quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a Coluna com duas historinhas, uma de ontem, a doidice desse velho mundo, e outra de anteontem, o ladrão de galinhas.

Que mundo doido...!

- Esse velho mundo ta cada vez mais doido.

Era a queixa de Maneco Faustino, nas ruas de Limoeiro, no Ceará. E arrematava:

- Veja vosmicê : ta se vendo estrela de mei dia ; já hai galinha nascendo com chifre ; cangaceiro dando esmola na igreja ; já vi bode dando leite e, agora, deu pra chuver no Ceará em agosto. Querem ver mais : muié sentando em cadeira de barbeiro e home entrando em banheiro de muié.

Pedro Malagueta confirmava, balançando a cabeça:

- Tá mesmo tudo virado, cumpade. O mundo endoidou. Tenho três fias, duas casadas e uma sorteira; as duas casadas nunca tiveram menino ; mas a solteira todos os ano me dá um neto.

O ladrão de galinhas

Historinha conhecida merece um repeteco.

Certa vez, um ladrão pulou o muro da casa de Rui Barbosa para roubar uma galinha. No alvoroço, o grande tribuno acordou do profundo sono, e se dirigiu ao galinheiro. Lá chegando, viu o ladrão já com uma de suas galinhas, e passou o carão:

- Não o interpelo pelos bicos de bípedes palmípedes, nem pelo valor intrínseco dos retrocitados galináceos, mas por ousares transpor os umbrais de minha residência. Se foi por mera ignorância, perdôo-te, mas se foi para abusar da minha alta prosopopéia, juro pelos tacões metabólicos dos meus calçados que dar-te-ei tamanha bordoada no alto da tua sinagoga que transformarei sua massa encefálica em cinzas cadavéricas.

O ladrão, pasmo e sem entender patavina, tascou:

-Cumé, doutor, posso levar ou não a galinha?

Lula arruma a cara

O ex-presidente Lula será mais que caixeiro viajante na empreitada eleitoral deste ano. Correrá Estados no esforço para desfraldar a bandeira petista pelos grandes e médios centros. Ele sabe que este 2014 será o teste de fogo do PT. A primeira providência foi tomada: deixar a barba crescer. Desenha a velha e conhecida estética lulista. A voz já está no prumo. Com esse aparato, não apenas pretende reeleger a pupila, a presidente Dilma, mas fazer o maior número de governadores, o maior número de deputados federais, expandir a bancada de senadores e de deputados estaduais. Alvo: vida longa ao projeto petista de poder, uma inserção até 2022. Quem sabe, até mais. Para tanto, precisa fazer o que o PMDB fez em 1986: esticou os braços por todo o país, construindo a maior máquina partidária para atravessar décadas.

Palíndromo I

Palavra ou frases que se podem ler nos dois sentidos, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. A coluna de hoje será puxada por palíndromos.

- Anotaram a data da maratona

O alvo principal

Pela primeira vez, o PT disputará, em condições competitivas, os governos dos três maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Em São Paulo, a meta é viabilizar o nome do ministro Alexandre Padilha, a partir de seu índice histórico de 30% de eleitorado no Estado. Vai lutar com unhas e dentes para jogar Padilha no segundo turno. Contará com a máquina da prefeitura de SP, os prefeitos do PT, o poder de mando ($$$$$) do governo federal e o comando de Lula. Fernando Haddad, mal avaliado, poderá prejudicar? Em termos, mas o eleitor petista é engajado.

Palíndromo II

- Assim a aia ia a missa

Polarização?

É possível que a velha polarização entre petistas e tucanos prevaleça. Mas parcela considerável do eleitorado está saturada da querela histórica. E tende a rejeitar os nomes tradicionais. Alckmin conserva boa imagem no interior do Estado. Na capital, sua imagem não é tão forte. O PSDB sofre, ainda, do fenômeno da corrosão de material. Sob essa moldura, um perfil com traços de renovação teria condições de avançar, quebrando a polarização. Paulo Skaf, presidente da FIESP, entra no figurino. Já exibe, a essa altura, 20% das intenções de voto dos paulistas. É determinado, expressa atitudes corajosas, liderou campanhas vitoriosas - CPMF, barateamento da energia, IPTU menor e mais justo.

Palíndromo III

- A diva em Argel alegra-me a vida

MG, incógnita

Fernando Pimentel é perfil bastante conhecido em Minas. Sua imagem é de petista suave, sem os traços radicais que carimbam figuras clássicas do PT. Ex-prefeito de Belo Horizonte, fez boa administração. Dialoga com as correntes políticas do Estado. Dessa feita, sua luta é contra os tucanos mineiros, liderados por Aécio Neves, candidato à presidente da República, e pelo governador Antônio Anastasia. Derrubar a gaiola dos tucanos, depois de longo ciclo de mando, não será fácil. Minas abriga o maior número de municípios do país e o segundo maior colégio eleitoral. A candidatura de Aécio, muito simbólica aos mineiros, que se sentem relegados a segundo plano, depois de terem perdido o presidente Tancredo, poderá dar a seu neto grande votação. Maneira dos mineiros resgatarem o poder perdido. Esse é o pano de fundo sob o qual será disputado o pleito. Apagar esse cenário será um desafio ao PT. O candidato tucano terá charme para dar continuidade à era Aécio-Anastasia? Seu nome: Pimenta da Veiga. É conhecido. Não significa, porém, um voo ao passado?

Palíndromo IV

- A droga da gorda

Lacerda

E como se comportará o PSB, do prefeito de BH, Márcio Lacerda? Que terá Eduardo Campos, o comandante do partido, candidato à presidente da República? Com quem o PSB fechará posição em Minas?

Palíndromo V

- A mala nada na lama

O terceiro vulcão

O terceiro vulcão da campanha será o Rio de Janeiro. Lindbergh Farias, o senador petista, espera entrar no segundo turno. Pezão, o vice-governador, candidato do PMDB e da máquina, oscila entre 10% a 12% de intenção de voto. O deputado Garotinho, do PR, lidera o início de corrida. César Maia, do DEM, passará dos 10%. Ou apenas quer garantir visibilidade ? O senador Marcelo Crivella, do PRB, prepara-se para entrar no páreo. A incógnita toma corpo entre os cariocas. Mas a tendência é que os candidatos das máquinas cresçam. Por disporem de mais tempo de mídia eleitoral e mais recursos. É plausível prever um segundo turno entre PMDB e PT. Os candidatos evangélicos, Garotinho e Crivella, teriam condições competitivas ? Difícil. Lindbergh tem um histórico de problemas. E processos no entorno. Mas, caso entre no segundo turno, pode ganhar o apoio de outros candidatos. Será uma campanha tão árdua quanto a que se verá em SP e MG.

Palíndromo VI

- A torre da derrota

E Marina, hein?

Marina era a grande estrela a brilhar na constelação do PSB de Eduardo Campos. A estrela não brilha quanto se esperava. Parece mais uma guerreira a fustigar (e a afastar) aliados do governador pernambucano.

Palíndromo VII

- Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na moda da Romana anil e cor azul

Chances de Campos

Hoje, as chances de Eduardo Campos são pequenas. Tentar furar o bloqueio dos três maiores colégios eleitorais do país é tarefa que exige um conjunto de condições: parcerias locais, recursos, tempo de rádio e TV, ajuda de máquinas administrativas, agenda intensa nesses espaços. Por onde Eduardo Campos vai começar?

Palíndromo VIII

- O romano acata amores a damas amadas e Roma ataca o namoro

O exercício da função

Os candidatos a cargos majoritários em comandos de estruturas - governadores de Estado, presidente da República, ministros - dispõem de condições mais favoráveis que candidatos sem máquinas administrativas. Ganham visibilidade na esteira de uma agenda locupletada de eventos : viagens, inspeções, inaugurações, articulação política, mobilização de massas. Estão praticamente todos os dias na mídia. Por isso, não podem se queixar de pessoas que, na esfera de suas entidades, ganham visibilidade e se habilitam a ingressar na política. No fundo, estão na mídia em razão do exercício de suas funções.

Palíndromo IX

- Saíram o tio e oito Marias

Tapetão, uma vergonha

Por essa razão, não se compreende a tentativa de tucanos e de um ou outro partido nanico de entrar com ação contra Paulo Skaf, do PMDB, pelo fato de aparecer em anúncios publicitários do Sesi e do SENAI. Ora, o presidente da FIESP usa o direito que tem, coerente com o exercício do cargo. Acaba de ganhar uma luta que beneficia milhões de paulistanos: o reajuste do IPTU paulistano à base do índice da inflação. Trata-se de uma campanha de relevo social. O sucesso de um empreendimento desse vulto carece de mobilização. E conhecimento da sociedade. Assim como foram as lutas contra a CPMF e o custo menor da energia, também lideradas por Skaf. A tentativa do tucanato de entrar com recurso para inviabilizar, mais adiante, sua candidatura significa temor de que o presidente da FIESP possa romper a polarização PT x PSDB. Hipótese a ser levada em alta conta.

Palíndromo X

- Zé de Lima rua Laura mil e dez

Discórdia ministerial

A reforma ministerial é o pomo da discórdia. Por mais que a presidente tente acolher as demandas de sua base partidária, a insatisfação se expande. Os 39 ministérios serão devidamente distribuídos, cabendo ao PT, claro, a parte do leão : 25 Pastas. O PMDB começa a enxergar que, ao invés de aumentar seu espaço na Esplanada dos Ministérios, poderá, até, ver diminuída sua fatia. Dilma e Lula teriam combinado oferecer ao PMDB, em compensação à perda de Ministérios que o partido reivindica (Integração, Cidades, por exemplo), palanque a seus candidatos em alguns Estados. Quer dizer, Dilma iria prestigiar candidatos petistas e, em outra oportunidade, poderia subir ao palanque de peemedebistas. Se for essa a proposta, a indignação subirá a montanha. Os ânimos estão acirrados. Lula, Dilma e o PT não acreditam que o PMDB parta para retaliação. Mas o partido sabe muito bem guardar a raiva no congelador. Para servi-la em futuros coquetéis.

Palíndromo XI

- O lobo ama o bolo

Tucanos e aliados de Dilma

Os tucanos tendem a fazer alianças com aliados do governo Dilma nos seguintes Estados : Amazonas, Mato Grosso, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Bahia.

Palíndromo XII

- A cara rajada da jararaca

A partilha

Pelo que se observa, a partilha ministerial terá a seguinte composição : 25 ministérios para o PT ; 5 para o PMDB ; 1 para o PR ; 1 para o PP ; 1 para o PROS ; 1 para o PTB ; 2 para o PSD ; 1 para o PDT ; 1 para o PC do B e 1 para o PRB.

Palíndromo XIII

- Rir, o breve verbo rir

Conselho aos governantes

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos jovens. Hoje, volta sua atenção aos governantes e representantes :

1. Urge interpretar a quadra social que o país vivencia. As movimentações sociais, a partir dos rolezinhos dos jovens, querem significar, a par do lazer e diversão, esforço para participação mais intensa e engajada no processo decisório nacional. E expressar demandas de grupos e setores.

2. Os rolezinhos não devem ser tratados como eventos de natureza policial, mas como fenômeno social/cultural.

3. O bom senso se faz necessário, antes que os movimentos assumam posicionamentos que transbordem os limites e objetivos ao que, preliminarmente, se propõem.

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(Gaudêncio Torquato)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a Coluna com duas historinhas de Carlos Santos, pinçadas de seu "Só Rindo 2".

Pedras no português

Médico e candidato a prefeito de Pau dos Ferros, Etelânio Vieira retorna de outra movimentação de campanha. Ao seu lado, o vereador "Assis Bigodão".

No interior do carro em que ambos estão, Assis desabafa fuzilando de morte o português:

- Jogaram uma pedra "neu"...(sic).

Com elegância, quase inaudível para não expor o vereador a embaraços, Etelânio sopra o que seria a expressão correta:

- "Neu" não, Assis; "em mim"!

Olhar de espanto, o vereador complementa o assassinato da língua de Fernando Pessoa, Camões e Eça de Queirós:

- Sim...Jogaram no senhor também, doutor!

Que coisa!

O candidato retardado

Palanque armado no bairro Pereiros, o comerciante "Chico do Peixe" chega com considerável atraso, ávido por discursar na condição de candidato a vereador em 1996, no município de Mossoró. Favorecido pela escassez de oradores no comício do candidato governista, engenheiro Valtércio Silveira, apoiado pelo prefeito Dix-huit Rosado, Chico é alertado de que também terá direito a discursar. Ufa! Ele já pensava que não teria vez. Abrindo a oratória, Chico do Peixe tenta justificar sua ausência até então, mas mistura semântica com psiquiatria:

- Olha, meus amigos, eu estou chegando "retardado"...

Previsões para o ano

Há analistas pessimistas, otimistas e realistas. Distinguir uns de outros não é tarefa fácil. Alguns apontam para a recuperação da economia americana e impactos sobre o Brasil. Outros procuram mostrar que a engenharia da "catástrofe perfeita" começa a ser desenhada. Entre uns e outros, os realistas se impõem. A tempestade perfeita ocorreria no cenário de reversão da política monetária, fortemente expansionista, empreendida pelo FED, o banco central americano. O nosso guru, Delfim Netto, diz que se a oferta de moeda estrangeira escassear, o câmbio interno poderia passar por turbulências. Como pano de fundo, rebaixamento da qualidade da dívida brasileira. Mas o próprio Delfim acredita que as chances da tempestade estão sendo afastadas.

Economia de 2% do PIB

Delfim argumenta: basta que a presidente Dilma assuma o compromisso firme de que o governo fará uma economia de 2% do PIB (cerca de R$ 96 bilhões) por ano, destinada a amortizar a dívida (superávit primário), para que a política econômica comece a passar firmeza e, nessas condições, a tempestade seria enfrentada sem avarias de monta para o navio. Nesse caso, teria de basear-se em cálculo transparente das contas públicas, sem os truques contábeis inventados em 2012 pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin, que vem denunciando a existência de ataques especulativos contra as finanças do governo.

Leos: garantindo grau de investimento

O economista Mauro Leos, vice-presidente da Moody's, uma das maiores agências internacionais de classificação de risco, garante que se a situação macroeconômica do Brasil, em 2014, for idêntica à do ano passado, a nota do país continuará sendo a de grau de investimento. Com ele, a palavra: "o cenário que prevemos não deverá ser muito diferente de 2013, quando a economia cresceu em torno de 2%. Neste ano, deverá ficar no mesmo patamar. No caso da dívida pública, que ultrapassou 60% do PIB em 2013, deverá acontecer algo parecido. Se esse cenário se confirmar, não precisaremos mudar a classificação de risco do Brasil no curto prazo. Acreditamos que ela é consistente com a nota do país, hoje, de grau de investimento com perspectiva estável".

Dilma, franco favorita

Pois bem, mantida essa situação, este analista acredita que a presidente Dilma Rousseff continua na posição de franco favorita do pleito de outubro. Uma catástrofe - inflação alta, desemprego em massa, tumulto na distribuição do Bolsa Família, descalabro na saúde e segurança pública - aumentaria, consideravelmente, as chances de um candidato das oposições. A candidata governista, convenhamos, conta com gigantesca máquina - as estruturas administrativas de ministérios e agências governamentais, milhares de cabos eleitorais postados em áreas-chave. Pode ser que o clima do ano chegue a conturbar o processo eleitoral. Manifestações por ocasião da Copa, mobilizações nas margens eleitorais, movimentos paredistas de setores e categorias profissionais etc. Teriam força para mudar a paisagem eleitoral? Essa é a pergunta que fica no ar.

Dor de cabeça

A dor de cabeça que afligirá a candidata à reeleição pode, também, prejudicar o rumo de sua campanha. Trata-se do imbróglio da reforma ministerial. Sairão alguns ministros para disputar a eleição. Os partidos começam a guerrear por melhores postos na administração, a partir do PMDB, o maior partido aliado. Será impossível chegar ao consenso. No Rio, as posições tendem a ser irreconciliáveis, a partir da férrea determinação do PMDB e do PT de manter as candidaturas do vice-governador, Pezão, e do senador petista Lindenberg. O vice-presidente Michel Temer, com sua conhecida habilidade para negociar, continua a tentar um acordo. O que pode ocorrer é um palanque duplo para Dilma, no Rio de Janeiro. E uma parceria estremecida.

Rolezinhos

Os "rolezinhos" começam a se multiplicar pelas praças do território. Aglomerados de jovens, sob o convite das redes, adentram os shoppings centers, para uma zoeira, um encontro animado, sob manifestações e palavras-chave de uma turba que quer se divertir. Os "rolezinhos", como estão sendo chamados, podem se transformar no hit das próximas estações, principalmente se o Estado não souber administrar as ondas. Proibir a entrada de jovens em um shopping center, levando em conta seu modo de vestir, é um ato discriminatório. Permitir a bagunça generalizada em um ambiente privado também é inconveniente. O Estado é transportado ao espaço entre a cruz e a caldeirinha.

Significado

Os "rolezinhos" são como a água corrente de um rio, que esbarra em pedras e obstáculos, até encontrar o oceano. A água se infiltra entre as pedras, procurando desvios, ladeando barreiras, adentrando os estreitos espaços entre rochas. Procuram dar vazão a seus volumes. A falta de espaços urbanos para o lazer, a compressão das grandes cidades, o estrangulamento das vias e praças públicas - eis o leit motiv dos "rolezinhos". Essa movimentação quer dar vazão à expressão de jovens contidos em suas vontades, anseios, expectativas e demandas.

O marketing eleitoral

Estamos quase entrando no "império dos signos". Refiro-me à campanha eleitoral. Urge lembrar aos candidatos. A esperteza, o vale-tudo, a dramatização, os recursos artificiais e a insinceridade deverão ser anotadas por um eleitor mais sabido, crítico e racional. A "feitiçaria" da publicização eleitoral não será capaz de enganar a massa eleitoral. Gato não mais será vendido como lebre. Se o Príncipe não pode dispensar a astúcia da raposa e a força do leão, devendo trapacear e matar, de acordo com os preceitos de Maquiavel, o súdito não vai deixar ser pego por eles. O eleitor saberá medir versões, interpretações e propostas. "Nenhum homem, por maior esforço que faça, pode acrescentar um palmo à sua altura e alterar o pequeno modelo que é o corpo humano". É o que diz a Sagrada Escritura.

Candidato não é sabonete

Candidato não pode ser tratado como sabonete. Tem identidade, alma, tem emoção. Para chegar ao fim do caminho, passará por cinco grandes fases. A primeira é a do lançamento, quando seu nome começa a ser apresentado ao eleitorado. A segunda é a do discurso, quando fará propostas condizentes com as demandas sociais. Contará com a ajuda de mapeamentos e pesquisas qualitativas e quantitativas. Usará uma ampla e densa bateria de comunicação para dar conhecimento de suas ideias, os chamados canais publicitários e jornalísticos. Deverá formar uma sólida rede de articulação com a sociedade organizada, a partir de entidades de credibilidade e respeito, a partir de convocação e parceria com os setores políticos (partidos e lideranças). E fechará seu marketing com os esquemas de mobilização, onde deverão ocorrer os eventos de contato com as massas.

O eleitor de 2014

Uma pequena lição de Zaratustra para compreender melhor o eleitor de outubro próximo: "novos caminhos, sigo; uma nova fala me empolga: cansei-me das velhas línguas. Não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas".

Debates

Este consultor sugere um amplo e contínuo programa de debates entre os candidatos. Como faz a TV americana. Escolhem-se três a quatro temas e, sobre eles, cada candidato fará a sua análise e propostas. O eleitor ganhará ao poder comparar a viabilidade de cada proposta e a maneira de implementação das ideias. Sem agressões.

Herói

O Brasil está à procura de um Herói. Quem se habilita? Atenção aos candidatos: cuidado com as pedradas.

Grande dúvida

Guido Mantega resistirá? Continuará firme e forte no Governo Dilma? E o Arno Agustín, Secretário do Tesouro, idem?

Papel tem pernas?

E a seguinte historinha (real) dos papéis que andam entre as instantes dos prédios públicos não passaria de folclore. O cidadão chega à repartição e pede para ver seu processo. Ouve do atendente: "ah, tem muitos outros na frente. Vai demorar um tempão até ser despachado. Papel, doutor, não tem pernas". Agastado, o interlocutor reage: "e quanto o senhor quer para por dois pés nesse papel?" Tiro e queda. A nota de 100 fez o papel correr rapidinho.

Conselho aos jovens

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos maniqueístas que se multiplicam no país. Hoje, dirige-se aos jovens :

1. Compreende-se a onda jovem que irrompe nos espaços privados para fazer valer sua expressão e necessidades lúdicas. A falta de espaços públicos para as manifestações da juventude explica, em parte, a multiplicação de ondas de mobilização juvenil.

2. Convém, no entanto, não se deixar levar por oportunistas e aproveitadores, que procuram disseminar um poderio destrutivo, voltado para a depredação dos ambientes.

3. Cuidado para não servirem de massa de manobra a grupos e setores interessados em desestabilizar os climas ambientais.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

OBSERVATÓRIO

A certa altura do seu segundo mandato, com a imagem consolidada de grande tocador de obras, Paulo Nazareno resolveu lançar uma cartilha apresentando suas centenas de realizações. Um dos lançamentos dessa revista ocorreu na sede do distrito de Santo Antonio dos Azevedos. Para lá acorreram várias lideranças. Era uma ensolarada manhã de domingo e o povo da região lotou as dependências do Grupo Escolar, onde ocorreu a solenidade. Um dos oradores foi o então vereador Francisco Pinto da Silva, o Pinto, que costumava fazer uma impostação de voz similar à do deputado Antonio dos Santos. Convidado a fazer uso da palavra, Pinto assumiu uma postura altiva, inflamou a voz, segurou com firmeza o microfone e disparou: “Povo de Santo Antonio, vocês estão recebendo hoje uma cartilha apresentando as obras do nosso Prefeito Paulo Nazareno. Nunca vi um Prefeito realizar tanta obra. É obra prá todo lado, é obra prá todo canto. É obra demais, minha gente. Ô Prefeito prá obrar esse Paulo Nazareno”.

A RENÚNCIA

Confirmado! Carlos Felipe, alcaide crateuense, vai renunciar na última semana de janeiro. Disputará uma cadeira de Deputado Estadual. Na cabeça do atual Prefeito de Crateús só há um nome que pode representar o município de Crateús na Assembleia Legislativa: Carlos Felipe. Seu mote de campanha se resume às obras que realizou como Prefeito da terra do Senhor do Bonfim.

‘OBRISMO’

Volta e meia, o ‘obrismo’ toma conta do debate político. É um tema antigo e recorrente na política brasileira. Desde o tempo do “rouba, mas faz” que se procura incutir na cabeça da população a ideia de que um bom governo se mede pelo índice de obras. Recentemente, o governador Cid Gomes reacendeu essa chama ao lançar um desafio ao ex-governador Tasso sobre o legado de obras de cada um. Debate à parte, o certo é que um grande homem público não se mede somente pelos quilos de concreto armado que exibe. Vai além disso. A dimensão de um líder se aufere por um conjunto de atributos, dentre eles a estatura moral, a lista de princípios, a correção das ações, a visão de mundo. Líder é o que arrebata os liderados pelo exemplo. É um farol que ilumina pela autoridade pessoal, pela imantação sedutora, pelo respeito natural.

A RENÚNCIA II

A renúncia de Carlos Felipe suscita algumas constatações e ponderações. A primeira é sua opção pela política profissional, seguindo carreira na atividade. A segunda é que não deixa de ser um ato de coragem. Apesar de todas as garantias que obteve – fechou com o deputado federal Guimarães o apoio em outros colégios – pairam dúvidas sobre sua eleição. Pode tirar uma grande votação em Crateús e minguar em outros municípios. O seu partido, PCdoB, encerrou a lua de mel com o governo estadual desde a última eleição municipal, quando fincou pé na candidatura de Inácio Arruda no primeiro turno. Tanto é que perdeu a principal posição que detinha na máquina estadual: a Secretaria de Saúde. Por outra, o Olimpo Estadual priorizará na região dois outros nomes: Jeová Mota e Nenen Coelho.

A RENÚNCIA III

Porém, a oposição não pode subestimar Carlos Felipe. Ele não é um bobo e demonstra que já aprendeu todos os trejeitos de esperteza dos velhos políticos. Quando se faz de desentendido exerce, na verdade, uma arte na qual se tornou mestre, a arte da dissimulação. Na campanha passada, quando seu concorrente Ivan Claudino o desafiou a assinar um documento se comprometendo a exercer o mandato de Prefeito integralmente e não abandonar a Prefeitura para ser candidato a Deputado em 2014, ele simplesmente fez ouvido de mercador. Seu pensamento era outro. Como outro era seu intento quando foi à residência do Conselheiro Manoel Veras convidá-lo para ser candidato a Deputado Estadual e prometeu apoio.

IVAN

Por falar em Ivan, ele hoje está inspecionando pessoalmente as obras do DNOCS nos sertões de Crateús. E o faz na condição de diretor geral do órgão, visto que está respondendo pelas férias do titular. Dezenas de obras hídricas estão sendo executadas em municípios da região. Duas empresas foram contratadas: uma de Pernambuco, para os chafarizes e outra do Maranhão, para os pequenos abastecimentos d’água, além da máquina do próprio DNOCS, que perfurará dezenas de poços.

CURTAS...

...comenta-se que Hermínio Rezende poderá surpreender e ser candidato a Deputado Federal.

...a obra do novo Fórum de Crateús contou com o empenho de magistrados ligados à terrinha, como os desembargadores Emanuel Leite Albuquerque e João Byron Frota. Este último está agora cumprindo aquilo que o famoso orador romano Cícero chamava de “otium cum dignitate” (ócio com dignidade), ou seja, a ocupação do tempo com o exercício de atividades nobres.

...Amanhã, quarta-feira, a Academia de Letras de Crateús e a Prefeitura Municipal realizam solenidade comemorativa dos 88 anos da passagem da Coluna Prestes em Crateús. Programação tem início às 16hs00min com visita aos locais que marcaram a passagem da Coluna Prestes em Crateús e conclui à noite, com exibição do filme ‘A história de Luiz Carlos Prestes’, apresentação da Banda de Música Expedito Paiva e palavra de intelectuais sobre a Coluna Prestes.

PARA REFLETIR

“A Coluna Prestes superou a marcha de Mao Tse-Tung, em número de quilômetros e em sacrifícios. É a maior marcha da Idade Moderna, e um símbolo de valores como ética e justiça. E Crateús é uma referência da passagem da Coluna pelo Ceará”. (Padre Geraldo Oliveira Lima)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

OS POEMAS TELÚRICOS DE DIDEUS


Dideus Sales celebra 16 publicações livrescas. Já virou rotina lançamento de livro dele. Porém, a retina da rotina não há que ter necessariamente um veio pejorativo. Pois, tudo é rotina. Em defesa da repetição, Gerardo Mello Mourão proclamou que “só há uma forma boa de gerar um ser novo no ventre de uma fêmea: repetir o ato imemorial de Adão em cima de Eva, com um movimento entre a cintura e as ancas. O resto é inseminação artificial. A repetição gera o novo.”

Nesses últimos tempos tenho me interrogado a respeito da aura que circunda a poesia. O que vem a ser esse cantante, encantado e encantador fenômeno? Parece-me que Poesia é tudo aquilo que nos torna essencialmente mais humanos, nos aprofunda no humanismo ao ponto de nos aproximar do divino. A poesia é a divinização do humano. Nessa esteira, o primeiro e maior poeta é Deus, que com seu sopro mágico desenhou o universo, a magnitude da natureza, a comunidade dos seres vivos. Nessa trilha, todos somos ou podemos ser poetas. Os que desenvolvem a arte de concatenar os fonemas musicais, as obras arquitetônicas das estrofes arrebatadoras nada mais são do que sonoros instrumentos que o Poeta original distinguiu com a missão de apontar, como guias abençoados, as trilhas de Orfeu. Por isso que o amazônico Thiago de Mello proclamou: Não somos melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa.

O mundo inteiro, esta semana, está reverenciando um poeta que se fez líder global, herói maiúsculo, libertador singular, gênio da paz: Nelson Mandela!

O Dragão do Mar Africano, sem escrever poesias, foi um poeta militante, que na solidão da masmorra, na escuridão do cárcere, repetia um mantra: Não importa quão estreito o portão/ Quão repleta de castigo a sentença,/ Eu sou o senhor de meu destino/ Eu sou o capitão de minha alma.

Mandela carregava na sua jangada existencial a lanterna da poesia. Senhor do destino, capitão da alma, general do coração e soldado da consciência, colonizou projetos pessoais e grupais e delineou um projeto de sociedade em que os seres não estavam apartados pela cor da pele, em que um governante não precisava demonizar o passado, em que os homens pudessem compartilhar civilizadamente o mesmo espaço social.

Quando dispunha do pescoço dos algozes e dele esperaram as correntes da vingança, estendeu a cadeira da reconciliação e ofereceu o banquete da paz. Quando lhe franquearam a continuidade no poder, lançou o manifesto do desapego. Era um homem superior, sintonizado com a melodia celeste. Como político, atuou não em função de uma parte ou de um partido, mas com uma invulgar compreensão de totalidade.

Era um homem, do ponto de vista ético, da melhor estatura, com visão de Estado. Um verdadeiro estadista. Poeta é, pois, todo aquele que se dispõe a romper os grilhões dos formalismos estéreis, das convenções descabidas, dos debates inúteis, do cotidiano infrutífero, da pusilanimidade dominante.

Poeta é aquele que, em qualquer barco de sonho, ultrapassa as ondas da superfície e alcança o espaço tranqüilo das águas profundas do oceano da vida. Dideus merece ser festejado porque é um desses desassombrados padeiros da massa poética.

Mello Mourão dizia que o poeta tem que ser assim: essencialmente poeta. De resto, tinha razão Rilke: cantar é ser. Às vezes somos forçados a fazer outras coisas na vida. Gerardo confessa ter tido a necessidade de exercer atividades as mais díspares na vida, como a política partidária e outras aventuras. Mas considerava tudo isso "adultério" à sua musa permanente, a poesia.

Dideus luta incessantemente para guardar fidelidade à poesia. Comete, vez por outra, alguns adultérios: ora edita uma Revista, ora se embrenha na produção rural, ora se entrega à intimidade de um microfone de rádio.

Todos esses ‘pulos de cerca’ são perdoáveis, porque ele é um incorrigível amante da poesia. E está sempre renovando esse matrimonio sagrado. O livro Poemas Telúricos é um delicado registro cartorial da renovação desses votos de amor. Telúrico vem de terra. Por isso fiz questão de consignar que a lírica desse fraterno filho da argila tem a altivez das carnaúbas, o perfume do mufumbo, a sombra do juazeiro, o desabrochar gratuito das jitiranas, o tempero do manjericão.

Um pequeno relato final. Johann Christian Friedrich Hölderlin, poeta lírico e romancista alemão, certa feita foi instado pela mãe a deixar esse negócio de poesia. (Sua genitora considerava isso um tanto perigoso, além de impedi-lo de viver uma vida normal). Em resposta, ele escreve à mãe: “a poesia é a coisa mais inocente do mundo.” Inocente, em alemão, é "unschuldig", que quer dizer uma coisa não-culpada, isenta de culpa. Em latim, “inocens” significa algo que não prejudica. Nocere é ser nocivo, prejudicar. Inocens é aquilo que não prejudica a ninguém e a nada.

Aprendamos com esse poeta terrestre, telúrico, a lição essencial da poesia: passar por essa vida insuflando a alegria, lançando sementes de sonho no coração dos nossos semelhantes e evitando causar prejuízos às coisas e às pessoas.

(Júnior Bonfim, na apresentação do livro Poemas Telúricos, de Dideus Sales, no Café da Vila, em Aracati, Ceará, aos doze dias de dezembro de dois mil e treze).

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a Coluna com historinhas do impagável José Flávio Abelha, em A Mineirice.

Lá vem a relaxada

Idos de 30. Caratinga, em festa, aguarda a inauguração do ramal da estrada de ferro Leopoldina Railway, a EFLR. O pessoal da roça interpretava o LR como "Leopordinha Relaxada". No pátio da estação, gente que não acaba mais. Num canto, dois coronéis, picam o fuminho para o cigarro e conversam.

A máquina apita.

Coronel Antônio Fernandes comenta com o coronel Rafael da Silva Araújo:

- Compadre, estão chegando os donos da cidade.

Coronel Rafael contesta:

- Os donos somos nós.

Não, compadre, retruca o coronel Fernandes, os donos são os que chegam, porque enxergam os nossos defeitos, desconhecem as nossas virtudes e, logo, logo, ficam mandando na cidade. Veio a Revolução de 30 e não ficou um coronel em pé.
Realmente, os donos da cidade haviam chegado pela Leopordinha Relaxada.

Entra "disgraçada"

No meio da algazarra, da emoção inusitada, das palmas e foguetes, a locomotiva quase entrando na gare, inopinadamente salta nos trilhos o coronel Galdêncio. (Nota do escriba : Isso mesmo, com L, diferente do meu que se escreve com U).

Como que desejando enfrentar o cavalo de ferro ele abre o paletó, saca de uma garrucha, dispara dois tiros para o alto e grita em direção do trem de ferro, sob os olhares atônitos dos presentes:

- Entra, disgraçada, qui esta terra é sua ! Entra, fiadaputa, trazedêra de pogréssio.

Abrem-se as cortinas

As cortinas começam a ser abertas. O palco de 2014 verá um dos mais vibrantes espetáculos eleitorais das últimas décadas. O pano de fundo não deixa dúvidas. Estamos vivenciando o fim de um ciclo : a polarização entre PT e PSDB. Não que a arenga deixe de existir. Certamente, em espaços do Sudeste (Minas e São Paulo, principalmente), a polarização deve ser forte. Mas o eleitorado dá sinais de cansaço. Como diria o profeta Zaratustra, "novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga. Cansei-me das velhas línguas. Não quer mais o meu espírito caminhar com solas gastas." Sinais de mudar o tom da orquestra se ouvem de muitos lados.

Axioma 1

(Conselhinhos importantes em ano eleitoral)

"Ajuste seu fim a seus meios" (É loucura querer abocanhar mais do que se pode mastigar). B.H. Liddell Hart em As Grandes Guerras da História.

Basta de maniqueísmo

Não é mais possível vivermos num ambiente dividido entre o Bem e o Mal. O que é bom para uns é ruim para outros. O paraíso do PSDB é, para o PT, um inferno. E vice-versa. O céu petista é cheio de demônios queimando em brasa, segundo os tucanos. Ora, deixemos esse maniqueísmo de lado. Desde os tempos em que o PT cunhou o slogan "nunca antes na história deste país", um fosso profundo separa os dois territórios. Mas o Brasil é um só. Urge reconhecer vitórias de tucanos e petistas, avanços que os dois partidos conquistaram. Ninguém agüenta mais essa lorota : sendo PT, tudo é bom ; feito por tucanos, o empreendimento é magnífico. Ambos têm erros e acertos.

Axioma 2

"Conserve seu objeto sempre em mente quando tiver que adaptar seu plano à situação." (Há mais de um caminho para atingir seu objetivo). B.H. Liddell Hart.

Economia em baixa?

Este consultor tem repetido o mantra : economia nos trinques, Dilma subirá, mais uma vez, ao pódio. Economia no despenhadeiro, Dilma ameaça cair na lona. Nas últimas semanas, os analistas financeiros reacenderam suas previsões : PIB abaixo da meta (2,5%), inflação estourando a meta (6%), retração no consumo, empregabilidade sob risco. Apesar de todo esse cenário preocupante, é oportuno lembrar que o governo fará de tudo a seu alcance para empurrar a catástrofe de barriga, fazendo com que a conta a pagar entre no calendário de 2015. Por isso, este analista acredita que Dilma continua sendo a favorita no processo.

Axioma 3

"Escolha a linha ou o curso de ação de menor expectativa" (Procure se colocar no lugar do adversário e verificar qual a linha de ação menos provável a ser prevista). Liddell Hart.

O decisivo Triângulo das Bermudas

Tudo vai depender do desempenho eleitoral do Triângulo das Bermudas. Aécio conta com uma maioria de 4 milhões de votos em Minas. Será que seu candidato, possivelmente Pimenta da Veiga, terá o apoio do PSB, do prefeito Márcio Lacerda ? Será que Alckmin conseguirá transferir para Aécio seus votos tucanos ? Há, ainda, o Rio. O PMDB do Rio de Janeiro, insatisfeito com a candidatura do senador petista, Lindenberg Faria, subirá no palanque de Dilma ? Ou um zangadão Pezão fará campanha contrária ? Ele é amigo da presidente, mas não se conformará com a decisão do PT de lançar um candidato próprio ao governo.

Axioma 4

"Explore a direção de menor resistência" (Desde que possa conduzir ao objetivo que contribua para a consecução de sua meta básica). Liddell Hart

PA, GO E NE

As contas tucanas prevêem, ainda, um bom desempenho do PSDB no Paraná e em Goiás. Os tucanos, ademais, acreditam que a candidatura de Eduardo Campos tirará muitos votos de Dilma no Nordeste. Os mais de 10 milhões de votos que a presidente ganhou no Nordeste serão rateados com o candidato do PSB. Mas Lula promete fincar pé na campanha nordestina, a partir de sua forte participação em Pernambuco, seu estado Natal.

Axioma 5

"Opere em uma direção que ofereça objetivos alternativos" (Coloque o adversário nas alternativas de um dilema). Liddell Hart

Tom maior e tom menor

Pois é, o desempenho eleitoral dos partidos nos Estados será o tom menor do pleito, porque o tom maior continuará a ser dado pela economia. Por isso tudo, qualquer projeção sobre votos regionais ficará sujeito às intempéries do macro-clima ambiental, ou seja, o desempenho econômico, na esteira da equação que sempre apresento: BO+BA+CO+CA= Bolso Cheio, Barriga Satisfeita, Coração Agradecido, Cabeça Decidindo dar o voto a quem arrumou o jogo.

Axioma 6

"Cuide para que seu plano e seus recursos sejam flexíveis e adaptáveis à situação" (Preveja a manobra a ser realizada em caso de êxito, fracasso ou êxito parcial). Liddell Hart.

Serra?

Para onde irá José Serra? Para a Câmara Federal? Para o Senado? Vale um picolé de graviola quem acertar a rota serrista.

Axioma 7

"Não exerça um esforço enquanto o adversário estiver em guarda" (Não se deve lançar um ataque quando o inimigo está muito organizado). Liddell Hart

Ciro?

Para onde irá Ciro Gomes, atual secretário da Saúde do Ceará? Para um Ministério do governo Dilma? Para a equipe de campanha da presidente? Ou continuará com trombeteiro-mor das forças governistas?

Axioma 8

"Não renove um ataque na direção em que fracassou uma vez" (O fracasso do ataque pode ter levantado o moral do inimigo). Liddell Hart

Eduardo e Marina

Marina começa a dar dores de cabeça no governador Eduardo Campos. Seu pacote de exigências extrapola o tamanho da parceria. É o que se diz nos bastidores. Veta alianças do PSB com PSDB, a partir de São Paulo. Quer ver a deputada Luiza Erundina como candidata do PSB ao governo paulista. Mas esta não pretende entrar nesse jogo. A questão é : Marina Silva conseguirá, como vice de Eduardo Campos, trazer para a chapa a maior fatia dos quase 20 milhões de votos auferidos no pleito presidencial de 2010 ?

PMDB tenso

O PMDB vive um estado de tensão. Quer ter uma participação maior no governo, significando uma cota mais forte de Ministérios ou cota de Ministérios mais gordos. No governo Lula, o partido foi mais aquinhoado. As pressões internas se avolumam. Quem administra as tensões, com sua capacidade de articulação e liderança, é o vice-presidente Michel Temer. Esse mês de janeiro será decisivo para o partido, que mostra interesse em segurar os Ministérios que comanda e ganhar outro com maior peso. Ocorre que a disputa é muito acirrada. E Dilma se esforçará para fazer uma reforma que satisfaça ao conjunto governista. Difícil. Agradar uma sigla significa desagradar a outra. É a questão do cobertor curto. Curto? São 39 Ministérios. Mas os partidos da base são mais de 15.

Gregos e romanos

"Enquanto os gregos foram teóricos brilhantes, inovadores, os romanos foram agricultores-guerreiros, sérios e prudentes, menos sujeitos que seus antecessores a se deixarem levar por uma idéia. Herdamos nossas idéias dos gregos, mas nossas práticas dos romanos." (Kenneth Minogue)

30%, percentagem cabalística?

Pois é, podemos repartir o eleitorado brasileiro em três grandes blocos, cada qual somando cerca de 30% : os governistas, os oposicionistas e os eleitores que ainda não tomaram posição. Os 10% finais votarão em branco, nulo ou se absterão. 1/3 do eleitorado tende a decidir nos meses finais de campanha.

Os bons

"Parece que Deus escolhe os bons e os que fazem mais falta, para pagarem pela maldade dos que não fazem falta nenhuma." (Camilo Castelo Branco)

Maranhão

As últimas imagens sangrentas que estampam um Maranhão tomado pela violência em presídios apontam para um perfil em confronto com o status quo político : Flávio Dino, atual presidente da EMBRATUR e candidato ao governo pelo PC do B.

Dilma mais política

É visível. Nos últimos tempos, a presidente Dilma treinou mais o bambolê. Tornou-se mais flexível. Hora de conversar, dialogar, ouvir, atender demandas. Hora em que a onça corre ao poço para beber água. E os partidos estão sedentos. Hora da reforma ministerial.

Crime desculpado

"Quando alguém se vê privado de alimento e de outras coisas necessárias à sua vida, e só é capaz de preservar-se através de um ato contrário à lei, como quando durante uma grande fome obtém pela força ou pelo roubo o alimento que não consegue com dinheiro ou pela caridade, ou quando em defesa da própria vida arranca a arma das mãos de outrem, pela razão acima apresentada, nesses casos o crime é totalmente desculpado." (Leviatã - Thomas Hobbes)

Mensalão e eleição

O mensalão será um prato, mesmo requentado, no cardápio deste ano. Mas não conseguirá puxar votos das margens sociais. Que olham mais para o bolso. E por falar em mensalão, o que virá de Minas Gerais também subirá ao palco.

O caráter

"O caráter é como a gravata; uns usam por gravata uma fitinha preta, são os frívolos; outros um lenço de dois palmos de altura, são os graves. A primeira constipa, a segunda sufoca; eu uso gravata regular." (Machado de Assis)

Queda no desempenho

A GT Marketing e Comunicação, sob o comando deste escriba, acaba de concluir uma enquete sobre os Ministérios do governo Dilma, empreendimento que teve início no final do segundo mandato de Luiz Inácio. A nota média mais alta atribuída aos ministros do governo Dilma Rousseff foi 6,3 (em uma escala de 0 a 10), resultado pior na comparação com o governo Lula, quando a média esteve acima de 6,5. O mapeamento foi feito junto a lideranças empresariais, empresários, dirigentes de entidades, executivos, publicitários e jornalistas.

Os mais bem cotados

Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, e José Eduardo Cardozo, do Ministério da Justiça, lideram o ranking como os melhores avaliados pelo grupo. Empatados no primeiro lugar, receberam nota média de 6,3.

Na lanterna

Os Ministérios da Fazenda, Trabalho e Emprego e Turismo foram avaliados com notas médias abaixo de 5. Para que a administração seja considerada regular, seriam necessárias notas na casa do 7. Os entrevistados, integrantes da cadeia de formação de opinião, são críticos e acompanham a dinâmica governamental.

Anjos

"Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário." (Kenneth Minogue)

Conselho aos maniqueístas

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos cartolas. Hoje, escolhe os maniqueístas que se multiplicam no país:

1. O Brasil é um todo territorial e a Pátria de Todos Nós. Não há lugar para exclusivismos e maniqueísmos. Cada grupo, setor, categoria, atividade, cada partido político tem um compromisso para com o país. O Bem-Estar da Coletividade requer integração de sentimentos.

2. Sob essa moldura, ninguém pode se considerar mais importante que outro. O Bem não é exclusividade de um Partido Político. Nem o Mal deve ser atribuído aos entes adversários. Urge acabar com o maniqueísmo burro que circula até no meio jornalístico, formando grupos contrários e excludentes.

3. Obras, livros, opiniões contrárias fazem parte da democracia. Não há razão para o combate mortífero entre petistas e tucanos. Que lutem no terreno das ideias e não na arena das agressões mortais.

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(Gaudêncio Torquato)

domingo, 5 de janeiro de 2014

PEQUENAS LIÇÕES PARA 2014

O ano que se inicia será um dos mais competitivos das últimas décadas. Principalmente na esfera da política. As razões apontam para o esgotamento do nosso modelo de fazer política, a partir de velhas práticas de campanhas.

O desenho é carcomido pela poeira do tempo: são raros perfis identificados com mudanças; formas de cooptação eleitoral se inspiram nos eixos históricos do fisiologismo e do corporativismo, sendo tênue o engajamento do eleitor pela via doutrinária; eleitos, via de regra, acabam distanciando-se das bases, deixando de lado compromissos assumidos; a representação parlamentar, em função do poder quase absoluto do presidencialismo, torna-se deste refém, obrigando-se a repartir com o Poder Executivo funções legislativas; em decorrência da ausência de programas doutrinários, imbricam-se interesses de lideranças e partidos, não se distinguindo diferenciais entre eles, condição essencial para qualificar o voto.

A impressão final é a de que o retrato desfigurado está a merecer urgente retoque, se não em todas as nuances da moldura, pelo menos em partes que ofereçam aparência asséptica ao edifício político. Fichas sujas, por exemplo, não podem continuar no mapa eleitoral.

Os ingredientes que entrarão na composição da nova tintura não de absorver a química de setores e categorias mais participativas, exigentes e dispostas a enfrentar a resistência de defensores de obsoleta arquitetura política.

É oportuno lembrar que a pirâmide social não mais se assemelha a um triângulo estático. Os lados que o integram, a partir da base, mostram-se dispostos a sair da letargia, depois de décadas convivendo com a batelada de vírus políticos.

Os movimentos sociais e a ocupação das ruas, no ano que findou, sinalizam a intenção de reencontrar o tempo perdido. A coletividade parece descer do céu da abstração para ser uma força na paisagem, fazendo valer sua determinação, princípios e valores voltados para qualificar a vida política. O curto dicionário abaixo poderá servir de baliza para milhares de candidatos na tentativa de aprimorar suas relações com a comunidade nacional.

Estado e Nação – O Estado, infelizmente, está bastante distante da Nação com que os cidadãos sonham. A Nação é a Pátria que acolhe os filhos, que se irmana na fé e na esperança de um futuro melhor; é o habitat onde as pessoas constroem os pilares da existência, constituem o lar, prezam antepassados, cultivam tradições.

O Estado é a entidade técnico-jurídica, com seu arcabouço de Poderes, pressionada por interesses díspares e dividida por conflitos. Aproximar o Estado da Nação, formando o espírito nacional, constitui a missão basilar da política. Essa meta precisa ser o centro da agenda do homem público.

Representação – A representação política é missão, não profissão. É a lição de Aristóteles. Resgatar o verdadeiro papel da política – trabalhar pela polis - significa clarificar o papel do representante, as demandas das comunidades, as soluções para a melhoria dos padrões da vida social. A política não é um balcão de negócios.

As angústias urbanas se expandem na esteira do crescimento populacional. As periferias não constituem massa de manobra para exploração por parte de siglas, líderes popularescos e oportunistas. Carecem de ações de efeito duradouro, não de quinquilharias e coisas improvisadas. Migalhas poderão alimentar o povo por certo tempo, nunca por todo tempo. Um representante do povo preocupa-se com metas, programas permanentes, medidas estruturantes.

Identidade – A identidade é a coluna vertebral de um político. É a soma de sua história, de seu pensamento, percepções e feitos. Um erro, que o tempo corrigirá, é construir a imagem incongruente com a identidade. Camadas exageradas de verniz corroem perfis. Dizer a verdade dá credibilidade. Os novos tempos condenam a hipocrisia, a simulação. Corretos são conceitos como lealdade, fidelidade, coerência, sinceridade, honestidade pessoal e senso do dever.

Discurso - O discurso deve abrigar propostas concretas, viáveis, simples. E, sobretudo, factíveis. A população dispõe de entidades que a representam. Resta ao político procurar tal universo. O povo quer um discurso sincero. Promessas mirabolantes, planos fantásticos, obras faraônicas, de tão banalizadas, já não despertam interesse. Até as monumentais arenas esportivas entram na lista de suspeições.

Grito das ruas - O grito das ruas se faz ouvir nos espaços dos Poderes em todas as instâncias. Expressam a vontade de uma nova ordem social e política. Urge abrir os ouvidos e a mente para interpretar o significado de cada movimento. Quem não fizer esse exercício, sairá do cenário. Uma linguagem comum se forma nos centros e fundões do país. O povo sabe distinguir oportunistas de idealistas.

Sabedoria – Sabedoria não significa vivacidade; mescla aprendizagem, compromisso, equilíbrio, busca de conhecimentos, capacidade de convivência, racionalidade. Não é populismo. Espertos que procurarão vender “gato por lebre” poderão ser cozidos no caldeirão do voto.

Transparência – A era do esconderijo está agônica. Esconder (mal) feitos é um perigo. A corrupção, mesmo dando sinais de sobrevida, é atacada em muitas frentes. Grandes figuras foram (e continuarão a ser) punidas. Denúncias sobre negociatas agora são objeto da lupa dos sistemas de controle. O público e o privado começam a ter limites controlados.

Simplicidade – Despojamento, eis um apreciado conceito. Lembrem-se do papa Francisco. Ser simples não é arrumar crianças no colo, comer cachorro quente na esquina ou gesticular para famílias nas calçadas. Simplicidade é o ato de pensar, dizer e agir com naturalidade. Sem artimanhas e maquiagens.

Lição final de José Ingenieros: “cem políticos torpes, juntos, não valem um estadista genial”.

(Gaudêncio Torquato)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O HOMEM E A MULHER

O homem é a mais elevada das criaturas. A mulher é o mais sublime dos ideais.

Deus fez para o homem um trono; para a mulher, um altar. O trono exalta; o altar santifica.

O homem é o cérebro; a mulher o coração. O cérebro produz luz; o coração, o amor. A luz fecunda; o amor ressuscita.

O homem é o gênio; a mulher o anjo. O gênio é imensurável; o anjo indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória; a aspiração da mulher, a virtude extrema. A glória traduz grandeza; a virtude traduz divindade.

O homem tem supremacia; a mulher, a preferência. A supremacia representa a força; a preferência o direito.

O homem é forte pela razão; a mulher é invencível pela lágrima. A razão convence; a lágrima comove.

O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios. O heroísmo enobrece; o martírio sublima.

O homem é o código; a mulher, o Evangelho. O código corrige, o Evangelho aperfeiçoa.

O homem é um templo; a mulher um sacrário. Ante o templo, nos descobrimos; ante o sacrário, ajoelhamo-nos.

O homem pensa; a mulher sonha. Pensar é ter cérebro; sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é um oceano; a mulher, um lago. O oceano tem a pérola que o embeleza, o lago tem a poesia que o deslumbra.

O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma.

O homem tem um farol: a consciência; a mulher tem uma estrela: a esperança. O farol guia, a esperança salva.

Enfim, o homem está colocado onde termina a Terra; a mulher, onde começa o Céu.

* * *

(VITOR HUGO)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FELIZ DIA NOVO!

Todo ritual de passagem – e o conjunto de gestos e decodificações simbólicos na travessia de um ano para outro é exatamente isso – tem um forte apelo à transformação. É um mergulho nas águas batismais do Jordão. O incenso que exala do ciclo de alteração anual é um convite a um passeio pelos labirintos da memória e ao êxtase do sonho da projeção. Daí o mantra “Feliz Ano Novo!”.

Repisando o gramado do itinerário pessoal, fiquei relembrando algumas lições que solidifiquei ao longo dos últimos anos. Quero compartilhar três delas.

A primeira é a tradução daquele longevo ensinamento dos nossos ascendentes: “fazer o bem sem olhar a quem”. No que pertine a esse mandamento, somos sempre estimulados a distinguir quem é merecedor e quem não o é. Evite isso. Faça o bem sem olhar a quem. Faça o bem! E não espere atitudes de retorno ou gestos de gratidão de quem, naturalmente, deveria prestá-los. A vida nos surpreende. Quantas vezes, sem explicação plausível, recebemos recompensas incomensuráveis de pessoas que nenhum débito têm para conosco?! Quase sempre a bondade retorna para nós por vias desconhecidas, surpreendentes e inimagináveis!... Por isso, faça o bem sem olhar a quem!

A segunda: alimente esse vulcão indomável, essa cachoeira silenciosamente rumorosa, essa árvore singela de raízes colossais chamada fé. Descobriu-se que o átomo, a menor partícula de um elemento químico, é pura energia. O maior fenômeno da evolução tecnológica, a transmissão de dados por via digital, que aparentemente parece fruto de ímpeto materialista, só se concretiza porque as pessoas crêem. Crêem que, instantaneamente, imagens podem ser enviadas de um extremo para outro do planeta. Tudo é energia, inclusive nós. Ironicamente, é preciso se ter muita fé para não acreditar em Deus...

A terceira é: renove. Inove: renove-se continuamente. Alguns gênios do nosso cancioneiro conseguiram a façanha de revestir melodias bonitas com conteúdos de linho filosófico. São profetas da composição. Suas músicas se incorporaram às partituras de nossas almas. Gonzaguinha – oh! quão cedo se foi! - quedou-se imortalizado em pérolas compositivas carregadas de interrogação e exclamação. Em uma delas, O Que É, O Que É?, com a singeleza de um infante, traduziu esse espasmo mágico de quem ainda mantém acesa a brasa da infância: “Eu fico/ Com a pureza/ Da resposta das crianças/ É a vida, é bonita/ E é bonita.../ Viver!/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz...”

Chico Buarque, no hino filosofal intitulado Todo o Sentimento, fala-nos do encantamento com o tempo da delicadeza. A delicadeza é encantadora. Dilata a mente, desobstrui artérias do corpo e da alma, cura feridas, revitaliza o ser. Eis o desafio para 2014: inaugurar o tempo da delicadeza! Tornar diário o mantra anual. Ao invés do voto de um ano novo, fazer a cada manhã os votos de um dia novo. Construir e desejar Feliz Dia Novo!

Júnior Bonfim

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

POR QUE NO MEIO DA DOR OS NEGROS, DANÇAM, CANTAM E RIEM

Milhares de pessoas em toda a África do Sul misturam choro com dança, festa com lamentos pela morte de Nelson Mandela. É a forma como realizam culturalmente o rito de passagem da vida deste lado para a vida do outro lado, onde estão os anciãos, os sábios e os guardiães do povo, de seus ritos e das normas éticas. Lá está agora Mandela de forma invisível mas plenamente presente acompanhando o povo que ele tanto ajudou a se libertar.

Momentos como estes nos fazem recordar de nossa mais alta ancestralidade humana. Todos temos nossas raízes na África, embora a grande maioria o desconheça ou não lhe dê importância. Mas é decisivo que nos reapropriemos de nossas origens, pois elas, de um modo ou de outro, na forma de informação, estão inscritas no nosso código genético e espiritual.

Refiro-me aqui a tópicos de um texto que há tempos escrevi sob o título Somos todos africanos, atualizado face à situação atual mudada. De saída, importa denunciar a tragédia africana: é o continente mais esquecido e vandalizado das políticas mundiais. Somente suas terras contam. São compradas pelos grandes conglomerados mundiais e pela China para organizar imensas plantações de grãos que devem garantir a alimentação, não da Africa mas de seus países, ou negociadas no mercado especulativo. As famosas land grabbing possuem, juntas, a extensão de uma França inteira. Hoje, a África é uma espécie de espelho retrovisor de como nós humanos pudemos no passado, e podemos hoje ainda, ser desumanos e terríveis. A atual neocolonização é mais perversa que a dos séculos passados.

Sem olvidar esta tragédia, concentremo-nos na herança africana que se esconde em nós. Hoje é consenso entre os paleontólogos e antropólogos que a aventura da hominização se iniciou na África, cerca de 7 milhões de anos atrás. Ela se acelerou passando pelo homo habilis, erectus, neanderthalense até chegar ao homo sapiens, cerca de 90 mil anos atrás. Depois de ficar 4,4 milhões de anos em solo africano, este se propagou para a Ásia, há 60 mil anos; para a Europa, há 40 mil anos; e para as Américas há 30 mil anos. Quer dizer, grande parte da vida humana foi vivida na África, hoje esquecida e desprezada.

A África, além de ser o lugar geográfico de nossas origens, comparece como o arquétipo primal: o conjunto das marcas, impressas na alma de todo ser humano. Foi na África que este elaborou suas primeiras sensações, onde se articularam as crescentes conexões neurais (cerebralização), brilharam os primeiros pensamentos, irrompeu a criatividade e emergiu a complexidade social que permitiu o surgimento da linguagem e da cultura. O espírito da África está presente em todos nós.

Identifico três eixos principais do espírito da África, que podem nos inspirar na superação da crise sistêmica que nos assola.

O primeiro é o amor à Mãe Terra, a Mama Africa. Espalhando-se pelos vastos espaços africanos, nossos ancestrais entraram em profunda comunhão com a Terra, sentindo a interconexão que todas as coisas guardam entre si, as águas, as montanhas, os animais, as florestas e as energias cósmicas. Sentiam-se parte desse todo. Precisamos nos reapropriar deste espírito da Terra para salvar Gaia, nossa Mãe e única Casa Comum.

O segundo eixo é a matriz relacional (relational matrix no dizer dos antropólogos). Os africanos usam a palavra ubuntu que significa:“Eu sou o que sou porque pertenço à comunidade” ou “eu sou o que sou através de você, e você é você através de mim”. Todos precisamos uns dos outros; somos interdependentes. O que a física quântica e a nova cosmologia dizem acerca de interconexão de todos com todos é uma evidência para o espírito africano.

A essa comunidade pertencem os mortos como Mandela. Eles não vão ao céu, pois o céu não é um lugar geográfico, mas um modo de ser deste nosso mundo. Os mortos continuam no meio do povo como conselheiros e guardiães das tradições sagradas.

O terceiro eixo são os rituais e celebrações. Ficamos admirados que se dedique um dia inteiro de orações por Mandela, com missas e ritos. Eles sentem Deus na pele, nós ocidentais na cabeça. Por isso dançam e mexem todo o corpo, enquanto nós ficamos frios e duros como um cabo de vassoura.

Experiências importantes da vida pessoal, social e sazonal são celebradas com ritos, danças, músicas e apresentações de máscaras. Estas representam as energias que podem ser benéficas ou maléficas. É nos rituais que ambas se equilibram e se festeja a primazia do sentido sobre o absurdo.

Notoriamente, é pelas festas e ritos que a sociedade refaz suas relações e reforça a coesão social. Ademais nem tudo é trabalho e luta. Há a celebração da vida, o resgate das memórias coletivas e a recordação das vitórias sobre ameaças vividas.

Apraz-me trazer o testemunho pessoal de um dos nossos mais brilhantes jornalistas, Washington Novaes:“Há alguns anos, na África do Sul, impressionei-me ao ver que bastava se reunirem três ou quatro negros para começarem a cantar e a dançar, com um largo sorriso. Um dia, perguntei a um jovem motorista de táxi: "Seu povo sofreu e ainda sofre muito. Mas basta se juntarem umas poucas pessoas, e vocês estão dançando, cantando, rindo. De onde vem tanta força?" E ele: "Com o sofrimento, nós aprendemos que a nossa alegria não pode depender de nada fora de nós. Ela tem de ser só nossa, estar dentro de nós".

Nossa população afrodescendente nos dá a mesma amostra de alegria que nenhum capitalismo e consumismo pode oferecer.

(Leonardo Boff - teólogo, filósofo e escritor)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

De jeito nenhum

Vez ou outra, valho-me do agudo observador da cena brasileira e esforçado amigo Sebastião Nery para abrir a coluna. Como é o caso desta. A historinha se dá nos tempos turvos da promulgação do AI-5, em dezembro de 68, quando foram fechados os Legislativos e os parlamentares eram obrigados a fazer uma declaração de bens de 10 anos anteriores. João Batista Botelho, conhecido na Assembleia Paulista como "João Cuiabano", preparou seu dossiê e, quando ia enviá-lo a quem de direito, foi advertido por um assessor :

- Nobre deputado, Vossa Excelência tem de enviar a eles também o seu currículo.

João, homem de poucas letras, do alto de sua bravura, virou uma fera :

- Isto eu não vou dar de jeito nenhum. Só conseguirão se passarem sobre meu cadáver.

Dito e feito!

Serra, ufa, desiste

José Serra, ufa, desistiu de ser candidato à presidente da República. E assim, deixa Aécio Neves livre para botar a candidatura nas ruas. Serra fez a confissão pública da desistência, via twitter/facebook. Pediu, até, que os tucanos formalizassem a candidatura. Negócio seguinte : quanto mais Serra demorasse, mais incertezas jogaria na arena eleitoral. Exibe, hoje, uma intenção de voto maior que a de Aécio, mas, ao correr de uma campanha, a tendência aponta para um crescimento do candidato mineiro nas pesquisas. O agora liberado Aécio adensa sua movimentação e apresenta esta semana as 12 diretrizes que servirão de base ao programa do PSDB.

"Os poderosos podem destruir uma, duas ou três flores, mas nunca deterão a primavera". Che Guevara

Chances do mineiro

As chances de Aécio dependerão do estado geral da economia em 2014, ou, mais precisamente, nas margens de outubro de 2014. Com a economia descontrolada, as oposições veriam ampliadas suas condições. A recíproca é verdadeira. No caso específico de Aécio, há uma barreira a saltar: encarnar o perfil do novo, do inovador. O neto de Tancredo Neves expressa os fortes valores da política mineira. Se sair com quatro milhões de votos de maioria, em MG, conta com boas condições de entrar no segundo turno. SP, o maior colégio eleitoral, pode vir a se encantar com a lábia mineira. Vai depender do canto mavioso de Geraldo Alckmin. E também da polarização entre tucanos e petistas. Se vingar, seria vantajosa para Aécio.

"O amor é a força mais abstrata, e também mais potente, que há no mundo". Mahatma Gandhi

Alckmin sob tiroteio

Outro fator a ser considerado será o tiroteio sobre o governador Geraldo Alckmin. O affaire dos trens - denúncias de cartel - será muito usado pelo PT, até para tentar anular os efeitos do mensalão. Alckmin tem imagem positiva, é cordial, começa a adensar a visibilidade - com campanhas institucionais do governo - e possui forte penetração no interior do Estado. Se o eleitorado entrar no jogo da polarização com o PT, será ele o maior beneficiado. SP é um bastião feroz contra o petismo. A rejeição ao PT soma entre 30% a 35%. Em eventual segundo turno, Alckmin levaria a melhor.

"Um espírito mesquinho é como um microscópio: aumenta as pequenas coisas, mas impede de ver as grandes". Philip Chesterfield

Efeito maldhad

O prefeito Haddad não está bem nas planilhas de avaliação. Os índices exagerados de aumento do IPTU geraram protestos. Ainda bem que recursos da FIESP e do PSDB barraram o aumento. Mesmo assim, sobram críticas. Grupos de sem terra e sem teto acampam na frente da prefeitura, no viaduto do Chá. A cidade está um caos. Os corredores exclusivos de ônibus apertam os espaços dos carros. Os congestionamentos se multiplicam. Esse efeito - chamado jocosamente de maldhad - terá consequências eleitorais. A conferir.

"Deixe-me dizer, com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é feito de grandes sentimentos de amor". Che Guevara

Padilhando

O ministro Alexandre Padilha, da Saúde, é a grande esperança de Lula para tomar o principal bastião de resistência ao petismo, o Estado de SP. O maior cabo eleitoral do país espera repetir com Padilha o que fez com Haddad. Tirou um nome asséptico do bolso do colete e conseguiu elegê-lo prefeito. Mas a campanha municipal não foi afetada pelo episódio do mensalão. Nos últimos tempos, o episódio ganhou ampla visibilidade. Lula sabe que não será fácil alavancar seu candidato. O PT pode, até, resgatar seus históricos 25% a 30% dos votos. Mas e a rejeição ao petismo?

"Quem perde a fortuna perde muito; mas, quem perde o caráter, perde tudo". Emerson

Financiamento de campanha

Acabar com o financiamento privado de campanha, a partir da proibição de doações de recursos por empresas, é uma medida saneadora ? Em princípio, sim. Evitaria que o poder econômico agisse como o principal motor eleitoral. Sejamos, porém, realistas. O poder econômico vai continuar a dar apoio a candidatos. Como ? Por debaixo do pano. O caixa dois será bem usado. Desta feita, se houver proibição, com mais intensidade. Política e interesses privados caminham juntos. Poderá haver um refluxo nos custos gerais das campanhas, mas a grana privada continuará a entrar nos cofres eleitorais.

Quem ganha mais

Se houver proibição de doações privadas de empresas, quem ganhará mais com a medida? O PT. Pelas seguintes razões: 1. é o partido mais orgânico, mais vertical, mais capaz de engajar os quadros na luta eleitoral; 2. é um dos partidos que mais recursos recebem do fundo partidário (tem o maior número de deputados Federais); 3. é o partido no comando do poder, ou, noutra leitura, é o partido que detém o poder da caneta. É comum se dizer que o poder da caneta lidera os outros Poderes; 4. é o partido com o maior número de quadros e comandos da máquina Federal em todos os Estados da Federação. Logo, interessa ao PT fechar os dutos financeiros dos partidos, pois os seus cofres estarão bem abastecidos.

"O caráter não é esculpido em mármore, não é algo sólido e inalterável. É algo vivo e mutável, e pode tornar-se doente, como se torna doente o nosso corpo". George Eliot

STF e a proibição

Parece esdrúxula essa decisão do STF de julgar a questão da doação de recursos de empresas para campanhas. Trata-se de matéria típica do Congresso Nacional. O que tem a ver a Suprema Corte com um tema de exclusiva competência da representação política ? Simples. O STF foi acionado pela OAB. E se há um recurso que chega ao seu foro, não pode deixá-lo de lado. Ou seja, por falta de legislação específica, os juízes darão sua interpretação, à luz da Constituição, e julgam. E se o Supremo proibir as doações privadas, o Congresso poderá criar uma lei permitindo tais recursos ? Sim. Estamos, portanto, diante do seguinte fato : o STF pode desaprovar e o Congresso aprovar. No momento em que a lei permitir a doação de recursos por parte de empresas, a interpretação dos ministros cairá por terra. É o que se divisa no horizonte. A conferir.

Posse do Marcelo

Faço uma homenagem ao dr. Marcelo Cascudo, que toma posse, amanhã, quinta-feira, no Palácio dos Bandeirantes, como presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. A entidade foi criada pelo inesquecível cirurgião, dr. Euríclides de Jesus Zerbini, e já foi presidida pelo dr. Adib Jatene. Marcelo é um potiguar, como este escriba, e um dos mais prestigiados cirurgiões cardíacos do país. Marcelo é um líder. E um médico que inscreve seu nome na galeria da excelência.

Rebelião na Papuda?

Juízes substitutos da vara de Execuções Penais, responsáveis pela prisão de condenados do processo do mensalão, querem ser removidos. A causa? Receio de rebelião na penitenciária da Papuda. Poderia haver fuga em massa nas vésperas de Natal. Criou-se, ali, a partir da prisão dos mensaleiros, um tratamento desigual. Os chamados presos comuns não se conformam com as regalias aos condenados da AP 470.

Fenaserhtt elege diretoria

Entidade representativa oficial do setor de prestação de serviços especializados e de trabalho temporário no Brasil, a Fenaserhtt (Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado) tem nova diretoria para o quadriênio 2014/2017. Vander Morales, presidente do Sindeprestem (Sindicato Patronal Paulista do Setor), foi eleito para comandar os rumos da Fenaserhtt. "A federação representa a concretização de um antigo sonho do empresariado. É uma organização maior, com mais poder de representatividade e participação nos debates na esfera governamental e fóruns tripartites", diz Morales.

O roubo de duas melancias

O juiz Rafael Gonçalves de Paula, da 3ª vara criminal de Palmas/TO, deu o seguinte despacho sobre o auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, detidos em virtude de suposto furto de suas melancias.

- "Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Ghandi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na universidade do crime (o sistema penitenciário nacional). O juiz continuou:

- Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém. Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário. Poderia brandir minha ira contra os neoliberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia! Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra - e aí, cadê a Justiça nesse mundo?

- Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade. Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas: não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir.

- Simplesmente mandarei soltar os indiciados. Quem quiser que escolha o motivo. Expeçam-se os alvarás. Intimem-se".

Conselho aos cartolas

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos membros do PT. Hoje, volta sua atenção aos cartolas :

1. Urge exigir do STJD regras mais claras para julgamento de clubes e jogadores. Um time é apenado com rebaixamento por ter escalado jogador suspenso. A Lusa desce e o Fluminense sobe.

2. Mas, em 2010, ao que se divulga, o Fluminense sagrou-se campeão nacional, cometendo a mesma penalidade da Portuguesa. Escalou o jogador Tartá, suspenso.

3. Ao que parece, há uma tentativa de deixar os grandes times em situação melhor. Os clubes médios, sem grande poder, são mais punidos. Essa é a Justiça esportiva que temos ? Por que não temos regras mais claras ? Ou será que, por nossas plagas, continua vingando o ditado: "os pobres nunca deviam fazer guerra" ?

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

A senha para o Federal Reserve

Caros leitores: do ponto de vista econômico, este final de ano e início de 2014 será repleto de sinais importantes. No âmbito interno, o Natal pode ser mais fraco que o sinalizado pelos indicadores antecedentes. Mas, nos EUA pode ocorrer um sinal importantíssimo. Como se sabe, republicanos e democratas andam às turras nas discussões sobre o teto do orçamento público Federal. Republicanos querem criar um teto realista para o afrouxamento da política monetária do Fed e os democratas desejam prorrogar o máximo possível as políticas de estímulo que já fizeram o desemprego cair bem este ano e o consumo e investimento voltarem a crescer. Pois bem : as negociações atuais no Congresso dos EUA sobre o orçamento podem pavimentar o caminho para que o Fed reduza o estímulo monetário. Ou seja, os republicanos aceitaria um déficit maior que o proclamado na mídia, mas o Banco Central americano teria de reduzir as compras de títulos no mercado. Isso provocará a elevação da remuneração dos títulos do Tesouro norte-americano e jogará o dólar para cima em relação às outras moedas do mundo.

Inflação, um problema substantivo

Os agentes econômicos já sabem que o governo da presidente Dilma, cujo assessor Guido Mantega propala as suas políticas, é leniente com a inflação. Cabe alertar, adicionalmente, que o governo, ao reprimir preços públicos, está causando risco maior às expectativas, pois estas se movem pelos fatos verdadeiros não pelos fantasiosos. Todos sabem que dos combustíveis à energia elétrica há preços comprimidos pela estratégia enganosa do governo. De outro lado, há o risco de a taxa de câmbio se desvalorizar mais acentuadamente por conta da deterioração das expectativas domésticas e da mudança de curso da política norte-americana após as negociações do Congresso entre democratas e republicanos (Dilma Rousseff é presidente do Brasil e não tem como mandar em Obama, no Congresso dos EUA e no Federal Reserve). Neste caso, o repasse do custo do câmbio nos preços internos pode ser rápido e acentuado. Para se ter uma noção a cada 1% de aumento no câmbio, potencialmente os preços domésticos podem subir entre 0,15% e 0,20%. Para não subir, o PIB terá de ficar mais fraco do que hoje.

Fundamentos e mercados - 1

Analistas de investimentos, nos primeiros anos de atividade, aprendem analisar as variações de preços dos ativos reais e financeiros. A lição central das teorias e técnicas lecionadas é a de que os "fundamentos" alinham os preços em diferentes patamares a partir de uma relação entre riscos e retornos esperados. Pois bem : a economia brasileira está apresentando riscos crescentes em pelo menos quatro "áreas" : (i) estruturalmente, o país perde competitividade fruto de aspectos que vão da baixa educação e tecnologia, passando pela elevada criminalidade até os conhecidos problemas de infraestrutura ; (ii) do ponto de vista fiscal temos um Estado que gasta mal, arrecada muito e, assim, produz déficits potenciais crescentes ; (iii) do ponto de vista monetário, o BC ajusta as irresponsabilidade fiscal por meio da elevação da taxa de juros, uma das maiores do mundo. O BC acaba por onerar toda a atividade de investimento e consumo do país e (iv) a taxa cambial acaba por ficar valorizada, pois os investidores do mundo inteiro acabam por ingressar com recursos no país para aplicar recursos financeiros nos elevados juros do país. Este caminho tortuoso não é superado desde meados da década de 1980. No governo Dilma foi agravado por equívocos cometidos exclusivamente por escolhas erradas, tal qual a "maquiagem de números fiscais".

Fundamentos e mercados - 2

Considerados os aspectos salientados na nota anterior, cabe alertar aos nossos leitores que está se tornando cada vez mais provável que os diversos segmentos do mercado financeiro sofram alterações nos preços, possivelmente bruscas e no curto prazo (próximos três meses). No mercado acionário, os ativos (observados no seu conjunto) nos parecem muito caros. No mercado cambial, as pressões externas (e internas) serão crescentes (vide nota "A senha para o Fed"). Os salários reais estão altos em função da ainda satisfatória taxa de desemprego, mas esta variável é a última que se ajusta a um cenário pior, bem como é a última que melhora na saída de cenários ruins - veja-se o que ocorre na Europa e nos EUA. À luz dos fundamentos globais (especialmente dos EUA) e da economia brasileira, o momento nos parece recomendar moderação nos riscos e contenção em relação às expectativas de retorno esperado. Infelizmente, o Brasil pode ser um país bem melhor, mas isto dependeria de escolhas políticas melhores. Não sendo assim, também não há porque esperar que um milagre ocorra.

A política como necessidade premente

O que mais impressiona no Brasil, nestes últimos anos, é a ausência de mobilização política para mudar as estruturas e conjunturas econômicas, políticas e sociais. Os avanços dos "anos Lula" nos mostram que o jogo é eleitoral e não geracional. Com Dilma, aprofunda-se o perfil político voltado para as próximas eleições. Nem mesmo as elites do país, detentoras do "poder político real" se mobilizam para mudar o curso da política e da economia. Temem que seus interesses imediatos possam ser prejudicados pelo governo - quem sabe ? As oposições, pequenas em número de representantes, mesmo que com uma base social potencialmente respeitável, parecem aderir à sina de Dilma de fincar os olhos na próxima eleição. Um vazio considerável. Há outros fatores psicossociais, tais como a mídia e os mitos oriundos da participação na Copa do Mundo de futebol e nas Olimpíadas que acabam por obscurecer ainda mais o cenário político. Bem, esta é apenas uma nota, não uma tese de doutorado. Chamamos atenção apenas para o vazio político, perigoso e causador do imobilismo social e político.

Risco-Brasil

Chega em fevereiro ao Brasil uma equipe técnica da Standard & Poor's para fazer um relatório sobre a economia brasileira a qual servirá de base para analisar a nota sobre o risco de crédito do país (country risk analysis). Hoje o Brasil está num patamar acima da nota de grau de investimento (investment grade). Se a nota for reduzida o país perde este grau e também muitos investimentos de vez que muitos fundos e investidores utilizam os relatórios de análises da S&P como parâmetro básico para suas aplicações. Acreditamos que, antes de mudar a nota do país, a S&P deve colocar o Brasil em "perspectiva negativa". As razões para esta expectativa são evidentes : piora do desempenho fiscal, a tentativa da Fazenda em mascarar tais resultados e o fraquíssimo desempenho do PIB. Uma coisa chama atenção neste processo : a atitude arrogante das autoridades brasileiras em receber a equipe de analistas das agências de classificação de risco. Muito embora o trabalho destas agências mereça críticas dada a ausência de alerta da parte destas antes da crise de 2008, nada justifica a arrogância da equipe econômica liderada pela presidente Dilma. A economia brasileira vai mal, mas o ego de Dilma e equipe não amaina.

Automóveis, segurança e eleição - 1

Choca e surpreende a decisão do governo, anunciada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que será adiada a entrada em vigor da norma que determina que todos produzidos no Brasil a partir de janeiro já saiam da fábrica com freios ABS e com air bag duplo. O Brasil é um dos campeões mundiais em acidentes e mortes no trânsito e eliminar dois itens essenciais para a segurança dos veículos e proteção dos cidadãos é ato que beira a irresponsabilidade. A medida já estava tomada há muito tempo e todos deveriam já ter se adaptado a ela. Mais grave ainda é a alegação do ministro Mantega para a decisão : evitar o efeito do aumento dos veículos sobre a inflação, ainda que o IPI reduzido começa a cair em janeiro, e evitar desemprego na indústria automobilística com a suspensão da produção de alguns veículos.

Automóveis, segurança e eleição - 2

O ministro antepôs a economia, que é um meio, frente à segurança e ao bem estar da população, que deveria ser um fim. Parece que tudo está invertido. O fim neste momento para o Palácio do Planalto é bem outro : a reeleição da presidente Dilma. É por ela que os carros sem segurança vão ganhar uma sobrevida. O temor real do governo é que um pouco mais de inflação e algum possível desemprego influam no ânimo dos eleitores. Como a política antiinflacionária está cambeta, ou seja, se combate mais o índice do que os fatores inflacionários, é preciso continuar com manobras que segurem artificialmente os índices que medem a inflação. O padrão incluía o controle dos preços da gasolina e do óleo diesel. Agora, inclui até air bags e freios de carros. Este será o padrão para quase tudo em 2014.

Pode até recuar, mas...

Depois das reações negativas ao recuo na segurança dos automóveis, inclusive em algumas áreas do próprio governo, o Palácio do Planalto apressou-se em avisar que ainda não há uma decisão definitiva a respeito da questão. Teria o ministro da Fazenda, um dedicado e obediente auxiliar da presidente Dilma, falado demais e anunciado o que ainda é apenas um estudo ? Parece improvável. O governo pode até recuar agora, mas o estrago político já está feito. Para amenizar, o negócio será jogar a culpa para as montadoras: já se diz que foram elas que pediram o adiamento. Não é nada improvável. Porém, o governo não deveria ter levado isto em consideração nem por um instante sequer.

Mercosul: mais um revés

A Argentina restringiu a importação de automóveis para o país. Fere, mais uma vez, as regras básicas do Mercosul. Pouco importa se a diplomacia aponte os possíveis waivers para tal atitude. O certo é que o Mercosul é um solene fracasso para o Brasil, país que precisa de novos mercados e mais investimento. Não vamos a lugar nenhum, como a história já provou, se continuarmos associados à Argentina de Kirchner, à Bolívia de Morales e à Venezuela do fantasma de Chávez. Na semana passada, chamamos a atenção para este tema e acabamos "brindados" com o exemplo da restrição em relação à nossa indústria automobilística. Neste tema está chegando o tempo de acabar com tergiversações, de Lula e Dilma, em relação à América Latina. Por aqui a história parou. É preciso olhar para o norte e para o oriente. O resto é papo de botequim sob o som de samba ou tango.

PT: malabares e malabaristas - 1

A cúpula petista moveu almas e corações para se equilibrar entre as pressões dos grupos mais ligados aos seus filiados condenados no processo do mensalão para que o partido se solidarizasse com eles incondicionalmente, e as conveniências do governo da presidente Dilma e do próprio PT de não deixar o episódio contaminar o governo e a campanha eleitoral. Solidariedade sim, mas com limites, de olho em possíveis repercussões eleitorais. Assim transcorreu o 5º Congresso Nacional, de quinta-feira a sábado passados em Brasília. Na quinta, claque para defender José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha e Delúbio Soares, com Dilma silenciosa e Lula se esquivando de ir mais fundo ao tema. Este último avisou que ainda não é hora de falar, uma referência indireta a Dirceu. Rui Falcão, presidente reeleito da sigla cumpriu a missão de fazer a defesa mais veemente dos companheiros.

PT: malabares e malabaristas - 2

Na sexta, demonstrações de solidariedade explícitas, contudo, com a ausência de Lula e Dilma. E com Rui Falcão, abafando : dizendo que o PT não apoia movimentos pela anulação da chamada AP 470 e que não considera Dirceu, Genoino e Delúbio presos políticos. No sábado, no encerramento, grandes manobras para evitar que o documento final do encontro incluísse uma resolução obrigando o partido a organizar eventos e manifestações e outras ações em defesa dos réus. Ficou um texto anódino dizendo que o PT apoia iniciativas do tipo. E só. A questão é saber, agora, se toda a militância - e os próprios companheiros presos - aceitaram esses arranjos. O mensalão será de hoje em diante uma página virada na história petista ou o fantasma que aparece de vez em quando na legenda. Em tempo: a parte substancial da resolução do 5° Congresso, que se refere às linhas que o partido adotará em suas ações no próximo ano e que balizará a campanha de 2014 será analisada em uma próxima coluna.

Investigação e CPI para os trens

Com a transferência para o âmbito Federal, em Brasília, dos processos envolvendo suspeitas de propinas em compras de trens para o metrô de SP em gestões tucanas, a expectativa é que as investigações andem mais rapidamente e as responsabilidades sejam estabelecidas. Preventivamente, o provável candidato do PSBD à presidência, Aécio Neves, se apressou a dizer que se houver provas e culpados que sejam exemplarmente punidos, seja quem for. A tática do senador mineiro parece ser diferente da adotada pelo PT até agora em relação ao mensalão : não defender incondicionalmente os companheiros de plumagem como o petismo faz com Dirceu e os outros condenados pelo STF. É oportunidade também para a convocação de uma CPI para investigar o chamado cartel dos trens, que o deputado petista Paulo Teixeira anunciou que já estava com todas as assinaturas para ser criada e estranhamente caiu no esquecimento fazem mais de dos meses. Parou por quê?


Entre dois fogos - 1

É sabido que Dilma, com gosto ou sem gosto, terá de fazer uma reforma ministerial pra substituir até abril de 10 a 12 ministros que precisam sair para disputarem algum mandato em outubro. A data fatal é abril, seis meses antes das eleições no primeiro turno. Muito tempo atrás se dizia que a presidente pretendia trocar os ministros logo do início de 2014, para ter uma equipe ajustada para tocar seu último ano de mandato, essencial para ajudar na campanha eleitoral e não ficar com uma equipe com cara de tapa buraco. Agora, não se sabe quando as mudanças virão. Dilma está entre dois fogos. De um lado estão os ministros a serem substituídos e o PT, que querem ficar até o limite no cargo para aproveitarem a exposição pública que o ministério dá, a possibilidade de viagens, inaugurações, anúncio de projetos e outros tais. As pressões maiores são pela preservação dos ministros Alexandre Padilha, da Saúde, candidato petista em SP, e Fernando Pimentel, do Desenvolvimento. Candidato em MG. Sem mandato os dois cairiam na vala comum.

Entre dois fogos - 2

De outro, estão os partidos interessados nas vagas que vão se abrir, entre eles o PTB, o PROS dos irmãos Cid e Ciro Gomes, ministeriáveis, e especialmente o PMDB, que já não aguenta mais esperar a nomeação do senador Vital do Rego para o Ministério da Integração Nacional, um dos bons cartórios eleitorais com os quais o partido pretende contar para 2014. Para angústia geral, inclusive dos petistas, a presidente Dilma não tem dado muitas indicações sobre o que pretende fazer, sobre o como e o quando. Há sinais de que até o ex-presidente Lula estaria no escuro. Dilma sabe que os riscos eleitorais lhe tocam mais profundamente que a todos que lhe rodeiam. Tem mais: o Ministério tem de ser suficientemente submisso às vontades da rainha e sua personalidade "forte", para não usar outra palavra mais forte.

Soltou a língua

Sempre muito discreto, formal e parcimonioso em suas declarações políticas, o vice-presidente Michel Temer, presidente licenciado e voz real do PMDB, andou soltando o verbo na última semana, inclusive com uma pouco usual conversa com um grupo de jornalistas. Com alguma sutileza, andou passando claros recados da insatisfação peemedebista em relação ao andar de duas carruagens: a da reforma ministerial e a das relações com o PT no caso das alianças regionais.


Imagina na Copa - capítulo II

De uma pesquisa realizada pelos estudantes de jornalismo que participaram este ano do programa de treinamento do jornal o "Estado de S. Paulo", publicada no suplemento especial "Foca", sábado 14/12:

Pergunta: Os protestos vão voltar a acontecer durante a Copa?

Respostas: Sim, 91%; Não, 5%; Não sabem, 4%.

Foram entrevistados 420 jovens de 15 a 29 anos, em 60 pontos da capital paulista, de 30/11 a 2/12.

Férias

A coluna está de férias no período até o dia 14 de janeiro. Feliz Natal e um ótimo 2014 para todos.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

domingo, 15 de dezembro de 2013

PÃO, CIRCO E VIOLÊNCIA

A historinha é conhecida. Vespasiano, o imperador, em 22 de junho de 79 d. C., pouco antes de morrer, em carta ao filho Tito, aconselhava-o a concluir a construção do Colosseum (Coliseu), que daria a ele “muitas alegrias e infinita memória”. Pois, entre um banheiro, um banco de escola ou um estádio, o povo preferia sentar nas arquibancadas deste último.

O conselho se fundamentava na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes. Tito acabou inaugurando o famoso monumento, no centro de Roma, com 100 dias de festa.

Descortinava-se, ali, a era do “panis et circensis”, que consistia em proporcionar, naquela arena, espetáculos sangrentos entre gladiadores e distribuição gratuita de pão.

Implicava alto custo aos cofres do Império, com elevação de impostos e economia destroçada, mas a prática populista emprestava enorme prestígio aos imperadores romanos. É sabido que os jogos, ao longo da história da Humanidade, funcionaram como verniz para ilustrar a imagem de governantes.

Hoje, a estratégia para cooptar a simpatia das populações por meio das artes/artimanhas e do entretenimento continua recebendo atenção de administradores públicos de todos os quadrantes.

Não por acaso, nossas arenas esportivas, que se preparam para abrigar os jogos da Copa de 2014, deverão colorir o portfólio de feitos do governo. O que tem mudado na paisagem dos espaços lúdicos não é a ambição dos condutores dos Estados de alçar os píncaros da fama, mas o comportamento das plateias.

Espectadores que, outrora, fruíam a catarse dos embates esportivos, exaltando ou deplorando a performance de contendores, tornam-se eles próprios competidores, lutadores, gladiadores, disparando uns contra outros não apenas a arma das imprecações, mas armas de fogo e partindo para a violência física.

A alteração comportamental das pessoas que vão aos estádios é preocupante, principalmente em nosso território, que elege o futebol como esporte nacional, e se depara, a cada campeonato, com os novos sujeitos, as chamadas torcidas organizadas.

O fenômeno toma vulto ante o risco de o Brasil vir a ser, por excelência, o palco da violência futebolística, pela constatação de que o aparato da segurança pública tem sido ineficaz para debelar a desordem e a pancadaria nas arquibancadas, a par de medidas paliativas, como cerceamento de torcedores a estádios, majoração de ingressos, jogos com portões fechados, perda de mando de campo e multas aos clubes.

Pouco adiantará administrar as tensões e conflitos sob o escudo policial-repressivo. Como se diz no vulgo, o buraco é mais profundo e está em baixo. A mobilização de pessoas para formação de grupos e a organização de torcidas obedecem a nova ordem que impregna a dinâmica social no mundo contemporâneo.

A competição assume posicionamento singular em todos os setores, espaços, núcleos, categorias profissionais e classes sociais. As massas fragmentam-se em núcleos, cada qual envergando bandeiras, discursos, uniformes, armas e instrumentos. Os avanços civilizatórios nos campos da macroeconomia, da política e da cultura abrem comportamentos diferentes, multiplicando as pequenas organizações sociais e gerando novos pólos de poder.

Os espaços urbanos ganham novos contornos, a esfera do trabalho traz novos desafios e a busca de uma identidade passa a ser central para os indivíduos, principalmente os jovens, motivados a expressar valores como masculinidade, coragem, companheirismo, coesão, solidariedade, sentimento de pertinência a um grupo.

Fazer parte de torcidas, como a Mancha Verde, os Gaviões da Fiel, a Independente, passou a ser referência para habitantes de cidades congestionadas, carentes de serviços e de lazer.

Ao escopo semântico – onde se agrupam as agruras sociais – adiciona-se uma estética de diferenciação, caracterizada pelas cores – o verde, o vermelho e preto, o preto e branco, o azul, o amarelo canarinho – os símbolos (gavião, porco, urubu, galo, raposa, coelho, timbu, baleia, leão), a vestimenta com os dizeres da moda, o estilo de andar, de pensar, de perambular em bandos, e, fechando o circuito, a espetacularização midiática, por meio da qual os torcedores poderão ver nas telas de TV seus gestos, feições alegres ou crispadas de ódio e ouvir gritos de guerra.

Condenar as turbas com designativos de vândalos, bandidos, selvagens, adensar forças policiais em estádios, continuar a usar meios tradicionais, como punição a clubes, não conseguirão eliminar a violência das torcidas organizadas. Mais cedo ou mais tarde, os atos voltarão.

O disciplinamento e a ordem hão de levar em conta a elevação de padrões comportamentais, ancorada no esforço de educação (reeducação) de torcedores fanáticos.

Não se trata de implantar meras ações de marketing cultural – eventos festivos e associativos para alinhamento dos torcedores ao espírito do clube – mas de um amplo programa com o objetivo de compor um ideário voltado para engrandecer o espírito da democracia, com respeito aos princípios da ordem e disciplina, que não devem ser incompatíveis com o entusiasmo das torcidas.

É evidente que ante a moldura de extrema competitividade e crescente agressividade entre grupamentos sociais, um esforço nessa direção não será tarefa fácil. O que aqui se propõe é uma ação cívica dos clubes de futebol na tentativa de ajudar o Estado brasileiro a melhorar a argamassa do edifício da cidadania.

É inimaginável que torcidas se vejam como inimigas tomadas de ódio e virulência; e que o sarro tirado por um bandeirinha na direção de um grupo nas arquibancadas, o apito errado de um juiz, um ato menos educado de um policial ou um xingamento de um torcedor sejam motivo para a pancadaria. Nem Vespasiano nem Tito imaginariam que, um dia, o dístico “panis et circensis” seria acrescido de “violentia”. Fosse assim, o velho Coliseu não estaria em pé.


(Gaudêncio Torquato)