quarta-feira, 17 de abril de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Prioridades do prefeito

Abro a coluna com mais uma historinha de políticos do RN.

Analfabeto na íntegra, Zé do Carmo, pai do deputado Manoel do Carmo, liderança do Agreste potiguar, bota na cabeça de ser prefeito de Santo Antônio. Diante do filho influente e abastado, Zé insiste em materializar o projeto pessoal. Eleito sem dificuldade pela força política de Manoel, ele não se contém de felicidade. Dias após a eleição, a Rádio Curimataú de Nova Cruz o convida para uma entrevista. Mesmo pouco afeito ao vernáculo e com clara desavença com os termos comuns à administração pública, Zé do Carmo apresenta-se impávido para o compromisso.

- Prefeito, qual sua prioridade? - começa o repórter.

Sobressaltado, Zé do Carmo retruca: "É o quê? Olha, meu filho, eu não conheço essa palavra. Fale mais fácil!". Com a tradução feita, o novo prefeito espicha seus objetivos principais: "Ah, fazer o calçamento, ajeitar o patamar e dar uma pintura na igreja...".

(Carlos Santos é quem conta no livro "Só Rindo")

Fusão partidária

O PPS e o PMN começam a organizar o ritual da fusão para criação de uma nova sigla : MD, Mobilização Democrática. Trata-se de mais uma janela para abrir possibilidade de migração interpartidária. Por ocasião de fusão, o parlamentar poderá sair de um partido e entrar noutro sem ser apenado. Há muita gente insatisfeita com seu atual partido. O PDS, de Kassab, foi a última sigla criada que propiciou intensa mobilização partidária. Quase sufocou o DEM. Agora, os grandes partidos se mobilizam para evitar que o deputado migrante também leve tempo de TV e recursos para a nova casa escolhida.

Serra no MD

Fala-se a torto e a direito que o ex-governador José Serra está prestes a fechar o bico tucano. Se o Mobilização Democrática vir a se formar, Serra nele entraria. O presidente do PPS, deputado Fernando Freire, é amigo de Serra e tem esperança de seu ingresso na nova sigla. Freire tem sinalizado que ambos poderão apoiar o pernambucano Eduardo Campos, governador de PE, no pleito de 2014. Seria a maior bomba do ano, eis que Serra, rompendo com o correligionário Aécio Neves, estaria quebrando o PSDB ao meio. Nem Alckmin nem Fernando Henrique, dizem, segurarão o Serra na floresta tucana.

E a Rede de Marina, hein?

Marina Silva desdobra-se para viabilizar sua Rede Sustentabilidade. Tem até outubro para fazer isso. Ocorre que a mobilização em torno da Rede tem sido pequena. Os militantes da sustentabilidade estão se mostrando pouco animados. Marina tem ido às ruas. Mas conta com pequenos exércitos. É possível que, na undécima hora, consiga formar sua Rede. Caso contrário, tenderia a apoiar Eduardo Campos. Fala-se, até, em sua candidatura a vice na chapa do pernambucano.

A estupidez

"Só duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana; mas não estou seguro sobre a primeira". (Einstein)

PSDB meio desanimado

Já o PSDB, a ser comandado pelo senador Aécio Neves, continua desanimado. Serra não tem prestigiado Aécio. Alckmin, por sua vez, está preocupado com sua candidatura à reeleição. Os tucanos não têm tido motivo para grandes alegrias. Vêem o governismo adensar suas bases. Vêem Dilma muito bem avaliada. Vêem as massas com a barriga cheia. E, para arrematar o desânimo, continuam a expressar um discurso sem muita densidade. Onde está o projeto tucano para o país?

PMDB animado

Já o PMDB está animado. Domina as duas Casas legislativas. Dá as cartas no Parlamento. E está fechando parceria com o PT para 2014. O vice-presidente da República, Michel Temer, ganha, a cada dia, respeito e confiança da presidente Dilma. Representa o governo brasileiro em missões no exterior. O partido, com as exceções de praxe, está unido. Prepara uma baciada de candidatos a governador em 2014. E já começa a trabalhar na moldura de 2018.

PDT repartido

Já o PDT continua repartido. A banda do ministro Carlos Lupi levou a melhor na briga com o grupo de Brizola Neto. Que perdeu o Ministério do Trabalho e hoje está cercado de muita....solidão. Paulinho da Força, por sua vez, está mais interessado em criar o seu partido, Solidariedade, do que lutar pelo fortalecimento da sigla.

Pátria

"Pátria é comunhão de esperanças, de sonhos comuns e a busca de um ideal; é a solidariedade sentimental de um povo e não a confabulação de politiqueiros que medram à sua sombra". (José Ingenieros)

Solidariedade

Paulinho tem dito que anunciará seu novo partido em 1º de maio. Será? Sabe-se que montou grande estrutura para pegar assinaturas de apoiadores. Mas há um ritual bastante longo a cumprir. Até outubro. Alguns dizem que o Solidariedade sairá antes do partido de Marina. A conferir.

Alckmin terá chances?

Muito difícil a reeleição de Geraldo Alckmin em 2014. Trata-se de um perfil afável, uma pessoa agradável. Mas qual é a marca do governo Alckmin? Qual o eixo, a identidade? Não há um traço de diferenciação, algo que expresse a índole da administração. Ademais, o governador enfrenta o problema de desgaste de material. A polarização PT x PSDB se mostra esgotada. O eleitorado quer ver caras novas.

Skaf no tabuleiro

Paulo Skaf deverá ser o candidato do PMDB ao governo de SP. Tem fôlego e garra. Um perfil arrojado, empreendedor. Dirige a FIESP com visão estratégica. Abre campanhas memoráveis, como essa última, de redução do preço da energia. Bem diferente dos perfis tradicionais da política. Poderá ser a alternativa ao velho jogo entre PT e PSDB. A conferir!

Anastasia faz o quê?

Alguém sabe onde está o choque de gestão do governador Antonio Anastasia? Não era o perfil de renovação? Está isolado nas Minas Gerais.

Exploração

"O Brasil precisa explorar com urgência a sua riqueza - porque a pobreza não aguenta mais ser explorada". (Max Nunes).

Marcio Lacerda

Já o prefeito de BH, Marcio Lacerda, faz uma administração revolucionária. É o que ouço de mineiros com bom olhar político.

Bancadas mudarão?

STF acatará recursos dos Estados que tiveram suas bancadas parlamentares diminuídas por decisão do TSE ? Afinal de contas, não deve se levar em conta o tamanho do eleitorado? Ou vamos ter de mudar os critérios para a formação de bancadas?

O imbróglio no Rio

O PMDB deverá entrar no pleito de 2014 com Pezão. O PT com Lindbergh. Não haverá aliança entre os dois partidos. Para melhorar as chances de Pezão, Sérgio Cabral pensa em deixar o governo para o vice assumir e, assim, ter melhores condições de viabilizar a candidatura. Cabral, diz-se, poderá voltar ao Senado.

Maduro bem verde

Nicolas Maduro ganhou por pouco a presidência na Venezuela. Mas a derrota de Capriles pode se transformar em uma grande vitória. O país está com sua economia em destroços. Capriles vai assistir a derrocada nas arquibancadas. E Maduro, um político ainda muito verde, estará condenado a sair pelas portas do fundo.

Queda

O governo faz previsões menores para o crescimento da economia. E trabalha com queda significativa da dívida pública líquida como proporção do PIB - principal critério para avaliar a sustentabilidade das contas públicas. A dívida líquida terminará este ano em 33,4% do PIB, em 30,9% do PIB ao fim de 2014 e em 28,4% em 2015. Em 2012, a dívida ficou em 35,2% do PIB.

IX FESP

O Sindicato das Empresas de Segurança Privada do Estado de SP (SESVESP) promoverá entre os dias 17 e 19 de abril o IX FESP - Fórum Empresarial de Segurança Privada do Estado de São Paulo com o objetivo de debater as principais tendências e os desafios do mercado de Segurança Privada. O encontro será em Campos do Jordão, no Blue Mountain Hotel. E contará com palestras do advogado, ex-presidente da OAB/SP, Luiz Flávio Borges D'Urso, Emílio Gahma, Dr. Ricardo Sancovich, Paulo Vicente Alves e José Pastore. Alguns assuntos como insegurança jurídica e as inovações trazidas pela nova Portaria 3233/12 serão abordados no encontro.

Lições de Winston Churchill

Fecho a coluna com o maior estadista do século XX:

"Se você tem conhecimento, deixe os outros acenderem suas velas com ele".

"Fanático é alguém que não muda de ideia e não muda de assunto".

"Minha mulher e eu tentamos tomar juntos o café da manhã por duas ou três vezes, mas era tão desagradável que tivemos de parar".

"A coragem é a primeira das qualidades humanas, porque é a qualidade que garante as demais".

"O sucesso consiste em ir de derrota em derrota sem perder o entusiasmo".

"O político precisa ter a habilidade de prever o que vai acontecer amanhã, semana que vem, mês que vem, ano que vem. E a habilidade de explicar porque não aconteceu".

"Política é quase tão excitante quanto a guerra, e quase tão perigosa. Na guerra, você é morto uma vez mas em política, várias vezes".

"Minha conquista mais brilhante foi a habilidade de persuadir minha mulher a se casar comigo".

"Cidadãos saudáveis são o maior bem que qualquer país pode ter".

"Índia é apenas um termo geográfico e não mais uma nação unida, tal qual o Equador".

"Atitude é uma pequena coisa que faz uma grande diferença".

Conselho ao senador Aécio Neves

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao governador Eduardo Campos, do PSB de PE.

1. Senador, sua imagem de pré-candidato é cada vez mais forte. Não está na hora de arrumar um discurso mais abrangente e forte sobre o país?

2. Para a opinião pública, não convém que um pré-candidato expresse um discurso de oposição sem conteúdo condizente com o porte do PSDB.

3. Anuncie publicamente um projeto para o país; convoque os melhores quadros para compor esse projeto.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 16 de abril de 2013

SOBRE O LIVRO “LUIZ GONZAGA – MUITO ALÉM DE UM SANFONEIRO”



Dizem que o primeiro filósofo da política do mundo moderno, Nicolau Maquiavel, cumpria um rigoroso ritual antes de se entregar às tarefas da escrita de O Príncipe. Costumava, após o banho, substituir as roupas do dia a dia por vestimentas de nobres, a fim de receber inspiração superior. Lembrava que uma das veredas do sucesso era mirar o exemplo dos grandes vultos da História.

Quisera eu nesta noite memorável, energizada pela fraterna amizade, perfumada pelas essências do afeto, em que um grupo de amigos se reúne para reverenciar um grande vulto da história recente da cultura popular da nossa Pátria; quisera eu possuir a fortuna da eloquência para pronunciar aqui a oração que a ocasião reclama. Como não fui dadivado com o vigor oracular, procurarei compensar essa deficiência com a precisão da síntese.

Permitam-me compartilhar três breves pontos.

O primeiro é que este livro é a homenagem de um fidalgo da literatura popular ao monarca da música do povão, o Rei do Baião. Dideus Sales, um poeta popular universal e completo, aqui restou insuperável porque aureolado pela radiosa colaboração de Audífax Rios. Disse ontem que Dideus é uma espécie rara, um ser híbrido que nos mimoseia com a genialidade de um versejador nato e, ao mesmo tempo, de um estimulador do talento alheio. É uma fonte original da mais autêntica poesia popular e, também, uma casa de apoio e incentivo para a germinação lúdica de outros artistas. Mensalmente, escolhe o portal de uma cidade cearense para inserir estrofes que enobrecem a alma humana. Vez por outra, promove um festival de cantadores e violeiros para semear alegria e esperança nos corações amargurados pela aridez existencial. Constantemente cunha um livro melhor que o anterior. E permanece em sintonia perene com as aves e as árvores da nossa surpreendente geografia para cantar o amor e a amizade, o instrumental da festa do viver. Parabéns, poeta!

O segundo parágrafo é que às vezes fico perscrutando qual a razão que leva algumas pessoas a alcançarem os píncaros da reverência dos seus concidadãos, aquilo que os latinos chamavam de aura popularis. E sempre deságuo na conclusão de que, neste caso, inexiste motivo racional. A glória não é produto da racionalidade, mas da gratuidade. Gratuidade de uma força superior, que soprou o verbo e o fez carne, alimento para a nossa alma. Como explicar um fenômeno como Francisco, o nosso Papa atual? Francisco, sem contratar qualquer empresa de marketing e/ou publicidade, em menos de 24 horas se tornou uma marca poderosa. Como lembra Nizan Guanaes, “Francisco quer dizer coma moderadamente num mundo obeso. Francisco quer dizer beba com alegria num mundo que enfia a cara no poste. Francisco quer dizer consumo responsável em sociedades de governos e consumidores endividados. Francisco quer dizer o uso responsável do irmão ar, do irmão mar, do irmão vento e de todas as riquezas debaixo do irmão Sol e da irmã Lua”.

Ao dizer que a glória é gratuidade, ouso lembrar que a consequência da gratuidade há que ser sempre a gratidão. Alguém que foi agraciado com o celeiro da criatividade deve lembrar que tem uma missão exponencial. Como bem leciona a música, “se um dom especial é dado para alguém, é pra ajudar o bem na luta contra o mal”. Esta a grande, a única, a excelsa tarefa dos escritores em todos os tempos: insuflar o bem, sufocar o mal.

A última palavra. Há duzentos e dez anos o poeta alemão Frederico Hölderlin, premido pela saudade de uma temporada no sul da França – ainda sob os eflúvios do protagonismo da Revolução Francesa - lapidava seu belo poema A Lembrança, cujo último verso consigna que “o que permanece é aquilo que é fundado pelos poetas”.

A poesia de Dideus, a gravura de Audífax, a música de Luiz Gonzaga são alicerces civilizacionais. Suas obras cantam a mais surpreendente, a mais envolvente, a mais sofrida, a mais valente, a mais valorosa região desta Pátria: o Nordeste Brasileiro, em especial o nosso mágico Sertão.

Honra e louvor a esses visionários fundadores!

(Júnior Bonfim, no Flórida Bar, em Fortaleza, Ceará, na noite de 04 de abril de 2013, publicado na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

OBSERVATÓRIO



Há três anos o mundo perdeu José Saramago, o maior escritor português dos últimos tempos. Filho e neto de camponeses, Saramago foi laureado com os mais expressivos prêmios que a um escritor pode tocar, inclusive o Nobel de Literatura. Dizia que ser escritor e cidadão se confundia. Seus escritos tinham forte tinta política. Era engajado e comprometido com os destinos do povo e sua obra se constitui uma inesgotável fonte. Nesta coluna relembraremos algumas de suas frases.

IPAPORANGA
Dizia Saramago: “O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas”. Na política, sobretudo entre os que estão por cima, é comum o pensamento de que o poder é definitivo. Porém, ele gira. No último dia 05 de abril tivemos uma prova disso. A Câmara Municipal de Ipaporanga estava superlotada. Presentes os nove vereadores que compõem aquela Casa Legislativa. Em pauta a votação das contas de governo do exercício 2009, de responsabilidade do ex-prefeito Nilson Moreira. As Contas vieram com parecer favorável do Tribunal de Contas dos Municípios. Pela lei, para desaprovar as contas com parecer favorável do TCM, são necessários dois terços dos votos. Era algo inimaginável. Que o ex-prefeito perdeu a eleição e, por consequência, a maioria na Câmara – todos sabiam. No entanto, era difícil supor que amargasse uma derrota acachapante. Mas ela ocorreu. Dos nove vereadores, seis votaram contra.

IPAPORANGA II
O primeiro efeito desse resultado é que o ex-prefeito fica legalmente impedido de disputar eleições pelos próximos oito anos. Como o Poder Legislativo é autônomo nesse tipo de julgamento, a única brecha seria se o processo tivesse ocorrido à revelia das normas que regem a matéria. Exemplo: julgamento sem facultar ao acusado o direito de defesa. Isso, porém, não ocorreu.

OPOSIÇÃO
“Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma” (Saramago). A política, nos últimos tempos, tem se ressentido da falta de ideias. Talvez porque as ideias sejam sementes que só germinam em solo fértil. E o terreno propício para a produção de boas ideias é o da boa vontade, do desprendimento, da gratuidade. Só os políticos vocacionados, aqueles que prestam reverência ao interesse coletivo, são capazes de gestar projetos luminosos.

OPOSIÇÃO II
Em Crateús, a oposição sofre de um problema crônico: a dificuldade de se manter unida. Debite-se na conta dessa desunião a derrota – que poderia ter sido vitória – na eleição passada. Sábado próximo passado, dia 13 de abril, tendo à frente Ivan Monte Claudino, alguns líderes oposicionistas foram à Rádio Poty se manifestar. A fala animou a militância. Mas é preciso mais. É necessário o compromisso público de dar às mãos ao redor de um programa de ação comum. Impõe-se que cada um que tem a pretensão legítima de ser candidato aceite se compor em torno de uma chapa com viabilidade de vitória.

OPOSIÇÃO III
Hoje o movimento de combate aos equívocos oficiais se resume a algumas associações de classe e blocos sindicais. Na Câmara, a alguns Vereadores aguerridos e destemidos. Somente. Embora a insatisfação popular seja real (prova disso é o resultado da última eleição) é imperioso que os formadores de opinião e as lideranças constituam um fórum sistemático de análise dos fatos e intervenção na realidade.

AMLEF
“Começar a ler foi para mim como entrar num bosque pela primeira vez e encontrar-me, de repente, com todas as árvores, todas as flores, todos os pássaros. Quando fazes isso, o que te deslumbra é o conjunto. Não dizes: gosto desta árvore mais que das outras. Não, cada livro em que entrava, tomava-o como algo único” (Saramago). A Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza – AMLEF – realiza hoje a noite, no Palácio da Luz, sede da Academia Cearense de Letras, solenidade para dar posse a três membros efetivos (Gonzaga Mota, Mônica Tassigny e Evandro Bezerra) e a um sócio honorário, o crateuense e ministro do Tribunal de Contas da União – TCU – Valmir Campelo. Nos últimos tempos, além das inúmeras tarefas que se desincumbe com brilhantismo, Valmir também tem se entregue ao bosque da literatura. Recentemente lançou em Fortaleza o livro "Obras Públicas - Comentários à Jurisprudência do TCU". Será saudado por este escriba, que também foi autor da concessão da honraria.

PARA REFLETIR
“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. (José Saramago)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

AMANHÃ É DIA DE MAIS UMA EDIÇÃO DO JORNAL GAZETA DO CENTRO OESTE

"DISCUSSÃO SOBRE INVESTIGAÇÃO PELO MINISTÉRIO PÚBLICO É MANIQUEÍSTA" - DIZ JUIZ

Guilherme de Souza Nucci é juiz há 25 anos. Atualmente, é juiz convocado no Tribunal de Justiça de São Paulo. Grande especialista em Direito Processual Penal, é livre-docente no tema pela PUC-SP. Também é professor da matéria na Faculdade de Direito da PUC. Veja a entrevista que concedeu ao site ConJur:

ConJur — O Ministério Público pode investigar?
Guilherme Nucci — Sozinho, não. O próprio promotor abre investigação no gabinete, colhe tudo, não dá satisfação para ninguém, e denuncia. Não. Não e não mesmo. As pessoas estão confundindo as coisas. Ninguém quer privar o Ministério Público de fazer seu papel constitucional. Estão divulgando essa questão de uma forma maniqueísta: pode ou não pode investigar? O MP é bom ou é mau? Isso não existe, é infantil. Ninguém é criança, para achar que é o legal ou o não-legal, o bacana ou o não-bacana. O que a gente tem de pensar é o seguinte: o Ministério Público é o controlador da Polícia Judiciária. Está na Constituição Federal. A Polícia Judiciária, também de acordo com a Constituição Federal, é quem tem a atribuição da investigação criminal.

ConJur — Privativamente, não é? A função dela é só essa.
Guilherme Nucci — A polícia existe para isso. Delegados, investigadores, detetives, agentes da Polícia Federal são pessoas pagas para investigar. E aí o que se diz? O MP não confia nesse povo, que é tudo corrupto, e nós vamos investigar sozinhos. Mas e as instituições são jogadas às traças assim? Eu não concordo. A atividade investigatória foi dada, no Brasil, ao delegado de polícia, concursado, bacharel em Direito. Não é um xerife, um sujeito da cidade que é bacana e que a gente elegeu xerife e que portanto não entende nada de Direito. Nossa estrutura é concursada, democrática, de igual para igual. Não existe isso de “ele é delegado, então ele é pior; eu sou promotor, sou melhor”. Tem corrupção? Então vamos em cima dela, vamos limpar, fazer o que for necessário. Agora, não podemos dizer que, porque a polícia tem uma banda corrupta, devemos tirar a atribuição dela de investigar e passar para outro órgão.

ConJur — Como se no Ministério Público não tivesse corrupção.
Guilherme Nucci — É o único imaculado do mundo? Não. Polícia investiga, MP acusa, juiz julga. MP investiga? Lógico. Junto com a polícia. A polícia faz o trabalho dela e o MP em cima, pede mais provas, requisita diligência, vai junto. Não tem problema o promotor fazer essas coisas. Ele deve fazer.

ConJur — O que não pode é ele fazer, sozinho, a investigação, é isso?
Guilherme Nucci — É. Dizer “eu quero fazer sozinho”. Por quê? Não registrar o que faz? Tenho ouvido dizer de muitas pessoas, tanto investigados quanto advogados, que contam: “Fiquei sabendo que eu estou sendo investigado”. Imagine você, ficar sabendo porque um vizinho seu foi ouvido. Aí ele chega pra você e fala: “Pedro, você está devendo alguma coisa? Aconteceu alguma coisa?”. “Não, por quê?”. “Porque um promotor me chamou ontem”. Aí você contata um advogado amigo seu e ele vai lá à Promotoria e vê se o promotor te mostra o que ele está fazendo. “Protocolado. Interno. É meu”. Veja, não é inquérito, portanto não está previsto em lei. Não tem órgão fiscalizador, não tem juiz, não tem procurador, ninguém acima dele.

ConJur — Só ele, de ofício, sem dar satisfações
Guilherme Nucci — Ele faz o que ele quiser. Ele requisita informações a seu respeito, ou testemunhas. Depois joga uma denúncia. Do nada. Mas cadê a legalidade?! O Supremo já decidiu: tem procuração, pode acompanhar qualquer inquérito, quanto mais protocolado na Promotoria. Então vamos jogar o jogo: quer investigar? Quero. Sozinho? É. Então passa uma lei no Congresso. No mínimo. O ponto é: se o MP quer investigar, tem de editar uma lei federal dizendo como é que vai ser essa investigação. Quem fiscaliza, quem investiga, de que forma, qual procedimento etc. para eu poder entrar com Habeas Corpus, se necessário. O que está errado, hoje, é o MP fazer tudo sozinho. Eu deixo isso bem claro porque cada vez que a gente vai para uma discussão vem o lado emocional. Não estamos vendo o mérito e o demérito da instituição. Estamos falando de um ponto só: o MP não pode investigar sozinho. Ponto final.

ConJur — Em matéria penal, deixando a política de lado, qual a importância do julgamento do mensalão?
Guilherme Nucci — O julgamento do mensalão trouxe para o Brasil um avanço muito grande em nível penal porque pela primeira vez o Supremo Tribunal Federal fixou uma pena em caráter originário pelos onze ministros. É uma coisa histórica. Estamos acostumados a ver o STF julgar recursos, Habeas Corpus, mas não fixando pena, como se fosse um juiz de primeiro grau. E dali tiramos várias lições.

ConJur — Que tipo de lição?
Guilherme Nucci — Coisas controversas, como fixar a pena-base, ou o que levar em consideração, concretamente, para essa escolha. Quanto vale um atenuante, quanto vale um agravante. O Supremo teve de passar por todas essas coisas.

ConJur — Consegue citar alguma dessas lições que tenha considerado mais importante?
Guilherme Nucci — O Supremo entendeu que os agravantes e atenuantes afetam a pena em um sexto. Já era uma jurisprudência majoritária, mas cada juiz tem um critério, porque o Código Penal não fixa.

ConJur — Qual a mudança, então?
Guilherme Nucci — A gente não tinha parâmetro. Tem juiz que entende que é um oitavo, outros entendem que deve afetar em um terço. Alguns aplicam um critério numérico, como seis meses ou um mês.

ConJur — É possível dizer que a interpretação do Supremo no julgamento do mensalão permitiu certa flexibilização da valoração das provas?
Guilherme Nucci — Não vejo assim. O que eu vejo é que o Supremo teve de agir como um juiz age, de valorar a prova pela primeira vez, sem filtragem de nenhum órgão judiciário antes. A prova indiciária está prevista em lei. Os indícios são provas indiretas. O que o ministro deixou claro é que estamos usando, no caso ali, a prova indiciária, que é usada também para outros casos, num roubo simples, num furto. E que a gente não tem necessariamente de usar para condenar só a prova direta — aquela em que pessoa que viu o crime diz: “Foi assim”. Então, na verdade não houve flexibilização.

ConJur — O senhor acha que o caso trouxe à tona aquele sentimento de punir os réus por causa dos cargos que ocupam ou pelo que representam na sociedade?
Guilherme Nucci — Não acredito nisso, sinceramente. Como é um julgamento envolvendo personalidades importantes da República, geralmente baixa esse espírito nas pessoas ligadas aos réus, até mesmo nos seus defensores, dizendo: “Não tem prova; os juízes estão julgando de maneira política”. Mas não creio nisso, sinceramente. Ali é um conjunto de provas, cada um analisa de acordo com o seu convencimento, de acordo com sua convicção própria. O sistema processual penal permite que o juiz forme a sua convicção livremente. Não li os autos, então não posso dizer se há prova do crime ou não, mas não acredito que os ministros tenham tido motivação política no julgamento. Pelo que acompanho, os julgamentos do STF, pelo menos em matéria penal, são sempre bastante técnicos.

ConJur — O fato de se ter uma corte suprema julgando uma ação penal originária influencia nessa conta?
Guilherme Nucci — Na verdade, isso envolve o problema da prerrogativa de função, ou do foro privilegiado. Sou contra. Não vejo nenhum sentido em qualquer autoridade ter direito a um foro específico, especial. Acho que deputado, senador, juiz, promotor, seja quem for, tem que ser julgado por um juiz de primeiro grau. Daí ele tem direito a recurso para o tribunal, depois para o Superior Tribunal de Justiça e, se for o caso, para o Supremo. Como qualquer réu.

ConJur — Mas isso não seria uma garantia social, por causa do cargo que a pessoa com prerrogativa de foro exerce?
Guilherme Nucci — Ora, quem vai para a cadeia não é o cargo, é a pessoa, não é? Em matéria penal não existe julgamento de cargo, existe o julgamento da pessoa, de quem cometeu o crime. Não vejo nenhuma subversão de hierarquia. E vamos ponderar: se um presidente da República, um ministro, um deputado pode se sentar no primeiro grau na Justiça Trabalhista, na Justiça Civil, porque na esfera penal a questão não pode ser resolvida pelo primeiro grau?

ConJur — Passa pela questão de que talvez o juiz de primeiro grau tenha menos qualidade técnica, e por isso alguém com um cargo de representação na República deva ser julgado por uma corte qualificada?
Guilherme Nucci — Não tem a ver com o fato de o Supremo julgar melhor ou pior. Tem a ver com o fato de que todos os brasileiros são iguais. Por isso o correto é que um juiz de primeiro grau tivesse julgado o mensalão, não o Supremo.

ConJur — Alguns réus tentaram.
Guilherme Nucci — Sim, mas veja: por que no mensalão houve grita? Isso num caso de repercussão vira um problema, mas quando não tem, ninguém fala. Mas se quer mudar isso, é simples: muda a lei. Quer desmembrar? Vai lá no Congresso e muda a lei e diz que acabou a conexão quando há uma pessoa que não tem foro privilegiado.

ConJur — Mas não tem aquela questão de que, com o foro especial, o réu tem menos possibilidade de recurso?
Guilherme Nucci — Essa é uma questão interessante que meus alunos vivem me perguntando. Todo réu tem direito ao duplo grau de jurisdição, mas acontece que todo princípio constitucional tem sua exceção. E se você quer um benefício que outros não têm, deve abrir mão de alguma coisa. Os detentores de foro privilegiado, quando fizeram a Constituição Federal, já sabiam que qualquer deputado, senador, presidente, ministro ia ser julgado pela mais alta corte de Justiça e que dali não teriam para quem recorrer. E toparam. É um jogo político. E todo mundo sabe as regras do jogo, ninguém ali é criança.

ConJur — E agora querem fazer o jogo de novo.
Guilherme Nucci — Agora que foram julgados, depois de 25 anos de Constituição, alguém vem dizer assim: “Eu quero duplo grau. Qualquer réu aí de primeiro grau tem direito a recorrer, por que eu não?” Muito simples: porque o coitado do assaltante, que roubou ali na esquina, vai ser julgado por um juiz de primeiro grau — que, para você, que tem foro privilegiado, não serve. Aí, ele vai recorrer para o tribunal; e ele pode chegar ao Supremo, por grau de recurso. Você, não. Você já começou na mais alta instância. Você escolheu esse sistema. As regras estão postas há 25 anos. Reclamar disso agora é sofisma. Só isso.

ConJur — Outro argumento a favor da prerrogativa de foro é para evitar a contaminação política da decisão. Uma crítica muito feita ao Ministério Público é a perseguição a ocupantes de cargos políticos. Aquela mentalidade do “vamos denunciar, é um ‘figurão’”.
Guilherme Nucci — Uma das argumentações realmente é essa: levando para a cúpula eu evito que o julgamento seja contaminado, evito acusações levianas etc. Mas se editássemos uma norma razoável, dizendo que as acusações devem ter tais fundamentos, responsabilizando pessoalmente o autor de uma denúncia leviana, as coisas engrenariam. Poderíamos fazer uma espécie de contrapeso. Tira o foro privilegiado, mas põe uma responsabilidade maior em quem faz a denúncia e em quem a recebe. A razoabilidade é o que deve imperar. O fato de a denúncia ter de ser feita num órgão de cúpula é que existe, naturalmente, uma filtragem maior. É uma realidade.

ConJur — Pune-se demais no Brasil, ou em São Paulo? O que se discute agora, na reforma do Código Penal, por exemplo, é o aumento das penas dos crimes de perigo abstrato, ou aumentar para o tráfico de drogas e aliviar para o uso.
Guilherme Nucci — O levantamento que eu tenho, dos recursos que me chegam, é que a gente só julga seis crimes: tráfico, homicídio, roubo, furto, estelionato e estupro. E metade disso é tráfico. Aí te pergunto: precisamos ter não sei quantos milhares de tipos penais? Não usam. Pune-se demais? Pune-se, nada. Que perigo abstrato é esse que está sendo punido? Pega todos os crimes de perigo abstrato do Código Penal e vê se estão sendo punidos. Aliás, pega todos os crimes de perigo.

ConJur — E que crimes são esses?
Guilherme Nucci — Inundação, naufrágio, incêndio, omissão de socorro, abandono de incapaz, maus tratos, bla bla bla. Bota na mesa, vê quantos estão sendo punidos. Não existe, é mentira. Não tem excesso punitivo. Mas aí, o que eu posso fazer se a sociedade vive com cocaína no bolso e arma na cintura? Pune-se demais? Não. O que eu vejo é um excesso de leis inúteis, que podiam nem existir.

ConJur — Tráfico, por exemplo, que o senhor mencionou, tem uma pena muito pesada?
Guilherme Nucci — Olha, até acho que para o traficante de primeira viagem pode até ser pesado cinco anos. Mas se você pensar no sujeito que pratica tráfico pesado, se organiza, se arma, distribui, é preso com 30 quilos, corrompe, aí tem que punir mesmo. E cinco anos é até pouco. Droga é pesado, corrompe o sistema, fere a saúde pública.

ConJur — Mas existe a demanda.
Guilherme Nucci — Evidente. Concordo plenamente, isso é um problema social grave. Não é só olhar o caráter criminal. Tem quem compre. A celeuma toda não vai ser resolvida só na esfera penal. Mas nisso eu não tenho opinião formada. Não tenho mesmo. Eu acho, sinceramente, que na esfera penal propriamente dita o tráfico tem que ser punido. A única coisa que não concordo é o usuário que não cumpre a pena alternativa não possa ser apenado. Ele foi pego duas vezes fumando maconha e levou duas advertências. Na terceira acontece o quê? Outra advertência? Tinha que ter uma postura mais dura do Estado para esses casos.

ConJur — Mas o que acontece é que o usuário é autuado como traficante.
Guilherme Nucci — Assim que saiu a lei eu escrevi isso no meu livro de tóxicos, sobre as leis penais especiais. Disse o seguinte: “Sabe o que vai acontecer com essa história de o usuário não ir mais para a cadeia? Os delegados vão começar a autuar todo mundo por tráfico”. Dito e feito. E por que o delegado vai amenizar? Pega o cara com cinco cigarros de maconha, ele que prove que é usuário.

ConJur — A coisa se inverte, não é?
Guilherme Nucci — Exatamente. Porque quanto mais você ameniza um lado e carrega o outro, a distorção fica muito grande. Um não vai para a cadeia de jeito nenhum e o outro vai sempre, e o que acontece é que a polícia nunca vai te enquadrar no lado de baixo, porque aí não faria sentido o trabalho dela.

ConJur — E no caso dos crimes de tráfico essa inversão tem acontecido com frequência?
Guilherme Nucci — É patente. No TJ julgamos isso aos montes. A polícia autua, o MP acusa e nós temos de desqualificar. No caso da lei do tráfico ficou esquisito porque carregar a droga é tráfico, mas carregar a droga para uso, não. Então o acusado é quem tem de provar o uso para desqualificar o tráfico.

ConJur — Então é a lei que inverte o ônus da prova?
Guilherme Nucci — Exatamente. O tráfico é que tinha que ter a finalidade: “Carregar droga para comercializar”. E aí se não fica provada a intenção de vender, de traficar, cai automaticamente para o uso. Mas hoje, pela lei, se você carrega a droga, mas não consegue provar que é para consumo próprio, é condenado por tráfico.

ConJur — E aí é aquela velha ideia de que a polícia prende e o Judiciário solta.
Guilherme Nucci — Mas essa é velha mesmo. A Justiça não tem o papel de prender. O papel dela é o de soltar também. Não é só um lado. Só que o papel da polícia é o de prender. Ela trabalha para prender. O juiz, não.

ConJur — Mas também existe aquela noção de que o Judiciário brasileiro é pró-réu. O ministro Joaquim Barbosa já falou isso algumas vezes.
Guilherme Nucci — São frases de efeito que mexem com a estrutura para que as pessoas discutam. Vale para uma conversa numa mesa, mas eu não acredito na generalização disso.

ConJur — O preso no regime fechado ganha o direito de progredir, mas não há vagas no semiaberto. Ele deve esperar no fechado ou ir direto para o aberto?
Guilherme de Souza Nucci — A minha câmara tem duas posições. Uma é dar um prazo para ele passar para o semiaberto. E a segunda posição é, se o juiz der originalmente o semiaberto, aí ele não fica nem um dia a mais no fechado. Porque tem isso também: a sentença é para ele ir para o semiaberto, mas, como não tem vaga, ele vai para o fechado. Isso está completamente errado.

ConJur — E ele passa a ocupar uma vaga no fechado.
Guilherme Nucci — Essa é uma questão absurda. A pergunta que eu sempre faço aos meus alunos: por que não falta vaga no fechado? Não amontoa? Por que não abre a colônia e joga mais um? Por que no semiaberto tem número limitado de vagas e no fechado não? São coisas engraçadas, não é? Então, amontoa todo mundo na colônia. “Ah, mas aí vira bagunça.” O que significa então que o fechado vira bagunça e o Executivo está sabendo que vira bagunça, e que está uma bagunça. Ou vai me dizer que o fechado está totalmente organizado e nunca falta vaga? Então porque o Estado não investe no semiaberto? Por que o estado de São Paulo, especialmente São Paulo, não tem nenhuma casa de albergado? O regime aberto é hoje uma impunidade por causa disso. Vai todo mundo pra casa.

ConJur — O que deve ser feito, então, com o condenado que progride, mas não acha vaga?
Guilherme Nucci — Tem que ir para o aberto direto. Está no fechado, ganha o direito, defiro. Não tem vaga, mas o que o preso tem com isso? O que é que o indivíduo tem com a inépcia estatal? “Ah, ele que apodreça no fechado porque a sociedade também não tem nada com isso.” Mas foi a sociedade que elegeu o governo. Então alguém tem que ser responsabilizado por esse indivíduo ter ido para a rua antes da hora. E se ele matar, estuprar, fizer acontecer, a culpa é do governante. A culpa não é do desembargador que deferiu o Habeas Corpus para ele ir para o regime aberto. É preciso que amanhã, quando esse indivíduo delinquir de novo porque ele não estava preparado para ir para o aberto, que todo mundo se reúna e fale: “Culpa de quem? Do Executivo”.

ConJur — Mas tem o juiz que manda ele continuar preso.
Guilherme Nucci — Tem que parar com essa história de “eu sou desembargador justiceiro, eu tenho que fazer justiça de qualquer jeito e mandar esse cara continuar no regime fechado. A sociedade não pode pagar essa conta, e se não tem vaga no semiaberto, fica no fechado”. Fazendo isso, estou resolvendo um problema do Executivo. Eu sou juiz, não tenho que resolver isso, tenho é que aplicar a lei. E a lei fala que ele tem de ir para o semiaberto, então ele tem de ir para fora da cadeia. Ele tem direito de estar numa colônia penal. Se não tem vaga, vai para um regime melhor, não pior. É meio que óbvio. Uma argumentação: se eu vou para um hotel e pago o quarto de luxo, mas não tem vaga, o hotel vai me mandar para a suíte presidencial, o regime aberto, ou para o standard, o regime fechado?

ConJur — No caso da saúde pública, também se discute se cabe ao Judiciário decidir pelo Executivo.
Guilherme Nucci — Até hoje. “Eu preciso trabalhar, preciso botar meu filho na creche. O Estado prometeu. Tá aqui do lado a creche, do meu lado. Não tem vaga”. Entra na fila. Fila de creche, fila de hospital. Aí o que acontece? Eu me lembro que era juiz da Fazenda Pública na época do problema das creches. Era liminar em cima de liminar para botar criança na creche. O que é que o Executivo reclamou? Que o Judiciário está se metendo nos negócios do governo. Com a saúde foi a mesma coisa. O sujeito chegava lá dizendo: “Estou morrendo, preciso de tratamento”. Eu dava a liminar: “Estado, paga o remédio para esse sujeito”. Aí vinha mais uma discussão: “A jurisdicionalização da saúde pública. Os juízes querem comandar a saúde pública do estado”. Onde o juiz bota a mão firme para o Executivo trabalhar, irrita.

ConJur — É o mesmo problema com saúde, creche e presos...
Guilherme Nucci — O mesmo problema. Agora, se vamos chegar naquele ponto “mas o Estado não pode fazer tudo”, então vamos parar e discutir tudo de novo, porque alguma coisa está errada. Eu prometo tudo e não entrego nada, e ainda tem alguns que dizem que está certo em não dar. Mas é simples: vamos mudar as regras, as leis, a Constituição e dizer que não temos mais direitos. O que eu não me conformo é botar o filho de um na creche e o do outro, não. Isso é horroroso. Na minha área, o que eu posso fazer para as pessoas terem direitos iguais, eu faço.

ConJur — O ministro Joaquim Barbosa recentemente falou na ideia de que o prazo prescricional só deveria contar para a investigação. Segundo ele, depois que o inquérito chega ao Judiciário e vira ação penal, acabaria o prazo e nunca prescreveria. É viável?
Guilherme Nucci — Não. O réu não tem que arcar com o peso da máquina do Judiciário. A prescrição existe porque o Estado é ineficiente. Se o Judiciário leva 20 anos para julgar, o que o réu tem com isso? O problema da máquina é a efetividade, um processo não pode se arrastar por milênios. A prescrição atrapalha? Vamos reformar o Regimento Interno do STF, que está muito desatualizado, vamos reformar algumas leis penais e processuais, para readaptar, porque o Código Penal é de 1941. Mas tenha certeza: mudar lei não muda mentalidade.

ConJur — Tem de ver os efeitos da lei na prática, não é?
Guilherme Nucci — A lei não muda a prática. Não é “muda a lei, muda o mundo”. A lei ajuda, mas especialmente quando ela muda em face da realidade, não quando ela muda em um mundo fictício. Se eu implantar um código suíço no Brasil, o Brasil não vai virar a Suíça. Mas é evidente que se você pega um caso de quase 40 réus e joga para o Supremo julgar, nem um juiz de primeiro grau daria conta de julgar isso rápido, quem dirá um colegiado.

ConJur — No caso do mensalão foram meses de debates, fora os anos de instrução.
Guilherme Nucci — Isso não é por acaso. Todo mundo sabe que demora e todo mundo quer o foro privilegiado. As coisas não vão se resolver tão cedo enquanto o Brasil não “elasticizar” um pouco mais essas prerrogativas. A gente precisa ser mais americanizado nesse ponto. Lá, sim, há democracia plena nesse aspecto. Lá o presidente da República sentou no banco dos réus. O Bill Clinton teve de se sujeitar a uma pronúncia, naquele caso da Monica Lewinski. Teve de se justificar perante o júri sob o risco de ser condenado por perjúrio. Quando isso vai acontecer no Brasil? Isso é democracia, o resto é conversa.

ConJur — Mas há abuso com o uso de recursos deliberadamente protelatórios?
Guilherme Nucci — Vamos diferenciar. Recurso protelatório é uma coisa, ação protelatória é outra. É natural que os advogados, em geral, quando percebam algum flanco de petição, vão por esse caminho. Se eu fosse advogado, faria a mesma coisa. Estou trabalhando pelo meu cliente. O advogado que não faz isso é cobrado depois. Nem gosto de falar que o recurso é protelatório, porque ele está previsto em lei. E se está em lei, não pode ser chamado de protelatório. É direito. Ou reforma a lei e tira o recurso. Mas se eu, de fora, como juiz, enxergo o recurso como uma coisa sem efeito, apenas com a intenção de atrasar a conclusão do caso, eu tiro o recurso, não conheço dele. Simples. Não preciso fazer alarde, dar bronca no advogado. Enquanto existe o recurso previsto em lei, não posso acusar o advogado e falar “olha, está protelando!”

ConJur — A ministra Eliana Calmon, quando ocupou a Corregedoria do CNJ, costumava falar nos bandidos de toga, que a corrupção tomou conta do Judiciário.São estes os problemas do judiciário?
Guilherme Nucci — Criou-se uma frase que a imprensa gostou e captou. Mas eu não tenho muito receio de frases de efeito, não. Elas têm o seu valor. Quando você faz uma afirmação muito dura e ela repercute dá uma balançada no jogo, dá uma mexida na areia do fundo do lago. Não é ruim, de todo. Se você fala, por exemplo, que “juízes sentenciam mal”, todos vão falar: “Mas que absurdo!” Mas vai acordar muita gente. “Por que foi falado isso? Será que existe esse problema? Será que sentencio mal? Será que sou venal?”. Do nada, essas frases não vêm. Mas é mais uma questão de autocrítica, porque elas não têm nenhum efeito prático.

ConJur — O mensalão também trouxe à tona o tema da prescrição da pretensão punitiva. Qual o problema? É a lei processual penal que permite o alongamento indefinido do processo?
Guilherme Nucci — Não creio que a culpa seja da lei. O ponto fundamental aí é máquina emperrada. A gente tinha que ter mais juízes, mais funcionários, não tem outra alternativa.

ConJur — Isso não pulverizaria a jurisprudência?
Guilherme Nucci — Mas aí é o de menos. O importante é andar. E aqui em São Paulo também tem a questão correcional: a máquina está emperrada e o juiz é obrigado a trabalhar contra a máquina, mas também tem o juiz que não trabalha. Então a atividade do CNJ, da Corregedoria-Geral é importante.

ConJur — O que acha da atuação do CNJ?
Guilherme Nucci — Não acompanho diretamente, não sei internamente como as coisas funcionam, mas pelo que leio, o impacto tem sido positivo. Juiz que trabalha não é perturbado pelo CNJ. O mau juiz, de fato, deve responder, deve ser perturbado. Mas é claro que a gente tem de ponderar. Fui assessor da Corregedoria aqui em São Paulo em 2000 e 2001. A gente fiscalizava bem, perguntava por que não estava trabalhando. E o juiz respondia: “Porque estou sem funcionário”. E aí o que se pode fazer? Nada. Precisamos ponderar para que não haja injustiça.

ConJur — A questão é estrutural.
Guilherme Nucci — Temos que aparelhar melhor o judiciário, e aí cobrar o juiz. Dou os funcionários, melhoro a estrutura da vara, mas agora quero as coisas funcionando. Se você não pode dar a estrutura, não pode cobrar. E aí a máquina emperra.

domingo, 14 de abril de 2013

PARA REFLETIR



“Não há liberdade sem liberdade econômica”

“Deixe-me dizer em que acredito: no direito do homem de trabalhar como quiser, de gastar o que ganha, de ser dono de suas propriedades e de ter o Estado para lhe servir e não como seu dono. Essa é a essência de um país livre, e dessas liberdades dependem todas as outras”.

(Margaret Thatcher)

sábado, 13 de abril de 2013

O DIA DA CRIAÇÃO



I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.


Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.


Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.



II


Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado



III


Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na
terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de
sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em [cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e [sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

(Vinicius de Moraes)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

ENVELHECER



Envelhecer é o único meio de
viver muito tempo.

A idade madura é aquela na
qual ainda se é jovem porém
com muito mais esforço.

O que mais me atormenta em
relação às tolices de minha
juventude, não é havê-las
cometido ... e sim não poder
voltar a cometê-las.

Envelhecer é passar da paixão
para a compaixão.

Muitas pessoas não chegam nos
oitenta porque perdem muito
tempo tentando ficar nos quarenta.

Aos vinte reina o desejo, aos trinta
reina a razão e aos cinquenta o juízo.

O que não é belo aos vinte, forte aos
trinta, rico aos quarenta, nem sábio
aos cinquenta, nunca será nem belo,
nem forte, nem rico, nem sábio...

Quando se passa dos sessenta são
poucas as coisas que nos parecem
absurdas.

Os jovens pensam que os velhos são
bobos; os velhos sabem que os jovens
o são.

A maturidade do homem é voltar a
encontrar a serenidade como aquela
que se usufruía quando era menino.

Nada passa mais depressa que os anos.

Quando era jovem dizia: "verás quando
tiver cinquenta anos".
Tenho cinquenta anos e não estou vendo
nada.

Nos olhos dos jovens arde a chama, nos
olhos dos velhos brilha a luz.

A iniciativa da juventude vale tanto
quanto a experiência dos velhos.

Sempre há um menino em todos os
homens.

A cada idade lhe cai bem uma conduta
diferente.

Os jovens andam em grupo, os adultos
em pares e os velhos andam sós.

Feliz é quem foi jovem em sua juventude
e feliz é quem foi sábio em sua velhice.

Todos desejamos chegar à velhice e
todos negamos que tenhamos chegado.

Não entendo isso dos anos; que, todavia,
é bom vivê-los, não tê-los.

(Albert Camus)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

A fonte secou

Abro a coluna com uma historinha da região do Seridó/RN, década de 50.

Médico-chefe de um posto de saúde do Estado do RN (região do Seridó, em Caicó) o dr. Abílio Medeiros também era responsável pela distribuição do leite em pó, o popular "leite do Fisi". Deputado estadual pela UDN, aproveita a presença do governador Dinarte Mariz para um comício no bairro Paraíba, o mais populoso e mais pobre da cidade, nos anos 50. Voz grossa e de muitos decibéis, fazia o estilo "para um bom orador, meia palavra basta" e tascou:

- Governador. O povo deste bairro é miserável!

É mal entendido em sua fala - o termo usado soa pesado demais para os humildes presentes (miserável, ainda hoje, é entendido por muitos como sendo uma ofensa, o mesmo que sem vergonha, cabra safado, etc.). A derrota nas urnas é iminente; passadas as eleições, apurados os votos, doutor Abílio volta ao trabalho nos postos de saúde. Uma pobre e ingênua mulher, lá do bairro injuriado, arrisca da porta do posto:

- Dotô, o sinhô ainda tá dando leite?

O deputado derrotado estoura:

- A senhora tá me achando com cara de vaca?

(Narrada pelo jornalista Orlando Rodrigues em Segura Essa...o Nhem, Nhem, Nhem da caatinga)

Heleno Torres: o pingo nos is

Heleno Torres é o tributarista considerado favorito para ingressar no STF. Trata-se de um dos mais qualificados profissionais do país em sua especialidade. Sexta-feira passada, este consultor almoçava em um restaurante de SP, na companhia do vice-presidente da República, Michel Temer, do professor Celso Antônio Bandeira de Melo (mestre de alguns dos maiores juristas do país) e do amigo José Yunes. Na mesa ao lado, almoçavam o advogado geral da União, Luis Inácio Adams, e Heleno Torres. Cumprimentos. Na hora da despedida, Heleno me disse: "se for convidado, você está convidado para a minha posse". Respondi: "claro que irei". Voltei ao escritório para concluir um trabalho. Por volta de 17h, acessei os jornais na Internet. Li na Folha e no Estado: Heleno Torres foi escolhido pela presidente Dilma para integrar o corpo de ministros do STF na vaga do ex-ministro Carlos Ayres Britto.

Barriga de todos

Ao ler a notícia, imaginei: "puxa, vida, Heleno quis dizer que foi escolhido e fui tão pouco efusivo no cumprimento...!" Imediatamente, postei no twitter: "na hora do almoço, Heleno me informou ter sido escolhido pela Dilma. E me convidou para a posse. Claro que irei". Queria eu dizer que tivera o privilégio de ser um dos primeiros a saber. Vício de jornalista. Não era verdade. Heleno não fora escolhido. Descobri quando liguei para ele para contar do meu entusiasmo e das manchetes que acabara de ler. E ele me respondeu: "pois é, não fui escolhido. Peço para que você desminta a nota, que está provocando balbúrdia". Foi o que fiz. Pedi desculpas. Fui apressado. Porém, ressalto, fui induzido à nota apressada pelo registro dos jornais. Todos cometemos o que, em jornalismo, se chama de "barriga", uma notícia não verdadeira.

Antecipação

A campanha de 2014 entra nas ruas. Nos Estados, pré-candidatos fazem articulações. Os atores com intenção de ocupar a cadeira central da República correm de um lado para outro. O mais açodado é o governador de PE. Que expressa, aliás, o mais dúbio discurso. Diz : deixemos 2014 para tratar em 2014. Ora, ele sai do Nordeste, perambula pelo Sudeste e bate no Sul. Faz palestra a torto e a direito. Critica o governo do qual faz parte muito mais que o tucano Aécio Neves. Faz acenos para atrair o apoio da Força Sindical, comandada pelo deputado Paulinho.

Ética às avessas

Eduardo Campos pratica uma ética às avessas. Ao dizer que a presidente Dilma poderia fazer muito mais, fica no plano genérico. Critica por criticar. Claro, quem quer ser candidato, mesmo pertencendo à base governista, se esforça para aparecer de modo crítico. É o diferencial. Mas criticar o governo que o PSB integra não fica feio? Fica. O líder Beto Albuquerque promete a saída do governo para o segundo semestre, lá para setembro ou outubro, a depender do clima político. Campos, por sua vez, informa que está administrando PE à distância, por meio de um tablet. É o reconhecimento de que faz campanha.

Quem comunica também se estrumbica

Paulo Egydio, governador de SP, no enterro do piloto de Fórmula 1 José Carlos Pacce, vítima de um acidente aéreo: "Lamento que ele tenha morrido longe das pistas".

Paulo Maluf, candidato à presidência da República, numa palestra em Belo Horizonte: "Está com desejo sexual, então estupra, mas não mata"

Franco Montoro, governador de SP, visitando de barco as cidades inundadas do Vale do Ribeira: "Que lindo! Parece Veneza!"

Leonel Brizola, governador do Rio, comentando as declarações da deputada Rita Camata sobre o massacre de meninos na Cinelândia: "Essa mulher é uma vaca inútil".

Fernando Henrique Cardoso, candidato do PMDB à prefeitura de SP, respondendo a Boris Casoy, que lhe perguntara se acreditava em Deus: "Oh, Boris, você me prometeu não fazer essa pergunta".

(Do livro A vida é um palanque, de Carlos Brickman)

E o PDT, hein?

Quanto mais Paulinho da Força abraça Eduardo Campos, mais força ganha a pergunta: e esse PDT de Carlos Lupi, hein, para onde vai? Lupi acaba de emplacar o novo ministro do Trabalho, mas abre a expressão para anunciar que o futuro a Deus pertence. Ou seja, o PDT olha para um lado e para outro. Se integra, hoje, a base governista é porque age de acordo com o dicionário da pragmática. Por isso, não enquadra correligionários que correm para os braços de Eduardo Campos. Paulinho da Força que o diga. Hoje, Paulinho está disposto a abraçar a causa do neto de Arraes. Mas continua com um pedaço do Ministério do Trabalho. Uma no cravo, outra na ferradura.

Pezão versus Lindbergh

Outra frente de guerra ocorre no Rio: Pezão, do PMDB, o vice governador de Cabral contra o senador Lindbergh, do PT. Faz séculos que se sabe da candidatura de Pezão. Que conquistou Lula e Dilma. O cara é hábil, maneiro no trato. Sabe agradar. Mas não ganha, hoje, o agrado do povo. Cabral, com certa razão, diz que tem sido cabo eleitoral fechado de Lula e Dilma. Por isso, não abrirá mão de Pezão. Quer que o PT firme a parceria com o PMDB em torno de seu vice. Mas a cúpula do PT já fechou posição a favor do senador. E argumenta que Lindbergh tem quase o dobro de Pezão nas pesquisas. O vice, dizem, é um peso pesado difícil de puxar. Nem o nome – popular – ajuda. Esse imbróglio no Rio poderá ter repetições em alguns Estados.

PMDB e PT

A parceria do PT com o PMDB deverá ser mantida no nível Federal – em torno da chapa Dilma/Michel Temer, e em alguns Estados. É claro que interessa aos dois partidos uma política de harmonia e integração de esforços. Meta que não será cumprida. Ou cumprida parcialmente. Porque a ambos interessa adensar a base. Significa fazer o maior número de governadores, deputados Federais e estaduais. Essa será a vitamina de continuidade no poder. O PMDB tomou esse suco desde 1985 quando fez um destroço no quadro partidário, elegendo as maiores bancadas. O PT aprendeu a lição. Teremos, portanto, uma disputa contundente nos bastidores. Nem Lula nem Dilma conseguirão apaziguar os ânimos. Deixarão de ir a alguns Estados para evitar palanques duplos. Ou será que, no frigir dos ovos, irão prestigiar apenas os candidatos petistas?

PSB no DF

O PSB pensa como partido grande. Quer fazer candidatos no maior número de Estados, a partir do DF, onde o senador Rodrigo Rollemberg ostenta, hoje, o índice de 27% nas pesquisas de intenção de voto contra o governador petista Agnelo Queiroz, com apenas 14%.

Fim das coligações?

Henrique Alves, presidente da Câmara, promete começar a votar a reforma política, a partir de duas propostas de emenda à Constituição (PECs 10/95 e 3/99) e um projeto de lei (1.538/07), que deverão nortear a discussão. Os principais pontos são: financiamento público exclusivo de campanha; fim das coligações para eleições proporcionais, porém permitindo que os partidos façam federações partidárias que durariam, no mínimo, quatro anos; coincidência das eleições (municipais, estaduais e Federais); ampliação da participação da sociedade na apresentação de projetos de iniciativa popular, inclusive por meio da internet. Pela medida, 500 mil assinaturas garantiriam a apresentação de um projeto de lei; e 1,5 milhão, de proposta de emenda à Constituição; e nova opção de lista flexível, em que o eleitor continuaria votando no deputado ou no partido, mas só o voto na legenda é que reforçaria a lista apresentada pelo partido.

A quem interessa?

Aos maiores partidos, PT e PMDB, interessa aprovar o fim das coligações proporcionais, que lhes daria cerca de 30 deputados a mais. Em compensação, os nanicos estariam ameaçados de desaparecer da planilha partidária. Um ponto que parece consensual é a coincidência das eleições. Ao PT interessa, também, a aprovação do financiamento público de campanha. Colocaria mais fumaça no ambiente do mensalão. A proposta de reforma não tem acordo entre os líderes partidários quanto à forma nem ao conteúdo. É possível que um item que não consta do relatório – a janela para troca de partidos – ganhe força e se sobreponha aos demais.

Barbosa contra os tribunais

A criação de quatro Tribunais Regionais Federais irritou, sobremaneira, o presidente do CNJ e presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa. Que insinuou a implantação desses órgãos em "resorts" ou nas redondezas das praias. Ironia pura. Juízes tentaram contestá-lo em uma audiência. Ele ordenou que não falassem tão alto. E que não confundissem sua legitimidade. Fervura deverá continuar.

Cartão postal borrado

O RJ, que vinha resgatando sua imagem de capital do bom acolhimento, estampa para o mundo uma fotografia de horror. De violência. De abuso. Os estupros que se repetem no Rio desmancham as belezas naturais da capital carioca. Cristo, no Corcovado, está com vendas nos olhos de tanta vergonha.

A doméstica

"Se a sua empregada doméstica precisar fazer uma hora extra, lembre-se de que ela terá de descansar 15 minutos antes de começar. Se você precisa de muitas horas extras, atente que ela não pode exceder dez horas por semana. Se dorme ou não no emprego, ela terá de ficar 11 horas sem trabalhar depois de encerrada uma jornada. Atenção: ela não pode comer em menos de uma hora em cada refeição. Se ela demorar mais de dez minutos para entrar no serviço, trocar de roupa ou tomar banho na hora da saída, esse tempo será contado como hora extra. Se ela dorme no quarto com uma criança ou um doente, terá de ser remunerada com adicional noturno e eventualmente hora extra por estar à disposição daquela pessoa. Se você tiver de compensar em outro dia as horas a mais que ela trabalhou no dia anterior (banco de horas), lembre-se de que isso tem de ser previamente negociado com o sindicato das domésticas". (José Pastore).

Mercadante lidera corrida

O ministro da Educação, Aloísio Mercadante, lidera a corrida para o governo de SP na esfera do PT. Os outros nomes: Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo, não tem perfil para cooptar fortes classes médias; ministro da Saúde, Alexandre Padilha, é mal avaliado; sua pasta é conhecida como Ministério da Doença; a ministra da Cultura, Marta Suplicy, exibe uma rejeição histórica, difícil de ser administrada.

Lula sob inquérito

PF tem incumbência de realizar inquérito para apurar responsabilidades do ex-presidente Luiz Inácio no episódio do mensalão. Este consultor acha que essa ação não resultará em nada.

Quem comunica também se estrumbica - II

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente nacional do PT: "O vermelho da bandeira do partido é a cor do sangue de Cristo".

Antônio Rogério Magri, Ministro do Trabalho, explicando por que utilizara um carro oficial para levar sua cadela ao veterinário: "Cachorro também é gente".

Francelino Pereira, presidente nacional da Arena, desmentindo que o governo pretendesse fechar o Congresso: "Que país é esse em que não se confia na palavra de seus governantes?". (O Congresso foi fechado em seguida, pelo pacote de abril).

Mário Amato, presidente da FIESP, falando sobre a ministra do Trabalho, Dorothéa Werneck: "É inteligente, apesar de ser mulher".

Luiza Erundina, prefeita de SP: "Os mortos das enchentes são águas passadas".

(Do livro A vida é um palanque, de Carlos Brickman)

Conselho a Eduardo Campos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao deputado Marco Feliciano. Hoje, volta sua atenção ao governador Eduardo Campos:

1. Governador, Vossa Excelência tem dito que 2014 será resolvido em 2014. Mas faz peroração eleitoral quase todos os dias. Sua atitude é incongruente com o discurso.

2. Não seria mais lógico afastar-se da base governista logo agora para não ser considerado oportunista e de estar se valendo da máquina pública (cargos na estrutura do governo) para consolidar espaços de poder?

3. É perfeitamente compreensível que seja candidato à presidência, dispondo de grande visibilidade, boa avaliação de sua administração e de um partido em ascensão. Mas é inaceitável que esteja, como pré-candidato, usando a esteira governamental para alavancar a candidatura.

(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 9 de abril de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Inapetência e ativismo, as "saúvas" do Brasil

Em "Macunaíma", o retrato de um brasileiro sem nenhum caráter, Mário de Andrade avisava que "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil". A saúva, nome de várias espécies de formiga, era uma praga, hoje controlada, que costumava dizimar plantações. O escritor paulista, porém, utilizou a formiga como uma alegoria para condenar a politicalha existente na ocasião na vida nacional. Aliás, como antes e como sempre.

Inapetência e ativismo, as "saúvas" do Brasil - II

A vida burocrática brasileira, também tem as suas saúvas - aliás, muitas - dentre as quais a inapetência gerencial e o ativismo político-ideológico. Essas duas pragas, que grassam na esfera pública, principalmente nos gramados e no concreto de Oscar Niemeyer, viraram, com a politicalha, uma séria ameaça ao desenvolvimento do país. Nada exemplifica melhor o poder destrutivo dessas pragas que o programa de concessões de obras e serviços de infraestrutura do governo Federal. Já lá se vão mais de oito meses que a presidente Dilma lançou, com toda a pompa e circunstância que é capaz de produzir "o ministro sem pasta para assuntos de propaganda" [o marqueteiro João Santana], um pacote de concessões nas áreas de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Avaliado no total em mais de três centenas de bilhões de reais, era, segundo a propaganda oficial, o fim dos apagões logísticos que ameaçam sedar a economia, alguns bem visíveis neste momento exato em que mais uma safra nacional recorde começa a sair do campo.

Inapetência e ativismo, "as saúvas" do Brasil - III

Assim como os caminhões agora parados na beira das estradas nas portas dos portos, nada andou de lá para cá. Um caso gritante é da concessão de trechos da BR-040 (ligação Brasília-Rio de Janeiro, passando por Minas Gerais) e da BR-101, uma das estradas de integração nacional. O leilão foi suspenso às vésperas de sua realização e não tem data para acontecer. Também não há data certa para outros leilões na área de ferrovia e nas outras. As razões para tanta demora podem ser resumidas em duas :

1. A proverbial e conhecida dificuldade do setor público brasileiro para executar suas obrigações. As próprias concessões agora previstas nasceram depois que o Brasil finalmente admitiu que, além de não ter dinheiro suficiente para bancar os projetos, tem insuficiente capacidade de execução para levá-los adiante. Mesmo assim, não consegue soltar as amarras, tal a quantidade de órgãos indiretamente envolvidos no processo - há os ministérios respectivos, a Empresa de Planejamento Logístico com mais poder que alguns ministros, o BNDES com seus palpites e o ministério da Fazenda. Sem contar que nada sai do lugar sem o "aprovado" da presidente Dilma, cada vez com a cabeça dividida entre gestão e eleição.

2. O ativismo político e econômico do governo - e certa vergonha de "privatizar" - que o levam a tentar manter as concessões sob seu controle direto ou indireto e, por isso, a criar regras que acabaram afugentando possíveis investidores nacionais e estrangeiros.

Inapetência e ativismo, "as saúvas" do Brasil IV

O leilão das BRs 040 e 101 foi adiado porque não apareceram interessados de peso. Desde que anunciou o pacote, em agosto, já foram anunciadas várias mudanças nos editais, para contornar as resistências dos investidores. Um dia a notícia vem do presidente da EPL, Bernardo Figueiredo, no outro do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, no seguinte do ministro da Fazenda, Guido Mantega - e, de vez em quando, até de algum outro ministro. Não há um modelo fechado e, nesta altura, dificilmente qualquer obra nessas áreas será iniciada em 2013. Mais um ano perdido de investimentos. Para atacar as saúvas biológicas, a receita é formicida. Que tipo de formicida pode-se aplicar para matar as saúvas da burocracia ?

Banco Central em transe

Desde que seu presidente do BC, Alexandre Tombini, foi escalado para corrigir o barulho provocado pelas declarações meio destrambelhadas da presidente Dilma na África do Sul a respeito de inflação, crescimento do PIB, juros e mais outros assuntos, o BC parece tomado de um transe - reafirmar sua condição de autoridade monetária independente de condicionantes políticas. Tombini, em mais de uma ocasião, fez juras de amor à política de combate à inflação sem concessões - se necessário com elevação dos juros, tido como um dos tabus eleitorais de Dilma. O Boletim Trimestral de Inflação, além de contrariar as previsões "manteguianas", também faz menções críticas à algumas políticas fazendárias. Uma delas passou despercebida, incluída num anexo, desvendada pelo jornal "Valor Econômico" : o BC passou a considerar um novo cálculo para o superávit/déficit primário das contas federais, expurgando em boa parte as mágicas fiscais dos últimos anos que garantiram no papel um superávit na contabilidade oficial que não aconteceu no mundo.A primeira leitura desses movimentos é que "os incômodos" do BC com a inflação são maiores do que transparece a vã filosofia brasiliense. A outra é a de que Tombini e sua turma precisam dar uma satisfação, ainda que pro forma aos agentes econômicos de que não apenas está vivo como também ativo. A especulação é de que a resposta viria com um aumento de 0,25 ponto percentual na Selic na semana que vem.

Inflação: o curto prazo

Não é apenas de tomates que a elevada inflação vive. O que se vê é um sistemático e generalizado processo de aumento de preços. Já comentamos nesta coluna (na semana passada) que o problema não é apenas o fato da inflação ser 6% ou 6,5%, mas o conjunto das informações (alta generalizada de preços, câmbio valorizado, baixo crescimento, etc.). De fato, ponderados a política e a economia, a equação macro e microeconômica não fecha. Afora estes aspectos estruturais, o IPCA a ser divulgado amanhã vai "furar" a banda superior da meta de inflação. Um mau sinal que apenas mostrará que a água está subindo e o BC persiste de mãos atadas, seja pela presidente, seja pela conjuntura - o PIB que capenga não justificaria uma taxa de juros mais elevada. O mais estranho é a passividade da classe política, em geral, e da oposição em particular. A crise é emergente, mas também é imanente - a politicagem não pode ser distinguida da fragilidade da política econômica. Tudo deve continuar na mesma toada enquanto o desemprego não mostre seus dentes. O que pode demorar até o eleitor depositar o seu voto e descobrir que foi traído pelas aparências.

Recordando Lula 2002

"Mas é preciso insistir: só a volta do crescimento pode levar o país a contar com um equilíbrio fiscal consistente e duradouro. A estabilidade, o controle das contas públicas e da inflação são hoje um patrimônio de todos os brasileiros". (Carta aos Brasileiros, 22 de junho de 2002)

Enquanto isso, nos EUA...

Todos os mais importantes sinais vitais da economia dos EUA são positivos, exceto o desemprego que deve permanecer elevado (acima de 7%), talvez por mais alguns anos. De outro lado, o crédito cresce, o país se reindustrializa (em novas bases), a produtividade cresce, e o consumo e produção, pouco a pouco, começam a dar sinais de vigor. Logicamente, o endividamento público (e privado) é elevado, mas o dólar, tantas vezes "enterrado" como sendo uma moeda decadente, permanece forte e o mundo financia docemente a América. Enquanto isso, Barack Obama estimula sua tropa palaciana a debater alternativas para a política econômica. Estuda-se desde o aprofundamento do quantitative easing (política monetária frouxíssima) até o estabelecimento de novas metas para o Federal Reserve (meta de PIB nominal ao invés de meta de inflação e crescimento). O mais importante é que o mundo assiste a evolução dos fatos nos EUA com maior otimismo, enquanto no campo interno os consumidores voltam às lojas e os investidores à bolsa de valores.

Algo além de aviões de carreira

Em menos de quatro dias, a presidente Dilma bateu continência duas vezes para o ex-presidente Lula. Na quinta-feira, ela veio a SP, para uma conversa de cerca de 7 horas - tempo suficiente para se fazer um bom resumo da Bíblia - com seu mentor, compartilhada em parte com o presidente do PT, Rui Falcão, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e o ex-ministro e o "consultor privado" Antonio Palocci. Uma reunião do apostolado petista, como se vê. No sábado, voltou à capital paulista para um jantar, na churrascaria Rodeio, ex-reduto tucano, em comemoração ao aniversário da ex-primeira dama, Marisa Letícia, na presença de uma parte da elite petista paulista. Os compromissos eram privados, mas Dilma cortou os ares entre Brasília e SP nos jatos oficiais. As reverências à Lula indicam que no ar da política também há algo a preocupar mais do que o normal dos "aviões de carreira". Podem apostar numa cesta que inclui inflação, crescimento econômico e as eleições presidenciais. O fantasma Eduardo Campos e o crescimento das críticas dele e de Aécio Neves ao governo estão fazendo caraminholas na cabeça do mundo oficial. Anotem : vem aí mais aperto contra os adversários e mais bondades na economia.

Aos amigos tudo...

...aos inimigos o rigor da lei. Este é um lema político-administrativo atribuído a Getúlio Vargas no Brasil, mas que por essas plagas tupiniquins não haja governante que não tenha abraçado. E seu peso agora começará a cair sobre a cabeça do governador de PE, Eduardo Campos.

Plumagens em alvoroço

Muitas penas tucanas começaram a voar depois que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em duro recado durante um encontro promovido pelo PSDB paulista, manifestou a sua inconformidade com as divisões de seu partido. Plumas devem ter voado principalmente no território paulista do tucanato, embora o aviso de FHC tivesse destino generalizado. Assim, não parece ter sido à toa a entrevista do presidente nacional do PSDB Sérgio Guerra, pernambucano ligado também ao governador Eduardo Campos, ao jornal "O Estado de Minas" de segunda-feira, elogiando Aécio Neves e até traçando um roteiro básico para sua campanha. Desconfiada, a turma mineira achava que Guerra poderia estar com um pé em dois barcos.

Será?

Se depender das entrevistas em jornais - duas exclusivas apenas na sexta-feira - de matérias positivas e notinhas em diversos veículos e das poses de papagaio de pirata com frequência ao lado da presidente Dilma não há menor dúvida de que o ministro da Educação, Aloizio Mercadante (também conhecido por alguns, não se sabe a razão, como o "José Serra do PT") já é o candidato petista ao governo de SP. Não se sabe ainda se isto foi combinado certinho com Marta Suplicy, Alexandre Padilha, José Eduardo Cardozo, Luiz Marinho e, principalmente, com o ex-presidente Lula. De todo forma, se confirmado, é o melhor presente que Geraldo Alckmin gostaria de receber para 2014.

Quantos votos eles têm mesmo?

José Batista Junior, dono da Friboi, da produtora de celulose Eldorado e do Banco Original (dirigido por Henrique Meirelles), bem como um dos fregueses mais importantes do BNDES, estava cobiçado pelo PSB de Eduardo Campos para candidato do partido ao governo de GO e dar um palanque recheado ao governador de PE no Estado. Por razões que os interesses empresariais explicam, acabou fisgado pelo PMDB do vice-presidente e poeta Michel Temer e, desta forma, vai engordar o palanque de Dilma, ou como candidato à sucessão de Marconi Perillo defendendo as cores do peemedebismo ou numa vice com o PT. Em MG, Josué Gomes da Silva, filho do ex-vice presidente José Alencar e principal acionista da Coteminas, uma das maiores indústrias têxteis do Brasil, é disputado pelo PT e pelo PMDB para a sucessão ao governo mineiro, ou como candidato titular ao Palácio da Liberdade ou como vice numa chapa encabeçada pelo ministro petista Fernando Pimentel. O que tem em comum o Junior e o Josué além de serem neófitos em política e bem sucedidos empresários? O risco de serem seduzidos para rechear arcas dos oposicionistas. Em casos assim, o que menos importa são os votos que eles podem carregar para as urnas de seus partidos-hospedeiros.

Thatcher, ideologia e realidade

Pode-se falar tudo da primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher, menos o fato de que a Iron Lady não era uma política definida ideologicamente. Verdade que vivíamos a denominada Guerra Fria, mas a definição da cepa política de um homem público ainda tem seu valor, muito embora seja coisa rara no globo. No Brasil, ultrapassa-se o limite entre esquerda e direita, liberal e conservador, socialista e capitalista, numa velocidade para além do jornalista Clark Kent quando sair das cabines de telefone. A identidade dos empresários brasileiros com os ideais do PT e sua aliança mostram que o ex-partido operário está ocupando não apenas espaços políticos, mas também contribuindo para que espaços econômicos sejam ocupados com galhardia pelos capitalistas, no passado, "nefastos" para o petismo. Seria difícil explicar para a Dama de Ferro a conjuntura política brasileira.

Dirceu e a Rede Globo

Comentário no blog do ex-ministro José Dirceu:

"Em editorial, o jornal carioca apoia uma outra "regulação" e, a pretexto de defender a cultura nacional, visa a impedir a concorrência com grandes sites e teles estrangeiras. O Globo ainda insiste em demonizar a proposta de uma verdadeira regulação, alegando desrespeito à princípios constitucionais. Mas é a própria Constituição que trata da necessidade da regulação."

Não são poucas as pressões que o ministro das Telecomunicações Paulo Bernardo (e marido de Gleise Hoffmann) vem sofrendo de dentro do PT para regular a mídia no Brasil. Resta saber o que pensa a presidente sobre o tema. Ela que é próxima do casal.

Jabuti não sobe em árvore

Marco Feliciano, o deputado-pastor, é mesmo uma excrescência, uma aberração, na presidência na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Porém, ele não chegou lá sozinho. Seu partido, o PSC, nem número de deputados tem para ocupar a presidência de uma comissão permanente, segundo a praxe da casa. O lugar, tradicionalmente, é do PT, que por razões da política dos políticos, abriu mão dele. Ninguém no Congresso, em sã consciência, pode negar que sabia das posições de Feliciano. Ele nunca negou isto e tem todo o direito de ter as posições que tem. Ele foi indicado por seu partido e votado pelos membros da Comissão, de diversas legendas. Não subiu sozinho nesta árvore. E ninguém se deu conta da aberração antes das críticas vindas de fora? As reações do Congresso e dos partidos agora são pura hipocrisia, daquelas que consagraram grandes escritores...

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

ESCUTATÓRIA


Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas – coitadinhas delas – entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que moram em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos, não são as árvores e as flores. Para ser ver é preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos.(Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonita é a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma dela contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia – a enfermeira nunca acertava – dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim esperando, evidentemente, o aplauso, admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: "Mas isso não é nada..." A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma." Daí a dificuldade: a gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg – citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas." Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não "evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório pra não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma.) Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essencais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado." Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou." Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou. E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em "U" definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: "Meus irmãos, vamos cantar o hino..." Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. É música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós – como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa – quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia que de tão linda nos faz chorar. Pra mim Deus é isso: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá tembém. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...

(Rubem Alves)

domingo, 7 de abril de 2013

DEUS E O DIABO NO TEATRO POLÍTICO

No Estado-Espetáculo, até Deus é usado como bengala de apoio aos representantes políticos. O ditador Francisco Franco, que governou a Espanha por 36 anos (1939-1975), usava a Providência divina para afirmar sua legitimidade: “Deus colocou em nossas mãos a vida de nossa Pátria para que a governemos”.

Não satisfeito, mandou cunhas nas moedas: “Caudilho pela graça de Deus”. Idi Amin Dada, o cabo que se tornou marechal de Uganda, sanguinário e paspalhão, dizia ao povo que falava com Deus nos sonhos.

Um dia deparou-se com a pergunta de um jornalista: “O senhor tem com frequência esses sonhos? Conversa muito com Deus?” Lacônico, o cara de pau respondeu: “Sempre quando necessário”.

A história é cheia de casos em que atores políticos organizam o próprio culto, ornando sua aura com atributos divinos. Nietzsche chegou a proclamar: “A apoteose da aventura humana é a glorificação do homem-Deus”. Mas o diabo também é avocado como protagonista do teatro da política fosforescente.

A desastrada declaração do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) de que, antes dele presidi-la, a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados era dominada por Satanás comprova a tese.

Nos últimos tempos, por nossas bandas, impulsionados por uma onda midiática que entra nas noites e madrugadas construindo um novo pentecostalismo, bispos, pastores e apóstolos não medem esforços para organizar exércitos do bem para enfrentar as forças do mal.

Do alto de uma montanha de dízimos, os comandantes de guerra contra as trevas estruturam impérios religiosos, ganham concessões do Estado (para execrar, frequentemente, o próprio Estado), locupletam cofres, organizam partidos e aumentam a fatia política com bancadas cada vez mais gordas.

A expressão radical torna-se arma de combate e de engajamento de milícias. Já a defesa de posições conservadoras funciona como escudo. A índole discriminatória explode. Essa é a composição que explica o imbróglio envolvendo o novo presidente da Comissão de Direitos Humanos.

Flagrado ao postar mensagens homofóbicas e racistas nas redes sociais, Feliciano arremata, em inflamado sermão, que, “pela primeira vez na história desse País, um pastor cheio de espírito santo” conquistou espaço dominado pelas tropas de Belzebu.

Destemperado, o deputado jogou no fogo do inferno companheiros que já comandaram aquele território “satânico”. E assim, comete um pecado ético, deixando transparecer a ruptura do princípio republicano que estabelece a separação entre igreja e Estado.

É evidente que o verbo messiânico tenta desenhar a figura de um “herói” sob proteção divina. Maquiavelismo. A linguagem cortante, claro, resultará em bacia cheia de votos em 2014. Atente-se para o espírito do nosso tempo: culto da personalidade, competitividade entre igrejas, organicidade social, multiplicação de grupos de pressão, expansão da democracia participativa, abertura da locução social.

Com o foguetório, o pregador consegue chegar aos píncaros da visibilidade, meta ambicionada por qualquer parlamentar. Vale lembrar que foi eleito pelos pares para comandar a Comissão de Direitos Humanos. Até ai tudo bem. Inaceitável é o uso (e abuso) de peroração discriminatória dentro de um organismo criado exatamente para defender os postulados da igualdade e da pluralidade.

Resta observar que o “enviado dos céus” ultrapassou seus 15 minutos de fama. E parece querer mais, ampliando espaços midiáticos e sendo eleito como o bastião da resistência evangélica no Congresso. Multiplicará o rebanho e consolidará a imagem de “guerreiro do Espírito Santo”? Não há certeza. Mas a ambição desvairada pelo poder acabou turvando a visão do ator.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos caiu na tentação de ultrapassar os limites do bom senso. Ao trazer Satanás para a mesa da política e identificá-lo com seus pares, abriu caminho para ser examinado pela lupa ética.

A imbricação de política e religião, na forma como o fez, e logo dentro da Comissão que espelha direitos humanos, pode ser o motivo para seu afastamento. Não é de hoje que objetos sagrados e profanos são embalados pelo celofane da política. No Brasil, a amálgama tem sido rotineira, a partir das concessões na área de rádio e TV para grupos e igrejas. Os dois territórios bifurcam-se, sob o olhar complacente de quem tem poder para evitá-la.

Até se admite que a concorrência entre católicos e pentecostais estimula os contendores a aprofundar as relações com o Estado, como se vê na recente proposta do deputado evangélico João Campos (PSDB-GO), que garante às entidades religiosas poder de contestar a constitucionalidade de leis no STF. (Por que não estender o privilégio aos ritos afrobrasileiros?)

Deslocar a religião para o palco da política, no molde feliciano, é pregar abertamente a ilicitude dentro da própria Casa que faz as leis e deve dar exemplo de disciplina. Não se pretende defender postura apolítica de igrejas e credos. Seu papel missionário implica tomar partido, lutar por ideários e convicções, ações que inescapavelmente adentram os corredores do Parlamento. Podem, até, sugerir a eleição de perfis identificados com os valores da República. Constituem motivo de aplauso, igualmente, ações sociais pela elevação e promoção do ser humano, particularmente dos contingentes marginalizados. Essa é a visão abrangente da política que as igrejas podem perseguir.

Outra coisa é política partidária, usar a religião como instrumento de negócios lucrativos, imã para atrair fiéis e posicioná-los nas siglas. A invasão religiosa no espaço público ameaça manchar o escopo republicano, apesar de sabermos que o ativismo eleitoreiro de certas igrejas acabará acentuando tal tendência. Urge dar um basta na construção da “Igreja-Estado”.

Foram-se os tempos em que líderes religiosos coroavam e descoroavam reis e rainhas. O bom senso aconselha: senhores políticos, muito cuidado para não trombetear o nome de Deus na tuba da politicagem.


(Gaudêncio Torquato)