sábado, 19 de maio de 2012

HOJE É O DIA DE SANTO IVO - O PADROEIRO DOS ADVOGADOS


No atual cenário conturbado que vive o mundo, mergulhado num ambiente crepuscular de guerras de cunho religioso e/ou político-econômico, ataques terroristas, e crise sem precedentes de valores morais, éticos e humanitários, as religiões exsurgem como verdadeiros últimos bastiões de esperança para a população, apesar de muitas vezes serem acusadas de "ópio do povo", instrumento de manipulação das massas, "muletas", etc.

Diante disso, pareceu-me oportuno escrever sobre Santo Ivo.

Num Estado laico e no qual a liberdade de culto religioso é garantia constitucional prevista no artigo 5º, VI, da Carta Magna vigente, sei que determinadas pessoas - inclusive vários advogados - não crêem em Santos, enquanto outras não professam qualquer sorte de fé. Portanto, o presente estudo não almeja ser laudatório nem peça de divergência ou querela religiosa entre as comunidades católicas, espíritas, judaicas, umbandistas, evangélicas, adventistas, presbiterianas, luteranas (e demais ramos protestantes), budistas, agnósticas e atéias nacionais.

Destarte, visa, pois este artigo apenas proceder a uma abordagem perfunctória da figura histórica daquele que é tido como o Santo patrono dos causídicos.

QUEM FOI SANTO IVO?

Todos os anos, no dia 19 de maio se comemora o Dia de Santo Ivo(1), o Santo padroeiro dos advogados.
Yves Hélory (Helori ou Heloury) era filho de Helori, lorde de Kermartin e Azo du Kenquis. Nasceu nas proximidades de Treguier, na Baixa Bretanha, conhecida região da França, no dia 17 de outubro de 1253. Era, pois de família da pequena nobreza e recebera apurada educação, humana e cristã. Sua mãe, dizia-lhe:

"Meu filho, procura viver sempre de tal maneira, que venhas a ser um santo".

Após a conclusão dos primeiros estudos em sua terra natal, sob a orientação de um jovem sacerdote, Ivo foi enviado em 1267, a tenra idade de 14 anos, à já prestigiada Universidade de Paris, onde estudou Artes Liberais e Teologia. Dentre os seus mestres estava o Doutor Angélico, o prodigioso Santo Tomás de Aquino. Ivo também presenciou conferências do grande São Boaventura, dele aprendendo o espírito franciscano. Posteriormente, o futuro santo foi para Orléans em 1277, onde se especializou em Direito Civil e Direito Canônico. Depois de anos de estudos, durante os quais brilhou entre seus colegas, voltou para Bretanha.
Em 1280, convidado a ser o conselheiro jurídico e juiz eclesiástico, trabalhou primeiramente como juiz episcopal na arquidiocese de Rennes, cidade capital do Ducado da Bretanha, por quatro anos, e depois em Tréguier. Competia-lhe julgar todo tipo de litígios, processos matrimoniais, de contratos e heranças, salvo os processos criminais. Em 1824, seu Bispo o convenceu de receber a Ordenação Sacerdotal, permitindo-lhe manifestar seus dotes de pregador e de reitor de igreja.

Concomitantemente funcionando como sacerdote, advogado e juiz (o que era possível naqueles tempos em virtude de não vigorar a atual estrita distinção funcional) Ivo multiplicava suas atividades, semeando sua fama, por toda a Bretanha, com um contingente crescente de pessoas que se socorriam a ele. Até milagres já eram atribuídos a ele em vida.

Em suma, a defesa intransigente dos injustiçados e dos necessitados deu a Ivo o título de "advogado dos pobres", título esse que continuou merecedor ao se tornar sacerdote, e ao construir um hospital, onde cuidava dos enfermos com suas próprias mãos. Eis outra faceta de Ivo: Frade Franciscano.

Alimentando-se apenas de pão e água, passando a noite em vigília de estudo e oração, não deixava, todavia de percorrer longos caminhos, para encontrar os que dele precisavam. Pregando, orientando, consolando, escutando, reconciliando, decidindo, distribuindo seu dinheiro aos pobres, atendendo os doentes, erigindo uma casa para abrigar os abandonados, levando à sepultura os mortos, Ivo conseguia a admiração, apreço e respeito dos seus contemporâneos.

Ivo de Kemartin morreu de causas naturais na França em 19 de maio de 1303, aos 50 anos de idade. Seu corpo foi sepultado na Catedral de Tréguier, onde é objeto de devoção do fiéis até hoje. A pedido de Bispos e autoridades civis e após minudente processo de investigação, o primeiro desse estilo e nessa seara, o Papa Clemente VI, com a solene Bula de 19 de maio de 1347, assinada em Avignon, proclamava Ivo inscrito no Catálogo dos Santos e Confessores, devendo ser venerado como Santo da Igreja Católica Apostólica Romana anualmente no dia 19 de maio.

HISTÓRIAS E LENDAS

Numa de suas famosas defesas que entraram para a História, Santo Ivo logrou inocentar da prisão uma pobre e ingênua mulher, quando faltava tão-somente o veredicto final. Ela teria sido vítima de dois farsantes que haviam entregue à ela uma mala com ouro e dinheiro, para que a guardasse e somente a entregasse na presença dos dois. Decorridos alguns dias, os ladrões prosseguiram com o pérfido plano: o primeiro conseguiu que a mulher lhe entregasse a mala e o segundo a levou ao Tribunal, acusando-a de roubo. Sensibilizado, Santo Ivo foi ao Tribunal e asseverou que a mulher sabia onde se encontrava a mala e estava disposta a exibi-la. Pediram aí que ela a mostrasse. Santo Ivo acresceu: "Uma vez que a acusada somente pode devolver a mala na presença dos dois interessados, fica o demandante obrigado a apresentar o seu companheiro neste tribunal..."

Nessa esteira, reza a lenda que um pobre, não possuindo dinheiro para comprar comida, aproximava-se diariamente, na hora do almoço, da janela da cozinha de um restaurante e, com o saboroso odor inalado, dava-se por satisfeito. Uma ocasião, o dono do restaurante o interpelou sobre o seu repetido e suspeito comportamento e, ouvindo a cândida explanação do miserável, exigiu dele pagamento como se ele tivesse de fato comido uma refeição. Santo Ivo assumiu a defesa do pobre e, no Tribunal, fez soar aos ouvidos do acusador as moedas que exigia, dizendo-lhe: "Considera-te pago com o som dessas moedas".

Há relatos também de que o próprio Santo Ivo em pessoa buscava nos castelos os cavalos e carneiros tirados dos pobres sob o alegado pretexto de impostos não pagos.

SANTO IVO E A DEFENSORIA PÚBLICA

A criação da "Instituição dos Advogados dos Pobres" foi de inspiração de Santo Ivo, máxime para atender causas dos pobres, viúvas, órfãos e menos afortunados de modo geral. Os motivos históricos e a identidade das funções constitucionais da Defensoria Pública com a "Instituição dos Advogados dos Pobres", fundada pelo aludido Santo, bem como a sua relevante contribuição para o exercício de uma cidadania plena, inspiraram, a escolha eletiva da data de seu falecimento para instituir as comemorações do "Dia do Defensor Público".

Nesse sentido, Magna Carta Brasileira de 1988, no artigo 134 e parágrafo único, tornou realidade, de certa forma, o sonho de Santo Ivo, ao instituir pioneiramente no mundo a Defensoria Pública.

ANEDOTA

Santo Ivo é igualmente alvo de uma célebre anedota jurídica.

Nesse diapasão, e como uma singela forma de homenagear a figura sempre atual do Barão de Itararé, o qual em 29 de janeiro de 2007 estaria completando 112 anos de vida, peço vênia para transcrever na íntegra um trecho extraído do livro "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé":

"Como entrou no Céu o primeiro advogado”.

Logo que Santo Ivo morreu, encaminhou-se ao Céu e bateu à porta, que São Pedro não se atreveu a abrir, subestimando as razões do bom santo. - Faço o que quiseres - repetia o porteiro do Céu -, mas não acho que deva permitir a entrada a um advogado, não só porque nem um tem assento entre os santos, mas também porque, muito ao contrário, juraria que se encontram no inferno todos os de tua profissão.

Santo Ivo não se desconcertou; antes, como bom advogado, teve tão convincentes razões para rebater as de São Pedro que este lhe permitiu finalmente entrar no Céu, mas com a condição de permanecer junto à porta.

O hóspede entrou calmamente, sentou-se no lugar indicado por São Pedro, que foi participar a Nosso Senhor o sucedido...
- Fizeste mal! Muito mal, Pedro! - respondeu Deus, quando acabou de escutá-lo. - Havia resolvido que nenhum advogado entraria no Céu, e tinha cá minhas razões para isso. Mas já que está, deixa ficar; sem embargo, não deixes que ele se misture com os outros santos, pois do contrário acabarão no Céu a paz e a boa harmonia. Não o deixes passar além da porta.

Aborrecido e cabisbaixo, voltou São Pedro aonde estava Santo Ivo e comunicou-lhe as ordens dadas pelo Senhor. O Santo advogado encolheu os ombros e, à guisa de passatempo, começou a entabular conversa com São Pedro.

- Que posto ocupas aqui no Céu?

- Não sabes? Sou o porteiro.

- Por quanto tempo?...

- Para todo o sempre.

- Deixa disso. Só se tiveres algum contrato firmado...

- Não há contrato nem coisa que o valha, e para dizer a verdade não há necessidade disso.

- Como assim? Então não estás vendo, grande ingênuo, que qualquer dia Deus pode ter a idéia de te destituir, sem mais nem menos, do cargo que com zelo vens desempenhando há tanto tempo, sem que possas fazer valer teus direitos?
São Pedro coçou a orelha, e, mais amofinado que antes, foi novamente falar com Deus.

- Vamos lá, que é que pensas?

- Preciso de um contrato em que se declare que sou o porteiro do Céu para todo o sempre. Até hoje temos deixado as coisas andar à vontade; mas se vos der na idéia, qualquer dia me destituís do cargo que com tanto zelo...

- Não te dizia eu? Tudo isso são trapaças daquele advogadozinho que tens na porta e que soube encher-te a cabeça.
E ajuntou depois, tomando uma resolução:

- Anda, Pedro, corre e manda-o entrar imediatamente, pois prefiro tê-lo perto de mim a vê-lo junto à porta.

Eis como entrou no Céu o primeiro advogado."

Essa mesma piada também pode ser contada de outra forma:

"Quando Ivo morreu, apresentou-se ele a São Pedro no mesmo instante em que o faziam também diversas monjas. Ao advogado, Pedro fez grandes festas e proporcionou uma vibrante recepção no Céu. As monjas foram também admitidas, mas sem muita festa. Quando elas perguntaram a Pedro o porquê de tal diferença, tiveram esta resposta: "Minhas irmãs: é porque monjas entram aqui diariamente; mas esse advogado é o primeiro que alcançou a entrada do Céu".

CONCLUSÃO

Patrono dos advogados, Santo Ivo dedicou sua vida e obra à defesa dos pobres, fracos e oprimidos, contra os ricos e poderosos, notabilizando-se, máxime, por colocar a sua erudição à defesa nos Tribunais, de toda a classe de desafortunados, ofertando seus emolumentos aos pobres para que fossem utilizados em sua defesa. Com sua sabedoria, imparcialidade e espírito conciliador desfazia as inimizades e conquistava o respeito até dos que perdiam a contenda judicial.

Como se vê, Santo Ivo arrebatou a estima e apreço de todos pela integridade e retidão de vida e pela imparcialidade de seus juízos.

Além de Santo padroeiro dos advogados, Santo Ivo é patrono das crianças abandonadas e da Bretanha.

Assim, na sociedade superficial, materialista e consumista que vivemos, onde as perspectivas de certos advogados no mercado de trabalho não é mais mudar o mundo (como sonhavam os jovens idealistas acadêmicos do passado, que atualmente parece cada vez mais distante e sem volta), mas sim as próprias contas bancárias, só nos resta ficar com algumas das sábias e dadivosas palavras de Santo Ivo, as quais nos ensinam, ainda hoje, a refletir sobre o real significado de "caritas" (termo em latim para caridade), compaixão e amor ao próximo:

"Jura-me que sua causa é justa e eu a defenderei gratuitamente".

Eis, um modelo exemplar e inspirador a ser seguido por nossos doutos juízes e advogados.

(Por Francisco Carlos Távora de Albuquerque Caixeta)

quarta-feira, 16 de maio de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

A circulação do dinheiro

Numa pequena cidade, os habitantes endividados passam um momento vivendo às custas de crédito. A sorte chega com um gringo. Que procura o único hotel. O gringo saca uma nota de R$ 100,00, deposita-a no balcão e pede para ver um quarto. Enquanto o turista sobe ao quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$ 100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas ao açougueiro. O açougueiro pega a nota e vai até o criador de suínos a quem deve. Paga tudo. O criador, por sua vez, pega a nota e corre ao veterinário liquidar sua dívida. O veterinário, com a nota de R$ 100,00 em mãos, decide ir à zona pagar o que devia a uma prostituta. Expliquemos: em tempos de crise, a categoria trabalha a crédito. A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, onde levava os clientes. Ultimamente, deixara de pagar pelas acomodações. Liquida a conta de R$ 100,00. Nesse momento, o gringo chega novamente ao balcão, pede sua nota de R$ 100,00 de volta, agradece e diz que o hotel não correspondeu às suas expectativas. Sai do hotel e vai embora da cidade. Ninguém ganhou um vintém! Mas todos saldaram suas dívidas. E, assim, mais felizes, começam a ver o futuro com confiança! Moral da história: quando o dinheiro circula, não há crise! (Historinha de Luis Costa em Leia Comigo)

Tempos nublados

A definição para esses meados de maio pode ser esta: tempos nublados. Se a observação cai bem sob o aspecto do clima - entre 16ºC a 18ºC - e das nuvens plúmbeas fechando os céus do Sudeste e do Sul, também pode ser usada para definir a temperatura política. Vivemos tempos cinzentos. Não se tem clareza sobre o que poderá advir. Há uma CPI em pleno curso, que ainda não deixa ver limites e horizontes. Além de Demóstenes, alguns deputados, Cachoeira - de onde poderá fluir uma torrente de águas poluídas - a indagação persiste: os governadores Marconi Perillo (PSDB/GO), Agnelo Queiroz (PT/DF) e Sérgio Cabral (PMDB/RJ) serão chamados a depor? E os braços da Delta em Mato Grosso e outros Estados serão apertados pela CPI?

Grandes dúvidas

Os tempos nublados fazem emergir grandes dúvidas: afinal de contas, qual será o impacto das revelações e apurações da CPI das Águas Correntes sobre o processo eleitoral? E mais: que impacto - influência - poderá ter a CPI sobre o julgamento do mensalão? Os ministros do STF tenderiam a se sensibilizar com as ondas de indignação que se formam no seio da Opinião Pública, por ocasião das CPIs que ganham alta visibilidade na mídia? Algumas situações podem ser interpretadas. Este consultor oferece algumas pistas.

Aprender a suportar

"É preciso aprender a suportar o que não é possível evitar. Assim como a harmonia do mundo, nossa vida é composta de coisas contrárias, e de diversos tons, doces e ásperos, pontudas e chatas, moles e duras. Que poderia exprimir o músico que só gostasse de um tom ? É necessário que saiba utilizar a todos e misturá-los; do mesmo modo nos cabe fazer com os bens e os males que são inerentes à nossa vida. Nosso ser não subsiste sem essa mistura, em que cada parte é tão imprescindível quanto a outra...". (Montaigne)

O escudo do governo

Ponto um. A imagem da presidente Dilma tende a continuar imune aos abalos e impactos por eventos na frente política. Do alto de sua aprovação, não terá a imagem chamuscada. A população a distingue como governante preocupada em dar eficiência à máquina. Ademais, firmou o conceito de "faxineira ética". Ponto dois. É possível, isso sim, que a agenda do Executivo sofra atrasos em função da CPI ou por conta de desdobramentos nas relações com o Parlamento: liberação de recursos, etc. Ganha força, porém, a ideia de que não haverá veto da Câmara ao veto da presidente ao Código Florestal, se isso efetivamente ocorrer. O próprio PMDB estaria disposto a mudar seu posicionamento.

O escudo dos governadores

Como deixar de convocar um governador e convocar outro? Cristaliza-se a tendência de posição homogênea. Se um governador for convocado, outros também o serão. Ou seja, o pau que bate em Chico bate em Francisco. Nesse caso, até Cabral poderá ser convocado a depor, se Perillo e Agnelo entrarem no envelope da convocação. Mais uma projeção: os partidos que integram a Comissão tendem a absolver os comandantes dos Executivos estaduais.

O escudo do procurador

O procurador-geral, Roberto Gurgel, não deverá ser convocado. Depois do ímpeto inicial do PT, animado e liderando a ideia, constata-se certo arrefecimento. Não seria de bom tom. Ademais, a questão poderia bater no STF e esta Corte tende a abrigar o procurador sob seu escudo com o argumento de que as funções que lhe competem asseguram o direito de não dar depoimento à CPI. O mesmo argumento é usado para evitar a ida de sua mulher, Cláudia Sampaio, subprocuradora da República.

A gravidade do senador

"Apareça o pregador: se a natureza lhe deu uma voz rouquenha e feições estranhas, se o barbeiro não o barbeou direito, se além disso o acaso ainda o salpicou de manchas, por maiores que sejam as verdades que ele esteja pregando, eu aposto na perda da gravidade do nosso senador." (Blaise Pascal)

O escudo de Demóstenes

Quebrado. Eis como se apresenta o escudo do senador Demóstenes. E, por isso mesmo, estará sujeito às chuvas e trovoadas da CPI. Deverá ser arrastado pela correnteza que jorra das águas correntes da (o) Cachoeira. Mas o senador vai lutar até a última gota de sangue. Tem DNA de promotor. É perito na arte de acusar e, claro, de colocar curvas em quem o acusa. No mais, ver-se-á um denso acervo no entorno do Direito.

Amor próprio

Um maltrapilho dos arredores de Madrid pedia esmolas com grande dignidade. Um transeunte lhe disse: "Não tem vergonha de exercer essa infame atividade quando pode trabalhar?" - "Senhor, respondeu o mendigo, peço-lhe esmola e não conselhos"; e tendo dito isto, deu-lhe as costas, com toda a empáfia castelhana. Era um mendigo orgulhoso esse; pouca coisa bastava para ferir-lhe a vaidade. Por amor de si mesmo pedia esmola; e ainda por amor de si mesmo não permitia que lhe fizesse qualquer reprimenda. (Voltaire)

CPI no momento errado?

Dizem que a CPI nasceu sob a vontade do ex-presidente Lula. Que desejava dar uma sinuca de bico em Demóstenes e Marconi Perillo, mesmo sabendo que poderia sobrar veneno na água de Agnelo Queiroz. O fato é que as oposições, até então sem discurso e sem ação, ganharam um copo de vitamina com essa CPI. Se Perillo, do PSDB, está na dança, Agnelo, do PT, está no centro da roda. Ademais, essa CPI cria um clima de indignação que tende a fazer pressão indireta a favor de apurações de ilícitos em todos os campos. Nessa moldura, entra o mensalão. Que estará na pauta do STF logo mais. Não há como protelar a decisão de julgá-lo. O momento é propício. O clima ambiental sugere aperto de parafusos. Condenação a culpados. A impunidade gera revolta no meio da pirâmide.

Venda da Delta

Até agora é inexplicável a venda da empreiteira Delta ao grupo JBS. A empresa está sendo considerada inidônea. Como o governo dá cobertura - via BNDES - a esse empreendimento ? Um dos acionistas do JBS garantiu que a venda se fez com o endosso do governo. Mais um caso a entrar no rol das explicações.

A verdade da comissão

Nem bem foi instalada, a Comissão da Verdade já debate sobre as veredas a seguir. Um dos integrantes, o advogado José Carlos Dias afirma que a Comissão apurará questões de todos os lados. Outros integrantes defendem a tese de que o grupo vai apurar os desmandos e os crimes cometidos pela Ditadura Militar. O outro lado, alegam, foi assassinado. Já o Clube Naval vai formar uma Comissão Paralela da Verdade. Militares da reserva vão fazer algum barulho.

Acesso à informação

O Brasil dá, hoje, mais um passo no território da Cidadania. Começa a valer a lei de acesso à informação. A Constituição prevê que todos os cidadãos têm direito a receber dos órgãos públicos informações do seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade. A lei estabelece obrigações para os órgãos e entidades do poder público quanto à gestão da informação e define os tipos de informação que podem ser solicitadas. Uma das novidades é a obrigação de cada órgão da administração pública criar uma Comissão Mista de Reavaliação de Informações, responsável pela implementação da norma.

Maus modos

"É indecente expressar com intensidade as paixões que se originam de certa situação ou disposição do corpo, pois não se pode esperar que quem está conosco, não possuindo a mesma disposição, simpatize com elas. Fome intensa, por exemplo, embora em muitas ocasiões seja não apenas natural, mas inevitável, é sempre indecente; e comer vorazmente é universalmente visto como demonstração de maus modos." (Adam Smith)

Ficha Limpa no executivo

Mais um passo nas veredas da moralização. O executivo quer barrar na administração pública perfis maculados de sujeira. Nos próximos dias, deverá ser produzida a norma para cercear a inserção de pessoas sem ficha limpa nas malhas da administração. Tem lógica a decisão. Se uma pessoa nessas condições não pode ser candidata, da mesma forma deverá ser afastada da função de cuidar da res publica.

Tolerância zero: álcool

Deve-se mesmo acreditar na hipótese de que o Brasil começa a andar nos trilhos da racionalidade. A defesa da tese de que o cidadão tem liberdade para consumir doses de álcool, evitar o flagrante da embriaguez por meio da recusa do uso do bafômetro, não resistiu a uma audiência no STF, presidida pelo ministro Luiz Fux. Os depoimentos dos convidados fecharam com a posição: tolerância zero para consumidores de álcool que decidem dirigir veículos.

E Haddad, hein?

Entremos, mais uma vez, no túnel da campanha de São Paulo. Para uns, o túnel está ainda muito escuro, a essa altura. A escuridão não deixa ver se Fernando Haddad, candidato de Lula e do PT à prefeitura, chegará ao final da jornada eleitoral. O PT abriu, ontem, uma bateria de inserções publicitárias para alavancar o candidato. Somará 15 minutos nos próximos dias. Lula e Dilma aparecerão nos spots. Este consultor acredita que Fernando Haddad chegará aos 25 pontos percentuais, margem que lhe dá condições de entrar no segundo turno. Claro, seu adversário será José Serra. Que contará com o empuxo das máquinas estadual e municipal. Entre 0 a 10, Serra tem 8 pontos na chance de ser um dos disputantes do segundo turno.

Testando identidade e imagem

Candidato precisa ter forte identidade. Que significa seu conceito. O tronco da árvore. Que lembra semente, história de crescimento, tradição, valores, princípios, caráter. A imagem que projeta é resultante desta identidade. Tênue, a imagem será frágil. Forte, a imagem será clara, retilínea. Que imagens, eleitores, têm os candidatos a prefeito de sua cidade ? Vamos oferecer alguns parâmetros: experiência, conhecimento, força política, tradição partidária, inovação, compromisso com cidade, proximidade do eleitor, firmeza religiosa, apoio de entidades e grupos, arrojo, coragem, honestidade/desonestidade, moral/ética, assepsia, conservadorismo, ficha suja, infidelidade, oportunismo, populismo. Esse acervo serve para enquadrar um perfil.

Royalties, Dilma

A presidente Dilma foi vaiada e aplaudida, ontem, em Brasília, por prefeitos participantes da 15ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios. Que queriam cobrar sua posição sobre os royalties do petróleo. A presidente irritou-se com os gritos e mandou ver: "Vocês não vão gostar do que eu vou dizer. Não acreditem que vocês conseguirão resolver a distribuição de hoje para trás. Lutem pela distribuição de hoje para a frente". Encerrou o discurso abruptamente. Prefeitos se dividiam entre aplausos e vaias.

Trens para a Copa

A CAF Brasil, subsidiária da espanhola Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles, está na frente na disputa para execução da obra do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Cuiabá e Várzea Grande/MT visando a Copa do Mundo de 2014. A empresa é uma das integrantes do consórcio VLT Cuiabá, que apresentou o seu projeto ontem à Comissão de Licitação no valor de R$1,4 bilhão. A decisão sairá daqui a 10 dias.

Aécio apagado

Grande decepção. É assim que muitos enxergam a figura do senador Aécio Neves. Por onde se passa, ouve-se: trata-se de uma figura apagada. Sem brilho. Sem discurso. Uma estrela cadente. Este consultor acha que o senador está perdido no mar. Um naufrago à procura de uma tábua de salvação.

Um truque do Padre Vieira

O Padre Antônio Vieira, o célebre pregador, escritor, político e diplomata jesuíta, subindo certa vez ao púlpito, iniciou estranhamente o seu sermão exclamando:

- Maldito seja o Pai!... Maldito seja o Filho!... Maldito seja o Espírito Santo!...

E quando a assistência, horrorizada, pensava que o grande orador houvesse enlouquecido, ele tranquilamente prosseguiu:

- Essas, meus irmãos, são as palavras e as frases que se ouvem com mais frequência nas profundezas do inferno.

Houve um suspiro de alívio no templo, mas com esse recurso teve Vieira despertada e presa a atenção dos fieis como poucas vezes, por outra via, houvera conseguido. (Narrado por Luis Costa em Leia Comigo)

Conselhos aos candidatos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos membros da CPI das águas. Hoje, sua atenção se volta aos candidatos: atenção, candidatas e candidatos. Se quiserem receber a atenção do eleitorado, se empenhem em arrumar os traços de sua identidade para que sua imagem possa ser bem recebida. Atentem para estes aspectos:

1. Procurem compor um acervo de valores, princípios e ideias. E sempre que possível tentar expressar tal acervo.

2. Estabeleçam um denso e abrangente programa de ações, contemplando regiões, bairros, classes sociais e categorias profissionais.

3. Identifiquem as lideranças e as organizações sociais que mobilizam e animam as comunidades regionais. Tentem fazer parcerias com os elos da organicidade social.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 15 de maio de 2012

OBSERVATÓRIO

Os próximos dias serão decisivos para a pugna eleitoral de outubro vindouro. Semana passada o PMDB definiu o nome do seu pré-candidato a Prefeito: Ivan Monte Claudino. O Vereador Márcio Cavalcante, que disputava com Ivan, votou em si mesmo. Dois outros membros do Diretório se abstiveram. Os demais sufragaram o nome de Ivan. A expectativa em torno dessa escolha é justificável porque, nas Oposições Unidas, há um consenso: a cabeça da chapa deverá ficar com um partido da base aliada do Governo Estadual. Como o PSB, agremiação do Governador, e o PSD, linha auxiliar imediata, estão sem quadros disponíveis para o embate no momento, a escolha recairá sobre o nome do PMDB. A Comissão Coordenadora encaminhará, de agora em diante, os passos para a escolha da chapa completa.

O CAMINHO

Desde o início, houve um entendimento para que a definição da chapa oposicionista ocorresse democraticamente, ou seja, de baixo para cima. Os líderes maiores respeitaram isso. Não há um registro sequer de interferência dos Deputados Domingos Neto, Hermínio Rezende ou Nenen Coelho – que apóiam o movimento – no sentido de direcionar a escolha. O vice-governador Domingos Filho, o ex-Deputado Antonio dos Santos e outros líderes de expressiva influência no município também deixaram os aliados à vontade, a fim de que ninguém pudesse argumentar que houve imposição.

MORAR EM CRATEÚS

É óbvio que, até chegar a ser escolhido pré-candidato, Ivan teve que enfrentar resistências. Alguns oposicionistas argumentaram que o candidato deveria ser alguém que reside em Crateús. Esse debate deve ser respeitado e enfrentado. Para alguém ser candidato no Brasil tem que preencher as chamadas “condições de elegibilidade”. Estas são condições legalmente exigidas para todo cidadão que se proponha a exercer cargo público eletivo. Estão dispostas no artigo 14, § 3º, da Constituição Federal. Vejamos: Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: (...) § 3º - São condições de elegibilidade, na forma da lei: I - a nacionalidade brasileira; II - o pleno exercício dos direitos políticos; III - o alistamento eleitoral; IV - o domicílio eleitoral na circunscrição; V - a filiação partidária; VI - a idade mínima de: (...) c) vinte e um anos para Deputado Federal, Deputado Estadual ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeito e juiz de paz; d) dezoito anos para Vereador.

MORAR EM CRATEÚS II

Resumindo: para postular uma candidatura a pessoa há que preencher os seguintes requisitos: nacionalidade brasileira, o pleno exercício dos direitos políticos, o alistamento eleitoral, o domicílio eleitoral na circunscrição, a filiação partidária e a idade mínima exigida. A pergunta é: o senhor Ivan Monte Claudino preenche esses requisitos legais? Sim. Então, do ponto de vista da lei, ele pode ser o candidato. Agora tratemos das razões políticas. Nos últimos quarenta anos só tivemos duas pessoas à frente da Prefeitura que nunca moraram fora de Crateús: Lionete Camerino e Leandro Martins. Antonio Lins, prefeito que antecedeu Lionete, era bancário no Maranhão quando foi convocado para ser o candidato. Após o Leandro Martins, tivemos Sérgio Morais, Zé Almir, Nenzé, Paulo Nazareno e Carlos Felipe. Sérgio Morais, figura leve e agradável, em verdade tornou-se crateuense por laços de trabalho e matrimônio. Zé Almir, Nenzé, Paulo Nazareno e Carlos Felipe tiveram que residir alguns anos fora de Crateús para obterem as respectivas formaturas. Portanto, não é o fato de residir na cidade que vai garantir se a pessoa poderá ter um bom ou mau desempenho como Prefeito. Vínculos afetivos, umbilicais, históricos e sociais com a cidade todos têm. O que sinalizará se o candidato pode oferecer um contributo à altura do que a comunidade espera é o seu preparo pessoal, sua visão de mundo, seus traços de caráter, a sua capacidade de traduzir o anseio popular.

OAB

A carência de magistrados e servidores na comarca de Crateús será discutida em audiência pública a ser realizada hoje, às 9 horas, no auditório do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA) do município, na Rua Auton Aragão. O vácuo da ausência de prestação jurisdicional gera um enorme sentimento de abandono nas pessoas. Nos últimos conflitos entre administradores e administrados, notadamente nas negociações entre Servidores e Prefeitura, os munícipes têm sido salvos pela atuação firme, corajosa e altiva do Ministério Público, através do doutor José Arteiro Soares Goiano. Às vésperas de mais uma eleição municipal – via de regra acirrada – é inconcebível que uma cidade do porte de Crateús padeça de magistrados.

BARROS PINHO

No próximo dia 25 de maio José Maria Barros Pinho completaria 73 anos. Era um pescador de sonhos da bacia Poty-Parnaíba. Nasceu no Piauí, mas pertencia ao mesmo redemoinho telúrico fluvial nosso. Tinha na pele a marca das jitiranas do Crateús. Deixou-nos 12 belíssimas obras literárias. Membro da Academia Cearense de Letras, vereador, deputado estadual, prefeito de Fortaleza, secretário de Cultura do Estado, presidente do Instituto de Previdência do Município de Fortaleza e, por último, presidente da Fundação de Cultura de Maracanaú. Era barro e era pinho! Tinha a força germinal da terra e o lirismo contagiante dos pinheiros. Era barro e era pinho!

PARA REFLETIR

“Na antífona com que abre o seu livro “Circo Encantado”, publicado em 1975, Barros Pinho anuncia a chegada do encantamento na vereda das águas/ na poeira do sol. E, ao fechar o livro, parte com o que restou do espetáculo: aqui vai o circo/trapézio quebrado/areia nos pés/palhaços na rua. Agora, ainda sob o impacto de sua partida inesperada, tropeçamos nos destroços do ciclone emocional que caiu sobre nós. O circo encantado de sua poesia, o aconchego de sua convivência, sua visão crítica do mundo e os demais exercícios de inteligência com que nos brindava na tribuna do parlamento, na academia e na mesa do bar se espalham por todos os cantos da memória aflita e dolorosa de seus companheiros”. (Juarez Leitão)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

MANOEL MELO CAVALCANTE



Sábado passado, apresentando mais um livro do poeta Dideus Sales, ensaiei uma resposta sobre a tarefa de um poeta. Relembrei aquele episódio ocorrido com o poeta Olavo Bilac. O dono de um pequeno comércio, amigo, abordou-o na rua: - Sr. Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que o senhor tão bem conhece. Poderá redigir o anúncio para o jornal? Olavo Bilac apanhou um papel e escreveu: "Vende-se uma encantadora propriedade, onde os pássaros cantam ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e mareantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda." Meses depois se reencontraram. O poeta perguntou se o amigo havia vendido o sítio. - Nem pense mais nisso, disse o homem. Quando li o anúncio foi que percebi a maravilha que tinha.

Eis a tarefa de um poeta: revelar a beleza escondida nas coisas, nos lugares e nas pessoas!

Semelhante missão têm aqueles que abraçaram a apaixonante e sacerdotal causa do magistério. Ser educador é deslizar na correnteza da sabedoria, perscrutar talentos, retirar poeira de diamante. Não é entregar a isca e o anzol, mas desenvolver o gosto pela pesca. Não é oferecer a faca e o queijo, mas despertar a vontade de comer. Educar não é lançar, mas extrair, retirar de dentro.

Dos meus tempos de aluno do então “Ginásio Pio XII”, em Crateús, lembro da silhueta de um amante do magistério. Alto e sereno, reservado e narigudo, aristocrático e silencioso. Era inimaginável que aquele corpo esguio escondesse um glutão compulsivo, incorrigível devorador de letras, voraz consumidor de livros. Pois Manoel Melo Cavalcante, nos anos do decênio iniciado em 1970, já havia engolido mais de mil livros. Aprendera com um mestre Taoista que passar três ou quatro dias sem ler causava debilidade nas palavras, fraqueza na memória, deficiência no cérebro.

Hoje, exilado em Fortaleza, revisita as páginas que protagonizou no álbum da própria existência. Recompila o capítulo em que, com asas de sonho, pousou na Capital para estudar no Colégio Cearense. A alimentação irregular, em hotéis e restaurantes, provocou a abertura de uma ferida no estômago e forçou o retorno à terra natal no início da década de 1960.

Foi quando resolveu descer do berço da própria solidão e espalhar sobre o chão de giz o óleo do amor à leitura. Lecionou inicialmente na Escola Técnica de Comércio Padre Juvêncio, onde foi Vice-Diretor de 1968 a 1975.

Em 1976, por influência do Deputado Antonio dos Santos – na época, líder absoluto no município – vira Vice-Prefeito da chapa encabeçada pela primeira mulher a chefiar o Executivo Municipal, Lionete Camerino. Aceitou a missão com a alma fervilhando de projetos. Imaginava que, em algum momento, seria instado a colaborar ativamente no comando da cidade. Aquele mar de sonhos, no entanto, virou um martírio. Se pudesse, eliminaria as páginas que tratam dessa estação...

Após esse período, se deixou embalar pelas ondas do rádio, dirigiu o Colégio Regina Pácis e prestou serviços na Delegacia Regional de Educação. A bandeira da educação empunhou até o dia em que recebeu a carta de aposentadoria.

Atualmente reside em um dos pontos mais altos de Fortaleza, próximo das principais torres de TV da cidade, no cosmopolita bairro Dionísio Torres. Ali, entrega-se a uma tarefa cada vez mais rara: recuperar molduras factuais sob a precisão das datas. Por isso esquadrinha o tabuleiro da história e recompõe a cronologia da ribeira em que nasceu, que pretende exibir em formato de livro.

No mais, nota-se uma invisível trava de melancolia nas cercanias de sua alma. Diz que a aposentadoria equivale a ser um vagabundo mal remunerado. Sente-se só. E, sobre os ombros, o peso das barras de ferro do abandono. Porém, quando o indago se ainda é capaz de sentir o silvestre perfume do original torrão, desaparece a lamentação e faz irromper uma canção. Rejuvenesce o poeta, que abre o coração:

Crateús, oh! Terra boa,
E prá que seja sempre assim
Protege minha pessoa
Nosso Senhor do Bonfim!


(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

domingo, 13 de maio de 2012

NÃO HÁ QUEM FAÇA POR MIM AS COISAS QUE MAMÃE FEZ

O ser mãe é diferente
De todos os outros seres
Dona de múltiplos saberes
Fonte que dá vida a gente
Sente o que ninguém mais sente
Não cultiva insensatez
Ela nunca será “ex”,
Pois seu amor é sem fim.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Minha mãe é igualzinha
A todas as outras mães,
Ama os filhos como os cães
Amam seus donos, sem rinha,
Tem nobreza de rainha
Em tudo tem altivez
Desde a sua gravidez
Até hoje é sempre assim.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Escondeu minha viola
Para papai não quebrar
Quando eu comecei cantar
Lá na nossa fazendola,
Me mandou para escola
Eu já grande, aos dezesseis
Papai não era freguês
De música, cultura, enfim,
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


E quando papai brigava
Por alguma danação,
Mamãe dava proteção
E em mim ninguém tocava,
Nos braços me aconchegava
Dava um beijo, dois ou três,
E papai por sua vez
Virava um estopim...
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Não é que eu goste mais
Da mamãe que do papai,
Por que nada subtrai
Meu amor pelos meus pais,
Mas os dois não são iguais,
Podem ser perante as leis,
De papai ouvi “talvez”,
De Mamãe só ouvi “sim”.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Mamãe, mulher decidida,
Desvelada e coerente,
Defensora intransigente
Da sua prole querida,
Me fez enxergar a vida
Com muito mais nitidez,
Seu carisma e lucidez
Me lapidaram assim.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Toda mãe que ao filho mima
Dá amor e diversão,
Pra que eu fosse a um chitão
Na casa de minha prima
No sítio Várzea de Cima,
Minha mãe com gosto fez
A camisa de xadrez
E a calça curta de brim.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Ela soube me ensinar
Caminhar no rumo certo,
Seu exemplo, um livro aberto
Ricas lições a me dar,
Até para reclamar
Falava com polidez,
Expunha com sensatez
Tudo, tintim por tintim.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Dizia-me com brandura
Quando eu saía do trilho,
Tenha cuidado meu filho,
Não ande em vereda escura,
Mantenha sempre lonjura
De boêmio e de burguês,
Não quero vê-lo freguês
De balcão de botequim.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


Minha mãe tinha grandeza
Em não demonstrar ressábios,
Sorvi seus conselhos sábios
Dados com delicadeza,
Parecia uma princesa
No porte, na intrepidez,
Imprimia altivez
Com doçura de alfinim.
Não há quem faça por mim,
As coisas que mamãe fez.


(Dideus Sales e Tião Simpatia)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

CHÃO DE GIZ





A HISTÓRIA DA MÚSICA
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O Zé Ramalho teve, em sua juventude, um caso duradouro com uma mulher casada, bem mais velha, da alta sociedade de João Pessoa, na Paraíba. Conheceram-se num Carnaval.

Ele se apaixonou perdidamente por essa mulher, só que ela era casada com uma pessoa influente da sociedade, e nunca iria largar toda aquela vida por um "garoto pé rapado" que ela apenas "usava" para transar gostoso.

Assim, o caso, que tomava proporções grandes, foi terminado. O Zé ficou arrasado por meses, e chegou a mudar de bairro, pois morava próximo a ela. E, nesse período de sofrimento, compôs a canção. Conhecendo a história, você consegue perceber a explicação para cada frase da música, que passo a transcrever:

"Eu desço dessa solidão, espalho coisas sobre um chão de giz"
Um de seus hábitos, no sofrimento, era espalhar pelo chão todas as coisas que lembravam o caso dos dois. O chão de giz também indica a fugacidade do relacionamento, facilmente apagável (mas não para ele...)

"Há meros devaneios tolos a me torturar"
Devaneios, viagens, a lembrança dela a torturá-lo.

"Fotografias recortadas de jornais de folhas... amiúde"
Outro hábito seu era recortar e admirar TODAS as fotos dela que saiam nos jornais - lembre-se, ela era da alta sociedade, sempre estava nas colunas sociais.

"Eu vou te jogar num pano de guardar confetes"
Pano de guardar confetes são aqueles balaios ou sacos típico das costureiras do nordeste, onde elas jogam restos de pano, papel, etc. Aqui, ele diz que vai jogar as fotos dela fora num pano de guardar confetes, para não mais ficar olhando-as.

"Disparo balas de canhão, é inútil pois existe um grão vizir"
Ele tenta ficar com ela de todas as formas, mas é inútil pois ela é casada com o tal figurão rico (o Grão Vizir)

"Há tantas violetas velhas sem um colibri"
Aqui ele pega pesado com ela... há tantas violetas velhas (como ela, bela, mas velha) sem um colibri (jovem pássaro que a admire). Aqui ele tenta novamente convencê-la simbolicamente, destacando a sorte dela - violeta velha - poder ter um colibri, e rejeitá-lo.

"Queria usar quem sabe uma camisa de força ou de Vênus"
Bem, aqui é a clara dualidade do sentimento dele. Ao mesmo tempo em que quer usar uma camisa de força, para manter-se distante dela e não sofrer mais, queria também usar uma camisa de Vênus, para transar com ela.

"Mas não vão gozar de nós apenas um cigarro"
Novamente ele invoca a fugacidade do amor dela por ele, que o queria apenas para "gozar o tempo de um cigarro". Percebe-se o tempo todo que ele sente por ela profundo amor e tesão, enquanto é correspondido apenas com o tesão, com o gozo que dura o tempo de se fumar um cigarro (também representativo como o sexo, pois é hábito se fumar um cigarro após o mesmo).

"Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom"
Para que beijá-la, "gastando o seu batom"
(o seu amor), se ela quer apenas o sexo?

"Agora pego um caminhão, na lona vou a nocaute outra vez"
Novamente ele resolve ir embora, após constatar que é inútil tentar. Mas, apaixonado como está, vai novamente "à lona" - expressão que significa ir a nocaute no boxe, mas que também significa a lona do caminhão com o qual ele foi embora - lembre-se que ele teve que se mudar de sua residência para "fugir" desse amor doentio

"Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar"
Auto-explicativo, né?! Esse amor que, para sempre, irá acorrentá-lo, amor inesquecível.

"Meus vinte anos de boy, "that's over, baby", Freud explica"
Ele era bem mais novo que ela. Ele era um boy, ela era uma dama da sociedade. Freud explica um amor desse (complexo de Édipo, talvez?).
Em todo caso, "that´s over, baby", ou seja, está tudo acabado.

"Não vou me sujar fumando apenas um cigarro"
Ele não vai se sujar transando apenas mais uma vez com ela, sabendo que nunca passará disso

"Quanto ao pano dos confetes já passou meu carnaval"
Lembrem-se, eles se conheceram num carnaval. Voltando a falar das fotos dela, que ele iria jogar num pano de guardar confetes, ele consolida o fim, dizendo que agora já passou seu carnaval, ou seja, terminou, passou o momento.

"E isso explica porque o sexo é assunto popular"
Aqui ele faz um arremate do que parece ter sido apenas o que restou do amor dele por ela (ou dela por ele): sexo. Por isso o sexo é tão popular, pois só ele é valorizado - uma constatação amarga para ele, nesse caso.

Há quem veja também aqui uma referência do sexo a ela através do termo "popular", que se referiria ao jornal (populares), e ela sempre estava nos jornais, ele sempre a via neles.

"No mais estou indo embora"
Bem, aqui é o fechamento. Após sofrer tanto e depois desabafar, dizendo tudo que pensa a ela na canção, só resta-lhe ir embora.

(Fonte: facebook do jota junior)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

CRATEÚS DISCUTE PROBLEMAS DO JUDICIÁRIO EM AUDIÊNCIA PÚBLICA

A carência de magistrados e servidores na comarca de Crateús será discutida em audiência pública a ser realizada no dia 15 de maio, às 9 horas, no auditório do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) do município, na Rua Auton Aragão.

A maioria das comarcas do Interior do Estado enfrenta sérios problemas de falta de juízes e funcionários, fato que se agravou com a criação de novas varas. A situação gera uma série de transtornos, como a falta de acesso à Justiça pela população, sobrecarga de trabalho dos magistrados que são obrigados a passar a responder por mais de uma comarca, além da lentidão da prestação jurisdicional. A ausência de infraestrutura das unidades judiciais é outro problema grave.

Para buscar uma solução, a Secional Ceará da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE) vem realizando audiências públicas, em parceria com as subseções da entidade e as Câmaras Legislativas, nos municípios carentes de uma Justiça célere e em bom funcionamento. O evento já aconteceu nas cidades de Tianguá, Maranguape, Aracati, Acopiara, Tauá e Iguatu. Segundo levantamento da OAB-CE, em 60 comarcas do Interior, quase 80% dos servidores que atuam nos fóruns são cedidos por prefeituras. “O Judiciário Estadual está na UTI”, afirmou o presidente da entidade, Valdetário Andrade Monteiro.

OBRIGADA, MÃE!



Minha mãe sempre cantava

E não poupava alegria.

Fazia versos, paródias,

Enfeitando o dia-a-dia,

Costureira e professora,

E mestre na poesia.

*

Na cozinha caprichava,

Fazendo nossa comida,

Seu tempero incomparável

Dava gosto a nossa vida,

Minha mãe se desdobrava,

Pra nos dar melhor guarida.

*

O tempo passa ligeiro,

Meu Deus que velocidade...

Minha mãe está velhinha

E eu sinto tanta saudade

Daquela mãe tão ativa,

Da nossa felicidade...

*

Minha mãe muito obrigada

Por tudo que você fez.

Eu hoje também sou mãe

E chegou a minha vez,

De lutar pelos meus filhos

E ter sua sensatez.


(Dalinha Catunda)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Da casa do...!

Primeiro mandato de Garibaldi Alves Filho como governador do Rio Grande do Norte. Dava-se a largada dos projetos de aprimoramento dos recursos hídricos do Estado. O coroamento se deu posteriormente com as adutoras que se tornaram uma marca registrada do seu governo. Na cidade de Patu, participando de uma inauguração oficial, Garibaldi foi cobrado do público pelo início do serviço de abastecimento d'água da cidade, esperado com muita ansiedade. Sem se afobar, como é do seu hábito, o governador discursou, pegando carona na cobrança popular e colocando nas palavras indisfarçável irritação :

- Vou botar água em Patu nem que a água venha da casa do....! Parou. Sentindo que não podia ir além, o governador repetiu a frase:

- Já autorizei Rômulo Macedo a elaborar o projeto e vou botar água em Patu nem que a água venha da casa do...! Parou de novo. Populares na frente do palanque apressaram-se a ajudar o governador:

- Da casa do cacete....

O orador, sutil e perspicaz, arrematou:

- Eu não queria dizer essa palavra...! Risos gerais. Gari guardara a postura e conseguiu aplausos. (Do acervo de Valério Mesquita)

O desempenho da presidente

A presidente Dilma Rousseff supera as expectativas no campo da gestão. É o que se infere de conversas com empresários, esfera política e jornalistas. Mexeu no mecanismo da poupança sem o estardalhaço da estabanada era Collor. Com ganhos um pouco mais baixos, a poupança, mesmo assim, continua a ser um bom porto para os investimentos. A presidente, na verdade, quis conter a avalanche que poderia inundar o mecanismo, caso continuasse a oferecer a base de incentivos que proporcionava. Não mexeu nas contas de poupadores antigos. E força a queda dos juros.

Colchão social

Desenhada a nova arquitetura da poupança - e na esteira de movimentos que tendem a forçar os bancos a diminuir seus spreads - o governo Dilma parte para nova frente : o colchão social. Decide aumentar o Bolsa Família e estabelecer um pacote com ações para a primeira infância - crianças de 0 a 6 anos. Ou seja, o governo ampliará os repasses do Bolsa Família para quem tem filhos nessa faixa etária, além de reforçar oferta de serviços de saúde e educação. O governo fornecerá gratuitamente 3 remédios contra asma, como já existe nas áreas de hipertensão e diabetes.

Plasmando a identidade

O modus operandi do governo Dilma exibe algumas metas e preocupações : fechar os buracos em toda a malha administrativa ; gerir com parcimônia as demandas políticas ; arrochar os cinturões do governo, particularmente os que circundam os cofres públicos ; avaliar os atrasos nas frentes obreiras ; evitar estouros de contas em algumas frentes ainda sem muito controle ; centralizar processos da gestão. Há críticas a esse modo de governar, particularmente no que toca à excessiva centralização. Diz-se, por exemplo, que a presidente é capaz de passar três horas analisando planilhas, detalhes, curvas crescentes e descendentes. É seu jeito. Por isso mesmo, tem uma visão mais abrangente e plena da administração Federal.

Pequena e tão grande

Alcides Carneiro, advogado, poeta, político, um dos maiores oradores da Paraíba. Vamos entremear a coluna com algumas de suas frases.

"Paraíba: Terra que se fez pequena para não parecer tão grande!" (Durante campanha para a Câmara Federal).

"Paraíba que é pequenina na sua configuração geográfica, mas, que é grande no heroísmo dos seus filhos..."

Lula sem o viço

A continuar nessa modelagem administrativa, não haverá espaço para eventual volta do ex-presidente Luiz Inácio. Que representa um tempo e um estilo de governo. Popular, carismático, discursivo, exuberante, animador de plateias, mobilizador de multidões. Pois bem, esse estilo teve seu espaço e seu tempo. Regressar a ele é, de alguma forma, retroceder. O país agora abre fronteiras no território da racionalidade. Ademais, Lula já não tem o viço, o dinamismo, a força física que exibia para enfrentar os mais espinhosos caminhos. Vê-se um perfil debilitado. Em convalescença.

Lula como consultor

Por mais que possa ser considerado um paciente curado de grave enfermidade, sobrarão sempre lembranças e resquícios de um ex-doente que não pode e não deve cometer exageros. Dona Marisa Letícia é a primeira a se opor a um programa que ameace debilitar seu marido. Por todo esse conjunto de coisas, o cenário mais viável é o que aponta a permanência de Lula no lugar mais confortável de consultor, orientador, moderador, apaziguador de querelas.

Campina Grande

Num comício em Campina Grande, Alcides Carneiro falava e foi aparteado por um popular.

- "Campina Grande é de Argemiro!..."

De imediato respondeu: - "Campina, és muito grande para pertenceres a um só homem...".

Enfrentando o aríete político

É evidente que os políticos da base tendem a fazer cada vez mais pressão junto ao Executivo para que este atenda seus pleitos e demandas. Na verdade, o que um político quer é que as verbas alocadas para ações e projetos em suas bases sejam liberadas. Ele tem esse direito e pressiona o Executivo, chegando a fazer ameaças de não votar de acordo com a orientação do Palácio do Planalto. Mas teme represálias da opinião pública. Afinal, a presidente surfa numa alta onda de prestígio, hoje em torno de 86% de aprovação. Os políticos não querem enfrentar um governante no auge de sua aprovação. E Dilma, sob esse escudo, vai plasmando a administração à sua imagem e semelhança. Hipótese : a possibilidade de um governante executar com êxito programas e ações é maior quando está no clímax da aprovação popular. A recíproca é verdadeira.

CPI das águas correntes

Nem bem foi aberta, a CPI das Águas Correntes já cria traumas. Os parlamentares que a integram queixam-se do excesso de vigilância e da falta de dados na sala que guarda os documentos. São obrigados a deixar o celular e outros objetos do lado de fora. Muitos dizem que entrar na sala é um mico. Ocorre que os vazamentos diários, em tempestades torrenciais, não justificam medidas de extremo cuidado como as que estão sendo tomadas. É pouco provável que os documentos ali guardados contenham informações mais bombásticas do que as divulgadas todos os dias.

1º cenário: águas quentes

1º cenário: águas quentes em Goiás. O senador Demóstenes e o governador Marconi Perillo tomarão um banho quente. Demóstenes sairá mais chamuscado do que Perillo. A temperatura de sua imersão deverá ser de 90º C. Água quase em ebulição. Mas o banho de Carlinhos Cachoeira será com água fervendo a 100º C. Já a pele do governador poderá ser preservada com a aplicação de pomadas compradas na lojinha de conveniências. O deputado Carlos Alberto Leréia também aproveitaria a pomada.

2º cenário: águas podres

2º cenário: águas fétidas do Lago Paranoá. O governador Agnelo Queiroz será inundado por águas do lago, mas é bem possível que, na hora H, surja uma canoa saída da lojinha de conveniências recíprocas, guiada pelos partidos, que seria sua tábua de salvação. É possível que o banho do governador respingue em parte de sua equipe.

3º cenário: águas

3º de cenário: Baía da Guanabara esplendorosa. O governador Sérgio Cabral, que adora festas, poderá dar um mergulho na baía, não a ponto de se afogar. Respingos cairão sobre a cabeça do deputado Stepan Nercessian.

Cruz das armas

Em Cruz das Armas, na campanha política de 1950, iniciado o discurso de Alcides, o tempo mudou e começou a chover. Motivado, Alcides declarou:

- "Sou recebido com palmas, bênção dos homens e, sob a chuva, bênção de Deus, que umedece e fertiliza o generoso solo da nossa Paraíba".

Perfis

Registro, com satisfação, o recebimento do livro do amigo, advogado, ex-ministro do TSE, ex-conselheiro Federal da OAB, membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas e, sobretudo, figura celebrada pelas sementes de amizade que espalha por todos os cantos onde circula, Roberto Rosas : "Perfis do Mundo Jurídico". A obra contempla perfis no Supremo Tribunal Federal ; perfis no Tribunal Superior Eleitoral ; perfis acadêmicos e perfis do mundo jurídico. Editado por Migalhas, 345 páginas.

Código Florestal

A presidente Dilma tem, até o dia 25 de maio, para se manifestar sobre o projeto do Código Florestal. Certamente fará vetos. A essa altura, há quem diga que a presidente vetará o projeto totalmente. Outros acham que o veto será sobre partes, incluindo o artigo que trata da recomposição de matas ciliares.

Mais Alcides

"Os que menos recebem, são os que mais agradecem...".

"Pedir não ofende, humilha mais a quem nega, do que a quem pede...".

"Deus estava irado quando inventou a paixão".

Dívida dos Estados

O calendário de votação do Congresso está apertado. Ainda mais tendo pela frente o desdobramento (imprevisível) da CPI do caso Cachoeira. Haverá recesso parlamentar em julho, enquanto o segundo semestre será praticamente dedicado às eleições municipais. Deputados e senadores querem ajudar seus candidatos, sendo que muitos parlamentares (da Câmara) serão, eles mesmos, candidatos. O governo se angustia ante a necessidade de se aprovar, ainda este ano, a mudança no indexador da dívida dos Estados com a União e as novas regras de rateio do Fundo de Participação dos Estados. Por determinação do Supremo Tribunal Federal, deveriam ser aprovadas até dezembro.

2º turno paulistano

Grande dúvida cerca o pleito paulistano, principalmente o segundo turno. Entre 0 a 10, o candidato tucano José Serra ganharia, hoje, nota 8 como provável candidato ao segundo turno. A questão é : quem disputaria com ele ? O PT aposta em Fernando Haddad, confiando nos 30% históricos de intenção de voto que o partido arruma em São Paulo. Desta feita, porém, a dúvida se instala com mais intensidade, eis que o ex-ministro da Educação patina em parcos 4% a 5%. Lula teria condições de levá-lo nas costas ? Muitos garantem que sim. Há controvérsias. Por isso, cresce a expectativa em torno de Gabriel Chalita. Que já anuncia o cenário : teria o apoio do PT contra Serra no segundo turno; ou teria o apoio do tucano Alckmin, governador e poderoso, contra Haddad, se este desbancar o Serra. Difícil de apostar nesse momento.

Recorde de público

Esta coluna registra dois aniversários, semana passada, que bateram recorde de convidados : o do presidente da OAB/SP, Luiz Flávio Borges D'Urso, pré-candidato do PTB à prefeitura de SP, e o do deputado Gabriel Chalita, pré-candidato do PMDB. Compareceram aos eventos cerca de 2 mil pessoas. A festa no Jockey Club para D'Urso reuniu muitas personalidades, entre os quais o vice-presidente Michel Temer, o governador Alckmin, o prefeito Kassab, os candidatos José Serra (PSDB), Celso Russomano (PRB), deputados Federais e estaduais, vereadores e secretários de Estado, e de Gabriel Chalita, que também recebeu, dias depois, no bar Brahma, o abraço de importantes figuras da vida pública, a partir do vice-presidente Temer.

Paes em paz?

Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, candidato à reeleição pelo PMDB, não deverá ser atingido por eventual borrasca a cair sobre Sérgio Cabral, governador.

Hollande e a realidade

François Hollande ganhou as eleições francesas com um discurso focado para a quebra de austeridade. Sua visão é de que não é com ortodoxia que a Europa sairá da crise que aperta suas finanças. Os gregos fazem a ele um desafio : apoiar os partidos gregos que também rejeitam a austeridade. Pedem que ele não endosse a firme decisão da primeira ministra alemã, Ângela Merkel, que é a de apertar os controles e equilibrar os orçamentos. Significaria extraordinário esforço para renegociar o pacto fiscal da União Europeia. A dúvida entre afrouxar e apertar - eis o manto que cobre o perfil do socialista Hollande.

Selo de qualidade: empresas contábeis

Hoje, será realizada no Expo Transamérica, em São Paulo, a 7ª edição do Programa de Qualidade de Empresas Contábeis (PQEC 2012). Serão mais de 400 organizações certificadas com o selo que garante a excelência dos serviços prestados na área da contabilidade. "Com a velocidade da informação e o aumento da exigência dos consumidores, a qualidade dos serviços passou a ser fundamental para o sucesso das organizações", afirma José Chapina Alcazar, presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e de Assessoramento no Estado de São Paulo (Sescon/SP) e idealizador da premiação. Parte das empresas certificadas conquistarão também o selo internacional ISO 9001:2008, fruto de uma parceria entre o Sescon/SP e a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). O evento contará com o show da dupla Victor e Leo. São esperadas 4,5 mil pessoas.

Bom samaritano

A China começa a adentrar o território das boas ações. Incentiva com dinheiro a quem pratica as virtudes do bom caráter. O brasileiro Mozer Rhian Oliveira, 27 anos, gaúcho, evitou que uma chinesa fosse furtada na rua. Levou uma surra dos larápios sob os olhares de transeuntes que não lhe prestaram nenhum socorro. O governo chinês reconheceu a boa ação e, como estímulo e reconhecimento, lhe deu 50 mil yuans, R$ 15,2 mil. Será que essa prática seria bem acolhida por estas plagas ? Tenho, aqui, minhas dúvidas.

Sanatório para tuberculosos

"Esta é uma casa que por infelicidade se procura, mas por felicidade se encontra".

Hospital dos servidores

"Este hospital nasceu da bondade dos que sentem e viverá da confiança dos que sofrem".

Alcides Carneiro, um grande tribuno.

Conselho aos membros da CPI das águas

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos membros do Ministério Público. Hoje, sua atenção se volta aos membros da CPI das águas:

1. Estejam atentos ao que é principal e ao que é acessório. Procurem ajustar o foco para as questões centrais, evitando que as querelas partidárias acabem canibalizando as investigações.

2. Há muitas informações vazando pelos ralos dos investigadores. A essa altura, a teia é tão cheia de fios, que chega a confundir os mais experientes leitores. Procurem separar os fios de cada rolo.

3. Não se deixem levar pela fosforescência midiática. Ajam como parlamentares na função investigativa. Sem excessos. Sem maneirismos. Sem manobras que possam prejudicar o andamento das apurações.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 8 de maio de 2012

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Mercados nervosos I

Dois países, duas sociedades, decidiram que querem mudar o rumo das suas economias. A França e a Grécia, esta última com maior intensidade, votaram neste último fim de semana e a conclusão é que para os cidadãos o sofrimento com o desemprego e a depressão econômica estão pesando muito para serem tratados como mero assunto econômico. A liderança da Alemanha e a sua receita "tradicional" está sob risco. Com isso, o mercado financeiro ficou novamente nervoso e temeroso de que um cenário incrementado de risco venha a prevalecer. O certo é que na Grécia mais de 50% dos jovens (até 30 anos) não tem emprego - a taxa de desemprego total é de cerca de 25%. Na Espanha o cenário é igualmente grave. Na França está se agravando. Em Portugal prevalece o pessimismo. E assim vai.

Mercados nervosos I

Angela Merkel, muito bem acomodada politicamente nas fronteiras alemãs, sabe que as coisas mudaram e trabalhará para que tudo continue como dantes. Todavia, o tempo e o sofrimento social não permitirão que os problemas sejam tratados como se as economias funcionem como se fossem orçamentos domésticos. Lord Keynes já descobriu nos anos 30 do século passado que num cenário depressivo receitas tradicionais de nada servem. É preciso inventividade e liderança, ainda mais quando a origem da crise surgiu pela irresponsabilidade dos governos no tratamento de suas contas fiscais associadas a uma especulação secular. Nas próximas semanas, as páginas políticas da mídia é que darão o tom dos mercados e fazer apostas neste momento é tarefa arriscada. De nosso lado, a recomendação é de cautela. De toda a forma, a tendência mais clara é que passaremos por uma nova rodada de tensões nas próximas semanas. A começar pela Grécia dividida que terá de anunciar para o seu povo que vem aí mais uma rodada de aperto fiscal para pagar as contas de junho e julho. Quem viver, verá.

Riscos financeiros

A estabilidade do sistema bancário europeu está mais do que tensa. O cenário de iliquidez está voltando com tudo. Enquanto isso, as agências de classificação de riscos continuam trabalhando como se fossem marinheiros do Titanic : sabem o que está acontecendo, mas ficam com seus alertas inúteis.

Desconstruindo Lula?

Não por gosto, mas por necessidade, o fato é que a presidente Dilma tem procurado afastar cada vez a imagem de seu governo da de seu antecessor. Não passam despercebidos de nenhum bom observador da cena política nacional os movimentos da presidente, iniciado com a história da "faxina" - amainado em seguida porque, insegura politicamente ainda, ela precisou de Lula para acalmar muitos aliados - agora a faxina é retomada. O tiroteio contra os bancos, a firme determinação de forçar o BC a continuar empurrando os juros básicos para baixo e a ousadia política de alterar as regras de remuneração das cadernetas de poupança, contrastam com a timidez de Lula nesta área. Auxiliares de Dilma discretamente chamam a atenção para esta diferença entre os dois. Ousa-se até dizer que o padrinho dela era um tanto submisso ao interesse do mundo financeiro e à vontade do BC lembrando que o dito guardião da moeda era dirigido por um ex-banqueiro, Henrique Meirelles, e hoje o é por um homem da instituição e com uma diretoria de funcionários públicos comprometidos com a questão de Estado.

Mais evidências da "faxina"

A ofensiva da Dilma (com Graça Foster na presidência da Petrobras) para reduzir a influência política na empresa, também é apresentada - e visto externamente - como parte desse processo de "desconstrução" de certa herança lulista. Um processo que atinge também parte do PT mais ligado ao ex-presidente, especialmente sua vertente paulista. Dilma, avalia-se, continuará prestando todas as homenagens que Lula merece, como a participação direta nas homenagens que ele recebeu no Rio de Janeiro, das universidades públicas, na sexta-feira. Até com direito a choro presidencial. Mas o distanciamento do estilo Lula de governar será marcado cada vez mais.

Desconstruindo a oposição?

Sem alarde, mas com atitudes de gosto popular, tal qual a cruzada contra os bancos e a campanha dos juros baixos, a presidente está também tirando o fôlego da oposição. Seus líderes não têm nada a dizer - de bom e de concreto - sobre essas últimas ações da presidente. Nem propostas alternativas. Nem mesmo sobre as mudanças na caderneta de poupança, um risco político calculado que Dilma resolveu tomar, os oposicionistas sabem o que falar. Perplexos, sem discurso, parecem estar esperando algum Godot: um possível, eventual fracasso das medidas da presidente. Correm risco de completa inutilidade.

O PMDB desconstruído

O partido de Sarney, Temer, Jucá, Henrique Alves e Renan viu os movimentos para a convocação da CPI com um sorriso maroto e com aquele ar blasé de quem não tem nada com os fatos e estava esperando o circo incendiar-se para cobrar alto pelos serviços de bombeiro para controlar a crise que, ao gosto peemedebista, engolfaria a oposição e o PT e pelo menos parte de gente do governo, com Lula e Dilma. O PMDB de tantas batalhas inglórias sentia-se desta vez nas nuvens. Mandou até um segundo time para a CPI. Errou o cálculo quando na liça entrou o volúvel governador do Rio, Sérgio Cabral, amigo de fé e irmão camarada de Fernando Cavendish e da empreiteira Delta. Sérgio Cabral nunca foi da cozinha dos caciques peemedebistas, era mais lulista que tudo - e até ousou, em suprema audácia, insinuar-se para uma vice-presidência de Dilma em 2014. Mas o comando do PMDB, mesmo a contragosto, não pode jogar Cabral aos leões - respingaria no partido, cujo currículo nesse campo nunca foi dos melhores. O PMDB já mergulhou na CPI, agora não mais como um simples e isento observador. O momento de "vestal" ao modo Demóstenes Torres dos peemedebistas durou muito pouco.

A meta de Dilma

Sai definitivamente do ar a meta de inflação e entra a meta do PIB. Todas as decisões do governo só têm este objetivo: alavancar o crescimento da economia. E como o ritmo ainda está lento para o lado da indústria, com estoques elevados, não se descartam novas medidas de incentivo ao setor, independentemente da baixa dos juros.

Conselhos do Conselheiro

Do ex-ministro Delfim Neto em artigo no jornal "Valor Econômico":

"Devido à finitude dos fatores de produção internos e do limite do crédito para financiar as importações, não é permanentemente possível maximizar, ao mesmo tempo, o crescimento econômico e a inclusão social sem produzir ou um aumento da taxa de inflação, que anula e torna uma ilusão a inclusão social, ou um déficit em conta corrente não financiável, que acaba matando ao mesmo tempo o crescimento e a inclusão. O problema é físico e não ilidível por mágicas monetárias, fiscais ou cambiais".

Em tradução livre: não é possível fazer a economia crescer a tapas e pontapés.

A batalha dos juros

Enquanto os bancos oficiais, por "indução" da presidente, ampliam os cortes de suas linhas de crédito, os bancos privados, depois de reduzirem marginalmente suas taxas, parecem ter adotado um modelo "Gandhi" - resistência passiva para ver o que vai dar.

O credo presidencial

Da presidente Dilma no dia em que anunciou as alterações na poupança:

"Queremos um país com taxas de juros compatíveis com aquelas praticadas no mercado internacional. Queremos que o nosso câmbio não seja objeto de políticas [monetárias] expansionistas, que, de forma artificial, sobrevalorizem a moeda brasileira e tornem também de forma artificial os nossos produtos pouco competitivos. É a chamada amarra do câmbio. E queremos que o país tenha impostos mais baixos para segurar a produtividade dos seus produtos, dos seus processos de trabalho (grifo nosso)".

Para a primeira oração do credo, Dilma já botou toda a sua fé, ameaça e os bancos oficiais no ar. Para a segunda, está fazendo o que pode com o BC agindo para desvalorizar o real. Nas duas, porém, nem tudo depende dela. A terceira, porém, a dos impostos mais baixos, está totalmente no colo do governo e do Congresso. Por isso, a pergunta : quando, com a mesma vontade do ataque aos juros, ela vai botar o governo na linha dos impostos mais decentes. E como um todo e não apenas pontualmente, para alguns setores apenas ?

Manda quem pode...

... obedece quem tem juízo. O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, anunciou como iminente a demissão do diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa, um dos poucos remanescentes da era José Sérgio Gabrielli na diretoria da empresa. Sem subterfúgios, Graça Foster desmentiu secamente a informação. E Lobão calou. Que a Petrobras não dá bola, a não ser formalmente, ao ministério das Minas e Energia não é novidade. Lobão sabe das decisões da empresa na última hora, quando elas são fato consumado - quando não sabe pela imprensa. No entanto, alguns atribuem o "escorregão" do ministro, agora, a um lance político calculado. Seria uma tentativa de embolar as mudanças que Graça Foster está fazendo na direção da empresa, criar algum constrangimento para ela e salvar a cabeça de dois protegidos do PMDB que também estão quase na porta da rua : o diretor internacional, Jorge Zeleda, e o presidente da Transpetro, Sérgio Machado. Inútil tentativa.

Fala quem pode

Estranha-se no universo político o silêncio dos mais midiáticos dos ministros da presidente Dilma : Aloizio Mercadante, da Educação, e Alexandre Padilha, da Saúde. Eles estão agora falando para dentro ou, como diz em Brasília, roucos de tanto calar. Outro cujo silêncio deixou de incomodar, falar agora somente sobre o que é pertinente a sua área, deixou de ter opiniões próprias sobre a política econômica, é o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. São coisas que confirmam cada vez mais o temor que os auxiliares têm da presidente Dilma, de seus humores e de suas cobranças.

Poupança: só as cadernetas?

Não há analista sério, do ponto de vista econômico, estritamente técnico, que não tenha aplaudido a presidente Dilma no caso da alteração das cadernetas de poupança. Mas, há, pelo menos, três observações que são repetidas :

1. Alterou-se a remuneração, mas não se eliminou a indexação.

2. É preciso avançar na desindexação da economia brasileira, iniciada com o Plano Real e nunca completada. Outras amarras emperram mudanças mais profundas no sistema financeiro brasileiro.

3. O governo pegou a sua parte na história, pois a alteração na caderneta visa também garantir a manutenção dos clientes para os títulos da dívida pública. Quando ela vai dar uma contribuição maior, reduzindo mais velozmente essa dívida ?

4. Será preciso atacar agora também os juros do crédito imobiliário.

A poupança e a política

Em princípio, Dilma não enfrentará resistências políticas no Congresso no caso das cadernetas. Mas tudo vai depender de como a população reagirá, se ela vai entender as mudanças, com regras mais complexas, e aceitá-las. O governo tem agora pela frente uma batalha da comunicação e vai precisar da ajuda dos bancos particulares. Por precaução, Dilma não saiu para defender a medida. Para atacar os bancos, aproveitou todas as oportunidades possíveis. Nas cadernetas, deixou a exposição mais para Mantega e o BC.

Os efeitos da política de juros

Em que pese os acertos que o governo tem conseguido na política de juros e de câmbio, não há que se esperar uma taxa de crescimento robusta para este ano. Além dos efeitos nefastos da crise internacional, tem-se de considerar que o emprego se estabilizou, que a renda disponível dos assalariados está comprometida com empréstimos do passado e a confiança do consumidor e do investidor está mais baixa relativamente a fase de prosperidade do período entra 2009 e 2011. Talvez tenha chegado o momento do governo fazer um "choque de gestão" no PAC de forma a dar uma injeção de ânimo no setor privado.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

ESQUERDA PISCA PARA DIREITA

Não há mais como escamotear. A era dos conceitos clássicos que banhavam a política está cedendo lugar ao ciclo da personalização, cujos contornos apontam para a prevalência dos indivíduos sobre as ideias, o predomínio da forma sobre o conteúdo.

As ideologias, nesse início de segunda década do século XXI, bifurcam-se na encruzilhada dos desafios de nações às voltas com profunda crise econômica. O continente europeu, berço da civilização democrática, é o cenário mais visível dessa mudança.

Aí, a esquerda desloca seu eixo piscando para a direita, atenuando as cores do seu antigo discurso. Já não eleva ao alto do mastro a bandeira da “propriedade coletiva dos meios de produção”. Nem a provável vitória de François Hollande, hoje, nas eleições presidenciais francesas, significará a entronização do pavilhão vermelho no Palácio do Eliseu.

O moderado líder finca pé na justiça social – escopo central dos partidos de esquerda – mas deixa ver a inclinação para a Terceira Via, mescla de elementos do socialismo e do liberalismo, criada por Tony Blair (1997-2007), a partir do Reino Unido, e endossada pelo então primeiro ministro alemão Gerard Schröder (1998-2005).

O estudioso de linguagem política, Damon Mayaffre (O Estado/29/04/2012), ao constatar tal fato, registra que o empobrecimento do discurso, particularmente na França e no Reino Unido, é um fenômeno que ocorre há 50 anos.

No velho discurso, podia-se ler um acervo composto por conceitos como liberdade, igualdade, democracia, capitalismo, socialismo. Hoje, países democráticos, centrais e periféricos, entre os quais o Brasil, usam esses substantivos sem muita convicção.

Recorde-se que a esquerda começou a redesenhar seu ideário após o esfacelamento do comunismo. A solução foi juntar os tijolos fragmentados do socialismo à argamassa do liberalismo.

Sob a nova composição, a política abriu espaço para novas formas de contestação e novos pólos de representação, hoje presentes na miríade de grupos, entidades e organizações sindicais. As clivagens partidárias do passado ganharam nova roupagem, na esteira do arrefecimento do antagonismo de classes e do enfraquecimento dos particularismos ideológicos.

O desvanecimento dos mecanismos tradicionais da política – partidos, parlamentos, ideologias, bases – e a criação de um novo triângulo do poder, juntando esfera política, burocracia governamental e círculos de negócios, fizeram emergir a era do EU, povoada por líderes e mandatários de todos os espectros, cada qual portando as vestimentas fosforescentes do Estado-Espetáculo.

Assim, o progressivo declínio das estruturas clássicas da política propiciou, em contraponto, um fluxo ascendente de personagens que passaram a ter visibilidade na onda midiática.

A forma tornou-se mais importante que o conteúdo. São um exemplo nossas campanhas eleitorais, cheias de cosmética e centradas em fulanos, sicranos e beltranos.

Pela importância da França na textura democrática, é razoável supor que o redesenho do discurso que ali se pratica serve para espelhar o atual estado da política no mundo. A começar pela desconstrução que o presidente francês promoveu em sua identidade.

Damon Mayaffre mostra que, em sua primeira campanha, Sarkozy identificou-se plenamente com o espírito da direita – puxando conceitos como moral, mérito, trabalho, esforço, civismo. Agora, ataca as instituições da República, como Justiça, imprensa, sindicatos. No fundo, trata-se de um ataque a ele mesmo, eis que o presidente encarna o espírito republicano e, por conseqüência, seus corpos intermediários.

A postura tinha lógica em 2007, quando se elegeu com o slogan da ruptura. Mas hoje esse ideário serve à família Le Pen (Marine e seu pai, Jean-Marie) e à Frente Nacional, beneficiários maiores do pleito francês. Formou-se o paradoxo: Sarkozy pregou o dissenso e o opositor, Hollande, defendeu o consenso, quando a lógica sugeria o contrário.

O que podemos extrair da lição francesa para a nossa realidade? Os recados são claros. Vejamos.

Ponto um: não há mais sentido brandir bordões e refrãos insuflando luta de classes, pobres contra ricos, socialismo contra liberalismo. Parcela de nossos representantes continua a erguer bandeiras rotas.

Ponto dois: atacar as estruturas intermediárias da República – Parlamento, Judiciário, imprensa – é desconstruir o próprio edifício da Democracia. Desvios cometidos por pessoas físicas não podem ser confundidos com a importância das instituições democráticas. No entanto, viceja por estas plagas uma peroração que defende o controle da mídia, a revelar a simpatia de grupos pelo Estado autoritário.

Ponto três: o combate às elites políticas por parte de quem as integra soa demagógico. Mandatários que escalaram os degraus da pirâmide para chegar ao topo devem saber que também eles integram o Olimpo elitista.

Ponto quatro: trata-se de um risco ancorar a estabilidade de um governo sobre uma base nacionalista e protecionista. A deriva populista que uma atitude nessa direção proporciona, apesar de gerar conforto no curto prazo, ameaça comprometer o conceito internacional de um país.

Olhe-se para os casos da Argentina e da Bolívia. A decisão da presidente Cristina Kirchner de nacionalizar 51% do patrimônio da petrolífera YPF, controlada pela espanhola Repsol, e a decisão do presidente Evo Morales de expropriar as ações da rede elétrica espanhola SAU, podem até servir à almejada estratégia de aprovação popular. Quem garante que, mais adiante, não se transformarão em bumerangue?

Decisões dessa ordem têm o condão de conferir aos governantes uma imagem situada na banda esquerda do arco ideológico. Mas a esquerda tem sofrido, e muito, para debelar o caos econômico.

A Europa que o diga. Ali, a crise fez cair, nos últimos três anos, 11 dos 15 governos de esquerda ou de centro-esquerda (Espanha, Reino Unido, Portugal, Bulgária, Finlândia, Hungria, Irlanda, Letônia, Lituânia, Eslovênia e Holanda). O aviso é oportuno: medidas populistas têm fôlego curto.



Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação

sexta-feira, 4 de maio de 2012

CONVITE



Se um amante da canção completa 05 décadas de versos na bagagem
e a sua revista, a Gente de Ação, 10 anos de tiragem, é óbvio que vai ter homenagem.
Venha conosco celebrar esse rito de passagem.
A Academia de Letras de Crateús – ALC convida você e sua família para as comemorações
de aniversário do Poeta e da Revista, momento em que ele lança o livro Nos Cafundós do
Sertão e o CD Dideus Sales – Entre amigos, poemas e canções.
LOCAL: CABANA MENDES
DIA: 05 DE MAIO
HORÁRIO: 20:00

quinta-feira, 3 de maio de 2012

BARROS PINHO NAS SESMARIAS DA SAUDADE





O grande Juarez Leitão - companheiro (no etimológico sentido de compartilhar o mesmo pão de vida e de poesia) de Barros Pinho - me enviou a bela Crônica, que adiante transcrevo, em louvor à memória do seu velho amigo de quatro décadas:



Na antífona com que abre o seu livro “Circo Encantado”, publicado em 1975, Barros Pinho anuncia a chegada do encantamento na vereda das águas/ na poeira do sol. E, ao fechar o livro, parte com o que restou do espetáculo: aqui vai o circo/trapézio quebrado/areia nos pés/palhaços na rua.

Agora, ainda sob o impacto de sua partida inesperada, tropeçamos nos destroços do ciclone emocional que caiu sobre nós. O circo encantado de sua poesia, o aconchego de sua convivência, sua visão crítica do mundo e os demais exercícios de inteligência com que nos brindava na tribuna do parlamento, na academia e na mesa do bar se espalham por todos os cantos da memória aflita e dolorosa de seus companheiros.

Quem era este homem-poeta? De que barro foi feito?

No poema “Viver não só para existir”, produzido aos 70 anos, se apresenta como “menino aprendiz do absurdo/embriagado no vinho da infância/a andar nos rios pelos caminhos do mar.”

Em muitas outras ocasiões de sua mágica, acesa e inventiva poesia se confessa, assim, um menino do rio, atravessado de saudades perenes e úmidas, que escorrem barrentas por dentro da alma. O rio é seu tudo, seu universo pânico e, em torno dele, constrói a peripécia de seu sonho, sua saga, seu roteiro. O Parnaíba, era um lençol de garça nos seus olhos e as suas águas viviam “a tocar flauta no dorso das formigas para o banquete das nuvens”.

Um dia, em 1958, no fulgor da adolescência e carregado de perplexidades, Zé Maria chegava ao Ceará. Vinha predestinado a fazer história.

Nesta terra foi líder estudantil, vereador, deputado estadual, prefeito da capital e secretário de cultura no estado e no município.

Convivemos por 40 anos em ofícios de política e literatura. A arte e o ideal nos fez irmãos. Fui seu companheiro de bancada na Câmara Municipal de Fortaleza pelo MDB, o valente MODEBRA, num momento cinzento da vida política nacional e, naquele parlamento, militamos nas trincheiras da oposição, ele, o líder do partido, eu, seu seguidor fiel em votos de defesa da cidade e de nossos sonhos de juventude. Estes mesmos sonhos, eternos e puros, que nos manteve meninos a vida toda caminhando nas pedras e nas noites para alcançar os fachos da aurora.
O destino foi generoso com o nosso poeta, porque, além de o dotar de muito talento e grande caráter, deu-lhe boas oportunidades de exercê-los. E quando todos o tinham como um bom professor e exímio poeta, surpreendeu por sua capacidade de gestor, um executivo operoso a gerar resultados positivos para a administração pública.

As funções de homem público nunca endureceram o espírito do poeta. Poeta sempre foi em todos os caminhos de sua existência frutificadora, em que viveu a semear palavras e ternuras para encantar as grandes solidões.

Como diz em seus versos, atravessou o tempo e os percalços da vida montado no cavalo Ventania ou na formosa e cúmplice burra Sabiá com o “pendão da cana fixo na retina” e todas aquelas valentias avoengas, qualidades e desculpas, a ternura das mães-pretas, a andeja vocação tabajara e a lubricidade incandescente herdada dos colonizadores da Ibéria.

Correu serelepe pela ribeira cheirosa do Parnaíba e pela “terra de serrotes ondulados de longas planícies preguiçosas.” Trouxe para a sua poesia todas as lembranças: a rua em que nasceu, uma missa de domingo na matriz de Nossa Senhora do Amparo, o circo da baianinha que “no trapézio machucava o coração da rua”.

Carregou no alforje lã de carneiro, labirintos e vagalumes. No bolso, “o sino de todas as igrejas”, no peito, “o lamento ensebado do carro de boi” e na meia o punhal dos Taiocas, instrumento clânico de prevenção e desabuso contra o atrevimento alheio.

Rei Mago, fervoroso e telúrico, trouxe para a literatura brasileira a estrela do natal e escreveu na palha morna e humilde da manjedoura o evangelho das abelhas. Tornou-se o arauto do Menino Jesus e o seu último e caprichoso evangelista. O encanto pelo natal foi o outro rio permanente de sua criação.

Barros Pinho nunca envelheceu e, por isso, não pode morrer. Cada encontro com sua poesia nos dará esperanças e utopias novinhas e nos mostrará o mesmo marinheiro afoito a domar mares e ventos, conquistando portos, horizontes e liberdades.

Sua franca e mágica viola ponteará, como Garcia Lorca, alegres canções ciganas. Seu gibão o vestirá no chão épico de Gerardo Mello Mourão e, como Manoel de Barros, reinventará o olhar das coisas e recriará os espantos.

E, assim, vivo e presente, continuará apalpando as contradições do mundo, esmerando-se na arte de despetalar sentimentos e transmitir o afeto generoso pela terra, pelo homem e pela dignidade humana. E, nos passos que deu e nas marcas que fez, continuará ensinando a sintaxe da paixão e tocando a flauta amorosa da memória.

Aqui, no país da saudade, a presença azul, imensamente azul, do menino Zé Maria, ribeirinho telúrico do rio Parnaíba, estará ordenando a vida e construindo novas e ardentes quimeras.


(Por Juarez Leitão)

terça-feira, 1 de maio de 2012

NESTE PRIMEIRO DE MAIO, UMA HOMENAGEM A TODOS OS GUERREIROS MENINOS (Fagner)

TORRÃO DE LAMPIÃO


A luz dança como uma bailarina diluída nas pupilas do dia e realiza um coito ventral no seio da terra. Transborda de um sem fim trazendo um imenso calor que fecunda à vida e delibera um suor e um desassossego ardente nos corpos expostos a essa diurna excitação.

Já transpirávamos aos borbotões nas primeiras horas do dia, pois a inclemência em Serra Talhada, o torrão natal de Lampião, começa pelo impiedoso Sol da manhã. Dizem que em Caicó, no Rio Grande do Norte, onde se realiza a famosa Festa de Sant’Ana, um patrimônio imaterial do Brasil, que em Teresina, capital do Piauí, e também em Crateús regada pelo intermitente Rio Poti, no sertão do Ceará, estão os dias mais quentes que se tem notícia, mas com certeza que, como na Terra do Xaxado em Pernambuco, não há nada igual.

O motivo de estarmos ali, numa região tão distante como imensamente quente, era pela fama lampiônica e pelo talento do poeta Edmilson Providência, que fora selecionado entre centenas de afamados compositores de todo País, para concorrer no II Festival de Músicas do Cangaço com uma elaborada letra chamada Convite a Lampíão.

Depois de saborearmos, com intrepidez estomacal, um delicioso angu de milho na manteiga da terra, queijo e galinha caipira ao molho pardo, um prato típico do Sertão de Lampião, fomos contemplar a Feira, na Praça Barão do Pajéu, pelo Dia Nacional da Caatinga com encantadoras danças, declamados louvores poéticos, e uma mostra de fotos do Parque Estadual da Serra da Pimenteira, onde se localiza a famosa Serra Talhada, demonstrando um forte desenvolvimento intelectual no município. Inesperadamente alguém intercepta meu amigo e escritor Flávio Machado, insigne historiador dos Sertões de Crateús:
— Secretário de Cultura, o senhor por aqui?!

Passado o susto e aceito a explicação de que não era o Secretário do Governo de Pernambuco, lembrei-me que há pouco tempo uma grande parte da população crateuense desejou intensamente a candidatura do eminente acadêmico para a cadeira de prefeito, indicação que foi logo recusada. Agora repito o que dizem os pernambucanos quando desejam que algo de bom aconteça na vida deles: — Aí se sêsse, ô xente, ixi maria menino! Sei que, com a candidatura de Flavio, só tínhamos a ganhar.

É isso o que acontece com as pessoas que expelem honestidade pelos olhos e transpiram retidão pela alma, chamam atenção das outras. O Senhor Adauto Bezerra, um agrônomo aposentado que fez questão de dizer não ter nenhum parentesco com o militar que governou o Estado do Ceará, foi atraído pelo magnetismo de Flávio, com seu imenso poder de farejar as histórias que ficam esquecidas nos baús da vida. O versado senhor fez questão de nos contar tudo o que sabia sobre o Rei do Cangaço, e foi logo afirmando:

— A minha mãe dançou com lampião! Vou explicar, disse ele.

— O casamento estava marcado para acontecer na fazenda algodão, aqui pertinho, logo depois do Rio Pajéu. Meu pai e alguns convidados iam a cavalo, pois a noiva e o padre já esperavam por lá. De repente avistaram uns sujeitos muito bem armados e pensaram que era a “força”. Tentaram voltar.

— Opa! Não voltem não! Ordenou um dos homens. Eram do bando de Lampião. Depois de explicarem o que iam fazer, os cangaceiros disseram:

— Lampião está aí, com oitenta homens precavidos. Se entrar, num sai mais não e se tentarem voltar correm o risco de não chegar. Escolham!

Resolveram entrar. Virgulino Ferreira da Silva participou do casamento, pois conhecia os pais dos noivos, mas disse que na primeira dança fazia questão de arrastar o pé com a noiva. Depois da festança deixou os noivos voltarem para Villa Bella, hoje Serra Talhada que tenta se recuperar, culturalmente, do que perdeu na época do Cangaço. Seu Adauto se indignou foi com a primeira passeata gay da região, onde uns desavergonhados desfilaram vestidos de Lampião, com as vestimentas todas na cor rosa e ainda dizendo que o Rei do Cangaço era gay. Ousaram chamaram a tal marcha obscena de Gangagay.

—Veja só se isso é possível! Tem um advogado gay por aí, um tal de Pedro Moraes, que vai lançar um livro com o titulo: Lampião, o mata sete. Há se Virgulino voltasse e pegasse um cabra desse, dependurava amarrado por aquilo, como era de seu gosto fazer.

Despedimo-nos da agradável feirinha regada a bolo de milho e caldo de cana com limão e fomos nos concentrar, para logo mais à noite assistir e torcer pelo “Convite a Lampião” num festival que nos lembrou outros, dos tempos idos, em que participaram Geraldo Vandré com “Pra não dizer que não falei das flores” e Chico Buarque com “A Banda”.

É chegado o momento, os participantes vão se apresentando um a um para uma platéia animadíssima que aplaudia os seus eleitos. O nosso interprete, Ernesto Teixeira, na segurança e no requinte deu um show de desempenho numa performance emocionante. A letra dizia: Meu padim Padre Cícero / Romão do Juazeiro / diga aí ao cangaceiro / Virgulino Lampião / para fazer uma turnê / e de perto poder ver / como está nosso sertão.

Tínhamos certeza de estar entre as cinco primeiras. E aguardávamos ansiosos, madrugada adentro, o resultado. Nada. O honrado Júri preferiu até uma música que tinha uns aís , uns uís, gemidos ridículos como coisas próprias de deboche, de chacotas, mas que por algum motivo obscuro encantou aquela comissão.

Nem o refrão final do nosso Convite a Lampião despertou sequer um vulto de um justiceiro vingador daqueles tempos de Lampião: Por isso te peço amigo / reúna os cangaceiros / para essa grande missão / sei que é cabra valente / mas vai ter que bater de frente / com a tal de corrupção.

O bacamarte do Rei do Cangaço desta vez bateu catolé. Sei não, mas penso que o tal advogado que escreveu o mata sete pode até ter razão. Esses tais lampiões de hoje em dia...

Raimundo Candido