de Roma, o seguinte dístico: “Nocte pluit tota, redeunt spectacula mane./ Divisum imperium cum Jove Caesar habet”. (“Chove a noite toda, de manhã recomeçam os jogos. Deste modo, César divide o poder com Júpiter”). Lisonjeado, o imperador buscou saber quem escrevera aqueles versos. Um certo Batilus reivindicou a autoria dos versos que não eram seus, e acabou por ganhar um prêmio do Imperador. Virgilio, indignado, pois era o verdadeiro autor dos versos, escreveu nos muros de Roma: Hos ego versículos feci, tulit alter honores. (Eu escrevi os versos acima, mas outro levou as honras). Intrigado, o Imperador promoveu um concurso para descobrir o verdadeiro autor dos versos, e por óbvio, Virgilio revelou o gênio. Assim, caiu nas graças do Imperador Augustus e de Mecenas, dos quais recebeu incentivo e apoio financeiro pelo resto da vida.
DIDEUS

Dideus Sales, que aniversaria neste 02 de abril, é uma espécie rara, um ser híbrido que nos mimoseia com a genialidade de um versejador nato e, ao mesmo tempo, de um estimulador do talento alheio. Combina Virgilio e Augusto; é uma fonte original da mais autêntica poesia popular e, também, uma casa de apoio e incentivo para a germinação lúdica de outros artistas. Mensalmente, escolhe o portal de uma cidade cearense para inserir estrofes que enobrecem a alma humana. Vez por outra, promove um festival de cantadores e violeiros para semear alegria e esperança nos corações amargurados pela aridez existencial. Constantemente cunha um livro melhor que o anterior. E permanece em sintonia perene com as aves e as árvores da nossa surpreendente geografia para cantar o amor e a amizade, o instrumental da festa do viver. Parabéns, poeta!
OPOSIÇÃO
Moacir Soares, recém-chegado de um passeio pela dadivosa Paris, compartilha uma percuciente análise do jornalista Fábio Campos sobre os malefícios da ausência de oposição na arena política. Eis alguns trechos: “O ato de se opor é fundamental para a política. O ato de opor não deixa que o gestor público se deleite na zona de conforto e se embrenhe na teia palaciana sempre tão disponível para elogiar e criar bolhas em torno do chefe. (...) Uma boa oposição serve de antídoto contra a mania de cometer bobagens. Uma mania tão comuns aos gestores. Um gestor ensimesmado tem na oposição um obstáculo contra seu orgulho. A oposição é a melhor aliada do gestor honesto que é enganado pelo auxiliar corrupto. (...) Desconfiemos de quem não tolera oposição. Desconfiemos de quem usa o poder da caneta para cooptar opositores e eliminar o pensamento crítico. A falta da oposição causa mais estragos que uma seca. (...) Sem opositores, prevalece a pasmaceira e o silêncio medroso. No fim das contas, a inoperância e a falta de respostas se estabelecem. E quem mais perde? Ora, quem mais perde são os de sempre, os mais pobres, os sem ongs, os sem voz, os sem partido. A imensa maioria”.
OPOSIÇÃO II
A digressão de Fábio Campos se refere ao cenário estadual, mas cai como uma luva para a realidade municipal. Disseminou-se uma ideia de que só existe vida política à sombra do poder. Ou que Vereador tem que estar do lado do prefeito. E isso é um equívoco. É possível, sim, um edil desenvolver um mandato brilhante, operoso, combativo, atuante e reconhecido pela comunidade sem manchar os seus princípios, enlamear a trajetória ou trair suas convicções.
OPOSIÇÃO III
Em Crateús, o candidato a Prefeito Ivan, que obteve surpreendente votação, articula um movimento para manter acesa a chama oposicionista. Está organizando um encontro nos próximos dias para avaliar os primeiros cem dias do segundo mandato de Carlos Felipe e debater com a população caminhos para a cidade em harmonia com alternativas viáveis de ações. Urge que se formalize a constituição de uma referência sólida, uma movimentação organizada que abrace o estudo das grandes causas e promova a execução de projetos concretos de melhoria de vida das pessoas.
COMENTA-SE...
... Que o vereador Conegundes Soares poderá engrossar os punhos da Rede, o novo partido da bem colocada nas enquetes presidenciais Marina Silva...
... Zé Humberto, edil que se elegeu sem qualquer empurrão oficial, migra cada dia para uma posição de independência do Executivo. Está questionando a lisura de processos licitatórios e quer a implantação da Lei da Ficha Limpa no Município...
PARA REFLETIR
“Diante da seca, o silêncio que estoura os tímpanos. Diante da violência, os surdos e mudos que fazem de conta que o escândalo não lhes diz respeito. É assim na Assembleia Legislativa. Não há oposição com o tamanho que a democracia pede. Está assim no Ceará, em Fortaleza, em todas as capitais e em todos os estados”. (Fábio Campos)
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
DIDEUS
Dideus Sales, que aniversaria neste 02 de abril, é uma espécie rara, um ser híbrido que nos mimoseia com a genialidade de um versejador nato e, ao mesmo tempo, de um estimulador do talento alheio. Combina Virgilio e Augusto; é uma fonte original da mais autêntica poesia popular e, também, uma casa de apoio e incentivo para a germinação lúdica de outros artistas. Mensalmente, escolhe o portal de uma cidade cearense para inserir estrofes que enobrecem a alma humana. Vez por outra, promove um festival de cantadores e violeiros para semear alegria e esperança nos corações amargurados pela aridez existencial. Constantemente cunha um livro melhor que o anterior. E permanece em sintonia perene com as aves e as árvores da nossa surpreendente geografia para cantar o amor e a amizade, o instrumental da festa do viver. Parabéns, poeta!
OPOSIÇÃO
Moacir Soares, recém-chegado de um passeio pela dadivosa Paris, compartilha uma percuciente análise do jornalista Fábio Campos sobre os malefícios da ausência de oposição na arena política. Eis alguns trechos: “O ato de se opor é fundamental para a política. O ato de opor não deixa que o gestor público se deleite na zona de conforto e se embrenhe na teia palaciana sempre tão disponível para elogiar e criar bolhas em torno do chefe. (...) Uma boa oposição serve de antídoto contra a mania de cometer bobagens. Uma mania tão comuns aos gestores. Um gestor ensimesmado tem na oposição um obstáculo contra seu orgulho. A oposição é a melhor aliada do gestor honesto que é enganado pelo auxiliar corrupto. (...) Desconfiemos de quem não tolera oposição. Desconfiemos de quem usa o poder da caneta para cooptar opositores e eliminar o pensamento crítico. A falta da oposição causa mais estragos que uma seca. (...) Sem opositores, prevalece a pasmaceira e o silêncio medroso. No fim das contas, a inoperância e a falta de respostas se estabelecem. E quem mais perde? Ora, quem mais perde são os de sempre, os mais pobres, os sem ongs, os sem voz, os sem partido. A imensa maioria”.
OPOSIÇÃO II
A digressão de Fábio Campos se refere ao cenário estadual, mas cai como uma luva para a realidade municipal. Disseminou-se uma ideia de que só existe vida política à sombra do poder. Ou que Vereador tem que estar do lado do prefeito. E isso é um equívoco. É possível, sim, um edil desenvolver um mandato brilhante, operoso, combativo, atuante e reconhecido pela comunidade sem manchar os seus princípios, enlamear a trajetória ou trair suas convicções.
OPOSIÇÃO III
Em Crateús, o candidato a Prefeito Ivan, que obteve surpreendente votação, articula um movimento para manter acesa a chama oposicionista. Está organizando um encontro nos próximos dias para avaliar os primeiros cem dias do segundo mandato de Carlos Felipe e debater com a população caminhos para a cidade em harmonia com alternativas viáveis de ações. Urge que se formalize a constituição de uma referência sólida, uma movimentação organizada que abrace o estudo das grandes causas e promova a execução de projetos concretos de melhoria de vida das pessoas.
COMENTA-SE...
... Que o vereador Conegundes Soares poderá engrossar os punhos da Rede, o novo partido da bem colocada nas enquetes presidenciais Marina Silva...
... Zé Humberto, edil que se elegeu sem qualquer empurrão oficial, migra cada dia para uma posição de independência do Executivo. Está questionando a lisura de processos licitatórios e quer a implantação da Lei da Ficha Limpa no Município...
PARA REFLETIR
“Diante da seca, o silêncio que estoura os tímpanos. Diante da violência, os surdos e mudos que fazem de conta que o escândalo não lhes diz respeito. É assim na Assembleia Legislativa. Não há oposição com o tamanho que a democracia pede. Está assim no Ceará, em Fortaleza, em todas as capitais e em todos os estados”. (Fábio Campos)
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
domingo, 31 de março de 2013
O JOIO LEGISLATIVO
Perguntaram a Sólon, um dos sete sábios da Grécia antiga, se havia produzido boa legislação para os atenienses. Respondeu: “dei-lhes as melhores leis que podiam suportar”.
Perguntaram ao barão de Montesquieu, o formulador da teoria da separação dos poderes, quais as boas leis que um país deve ter? Respondeu: “quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas se são executadas as que existem, pois há boas normas por toda a parte”.
Pergunte-se a um representante do povo no Parlamento brasileiro que critérios guiam a tarefa legislativa. É provável que aponte o numero de projetos apresentados – sem destaque para o mérito –, corroborando a ideia de que, em nossa seara parlamentar, vale mais a quantidade do feijão plantado sobre a terra, do qual pouco se aproveita, do que a qualidade da semente.
Amparados pela força da lei, coisas estapafúrdias como o Dia da Jóia Folheada (toda última terça feira de agosto), o Dia das Estrelas do Oriente, a Semana do Bebê e outras esquisitices povoam o manual do joio legislativo escrito por parcela ponderável do corpo parlamentar. Instados fossem a discorrer sobre a natureza de nossas leis, os Sólons tupiniquins poderiam sacar a resposta: “são as leis que os brasileiros têm de aguentar”.
Cada povo com sua medida legislativa.
Não bastasse a progressão geométrica do que se pode chamar de Produto Nacional Bruto da Inocuidade Legislativa (PNBIL), forças exógenas emprestam sua colaboração para adensar o volume de normas inúteis.
A Copa das Confederações e a Copa do Mundo, sob o escudo da Federação Internacional de Futebol (FIFA), anunciam um conjunto de normas para mudar o comportamento do torcedor brasileiro.
Serão terminantemente proibidos nos estádios xingamentos a jogadores, juízes e suas progenitoras, censura que acabará abarcando os elogios, porquanto no burburinho de torcidas inflamadas ouvido nenhum será capaz de distinguir onomatopeias positivas de palavrões. Risível, não?
O fato é que a FIFA quer mudar por decreto a maneira brasileira de ser. Obrigar torcedor fanático a entrar em ordem unida e adotar comportamento considerado exemplar é tentar tapar o sol com a peneira.
Tem mais: que ninguém tente se levantar para comemorar um gol de seu time ou reclamar impedimento de jogador do time adversário. Cerveja pode, mas fumar, nem pensar. Dito isto, vem a pergunta: como os pregadores dos bons costumes em estádios de futebol controlarão o ímpeto expressivo da massa? Brigadas da FIFA vigiarão seus movimentos?
Esses são os nossos Trópicos. A fúria legiferante que entope as vias institucionais e chega ao cotidiano, afetando de um modo ou de outro a vida das pessoas, tem muitas significações.
Para começar, somos um país que ainda não cortou as amarras da secular árvore do carimbo, “preciosidade” trazida pelos colonizadores portugueses. O carimbo foi criado por D. Diniz nos idos de 1305 para conferir autenticidade a documentos. Concedido a “homens bons”, nomeados pelo rei, que juravam fidelidade aos santos evangelhos, incrustou-se na vida brasileira, a ponto de atravessar, incólume, mais de cinco séculos.
Deixa sua tinta forte na própria era digital. A autenticação e os selinhos de cartórios trazem obsoletos costumes ao nosso cotidiano, pavimentando os caminhos da burocracia. Explica-se o cartorialismo ainda pela capacidade de fortalecer a estrutura de autoridade; esta, por sua vez, se expande na esteira de leis que procuram impor a ordem do mundo ideal.
Trata-se da visão platônica de plasmar a realidade por força da lei.
A célebre pergunta – você sabe com quem está falando? – expressa a ideia de que o poder deriva do cargo de quem o detém. O brasileiro, mais que outros povos, exibe esta bandeira. A floresta legislativa se agiganta nessa vertente.
De 2000 a 2010, o país criou 75.517 leis, somando legislações ordinárias e complementares estaduais e federais, além de decretos federais, o que dá 6.865 leis por ano.
Em 2012, na Alemanha, o Parlamento foi muito criticado por ter aprovado 20 leis. A imprensa considerou excessivo o número. Lembre-se que os anglo-saxões organizam a vida sob o direito consuetudinário, ancorado em costumes. Poucas leis bastam.
Outra questão é a desobediência ao império legal. Infringir a lei torna-se rotina no país. Não por acaso, entramos no chiste como quarta modalidade de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, onde tudo é permitido, com exceção do que é proibido; a segunda é a alemã, onde tudo é proibido, salvo o que for permitido; a terceira é a totalitária, onde tudo é proibido mesmo o que for permitido e a quarta é a brasileira, onde tudo é permitido mesmo o que for proibido.
Nossas leis caem no esquecimento. Proibição de películas escuras nos automóveis? Uso de cinto de segurança no banco traseiro? Dirigir com apenas uma mão no volante? Levar estojo de primeiros socorros nos veículos? Afinal, essas coisas foram ou não revogadas? Por via das dúvidas, não se cumpre a legislação. E ainda há um monte de leis inconstitucionais.
Nos últimos 10 anos, o STF julgou quase 3 mil Ações Diretas de Inconstitucionalidade; mais de 20% foram julgadas inconstitucionais.
Imensa quantidade do arsenal legislativo não atinge a vida dos cidadãos. São floreios para adornar uma galeria de homenageados. Datas comemorativas e louvações tomam a agenda de nossos representantes.
Por último, pérolas formam o Produto Nacional Bruto da Inocuidade Legislativa: em Santa Maria (RS),um vereador propôs a lei do silêncio dos animais, para evitar latidos de cachorros após 22 horas; em Catanduva (SP), um projeto ditava que os doentes deveriam morrer em cidades vizinhas por conta da superlotação das sepulturas; em Sobral (CE), sugeriu-se construir Torres Gêmeas para abrigar a prefeitura e as secretarias; em Manaus, um vereador queria instalar um neutralizador de odores nos caminhões de lixo e, em Porto Alegre, cavalos e burros teriam de usar fraldas, “com exceção dos que participarem de eventos”.
Ufa!
(Gaudêncio Torquato)
Perguntaram ao barão de Montesquieu, o formulador da teoria da separação dos poderes, quais as boas leis que um país deve ter? Respondeu: “quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas se são executadas as que existem, pois há boas normas por toda a parte”.
Pergunte-se a um representante do povo no Parlamento brasileiro que critérios guiam a tarefa legislativa. É provável que aponte o numero de projetos apresentados – sem destaque para o mérito –, corroborando a ideia de que, em nossa seara parlamentar, vale mais a quantidade do feijão plantado sobre a terra, do qual pouco se aproveita, do que a qualidade da semente.
Amparados pela força da lei, coisas estapafúrdias como o Dia da Jóia Folheada (toda última terça feira de agosto), o Dia das Estrelas do Oriente, a Semana do Bebê e outras esquisitices povoam o manual do joio legislativo escrito por parcela ponderável do corpo parlamentar. Instados fossem a discorrer sobre a natureza de nossas leis, os Sólons tupiniquins poderiam sacar a resposta: “são as leis que os brasileiros têm de aguentar”.
Cada povo com sua medida legislativa.
Não bastasse a progressão geométrica do que se pode chamar de Produto Nacional Bruto da Inocuidade Legislativa (PNBIL), forças exógenas emprestam sua colaboração para adensar o volume de normas inúteis.
A Copa das Confederações e a Copa do Mundo, sob o escudo da Federação Internacional de Futebol (FIFA), anunciam um conjunto de normas para mudar o comportamento do torcedor brasileiro.
Serão terminantemente proibidos nos estádios xingamentos a jogadores, juízes e suas progenitoras, censura que acabará abarcando os elogios, porquanto no burburinho de torcidas inflamadas ouvido nenhum será capaz de distinguir onomatopeias positivas de palavrões. Risível, não?
O fato é que a FIFA quer mudar por decreto a maneira brasileira de ser. Obrigar torcedor fanático a entrar em ordem unida e adotar comportamento considerado exemplar é tentar tapar o sol com a peneira.
Tem mais: que ninguém tente se levantar para comemorar um gol de seu time ou reclamar impedimento de jogador do time adversário. Cerveja pode, mas fumar, nem pensar. Dito isto, vem a pergunta: como os pregadores dos bons costumes em estádios de futebol controlarão o ímpeto expressivo da massa? Brigadas da FIFA vigiarão seus movimentos?
Esses são os nossos Trópicos. A fúria legiferante que entope as vias institucionais e chega ao cotidiano, afetando de um modo ou de outro a vida das pessoas, tem muitas significações.
Para começar, somos um país que ainda não cortou as amarras da secular árvore do carimbo, “preciosidade” trazida pelos colonizadores portugueses. O carimbo foi criado por D. Diniz nos idos de 1305 para conferir autenticidade a documentos. Concedido a “homens bons”, nomeados pelo rei, que juravam fidelidade aos santos evangelhos, incrustou-se na vida brasileira, a ponto de atravessar, incólume, mais de cinco séculos.
Deixa sua tinta forte na própria era digital. A autenticação e os selinhos de cartórios trazem obsoletos costumes ao nosso cotidiano, pavimentando os caminhos da burocracia. Explica-se o cartorialismo ainda pela capacidade de fortalecer a estrutura de autoridade; esta, por sua vez, se expande na esteira de leis que procuram impor a ordem do mundo ideal.
Trata-se da visão platônica de plasmar a realidade por força da lei.
A célebre pergunta – você sabe com quem está falando? – expressa a ideia de que o poder deriva do cargo de quem o detém. O brasileiro, mais que outros povos, exibe esta bandeira. A floresta legislativa se agiganta nessa vertente.
De 2000 a 2010, o país criou 75.517 leis, somando legislações ordinárias e complementares estaduais e federais, além de decretos federais, o que dá 6.865 leis por ano.
Em 2012, na Alemanha, o Parlamento foi muito criticado por ter aprovado 20 leis. A imprensa considerou excessivo o número. Lembre-se que os anglo-saxões organizam a vida sob o direito consuetudinário, ancorado em costumes. Poucas leis bastam.
Outra questão é a desobediência ao império legal. Infringir a lei torna-se rotina no país. Não por acaso, entramos no chiste como quarta modalidade de sociedade no mundo. A primeira é a inglesa, onde tudo é permitido, com exceção do que é proibido; a segunda é a alemã, onde tudo é proibido, salvo o que for permitido; a terceira é a totalitária, onde tudo é proibido mesmo o que for permitido e a quarta é a brasileira, onde tudo é permitido mesmo o que for proibido.
Nossas leis caem no esquecimento. Proibição de películas escuras nos automóveis? Uso de cinto de segurança no banco traseiro? Dirigir com apenas uma mão no volante? Levar estojo de primeiros socorros nos veículos? Afinal, essas coisas foram ou não revogadas? Por via das dúvidas, não se cumpre a legislação. E ainda há um monte de leis inconstitucionais.
Nos últimos 10 anos, o STF julgou quase 3 mil Ações Diretas de Inconstitucionalidade; mais de 20% foram julgadas inconstitucionais.
Imensa quantidade do arsenal legislativo não atinge a vida dos cidadãos. São floreios para adornar uma galeria de homenageados. Datas comemorativas e louvações tomam a agenda de nossos representantes.
Por último, pérolas formam o Produto Nacional Bruto da Inocuidade Legislativa: em Santa Maria (RS),um vereador propôs a lei do silêncio dos animais, para evitar latidos de cachorros após 22 horas; em Catanduva (SP), um projeto ditava que os doentes deveriam morrer em cidades vizinhas por conta da superlotação das sepulturas; em Sobral (CE), sugeriu-se construir Torres Gêmeas para abrigar a prefeitura e as secretarias; em Manaus, um vereador queria instalar um neutralizador de odores nos caminhões de lixo e, em Porto Alegre, cavalos e burros teriam de usar fraldas, “com exceção dos que participarem de eventos”.
Ufa!
(Gaudêncio Torquato)
terça-feira, 26 de março de 2013
POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL
Dilma: popularidade, eleição e economia
Com as três pesquisas divulgadas semana passada - uma sobre o governo dela e outras duas sobre as eleições de 2014 - a presidente Dilma, ainda em estado de graça papal, entrou também num nirvana eleitoral. A interpretação generalizada entre os especialistas é a de que, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão econômica, a presidente pode preparar o modelito para a posse em mais um mandato de quatro anos a partir de 2015. Seria até um passeio na raia eleitoral, sem os adversários terem ao menos o direito a um segundo turno. Uma façanha que o PT ainda não alcançou: antes de chegar ao governo, Lula perdeu duas vezes para Fernando Henrique Cardoso logo de cara; depois, Lula disputou o segundo turno contra José Serra (2002) e Geraldo Alckmin (2006) e Dilma Rousseff bateu-se duas vezes em 2010 contra Serra.
Dilma: popularidade, eleição e economia - II
A expectativa dos principais concorrentes hoje colocados na liça - Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina Silva - é que a divisão de votos acabe levando a um segundo turno. Marina em 2010 evitou a vitória de Dilma na primeira rodada. Depois, resta a torcida de cada um deles para que seja ele o segundo colocado na primeira rodada. Do ponto de vista político, a estratégia de Dilma e do PT daqui para frente será apenas fechar o curral aliado para conter rebeliões de parceiros insatisfeitos - daí as concessões ministeriais e outras que virão em estatais e sem segundo escalão. Nessa linha, os partidos valem quanto pesa o tempo de cada um no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Em outra ponta, cabe manter também o mais amplo possível os palanques regionais. O que pode exigir do PT sacrifícios em muitos Estados, cedendo a primazia das chapas aos governos estaduais e ao Senado. Fazer esta harmonia, lembrando aos petistas o princípio do "centralismo democrático", é a principal missão hoje do ex-presidente Lula.
É a economia, estúpido
Para Dilma, a missão principal ficou a de conduzir a economia sem muitas marolas, visando, fundamentalmente:
1. Não deixar o nível de emprego cair.
2. Não deixar cair a renda média real do trabalhador.
E qualquer coisa será feita nesse sentido, com embasamento técnico ou artificialmente. Assim, por exemplo, o BC, apesar dos arroubos de seu presidente Alexandre Tombini de anunciar dia sim, outro também, que a autoridade monetária está pronta para combater a inflação, só terá "autorização" para aumentar a taxa básica de juros, a Selic, se os preços ameaçarem fugir demais do controle. O BC pode até aumentar a Selic em uma das suas duas próximas reuniões (no início de abril e no fim de maio), mas se o fizer será, segundo bons e insuspeitos analistas, em apenas 0,25. Um "efeito demonstração". Para não deixar que a inflação fure demais o centro da meta de 6,5%. (Nesta semana deve ser divulgado o Boletim Trimestral de Inflação quando o BC dará sua versão do andamento da economia no mundo e no Brasil). A política econômica continuará sendo conduzida com pacotes pontuais, ora para incentivar o consumo, ora para induzir os investimentos, ora para tentar segurar os preços. Já foram 15 pacotes neste sentido lançados pela presidente nesses seus 27 meses de governo. A confecção dos embrulhos ganhou mais velocidade recentemente. Pelo menos mais um virá esta semana.
E a moeda?
Uma variável importante nesse jogo é o dólar. Semana passada ele voltou a estourar a barreira dos R$ 2,00, informalmente admitida no Ministério de Fazenda como seu "ponto de equilíbrio". Muito acima deste patamar bateria na inflação, muito abaixo prejudicaria mais do que ela está sendo prejudicada a indústria brasileira. O BC vai correr ou vai deixar o bicho pegar ?
Espírito animal, espírito operacional
De um empresário até simpático ao governo, porém com algum espírito crítico, o que fala a alguns de seus colegas, principalmente em entrevistas abertas ao público: "A presidente e cia têm apelado para o 'espírito animal' dos empresários no sentido de animar os investimentos no país. Nada mais correto. Porém, seria muito útil ela despertar também o 'espírito operacional do governo'. A fila de caminhões à beira dos cais é a maior prova de que o animal governista está adormecido em berço esplêndido". Dá para entender o silêncio público dos empresários quando se trata de falar do governo : Dilma não é de levar desaforo para casa.
Saindo de forma constante
O governo que não conte com a parceria da turma dos "investimentos em portfólio", aqueles que investem no mercado de capitais brasileiro. A grana está saindo das ações e outras securities. A direção é o norte, mais exatamente os EUA. Notável é a ação dos fundos hedge, aqueles que são mais ágeis para acompanhar e, sobretudo, fazer a tendência do mercado. O capital é covarde como se sabe. Ele é esperto também.
Fenômeno mais amplo
O Brasil é um dos líderes da queda de preços das ações dos mercados emergentes. Todavia, não é o único que cai. A queda é generalizada. Não à toa, neste ano, os mercados emergentes apresentaram o pior retorno desde 2008 e estão em patamares bem inferiores se comparados aos principais mercados acionários mundiais. Os emergentes estão perdendo dinheiro e charme. A hora é da América.
Imobilidade na Copa
Os projetos de mobilidade urbana para a Copa do Mundo caíram na real (sem trocadilhos). As obras estão indo, sem grande eficiência em termos de calendário de execução. Todavia, estão tropeçando em algo inicialmente nada esperado : não há como encomendar ônibus a tempo para acrescer as frotas urbanas de novas unidades para os torcedores e turistas. A indústria não tem como entregar as encomendas.
Indústria a ver navios
Já se sabe sobre a fragilidade imensa da indústria brasileira sem competitividade sistêmica e tecnológica. No âmbito da conjuntura a situação é igualmente perigosa. A crise dos portos pode prejudicar a produção industrial em termos de logística e atrapalhar o já débil crescimento dos últimos anos. O governo tem esta possibilidade no seu radar. Todavia, não sabe ao certo o que fazer.
Chipre: tabus e realidade
Perde-se um enorme tempo com análises do que ocorre em Chipre, país minúsculo e sem importância para a economia europeia. Chipre é a atual Islândia, país loteado por capitais, digamos, duvidosos, que operavam a partir dali por razões tributárias e da frouxa fiscalização. Ora, o país está quebrando as regras de bom comportamento no mercado porque ali há excelentes oliveiras (de boa qualidade) e não muito mais. Agora está devolvendo um pouco da conta para a tropa russa de capitais e alguns mais. Tal qual fez a Islândia. Nada mais.... A "crise cipriota" gera mais certezas do que incertezas : sobre o que se deve fazer e o que não se deve.
"Mercados não tem memória": Londres 1953
No dia 27 de fevereiro de 1953 foi assinado em Londres um acordo de salvação financeira que incluía (i) o perdão de 50% da dívida externa; (ii) reescalonamento dos pagamentos para o longo prazo e (iii) ajuste dos pagamentos à capacidade do credor. O país apoiado chamava-se Alemanha Ocidental, que além do acordo acima teve abertas as fronteiras europeias, o que produziu um farto resultado comercial no curto prazo. Isso tudo apoiado pela Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal que não se importaram com o histórico do país (duas guerras mundiais, campos de concentração, destruição de suas economias, etc.). Naquela época, a Alemanha teve a glória de ter à frente da nação um estadista: Konrad Adenauer. Hoje, tem Angela Merkel, etc. e tal...
As três faces de Eduardo Campos
Depois naturalmente da presidente Dilma Rousseff, que não mais vai se apear do palanque eleitoral (ontem ela esteve em dois deles - Serra Talhada, no sertão de PE, e no Rio, em Petrópolis) o presidenciável mais ativo publicamente tem sido o governador pernambucano Eduardo Campos. O tucano Aécio Neves, além de vestir o figurino menos discreto de seu avô Tancredo Neves e dos políticos mineiros, está às voltas com o turbilhão tucano, nas figuras de José Serra e do PSDB paulista. Enquanto não aparar estas arestas, não poderá cair nas ruas. Marina também está totalmente envolvida na criação de seu partido, o Rede Sustentável, o qual precisa estar homologado na Justiça Eleitoral até fim de novembro para que possa sustentar a candidatura dele ao Palácio do Planalto. Caso contrário, ou não concorrerá ou precisará arranjar uma das legendas já existentes para poder disputar.
Razões para a tranquilidade de Campos
Campos passeia mais ou menos tranquilo sua candidatura por três razões:
1. Seu partido, apesar das resistências dos renitentes irmãos cearenses Ciro e Cid Gomes, está vendo na candidatura do pernambucano para aumentar sua representatividade nacional e seu poder de barganha Federal e nos Estados. Com o "carro-chefe Campos", o PSB acredita que em 2014 poderá eleger mais governadores do que tem hoje e aumentar suas bancadas na Câmara, no Senado e nas Assembleias Legislativas. Mesmo não ganhando o Palácio do Planalto, Campos e o PSB poderiam sair credenciados para 2018 com um excelente cacife.
2. Para os tucanos, a presença de Eduardo Campos na disputa seria a garantia já de um segundo turno, ainda mais se Marina Silva também confirmar sua presença. O PSDB acredita que ele tirará mais votos de Dilma do que de Aécio, principalmente no Nordeste. Além disso, mesmo governista no momento, o governador de PE será um candidato de oposição ao Palácio do Planalto, mais um do qual Dilma, o PT e os aliados precisarão se defender.
3. Para o PT, pelo menos nesta primeira fase, a presença de Campos no grid de largada presidencial é tida como útil porque, segundo os petistas, ele disputa uma faixa do eleitorado com Aécio Neves - e tiraria votos do tucano e até possíveis aliados do mineiro, com o PPS e os rebeldes do PMDB. Racha inclusive em Minas, onde o prefeito de BH, Marcio Lacerda, é do PSB, mas foi eleito com a ajuda de Aécio. E pode rachar até em SP, onde os socialistas se dão muito com o governador Geraldo Alckmin. Em principio, pelo menos, não é interesse de Lula e Dilma que Eduardo Campos saia da raia. Lá na frente se verá.
A rifa de Lula
A melhor prova disso é que Lula já está rifando a candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Rio, pelo PT. Ele prometeu ao PMDB fluminense e ao governador Sérgio Cabral que não pisará no Estado durante a eleição.
Sinceridade
É um jogo de feiticeiros. O risco é o feitiço se virar contra algum deles. Do senador e ministro da Pesca, Marcelo Crivella, analisando a política social do governo e os resultados da inclusão social trazida por ela : "A nossa presidenta e o presidente Lula fizeram a gente crescer porque apoiaram os pobres. E o que nos sustenta são dízimos e ofertas de pessoas simples e humildes".
Sinceridade - II
Seria até uma dádiva para a presidente Dilma Rousseff se as dificuldades que ela está tendo para nomear um novo ministro para a Secretaria de Assuntos Estratégicos tivesse alguma causa nobre. Não tem. Ela já foi recusada pelo PMDB e pelo PSD de Gilberto Kassab. Pelas razões que só a política brasileira explica, como bem demonstra a explicação do deputado do PMDB da Bahia : "É um pasta que não tem orçamento, não tem cargos, não tem órgãos importantes vinculados, não despacha com a presidente, não executa obras, só faz seminários. O partido que assumir nada terá para mostrar, (...) Pensar o futuro é importante ? Mas queremos é executar o presente. Essa coisa de ficar pensando só queima neurônios e não deixa marcas". É realmente um fato inédito no Brasil partidos políticos recusarem ministérios. Se até eles reconhecem a inutilidade da pasta, o que a presidente está esperando para trancar suas portas?
Insinceridade?
Do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista à revista "Época":
"De tudo que ouço do Serra, ele diz que não tem essa pretensão [de candidatar-se mais uma vez à presidência da República]. Nem mesmo de ser presidente do partido. Tenho de acreditar no que ele me diz. O candidato do PSDB será apoiado pelo PSDB de São Paulo. Não tem muita alternativa. É especulação [a hipótese de deixar o PSDB]. Ele nunca me disse isso".
(José Marcio Mendonça e Francisco Petros)
Com as três pesquisas divulgadas semana passada - uma sobre o governo dela e outras duas sobre as eleições de 2014 - a presidente Dilma, ainda em estado de graça papal, entrou também num nirvana eleitoral. A interpretação generalizada entre os especialistas é a de que, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão econômica, a presidente pode preparar o modelito para a posse em mais um mandato de quatro anos a partir de 2015. Seria até um passeio na raia eleitoral, sem os adversários terem ao menos o direito a um segundo turno. Uma façanha que o PT ainda não alcançou: antes de chegar ao governo, Lula perdeu duas vezes para Fernando Henrique Cardoso logo de cara; depois, Lula disputou o segundo turno contra José Serra (2002) e Geraldo Alckmin (2006) e Dilma Rousseff bateu-se duas vezes em 2010 contra Serra.
Dilma: popularidade, eleição e economia - II
A expectativa dos principais concorrentes hoje colocados na liça - Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina Silva - é que a divisão de votos acabe levando a um segundo turno. Marina em 2010 evitou a vitória de Dilma na primeira rodada. Depois, resta a torcida de cada um deles para que seja ele o segundo colocado na primeira rodada. Do ponto de vista político, a estratégia de Dilma e do PT daqui para frente será apenas fechar o curral aliado para conter rebeliões de parceiros insatisfeitos - daí as concessões ministeriais e outras que virão em estatais e sem segundo escalão. Nessa linha, os partidos valem quanto pesa o tempo de cada um no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Em outra ponta, cabe manter também o mais amplo possível os palanques regionais. O que pode exigir do PT sacrifícios em muitos Estados, cedendo a primazia das chapas aos governos estaduais e ao Senado. Fazer esta harmonia, lembrando aos petistas o princípio do "centralismo democrático", é a principal missão hoje do ex-presidente Lula.
É a economia, estúpido
Para Dilma, a missão principal ficou a de conduzir a economia sem muitas marolas, visando, fundamentalmente:
1. Não deixar o nível de emprego cair.
2. Não deixar cair a renda média real do trabalhador.
E qualquer coisa será feita nesse sentido, com embasamento técnico ou artificialmente. Assim, por exemplo, o BC, apesar dos arroubos de seu presidente Alexandre Tombini de anunciar dia sim, outro também, que a autoridade monetária está pronta para combater a inflação, só terá "autorização" para aumentar a taxa básica de juros, a Selic, se os preços ameaçarem fugir demais do controle. O BC pode até aumentar a Selic em uma das suas duas próximas reuniões (no início de abril e no fim de maio), mas se o fizer será, segundo bons e insuspeitos analistas, em apenas 0,25. Um "efeito demonstração". Para não deixar que a inflação fure demais o centro da meta de 6,5%. (Nesta semana deve ser divulgado o Boletim Trimestral de Inflação quando o BC dará sua versão do andamento da economia no mundo e no Brasil). A política econômica continuará sendo conduzida com pacotes pontuais, ora para incentivar o consumo, ora para induzir os investimentos, ora para tentar segurar os preços. Já foram 15 pacotes neste sentido lançados pela presidente nesses seus 27 meses de governo. A confecção dos embrulhos ganhou mais velocidade recentemente. Pelo menos mais um virá esta semana.
E a moeda?
Uma variável importante nesse jogo é o dólar. Semana passada ele voltou a estourar a barreira dos R$ 2,00, informalmente admitida no Ministério de Fazenda como seu "ponto de equilíbrio". Muito acima deste patamar bateria na inflação, muito abaixo prejudicaria mais do que ela está sendo prejudicada a indústria brasileira. O BC vai correr ou vai deixar o bicho pegar ?
Espírito animal, espírito operacional
De um empresário até simpático ao governo, porém com algum espírito crítico, o que fala a alguns de seus colegas, principalmente em entrevistas abertas ao público: "A presidente e cia têm apelado para o 'espírito animal' dos empresários no sentido de animar os investimentos no país. Nada mais correto. Porém, seria muito útil ela despertar também o 'espírito operacional do governo'. A fila de caminhões à beira dos cais é a maior prova de que o animal governista está adormecido em berço esplêndido". Dá para entender o silêncio público dos empresários quando se trata de falar do governo : Dilma não é de levar desaforo para casa.
Saindo de forma constante
O governo que não conte com a parceria da turma dos "investimentos em portfólio", aqueles que investem no mercado de capitais brasileiro. A grana está saindo das ações e outras securities. A direção é o norte, mais exatamente os EUA. Notável é a ação dos fundos hedge, aqueles que são mais ágeis para acompanhar e, sobretudo, fazer a tendência do mercado. O capital é covarde como se sabe. Ele é esperto também.
Fenômeno mais amplo
O Brasil é um dos líderes da queda de preços das ações dos mercados emergentes. Todavia, não é o único que cai. A queda é generalizada. Não à toa, neste ano, os mercados emergentes apresentaram o pior retorno desde 2008 e estão em patamares bem inferiores se comparados aos principais mercados acionários mundiais. Os emergentes estão perdendo dinheiro e charme. A hora é da América.
Imobilidade na Copa
Os projetos de mobilidade urbana para a Copa do Mundo caíram na real (sem trocadilhos). As obras estão indo, sem grande eficiência em termos de calendário de execução. Todavia, estão tropeçando em algo inicialmente nada esperado : não há como encomendar ônibus a tempo para acrescer as frotas urbanas de novas unidades para os torcedores e turistas. A indústria não tem como entregar as encomendas.
Indústria a ver navios
Já se sabe sobre a fragilidade imensa da indústria brasileira sem competitividade sistêmica e tecnológica. No âmbito da conjuntura a situação é igualmente perigosa. A crise dos portos pode prejudicar a produção industrial em termos de logística e atrapalhar o já débil crescimento dos últimos anos. O governo tem esta possibilidade no seu radar. Todavia, não sabe ao certo o que fazer.
Chipre: tabus e realidade
Perde-se um enorme tempo com análises do que ocorre em Chipre, país minúsculo e sem importância para a economia europeia. Chipre é a atual Islândia, país loteado por capitais, digamos, duvidosos, que operavam a partir dali por razões tributárias e da frouxa fiscalização. Ora, o país está quebrando as regras de bom comportamento no mercado porque ali há excelentes oliveiras (de boa qualidade) e não muito mais. Agora está devolvendo um pouco da conta para a tropa russa de capitais e alguns mais. Tal qual fez a Islândia. Nada mais.... A "crise cipriota" gera mais certezas do que incertezas : sobre o que se deve fazer e o que não se deve.
"Mercados não tem memória": Londres 1953
No dia 27 de fevereiro de 1953 foi assinado em Londres um acordo de salvação financeira que incluía (i) o perdão de 50% da dívida externa; (ii) reescalonamento dos pagamentos para o longo prazo e (iii) ajuste dos pagamentos à capacidade do credor. O país apoiado chamava-se Alemanha Ocidental, que além do acordo acima teve abertas as fronteiras europeias, o que produziu um farto resultado comercial no curto prazo. Isso tudo apoiado pela Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal que não se importaram com o histórico do país (duas guerras mundiais, campos de concentração, destruição de suas economias, etc.). Naquela época, a Alemanha teve a glória de ter à frente da nação um estadista: Konrad Adenauer. Hoje, tem Angela Merkel, etc. e tal...
As três faces de Eduardo Campos
Depois naturalmente da presidente Dilma Rousseff, que não mais vai se apear do palanque eleitoral (ontem ela esteve em dois deles - Serra Talhada, no sertão de PE, e no Rio, em Petrópolis) o presidenciável mais ativo publicamente tem sido o governador pernambucano Eduardo Campos. O tucano Aécio Neves, além de vestir o figurino menos discreto de seu avô Tancredo Neves e dos políticos mineiros, está às voltas com o turbilhão tucano, nas figuras de José Serra e do PSDB paulista. Enquanto não aparar estas arestas, não poderá cair nas ruas. Marina também está totalmente envolvida na criação de seu partido, o Rede Sustentável, o qual precisa estar homologado na Justiça Eleitoral até fim de novembro para que possa sustentar a candidatura dele ao Palácio do Planalto. Caso contrário, ou não concorrerá ou precisará arranjar uma das legendas já existentes para poder disputar.
Razões para a tranquilidade de Campos
Campos passeia mais ou menos tranquilo sua candidatura por três razões:
1. Seu partido, apesar das resistências dos renitentes irmãos cearenses Ciro e Cid Gomes, está vendo na candidatura do pernambucano para aumentar sua representatividade nacional e seu poder de barganha Federal e nos Estados. Com o "carro-chefe Campos", o PSB acredita que em 2014 poderá eleger mais governadores do que tem hoje e aumentar suas bancadas na Câmara, no Senado e nas Assembleias Legislativas. Mesmo não ganhando o Palácio do Planalto, Campos e o PSB poderiam sair credenciados para 2018 com um excelente cacife.
2. Para os tucanos, a presença de Eduardo Campos na disputa seria a garantia já de um segundo turno, ainda mais se Marina Silva também confirmar sua presença. O PSDB acredita que ele tirará mais votos de Dilma do que de Aécio, principalmente no Nordeste. Além disso, mesmo governista no momento, o governador de PE será um candidato de oposição ao Palácio do Planalto, mais um do qual Dilma, o PT e os aliados precisarão se defender.
3. Para o PT, pelo menos nesta primeira fase, a presença de Campos no grid de largada presidencial é tida como útil porque, segundo os petistas, ele disputa uma faixa do eleitorado com Aécio Neves - e tiraria votos do tucano e até possíveis aliados do mineiro, com o PPS e os rebeldes do PMDB. Racha inclusive em Minas, onde o prefeito de BH, Marcio Lacerda, é do PSB, mas foi eleito com a ajuda de Aécio. E pode rachar até em SP, onde os socialistas se dão muito com o governador Geraldo Alckmin. Em principio, pelo menos, não é interesse de Lula e Dilma que Eduardo Campos saia da raia. Lá na frente se verá.
A rifa de Lula
A melhor prova disso é que Lula já está rifando a candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Rio, pelo PT. Ele prometeu ao PMDB fluminense e ao governador Sérgio Cabral que não pisará no Estado durante a eleição.
Sinceridade
É um jogo de feiticeiros. O risco é o feitiço se virar contra algum deles. Do senador e ministro da Pesca, Marcelo Crivella, analisando a política social do governo e os resultados da inclusão social trazida por ela : "A nossa presidenta e o presidente Lula fizeram a gente crescer porque apoiaram os pobres. E o que nos sustenta são dízimos e ofertas de pessoas simples e humildes".
Sinceridade - II
Seria até uma dádiva para a presidente Dilma Rousseff se as dificuldades que ela está tendo para nomear um novo ministro para a Secretaria de Assuntos Estratégicos tivesse alguma causa nobre. Não tem. Ela já foi recusada pelo PMDB e pelo PSD de Gilberto Kassab. Pelas razões que só a política brasileira explica, como bem demonstra a explicação do deputado do PMDB da Bahia : "É um pasta que não tem orçamento, não tem cargos, não tem órgãos importantes vinculados, não despacha com a presidente, não executa obras, só faz seminários. O partido que assumir nada terá para mostrar, (...) Pensar o futuro é importante ? Mas queremos é executar o presente. Essa coisa de ficar pensando só queima neurônios e não deixa marcas". É realmente um fato inédito no Brasil partidos políticos recusarem ministérios. Se até eles reconhecem a inutilidade da pasta, o que a presidente está esperando para trancar suas portas?
Insinceridade?
Do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista à revista "Época":
"De tudo que ouço do Serra, ele diz que não tem essa pretensão [de candidatar-se mais uma vez à presidência da República]. Nem mesmo de ser presidente do partido. Tenho de acreditar no que ele me diz. O candidato do PSDB será apoiado pelo PSDB de São Paulo. Não tem muita alternativa. É especulação [a hipótese de deixar o PSDB]. Ele nunca me disse isso".
(José Marcio Mendonça e Francisco Petros)
segunda-feira, 25 de março de 2013
SOBRE O PAPA FRANCISCO
Caro Júnior:
Sua crônica sobre o papa Francisco é digna de ir para os anais do Vaticano.
Queria apenas colocar estas poucas e resumidas palavras nos comentários do Blog, porém, quase analfabeto em informática, não consegui.
Meus parabéns.
Sobre este papa, confesso que nenhum outro, de Pio XII para cá, me causou melhor impressão.
Como você falou, ele traz aquela AURA de serenidade, de sabedoria e humildade.
Um abraço,
César Vale
Sua crônica sobre o papa Francisco é digna de ir para os anais do Vaticano.
Queria apenas colocar estas poucas e resumidas palavras nos comentários do Blog, porém, quase analfabeto em informática, não consegui.
Meus parabéns.
Sobre este papa, confesso que nenhum outro, de Pio XII para cá, me causou melhor impressão.
Como você falou, ele traz aquela AURA de serenidade, de sabedoria e humildade.
Um abraço,
César Vale
TIA ZULMIRA ESTÁ DE VOLTA
O que diria Tia Zulmira, a engraçada personagem criada por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do impagável cronista Sérgio Porto, no início da década de 60, ao “enchergar” (isso mesmo, com ch) numa dissertação sobre “movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI” uma receita de Miojo e um trecho do hino do Palmeiras?
Acharia “rasoavel” (isso mesmo, com s e sem acento) as notas 560 e 500, de um total de 1000, obtidas, respectivamente, por um galhofeiro que mostrou como se faz o famoso macarrão instantâneo e por um apaixonado torcedor do Verdão?
E que nota daria ao Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, que orienta os corretores da prova a “aproveitar o que for possível”, mesmo diante da inserção de textos com evidente intenção de desmoralizar o processo corretivo?
O próprio autor da receita confessa que seu intuito era mostrar que “os corretores não lêem completamente a redação”. A velha senhora da família Ponte Preta enquadraria seguramente os personagens em questão no Festival de Besteiras que Assola o País, sempre muito farto por ocasião do periódico Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). E aproveitaria para pinçar mais uma pérola que explica o motivo de tanta asneira naquele famigerado concurso: “o nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro”.
Todos os anos, o ENEM produz extensa crônica de besteiras previsíveis. As expressões fosforescentes transmitidas por apreciável parcela dos cérebros que concorrem ao Exame deixam transparecer um estado de hibernação, para não dizer piora, do corpo educacional do país.
O Brasil continua a ocupar um vergonhoso lugar (88º) entre 127 no ranking de educação formado pela UNESCO, que é o eixo da ONU para a cultura e a educação. Há 6 anos, tinha melhor posição(72ª). Há 6 milhões de alunos no ensino superior, mas 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita.
Ou seja, de 10 alunos 4 são analfabetos funcionais, conforme atesta pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa entre 2001 e 2012.
A considerar o denso programa de avaliações em todos os níveis de ensino e as campanhas que fazem loas à nossa educação, deveríamos ser um território livre de todas as categorias do analfabetismo. Se o número de analfabetos diminuiu, nos últimos 3 anos, o percentual de analfabetos funcionais - aqueles que sabem escrever o nome, lêem e escrevem frases simples, mas são incapazes de usar a leitura e a escrita em seu dia a dia – tem permanecido o mesmo.
Os dados continuam a ser desanimadores. Cerca de 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Desse montante, 68% são analfabetos funcionais e 7% são considerados analfabetos absolutos, sem habilidade de leitura ou escrita.
Em números absolutos, o IBGE calcula existir cerca de 30 milhões de analfabetos funcionais, a maior parte vivendo nas regiões Norte e Nordeste, onde 25,3% e 30,9% habitam, respectivamente, esse compartimento.
O que mais impacta, porém, na análise da moldura social é o contraste entre o avanço de uns setores e o atraso de outros. Veja-se a situação de renda das margens, que tem aumentado, a ponto de se trombetear, todo tempo, a inserção de 30 milhões de brasileiros na classe média C e a “salvação” de outros tantos milhões que saíram da miséria absoluta. Se a desigualdade tem diminuído, não seria lógico imaginar, em sua cola, a melhoria de padrões educacionais?
Há muitos pontos obscuros no discurso que trata do fenômeno educacional. Não é um paradoxo constatar que quase 80% dos brasileiros são usuários da Internet e quase 70% possuem celular, mas o Brasil, com 401 pontos, está em uma das últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos(Pisa), atrás de países como Trinidad e Tobago, Bulgária, México e Turquia? Lembre-se que esse programa avalia sistemas educacionais de 65 países, examinando o desempenho de estudantes na faixa etária dos 15 anos.
O que trava o sistema educacional, quando todas as áreas do ensino estão suficientemente diagnosticadas? Na Educação Básica, existe uma Provinha, a Prova Brasil e o Enem. No Ensino Superior, existe o ENADE, aliado ao Censo Escolar, a par de avaliações feitas por Comissões de Avaliadores.
Na área de Pós-Graduação, nada funciona sem o endosso da CAPES, que autoriza e reconhece os cursos. Faltam mais recursos? Os programas de formação de professores são precários e insuficientes? Como equacionar o imenso buraco provocado pela expansão da evasão escolar? Não são respostas fáceis.
Enquanto os ciclos governamentais cultuam a si mesmos, fazendo loas ao sucesso de suas políticas, o fato é que o edifício educacional apresenta rachaduras em todos os andares. Pior é ver a avalanche que sobe ao último piso. São milhares de estudantes que entram em cursos inapropriados, outros tantos que buscam um segundo diploma e mais uma leva que interrompe a trajetória no meio.
A matriz profissionalizante acaba influenciando as decisões do alunato, prejudicando a formação global, humanística, generalista, absolutamente imprescindível para a integração da pessoa num mundo em constante evolução.
Da competição desvairada por vagas em escolas de baixa qualidade, não é de surpreender o besteirol que se produz nesses polêmicos exames de avaliação. Querem saber a razão das enchentes que assolam a região serrana do Rio de Janeiro? Vejam a resposta: “É o Euninho. Que provoca secas e enchentes calamitosas”. O que se entende por arte funerária? “A arte que egípcios antigos desenvolveram para que os mortos pudessem viver melhor”. O que é ateísmo? “É uma religião anônima”. E a fé? “Uma graça através da qual podemos ver o que não vemos”.
Agora o conceito de respiração anaeróbica é mesmo de tirar o fôlego: “é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos”. Ao sublinhar tão eloquentes “ideias luminosas”, Tia Zulmira garante que a receita do Miojo, no mais recente Enem, “trousse”, sim, elevada contribuição ao verbo desses tempos tresloucados.
(Gaudêncio Torquato)
Acharia “rasoavel” (isso mesmo, com s e sem acento) as notas 560 e 500, de um total de 1000, obtidas, respectivamente, por um galhofeiro que mostrou como se faz o famoso macarrão instantâneo e por um apaixonado torcedor do Verdão?
E que nota daria ao Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, que orienta os corretores da prova a “aproveitar o que for possível”, mesmo diante da inserção de textos com evidente intenção de desmoralizar o processo corretivo?
O próprio autor da receita confessa que seu intuito era mostrar que “os corretores não lêem completamente a redação”. A velha senhora da família Ponte Preta enquadraria seguramente os personagens em questão no Festival de Besteiras que Assola o País, sempre muito farto por ocasião do periódico Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). E aproveitaria para pinçar mais uma pérola que explica o motivo de tanta asneira naquele famigerado concurso: “o nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro”.
Todos os anos, o ENEM produz extensa crônica de besteiras previsíveis. As expressões fosforescentes transmitidas por apreciável parcela dos cérebros que concorrem ao Exame deixam transparecer um estado de hibernação, para não dizer piora, do corpo educacional do país.
O Brasil continua a ocupar um vergonhoso lugar (88º) entre 127 no ranking de educação formado pela UNESCO, que é o eixo da ONU para a cultura e a educação. Há 6 anos, tinha melhor posição(72ª). Há 6 milhões de alunos no ensino superior, mas 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita.
Ou seja, de 10 alunos 4 são analfabetos funcionais, conforme atesta pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa entre 2001 e 2012.
A considerar o denso programa de avaliações em todos os níveis de ensino e as campanhas que fazem loas à nossa educação, deveríamos ser um território livre de todas as categorias do analfabetismo. Se o número de analfabetos diminuiu, nos últimos 3 anos, o percentual de analfabetos funcionais - aqueles que sabem escrever o nome, lêem e escrevem frases simples, mas são incapazes de usar a leitura e a escrita em seu dia a dia – tem permanecido o mesmo.
Os dados continuam a ser desanimadores. Cerca de 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Desse montante, 68% são analfabetos funcionais e 7% são considerados analfabetos absolutos, sem habilidade de leitura ou escrita.
Em números absolutos, o IBGE calcula existir cerca de 30 milhões de analfabetos funcionais, a maior parte vivendo nas regiões Norte e Nordeste, onde 25,3% e 30,9% habitam, respectivamente, esse compartimento.
O que mais impacta, porém, na análise da moldura social é o contraste entre o avanço de uns setores e o atraso de outros. Veja-se a situação de renda das margens, que tem aumentado, a ponto de se trombetear, todo tempo, a inserção de 30 milhões de brasileiros na classe média C e a “salvação” de outros tantos milhões que saíram da miséria absoluta. Se a desigualdade tem diminuído, não seria lógico imaginar, em sua cola, a melhoria de padrões educacionais?
Há muitos pontos obscuros no discurso que trata do fenômeno educacional. Não é um paradoxo constatar que quase 80% dos brasileiros são usuários da Internet e quase 70% possuem celular, mas o Brasil, com 401 pontos, está em uma das últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos(Pisa), atrás de países como Trinidad e Tobago, Bulgária, México e Turquia? Lembre-se que esse programa avalia sistemas educacionais de 65 países, examinando o desempenho de estudantes na faixa etária dos 15 anos.
O que trava o sistema educacional, quando todas as áreas do ensino estão suficientemente diagnosticadas? Na Educação Básica, existe uma Provinha, a Prova Brasil e o Enem. No Ensino Superior, existe o ENADE, aliado ao Censo Escolar, a par de avaliações feitas por Comissões de Avaliadores.
Na área de Pós-Graduação, nada funciona sem o endosso da CAPES, que autoriza e reconhece os cursos. Faltam mais recursos? Os programas de formação de professores são precários e insuficientes? Como equacionar o imenso buraco provocado pela expansão da evasão escolar? Não são respostas fáceis.
Enquanto os ciclos governamentais cultuam a si mesmos, fazendo loas ao sucesso de suas políticas, o fato é que o edifício educacional apresenta rachaduras em todos os andares. Pior é ver a avalanche que sobe ao último piso. São milhares de estudantes que entram em cursos inapropriados, outros tantos que buscam um segundo diploma e mais uma leva que interrompe a trajetória no meio.
A matriz profissionalizante acaba influenciando as decisões do alunato, prejudicando a formação global, humanística, generalista, absolutamente imprescindível para a integração da pessoa num mundo em constante evolução.
Da competição desvairada por vagas em escolas de baixa qualidade, não é de surpreender o besteirol que se produz nesses polêmicos exames de avaliação. Querem saber a razão das enchentes que assolam a região serrana do Rio de Janeiro? Vejam a resposta: “É o Euninho. Que provoca secas e enchentes calamitosas”. O que se entende por arte funerária? “A arte que egípcios antigos desenvolveram para que os mortos pudessem viver melhor”. O que é ateísmo? “É uma religião anônima”. E a fé? “Uma graça através da qual podemos ver o que não vemos”.
Agora o conceito de respiração anaeróbica é mesmo de tirar o fôlego: “é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos”. Ao sublinhar tão eloquentes “ideias luminosas”, Tia Zulmira garante que a receita do Miojo, no mais recente Enem, “trousse”, sim, elevada contribuição ao verbo desses tempos tresloucados.
(Gaudêncio Torquato)
sábado, 23 de março de 2013
GOSTO CRESCE COM O GOSTAR
Depois de classificarmos as pessoas (sempre segundo à
nossa ótica, e nunca segundo elas mesmas), paralisamos o
conhecimento acerca delas, na impressão fixada. Elas passam a nos
parecer eternas repetidoras de situações, reações e atitudes: seres pleonásticos. Se formos capazes de romper a cristalização, vendo
e descobrindo a pessoa em ângulos novos, também ela se
contagiará com a nossa descoberta. Ela mesma fortalecerá esses
novos ângulos pelos quais as vemos e que são dela, senão não
teriam aparecido.
Somos seres de mistérios nos contágios.
Contagiamo-nos com o ângulo pelo qual nos vêem ou sentem. Somos bons com quem nos acha bom; inteligentes com quem inteligente nos
considera e maus com quem nos acha o ôfim da picada". Qual será essa relação estranha de nos contagiarmos da parte nossa pela qual somos
vistos, julgados e considerados?
E possuímos todas as partes que vêem em nós.
Quem não gosta do que somos ou de como somos faz-nos o favor de
revelar - de maneira exagerada e negativa, é certo -, as partes nossas
às vezes apenas subjacentes, ou disfarçadas, mas reais. Quem
gosta, faz idêntico favor: o de nos fortalecer nas partes
melhores. O fato é o contágio. Também contagiamos os que nos
julgam. Daí o mistério da afinidade. Aceitos, crescemos e
devolvemos crescimento, fazendo o outro crescer. Rejeitados,
encolhemos e fazemos encolher. Quando não gostamos de quem nos
desgosta, aumentamos o desgosto.
Não basta o outro mudar. É necessário que
também mudemos para nele descobrir partes desconhecidas. Se
enriquecermos a nossa visão do próximo com mais elementos, novos
filtros e lentes melhores que as habituais, vamos descobrir-lhe
paisagens belas e, assim, ajudá-lo a descobri-las, ele também. A
partir dessa sempre prematura e limitante catalogação, só nos
relacionamos com o que está no rótulo, jamais admitindo novas
combinações. Abrimos mão do esforço de descobrir partes dela não
exercitadas porque não conhecidas nem mesmo por ela.
Essa descoberta e revelação do ser maior
daquele que nos é familiar infelizmente só vem quando há perda,
abandono ou morte. Só vem quando já dá tempo. É preciso, pois, ver
além dos rótulos que fabricamos para os demais ou que eles mesmos determinaram. Essa descoberta do que existe, dorme, jaz ou lateja no ser humano, é um desafio talvez apenas possível no amor ou com amor,
mas, estranhamente, é a descoberta profunda do outro como o
próximo, vale dizer, como pedaço do eu. Autorizada pela
percepção e pelo reconhecimento, a melhor parte do outro começará a viver, porque o que é bom para quem amamos é bom para
nós. Gosto cresce com gostar.
*Artur da Távola
nossa ótica, e nunca segundo elas mesmas), paralisamos o
conhecimento acerca delas, na impressão fixada. Elas passam a nos
parecer eternas repetidoras de situações, reações e atitudes: seres pleonásticos. Se formos capazes de romper a cristalização, vendo
e descobrindo a pessoa em ângulos novos, também ela se
contagiará com a nossa descoberta. Ela mesma fortalecerá esses
novos ângulos pelos quais as vemos e que são dela, senão não
teriam aparecido.
Somos seres de mistérios nos contágios.
Contagiamo-nos com o ângulo pelo qual nos vêem ou sentem. Somos bons com quem nos acha bom; inteligentes com quem inteligente nos
considera e maus com quem nos acha o ôfim da picada". Qual será essa relação estranha de nos contagiarmos da parte nossa pela qual somos
vistos, julgados e considerados?
E possuímos todas as partes que vêem em nós.
Quem não gosta do que somos ou de como somos faz-nos o favor de
revelar - de maneira exagerada e negativa, é certo -, as partes nossas
às vezes apenas subjacentes, ou disfarçadas, mas reais. Quem
gosta, faz idêntico favor: o de nos fortalecer nas partes
melhores. O fato é o contágio. Também contagiamos os que nos
julgam. Daí o mistério da afinidade. Aceitos, crescemos e
devolvemos crescimento, fazendo o outro crescer. Rejeitados,
encolhemos e fazemos encolher. Quando não gostamos de quem nos
desgosta, aumentamos o desgosto.
Não basta o outro mudar. É necessário que
também mudemos para nele descobrir partes desconhecidas. Se
enriquecermos a nossa visão do próximo com mais elementos, novos
filtros e lentes melhores que as habituais, vamos descobrir-lhe
paisagens belas e, assim, ajudá-lo a descobri-las, ele também. A
partir dessa sempre prematura e limitante catalogação, só nos
relacionamos com o que está no rótulo, jamais admitindo novas
combinações. Abrimos mão do esforço de descobrir partes dela não
exercitadas porque não conhecidas nem mesmo por ela.
Essa descoberta e revelação do ser maior
daquele que nos é familiar infelizmente só vem quando há perda,
abandono ou morte. Só vem quando já dá tempo. É preciso, pois, ver
além dos rótulos que fabricamos para os demais ou que eles mesmos determinaram. Essa descoberta do que existe, dorme, jaz ou lateja no ser humano, é um desafio talvez apenas possível no amor ou com amor,
mas, estranhamente, é a descoberta profunda do outro como o
próximo, vale dizer, como pedaço do eu. Autorizada pela
percepção e pelo reconhecimento, a melhor parte do outro começará a viver, porque o que é bom para quem amamos é bom para
nós. Gosto cresce com gostar.
*Artur da Távola
quarta-feira, 20 de março de 2013
A AURA DE FRANCISCO

Os humanos somos, indistinta e ambulantemente, geradores de energia. E essa explosão energética dos nossos corpos, conforme os estudiosos dessa temática, tem cores. Dentre estas, destacam-se a escarlate, que emite larvas de violência, e a lilás, que aponta o ápice do amadurecimento espiritual.
Pessoas há que, desde o primeiro contato, nos envolvem em uma oceânica e contagiante onda de luz e paz e bondade e amor. São pessoas especiais, de peito estrelado, de alma generosa, coração comunitário, mente de arco-íris, veias abertas, fronte lunar e elevado espírito solar. Assemelham-se a uma brisa suave. Possuem aura... Aura, segundo a radícula etimológica do Latim, é exatamente “vento brando, brisa”.
Suponho que a maioria das gentes que assistiu o anúncio do novo Papa se sentiu arrastada pelo magnetismo de sua aura. O argentino Jorge Mario Bergoglio, filho do ferroviário Mario Bergoglio e da dona de casa Regina Maria Sivori, encantou o mundo instantaneamente com a serenidade do seu despojado ser. Esta é uma característica das criaturas que escalam o monte superior da iluminação: são serenas. Como a brisa que faz contraponto ao vento forte – e, por isso, une ao invés de espalhar - o sereno destoa da enxurrada chuvosa.
A serenidade geralmente se revela no olhar. O olhar da pessoa serena, que conheceu o cume do amor verdadeiro, é diferente do olhar fugaz do apaixonado, que possui um brilho mesclado de inquietação e ansiedade.
Quando, após o tradicional anúncio Habemus Papam, emergiu na janela da Basílica do Vaticano a figura do primeiro bispo de Roma nascido na América Latina, um enorme silêncio se fez, um silêncio solene e cerimonioso, respeitoso e reverente. Aquele mutismo, no entanto, era extremamente ruidoso: carregava a efervescência indescritível do ineditismo. Era como se a roda grande estivesse passando por dentro da pequena: o trono mais elevado do poderio religioso católico estava sendo ocupado por um representante dos povos colonizados pelos europeus.
O novo Papa mostrou que veio, também, para surpreender. Oriundo da Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada pelo espanhol Santo Ignácio de Loyola em 1534, Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome papal de “Francisco”, em homenagem ao aureolado Santo de Assis, aquele a quem Dante Alighieri se referiu com uma “luz que brilhou sobre o mundo”. São Francisco, carinhosamente chamado pelos italianos de “O Pobrezinho”, foi indubitavelmente o mais completo dos santos. Filho de um rico comerciante, abandonou a via larga da abundância e da extravagância, do luxo e da luxúria, pelo caminho estreito do sofrimento e da pobreza.
Especula-se ser pouco provável que o Papa Francisco promova as radicais transformações que a Igreja Católica necessita. Talvez seja mesmo difícil remover a totalidade da crosta burocrática que produz escândalos midiáticos, noticiário desairoso, condutas que agridem a boa fé comum. Se pouco conseguir nesse campo, ele já iniciou fazendo muito: envolveu-nos com o manto de sua aura lilás. E, o principal: educa-nos com o seu exemplo. E o exemplo – já lecionou sabiamente o teólogo, músico, filósofo e médico alemão Albert Schweitzer – “o exemplo não é a melhor forma de educar, é a única”.
(Júnior Bonfim, na coluna Gente Que Brilha, edição deste mês da Revista Gente de Ação)
terça-feira, 19 de março de 2013
HOJE É O DIA DE SÃO JOSÉ – MODELO DE HOMEM DO BEM, CARPINTEIRO DO ANONIMATO, ARTESÃO DO SILÊNCIO!

Por razões óbvias, uma das palavras cuja musical sonoridade mais sensibiliza as cordas da minha alma é, indubitavelmente, JOSÉ – em hebraico “Yoseph”, aquele que acrescenta - significa Deus acrescenta e indica uma pessoa sensível, confiante e generosa, que sofre com os problemas alheios. É muito conciliador e conserva o autocontrole mesmo nas piores situações.
O culto a São José, aniversariante de hoje, começou provavelmente no Egito, passando mais tarde para o Ocidente, onde alcança grande popularidade. Em 1870, o papa Pio IX o proclamou "O Patrono da Igreja Universal" e, a partir de então, passou a ser cultuado no dia 19 de março.
Em 1955 o Papa Pio XII fixou o dia 1º de maio para "São José Operário, o trabalhador".
José, o pai de Jesus na Terra, tinha como profissão a carpintaria. Em seu livro "São José, a personificação do Pai", Leonardo Boff conta que o artesão, descendente de David, tinha a oficina no pátio da casa. E que ali, entre pregos, martelos, rolos de barbante e cunha, Jesus teria iniciado na vida profissional. “É dentro desse universo de trabalho, de mãos calosas, do suor no rosto, das canseiras cotidianas e do silêncio, que se desenrolou a vida anônima de José. Ele era um homem justo, como disse minha mãe”, diz o teólogo. E silencioso. São José não deixou uma palavra. “O silêncio é a essência de José e a de quem ele personifica: o Pai celeste”, diz Boff.
Na festa de hoje, celebremos São José meditando sobre as duas principais facetas da sua rica personalidade: o amor ao trabalho e o culto ao silêncio!
(Júnior Bonfim)
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APELO A SÃO JOSÉ
Glorioso São José.
Santo da minha devoção.
Não se esqueça de mandar,
Chuva pro meu sertão.
Aqui o povo é sofrido,
E carece de proteção.
Olho pro gado no pasto,
Tão magro tão desnutrido...
Parece que lambe pedra,
O verde foi destruído.
Só se vê nessas paragens,
Galhos secos retorcidos.
À vontade de trabalhar é grande.
A fé em Deus não é menor.
A gente só quer do senhor,
Uma ajudinha maior,
Pois o nordestino é forte,
Não economiza suor.
Dá uma tristeza danada,
Ver nosso açude secar.
Primeiro vira lama,
Depois se dana a rachar.
Os peixes vão se sumindo,
E os urubus a rondar.
É a miséria chegando,
É a chuva sem chegar,
É a oração e o pranto,
E o pobre sempre a rogar:
Glorioso São José,
Venha nos ajudar.
(Dalinha Catunda)
domingo, 17 de março de 2013
A ALGA E O SILICONE
Até quando a mistificação resistirá ao ciclo da transparência que a tecnologia inaugura em muitas frentes do cotidiano? Não chegará o momento em que o ser humano, por mais esforço que realize para encobrir a verdade, será impelido, pelo apuro de aparatos tecnológicos, a colocar os pontos nos Is?
Episódios da esfera criminal, aqui e alhures, têm dado vazão à hipótese de que o caminho da verdade, sempre estreito ao longo da história, ganha amplitude na modernidade sob o empuxo de engenhosa estrutura que abriga técnicas sofisticadas de investigação, máquinas que flagram o movimento nas ruas, retórica mais científica de operadores do Direito para desmontar versões e hipóteses, tudo convergindo para desvendar fatos polêmicos.
O goleiro Bruno, depois de negar por bom tempo, acabou admitindo ter participado do episódio que culminou com a morte da amante, a ex-modelo Eliza Samudio. Noutro caso, vestígios de alga, descobertos por um biólogo no sapato do ex-policial e advogado Mizael Bispo, foram usados para comprovar que o indiciado esteve na represa em que foi encontrada a ex-namorada Mércia Nakashima. Um gol da tecnologia. Já dedos de silicone com impressão digital de médicos e enfermeiros, usados para fraudar o ponto eletrônico de um hospital público, em São Paulo, foram flagrados pela Polícia. Nesse caso, o tiro da tecnologia saiu pela culatra.
Chamou a atenção, nesses casos de ampla repercussão, o emprego da tecnologia; de um lado, como ferramenta para descobrir a verdade, de outro, para encobri-la. A alga e o silicone se apresentaram como anverso e reverso da tecnologia que começa a balizar costumes e práticas.
Dos eventos criminais acima mencionados, pinça-se a hipótese de que o uso de ferramentas tecnológicas tanto pode contribuir para pavimentar os caminhos do Direito, iluminar o altar da Justiça e arejar a administração pública quanto pode servir de escudo a criminosos.
Questão intrigante é: por que têm aumentado a criminalidade, quando se sabe que a lupa é, hoje, mais calibrada? Hipótese razoável comporta fatores como deterioração nos padrões de vida das margens, conflitos provocados por gangues, assassinatos cometidos por grupos paramilitares (como no passado, em São Paulo e Rio de Janeiro), enfim, clima generalizado de insatisfação.
Não é este o caso. A paisagem, mesmo exibindo buracos nas frentes da saúde, educação e segurança, não chegou a um nível capaz de produzir rasgos de monta no tecido social.
Se fixarmos a vista no hilário caso dos dedos de silicone, podemos enxergar outra hipótese. O ilícito parece ter ligação com o baú cultural, precisamente com a gaveta que guarda traços do caráter nacional, como engenhosidade, criatividade, matreirice, vivacidade, ou, como se costuma dizer, o jeitinho brasileiro.
Ora, à primeira vista, o ponto eletrônico seria barreira intransponível para feitores de maracutaias. Como sair da enrascada? Manipulando a química do silicone para tirar a impressão digital de profissionais de estabelecimentos públicos; pagando um pedágio para o responsável pelo sistema; e, pimba, passando os dedinhos no aparelho. Equação final: médicos que deveriam dar cinco plantões por mês acabavam trabalhando apenas um.
Eis a sacada do jeitinho que jamais tira férias. Vez ou outra ele aparece mal ajambrado, nivelado por baixo. Basta ver degustações apressadas de bolachas e chocolates em corredores de supermercados, que acabam com os “surrupiadores” tendo de ver sua estrepolia em vídeos gravados; bem arrumado, o jeitinho mostra a cara no andar mais elevado das camadas.
Por exemplo, quando serve para ajustar contas públicas e maquiar metas fiscais. Guido Mantega, o ministro da Fazenda, pediu ao prefeito Haddad, de São Paulo, para adiar o reajustamento de passagens no início do ano. Maneira de aliviar o índice de inflação. A maquinação envolveu outras manobras, como o abatimento dos investimentos realizados no PAC e resgate de R$ 12,4 bilhões do Fundo Soberano do Brasil para cumprir a meta de superávit primário de 3,1% do Produto Interno Bruto.
O jeitinho é uma faceta do caráter brasileiro, usado como chave para abrir o cadeado da burocracia ou como manobra para fugir ao formalismo, de ranço bacharelista, que se deixa ver na pletora de leis, decretos, medidas, portarias, regulamentações.
Alguns imaginam que o cobertor legalista é capaz de cobrir nossa complexa e mestiça formação cultural. Ademais, como lembra Roberto daMatta, o “jeitinho se confunde com corrupção e é transgressão, porque ela desiguala o que deveria ser obrigatoriamente tratado com igualdade”.
Daí a necessidade de se combater a persistência do estilo aristocrático de lidar com a lei, que, segundo o antropólogo, “induz o chefe, o diretor, o dono, o patrão, o governador, o presidente, a passar por cima da lei” porque dela se acham donos.Por isso, o bordão continua fazendo eco: “todos são iguais perante a lei, mas a lei não é igual para todos”.
De tão enraizado, o jeitinho acaba colaborando para a formação do estado de anomia, um território dominado pela desordem. Veja-se o estacionamento em vagas para pessoas idosas e deficientes. Ou as faixas para pedestres e bicicletas. A desmoralização se escancara à vista de todos.
O amortecimento social chega a ponto que a barbárie se espalha por ambientes que, por natureza, deveriam ser exemplos de grandes cuidados. Um hospital, por exemplo. De seus profissionais espera-se zelo pela vida. Daí a perplexidade ante a monstruosidade que teria sido perpetrada num hospital evangélico de Curitiba, onde uma médica é acusada de ter mandado desligar aparelhos de pacientes. A se confirmar a denúncia, estamos diante de uma “técnica de alto impacto” para “desentulhar” uma UTI e, assim, fazer correr a fila em um corredor que mais se assemelha ao da morte.
Baixem-se as cortinas com o Barão de Montesquieu espiando a cena e proclamando: “parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular”. No nosso caso, com um jeitinho todo providencial.
(Gaudêncio Torquato)
Episódios da esfera criminal, aqui e alhures, têm dado vazão à hipótese de que o caminho da verdade, sempre estreito ao longo da história, ganha amplitude na modernidade sob o empuxo de engenhosa estrutura que abriga técnicas sofisticadas de investigação, máquinas que flagram o movimento nas ruas, retórica mais científica de operadores do Direito para desmontar versões e hipóteses, tudo convergindo para desvendar fatos polêmicos.
O goleiro Bruno, depois de negar por bom tempo, acabou admitindo ter participado do episódio que culminou com a morte da amante, a ex-modelo Eliza Samudio. Noutro caso, vestígios de alga, descobertos por um biólogo no sapato do ex-policial e advogado Mizael Bispo, foram usados para comprovar que o indiciado esteve na represa em que foi encontrada a ex-namorada Mércia Nakashima. Um gol da tecnologia. Já dedos de silicone com impressão digital de médicos e enfermeiros, usados para fraudar o ponto eletrônico de um hospital público, em São Paulo, foram flagrados pela Polícia. Nesse caso, o tiro da tecnologia saiu pela culatra.
Chamou a atenção, nesses casos de ampla repercussão, o emprego da tecnologia; de um lado, como ferramenta para descobrir a verdade, de outro, para encobri-la. A alga e o silicone se apresentaram como anverso e reverso da tecnologia que começa a balizar costumes e práticas.
Dos eventos criminais acima mencionados, pinça-se a hipótese de que o uso de ferramentas tecnológicas tanto pode contribuir para pavimentar os caminhos do Direito, iluminar o altar da Justiça e arejar a administração pública quanto pode servir de escudo a criminosos.
Questão intrigante é: por que têm aumentado a criminalidade, quando se sabe que a lupa é, hoje, mais calibrada? Hipótese razoável comporta fatores como deterioração nos padrões de vida das margens, conflitos provocados por gangues, assassinatos cometidos por grupos paramilitares (como no passado, em São Paulo e Rio de Janeiro), enfim, clima generalizado de insatisfação.
Não é este o caso. A paisagem, mesmo exibindo buracos nas frentes da saúde, educação e segurança, não chegou a um nível capaz de produzir rasgos de monta no tecido social.
Se fixarmos a vista no hilário caso dos dedos de silicone, podemos enxergar outra hipótese. O ilícito parece ter ligação com o baú cultural, precisamente com a gaveta que guarda traços do caráter nacional, como engenhosidade, criatividade, matreirice, vivacidade, ou, como se costuma dizer, o jeitinho brasileiro.
Ora, à primeira vista, o ponto eletrônico seria barreira intransponível para feitores de maracutaias. Como sair da enrascada? Manipulando a química do silicone para tirar a impressão digital de profissionais de estabelecimentos públicos; pagando um pedágio para o responsável pelo sistema; e, pimba, passando os dedinhos no aparelho. Equação final: médicos que deveriam dar cinco plantões por mês acabavam trabalhando apenas um.
Eis a sacada do jeitinho que jamais tira férias. Vez ou outra ele aparece mal ajambrado, nivelado por baixo. Basta ver degustações apressadas de bolachas e chocolates em corredores de supermercados, que acabam com os “surrupiadores” tendo de ver sua estrepolia em vídeos gravados; bem arrumado, o jeitinho mostra a cara no andar mais elevado das camadas.
Por exemplo, quando serve para ajustar contas públicas e maquiar metas fiscais. Guido Mantega, o ministro da Fazenda, pediu ao prefeito Haddad, de São Paulo, para adiar o reajustamento de passagens no início do ano. Maneira de aliviar o índice de inflação. A maquinação envolveu outras manobras, como o abatimento dos investimentos realizados no PAC e resgate de R$ 12,4 bilhões do Fundo Soberano do Brasil para cumprir a meta de superávit primário de 3,1% do Produto Interno Bruto.
O jeitinho é uma faceta do caráter brasileiro, usado como chave para abrir o cadeado da burocracia ou como manobra para fugir ao formalismo, de ranço bacharelista, que se deixa ver na pletora de leis, decretos, medidas, portarias, regulamentações.
Alguns imaginam que o cobertor legalista é capaz de cobrir nossa complexa e mestiça formação cultural. Ademais, como lembra Roberto daMatta, o “jeitinho se confunde com corrupção e é transgressão, porque ela desiguala o que deveria ser obrigatoriamente tratado com igualdade”.
Daí a necessidade de se combater a persistência do estilo aristocrático de lidar com a lei, que, segundo o antropólogo, “induz o chefe, o diretor, o dono, o patrão, o governador, o presidente, a passar por cima da lei” porque dela se acham donos.Por isso, o bordão continua fazendo eco: “todos são iguais perante a lei, mas a lei não é igual para todos”.
De tão enraizado, o jeitinho acaba colaborando para a formação do estado de anomia, um território dominado pela desordem. Veja-se o estacionamento em vagas para pessoas idosas e deficientes. Ou as faixas para pedestres e bicicletas. A desmoralização se escancara à vista de todos.
O amortecimento social chega a ponto que a barbárie se espalha por ambientes que, por natureza, deveriam ser exemplos de grandes cuidados. Um hospital, por exemplo. De seus profissionais espera-se zelo pela vida. Daí a perplexidade ante a monstruosidade que teria sido perpetrada num hospital evangélico de Curitiba, onde uma médica é acusada de ter mandado desligar aparelhos de pacientes. A se confirmar a denúncia, estamos diante de uma “técnica de alto impacto” para “desentulhar” uma UTI e, assim, fazer correr a fila em um corredor que mais se assemelha ao da morte.
Baixem-se as cortinas com o Barão de Montesquieu espiando a cena e proclamando: “parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular”. No nosso caso, com um jeitinho todo providencial.
(Gaudêncio Torquato)
sábado, 16 de março de 2013
É PROIBIDO

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender os que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.
Pablo Neruda
quinta-feira, 14 de março de 2013
FRANCISCO, O NOME DE UM DEFENSOR DOS POBRES

Quando foi eleito cardeal e alguns argentinos queriam viajar para Roma para celebrar, Bergoglio convenceu-os a dar aos pobres o dinheiro que gastariam na viagem. O episódio é narrado pelo jornal inglês The Guardian, que descreve o novo Papa como tendo uma “abordagem prática” à questão da pobreza. Bergoglio escolheu o nome Francisco, partilhado por dois conhecidos santos da Igreja Católica – um dos quais conhecido pela devoção aos pobres, o outro, pelo papel de evangelização no Oriente.
S. Francisco de Assis é um santo italiano, que nasceu perto do final do século XII, filho de um comerciante rico. Perdeu o interesse pela vida de jovem abastado, decidindo viver a ajudar os pobres. Acabou por fundar a ordem religiosa dos franciscanos. É um dos dois santos padroeiros da Itália.
Na semana passada, o jornal italiano Il Fatto Quotidiano publicou um artigo com o título “A hora impossível do Papa Francisco I”. O texto elaborava sobre o facto de a vida de Francisco de Assis não se ajustar à vida actual do líder da Igreja Católica. “O primeiro sinal de mudança na Igreja poderia ser o nome do sucessor de Ratzinger. Da varanda, nunca ninguém anunciou ‘aqui Francisco’”, escreveu o veterano jornalista Maurizio Chierici. “Ele morreu há quase oito séculos, mas ninguém se sentiu na disposição de abraçar a espiritualidade e dedicação absoluta para a vida dos outros.” O artigo citava o parlamentar italiano Raniero la Valle, um dos representantes da esquerda cristã: “Francisco é um nome impossível para a carga de poder com que durante séculos foi construída a infalibilidade do papado, a soberania, o controle formal de cada serviço, a autoridade sobre milhões de fiéis.”
A escolha do nome é uma indicação de como um Papa quer ser visto e do que se propõe fazer. A prática nem sempre foi seguida, mas tem sido a norma nos últimos cinco séculos.
A escolha feita por Bergoglio remete também para S. Francisco Xavier, nascido no início do século XVI, em território que hoje é Espanha. Foi um dos fundadores da Companhia de Jesus, a congregação religiosa de que o novo Papa faz parte: Bergoglio é o primeiro pontífice jesuíta. Francisco Xavier é conhecido pelas missões de evangelização no Oriente. Partiu de Lisboa em 1541, passou por Moçambique e seguiu para a Índia. Esteve também na Malásia e no Japão. Morreu na China.
(João Pedro Pereira)
quarta-feira, 13 de março de 2013
O DISCURSO DO NOVO PAPA: JORGE MARIO BERGOGLIO, QUE SE CHAMARÁ "FRANCISCO"

"Irmãos e irmãs, boa noite!
Vocês sabem que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao fim do mundo? Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado! E, antes de mais nada, quero fazer uma oração pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e Nossa Senhora o guarde.
(O papa recitou junto dos fiéis presentes na Praça São Pedro o Pai-Nosso, a Ave Maria e o Glória ao Pai)
E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as igrejas na caridade. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja, que hoje começamos e no qual me ajudará o meu Cardeal Vigário, aqui presente, seja frutuoso para a evangelização desta cidade tão bela!
E agora quero dar a bênção, mas antes... antes, peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim.
Agora dar-vos-ei a Bênção, a vós e a todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade.
(bênção)
Irmãos e irmãs, tenho de vos deixar. Muito obrigado pelo acolhimento! Rezai por mim e até breve! Ver-nos-emos em breve: amanhã quero ir rezar aos pés de Nossa Senhora, para que guarde Roma inteira. Boa noite e bom descanso!"
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