quarta-feira, 26 de junho de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Especial - uma visão geral da crise

Hoje, excepcionalmente, a Coluna terá como foco o movimento que abre um novo ciclo social/institucional no país. Está um pouco mais extensa. Pedimos compreensão das leitoras e leitores. Mesmo assim, vou abrir com uma historinha, como tem sido costume nesse espaço. Escolhi uma parábola que se aplica aos nossos governantes e políticos.

Não sabem que não sabem

"Há pessoas que não conseguem perceber o que se passa ao seu redor. Não vêem que não vêem, não sabem que não sabem". Pequeno relato. Zé caiu em um poço e está a 10 metros de profundidade. Olhava para os céus e não viu o buraco. Desesperado, começou a escalar as paredes. Sobe um centímetro e escorrega. Passou o dia fazendo tentativas. As energias começaram a faltar. No dia seguinte, alguém que passava pelo lugar ouviu um barulho. Olhou para o fundo do poço. Enxergou o vulto de Zé. Correu e pegou uma corda. Lançou-a no buraco. Concentrado em seu trabalho, esbaforido, cansado, Zé não ouve o grito da pessoa : "Pegue a corda, pegue a corda". Surdo, sem perceber a realidade, continua a tarefa de escalar, sem sucesso, as paredes. O homem na beira do poço joga uma pedra. Zé sente a dor e olha para cima, irritado, sem compreender nada. Grita furioso :

- O que você quer ? Não vê que estou ocupado ?

O desconhecido se surpreende e volta a aconselhar :

- Aí tem a corda, pegue-a, que eu puxo.

Mais irritado ainda, responde sem olhar para cima :

- Não vê que estou ocupado, ó cara. Não tenho tempo para me preocupar com sua corda.

E recomeça seu trabalho. Parábola: "Zé não vê que não vê, não sabe que não sabe". Os nossos governantes e políticos não perceberam a corda que a galera há tempos joga para que eles possam sair do fundo do poço. Não vêem que não vêem, não sabem que não sabem.

A travessia brasileira

As manifestações que ocorrem no país são diferentes dos eventos ocorridos em décadas passadas, quando se identificavam eixos e discursos centrais (Diretas Já, impeachment de Collor), lideranças e intensa participação da esfera política, por meio de partidos. Distingo três movimentos nos eventos:

1. A canoa atravessa o rio

Um pequeno grupo manobra a canoa no rio para atravessá-lo de um lado para outro. O nome da canoa : MPL - Movimento pelo Passe Livre. Composição dos canoeiros : estudantes. A intenção desejada : reduzir a tarifa de ônibus em SP. A canoa começou a abarrotar de gente. Todos queriam entrar na canoa e chegar à margem oposta.

2. A canoa se transforma em navio

O Movimento pelo Passe Livre, de maneira surpreendente e rápida, assume enorme proporção. A primeira movimentação junta, em torno do grupamento inicial de estudantes, setores variados : ativistas de movimentos em defesa de gêneros, de minorias étnicas e sexuais, funcionários públicos, pais de estudantes, comerciários, punks e anarquistas. A reivindicação básica - redução da tarifa de ônibus - dilui-se na massa discursiva que se ouve e se vê nas palavras de ordem e faixas levantadas pela multidão em passeata :

- contra a corrupção;

- contra a violência;

- contra os serviços precários de saúde;

- contra a deteriorada malha educacional;

- (ao lado de outras bandeiras - como maioridade penal, contra a criminalização do aborto, contra a PEC 37, etc.);

- altos custos dos estádios/dificuldade de acesso a eles.

3. Transatlânticos invadem os mares

A travessia se transforma, de repente, em gigantesca navegação em uma frota de transatlânticos que abrigam milhares de pessoas em mais de 100 capitais e cidades do país. Calcula-se que um milhão de pessoas participou da última manifestação, ocorrida semana passada. A movimentação apresentou algumas características :

- violência da PM no primeiro grande movimento, segunda-feira, dia 17; cenas de vandalismo e depredação de prédios públicos; destruição de carros de empresas jornalísticas;

- hoje, mais de uma semana depois, já chega a quatro mortes (três atropelados e uma gari que morreu de enfarte), além de centenas de feridos em muitas capitais e cidades;

- distanciamento dos grandes partidos políticos. Mesmo os pequenos partidos (de extrema esquerda) foram repelidos pela multidão;

- um discurso difuso - propostas genéricas no entorno da proposta central do MPL : redução de tarifas de ônibus;

- contingentes de classe média foram encorpados por contingentes de jovens da periferia. As massas se fundiram em um grande movimento sem lideranças tradicionais.

Surpresa

As esferas política e governamental foram tomadas de surpresa. Algumas razões estão por trás do susto. Alinho algumas :

- a falsa impressão de que o conforto econômico - mesmo sob ameaça de volta da inflação - apaziguava o país;

- a falsa impressão de que os jovens, descrentes da política, formam grupamentos amorfos, desinteressados e sem motivação para acorrer às ruas;

- a surpresa pela rapidez da formação dos contingentes; pouco se tinha ideia das condições de interatividade e mobilização propiciadas pelas redes eletrônicas da internet;

- a área política encheu-se de indagações : O que dizer ? O que fazer ? Como fazer ?

Gigante não estava adormecido

A ocupação das ruas de grandes e médios centros urbanos por multidões é algo inusitado na feição institucional. Por ocasião das Diretas Já e do Impeachment de Collor, as motivações eram claras e grandes lideranças puxavam as mobilizações. Depois do surto Collor, reaparecem as massas na rua. Ocorre a maior mobilização de toda a nossa história, fato que merece ampla reflexão por emergir como contraponto ao cenário de harmonia que se imaginava, até então. O que significa ? Reflete o fechamento de um ciclo de aceitação/passividade e sinaliza a abertura de um tempo de participação da sociedade, como um todo, no processo decisório.

Democracia direta

Sob certo aspecto, podemos falar da emergência de traços da democracia direta em contraposição à democracia representativa, em crise. O povo percebe que tem a força para fazer mudar as coisas. A redução do preço das passagens de ônibus foi o atestado mais evidente dessa capacidade. Geraldo Alckmin decide suspender também os aumentos do pedágio em SP. Tal percepção do povo funciona como fator de animação/disposição/animus animandi.

PNBIS

Além das causas acima enumeradas, qual o eixo que moveu a ampla movimentação ? Não há um, mas um conjunto de fatores. Podemos inseri-los dentro do que designo de Produto Nacional Bruto da Insatisfação Social (PNBIS), composto por mazelas nas seguintes áreas :

a) Corrupção generalizada;

b) Educação deteriorada;

c) Saúde em estado precário - estruturas inadequadas, ineficientes, obsoletas;

d) Violência em expansão nas médias e grandes cidades;

e) Sistema de mobilidade urbana locupletado;

f) Gastos excessivos em estádios de futebol;

g) Saturação com o modus operandi da velha política. Escândalos e denúncias.

Bolsa-cabeça

Sensação é a de que o ciclo do Bolsa-Barriga (que resulta do Bolsa-Família) está esgotado. Fecha-se. Estudantada de todos os lados quer um Bolsa-Cabeça. Um pacotão para embalar as grandes demandas populares.

Raiva e indignação

Essas áreas compõem a massa de negatividade / insatisfação / indignação que chega, rotineiramente, ao sistema cognitivo do cidadão comum. Para agravar o quadro, os avanços alcançados pela sociedade e a esperança de que o país abra novos capítulos sofrem reveses. (Veja-se, a propósito, a declaração do ministro Dias Toffoli, de que o mensalão poderia durar, ainda, dois anos. Um balde d'água fria na cabeça dos esperançosos brasileiros, que distinguiam o final do maior processo criminal julgado pela mais alta Corte do país).

Exuberância dos estádios

Além disso, os estádios desta Copa das Confederações aquecem fogueiras. Ouçam-se as vaias a Dilma e ao Joseph Blatter no Mané Garrincha, em Brasília, enquanto o MPL já estava nas ruas. A indignação continuou depois, com pancadaria feia entre polícia e manifestantes à frente dos estádios de Fortaleza, de Brasília e BH. A revolta contra a exuberância dos palácios futebolísticos certamente contribuiu para a indignação, sob pano de fundo do contraste com a miséria, falta de saúde, educação, moradia, segurança pública, etc.

Padrão FIFA

"Portugal construiu 10 estádios 'padrão FIFA' para a Eurocopa de 2004. Sete anos depois o país estava falido...10 estádios fatídicos que hoje apodrecem ao sol. A Grécia cometeu iguais loucuras para as Olimpíadas do mesmo ano. Teve a honra de falir primeiro". (João Pereira Coutinho, escritor português, cientista político, FSP, 25/6/2013)

O rastro de pólvora

A mobilização social conta com um formidável aparato comunicativo : as redes sociais. Que funcionam como o rastro de pólvora. Os participantes se comunicam, as palavras de ordem são disparadas e os comandos (quase anônimos) vão somando milhares de seguidores e militantes das causas patrocinadas. A mobilidade dos grupamentos é algo surpreendente, a denotar a existência de um novo ator no desenho da movimentação das massas : a internet.

Sem lideranças e discurso difuso

Chama a atenção a ausência de lideranças tradicionais ou mesmo novas, que tenham visibilidade ou marquem presença na galeria dos comandantes de grandes operações de massa. Essa é outra característica da movimentação social. Os discursos nem sempre são claros, mostrando que a vontade do manifestante de abrir a locução ou ir à rua é o que interessa. Essa situação tende a ser mais visível nas próximas etapas das movimentações, quando novas propostas serão encaminhadas e verbalizadas. O MPL, depois de anunciar que se retira do palco paulistano, por enxergar oportunismo por parte de parcelas e grupos políticos, voltou atrás e promete novas mobilizações.

Clarificação

Sejam quais forem os patrocinadores/mobilizadores, uma séria questão se imporá ao movimento : clarificar metas, objetivos e propostas para que as vozes não caiam no vazio. Na polifonia da Torre de Babel. Os políticos, por sua vez, não são bem vistos nas movimentações, como se viu nas ações de queima e rasgo de bandeiras partidárias. Mas em algum momento, a área política haverá de se fazer presente porque as coisas passam necessariamente pelos governantes do Executivo e pelos parlamentares do Poder Legislativo.

A fala da presidente

A fala da própria presidente Dilma se explica. Tinha de dizer que o país tem governo. Aceita as demandas da massa, mas repele a violência. Afinal, a ordem tem de ser mantida. Mas prometer o que ? Pacotes para a educação ? Quando serão implementados ? Médicos importados ? Convocar governadores e prefeitos para formação de um pacto nacional ? Tudo isso entra na onda verborrágica. A presidente parece perdida. Sob os apelos crescentes do Volta, Lula.

A propósito

Matéria da revista Veja traz importante revelação de que episódio de queima de pneus, em Brasília, teria o patrocínio de forças e quadros do PT, desejosos de por lenha na fogueira. A ABIN, por sua vez, não pescou nada na maré cheia de ondas turbulentas.

MPL : despreparada

Seis representantes do MPL foram convidados para uma conversa com a presidente. Após a conversa, o porta-voz do grupo abriu o verbo : a presidente é uma despreparada para debater e apresentar soluções concretas para a questão dos transportes públicos. Um bumerangue.

A galera

Urge atentar para a composição das galeras e turbas. Por enquanto, a composição dos contingentes nas ruas mostra os seguintes setores : estudantes, participantes de movimentos em defesa de minorias e igualdade de gêneros, pais de estudantes, funcionários públicos, punks, comerciários, anarquistas, desempregados, profissionais liberais, e, depois, incorporação de segmentos jovens das periferias. Estão fora desse circuito as categorias profissionais de trabalhadores, principalmente os setores abrigados nas Centrais Sindicais. A propósito, as Centrais falarão, hoje, com a presidente para apresentar sua pauta de reivindicações. Mas, para surfar na onda, já marcaram greve geral para o dia 11 de julho. Vai pegar ?

Os próximos passos

Para onde o movimento seguirá ? Quais serão os próximos passos ? Quais as bandeiras a serem erguidas nos próximos movimentos ? Algumas trilhas são enxergadas :

- A melhoria da qualidade dos serviços públicos; essa bandeira continuará a ser desfraldada.

- Os problemas relacionados às localidades. A pedra jogada no meio da lagoa tende a chegar às margens. As questões de zonas e regiões da capital e regiões do Estado entrarão nas pautas do movimento.

- Nos Estados e outras capitais, a tendência será a mesma. Dará vazão às demandas específicas de cada comunidade.

- A área política deverá entrar no circuito. As oposições vão buscar motivos para endurecer as críticas.

- O governo Dilma, por sua vez, já se mostra inclinado a arrumar um "Bolsa-Cabeça", alguns programas voltados para agradar aos jovens.

Slogan do momento

"Melhorar a Vida do Povo".

Fechando a coluna

A barafunda quase se instala nesses últimos dias. Fecho a coluna com a polêmica sobre o plebiscito para a Constituinte Exclusiva, no bojo da qual seria feita a Reforma Política.

Plebiscito

No intuito de tomar a dianteira e mostrar serviço, a presidente apresentou um pacotão de 5 pontos para responder ao anseio das galeras. O ponto polêmico foi a proposição para se realizar um plebiscito para ouvir a sociedade sobre uma Constituinte Exclusiva, que realizaria a reforma política. A polêmica se acendeu. Não é possível uma Constituinte para decidir sobre uma especificidade. Ministros do STF, juízes e a OAB se pronunciaram em contrário à ideia da presidente. Que acabou recuando.

A voz do vice presidente

Chamou a atenção o fato de o vice-presidente Michel Temer, um dos mais renomados constitucionalistas do país, não ter sido ouvido preliminarmente sobre a questão. Tivesse ouvido o vice-presidente, Dilma não teria passado pelo dissabor de ouvir as contrariedades à sua ideia. Michel acabou consertando o imbróglio. E deu a solução. Disse à presidente, por ocasião de uma reunião com a OAB, não existir na CF a figura de constituinte exclusiva para tratar de uma questão específica.

A proposta de Michel Temer

Propôs que ela encaminhasse ao Congresso uma mensagem solicitando que o Parlamento convocasse um plebiscito para auscultar o desejo do povo sobre as diversas questões que permeiam a política, do tipo : tipo de voto - distrital, distrital misto, proporcional; fim ou não das coligações proporcionais, coincidência das eleições, etc. Sairia o modelo de interesse da sociedade. A se realizar em agosto. Até 3 de outubro, esse modelo deveria ser aprovado para entrar em vigor já em 2014.

Conselho aos governantes

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos políticos e governantes. Pelo momento que o país atravessa, continuaremos a dirigir a eles o conselho :

1. Procurem auscultar as demandas do povo. E passem do discurso à ação.

2. Evitem promessas que não podem ser cumpridas; falas de caráter demagógico.

3. Saibam ler os sinais de um novo tempo. Comunicação governamental ultrapassa a linha do marketing de glorificação. Requer interatividade e compromisso com as comunidades.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 25 de junho de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Primeiro, a eleição, depois os fatos - 1

"O diabo nas ruas, no meio do redemunho" (João Guimarães Rosa, "Grande Serão Veredas")

A presidente Dilma Rousseff e seus conselheiros, formais e informais, demoraram mais de uma semana para perceber que o ruído que saía das ruas era muito distinto de um barulho como o das caxirolas que um dia, imprudentemente, ela resolveu tocar em pleno Palácio do Planalto com o músico baiano Carlinhos Brown. Era um barulho político, no seu melhor sentido. Quando o Planalto percebeu o que estava a ocorrer, depois das manifestações da segunda-feira da semana passada, tocou no diapasão errado. Em lugar de mobilizar seu governo para tentar entender o fenômeno e apresentar algumas respostas razoáveis às ruas, tentou em "caco" incluído num discurso sobre o Código de Mineração. Em seguida, partiu para SP para reunir-se com seu comitê eleitoral : o ex-presidente Lula, o ministro (nas horas vagas) da Educação, Aloizio Mercadante, o presidente do PT, Rui Falcão, e o ministro (sem pasta) de Assuntos de Propaganda, o marqueteiro João Santana. Não é, de modo algum, embora Lula palpite sobre tudo no governo de sua pupila, o grupo mais adequado para discutir as questões postas pelas ruas.

Primeiro, a eleição, depois os fatos - 2

Era óbvio que a preocupação, naquela altura, era com os estragos que as passeatas poderiam causar nos planos reeleitorais da turma. A turma reeleitoral ainda demorou mais dois dias - somente depois das agitações de mais de um milhão e meio de pessoas nas ruas na quinta-feira - para perceber a gravidade do problema. Para perceber que o que estava no ar, muito além das reivindicações pontuais, era uma completa condenação do modo de fazer política e de gerir a coisa pública no Brasil, sem distinções partidárias e de credos. Mais uma vez, porém, Dilma reagiu pelo lado errado. Foi certa, por óbvia, a decisão de fazer o chamado "pronunciamento à Nação". O dito foi apenas correto, protocolar. Mas, há ressalvas : (i) tenta passar, sem tanta sutileza, a maior responsabilidade pelo que não foi feito até agora e está sendo cobrado nas ruas para o Congresso Nacional, os governadores e os prefeitos ; (ii) como não acenou com propostas objetivas, o discurso pareceu um requentado do que está parado em algum lugar dos escaninhos públicos ou promessas de longa duração ou difícil aplicação.

Soluções para agora ?
Falar em reforma política no Brasil soa como tergiversação. Se nossa memória não nos falta, quem primeiro falou sobre o assunto foi Dom João VI. Por ora, basta ver o projeto que anda hoje no Congresso, melhor que não venha, pois está mais voltado para os interesses dos partidos e dos políticos do que da população. Será mais um entrechoque entre representantes e representados. Relembrar a proposta de destinar obrigatoriamente 10% dos royalties do pré-sal não traz soluções imediatas. Esses royalties vão demorar a entrar em grande quantidade nos cofres públicos. O dinheiro que pode entrar agora, como o pagamento pela concessão do campo de Libra, cujo leilão está previsto para outubro, vai ser reservado para ajudar a cumprir a meta de superávit primário deste ano. O mundo político, governo central à frente, parece não ter percebido que o movimento popular trazia em seu bojo um inescapável sentido de urgência. As respostas terão de ser rápidas. Há poucos meses, num discurso no Nordeste, a presidente Dilma disse que para se ganhar uma eleição era admissível "fazer o diabo". O diabo que está agora nas ruas, "no meio do redemunho" não é certamente o que ela pretendia despertar.

"É sempre uma questão eleitoral", por José Márcio Mendonça - clique aqui

"Perplexos, atônitos, bestializados", por José Márcio Mendonça - clique aqui

E agora, o pacto
No terceiro acorde (ou terceira reação) o tom ficou também abaixo do necessário. A proposta de um pacto de cinco pontos, feita depois de uma reunião com 27 governadores, 26 prefeitos de capital e um punhado de ministros e assessores foi aplaudida por quem já estava com as mãos prontas e coçando para bater palmas. As primeiras reações externas (deixe-se a oposição de lado) se não foram de ceticismo, foram de expectativa. Ficou-se ainda no terreno dos compromissos, das promessas. De nada que foi dito ficou-se sabendo o "como fazer". E de muita coisa nem bem o que se propôs de fato a fazer-se. A questão apresentada como o ponto central do pacto, o plebiscito para uma constituinte exclusiva para a reforma política, por exemplo : ficaram dúvidas sobre a viabilidade jurídica e sobre sua viabilidade política. E é desnecessária : o Congresso tem poder constituinte e o governo tem ampla maioria para aprovar o que bem entende por lá. Uma proposta dessas, mesmo que viável, jogaria a reforma somente para 2016 - ano que vem para eleger os constituintes, 2015 para aprová-la. E como as ruas mostraram, as questões postas na mesa são um pouco mais urgentes. O mesmo se pode dizer sobre o pacto fiscal, ou de ajuste fiscal. Ele já exista há anos, nas metas de superávit primário. Porém, de uns tempos para cá, deixou de ser cumprido de fato, maquiado por uma contabilidade altamente criativa. Até o BC tem sido cético em relação a ele em suas últimas manifestações oficiais, como na mais recente ata do Copom. Cumpri-lo é uma questão de convicção. Pacto nenhum obriga ninguém a fazê-lo. A pressa dos ministros escalados para explicar depois o que estava decidido, tentando livrar-se rapidamente dos repórteres no Palácio do Planalto, com respostas confusas e repetitivas, é o indicador mais claro de que o pacto de cinco pontos ainda está no terreno da comunicação apenas.

Sem respaldo da economia

Conforme já dissemos nas colunas das últimas semanas, o cenário econômico do Brasil piorou sensivelmente do ponto de vista das expectativas e observados alguns fundamentos. A economia está atolada num processo inercial de crescimento entre 2%-3% no máximo, fruto da ausência de competitividade sistêmica do país (custo de mão de obra, elevados impostos, incipiência tecnológica, educação ruim, criminalidade alta, etc.), da fraqueza estrutural do desenvolvimento industrial e da dissociação da pauta política e econômica. Além da palidez da equipe econômica, da Fazenda às empresas públicas, passando pelo Ministério do Planejamento e o BNDES. O cenário atual será caracterizado pela desvalorização do real (e seus consequentes efeitos inflacionários), por um crescimento do PIB próximo de 2%, por uma situação fiscal sem maiores riscos, mas com deterioração qualitativa das contas públicas e por uma política monetária relativamente dependente dos humores do Palácio do Planalto. Falta à política econômica credibilidade interna e externa.

Risco Brasil

Até agora não houve, da parte dos investidores, mudança substantiva na avaliação de risco soberano do Brasil em função das manifestações ocorridas na semana passada. Diante de tanta perplexidade em relação à evolução das manifestações públicas na semana passada é improvável que o risco país do Brasil sofra alterações no curto prazo, por parte das agências de avaliação de risco (rating agencies), mesmo porque o nível das reservas internacionais é satisfatório e a deterioração fiscal não implicou em um aumento substantivo do endividamento público. Todavia, a continuar o ambiente político conturbado, a preocupação dos investidores, sobretudo externos, haverá de influenciar decisivamente a visão das agências em relação ao Brasil. Note-se que, mesmo que as rating agencies estejam sob forte ceticismo desde a crise de 2008, a nota dada aos países tem forte influência sobre a avaliação do risco no mercado de títulos.

Risco China

Não é apenas o Brasil que está com o mercado acionário prejudicado. Quase todos os países emergentes estão com os seus mercados acionários com desempenho anual negativo. Esta conjuntura deve provavelmente se acentuar nos próximos meses em função da queda da atividade da economia chinesa. O BC daquele país está emitindo sinais claros de que está reduzindo os riscos na área de crédito do sistema financeiro, bem como está apertando a política monetária. De fato, tenta um "pouso suave", o que é sempre difícil de se realizar, pois as expectativas dos agentes acaba por "acelerar tendências" e não suavizá-las. O momento é particularmente de risco para a China e os emergentes não apenas por este motivo. Há, adicionalmente, a questão da transparência das contas públicas e dos bancos estatais chineses. Muitos analistas e investidores têm severas dúvidas sobre a credibilidade das autoridades chinesas no que tange a este tema. Mesmo que poucos se arrisquem a vir a público para discuti-lo. Medo das reações do regime comunista de Pequim.

Risco EUA

Foi a melhora substantiva dos indicadores macroeconômicos da maior economia do mundo que fez com que o presidente do FED anunciasse o fim dos (enormes) estímulos monetários usados para recuperar a economia norte-americana. A reação imediata dos diversos segmentos do mercado foi negativa. Ações caíram, títulos de renda fixa tiveram suas taxas majoradas e o dólar se fortaleceu. Efeitos de curto prazo à parte, são boas as chances da economia continuar se fortalecendo. Assim sendo, a queda das ações são oportunidade de compra. Para o Brasil o maior risco, conforme já analisamos em colunas das últimas semanas, é a valorização do dólar que põe combustível na inflação brasileira, mesmo que ajude no médio prazo as exportações.

Quando vai parar ?

É provável que os atuais movimentos arrefeçam a partir desta semana, exceção para algumas manifestações já marcadas. Não há fôlego para manter pessoas permanentemente mobilizadas. É a natural fadiga de materiais. Porém, há sinais de que a chama não se extinguirá tão facilmente por uma simples razão : o despertar, apesar de induzido pela campanha contra o aumento das tarifas de transporte urbano, teve várias motivações. Foi um grito (para lembrar um velho lema petista) contra "tudo que está aí". Portanto, pode voltar quando outras coisas desagradáveis entrarem no ar. E há um grande leque de "motivações" no gatilho : a conclusão do julgamento do mensalão, a PEC 37, uma proposta que tenta também submeter decisões do STF ao Congresso, manobras para diminuir os efeitos da lei da ficha limpa, a tentativa fisiológica de dificultar o nascimento de novos partidos... E, naturalmente, o mal estar com a economia.

O que fazer ?

De todas as respostas que o governo precisa dar ao clamor das ruas nenhuma é mais urgente que combater os desarranjos da economia. As questões políticas são um tanto quanto fluídas, embora mereçam atenção, a razão econômica é material. Se o ambiente econômico estivesse melhor, com a inflação mais comportada, se não houvesse um sentimento generalizado de medo de perda do poder de compra e consumo, talvez as manifestações das duas últimas semanas não tivessem ganhado as proporções que ganharam. A expectativa é saber como o governo vai atacar nesse front. Não foi sem razão que na esteira das passeatas, Brasília andasse povoada de boatos sobre possíveis alterações na equipe econômica, muito especificamente do ministro Guido Mantega. É improvável que Dilma, por tudo que se conhece dela, vá tomar uma atitude dessas. Mas a disseminação da boataria indica as dificuldades que o governo está tendo - e elas são anteriores aos movimentos populares - de dar respostas aos desarranjos que apareceram na política econômica.

"Menas", Lula, "menas"...
As confusões dos últimos dias, quando a presidente teve de correr a SP para se aconselhar mais uma vez com o ex-presidente Lula, mais uma vez comprova a "dependência" que Dilma tem. Não foi a primeira vez que Lula teve de dar a mão à pupila. Provavelmente, não será a última. Porém, Lula faz questão, direta ou indiretamente, de mostrar que esta "dependência" existe. Esta exibição de influência acaba por prejudicar a presidente, pois admitam os amigos dela ou não, enfraquecem a posição do Palácio do Planalto. E causam confusão. A conversa de Lula com o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, em plena efervescência das ruas, por exemplo, ajudou a alimentar os boatos da substituição de Guido Mantega no Ministério da Fazenda. Sem contar que o ex-presidente reuniu-se com os líderes das centrais sindicais para ouvir deles queixas contra o tratamento que recebem da presidente. Nada mais inoportuno. Sem contar que o Instituto Lula é também o desaguadouro das lamúrias petistas. Não é à toa que o coro de "volta Lula" está ficando mais encorpado. Para gosto do lembrado.

Um mar de especulações

Na onda de descontentamento da presidente Dilma com os percalços de seu governo na economia e em outros campos, como no Congresso, ampliados pela "voz rouca das ruas", Brasília está tomada por um vagalhão de especulações a respeito de uma reforma ministerial que ela fará em breve. A oportunidade seria o recesso do Congresso Nacional, a partir de 15 de julho (se os parlamentares aprovarem a lei de diretrizes orçamentárias para o Orçamento de 2014) e, naturalmente, o arrefecimento das manifestações populares. Afinal, reza um ditado da política nacional, governo não age pressionado. Uma bobagem, age sim. Haja vista, no caso Dilma, a série de demissões no início do governo levadas pelas denúncias de irregularidades envolvendo nada menos que sete ministros, todos devidamente mandados então para casa. Dilma aproveitaria a ocasião para tentar dar mais eficiência gerencial à sua administração, livrar-se de auxiliares pouco efetivos e melhorar sua interlocução com o Congresso e alguns setores da sociedade - agentes econômicos e movimentos sociais e sindicais. Dilma também anteciparia a saída de alguns ministros que em abril de 2014 devem sair para concorrer a governos estaduais. Imagina-se que 14 deles estariam na boca de espera. Inicialmente esta mudança está prevista para o fim do ano. Antecipada, Dilma já teria a equipe com que pretende terminar este mandato e lugar por mais quatro anos no Palácio do Planalto. A partir desse pano de fundo, há especulação para todos os gostos. O primeiro nome especulado é o do ministro Guido Mantega, da Fazenda, pela óbvia necessidade de o governo recuperar a confiança das chamadas classes produtoras e do dito mercado financeiro. Foi o que provocou os boatos da ida de Henrique Meirelles para o Ministério (ver nota acima). É improvável, por enquanto, ainda mais com Meirelles, mas ajustes na equipe econômica são bem viáveis. Há sinais de fumaça dando indicações de que Aloizio Mercadante, cada vez mais um assessor político e eleitoral da presidente e cada vez menos um ministro da Educação, poderia ser transferido para a Casa Civil, para melhorar a coordenação do governo e relações do Palácio com o Congresso e os partidos. Esta especulação já andou no ar no início do ano e é tudo que Mercadante quer. Gleisi Hoffmann voltaria ao Senado, onde assumiria uma das lideranças do governo, ou a do Senado ou a do Congresso, tidas como pouco eficientes. Ela ficaria com mais tempo também para preparar sua candidatura ao governo do PR. Dá-se também como possíveis beneficiários de um bilhete azul o secretário geral da presidência da República, Gilberto Carvalho e o chefe da ABIN, general José Milito. O primeiro por falhas na interlocução com os movimentos sociais e o segundo por falhas na detecção das insatisfações populares. O terreno é ainda de meras especulações, mas que há fumaça há e não de pneus queimados por manifestantes contra os aumentos de transportes ou contra os gastos com a Copa do Mundo.

Não viu quem não quis

A insatisfação contra o mundo político e burocrático que explodiu nas praças, ruas e avenidas nos últimos dias já estava latente há algum tempo e só não viu seus sinais quem não quis. Um deles foi dado nas eleições municipais de 2012, na qual tivemos um recorde de não votantes nos últimos anos no país : o total de votos brancos, nulos e abstenções (ou seja, de quem rejeitou todos os candidatos e partidos) chegou a quase 40% do eleitorado inscrito para votar. Outro dado : caiu para menos da metade, desde que esta possibilidade foi incluída em nossa legislação eleitoral, o número de jovens com idade entre 16 e 18 anos, que tiraram seu título de eleitor. Votar nesta idade é facultativo e o interesse deles diminuiu. Não é preciso perguntar a razão.

Silêncio constrangedor

Nunca se viu tanto tão falantes políticos calados como nesses dias, a começar pelo ex-presidente Lula que fala muito em gabinetes a portas fechadas. Os que se arriscaram, partiram para obviedades - ou bobagens. Mas nada mais constrangedor nesse quadro do que o silêncio da oposição, a mostrar que tanto quanto o governo em Brasília ela não esperava o que se passou e não sabe o que fazer.

Esqueçam o que eu escrevi

É comovente ver o esforço de um grupo de economistas de peso para reescrever o que disseram nos últimos tempos sobre a política econômica levada adiante nos últimos anos e para explicar porque ignoram sinais de que a inflação não era apenas um soluço, porque não viram a "contabilidade criativa" que minava a política fiscal e porque não perceberam que a política cambial estava matando a indústria, porque não sentiram que havia um exagero na política de crédito de fato e incentivo ao consumo e outras coisinhas mais...

por Francisco Petros e José Marcio Mendonça

quarta-feira, 12 de junho de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a Coluna com duas historinhas.

(Uma, contada pelo historiador e mineiro José Flávio Abelha em seu Mineirice; outra, contada pelo amigo Luis Costa em seu Leia Comigo).

Os dois presos

Elpídio Duque era delegado calça-curta em Conselheiro Pena, enquanto em Minas, o velho PSD (não o atual, de Kassab) deitava e rolava. Juarez Ferraz, tabelião, pastor, grande orador popular, pessedista até a alma e péssimo motorista, atropela dois udenistas na estrada do distrito de Ferruginha. O primeiro é jogado à distância e cai no meio do brejo. O outro, com o impacto, é arremessado para o alto, cai sobre a capota do jipe e, na queda, fura a lona e se esborracha em cima de Juarez Ferraz. Elpídio é chamado para estudar a situação, fazer perícia e abrir o processo. O delegado chega, examina o local, ouve as partes e (pasmem !...) manda prender os dois udenistas:

- O primeiro, por ter invadido propriedade alheia e abandonado o local do crime. O segundo, por tentativa de homicídio. Por muito pouco o descuidado udenista não mata o tabelião da cidade.

Maldito seja ............!

Padre Vieira é um ícone da oratória. Um dia, no púlpito, o grande jesuíta assim começou a peroração:

- Maldito seja o Pai...Maldito seja o Filho....Maldito seja o Espírito Santo!

Horror na assistência. Um murmúrio de indignação. Tranquilamente, o orador prossegue:

- Essas, meus irmãos, são as palavras e as frases que se ouvem nas profundezas do Inferno.

Suspiro de alívio. Platéia embevecida. Era assim, com linguagem surpreendente que o mestre da palavra despertava a atenção dos ouvintes.

Sinal amarelo

A pesquisa Datafolha que mostra a queda de 8 pontos percentuais na popularidade da presidente Dilma (de 65% para 57%) pode ser, até, uma "oscilação normal" como querem enxergar alguns, entre eles, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e até o eventual candidato do PSB à presidência, Eduardo Campos. Mas dá para distinguir o sinal amarelo que a pesquisa exibe. Quem abre sinal de perigo? Medo do desemprego e ameaça de aumento da inflação. Há motivos para tanto? Sim. O tomate, há dias, estourou o bolso do consumidor. Muitos se queixam dos preços dos alimentos em supermercados. Aumento na área alimentar bate direto no bolso. Que fica mais vazio.

Equação BO+BA+CO+CA

E se fica mais vazio, a equação acima começa a gerar efeitos. Bolso+Barriga+Coração+Cabeça. Menos dinheiro no bolso significa geladeira mais vazia, barriga menos satisfeita, coração indignado/revoltado e cabeça disposta a punir os responsáveis por essa cadeia de sacrifícios e sofrimentos. É claro que estamos distantes de horizontes fechados, cinzentos. O PIBinho não chegou, ainda, às margens. Mas o perigo ronda. Tudo indica que o governo manterá a economia sob rédeas curtas, de forma a garantir o equilíbrio da equação eleitoral. Todo cuidado é pouco.

Maquiavel

"Um príncipe precisa saber usar bem a natureza do animal; deve escolher a raposa e o leão, porque o leão não tem defesa contra os laços, nem a raposa contra os lobos. Precisa, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos". (Maquiavel em O Príncipe)

Lula no lugar de Dilma?

Interessante é observar que, a qualquer sinal de perigo, o nome de Luiz Inácio Lula Papão de Votos da Silva vem à tona. É o perfil que representa a salvação do PT em ciclo de crise. É o nome a ser chamado, caso a economia saia dos trilhos. Mas Lula tem dito e repetido que não frequentará a arena. Pois já cumpriu a meta maior de vida. E tem a saúde para cuidar. Mesmo livre do câncer na laringe, que extirpou, permanece o medo do amanhã. Além disso, Lula cumpre uma agenda cheia: viaja pelo mundo, faz palestras a preço de ouro, dá as cartas no PT, tem influência no governo Dilma, é admirado nas margens e nos centros sociais, tornou-se um ícone, o maior político da atualidade brasileira. Por que deixar essa zona de conforto para ser foco de pressões e contrapressões?

Segundo turno

A hipótese de um segundo turno para as eleições presidenciais ganha força diante de um cenário de problemas na frente econômica e da entrada no páreo desses quatro pré-candidatos: Dilma Rousseff, Aécio Neves, Marina Silva e Eduardo Campos. A vitória da presidente Dilma em primeiro turno, é oportuno frisar, dependeria de um céu de brigadeiro, da economia bombando e de eleitores de bolso cheio. Cenário cada vez menos provável.

Clausewitz

"Um príncipe ou um general que sabe organizar a sua guerra de acordo com o seu objetivo e meios, que não faz nem de mais nem de menos, dá com isso a maior prova de seu gênio". (Carl Von Clausewitz em Da Guerra)

E o governo de SP?

É sabido que as derrotas do PT em SP, disputando o governo, nunca foram engolidas por Lula. O sonho dele é desbancar o tucanato que completará 20 anos no comando do Estado mais poderoso do país. Daí se concluir que Lula fará tudo que estiver a seu alcance para ganhar a eleição de 2014 no Estado. Seu candidato in pectore seria Luiz Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo. Mas o prefeito não quer ser o nome. Do bolso do colete, Lula saca o nome do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Mas a saúde, como se sabe, está na UTI. Trata-se de uma área que não tem saldo positivo a apresentar. O ministro da Doença poderia ser um fiasco. Lula, porém, confia em seu taco. Acha que Padilha pode ser o nome, eis que Aloizio Mercadante não topa ser candidato. Para resolver a enrascada, o PT sugere o nome do..... próprio Lula. Para este, seria descer na escada da glória. Por isso, este consultor não acredita na hipótese.

Zé Eduardo

A questão da segurança pública, que estará na pauta eleitoral, possivelmente como a temática mais importante, traz à tona o nome do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. A propósito, o ministro abre espaço na mídia para fustigar o governador Geraldo Alckmin sobre a violência que assola o Estado de SP. Deu larga entrevista ao Estado de São Paulo sobre o tema. Há uma barreira: Lula. Diz-se que o ex-presidente não simpatiza com Zé Eduardo. Em política, porém, tudo é possível. Na hora do "vamos ver", Luiz Inácio poderá abrir o verbo e dizer: o nosso nome é o do ministro da Justiça. Trata-se de um dos perfis do PT não carimbados pela mancha de escândalos. Lembre-se que chegou a renunciar a mais um mandato de deputado por não aceitar entrar no jogo do alto financiamento das campanhas eleitorais.

Liddell Hart

"Explore a situação de menor resistência desde que possa conduzir a qualquer objetivo que contribua para a consecução de seu objetivo básico". (Liddell Hart em As Grandes Guerras da História)

Quadro paulista

Geraldo Alckmin é um governador bem avaliado, principalmente pelo eleitorado do Interior do Estado. Ostenta, hoje, 52% de intenções de voto, descendo para o patamar de 42% quando tem pela frente o perfil de Lula. Mas até este perderia para ele no segundo turno. É evidente que essa é uma fotografia de hoje. Porque a campanha terá seu clima, suas circunstâncias, seu modus operandi. E tudo isso funcionará como pano de fundo para influenciar o sistema cognitivo do eleitorado. Este consultor tende a acreditar que a polarização entre o PSDB e o PT está desgastada. Fechou um ciclo. O eleitorado quer ver novas caras, experimentar novos nomes. Por isso mesmo, será muito difícil (não impossível, claro) que Alckmin consiga manter seu alto índice.

O busílis

Alckmin tem entre 37% a 44% de intenção de votos na grande SP. E de 48% a 59% no interior. O que isso reflete? Uma avaliação menos positiva nas regiões mais violentas.

Cardeal Mazarino

"Fale bem de todo mundo. Jamais fale mal de alguém, temendo que um terceiro escute e vá relatar tudo à pessoa mencionada. Dos superiores só fale bem e louve, especialmente aqueles de quem precisa". (Cardeal Mazarino em Breviário dos Políticos)

Terceira via

Dentro da moldura de saturação da velha briga entre tucanos e petistas, emerge a alternativa de uma terceira via. Que pode abrigar um nome asséptico, sem a poluição e os carimbos da velha política, de perfil empreendedor. Paulo Skaf, presidente da FIESP/CIESP encaixa-se nessa possibilidade. Principalmente se dispuser de espaço midiático eleitoral capaz de garantir ampla visibilidade. Trata-se do perfil mais denso do PMDB para enfrentar a maior batalha eleitoral do país. São mais de 30 milhões de eleitores.

Na ladeira?

A agência de risco Standard & Poor's colocou o Brasil na ladeira. Aumentou a taxa de risco do Brasil com sua avaliação negativa da economia. Esse fato coloca o Brasil nas prioridades de saques de recursos de investidores estrangeiros. Enquanto isso, os EUA ganharam maior elevação em sua nota de avaliação, saindo da classificação AA+ para estável. O polo se inverte.

Sun Tzu

"Quando em região difícil, não acampe; em regiões onde se cruzam boas estradas, una-se aos aliados; não demore em posições perigosamente isoladas; em terreno aberto, não tente barrar o inimigo; em situação de cerco, recorra a estratagemas; em posição desesperada, deve lutar; há estradas que não devem ser percorridas e cidades que não devem ser sitiadas". (Sun Tzu em A Arte da Guerra)

Manifestações e protestos

Nos últimos tempos, o país está assistindo a uma escalada de protestos e movimentos sociais. Ruas estão sendo ocupadas, passeatas, algumas com depredação de espaços, propriedades e equipamentos de serviços públicos. O que está por trás disso? Interesses eleitoreiros? Primeiros sinais de uma batalha que será muito sangrenta em 2014? Desobediência civil em processo de expansão? O fato é que a locução social se escancara. A sociedade está muito organizada. Os movimentos sociais vivem um clima de tensão. Nas ruas e até no campo. Indígenas ocupam fazendas e relutam em cumprir ordens da Justiça. O barulho social sinaliza algo em movimento. Urge indagar causas de toda a efervescência social.

Miyamoto

"Pense sempre em cruzar o riacho no ponto mais propício. Significa atacar o ponto vulnerável do adversário e colocar-se em posição vantajosa". (Miyamoto Musashi em Um Livro de Cinco Anéis)

Calote da Pluna

A empresa aérea uruguaia Pluna pode voltar a operar este ano sob o comando de ex-funcionários e com apoio do governo daquele país. Esta empresa encerrou as atividades no ano passado atolada em dívidas. Só no Brasil o calote da Pluna atingiu 6.500 consumidores - prejuízo de cerca de dois milhões de dólares -, segundo cálculos do Sindicato das Empresas de Turismo no Estado de São Paulo (Sindetur-SP).

ANAC, surda e muda

O pior nessa história da Pluna : a Agência Nacional de Aviação Civil, ANAC, que deveria defender os interesses dos consumidores brasileiros, nada fez, como sempre. Nem mandou reacomodar passageiros em outras companhias. Pela omissão, está sendo acionada na Justiça pelo Sindetur-SP. O presidente do Sindetur-SP, Eduardo Nascimento, diz que seu sindicato fará o que for possível para que a nova Pluna só seja autorizada a operar no Brasil depois de indenizar integralmente os passageiros prejudicados e as agências de turismo que tiveram de reparar os danos por eles sofridos.

Conselho à presidente Dilma

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao ministro Luís Roberto Barroso, recém-nomeado para compor o quadro do STF. Hoje, dedica sua atenção à presidente Dilma Rousseff:

1. Sinais amarelos (pesquisas, movimentos, protestos) começam a acender nos semáforos que orientam os comportamentos sociais. Sugerem que Vossa Excelência examine com lupa o que se passa no universo social.

2. A esfera política também se mostra insatisfeita com o tratamento que vem recebendo do Executivo Federal. A lupa também deve ser acionada para verificar as ondas de insatisfação.

3. Nas frentes governativas, particularmente na infraestrutura, grandes obras estão com cronogramas defasados. Esse somatório de coisas ameaça furar o depósito da boa imagem de Vossa Excelência.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 11 de junho de 2013

MARÍLIA: VIDA E GRAÇA, PAZ NA PRAÇA! FELIZ ANIVERSÁRIO!



Hoje é dia de cantar Parabéns para Marília, primeira filha do nosso sangue.

Cachoeira de espontaneidade, imantada de expansividade, desprovida de malícias e madrinha da bateria da boa vontade, encanta a todos que com ela convivem.

Sem esforços artificiais, adentra com naturalidade na mina delicada da nossa alma e se faz hóspede definitiva do espaço mais íntimo do nosso coração.

TE AMAMOS!

(Júnior Bonfim)

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Oi, Marília!

Depois da preciosidade que o teu pai te dedicou fica difícil pra gente escrever alguma coisa, contudo manifesto carinhosamente o meu desejo de feliz aniversário e vida promissora, nesta simples estrofe:


Doce Marília, que Deus

Borde os teus dias risonhos

E ornamente os teus sonhos

Como tu sonhas Marília!...

Que exales em abundância

Os halos da juventude

Com muita graça e saúde

No coração da família!...


(Dideus Sales)

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

É a economia, a economia, a economia... - 1

Não é nada que não possa ser revertida (a perda de 8% na avaliação da presidente Dilma). Porém, vai exigir da presidente e de sua equipe uma extraordinária e real disposição - para além do simples discurso de boas intenções - para mudar os rumos de condução da política econômica até aqui determinado por ela. Todos os sinais da pesquisa mostram que a avaliação presidencial foi abalada por um fato básico: a inflação persistentemente acima do razoável, já afetando o poder de consumo da população. Outros fatores, tais como os desarranjos com a base aliada e o Congresso, a lambança do bolsa-família e a questão indígena afetaram os índices apenas marginalmente. Estes dão mais a sensação de um governo perplexo e desarranjado, o que pode afetar a aceitação de Dilma mais à frente, não neste instante.

É a economia, a economia, a economia... - 2

O foco agora foi o bolso e o medo adicional do desemprego. A dúvida é saber o quanto o governo está disposto e tem condições políticas de "dar um cavalo de pau" mais forte na economia. O BC, aparentemente com a concordância de Dilma, já entrou mais firme com a arma de que dispõe para combater a alta de preços - a elevação dos juros, que promete prosseguir daqui para frente. Promete-se também dar um peteleco mais forte nos investimentos. A dúvida, no caso, é sobre a capacidade executiva do setor público, um dos gargalos até aqui da gestão Dilma, apesar de sua vendida imagem de "gerentona" durona e eficiente. Um ponto frágil ainda é o dos gastos públicos, mesmo com as juras do ministro da Fazenda Guido Mantega assegurando, a cada minuto, que a gestão fiscal está sob controle. Não é o que pensa o BC, que na ata da última reunião do Copom, ainda que na sua linguagem meio tortuosa, não mostrou entusiasmo com esse lado da política econômica.

É a economia, a economia, a economia... - 3

Também não é o que anotam os investidores externos, como mostrou a decisão da Standard & Poors de colocar viés negativo na nota de risco do Brasil. E não é principalmente o que apontam os fatos. O superávit primário, tido por dez entre dez economistas não oficiais como essencial para ajudar o BC a segurar a inflação, é cada vez mais uma incógnita. O que se conseguiu até abril está bem abaixo do prometido. No mesmo dia em que surgiam as suspeitas do BC e dos agentes externos quanto à disposição real do governo de aderir realmente a um plano de austeridade fiscal, o Palácio do Planalto editou uma M - a 618 - altamente suspeita. Entre outras coisas, ela permite ao Tesouro Nacional emitir R$ 30 bi em títulos da dívida pública para capitalizar o BNDES e a Valec. Não é propriamente um sinal alentador para a economia. Leia mais : (1 - clique aqui) - (2 - clique aqui)

Agências de risco e seus sinais

Como já ficou provado ao longo de duas décadas de riscos e crises sistêmicos, as agências de risco têm papel limitado e, sobretudo, chegam quase sempre atrasadas nas suas avaliações, além de cometerem erros grosseiros. Sua utilidade prática é duvidosa, mas sua influência para "guiar" certos segmentos de investidores é relevante. No caso da sinalização negativa sobre a economia brasileira a agência S&P parece estar no timing certo, pois a deterioração é visível e coloca riscos substantivos no médio prazo. Contudo, o mesmo não se pode dizer da "retirada" do alerta sobre a economia dos EUA. Lá, a evolução tem sido muito favorável, conforme pudemos comentar em várias notas nos últimos meses. Porém, haveremos de convir que a confusão política entre democratas e republicanos na questão do orçamento dos EUA, bem como os sinais dúbios que o Fed vem emitindo em relação à política de expansão monetária são sinais de alerta gigantescos para que se afaste, numa análise de crédito soberano, o risco sistêmico do país. A S&P agiu movida por percepções e não indicadores.

Rudimentar, meu caro Watson

Quando Palocci ainda era ministro da Fazenda do governo Lula, por sugestão do ex-ministro e ex-deputado Delfim Neto, ele apresentou ao presidente Lula a sugestão de um programa econômico para zerar o déficit público nominal em alguns anos, dois ou três. Ou seja, o governo passaria a gastar de fato apenas o que arrecada, incluindo pagamento dos juros da dívida. A proposta foi fulminada pela então já poderosa ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, com uma simples expressão: classificou-a de rudimentar. Delfim Neto, que não é suspeito de nenhuma má vontade com governo e até atua como conselheiro presidencial, voltou a defender enfaticamente esta posição em entrevista este fim de semana ao jornal "O Estado de S. Paulo". Como reagirá Dilma agora ? Com um "rudimentar" ou um "elementar", meu caro Watson.

Inflação aleija, câmbio mata

O título desta nota relembra a frase do saudoso ministro Mário Henrique Simonsen. Como se sabe (e pregamos há alguns anos nesta coluna), sem a reversão da valorização do real é quase impossível a reintrodução da economia brasileira num cenário verdadeiramente competitivo nos próximos anos. Setores necessários à indústria, sobretudo aqueles que agregam conteúdo tecnológico, necessitam de uma relação mais favorável do ponto de vista cambial entre a produção local e a importação. O governo sabe disso e já incorporou esta variável na política econômica. Contudo, terá de correr riscos. Para um governo (este e o anterior) que correu pouco risco na política econômica a solução do risco cambial não será tarefa fácil do ponto de vista político - do econômico é muito difícil. Pode até ser adiada a solução para o próximo mandato. Pode, inclusive, "custar um mandato inteiro" como foi o caso do segundo mandato de FHC.

Novilíngua

Até entre auxiliares e conselheiros da presidente da República já começa a circular a expressão "moderação salarial", que, bem traduzida, quer dizer simplesmente o seguinte: é preciso diminuir a massa salarial para ajudar no combate à inflação e garantir maior índice de produtividade para as empresas brasileiras. Resta saber se é um processo que se dará naturalmente pelo desenrolar das atuais dificuldades econômicas ou se terá de ser apressado no curto prazo. Neste caso, quem colocará o guiso no pescoço do gato em plena efervescência eleitoral?

É a eleição, a eleição, a eleição...

Todas dificuldades que a presidente Dilma vem enfrentando com os aliados, com reflexos no Congresso Nacional, têm uma única causa : as eleições do ano que vem. E não propriamente a sucessão presidencial. Mas as eleições estaduais e para o legislativo, que são as que garantem de fato força dos partidos para disputarem a divisão do poder em Brasília. Partido fraco, sem bons governos estaduais, sem bancadas de bom tamanho, fica apenas com migalhas do poder. Além de se desmilinguir com o tempo. É este o jogo que está sendo jogado e que põe Dilma na berlinda política. A eleição presidencial neste caso vira um detalhe. Até porque não há uma absoluta correspondência entre o voto presidencial e os outros votos.

Armadilhas no Congresso

Não bastassem as dores de cabeça da economia, suficientes para tirar o sono presidencial por longas noites, Dilma terá pela frente nas próximas semanas uma pesada agenda na Câmara e no Senado. O cardápio dos deputados e senadores até o recesso de julho é indigesto para o Palácio do Planalto:

1. Novas regras para tramitação e votação de MPs, que limitam em parte o poder do governo de editar tal instrumento.

2. Novas regras para votação dos vetos presidenciais, também complicando a vida da presidente. Há casos delicados na pauta como os royalties do petróleo e a lei dos portos.

3. O fim do voto secreto em diversas votações no Congresso, inclusive para cassação de parlamentares. Isto dói no coração governista por causa dos "mensaleiros".

4. A obrigação de o governo liberar as emendas dos parlamentares no Orçamento.

São todas providências que fortalecem o Congresso. E algumas muito caras aos parlamentares como a liberação automática de suas emendas. Para barrá-las Dilma terá de jogar pesado.

Capitanias Hereditárias

Renan Calheiros prepara a candidatura de Renan Calheiros Filho ao governo de AL. Jader Barbalho faz o mesmo com Helder Barbalho no PA. Ambos pelo PMDB e com o desejo de apoio do PT e de Dilma. Não para já, mas Edison Lobão no MA, dono de um subclã do clã Sarney, prepara a candidatura do senador Lobão Filho ao governo estadual. A política brasileira está cada vez mais um direito hereditário.

Carne e couro

Como vai ficar o BNDES depois da compra de negócios de carne e couro da Marfrig pela JBS Friboi? Afinal, o banco estatal é sócio - e que sócio! - das duas empresas.

BNDES intacto

O BNDES e seu presidente estão em quase todos os lugares e participam de quase todos os negócios relevantes da República. O seu desempenho, contudo, não é objeto de maiores considerações, seja no âmbito da fiscalização política e social, seja no âmbito do próprio governo. Sem "papel desenvolvimentista" revelou-se no financiamento de negócios na área de petróleo, frigoríficos, indústria automobilística, etc. Pouco se vê em setores "modernos" da necessitada economia industrial. Quais seriam os vetores a influir nas decisões daquela casa desenvolvimentista? Que tipo de análise revela as estratégias de seu presidente ? Por que há tantos consultores rodeando as decisões tomadas por ali?

Outra questão

O nosso leitor já percebeu como andam acesos os "negócios internacionais" do país quando estão envolvidas empresas estatais, especialmente a Petrobras ? Nota-se este vigor especialmente quando estamos a tratar de Argentina, Venezuela, países africanos e outros latino-americanos. Quais seriam os interesses ao redor de toda essa movimentação que envolve a alta cúpula petista, incluindo o ex-presidente Lula, e próceres governistas? Teriam essas movimentações relação com a tal da "CPI da Petrobras"? Esta coluna pouco sabe a respeito. E os seus leitores?

Obama, um terceiro membro da família Bush?

As "descobertas e vazamentos" sobre as atividades espiãs do governo norte-americano revelam, além dos próprios fatos, um presidente bem conservador, arraigado a uma visão vencida do império que preside. Barack Obama é daqueles que pareciam ser uma novidade e não passa de uma peça no antiquário da política norte-americana. Fosse John McCain ou outro republicano de estirpe nobre, a política seria a mesma. Obama não é inovador. É apenas marqueteiro mesmo. Menos natural em seu papel que George W. Bush, o amigo de Lula.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 10 de junho de 2013

HOJE É O DIA DE CAMÕES E DE PORTUGAL

"Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria."

Luís de Camões

sexta-feira, 7 de junho de 2013

TEMPO CERTO



De uma coisa podemos ter certeza:
de nada adianta querer apressar as coisas;
tudo vem ao seu tempo,
dentro do prazo que lhe foi previsto.
Mas a natureza humana não é muito paciente.
Temos pressa em tudo e aí acontecem
os atropelos do destino,
aquela situação que você mesmo provoca,
por pura ansiedade de não aguardar o tempo certo. Mas alguém poderia dizer:
Qual é esse tempo certo?

Bom, basta observar os sinais.
Quando alguma coisa está para acontecer
ou chegar até sua vida,
pequenas manifestações do cotidiano
enviarão sinais indicando o caminho certo.
Pode ser a palavra de um amigo,
um texto lido, uma observação qualquer.
Mas, com certeza, o sincronismo se encarregará
de colocar você no lugar certo,
na hora certa, no momento certo,
diante da situação ou da pessoa certa.

Basta você acreditar que nada acontece por acaso. Talvez seja por isso que você esteja
agora lendo estas linhas.
Tente observar melhor o que está a sua volta.
Com certeza alguns desses sinais
já estão por perto e você nem os notou ainda.
Lembre-se, que o universo sempre
conspira a seu favor quando você possui um
objetivo claro e uma disponibilidade de crescimento.

Paulo Coelho

EU, O POETA E O MENINO


*

Aquele antigo sobrado

Que eu via e achava belo

Mais parecia um castelo

Onde tudo era encantado

Onde um poeta afamado

Cheio de sonhos vivia

A musa e a fantasia

Povoavam sua mente

Ali plantou a semente

E viu brotar poesia.

*

O antigo casarão

Inda hoje me fascina

Guardo no olhar de menina

O castelo com emoção

Saudosa recordação

De um poeta inspirado

Que ali viveu no passado

Falando de pirilampos,

Das borboletas nos campos

E do luar prateado.

*

Nesse castelo encantado

Eu conheci um menino

Com seu jeitinho ladino

Ele sentava ao meu lado

Com o violão afinado

Ao cantar me seduzia

Era tamanha a magia

Que de cantiga em cantiga

Fui ficando sua amiga

E ainda sou hoje em dia.

*

O castelo ainda me encanta,

Esta no céu o poeta.

O menino tem sua meta

Tanto compõe como canta

A minha emoção é tanta

Pois sei também versejar

Quero minha terra cantar

Mostrar o meu universo

Cantando em cada verso

Como meu mestre mandar.

*

Neste texto presto minha homenagem ao poeta Costa Matos

E ao cantor e compositor Carlitto Mattos.


Texto e foto de Dalinha Catunda

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A SABATINA DE BARROSO, O NOVO MINISTRO DO STF

Em sete horas de sabatina, Barroso recita poemas e faz piada, mas não deixa de lado temas como mensalão

BRASÍLIA — Frasista que pontuou seus votos durante os sete meses no Supremo Tribunal Federal (STF) com pérolas como “derramamento de bílis e produção de neurônios não combinam”, o ex-ministro Carlos Ayres Britto terá um substituto à altura do seu bom humor na cadeira vaga com a aposentadoria compulsória. O jurista Luís Roberto Barroso atravessou as cerca de sete horas da sabatina realizada no Senado nesta quarta-feira com leveza, sem deixar de lado temas espinhosos. Mas em vários momentos, com tiradas pouco usuais ao momento, levou às gargalhadas o plenário abarrotado de senadores, familiares, advogados e ex-ministros do STF. Além disso, pela primeira vez um sabatinado respondeu perguntas de internautas.

O sucessor de Ayres Britto, que acompanhou a sabatina, fez citações em espanhol, repetiu versos de Neruda, Manuel Bandeira, falou das agruras do seu longo casamento de 30 anos na presença da mulher e, ao comentar o detalhismo e abrangência da Constituição brasileira, repetiu um slogan muito usado pelas cartomantes, pregados em postes, para atrair clientes desesperados e desavisados.

- A Constituição tem solução para tudo, só não traz a pessoa amada em três dias. Fora isso, quase tudo é possível fazer! - brincou Barroso, dando ali o tom da informalidade em suas respostas, sem comprometer o embasamento jurídico.

Em determinado momento, ao falar que era muito bem casado, mostrando no plenário a mulher, filhos e genro, Barroso voltou a provocar gargalhadas.

- O casamento só é ruim nos primeiros trinta anos, depois a gente vai dando um jeito! - disse, rindo dele mesmo e olhando para a esposa ali na frente.

Os senadores entraram no clima das brincadeiras. O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM) continuou:

- Digo ao senhor, professor Barroso, que meu casamento não precisa ser revisto.

Costumeiramente sisudo, o líder do PSDB, senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) complementou:

- O casamento é cláusula pétrea - seguido de risos.

- Que medo! - replicou Braga.

Sem almoço e plantado na cadeira desde as 10h30min, por volta das 14h o futuro ministro do Supremo foi socorrido pelo senador Pedro Taques (PDT-MT).

- Senhor presidente, o princípio da dignidade humana também vale para o sabatinado. Será que ele não quer ir ao banheiro ou fazer um lanche? - disse Taques.

Presidindo a sessão, o vice-presidente da CCJ, Aníbal Diniz (PT-AC), respondeu que às 14h30min haveria uma pausa.

- Mas caso precise, se tiver apertado, ele pode reivindicar (o direito de ir ao banheiro) - completou.

- Obrigada por zelar por minhas circunstâncias - agradeceu Barroso, dirigindo-se a Taques.

Ao ser perguntado sobre o funcionamento da TV Justiça e as transmissões dos julgamentos ao vivo, Barroso disse ser favorável à existência da emissora e disse que dá transparência as atividades do tribunal. E repetiu expressão utilizada pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ao classificar a ação dos condenados no mensalão.

- Acaba com a imagem de que, atrás de cada porta fechada, estão acontecendo tenebrosas transações. As transmissões têm caráter pedagógico importante. Acho que faz bem ao país - disse Barroso, referindo-se a trecho da letra de "Vai passar", música de Chico Buarque e Francis Hime.

Em suas respostas, Barroso procurou ser transparente. Lembrando Manuel Bandeira, disse: “Só não fui mais claro porque não soube”. E falou muito do seu estilo pessoal e da importância de ter uma ideologia. Disse que foi um militante do movimento estudantil e que sempre teve o coração dividido entre a vida política e a vida acadêmica. Optou pela acadêmica, mas sempre manteve um olhar político sobre a vida

- Na vida no hay o que temer - disse, entremeando as falas em Espanhol. - Hay que tener una ideologia.

De Neruda, Barroso emprestou uma fração de poema para expressar seu grande amor pelo Brasil. Disse que em momento algum pensou em morar fora daqui.

- Todos os meus afetos estão aqui. Mil vezes tivera que nascer, queria nascer aqui. Mil vezes tivera que morrer, queria morrer aqui.

Sobre seus credos, disse que crê no bem, na Justiça e na tolerância. Sobre diversidade religiosa, disse que é filho de mãe judia, pai católico, viveu com uma família protestante e tinha um amigo faz-tudo doméstico que era da Arábia Saudita.

- Todos os sentimentos são plurais nessa matéria - disse.

Fluminense de Vassouras, Luiz Roberto Barroso lembrou que sua cidade natal produziu três ministros do STF, e que não sabia como tinha chegado ao posto.

- Achei que a cota de Vassouras já estivesse completa. Não sei exatamente como cheguei aqui - disse.

Durante a sabatina, Barroso foi muito incensado por todos e encerrou sua sabatina emocionado, com os olhos cheios de lágrimas e aplaudido por todos.

- Vossa Senhoria me obriga a fazer algo que não costumo fazer nessa tribuna: reconhecer que, desta vez, a presidenta Dilma acertou - confessou o tucano Aécio Neves (PSDB-MG).

O único momento de constrangimento foi no plenário, quando se apreciava já a aprovação da CCJ. O senador Magno Malta (PR-ES), que na véspera prometera comparecer à sabatina para questioná-lo sobre um processo movido por uma advogada e arquivado, não o inquiriu durante a sabatina. Mas foi ao plenário protestar pelas manifestações do futuro ministro sobre redução da maioridade penal e aborto.

- Ele vai para um tribunal superior e depois daquele tribunal só tem Deus - protestou Magno Malta.

(Fonte: O GLOBO)

A LISTA

Faça uma lista de grandes amigos,
quem você mais via há dez anos atrás...

Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?

]Faça uma lista dos sonhos que tinha...
Quantos você desistiu de sonhar?

Quantos amores jurados pra sempre...
Quantos você conseguiu preservar?

Onde você ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora?

Hoje é do jeito que achou que seria?

Quantos amigos você jogou fora...
Quantos mistérios que você sondava,
quantos você conseguiu entender?

Quantos defeitos sanados com o tempo,
era o melhor que havia em você?

Quantas mentiras você condenava,
quantas você teve que cometer?

Quantas canções que você não cantava,
hoje assobia pra sobreviver ...

Quantos segredos que você guardava,
hoje são bobos ninguém quer saber ...

Quantas pessoas que você amava,
hoje acredita que amam você?

(Oswaldo Montenegro)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a Coluna com duas historinhas.

Qualquer desculpa serve

Teotônio não era apenas o apóstolo da redemocratização. Era um aplicado discípulo do Cristo. Como Ele, gostava de falar por parábolas. No Clube dos Repórteres Políticos do Rio, perguntaram-lhe por que o governo e a Arena tinham tanto medo das eleições diretas. Ele sorriu e contou:

- "A vaca do compadre pobre apareceu no pasto do compadre rico. O compadre pobre pediu ao compadre rico uma corda para tirar a vaca de lá. O compadre rico desconversou:

- Agora, eu vou à missa.

- Mas, compadre, o que é que tem minha vaca com a sua missa?

- "Compadre, quando a gente não quer, qualquer desculpa serve".

Cuidado para não cair

Quintino Cunha, famoso advogado e poeta, estava participando de um júri em Quixeramobim. O promotor berrava na tribuna:

- Senhores jurados, estou montado na lei.

Quintino pede um aparte:

- V. Exa. tenha cuidado para não cair, porque está montado em um animal que não conhece.

O promotor se calou.

(Historinhas contadas pelo amigo e melhor contador de causos de nossa política, Sebastião Nery)

Mar borrascoso

Não há perigo de tempestades imediatas. Mas não se pode igualmente garantir que a calmaria toma conta do oceano. Digamos que há sinais de um mar borrascoso, a continuarem as nuvens plúmbeas dos últimos tempos. Estamos falando da relação entre o governo Dilma e suas bases. Os partidos da aliança governista, sem exceção, estão insatisfeitos com a indiferença da presidente para com a esfera política. Não se trata apenas de resistir às pressões para liberação de recursos destinados às bases dos parlamentares. Trata-se, sobretudo, do espírito que reina sobre a administração : ministros sentem-se limitados em suas ações ; secretários executivos fazem a ponte entre a presidente e os ministérios ; partidos não apitam nas políticas ministeriais e, assim, a política de coalizão vai se tornando em política de colisão.

PMDB faz alerta

Os presidentes da Câmara e do Senado, Henrique Alves e Renan Calheiros, foram levados pelo vice-presidente Michel Temer para uma conversa franca e leal com a presidente Dilma. Fizeram ver que o Congresso não pode e não deve trabalhar de afogadilho, sendo o escoadouro das questões de interesse governamental. Precisa agir nos trâmites estatuídos na Carta Maior, respeitando-se os princípios da autonomia, independência e harmonia entre os Poderes. Todo cuidado foi tomado para evitar críticas mais acerbas ao comportamento das ministras Gleisi e Ideli. Na verdade, as duas não têm poder de mando. Funcionam como veículos de transporte de mensagens e recados. A relação entre Congresso e Executivo precisa ser mais respeitosa.

Tensões na base

Nunca se viu, como hoje, um contencioso mais denso e polêmico que este gerado pelas tensões entre o governo e suas bases. Líderes e partidos criticam, de público, ações e atitudes da presidente e de suas ministras que promovem a articulação política. Governistas já usam expressões que sinalizam distanciamento de seus partidos do governo em face do descaso a que são submetidos. Com o PMDB, as parcerias com o PT estão ameaçadas em 7 Estados. O PMDB quer fazer o maior número possível de governadores, meta que também está na planilha do PT. O ex-presidente Lula, diz-se, após o périplo que faz em alguns países, vai se dedicar à tarefa de harmonizar os espíritos. Tarefa que, desta feita, tende ao fracasso.

De olho no pibinho

Os eventuais quatro candidatos principais à presidência da República poderão empurrar o pleito de 2014 para um segundo turno. As pesquisas mostram que se todos forem à luta - Dilma, Aécio, Marina e Eduardo Campos - as chances de um segundo turno tornam-se muito fortes. Ademais, sinais preocupantes se observam no horizonte, com as indicações de queda de 10 pontos percentuais na avaliação da presidente Dilma e de inclusão do cardápio da inflação na conversa matinal das donas de casa que fazem feira. A queda de Dilma pode não ser impactante, face à alta avaliação que dispõe - 76% de boa avaliação. Quem pode acinzentar a moldura é a continuidade de um pibinho inexpressivo sob o pano de fundo de um desemprego crescente. Isso, sim, poderia ser uma frente de obstáculos. Por isso, a economia estará no olho do furacão nos próximos tempos. Ou no olho dos pré-candidatos.

Consumo X investimento

Há uma intensa discussão no meio da equipe econômica. Como se sabe, nem todos rezam pela mesma cartilha. Há aqueles que ainda defendem o incentivo ao consumo como pista para se chegar ao pódio eleitoral. E há aqueles que acham tal receita completamente defasada. Os tempos bicudos de hoje já não facilitam medidas de impulso ao consumo, como as que o Brasil adotou para escapar da crise de 2008. O novo tom é o da orquestra que toca os arranjos dos investimentos. Diz-se que a arenga entre os pensantes de um lado e de outro é ácida. E que, por conta disso, figuras importantes estão dando adeus ao governo, como é o caso do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.

MP 609

Vem aí a MP 609, que trata da cesta básica. Nela estaria embutido o escopo da frustrada MP 605, que não foi votada pelo Senado e caducou. Pois bem, essa MP é daqueles que mexem com o governo, eis que contem matéria vital para a melhoria do clima social. Há receio de que seja vencida pelo tempo. Não tem ainda parecer do relator, deputado Edinho Araújo. O receio é que, aprovada às pressas pela Câmara, chegue ao Senado fora dos prazos regulamentares, estatuídos pelo presidente Renan Calheiros.

Partido Rede

Boas perspectivas: o Rede Sustentabilidade, partido de Marina Silva, deverá ser formalizado até a data fatal de princípio de outubro deste ano, um ano antes das eleições. Até julho, a entidade terá suas 500 mil assinaturas. O corredor do Tribunal Eleitoral é que pode ser longo.

PSD em baixa?

Ouve-se, aqui e acolá, um bochicho dando conta da fuga do PSD que alguns parlamentares estariam programando caso, até outubro, novos partidos políticos apareçam no espectro partidário. Além do Rede, de Marina, espera-se que o partido que está sendo criado por Paulinho da Força também ganhe vida. No caso do PSD, fala-se da tendência de parcela do corpo parlamentar em deixar a base governista para se aliar a Aécio Neves ou Eduardo Campos. Kassab, mãos à obra !

Padilhando...?

Dizem que o ministro Alexandre Padilha já recebeu bilhete azul para viajar no pleito de 2014 como candidato ao PT ao governo de SP. Incrível, pois o ministro tem pouca coisa a apresentar. Se há um lado feio na paisagem social é o da Saúde. A ponto de Padilhando ser chamado de ministro da Doença. Por isso, o padilhando, o gerúndio que o pré-candidato começa a semear no jardim da marquetagem, pode se transformar no vadiando ou no maltratando...!

Segurança crítica

Segurança Pública será, seguramente, temática da linha de frente nas campanhas eleitorais de 2014, principalmente nos maiores Estados, cujas metrópoles pedem SOS. Os casos de barbaridade explodem. Crimes hediondos se multiplicam. Qual a solução? Mais policiais? Salários melhores? Integração das Forças? Investimento em Inteligência? Diminuição da maioridade penal? Aumento do prazo de detenção do adolescente criminoso? Mudança no Estatuto da Criança e do Adolescente? Expansão das redes dos presídios? Instituição de bônus-prêmio para policiais com melhores resultados na diminuição dos índices de violência?

Horizontes do Bradesco

"As expectativas para as principais variáveis macroeconômicas passaram por ajustes, especialmente para 2013, respondendo à frustração com o resultado do PIB do primeiro trimestre, à mudança de ritmo do aumento da Selic anunciada na decisão do Copom na última quarta-feira e à rápida depreciação da moeda brasileira, observada na semana passada, conforme apontado pelo Relatório Focus − divulgado hoje pelo Banco Central, com estimativas coletadas até o dia 31 de maio. A mediana das expectativas para o IPCA passou de 5,81% para 5,80% para este ano e seguiram em 5,80% para ano que vem". (Departamento de Estudos e Pesquisas Econômicas do Bradesco)

PIB de 2,77%

"A estimativa de crescimento do PIB mostrou queda para 2013, passando de 2,93% para 2,77% e caiu de 3,50% para 3,40% para 2014. A mediana da projeção para a taxa Selic subiu de 8,25% para 8,50% para este ano e continuou em 8,50% para 2014. Por fim, as projeções para a taxa de câmbio apresentaram discretos ajustes na direção do real mais depreciado, passando de R$/US$ 2,03 para R$/US$ 2,05 em 2013 e de R$/US$ 2,07 para R$/US$ 2,10 em 2014, considerando a expectativa para final de período". (Bradesco)

Afif governador

Pois é, Guilherme Afif assumirá, na próxima semana, o governo de SP, substituindo o governador Alckmin, que viajará à Europa. Alckmin defenderá, em Paris, ao lado do vice-presidente Michel Temer, a candidatura da capital paulista como sede da Expo 2020. Afif pedirá afastamento temporário da Pasta da Micro e Pequena Empresa. Não há nenhum obstáculo a essa ação. O ministro segue rigorosamente a orientação da AGU. Que, em parecer, defendeu não haver nenhuma ilegalidade para que o vice-governador assuma o governo temporariamente.

Medo em bares e restaurantes

A onda de violência em bares e restaurantes da cidade deve provocar uma procura maior por segurança privada, a maneira indicada para conter os arrastões. Mas os proprietários não podem incorrer num erro primário : contratar pessoas sem experiência e, muito menos, empresas clandestinas que infestam o mercado, dessas sem autorização da Polícia Federal para funcionar. Cautela é fundamental : informe-se sobre a idoneidade da empresa na própria PF ou no Sindicato das Empresas de Segurança Privada, Segurança Eletrônica, Serviços de Escolta e Cursos de Formação do Estado de São Paulo - Sesvesp.

Picadinho

A propósito da mulher que fez picadinho do marido-japonês, a coluna recebe esse alerta do amigo Álvaro Lopes:

"Até a década de 70, se a mulher descobrisse uma traição ela perdoava e cuidava do marido, com medo de ser abandonada...

Na década de 80, se a mulher descobrisse uma traição, juntava as próprias coisas na mala e ia embora...

Na década de 90, se a mulher descobrisse uma traição, juntava as coisas do marido na mala e o mandava embora...

Hoje, quando a mulher descobre a traição, junta o marido em pedaços na mala e joga tudo fora".

Conselho ao novo ministro do STF

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos dirigentes da ANAC. Hoje, volta sua atenção para o ministro Luís Roberto Barroso, recém-nomeado para compor o quadro do STF:

1. A sociedade organizada acompanha com atenção a movimentação que culminou com sua nomeação para o elevado cargo de ministro da mais alta Corte do país, graças aos seus méritos pessoais e reconhecida sapiência de jurista.

2. É de esperar que a passagem de Vossa Excelência pelo STF será coroada de êxitos e brilho. O momento político-institucional mostra o acirramento de tensões entre os Poderes, motivo pelo qual sua performance - decisões, julgamentos, pareceres - deverá receber alta atenção dos operadores do Direito e das lideranças da sociedade.

3. Por isso mesmo, toda cautela se fará necessária para que os julgamentos a cargo de Vossa Excelência estejam imunes ao "viés politiqueiro", que passou a carimbar as atitudes de membros da Corte Suprema. Que a recomendação de Vossa Excelência ilumine as decisões de todos os seus futuros colegas: "STF não deve ceder à pressão da sociedade".


(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 4 de junho de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Mudança no rumo econômico

Pode anotar aí: a divulgação do fraco PIB na semana passada, a elevação mais acentuada da taxa de juros básica e a alta do câmbio são evidentes sinais de mudança dos rumos da economia brasileira. Não é que estejamos valorizando strictu sensu os dados. O que estamos a dizer é que estes indicadores são uma espécie de corolário do fracasso da política econômica oficial. A desconfiança aumentou de vez. Há alguns praticando o argumento de que não pode haver falta de confiança quando a Petrobras emite um volume enorme de títulos de renda fixa, a BB Seguridade emite ações em larga escala e houve sucesso nos leilões de áreas de exploração de petróleo. Os dois primeiros fatos estão relacionados com o momento do mercado lá fora e ao pricing das operações. O mercado financeiro atende a relação de risco versus retorno no curto prazo e com uma rationale própria. Nada diretamente relacionado com o PIB e com o futuro no médio prazo da economia brasileira. Quanto aos leilões, o sucesso é óbvio, mas estamos a tratar de uma commodity, segmento no qual o Brasil é um dos campeões mundiais. A frase serve mais ao proselitismo político que à análise dos fatos econômicos.

A hora dos "fatores estruturais"

O momento econômico do país mostra mazelas e variáveis muito mais inquietantes: (i) um processo de desindustrialização acentuado, sem a incorporação de segmentos modernos e necessários à sustentação do crescimento, (ii) perda da dinâmica interna do crescimento pela impossibilidade de incorporar mais consumo oriundo de gastos públicos, (iii) falta de competitividade sistêmica pela ausência de reformas (tributária, infraestrutura, educação, tecnologia, violência urbana, ineficiência judiciária, etc.) e (iv) a antecipação da corrida eleitoral e o aumento dos riscos correspondentes. Há quem veja nestes pontos uma "linha estrutural" perturbando o desempenho conjuntural. Isto é uma questão de visão ou de metodologia. O fato é que os agentes ambicionam ver estas variáveis tomando o rumo certo e, assim, mudando as expectativas. O que de fato se vê é uma completa inoperância do país (não somente do governo) no sentido de iniciar a solvência destas variáveis. Prevalece a letargia do Palácio do Planalto e seus 39 ministérios, a política "feijão com arroz" do ministro Mantega e o Congresso voltado aos seus interesses mais corporativos (na falta de outra palavra). O poder não admite vácuo. Por ora, é o que se vê.

Câmbio vai desvalorizar?

Os problemas estruturais podem ser muitos, mas são todos passíveis de solução, mesmo que não sejam fáceis. Todavia, consolida-se a ideia de que a atual valorização do real inviabiliza qualquer passo mais certeiro na direção do crescimento sustentado. Como se sabe, é preciso que a taxa real de câmbio venha a se desvalorizar para que a competitividade do país aumente. Isso necessita de três movimentos que não dependem integralmente do governo : (i) a própria alta da cotação nominal do câmbio, (ii) da inflação residual provocada pela alta da taxa de câmbio, (iii) da inflação externa e os efeitos dos termos de troca (quantidade de mercadorias exportadas/importadas e seus respectivos preços). A "solução da valorização cambial" é delicada e provoca num primeiro momento mais desorganização no sistema econômico do que benefícios. FHC manipulou erroneamente o câmbio e o custo foi um segundo mandato medíocre em termos de crescimento. De toda a forma, apostar na alta das moedas estrangeiras frente ao real nos próximos meses faz muito sentido. Assim como, nos seus efeitos negativos do ponto de vista da inflação, salários e atividade econômica. Nessa ordem.

Em busca da credibilidade ameaçada - I

Por mais que o governo tenha reagido "olimpicamente" aos maus indícios vindos do fronte econômico na semana passada, com o PIB diet de 0,6% no primeiro trimestre e a elevação dos juros básico pelo BC de 0,5 ponto percentual - com uma esticada do dólar de mais de 7% em menos de uma semana - a realidade é que o nível de estresse no Palácio do Planalto e adjacências chegou a seu nível mais elevado desde que Dilma assumiu a presidência da República. As cabeças mais coroadas da República e seu espectro político não conseguem entender porque, apesar de todas as medidas adotadas nos últimos meses - foram nada menos que 18 pacotes - de incentivo ao consumo e desoneração fiscal, a economia não deslancha. O mistério está indo além da vã filosofia oficial. O que se viu - a começar por um ministro da Fazenda Guido Mantega desacorçoado, anunciando que o governo não terá novas medidas - foi um governo perplexo, quase atordoado.

Em busca da credibilidade ameaçada - II

O revés que boa parte dos analistas - alguns próximos do oficialismo, com entradas palacianas - havia previsto, mas Dilma e os seus preferiam não ver. A reação agora, salvo recaída de última hora, parece mais realista. Definitivamente desistiu-se de perseguir um PIB de mais de 3% este ano, aceitando-se a tese do BC de que o problema imediato a combater é a inquieta inflação. Não fosse por nada, pelo tudo de estragado que a indisciplina dos preços já causou em décadas passadas no Brasil, pelo recado muito bem dado pelo próprio PIB de janeiro, fevereiro e março : a estagnação (aumento de apenas 0,1%) no consumo das famílias é reflexo direto da rebeldia inflacionária. Aliás, como o BC já havia tentado provar em outras ocasiões e havia sido rechaçado com ceticismo por seus pares governamentais.

Em busca da credibilidade ameaçada - III

É cruel admitir, porém, para Alexandre Tombini e seus subordinados de BC, o raquítico PIB inaugural de 2013 veio mais do que em boa hora: permitiu à autoridade monetária recobrar um pouco a credibilidade que estava se esvaindo por causa de tergiversações anteriores e, o mais importante, pudesse iniciar o combate à renitente inflação antes que o processo inflacionário começasse a fugir totalmente do controle. O mundo político oficial, aparências à parte, engoliu sem deglutir direito a "ousadia" do BC de acelerar o ritmo de elevação da taxa Selic, mas provavelmente lá na frente vai agradecer muito à Tombini e sua turma. Pior seria deixar os riscos correrem frouxos agora e chegar ao período mais agudo da campanha eleitoral, em 2014, com a inflação mais nervosa e comendo a renda e o emprego dos trabalhadores. De forma alguma não foi esta motivação da autoridade monetária, mas a maior contribuição até agora para a campanha reeleitoral de Dilma foi dada pelo BC contrariando o senso comum político. Quem diria !

A voz do PT?

José Dirceu ainda expressa em boa medida o que se poderia chamar de o "pensamento do PT". Em seu blog, o líder petista expressou a sua leitura sobre a atual política monetária : "Para nossos adversários é preciso mudar o modelo e não apenas subir os juros para reduzir a inflação. Até porque o dragão da maldade já dá sinais de recuo. Basta ler os editoriais dos jornais da direita conservadora. Não nos iludamos, o que está em jogo é nosso projeto político de desenvolvimento nacional e não apenas uma questão de política monetária e/ou da autoridade e autonomia do Banco Central (BC)". Cabe reflexão o enunciado de Dirceu.

Um ensaio?

O programa compulsório do PSDB no feriado de quinta-feira no rádio e na televisão, estrelado por Aécio Neves, teve alguns sinais de que o partido pode estar mudando seu discurso eleitoral para questões mais objetivas e mais de alcance do eleitorado. O foco na inflação é proposital : há pesquisas de que os preços já começam a mexer com parte da confiança da população na política econômica. É este o eleitor a ser disputado. O próprio PT já detectou este flanco. Segundo interpretação do presidente do partido, Rui Falcão, uma voz que ouve muito os assobios de Lula antes de se expressar, as conquistas sociais já não são suficientes para reeleger Dilma. O que explica o porquê, mesmo se como estivesse indo para o cadafalso, do mundo político oficial aceitar a demonstração de autonomia do BC aumentando para 8% a taxa básica de juros e indicando que novas doses do amargo remédio podem ainda ser aplicadas este ano. É bater a inflação ou bater a inflação.

Por que a ressalva?

Resposta do presidente de Lula em entrevista ao jornal colombiano "El Tiempo" a uma pergunta que questionava o fraco desempenho atual da economia brasileira : "Sem arrogância, eu acho que as perspectivas de crescimento são tão promissoras que, ainda que o governo cometa erros, tudo sairá bem". (grifo da coluna). Cometer erros quem ? Quais erros ?

A "nova competência" do governo - I

O choque do PIB raquítico parecer ter dado um solavanco no governo : desde quarta (e a imprensa foi pródiga de informações oficiais sobre isto nos últimos dias) só se fala agora em Brasília "ancorar" o crescimento da economia nos investimentos. O crescimento deste item no PIB no primeiro trimestre já trouxe um novo ânimo, porém o carro-chefe deverá ser o pacote de concessões na área de infraestrutura : portos, aeroportos, rodovias, ferrovias e, obviamente, o pré-sal. Já se fala até em uma "overdose" de leilões no segundo semestre, a partir de setembro : mais de 30 terminais portuários, os aeroportos de BH e RJ, sete de trechos de rodovias, pelo menos duas ferrovias, entre estas o encantado trem bala, o promissor campo petrolífero de Libra... Dinheiro e concorrentes.

A "nova competência" do governo - II

A questão é saber se o governo terá fôlego para tanto e se vai fazer alterações em seus projetos iniciais capazes de atrair mesmo investidores. Embora tenha anunciado, por exemplo, mudanças nos leilões de rodovias, muitos interessados ainda estão reticentes. O ativismo inicial do governo, na base da Lei de Gerson, querendo levar vantagem em tudo, causou muitas desconfianças e vai ser preciso ainda um bom esforço para esta situação ser revertida. O trem bala rola há mais de dois anos e somente na semana passada a Empresa de Planejamento Logístico, responsável por tocar o projeto, passou a admitir aumentar a Taxa Interna de Retorno, uma das reivindicações dos possíveis concorrentes. Além do mais, há uma questão mais prosaica : o governo vai começar a mostrar mais "agilidade no fazer" e "competência na execução". O pacote de infraestrutura foi lançado em agosto passado - e até agora está nos prolegômenos. Antes isto era motivo apenas de discursos da oposição e comentários velados de alguns empresários. Agora, a dita "inapetência gerencial" do governo Dilma está na boca até de alguns de seus mais fiéis aliados.

A base aliada inquieta - I

Político profissional - ou de carreira - é, a começar pelo mais tolo deles, um bicho racional de faro afiadíssimo, capaz de sentir antes de qualquer radar a direção do vento. A maioria no Brasil tem seu GPS completamente direcionado para os endereços palacianos. Ora, a presidente Dilma desfruta, no momento, de uma das mais altas popularidades jamais desfrutada por um governante no Brasil, com índices acima de 80% rivalizando com os do próprio ex-presidente Lula, indubitável campeão de audiência no país neste quesito. Apesar dos vacilos da economia o grau de satisfação dos eleitores, medido pelo trinômio emprego-renda-poder de consumo da maioria dos cidadãos-eleitores, sequer foi arranhado. E, de acordo com bons especialistas nos ramos da ciência econômica e da ciência política, dificilmente o será até a chegada de 2014.

A base aliada inquieta- II

A sobrevivência da maioria quase absoluta da classe política está umbilicalmente ligada a quem tem tais cabedais, com o amparo dos imbatíveis Diário Oficial e uma caneta cheia de tinta. É, no entanto, é cada vez maior a insatisfação dos aliados tradicionais com a presidente Dilma e seu governo. Sem distinção de partidos, embora alguns estejam mais tristes com ela do que outros. Até no PT os amuos já são públicos - e de gente com boa assinatura em cartório. A falta de carinho, de verbas, de cargos, explica em parte as queixas. Porém, isso tudo é relevado quando a companhia é garantia de sobrevivência. É estranho o que está no ar. Será que sua sagacidade no mundo político profissional com praça assentada em Brasília está vendo jabuti em árvore?

Pobre oposição

No "Globo News Painel" de sábado passado, o competente jornalista William Waack conduziu um debate sobre os rumos da política brasileira - as vacilações do governo no Congresso, a rebeldia da base aliada, a imagem da gerente Dilma, a avaliação do governo da presidente e, naturalmente, a sucessão presidencial. Presentes, três dos mais respeitados analistas da cena nacional: o professor Bolivar Lamounier, Murilo Aragão, da Arko Advice, uma consultoria com sede em Brasília, e o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. Foi quase uma hora de boa e ilustrativa conversa. Pois bem. Em todo esse tempo, em nenhuma ocasião o nome do tucano Aécio Neves, provável candidato ao lugar de Dilma, foi citado. O de Marina Silva passou batido. E o de Eduardo Campos, também já dado como candidato oposicionista, foi falado en passant.

Dilma "nadando de braçada"

A opinião do grupo é a mesma da maioria dos analistas e da política : o mar eleitoral está todo para Dilma. As piranhas que podem ameaçar o nado seguro dela em direção ao segundo mandato são, principalmente, os desarranjos da economia. E adicionalmente seus próprios aliados e os desarranjos de seu próprio governo. A oposição, se não mudar seu discursos ou sua prática, será mera espectadora. Ou se beneficiará de coisas para as quais ela não contribui. Será caudatária de circunstancias políticas e econômicas.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

SANTO ANTÔNIO VACILOU

Espalham que santo Antônio

É Santo casamenteiro

Já fiz promessa pro Santo

No cofre botei dinheiro

E para minha desgraça

Em mim ninguém acha graça

Tá difícil um companheiro.

*

Dos braços de Santo Antônio

Eu já roubei o menino

Achando que a simpatia

Mudaria meu destino

Porém prossigo solteira

Não gosto da brincadeira

Que me deixa em desatino.

*

Botei água numa jarra

E mais uma vez tentei

De cabeça para baixo

O santinho mergulhei

Nem mesmo fazendo assim

O santo lembrou de mim

Desesperada chorei.

*

Solteirona eu não fico

Alguém vai me socorrer

Ao candomblé ou umbanda

Inda posso recorrer

Ou então eu viro crente

E o santo fique ciente

Solteira não vou morrer!

*


--

Dalinha Catunda

domingo, 2 de junho de 2013

O TREM DO MEDO



A nave da Igreja Senhor do Bonfim nunca admitira tantos fiéis como naquele distante domingo de janeiro de 1926, estava lotada. Aglomera-se gente até nas calçadas e, na ponta dos pés, estiravam o pescoço para melhor ver e ouvir a homilia do Padre Juvêncio. A pregação do sacerdote teve de tudo, menos o seu estilo característico, coloquial e ameaçador, sobre as benesses e os castigos do Evangelho. O Padre Juvêncio, ao perceber a grande inquietação, parecia um psicólogo:

- Meus amigos, fiquem calmos! Sabemos que os revoltosos estão chegando, mas não se alvorocem, por favor! Rezemos para que tenhamos a proteção de Nosso Senhor Jesus Cristo!

A maioria não esperou o final da missa. A prédica surtira um efeito contrário. Correram para suas casas e reforçaram as tramelas das janelas e das portas. Pelas ruas só se via os soldados dos municípios vizinhos ajudando à força policial do Governo Federal e da cidade de Crateús a reforçarem as barricadas e a cavarem trincheiras na Praça da Estação.

Alguém, imprudentemente e numa propagação desesperançada, anuncia aos quatro cantos da cidade, para que todos possam ouvir:

- O aviso do ataque veio pelo telégrafo da estação! A coisa não é de brincadeira, meu povo! Quem puder que se salve, pois o Capitão Peregrino soltou até o famigerado cangaceiro Zé Mourão, para proteger a nossa cidade!

O alvoroço, que já era grande, piorou. Os mais abastados, na calada da madrugada, sumiram para as fazendas, em ligeiras tropas de animais e, antes de escapulir, enterraram suas patacas de ouro e prata, amarradas em mocós de couro de bode, debaixo de algum verde juazeiro, pelas redondezas da cidade. Nestas desesperadas apreensões, para evacuar uma população em perigo, a quem tolha os movimentos e trave as suas ações, mas também há quem cedo se alvoroce e busque as soluções dos desespero.

Um trem estava parado na estação. E da idéia para a ação foi só o tempinho de reunir algumas famílias importantes, incluindo a do maquinista e do foguista, sem eles não teriam como partir. Tudo em surdina. Não poderiam espalhar a notícia, pois não comportaria uma cidade inteira nos vagões da Maria Fumaça. Dizem que foi o único trem que partiu sem um apito de despedida, e até o fumo que exalava de sua negra chaminé era pálido como a neve, para não chamar atenção! Mesmo assim, estava abarrotado de gente, que desertavam de sua cidade.

Fora o desagradável sacolejo dos vagões e o repetitivo som metálico: tchuc tchuc tchuc das rodas de aço nos encontros dos trilhos, só se ouvia as aves marias e as salve rainhas, quase silenciosas, dos lábios das aflitas senhoras com terços nas mãos. Algum soluço choroso, pelo pavor reinante nos lábios de uma criança, era imediatamente abafado. O Trem do Medo abria caminho pela madrugada incerta e todos tinham a impressão que caminhavam para a morte!

Alguns corajosos cidadãos, com seus revólveres winchester Smith na cartucheira, ou mesmo um socadeira dependurada no ombro, confabulavam com o condutor sobre a probabilidade de encontrarem os revoltosos pela frente, eles diziam:

- Maquinista, se avista uma tropa com lenço vermelho no pescoço, não pare o trem, siga em frente!

Avisaram para os demais passageiros que ficassem abaixados, principalmente quando passassem por uma cidade, e quem olhasse para aquele trem, deslizando sobre a linha férrea, teria a impressão de que era uns vagoes fantasmas, sem um vivente nas cadeiras.

O trem, enquanto engolia carvão, comendo distâncias, soltava fumaça e já passara pela cidade de Ipueiras, ao sopé da Serra de Ipiapaba, sem parar. Subitamente um grande medo toma conta de todos, pois o maquinista reduzira a velocidade. Na frente, um amontoado de dormentes despregados sobre os trilhos, anunciava perigo. Tiveram que parar, senão desencarrilhariam e seria grande o desastre. Primeiro, perscrutam qualquer som estranho, como um estalar de galhos, vozes de soldados ou o engatilhar de fuzis, pois estavam todos abaixados. Levantam-se, lentamente, e percebem que estão sozinhos, sem poder seguir para a cidade do Ipu. A linha férrea havia sido destruída.

Ponderam sobre o que fazer, diversas sugestões aparecem, até em abandonar o trem e ganhar a caatinga sem rumo, em busca de algum socorro. O maquinista, como líder experiente, toma uma firme decisão, ele retornará e quem quiser ficar, que fique e ganhe as brenhas da caatinga, sem comida, sem água para beber. Todos resolvem segui-lo e o trem começa a longa viagem de volta, rumo à cidade de Crateús e de marcha à ré.

As mesmas orações que foram ditas na vinda são, desesperadamente, reconfirmadas na volta, pois mesmo em regresso, continuam numa viagem de fuga e cheia de incertezas. Mais de 200 quilômetros percorridos pelo Trem do Medo, onde em cada janelinha semiaberta pares de olhos imaginam vultos armados nas moitas de mufumbo, que margeavam a linha férrea.

Ou foi o poderio das rezas das senhoras ou um grande lapso da sorte, pois o destacamento de João Alberto marchava seguindo a linha férrea. Retornam à Crateús, são e salvos. Param o trem ao lado de uns cargueiros repleto de algodão, e se dirige as suas casas, vão reforçar, também, as tramelas da portas e das janelas.

Foi a tempo de saberem notícias de um estranho mendigo, se fazendo de aleijado, pedindo esmolas pela cidade, perambulando pelas ruas, mapeando tudo, caxingando por uma perna e com uma suja capa preta cobrindo a cabeça. O pedinte estira a mão para o casarão da Rua João Tomé nº 290 e pede esmola. Dona Isabel Bonfim Leitão oferece água, café e bolo, mas nota que o aleijado tinha boas maneiras, firmeza em pegar na xícara e levá-la à boca. Corajosa, pergunta:

- O que o senhor sabe dos revoltosos?

- Minha Senhora, eu não sei de nada, só sei das minhas esmolas!

Era o capitão Pretinho, perigoso espião do Batalhão de João Alberto, que anunciava angustiantes momentos de tempestades e medo!

Às três horas da madrugada, quando os revoltosos soltaram uma saraivada de fuzis, pelos cantos, denotando o cerco da cidade, os corações dos passageiros do Trem do Medo aceleraram novamente em disparada, e ao mesmo tempo sentiram alívio por não terem encontrado esses disparos em sua frustrada rota da fuga. A força policial que defenderia a cidade, revida com um crepitar intenso de fuzilaria. Era a cidade de Crateús em guerra!

O cangaceiro Zé Mourão rolava pelas calçadas e, agilmente, disparava seu fuzil, tal qual o bacamante de Alexandre Mourão, mas a Praça da Estação caiu em poder dos revoltosos, que ataram fogo nos cargueiros com algodão.

A nossa sorte foi que o Quartel General da polícia era a Matriz do Senhor Do Bonfim e do alto de uma das Torres um tiro certeiro acerta Antônio Cabeleira que saía correndo de uma casa em frente à Igreja. O tiroteio continua cerrado.

Dona Maria Augusta, olhando por uma fresta de porta, atesta o fim da luta. O Pelotão de policiais comandados pelo capitão Peregrino Montenegro encontra-se com uma tropa de revoltosos liderada pelo Tenente Tarquínio, na Rua da Pimenta, separados por um monte de pedras. Os dois oficiais, em duelo, trocam palavrões, vitupérios mútuos e por fim, tiros, mas erram. O Tenente provoca o Comandante da guarnição de Crateús para uma luta, na ponta ferro branco. O que faz Peregrino gritar: - Pois então saia daí e venha brigar! Mal o delegado de Crateús fecha a boca, já viu diante de si o audaz guerreiro revoltoso, que foi recebido com um tiro certeiro de mosquetão. Com o revoltoso ao chão, as pontas de facas o acabam de matar.

Era o crepúsculo de uma luta feroz pelas ruas de Crateús. Os revoltosos, com seus lenços vermelhos nos pescoços, desaparecem pela Várzea dos Paus Brancos, foram enterrar seus mortos... Mas as lutas, as eternas lutas, pelas quais começaram uma grande marcha contra as fraudes eleitorais, a concentração de poder político nas mãos das elite agrárias, exploração das camadas mais pobres pelos coronéis, ainda continuam...

Pelo visto, o Trem do Medo nos trilhos da vida, permanecerão a circular!

Raimundo Cândido