terça-feira, 26 de março de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Dilma: popularidade, eleição e economia

Com as três pesquisas divulgadas semana passada - uma sobre o governo dela e outras duas sobre as eleições de 2014 - a presidente Dilma, ainda em estado de graça papal, entrou também num nirvana eleitoral. A interpretação generalizada entre os especialistas é a de que, mantidas as atuais condições de temperatura e pressão econômica, a presidente pode preparar o modelito para a posse em mais um mandato de quatro anos a partir de 2015. Seria até um passeio na raia eleitoral, sem os adversários terem ao menos o direito a um segundo turno. Uma façanha que o PT ainda não alcançou: antes de chegar ao governo, Lula perdeu duas vezes para Fernando Henrique Cardoso logo de cara; depois, Lula disputou o segundo turno contra José Serra (2002) e Geraldo Alckmin (2006) e Dilma Rousseff bateu-se duas vezes em 2010 contra Serra.

Dilma: popularidade, eleição e economia - II

A expectativa dos principais concorrentes hoje colocados na liça - Eduardo Campos, Aécio Neves e Marina Silva - é que a divisão de votos acabe levando a um segundo turno. Marina em 2010 evitou a vitória de Dilma na primeira rodada. Depois, resta a torcida de cada um deles para que seja ele o segundo colocado na primeira rodada. Do ponto de vista político, a estratégia de Dilma e do PT daqui para frente será apenas fechar o curral aliado para conter rebeliões de parceiros insatisfeitos - daí as concessões ministeriais e outras que virão em estatais e sem segundo escalão. Nessa linha, os partidos valem quanto pesa o tempo de cada um no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Em outra ponta, cabe manter também o mais amplo possível os palanques regionais. O que pode exigir do PT sacrifícios em muitos Estados, cedendo a primazia das chapas aos governos estaduais e ao Senado. Fazer esta harmonia, lembrando aos petistas o princípio do "centralismo democrático", é a principal missão hoje do ex-presidente Lula.

É a economia, estúpido

Para Dilma, a missão principal ficou a de conduzir a economia sem muitas marolas, visando, fundamentalmente:

1. Não deixar o nível de emprego cair.

2. Não deixar cair a renda média real do trabalhador.

E qualquer coisa será feita nesse sentido, com embasamento técnico ou artificialmente. Assim, por exemplo, o BC, apesar dos arroubos de seu presidente Alexandre Tombini de anunciar dia sim, outro também, que a autoridade monetária está pronta para combater a inflação, só terá "autorização" para aumentar a taxa básica de juros, a Selic, se os preços ameaçarem fugir demais do controle. O BC pode até aumentar a Selic em uma das suas duas próximas reuniões (no início de abril e no fim de maio), mas se o fizer será, segundo bons e insuspeitos analistas, em apenas 0,25. Um "efeito demonstração". Para não deixar que a inflação fure demais o centro da meta de 6,5%. (Nesta semana deve ser divulgado o Boletim Trimestral de Inflação quando o BC dará sua versão do andamento da economia no mundo e no Brasil). A política econômica continuará sendo conduzida com pacotes pontuais, ora para incentivar o consumo, ora para induzir os investimentos, ora para tentar segurar os preços. Já foram 15 pacotes neste sentido lançados pela presidente nesses seus 27 meses de governo. A confecção dos embrulhos ganhou mais velocidade recentemente. Pelo menos mais um virá esta semana.

E a moeda?

Uma variável importante nesse jogo é o dólar. Semana passada ele voltou a estourar a barreira dos R$ 2,00, informalmente admitida no Ministério de Fazenda como seu "ponto de equilíbrio". Muito acima deste patamar bateria na inflação, muito abaixo prejudicaria mais do que ela está sendo prejudicada a indústria brasileira. O BC vai correr ou vai deixar o bicho pegar ?

Espírito animal, espírito operacional

De um empresário até simpático ao governo, porém com algum espírito crítico, o que fala a alguns de seus colegas, principalmente em entrevistas abertas ao público: "A presidente e cia têm apelado para o 'espírito animal' dos empresários no sentido de animar os investimentos no país. Nada mais correto. Porém, seria muito útil ela despertar também o 'espírito operacional do governo'. A fila de caminhões à beira dos cais é a maior prova de que o animal governista está adormecido em berço esplêndido". Dá para entender o silêncio público dos empresários quando se trata de falar do governo : Dilma não é de levar desaforo para casa.

Saindo de forma constante

O governo que não conte com a parceria da turma dos "investimentos em portfólio", aqueles que investem no mercado de capitais brasileiro. A grana está saindo das ações e outras securities. A direção é o norte, mais exatamente os EUA. Notável é a ação dos fundos hedge, aqueles que são mais ágeis para acompanhar e, sobretudo, fazer a tendência do mercado. O capital é covarde como se sabe. Ele é esperto também.

Fenômeno mais amplo

O Brasil é um dos líderes da queda de preços das ações dos mercados emergentes. Todavia, não é o único que cai. A queda é generalizada. Não à toa, neste ano, os mercados emergentes apresentaram o pior retorno desde 2008 e estão em patamares bem inferiores se comparados aos principais mercados acionários mundiais. Os emergentes estão perdendo dinheiro e charme. A hora é da América.

Imobilidade na Copa

Os projetos de mobilidade urbana para a Copa do Mundo caíram na real (sem trocadilhos). As obras estão indo, sem grande eficiência em termos de calendário de execução. Todavia, estão tropeçando em algo inicialmente nada esperado : não há como encomendar ônibus a tempo para acrescer as frotas urbanas de novas unidades para os torcedores e turistas. A indústria não tem como entregar as encomendas.

Indústria a ver navios

Já se sabe sobre a fragilidade imensa da indústria brasileira sem competitividade sistêmica e tecnológica. No âmbito da conjuntura a situação é igualmente perigosa. A crise dos portos pode prejudicar a produção industrial em termos de logística e atrapalhar o já débil crescimento dos últimos anos. O governo tem esta possibilidade no seu radar. Todavia, não sabe ao certo o que fazer.

Chipre: tabus e realidade

Perde-se um enorme tempo com análises do que ocorre em Chipre, país minúsculo e sem importância para a economia europeia. Chipre é a atual Islândia, país loteado por capitais, digamos, duvidosos, que operavam a partir dali por razões tributárias e da frouxa fiscalização. Ora, o país está quebrando as regras de bom comportamento no mercado porque ali há excelentes oliveiras (de boa qualidade) e não muito mais. Agora está devolvendo um pouco da conta para a tropa russa de capitais e alguns mais. Tal qual fez a Islândia. Nada mais.... A "crise cipriota" gera mais certezas do que incertezas : sobre o que se deve fazer e o que não se deve.

"Mercados não tem memória": Londres 1953

No dia 27 de fevereiro de 1953 foi assinado em Londres um acordo de salvação financeira que incluía (i) o perdão de 50% da dívida externa; (ii) reescalonamento dos pagamentos para o longo prazo e (iii) ajuste dos pagamentos à capacidade do credor. O país apoiado chamava-se Alemanha Ocidental, que além do acordo acima teve abertas as fronteiras europeias, o que produziu um farto resultado comercial no curto prazo. Isso tudo apoiado pela Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal que não se importaram com o histórico do país (duas guerras mundiais, campos de concentração, destruição de suas economias, etc.). Naquela época, a Alemanha teve a glória de ter à frente da nação um estadista: Konrad Adenauer. Hoje, tem Angela Merkel, etc. e tal...

As três faces de Eduardo Campos

Depois naturalmente da presidente Dilma Rousseff, que não mais vai se apear do palanque eleitoral (ontem ela esteve em dois deles - Serra Talhada, no sertão de PE, e no Rio, em Petrópolis) o presidenciável mais ativo publicamente tem sido o governador pernambucano Eduardo Campos. O tucano Aécio Neves, além de vestir o figurino menos discreto de seu avô Tancredo Neves e dos políticos mineiros, está às voltas com o turbilhão tucano, nas figuras de José Serra e do PSDB paulista. Enquanto não aparar estas arestas, não poderá cair nas ruas. Marina também está totalmente envolvida na criação de seu partido, o Rede Sustentável, o qual precisa estar homologado na Justiça Eleitoral até fim de novembro para que possa sustentar a candidatura dele ao Palácio do Planalto. Caso contrário, ou não concorrerá ou precisará arranjar uma das legendas já existentes para poder disputar.

Razões para a tranquilidade de Campos

Campos passeia mais ou menos tranquilo sua candidatura por três razões:

1. Seu partido, apesar das resistências dos renitentes irmãos cearenses Ciro e Cid Gomes, está vendo na candidatura do pernambucano para aumentar sua representatividade nacional e seu poder de barganha Federal e nos Estados. Com o "carro-chefe Campos", o PSB acredita que em 2014 poderá eleger mais governadores do que tem hoje e aumentar suas bancadas na Câmara, no Senado e nas Assembleias Legislativas. Mesmo não ganhando o Palácio do Planalto, Campos e o PSB poderiam sair credenciados para 2018 com um excelente cacife.

2. Para os tucanos, a presença de Eduardo Campos na disputa seria a garantia já de um segundo turno, ainda mais se Marina Silva também confirmar sua presença. O PSDB acredita que ele tirará mais votos de Dilma do que de Aécio, principalmente no Nordeste. Além disso, mesmo governista no momento, o governador de PE será um candidato de oposição ao Palácio do Planalto, mais um do qual Dilma, o PT e os aliados precisarão se defender.

3. Para o PT, pelo menos nesta primeira fase, a presença de Campos no grid de largada presidencial é tida como útil porque, segundo os petistas, ele disputa uma faixa do eleitorado com Aécio Neves - e tiraria votos do tucano e até possíveis aliados do mineiro, com o PPS e os rebeldes do PMDB. Racha inclusive em Minas, onde o prefeito de BH, Marcio Lacerda, é do PSB, mas foi eleito com a ajuda de Aécio. E pode rachar até em SP, onde os socialistas se dão muito com o governador Geraldo Alckmin. Em principio, pelo menos, não é interesse de Lula e Dilma que Eduardo Campos saia da raia. Lá na frente se verá.

A rifa de Lula

A melhor prova disso é que Lula já está rifando a candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Rio, pelo PT. Ele prometeu ao PMDB fluminense e ao governador Sérgio Cabral que não pisará no Estado durante a eleição.

Sinceridade

É um jogo de feiticeiros. O risco é o feitiço se virar contra algum deles. Do senador e ministro da Pesca, Marcelo Crivella, analisando a política social do governo e os resultados da inclusão social trazida por ela : "A nossa presidenta e o presidente Lula fizeram a gente crescer porque apoiaram os pobres. E o que nos sustenta são dízimos e ofertas de pessoas simples e humildes".

Sinceridade - II

Seria até uma dádiva para a presidente Dilma Rousseff se as dificuldades que ela está tendo para nomear um novo ministro para a Secretaria de Assuntos Estratégicos tivesse alguma causa nobre. Não tem. Ela já foi recusada pelo PMDB e pelo PSD de Gilberto Kassab. Pelas razões que só a política brasileira explica, como bem demonstra a explicação do deputado do PMDB da Bahia : "É um pasta que não tem orçamento, não tem cargos, não tem órgãos importantes vinculados, não despacha com a presidente, não executa obras, só faz seminários. O partido que assumir nada terá para mostrar, (...) Pensar o futuro é importante ? Mas queremos é executar o presente. Essa coisa de ficar pensando só queima neurônios e não deixa marcas". É realmente um fato inédito no Brasil partidos políticos recusarem ministérios. Se até eles reconhecem a inutilidade da pasta, o que a presidente está esperando para trancar suas portas?

Insinceridade?

Do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista à revista "Época":

"De tudo que ouço do Serra, ele diz que não tem essa pretensão [de candidatar-se mais uma vez à presidência da República]. Nem mesmo de ser presidente do partido. Tenho de acreditar no que ele me diz. O candidato do PSDB será apoiado pelo PSDB de São Paulo. Não tem muita alternativa. É especulação [a hipótese de deixar o PSDB]. Ele nunca me disse isso".

(José Marcio Mendonça e Francisco Petros)

segunda-feira, 25 de março de 2013

SOBRE O PAPA FRANCISCO‏

Caro Júnior:

Sua crônica sobre o papa Francisco é digna de ir para os anais do Vaticano.

Queria apenas colocar estas poucas e resumidas palavras nos comentários do Blog, porém, quase analfabeto em informática, não consegui.

Meus parabéns.

Sobre este papa, confesso que nenhum outro, de Pio XII para cá, me causou melhor impressão.

Como você falou, ele traz aquela AURA de serenidade, de sabedoria e humildade.

Um abraço,

César Vale

TIA ZULMIRA ESTÁ DE VOLTA

O que diria Tia Zulmira, a engraçada personagem criada por Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do impagável cronista Sérgio Porto, no início da década de 60, ao “enchergar” (isso mesmo, com ch) numa dissertação sobre “movimentos imigratórios para o Brasil no século XXI” uma receita de Miojo e um trecho do hino do Palmeiras?

Acharia “rasoavel” (isso mesmo, com s e sem acento) as notas 560 e 500, de um total de 1000, obtidas, respectivamente, por um galhofeiro que mostrou como se faz o famoso macarrão instantâneo e por um apaixonado torcedor do Verdão?

E que nota daria ao Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, que orienta os corretores da prova a “aproveitar o que for possível”, mesmo diante da inserção de textos com evidente intenção de desmoralizar o processo corretivo?

O próprio autor da receita confessa que seu intuito era mostrar que “os corretores não lêem completamente a redação”. A velha senhora da família Ponte Preta enquadraria seguramente os personagens em questão no Festival de Besteiras que Assola o País, sempre muito farto por ocasião do periódico Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). E aproveitaria para pinçar mais uma pérola que explica o motivo de tanta asneira naquele famigerado concurso: “o nervo ótico transmite ideias luminosas ao cérebro”.

Todos os anos, o ENEM produz extensa crônica de besteiras previsíveis. As expressões fosforescentes transmitidas por apreciável parcela dos cérebros que concorrem ao Exame deixam transparecer um estado de hibernação, para não dizer piora, do corpo educacional do país.

O Brasil continua a ocupar um vergonhoso lugar (88º) entre 127 no ranking de educação formado pela UNESCO, que é o eixo da ONU para a cultura e a educação. Há 6 anos, tinha melhor posição(72ª). Há 6 milhões de alunos no ensino superior, mas 38% não dominam habilidades básicas de leitura e escrita.

Ou seja, de 10 alunos 4 são analfabetos funcionais, conforme atesta pesquisa feita pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa entre 2001 e 2012.

A considerar o denso programa de avaliações em todos os níveis de ensino e as campanhas que fazem loas à nossa educação, deveríamos ser um território livre de todas as categorias do analfabetismo. Se o número de analfabetos diminuiu, nos últimos 3 anos, o percentual de analfabetos funcionais - aqueles que sabem escrever o nome, lêem e escrevem frases simples, mas são incapazes de usar a leitura e a escrita em seu dia a dia – tem permanecido o mesmo.

Os dados continuam a ser desanimadores. Cerca de 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Desse montante, 68% são analfabetos funcionais e 7% são considerados analfabetos absolutos, sem habilidade de leitura ou escrita.

Em números absolutos, o IBGE calcula existir cerca de 30 milhões de analfabetos funcionais, a maior parte vivendo nas regiões Norte e Nordeste, onde 25,3% e 30,9% habitam, respectivamente, esse compartimento.

O que mais impacta, porém, na análise da moldura social é o contraste entre o avanço de uns setores e o atraso de outros. Veja-se a situação de renda das margens, que tem aumentado, a ponto de se trombetear, todo tempo, a inserção de 30 milhões de brasileiros na classe média C e a “salvação” de outros tantos milhões que saíram da miséria absoluta. Se a desigualdade tem diminuído, não seria lógico imaginar, em sua cola, a melhoria de padrões educacionais?

Há muitos pontos obscuros no discurso que trata do fenômeno educacional. Não é um paradoxo constatar que quase 80% dos brasileiros são usuários da Internet e quase 70% possuem celular, mas o Brasil, com 401 pontos, está em uma das últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos(Pisa), atrás de países como Trinidad e Tobago, Bulgária, México e Turquia? Lembre-se que esse programa avalia sistemas educacionais de 65 países, examinando o desempenho de estudantes na faixa etária dos 15 anos.

O que trava o sistema educacional, quando todas as áreas do ensino estão suficientemente diagnosticadas? Na Educação Básica, existe uma Provinha, a Prova Brasil e o Enem. No Ensino Superior, existe o ENADE, aliado ao Censo Escolar, a par de avaliações feitas por Comissões de Avaliadores.

Na área de Pós-Graduação, nada funciona sem o endosso da CAPES, que autoriza e reconhece os cursos. Faltam mais recursos? Os programas de formação de professores são precários e insuficientes? Como equacionar o imenso buraco provocado pela expansão da evasão escolar? Não são respostas fáceis.

Enquanto os ciclos governamentais cultuam a si mesmos, fazendo loas ao sucesso de suas políticas, o fato é que o edifício educacional apresenta rachaduras em todos os andares. Pior é ver a avalanche que sobe ao último piso. São milhares de estudantes que entram em cursos inapropriados, outros tantos que buscam um segundo diploma e mais uma leva que interrompe a trajetória no meio.

A matriz profissionalizante acaba influenciando as decisões do alunato, prejudicando a formação global, humanística, generalista, absolutamente imprescindível para a integração da pessoa num mundo em constante evolução.

Da competição desvairada por vagas em escolas de baixa qualidade, não é de surpreender o besteirol que se produz nesses polêmicos exames de avaliação. Querem saber a razão das enchentes que assolam a região serrana do Rio de Janeiro? Vejam a resposta: “É o Euninho. Que provoca secas e enchentes calamitosas”. O que se entende por arte funerária? “A arte que egípcios antigos desenvolveram para que os mortos pudessem viver melhor”. O que é ateísmo? “É uma religião anônima”. E a fé? “Uma graça através da qual podemos ver o que não vemos”.

Agora o conceito de respiração anaeróbica é mesmo de tirar o fôlego: “é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos”. Ao sublinhar tão eloquentes “ideias luminosas”, Tia Zulmira garante que a receita do Miojo, no mais recente Enem, “trousse”, sim, elevada contribuição ao verbo desses tempos tresloucados.


(Gaudêncio Torquato)

sábado, 23 de março de 2013

GOSTO CRESCE COM O GOSTAR

Depois de classificarmos as pessoas (sempre segundo à
nossa ótica, e nunca segundo elas mesmas), paralisamos o
conhecimento acerca delas, na impressão fixada. Elas passam a nos
parecer eternas repetidoras de situações, reações e atitudes: seres pleonásticos. Se formos capazes de romper a cristalização, vendo
e descobrindo a pessoa em ângulos novos, também ela se
contagiará com a nossa descoberta. Ela mesma fortalecerá esses
novos ângulos pelos quais as vemos e que são dela, senão não
teriam aparecido.

Somos seres de mistérios nos contágios.
Contagiamo-nos com o ângulo pelo qual nos vêem ou sentem. Somos bons com quem nos acha bom; inteligentes com quem inteligente nos
considera e maus com quem nos acha o ôfim da picada". Qual será essa relação estranha de nos contagiarmos da parte nossa pela qual somos
vistos, julgados e considerados?

E possuímos todas as partes que vêem em nós.
Quem não gosta do que somos ou de como somos faz-nos o favor de
revelar - de maneira exagerada e negativa, é certo -, as partes nossas
às vezes apenas subjacentes, ou disfarçadas, mas reais. Quem
gosta, faz idêntico favor: o de nos fortalecer nas partes
melhores. O fato é o contágio. Também contagiamos os que nos
julgam. Daí o mistério da afinidade. Aceitos, crescemos e
devolvemos crescimento, fazendo o outro crescer. Rejeitados,
encolhemos e fazemos encolher. Quando não gostamos de quem nos
desgosta, aumentamos o desgosto.

Não basta o outro mudar. É necessário que
também mudemos para nele descobrir partes desconhecidas. Se
enriquecermos a nossa visão do próximo com mais elementos, novos
filtros e lentes melhores que as habituais, vamos descobrir-lhe
paisagens belas e, assim, ajudá-lo a descobri-las, ele também. A
partir dessa sempre prematura e limitante catalogação, só nos
relacionamos com o que está no rótulo, jamais admitindo novas
combinações. Abrimos mão do esforço de descobrir partes dela não
exercitadas porque não conhecidas nem mesmo por ela.

Essa descoberta e revelação do ser maior
daquele que nos é familiar infelizmente só vem quando há perda,
abandono ou morte. Só vem quando já dá tempo. É preciso, pois, ver
além dos rótulos que fabricamos para os demais ou que eles mesmos determinaram. Essa descoberta do que existe, dorme, jaz ou lateja no ser humano, é um desafio talvez apenas possível no amor ou com amor,
mas, estranhamente, é a descoberta profunda do outro como o
próximo, vale dizer, como pedaço do eu. Autorizada pela
percepção e pelo reconhecimento, a melhor parte do outro começará a viver, porque o que é bom para quem amamos é bom para
nós. Gosto cresce com gostar.


*Artur da Távola

quarta-feira, 20 de março de 2013

A AURA DE FRANCISCO



Os humanos somos, indistinta e ambulantemente, geradores de energia. E essa explosão energética dos nossos corpos, conforme os estudiosos dessa temática, tem cores. Dentre estas, destacam-se a escarlate, que emite larvas de violência, e a lilás, que aponta o ápice do amadurecimento espiritual.

Pessoas há que, desde o primeiro contato, nos envolvem em uma oceânica e contagiante onda de luz e paz e bondade e amor. São pessoas especiais, de peito estrelado, de alma generosa, coração comunitário, mente de arco-íris, veias abertas, fronte lunar e elevado espírito solar. Assemelham-se a uma brisa suave. Possuem aura... Aura, segundo a radícula etimológica do Latim, é exatamente “vento brando, brisa”.

Suponho que a maioria das gentes que assistiu o anúncio do novo Papa se sentiu arrastada pelo magnetismo de sua aura. O argentino Jorge Mario Bergoglio, filho do ferroviário Mario Bergoglio e da dona de casa Regina Maria Sivori, encantou o mundo instantaneamente com a serenidade do seu despojado ser. Esta é uma característica das criaturas que escalam o monte superior da iluminação: são serenas. Como a brisa que faz contraponto ao vento forte – e, por isso, une ao invés de espalhar - o sereno destoa da enxurrada chuvosa.

A serenidade geralmente se revela no olhar. O olhar da pessoa serena, que conheceu o cume do amor verdadeiro, é diferente do olhar fugaz do apaixonado, que possui um brilho mesclado de inquietação e ansiedade.

Quando, após o tradicional anúncio Habemus Papam, emergiu na janela da Basílica do Vaticano a figura do primeiro bispo de Roma nascido na América Latina, um enorme silêncio se fez, um silêncio solene e cerimonioso, respeitoso e reverente. Aquele mutismo, no entanto, era extremamente ruidoso: carregava a efervescência indescritível do ineditismo. Era como se a roda grande estivesse passando por dentro da pequena: o trono mais elevado do poderio religioso católico estava sendo ocupado por um representante dos povos colonizados pelos europeus.

O novo Papa mostrou que veio, também, para surpreender. Oriundo da Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada pelo espanhol Santo Ignácio de Loyola em 1534, Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome papal de “Francisco”, em homenagem ao aureolado Santo de Assis, aquele a quem Dante Alighieri se referiu com uma “luz que brilhou sobre o mundo”. São Francisco, carinhosamente chamado pelos italianos de “O Pobrezinho”, foi indubitavelmente o mais completo dos santos. Filho de um rico comerciante, abandonou a via larga da abundância e da extravagância, do luxo e da luxúria, pelo caminho estreito do sofrimento e da pobreza.

Especula-se ser pouco provável que o Papa Francisco promova as radicais transformações que a Igreja Católica necessita. Talvez seja mesmo difícil remover a totalidade da crosta burocrática que produz escândalos midiáticos, noticiário desairoso, condutas que agridem a boa fé comum. Se pouco conseguir nesse campo, ele já iniciou fazendo muito: envolveu-nos com o manto de sua aura lilás. E, o principal: educa-nos com o seu exemplo. E o exemplo – já lecionou sabiamente o teólogo, músico, filósofo e médico alemão Albert Schweitzer – “o exemplo não é a melhor forma de educar, é a única”.

(Júnior Bonfim, na coluna Gente Que Brilha, edição deste mês da Revista Gente de Ação)

terça-feira, 19 de março de 2013

HOJE É O DIA DE SÃO JOSÉ – MODELO DE HOMEM DO BEM, CARPINTEIRO DO ANONIMATO, ARTESÃO DO SILÊNCIO!




Por razões óbvias, uma das palavras cuja musical sonoridade mais sensibiliza as cordas da minha alma é, indubitavelmente, JOSÉ – em hebraico “Yoseph”, aquele que acrescenta - significa Deus acrescenta e indica uma pessoa sensível, confiante e generosa, que sofre com os problemas alheios. É muito conciliador e conserva o autocontrole mesmo nas piores situações.

O culto a São José, aniversariante de hoje, começou provavelmente no Egito, passando mais tarde para o Ocidente, onde alcança grande popularidade. Em 1870, o papa Pio IX o proclamou "O Patrono da Igreja Universal" e, a partir de então, passou a ser cultuado no dia 19 de março.

Em 1955 o Papa Pio XII fixou o dia 1º de maio para "São José Operário, o trabalhador".

José, o pai de Jesus na Terra, tinha como profissão a carpintaria. Em seu livro "São José, a personificação do Pai", Leonardo Boff conta que o artesão, descendente de David, tinha a oficina no pátio da casa. E que ali, entre pregos, martelos, rolos de barbante e cunha, Jesus teria iniciado na vida profissional. “É dentro desse universo de trabalho, de mãos calosas, do suor no rosto, das canseiras cotidianas e do silêncio, que se desenrolou a vida anônima de José. Ele era um homem justo, como disse minha mãe”, diz o teólogo. E silencioso. São José não deixou uma palavra. “O silêncio é a essência de José e a de quem ele personifica: o Pai celeste”, diz Boff.

Na festa de hoje, celebremos São José meditando sobre as duas principais facetas da sua rica personalidade: o amor ao trabalho e o culto ao silêncio!

(Júnior Bonfim)


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APELO A SÃO JOSÉ

Glorioso São José.
Santo da minha devoção.
Não se esqueça de mandar,
Chuva pro meu sertão.
Aqui o povo é sofrido,
E carece de proteção.

Olho pro gado no pasto,
Tão magro tão desnutrido...
Parece que lambe pedra,
O verde foi destruído.
Só se vê nessas paragens,
Galhos secos retorcidos.

À vontade de trabalhar é grande.
A fé em Deus não é menor.
A gente só quer do senhor,
Uma ajudinha maior,
Pois o nordestino é forte,
Não economiza suor.

Dá uma tristeza danada,
Ver nosso açude secar.
Primeiro vira lama,
Depois se dana a rachar.
Os peixes vão se sumindo,
E os urubus a rondar.

É a miséria chegando,
É a chuva sem chegar,
É a oração e o pranto,
E o pobre sempre a rogar:
Glorioso São José,
Venha nos ajudar.


(Dalinha Catunda)

domingo, 17 de março de 2013

A ALGA E O SILICONE

Até quando a mistificação resistirá ao ciclo da transparência que a tecnologia inaugura em muitas frentes do cotidiano? Não chegará o momento em que o ser humano, por mais esforço que realize para encobrir a verdade, será impelido, pelo apuro de aparatos tecnológicos, a colocar os pontos nos Is?

Episódios da esfera criminal, aqui e alhures, têm dado vazão à hipótese de que o caminho da verdade, sempre estreito ao longo da história, ganha amplitude na modernidade sob o empuxo de engenhosa estrutura que abriga técnicas sofisticadas de investigação, máquinas que flagram o movimento nas ruas, retórica mais científica de operadores do Direito para desmontar versões e hipóteses, tudo convergindo para desvendar fatos polêmicos.

O goleiro Bruno, depois de negar por bom tempo, acabou admitindo ter participado do episódio que culminou com a morte da amante, a ex-modelo Eliza Samudio. Noutro caso, vestígios de alga, descobertos por um biólogo no sapato do ex-policial e advogado Mizael Bispo, foram usados para comprovar que o indiciado esteve na represa em que foi encontrada a ex-namorada Mércia Nakashima. Um gol da tecnologia. Já dedos de silicone com impressão digital de médicos e enfermeiros, usados para fraudar o ponto eletrônico de um hospital público, em São Paulo, foram flagrados pela Polícia. Nesse caso, o tiro da tecnologia saiu pela culatra.

Chamou a atenção, nesses casos de ampla repercussão, o emprego da tecnologia; de um lado, como ferramenta para descobrir a verdade, de outro, para encobri-la. A alga e o silicone se apresentaram como anverso e reverso da tecnologia que começa a balizar costumes e práticas.

Dos eventos criminais acima mencionados, pinça-se a hipótese de que o uso de ferramentas tecnológicas tanto pode contribuir para pavimentar os caminhos do Direito, iluminar o altar da Justiça e arejar a administração pública quanto pode servir de escudo a criminosos.

Questão intrigante é: por que têm aumentado a criminalidade, quando se sabe que a lupa é, hoje, mais calibrada? Hipótese razoável comporta fatores como deterioração nos padrões de vida das margens, conflitos provocados por gangues, assassinatos cometidos por grupos paramilitares (como no passado, em São Paulo e Rio de Janeiro), enfim, clima generalizado de insatisfação.

Não é este o caso. A paisagem, mesmo exibindo buracos nas frentes da saúde, educação e segurança, não chegou a um nível capaz de produzir rasgos de monta no tecido social.

Se fixarmos a vista no hilário caso dos dedos de silicone, podemos enxergar outra hipótese. O ilícito parece ter ligação com o baú cultural, precisamente com a gaveta que guarda traços do caráter nacional, como engenhosidade, criatividade, matreirice, vivacidade, ou, como se costuma dizer, o jeitinho brasileiro.

Ora, à primeira vista, o ponto eletrônico seria barreira intransponível para feitores de maracutaias. Como sair da enrascada? Manipulando a química do silicone para tirar a impressão digital de profissionais de estabelecimentos públicos; pagando um pedágio para o responsável pelo sistema; e, pimba, passando os dedinhos no aparelho. Equação final: médicos que deveriam dar cinco plantões por mês acabavam trabalhando apenas um.

Eis a sacada do jeitinho que jamais tira férias. Vez ou outra ele aparece mal ajambrado, nivelado por baixo. Basta ver degustações apressadas de bolachas e chocolates em corredores de supermercados, que acabam com os “surrupiadores” tendo de ver sua estrepolia em vídeos gravados; bem arrumado, o jeitinho mostra a cara no andar mais elevado das camadas.

Por exemplo, quando serve para ajustar contas públicas e maquiar metas fiscais. Guido Mantega, o ministro da Fazenda, pediu ao prefeito Haddad, de São Paulo, para adiar o reajustamento de passagens no início do ano. Maneira de aliviar o índice de inflação. A maquinação envolveu outras manobras, como o abatimento dos investimentos realizados no PAC e resgate de R$ 12,4 bilhões do Fundo Soberano do Brasil para cumprir a meta de superávit primário de 3,1% do Produto Interno Bruto.

O jeitinho é uma faceta do caráter brasileiro, usado como chave para abrir o cadeado da burocracia ou como manobra para fugir ao formalismo, de ranço bacharelista, que se deixa ver na pletora de leis, decretos, medidas, portarias, regulamentações.

Alguns imaginam que o cobertor legalista é capaz de cobrir nossa complexa e mestiça formação cultural. Ademais, como lembra Roberto daMatta, o “jeitinho se confunde com corrupção e é transgressão, porque ela desiguala o que deveria ser obrigatoriamente tratado com igualdade”.

Daí a necessidade de se combater a persistência do estilo aristocrático de lidar com a lei, que, segundo o antropólogo, “induz o chefe, o diretor, o dono, o patrão, o governador, o presidente, a passar por cima da lei” porque dela se acham donos.Por isso, o bordão continua fazendo eco: “todos são iguais perante a lei, mas a lei não é igual para todos”.

De tão enraizado, o jeitinho acaba colaborando para a formação do estado de anomia, um território dominado pela desordem. Veja-se o estacionamento em vagas para pessoas idosas e deficientes. Ou as faixas para pedestres e bicicletas. A desmoralização se escancara à vista de todos.

O amortecimento social chega a ponto que a barbárie se espalha por ambientes que, por natureza, deveriam ser exemplos de grandes cuidados. Um hospital, por exemplo. De seus profissionais espera-se zelo pela vida. Daí a perplexidade ante a monstruosidade que teria sido perpetrada num hospital evangélico de Curitiba, onde uma médica é acusada de ter mandado desligar aparelhos de pacientes. A se confirmar a denúncia, estamos diante de uma “técnica de alto impacto” para “desentulhar” uma UTI e, assim, fazer correr a fila em um corredor que mais se assemelha ao da morte.

Baixem-se as cortinas com o Barão de Montesquieu espiando a cena e proclamando: “parece-me que não há povo que não tenha sua crueldade particular”. No nosso caso, com um jeitinho todo providencial.



(Gaudêncio Torquato)

sábado, 16 de março de 2013

É PROIBIDO


É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender os que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

Pablo Neruda

quinta-feira, 14 de março de 2013

FRANCISCO, O NOME DE UM DEFENSOR DOS POBRES



Quando foi eleito cardeal e alguns argentinos queriam viajar para Roma para celebrar, Bergoglio convenceu-os a dar aos pobres o dinheiro que gastariam na viagem. O episódio é narrado pelo jornal inglês The Guardian, que descreve o novo Papa como tendo uma “abordagem prática” à questão da pobreza. Bergoglio escolheu o nome Francisco, partilhado por dois conhecidos santos da Igreja Católica – um dos quais conhecido pela devoção aos pobres, o outro, pelo papel de evangelização no Oriente.

S. Francisco de Assis é um santo italiano, que nasceu perto do final do século XII, filho de um comerciante rico. Perdeu o interesse pela vida de jovem abastado, decidindo viver a ajudar os pobres. Acabou por fundar a ordem religiosa dos franciscanos. É um dos dois santos padroeiros da Itália.

Na semana passada, o jornal italiano Il Fatto Quotidiano publicou um artigo com o título “A hora impossível do Papa Francisco I”. O texto elaborava sobre o facto de a vida de Francisco de Assis não se ajustar à vida actual do líder da Igreja Católica. “O primeiro sinal de mudança na Igreja poderia ser o nome do sucessor de Ratzinger. Da varanda, nunca ninguém anunciou ‘aqui Francisco’”, escreveu o veterano jornalista Maurizio Chierici. “Ele morreu há quase oito séculos, mas ninguém se sentiu na disposição de abraçar a espiritualidade e dedicação absoluta para a vida dos outros.” O artigo citava o parlamentar italiano Raniero la Valle, um dos representantes da esquerda cristã: “Francisco é um nome impossível para a carga de poder com que durante séculos foi construída a infalibilidade do papado, a soberania, o controle formal de cada serviço, a autoridade sobre milhões de fiéis.”

A escolha do nome é uma indicação de como um Papa quer ser visto e do que se propõe fazer. A prática nem sempre foi seguida, mas tem sido a norma nos últimos cinco séculos.

A escolha feita por Bergoglio remete também para S. Francisco Xavier, nascido no início do século XVI, em território que hoje é Espanha. Foi um dos fundadores da Companhia de Jesus, a congregação religiosa de que o novo Papa faz parte: Bergoglio é o primeiro pontífice jesuíta. Francisco Xavier é conhecido pelas missões de evangelização no Oriente. Partiu de Lisboa em 1541, passou por Moçambique e seguiu para a Índia. Esteve também na Malásia e no Japão. Morreu na China.

(João Pedro Pereira)

quarta-feira, 13 de março de 2013

O DISCURSO DO NOVO PAPA: JORGE MARIO BERGOGLIO, QUE SE CHAMARÁ "FRANCISCO"



"Irmãos e irmãs, boa noite!

Vocês sabem que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao fim do mundo? Eis-me aqui! Agradeço-vos o acolhimento: a comunidade diocesana de Roma tem o seu Bispo. Obrigado! E, antes de mais nada, quero fazer uma oração pelo nosso Bispo emérito Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que o Senhor o abençoe e Nossa Senhora o guarde.

(O papa recitou junto dos fiéis presentes na Praça São Pedro o Pai-Nosso, a Ave Maria e o Glória ao Pai)

E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo... este caminho da Igreja de Roma, que é aquela que preside a todas as igrejas na caridade. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre uns pelos outros. Rezemos por todo o mundo, para que haja uma grande fraternidade. Espero que este caminho de Igreja, que hoje começamos e no qual me ajudará o meu Cardeal Vigário, aqui presente, seja frutuoso para a evangelização desta cidade tão bela!

E agora quero dar a bênção, mas antes... antes, peço-vos um favor: antes de o Bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a Bênção para o seu Bispo. Façamos em silêncio esta oração vossa por mim.

Agora dar-vos-ei a Bênção, a vós e a todo o mundo, a todos os homens e mulheres de boa vontade.

(bênção)

Irmãos e irmãs, tenho de vos deixar. Muito obrigado pelo acolhimento! Rezai por mim e até breve! Ver-nos-emos em breve: amanhã quero ir rezar aos pés de Nossa Senhora, para que guarde Roma inteira. Boa noite e bom descanso!"

CONJUNTURA NACIONAL

De repente

Abro a coluna com uma historinha da Paraíba.

Um ano da década de 60. O governador Pedro Gondim, da Paraíba, sai em campanha política pelo interior do Estado. Numa cidade, esbarra em uma cantoria de viola. Os organizadores da festa o levam até a dupla de poetas populares para as apresentações:

- Eis aqui o nosso governador, saúda o anfitrião.

- Conhece-o pessoalmente? Indaga a um dos cantadores.

O artista acena afirmativamente e lasca de improviso.

- Eu conheço vários Pedros
- Pedro Bom e Pedro Ruim
- Pedro ruim igual a Pedro
- Só conheço o Pedro Gondim!

O governador esboçou um sorriso amarelo.

(Da coleção de Orlando Rodrigues em Segura Essa)

O enigma Serra

José Serra começa a se vestir de enigma. Para onde vai o ex-senador, o ex-governador, o ex-prefeito e o recorrente candidato à presidência da República? Chovem versões nos bastidores políticos. Ora, ouve-se a versão de que apenas faz onda, mas acabará se conformando com a candidatura ao Senado pelo PSDB, em 2014. Afinal, tucano de bico grande não abandonaria a floresta. Ora, ouve-se à boca pequena que estaria de mala e cuia pronto para embarcar na canoa do PPS, do deputado Roberto Freire. Nesse caso, seria candidato pelo partido à presidente. Há quem o veja entrando no PDS de Kassab, hipótese sem chances, eis que a legenda já assentou pé na base governista de Dilma.

Alternativa mais viável

Pelo andar da carruagem e levando-se em conta a fala do deputado Roberto Freire, no Roda Viva, da TV Cultura, desta segunda-feira, o noctívago Serra quer mesmo ser candidato a presidente - "o melhor perfil", segundo o presidente do PPS. O fato é que os tucanos estão rachados em SP. O grupo de Serra tem birra e bica o grupo de Alckmin. Fernando Henrique tenta apartar a contenda e não consegue. Diz-se, ainda, que Serra não teria aprovado a iniciativa de FHC de pedir a Aécio que colocasse seu bloco na rua. Muito cedo, considera. Mas Aécio tinha de dar resposta à provocação de Lula, que anunciou a presidente Dilma como candidata à reeleição.

O quadro com 5 candidatos

Se Serra entrar no pleito e se Marina conseguir formar seu partido antes de outubro, a moldura seria composta por : Dilma, candidata governista, e mais quatro candidatos de oposição: Serra, pelo PPS; Eduardo Campos, pelo PSB; Marina, pela Rede Sustentabilidade e Aécio, pelo PSDB. Nesse caso, as possibilidades de um segundo turno são bastante previsíveis, mesmo sob um cenário de estabilidade econômica, crescimento médio do PIB e bolso cheio da galera das margens com a grana das Bolsas. Mas há outras hipóteses a considerar. Vejamos.

O fator Marina

Digamos que Marina Silva não consiga arrumar a sua Rede. Teria duas alternativas: ser vice do Serra, na chapa do PPS. Nesse caso, teria de ingressar no partido ou em outro que firmasse parceria com a sigla de Roberto Freire. Ou poderia compor a chapa de Eduardo Campos, do PSB. Este consultor acredita que esta última hipótese é mais provável, levando-se em conta o passado de Marina e a identidade tucana de Serra, mesmo que este venha a sair do PSDB. Campos/Marina seria uma chapa mais identificada com novidade, coisa diferente.

Segundo turno

Em qualquer hipótese, confirmando-se a candidatura do governador de PE, a questão se apresenta desta forma: com quem Campos faria parceria em um segundo turno? Com o candidato tucano Aécio Neves ou com a presidente Dilma, considerando-se que sejam os mais prováveis candidatos a entrar na segunda rodada eleitoral? Este consultor tem dúvidas. Lembro que Campos já me confessou uma vez : meu sonho é reunir a geração pós-64 e tomarmos conta do país. Naquela noite, em Comandatuba, essa geração abrigaria perfis como os Gomes (Ciro e Cid), Aécio Neves, Kassab e ele, Eduardo Campos, entre os mais visíveis. Por isso, não se pode descartar a possibilidade de Campos entrar na seara de Aécio, apesar da forte influência que deverá exercer, numa situação dessas, seu "irmão mais velho", Luiz Inácio Poderoso Lula da Silva.

Teria ele chances?

Campos tem chances de entrar em um segundo turno? Vejamos. Primeiro, teria de unir todo o PSB em torno de seu nome. Coisa complicada, quando se sabe que o governador Cid Gomes já manifestou sua preferência por Dilma, com o conselho ao correligionário para se preservar e ser candidato em 2018. Segundo, teria de conquistar o território do Sudeste, onde é um perfil praticamente desconhecido. SP, com 30 milhões de eleitores; MG, com 15 milhões e RJ, com 12 milhões serão Estados decisivos. E Campos passa longe das urnas nesses três maiores colégios eleitorais do país. E mesmo no Nordeste, o maior colégio eleitoral é a Bahia, onde Campos também não tem penetração. Tudo isso pode mudar? Sim. Mas a análise fria dos dados aponta para uma posição de parceiro menor em 2014.

E qual a vantagem?

Ora, a vantagem de entrar na campanha de 2014 é mesmo o da meta da visibilidade. Desconhecido, o governador passaria a ser bastante conhecido. Aplainaria o caminho para a chegada ao pódio em 2018. Como sempre tem lembrado este consultor: a menor distância entre dois pontos na política nem sempre é uma reta como na geometria euclidiana. É uma curva. Que o digam Lula e tantos outros que colecionaram derrotas e, depois, foram glorificados pelas urnas.

Papáveis

Entremos, agora, na Capela Sistina, onde se realiza o Conclave para eleger o sucessor de Bento XVI. A Igreja Católica de Roma padece de forte crise: as finanças estão combalindo e graves denúncias têm corroído a imagem da instituição que governa mais de 1,2 bilhão de pessoas. O melhor perfil seria o de um Papa carismático, que tivesse condições de colocar a Igreja nos trilhos da modernidade, uma pessoa de ares santificados, que não fosse carimbado com os rótulos de conservador, progressista, reacionário, moderno. Um papa do século XXI.

Principais nomes

Dom Odilo Scherer, o brasileiro, tem condições? Sem dúvida. Mas entra no círculo dos rótulos. Para o Brasil, seria ótimo. Afinal, temos a maior população católica do mundo. E SP, sua arquidiocese, a maior população de católicos do Brasil. Mas é considerado conservador e candidato da poderosa, porém polêmica, Cúria Romana. Angelo Scola, o arcebispo de Milão? Considerado muito avançado. E que tal um meio termo, como Gianfranco Ravasi, italiano, culto e carismático? O canadense Marc Ouellet tem chances, mas o simbolismo do poderio da América do Norte pode ser inconveniente.

Orater frater

O padre Edmondo Kagerer é austríaco, mas adora o Brasil em especial os sertões do Seridó, onde fundou e mantém em pé as Aldeias Infantis SOS. Fuma cachimbo e gosta de cerveja. Mas os motivos que o levaram a deixar a paróquia de São José e, por certo período, a região, foram a língua portuguesa e sua pronúncia. Chamava o motorista Paulo de Apaula, Caboré, um amigo, de Acabaré, e assim por diante. Mas quem complicou mesmo a situação foram as pressões das beatas junto ao bispo depois de tanto ouvirem e, claro, não entenderem, essa revelação do reverendo estrangeiro em seus sermões:

- Ajude a igreja. A nossa piroca também é de vocês! (o reverendo se referia à paróquia)

(Quem conta em Segura Essa é Orlando Rodrigues)

E o Tristiciano, hein?

O sobrenome acima, claro, é um contraponto ao Feliciano. Isso mesmo, o sobrenome do deputado Marco, do PSC, elevado ao cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. A polêmica se estabeleceu. O deputado deu declarações discriminatórias e parece mesmo embalado por um celofane fundamentalista. A esta altura, o PSC, para evitar desgaste, deveria substituí-lo. Sob pena de ter de conviver com reações negativas que acabarão estreitando mais ainda seus votos em 2014.

Ponto e contraponto

E por falar em ponto e contraponto, levanto mais uma comparação : a alga e o silicone. A alga é elemento que pode descobrir a verdade. O silicone, o elemento usado para encobrir a verdade. Vejamos. Um biólogo analisou o sapato do advogado Mizael Bispo e descobriu nele uma alga que existe na represa, onde foi encontrada sua namorada, Mércia Nakashima. Ou seja, uma alga pode ser a pista para a descoberta do crime. Abrindo, agora, a outra historinha. Em SP, uma médica de 29 anos foi presa por suspeita de fraudar o ponto eletrônico nos plantões de um hospital público, usando, para tanto, dedos de silicone com a digital de médicos e enfermeiros. 11 médicos e 20 enfermeiros participariam do esquema. Tecnologia a serviço do bem e do mal. E uma pitada de cultura brasileira. A cultura do jeitinho.

Temas ferventes

A pauta política no horizonte deixa a ver temas candentes em intensa discussão: pacto federativo, royalties do petróleo, MP dos portos, orçamento impositivo. O pacto federativo abrigará fóruns de governadores e prefeitos interessados em aumentar a participação de Estados e municípios no bolo da União; o assunto está pra lá de discutido. RJ, ES e SP buscam, no STF, recompor a situação dos chamados Estados produtores e garantir contratos do passado. Os portos estaduais, como Suape, em PE, temem perder sua autonomia. A presidente quer acabar com prerrogativas de Centrais Sindicais de interferir no regime de contratação de avulsos. Há outros imbróglios na MP. E os deputados não vêem a hora de decidir sobre o orçamento impositivo, promessa do presidente da Câmara, Henrique Alves. Essa modalidade resgata a autonomia orçamentária aprovada pelo Congresso.

Facilidade impossível

Prefeito de Mossoró, João Newton da Escóssia sempre foi conhecido pelo rigor no trato das coisas públicas. Nada e ninguém poderiam violar o erário municipal. Apesar do rigor de João Newton na administração da prefeitura de Mossoró, não faltam excessos e incursões a pecados. Detectado por João Newton, o deslize era imediatamente reparado. O prefeito, ninguém tem dúvidas, não tem qualquer tipo de flexibilização, quando o assunto fere a lei. Em sua sala de trabalho, João Newton vê entrar um antigo amigo, num dia de expediente normal. Trata-se do conhecido "Telé". Após cumprimentos normais, algo comum entre amigos, Telé assinala o que o levara ao gabinete do prefeito:

- João, eu vim aqui para lhe pedir uma coisa!

- Pode falar, Telé - estimula o prefeito João Newton.

- Eu quero que você facilite uma coisa para mim - diz.

O prefeito, então, pondera bem ao seu estilo:

- Olha, Telé, se tiver tudo certinho, dentro da lei, direito mesmo, eu lhe ajudo.

Casmurro, Telé vê logo como é inexpugnável o senso de legalidade do prefeito e amigo.

- João, eu vim aqui para você facilitar uma coisa. Se fosse assim, tudo direito, eu não vinha lhe procurar.

(O relato é de Carlos Santos em seu livro Só Rindo)

Conselho aos pré-candidatos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado às Centrais Sindicais. Hoje, dedica sua atenção aos pré-candidatos que começam a correr o país para viabilizar planos eleitorais.

1. No momento em que Vossas Excelências começam a pôr o carro nas ruas e abrir um amplo processo de articulação com as forças da sociedade organizada, é aconselhável que portem ideias claras, objetivas, viáveis, abrangentes. Essa sugestão visa despersonalizar o processo político/eleitoral e adensar o discurso com propostas para o país.

2. Ouçam as demandas dos grupamentos sociais, procurando compor a radiografia da realidade brasileira. E evitem fazer crítica por crítica. Façam elogios a programas/projetos que estejam mostrando resultados.

3. Evitem parolas populistas e molhadas no caldo do oportunismo que costuma embalar os pacotes de compromissos.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 12 de março de 2013

JOSÉ CORIOLANO DE SOUSA LIMA



Faculdade de Direito do Recife. Prédio lendário, desenho imperial, arquitetura solene, postura memorial, arquivo incomensurável, atmosfera histórica. Os jardins que circundam aquele edifício memorável exibem bustos de nomes famosos – como Rui Barbosa e Castro Alves – que salpicaram de estrelas as folhas cadentes da literatura nacional.

Piso os pés no envolvente silêncio que domina aquele tablado clássico. Interrogo uma servidora se poderia me prestar informações sobre um ex-aluno da Instituição. Ela responde afirmativamente e, na mesma pisada, indaga qual o período em que estudou e o nome completo desse ex-aluno. Respondo que se trata de José Coriolano de Sousa Lima e que foi aluno nos idos de 1850. Depois de pesquisar, ela me afirma que o nome do autor de O Touro Fusco e Impressões e Gemidos consta na relação de bacharéis em direito que se perfilaram como concludentes no ano de 1859.

Admirador contumaz do meteórico e insuperável poeta de Crateús, saí dali com minha taxa de estima ainda mais inflada por esse ser constelado. José Coriolano, que deixou a existência terrena dez anos após concluir o curso de direito, em apenas uma década fincou mourões indeléveis. Construiu uma rampa de madeira imorredoura. Acessou o portal da glória. Conheceu a copa do sucesso e nos distinguiu com um legado luminoso que o redemoinho dos anos não conseguiu apagar.

Com atuação destacada no Maranhão e no Piauí, percorreu o leito da história como Magistrado de escol, Jornalista de renome, Político ilustrado e Poeta insuperável. Juiz de Direito em várias freguesias, sua pena de Jornalista passeou ativamente nos vales da linotipia da imprensa no Recife e Teresina. Foi deputado provincial pelo Piauí, por duas legislaturas, e presidente da Assembleia Legislativa (pois, à época em que viveu, Crateús pertencia ao Piauí). Aclamado Príncipe dos Poetas Piauienses, é considerado o talhador da pedra fundacional da literatura Piauiense.

José Coriolano é a comprovação inequívoca de que a distribuição dos dons Celestes não segue a perversa lógica mercantilista. Enquanto o poder econômico é atraído pelo magnetismo da concentração do capital e brota, via de regra, nos grandes centros de exibição da riqueza, a gratuidade divina escolhe os estábulos e as manjedouras mais inesperadas para parir os seus rebentos. O primado da inteligência - produto da mão que gera o imprevisível, dádiva do Ser Superior – lateja em solos inimagináveis. Germina nas capoeiras mais desprezadas. No tempo de Jesus, os doutores da Lei se questionavam como Nazaré, uma região sobre a qual pairava a nuvem do preconceito, era capaz de gerar um Profeta! Logo aquele Jovem questionador, que era filho de um carpinteiro!...

José Coriolano é a materialização inconteste dessa assertiva bíblica. Nascido entre as babugens destes solitários torrões, na fazenda Boa Vista, quando Crateús era conhecida por Vila Príncipe Imperial, resplandeceu nos cerimoniosos espaços em que pontificavam os luminares da cultura nacional.

Coriolano foi um fidalgo das letras que construiu uma obra impagável e inapagável de devoção às maravilhas Divinas, de paixão pela Natureza e por todos os animais, de modelar sintonia com a mulher amada, de culto aos altos valores da Justiça e da Liberdade! Seu busto, reexposto em praça pública, é uma doce provocação à nossa massa encefálica: estudemos sua trajetória, miremos seu exemplo!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

OBSERVATÓRIO

Mahatma Gandhi, que provou para o mundo ser possível mobilizar toda uma Pátria em torno de um projeto revolucionário de transformação social pela via da não violência ou da resistência pacífica, protagonizou cenas de extraordinário valor pedagógico. Conta-se que, em determinada ocasião, uma mãe pediu uma audiência com o Mahatma. Indagada a razão do pleit, ela disse: - Mestre, quero que peça meu filho para parar de comer açúcar. Gandhi olhou para ambos, silenciou por alguns segundos e pediu que voltassem 15 dias depois. A Mãe, mesmo contrariada - pois não entendia a razão de demorar tanto tempo para solucionar coisa tão simples – aquiesceu. Quinze dias depois, retornou ao encontro com o “Grande Alma”. Ao entrarem, Gandhi mirou nos olhos do filho trazido ao seu encontro e vaticinou: “Pare de comer açúcar!”. Surpresa, a mãe perguntou o motivo que tinha levado o Mestre a deixá-los esperando tanto tempo para pronunciar aquela pequena frase quando podia tê-lo feito quinze dias antes. Gandhi respondeu: - É que eu também comia açúcar!
Coerência - ou harmonia entre prédica e prática, palavra e ação – eis o grande desafio dos tempos atuais, sobretudo para os homens públicos...

JOSÉ CORIOLANO

No último dia 08 de março, sexta-feira passada, a população da cidade de Crateús recebeu de volta o busto do seu poeta maior, José Coriolano de Sousa Lima, recolocado na praça ao lado da Catedral. A iniciativa foi da Academia de Letras de Crateús, representada por Edmilson Providência, Flávio Machado e Raimundo Cândido, mas contou com a colaboração do Poder Público e de vários conterrâneos. À solenidade compareceram diversos artistas, intelectuais, populares e autoridades, como o Prefeito, doutor Carlos Felipe e o Representante do Ministério Público, doutor José Arteiro Goiano. A imagem de um homem de existência curta, porém extremamente radiosa e laboriosa, retorna ao espaço donde nunca deveria ter sido retirado: o pátio da admiração coletiva. Ivens Roberto de Araújo Mourão, trineto do poeta, militante entusiástico e pesquisador incansável do legado do poeta, representou a família e brindou a Academia de Letras de Crateús com uma relíquia: um manuscrito poético de José Coriolano. (vide crônica ao lado).

DIA DA MULHER

A homenagem a José Coriolano ocorreu no mesmo dia em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, 08 de Março. A coincidência é emblemática, porque o autor de “Impressões e Gemidos” amava incondicionalmente sua musa, Maria Cesalpina. Na ocasião, a Professora Rosa Morais recebeu das mãos do seu sobrinho Zacarias Bezerra e do Prefeito Carlos Felipe o pergaminho contendo a benção Papal em honra do seu centenário, que ocorrerá em outubro, da nossa eterna professora e catequista.

LIVRO

Por falar na longeva família Morais, o doutor José Maria Bonfim de Morais, também sobrinho da Professora Rosa, estará lançando nos próximos dias um volumoso e primoroso livro sobre o Monsenhor Morais.

CURTAS

O Vereador João de Deus cumprimentou-me efusivamente no evento em louvor a José Coriolano para dizer que, como aniversariante da noite, não poderia receber presente melhor: o retorno da nossa pioneira Rádio Educadora de Crateús, que voltou a emitir suas ondas sonoras...

No dia 17 de março vai acontecer mais uma Eleição do Conselho Tutelar de Crateús. Longe de ser um espaço para teste eleitoral convencional, o Conselho Tutelar é um organismo pulsante e vital para a conformação social do núcleo familiar, célula mãe da sociedade, e no que pertine à conscientização dos deveres e direitos das Crianças e Adolescentes...

Os integrantes da Administração Municipal convidam para o lançamento da pedra fundamental do Campus Avançado da UFC, cujo terreno foi doado pelo empresário Lulu Cavalcante...

João Coelho Soriano, o Massaroca, noticiou: o Prefeito lhe confidenciou que vai renunciar à Prefeitura e pleitear uma vaga à Assembleia Legislativa. Com isso, o bastão do Poder Municipal sairá das rédeas do PCdoB e passará, pela primeira vez, às mãos do PT...

PARA REFLETIR...

Há na minha província uma ribeira,
Um sertão, onde eu vi a vez primeira
Sorrir-me da existência a doce luz:
Tem o nome da tribo que o habitava,
Quando ao rude tapuia entregue estava,
Esse nome, sabei-o, - “Crateús.”
(José Coriolano)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

segunda-feira, 11 de março de 2013

O PODER DA ACEITAÇÃO

Sempre que surge em nós alguma emoção negativa, estresse ou qualquer tipo de desconforto emocional, é um sinal de que, em algum nível, entramos em um processo de não aceitação da realidade. Situações acontecem e reagimos internamente contra a realidade nos causando sofrimento.

Os pensamentos de não aceitação são os mais diversos. Alguns desses pensamentos falam sobre coisas que estão acontecendo no presente momento, e outros focam em situações já passadas: Eu não deveria ter feito isso; fulano deveria ter falado comigo de outra forma; as pessoas deveriam se comportar de tal maneira; eu deveria ter feito outra coisa e não fiz; o mundo deveria ser mais justo; eu não aceito o que aconteceu comigo; não suporto o jeito de falar de fulano (pensamento que deixa implícito que fulano deveria ser de outra forma); o avião não deveria estar atrasado e etc...

Imediatamente ao entrarmos em conflito com a realidade, surge desconforto. Ditamos internamente como a realidade e as pessoas deveriam ser. Mas elas são sempre do jeito que são, e não há pensamento no mundo dentro de nós que possa mudar a realidade do jeito que ela está se apresentando naquele momento, ou o que já passou.

Uma das formas mais comuns de não aceitação da realidade é o hábito de reclamar. Existem pessoas que reclamam continuamente de tudo o que acontece e que não se encaixa com o ideal imaginário que ela criou. Reclamam do trânsito, da fila, do atraso, do salário, das atitudes de alguém, e até do clima, o que as deixam eternamente estressadas e insatisfeitas.

Existem uma crença que está profundamente enraizada no inconsciente coletivo que diz que se nós aceitarmos as coisas como elas são, não vamos fazer nada e assim tudo ficará do jeito que está. Essa crença deixa implícito que nós só vamos agir se ficarmos infelizes e estressados, o que ajuda a alimentar o estado de não aceitação. O que acontece é que a maioria das pessoas continua reclamando, gerando muito desconforto para si e para a coletividade, e não toma providências práticas para melhorar a realidade.

Será que é possível entrar em um estado de aceitação e agir mesmo assim para mudar algo? Sim, é claro que é possível. Aceitação é diferente de acomodação. Aceitação é apenas o fim da guerra interna com a realidade; o fim da ditadura interior que diz que a realidade deveria ser de outra forma enquanto ela é do jeito que é, nos causando apenas estresse. A acomodação acontece quando podemos fazer algo e não fazemos. Podemos aceitar a realidade, ou seja, deixar de ficar brigando internamente com ela, já que isso não ajuda e apenas nos causa desconforto, e ao mesmo tempo fazermos o melhor que pudermos para tornar a realidade mais prazerosa.

A acomodação é sempre um reflexo de medos, inseguranças e processos de autossabotagem se manifestando em alguém. Não faz sentido poder fazer alguma coisa e simplesmente não fazer. Um ser humano em perfeito equilíbrio emocional consegue aceitar em paz a realidade e ao mesmo age da melhor forma que puder se tiver algo que possa ser melhorado com sua ajuda. Se você faz um pedido ao garçom e ele traz a comida errada, é possível simplesmente aceitar o erro que ele cometeu (e assim não se sentirá estressado) e ao mesmo tempo pedir pra que ele traga o prato correto.

Uma pessoa acomodada sente medo, preguiça, vergonha e acaba não tomando a providência necessária. Já a pessoa que está no modo da não aceitação, toma a providência mas acaba gerando muito desconforto para si mesma. Conforme todos nós sabemos, o estresse afeta a nossa saúde emocional e física, gera tensões no corpo e diversas outras somatizações.

A ação que vem de uma pessoa em um estado de aceitação é mais eficiente pois está livre de qualquer negatividade. Assim não há exageros, dramas ou distorções. É uma ação lúcida, que vem de alguém que sabe lidar bem com a realidade.

Os melhores diplomatas, negociadores e conciliadores são pessoas que não ficam brigando internamente com a outra parte, eles aceitam e fazem o melhor possível e assim conseguem resultados muitas vezes surpreendentes.

Mas em muitos casos, não há nada realmente a fazer. Reclamar do transito, por exemplo, não o fará ir mais rápido. Nesses casos a única coisa sensata a se fazer é entrar no estado interior da aceitação. O mesmo é válido para qualquer fato que tenha acontecido no passado.

Toda a negatividade que criamos em torno da não aceitação, além de gerar estresse, ajuda a atrair mais situações desagradáveis. Atraimos para a nossa realidade aquilo que estamos sentido, e se nosso estado interior é de desconforto, mais situações desagradáveis surgem. O estado de não aceitação faz ainda a nossa mente ficar focada nas coisas negativas da vida, consumindo nossa atenção que poderia estar direcionada para coisas boas ou para criar soluções e transformar a realidade.

Talvez você já tenha passado pela seguinte experiência. Ao se desapegar de um determinado problema que você tentou de várias formas resolver e não conseguiu, surge uma solução sem que seja preciso a sua intervenção ou que exija apenas uma ação bem simples. O desapego faz parte do estado de aceitação.

Removamos todos os sentimentos desconfortáveis que surgem ao pensarmos em situações do passado, situações futuras e outros pensamentos quaisquer. Isso nos coloca em um estado profundo de aceitação. Nesse estado de paz interior nossa sabedoria aumenta e sabemos de uma forma intuitiva se é possível agir, e caso seja possível, a melhor ação a ser tomada.

(André Lima)

domingo, 10 de março de 2013

AMORES E CLAMORES DA CIDADE


Desde a minha juventude, lembro que a defesa da Justiça e da democracia se interpôs na minha caminhada. É por isso, com certeza, que escolhi a profissão que exerço: ser advogado. Sei que a palavra e o seu significado me seduzem até a exaustão, e que a ética e os valores supremos da beleza estão na raiz do meu equilíbrio psíquico, mas sem a busca incessante da Justiça sei também que não faz sentido viver.

Sempre me aproximei daqueles que defendem esses valores, que lutam pela afirmação da cultura popular, que clamam no deserto contra a injustiça e a perversão do capital, que sabem palmilhar seus caminhos, instalando neles a iluminação, sem nunca reclamar a busca do tempo que se foi.

A afirmação da cultura, para a minha visão pessoal, não está nas Universidades, tampouco nas Academias, esses nichos de petulância e de quase nenhuma produção, mas naqueles que fazem a cultura prosperar, em todos os quadrantes do mundo e especialmente no sertão.

Os grandes produtores de cultura do Ceará não estão somente em Fortaleza, como pensavam, até bem pouco tempo, os pesquisadores eruditos, mas em toda extensão da terra de Alencar. Patativa do Assaré, Dideus Sales, Oswald Barroso e Gilmar de Carvalho conhecem o Ceará e suas tradições muito mais do que os poetas que mourejam no Ideal; ou muito mais do que os eruditos que estudam a extensão da sua ignorância nos corredores do Benfica.

Júnior Bonfim, poeta e pastor de estrelas nas margens do Poty, com banca de advogado em Fortaleza, é um dos nomes da cultura cearense que resplende em todo o Ceará. Sabe os ofícios da Justiça e da reparação da Igualdade, o alfabeto da Ética e os inventários máximos que se plantam nos rios da cultura.

É poeta de vários instrumentos, viajante lírico dos melhores e arauto de uma épica que se quer, a qualquer custo, incrustada em nossos corações. A emoção se coloca no centro das suas preocupações. O tecido amoroso o envolve. E a poesia por ele praticada é toda ela uma imensa jitirana de luz, brilhando entre veredas de sol, iluminando os cafundós do nosso empedernido sertão.

E para além de poeta e de autor de livro de poemas que se impõe aos ofícios da leitura, Júnior Bonfim é produtor de cultura que não para nunca de criar. Exemplo desse seu desassombro de esteta é o seu livro de crônicas e ensaios Amores e Clamores da Cidade (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2008), que agora tive o privilégio de reler.

Trata-se de uma radiografia e de um inventário de amores (e de clamores) da cidade que o viu nascer, em que se mesclam personagens e cenários, e paisagens e fulgores de um estilo de vida que se quer, também, fazer representar, tamanha a verossimilhança dos afetos e o recorte à clef dos atores com os quais o escritor Júnior Bonfim interage.

Não me vou alongar nesta exposição. Digo tão somente que Júnior Bonfim para mim é irmão, porque preza o Direito, sabe defender a Justiça e sustentar a Ética do desejo pela urbe, como se o tecido das relações urbanas fosse a morada do ser e a reprodução da cena social.

(Dimas Macedo, Poeta, jurista, historiador e crítico literário.Professor da Universidade Federal do Ceará, membro da Academia Cearense de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste)

quinta-feira, 7 de março de 2013

UMA PROSA PARA UMA ROSA

No final da Rua Cel. Giló avista-se o solitário Casarão dos Morais. Na sala de estar, repleta de quadros, exibem-se os vultos que outrora se abancavam na calçada para uma genuína prosa sobre o imponderável tempo arrematando as conclusões da vida. Hoje, estamparam-se nas paredes, numa saudosa galeria mnemônica. As janelas abertas, de par em par, observam atentamente os inquietos transeuntes que passam rumo ao Bairro dos Venâncio. Havia, até recentemente, mais o que se ver, porém o impiedoso tempo corroeu a robustez das coisas e as volúveis lembranças. Um frondoso Flamboyant, fincado em frente à senhorial casa, é testemunha daquelas fulgurantes eras.

Às vezes o intempestivo rio, que passa ali em frente, ilhava o casarão. Irrequietos remos de canoas, num esforço hercúleo, trabalhavam para ir de uma margem a outra. A meninada, em algazarra, fazia estripulias nos banhos do Poti. De quando em quando, o intermitente fluído aquoso, esquecia-se de voltar. As forças da natureza, que fazem desaguar as providenciais chuvas, se afastavam do sertão. O verão, outra vez doloridamente infecundo, estica o mês de abril destroçando as esperanças de um ser que teima em sobreviver, que insiste na agreste ilusão. Naqueles tórridos dias o homem do campo veste um aviltante gibão do inaceitável padecer. Tudo perdido, esgotada as provisões, a fome é um ranger de dentes nas mirradas carne dos filhos pequeninos e o único apelo é campear um minguado auxílio nas cidades. Até a insensível caatinga agoniza no aspecto desolador, árvores sem folhas, galhos estorcidos e secos afeito a dolorosa paisagem que concebe a tristezas dos ermos.

Assim, transcorrem pesarosos os ressequidos meses de 1951. Como Portinari a pintar “Os Retirantes”, uma solene senhora, debaixo de um imenso chapéu abriga-se de um sol escaldante, exibe paleta e pincel nas mãos a tingir um quadro sobre um cavalete. Bem próximo, no leito do Rio Poti, os retirantes montaram imensas latadas de moitas de mufumbo, onde diversas famílias de maltrapilhos sertanejos descansam, após uma manhã de suplicantes esmolas campeadas pelo centro da cidade. Enquanto a jovem Rosa Morais imprime aquele momento histórico na oleosa tela intitulada “Realidade Nordestina” recorda-se de outros momentos marcantes de sua vida. Foi em outra grande seca, a de 21, mal completara 4 anos de ingenuidade infantil e já se deslumbra com as belezas da natureza nas margens do Poti. Vendo o exemplo dos retirantes experimenta o frutinho verde de jaramataia, atitude que lhe custa a boa saúde, mesmo com tanto purga de leite que sua mãe lhe obrigara a beber.

Fora as graves consequências do envenenamento pelo fruto silvestre, a jovem Rosa Morais é uma pessoa temperada na disposição de fazer, na vontade aprender e, principalmente, na vigorosa fé pela busca da vida. Transporta uma considerável cultura, aprendida de forma quase autodidata, como uma mestra de si mesmo em constante evolução, num sábio fluir, mas os pés na realidade. Mal termina o 3º Ano Primário no Colégio Lourenço Filho, passa no concurso para professora do Estado indo substituir uma professora na cidade de Novo Oriente.

Recorda-se de quando o senhor Agostinho Teixeira, da fazenda campestre, chama os dois netos, e ordena: - Oh, Antônio Cândido, chame o Raimundinho, selem três cavalos e vão buscar a professora Rosa, na cidade de Novo Oriente. Ela vem passar o fim de semana com a gente. Os meninos vão satisfeitos, pois têm a meiga Rosa como uma querida irmã. Na volta, a professora, sentada de lado numa sela especial, conversa amenidades com os rapazes, relata seus acontecimentos na terra da Lagoa do Tigre, aponta displicente para um carcará na copa de uma aroeira a vigiar a solidão do sertão e pergunta o que os meninos fizeram na semana.

Uma de suas amigas, com ciúmes, até afirmara: - A Rosa, agora, só quer saber dos Teixeiras!

Mas amizade é um amor que nunca morre! O jovial Antônio Cândido, espirito brincalhão, confiante na lealdade da companheira, se faz até de confidente ao contar que noivara em Ipueiras e socorria-se com ela nos momentos de apertos: - Rosa, você tem um dinheirinho aí? Mas não diga a Joaninha, que depois eu lhe pago! Sabia que ele gostava de se entreter numa mesa de bilhar. Já o Raimundo era mais pacato, concentrado, e já caprichara ao escrever o discurso que ele iria pronunciar na posse de Presidente da Congregação Mariana, na cidade de Sobral e com certeza Dom José Tupinambá estaria na plateia! Nunca entendeu direito porque seu grande amigo Raimundinho se afastara de sua companhia, só desconfia, pois tudo aconteceu depois que ele conheceu a professora Delite. Não viam a hora de chegar logo na cidade para, a noitinha, ir a praça da Matriz e ficar ouvir a banda tocar no coreto.

Imensa é sua gratidão ao professor Luiz Bezerra, pois o mesmo a obrigou aceitar um convite para ensinar desenho na Escola Normal. Na apreensão pela missão imposta, ele a tranquiliza: - Rosa, mesmo faltando um semestre para você se diplomar, sei que és capaz e dará conta, até vai lhe ajuda no pagamento da mensalidade! Desta experiência, ao longo dos anos, foram surgindo as 42 belas obras que compõem o tema “Natureza e Arte” a maioria das telas com perspectivas nordestinas que estão espalhadas pelo mundo.

Lecionava pela manhã, estudava a tarde e à noite, na luz do lampião, fazia florzinhas de fécula de batata, de papel, de couro, de parafina, enfeites de velas de primeira comunhão para adquirir dinheiro e pagar a escola. Concorrido foi o Curso de pintura, que montou na Escola Normal, entre os alunos tinha um padre francês, chamado João, que pincelava os quadros como se fosse uma oração.

Outro amigo que a digníssima professora Rosa Morais recorda com carinho é do Pe. Moacir, que planejou sua entrada para a Congregação Religiosa das Josefinas. A irmã Rosita permitiu que ela passasse 17 dias internada, para pensar e se avaliar. Rosa afirma: – Eu rezei muito para o Senhor mostrar minha vocação. Tive vontade, mas me faltou aptidão para usar o habito das freiras. Não sabia o que fazer, nunca usei batom, nem esmaltes nas unhas. Eu sou eu mesma, sempre me pertenci! Não fiquei na irmandade, mas também não tive coragem de casar! Apareceu um rapaz, era um ex-seminarista e eu lhe disse que ele foi bobo, por ter jogado os pés no Senhor.

Rosa sempre esteve em contado com os padres, inclusive o irmão, Francisco Ferreira de Morais que foi um deles, na cidade do Ipu. Do Pe. Bonfim, em Crateús, lembra-se do temperamento explosivo e de quando surgia um probleminha no colégio, onde ensinou por 37 anos, ela mesma tentava resolver, com ajuda do Senhor Expedito Paiva, antes de o levar ao conhecimento do duro Monsenhor. No famoso colégio da Firmino Rosa exerceu mais um dos seus dotes artísticos, o poético, é a autora do belo hino que glorifica o Colégio Pio XII.

Hoje, o velho casarão dos Morais tem um ar nostálgico, que transparece no olhar das

Janelas abertas ao horizonte, mirrando a calha seca do rio. E na sala de estar, Dona Rosa repousa de uma longa batalha para educar gerações de crateuenses, assistindo uma destas emissoras católicas de TV. Nem imagina que nesta sexta-feira, dia 8 de Março, receberá uma homenagem, que pouquíssimas pessoas no mundo tiveram a honra de receber, uma Benção Papal, assinada pelo punho do próprio Bento XVI, antes de renunciar. Sem falar que já se prepara a grande festa para o dia 26 de outubro quando completará 100 anos de admirável existência. A professora Rosa Morais, com tantos motivos para ser feliz, sendo a própria dona da felicidade autêntica, ainda ganha mais uma longeva e poética satisfação: vida cônscia! Obrigado, Mestra!

Raimundo Cândido

quarta-feira, 6 de março de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Enxergando tudo verde

Os cientistas envolvidos com o estudo da agropecuária garantem que o gado bovino somente visualiza uma cor, a escura. Mas o fazendeiro (falecido) Honorim Medeiros, da Fazenda Pedra do Sino, em Caicó, não foi na conversa e, com o respaldo do seu próprio rebanho, jogou por terra a tese dos doutores em zootecnia. Foi na seca dos anos 50. Exauridos todos os recursos de pastagem, o gado rejeitava os restos do capim seco, duro, esturricado, preferindo apenas a torta de algodão, verdinha, fresquinha, ótimo sabor. Honorim vivia preocupadíssimo, aperreado, sem mais saber o que fazer:

- Tô lascado, desse jeito vou alisar!

Matutou, matutou, e, criativo, bolou a ideia genial. Foi até a Paribana, casa comercial do amigo Antonio da Viola e fez uma inflacionada compra, deixando o comerciante boquiaberto:

- Tem óculos de carnaval? Pois então me dá todo o estoque, todos da cor verde (antigamente, eram comuns os óculos de plástico, com alças de elásticos, usados exclusivamente no período momesco).

O fazendeiro levou-os para a Pedra do Sino e fantasiou o rebanho. Na volta à cidade, o amigo quer saber dos resultados:

- Como é Honorim, deu certo?

O fazendeiro abriu um sorriso de orelha a orelha e deu a nova:

- Mas, home, é um milagre. O gado tá comendo até as cercas e os mourões das porteiras!

(Quem conta em Segura Essa é Orlando Rodrigues)

O diabo se prepara

A presidente Dilma começa a lubrificar as armas do seu arsenal. A partir da linguagem, equipamento pesado em uma campanha. Nesta semana, na Paraíba, deu mostras de que vai atirar forte: "podemos fazer o diabo na hora da eleição, mas, no exercício do mandato, temos que nos respeitar, pois fomos eleitos pelo voto direto". A presidente, mesmo sem querer usar a linguagem de campanha, na verdade já está disparando chumbo grosso. O alvo é Aécio Neves, o tucano que começa a atirar no governo, com estilhaços atingindo Eduardo Campos, o governador pernambucano que, por enquanto, permanece na base governista. O verbo mais popular de Dilma é inspirado na verve de Lula.

Eliot

"Somente aqueles que se arriscam ir longe são capazes de saber até onde podem chegar". T.S. Eliot

Danos ao país

A campanha antecipada ocasionará sérios danos ao país, pois as agendas serão embasadas pelo espírito eleitoral. Prioridades se invertem. As ações governativas são atropeladas pelo marketing eleitoreiro. Dos quatro eventuais candidatos, apenas a ambientalista ex-senadora Marina Silva está mais contida. Aécio começa a despejar suas baterias. Eduardo Campos bate forte na tecla do pequeno crescimento e acena para os sindicalistas. E a presidente Dilma começa a correr o país. Sob o empuxo do comandante Luiz Inácio.

Vinícius

"A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida...". "Viver é Amar". "Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure". Vinicius de Moraes, o poetinha.

É muito cedo, porém...

É muito cedo para desenhar cenários. Mas nada impede que tentemos uma expressão sobre potenciais de eventuais candidaturas. É pouco provável a aliança entre Aécio Neves e Eduardo Campos, como muitos defendem. Entre esses muitos, estão tucanos interessados em colocar o governador de PE na chapa do mineiro, como vice, e oposicionistas que sonham em destronar o petismo/Lula/Dilma do poder central. Pois bem, é pouco provável uma aliança entre ambos. Porque já fizeram as contas e chegaram à conclusão de que, separados, terão melhores condições de empurrar a eleição para o segundo turno. Os dois e mais os votos de Marina Silva poderiam tirar a vitória do governismo no primeiro turno.

Millôr

A palavra bem humorada de Millôr Fernandes: "o preço da fidelidade é a eterna vigilância". "O cadáver é que é o produto final. Nós somos apenas a matéria prima". "Eu sei do que estou falando. Tirando isso, não sei mais nada". "O dinheiro não é tudo. Tudo é a falta de dinheiro". "Às vezes, você está discutindo com um imbecil... e ele também". "O Brasil? Ah, está condenado à esperança".

Fatores de cada um

Dilma contará com o fortalecimento dos bolsões sociais (garantia de estômago satisfeito) e melhoria nos patamares de crescimento. Algo em torno de 3% a 3,5% de crescimento em 2013/14 seria suficiente para garantir a continuidade. Enquanto a equação do voto for garantida (bolso, estômago, coração, cabeça), a posição de nossa mandatária-mor não será ameaçada. Aécio Neves seria elevado em cenário de destroço econômico, significando crescimento zero, desemprego em massa, inflação em alta, clima de instabilidade geral. Ademais, carece de um discurso convincente, denso, capaz de mobilizar e animar os contingentes eleitorais. Se ficar apenas no diagnóstico - coisa comum entre os tucanos - ficará defasado. Deve ainda ter cuidado com a artilharia de críticas que baterá nos costados pessoais.

O novo, o charmoso

Eduardo Campos apresenta grande potencial de crescimento. Principalmente se ganhar bom espaço midiático, a partir das alianças. Quem o conhece sabe que não encarna o perfil da inovação, da modernidade (trata-se de um herdeiro do coronel Arraes), mas, pela boa apresentação pessoal, pode vir a ser considerado o de maior assepsia política. O fato de não ser conhecido garantirá boa penetração e avaliação junto a segmentos mais jovens. Mas o PSB não tem palanques abertos no Sudeste e no Sul, regiões de alta densidade eleitoral. Por isso mesmo, procurará se ancorar na fosforescência midiática. Claro, em cenário de baixo crescimento e deterioração econômica. Já Marina Silva terá um eleitorado fiel, mais orgânico e com apoio em setores bem organizados nas frentes sociais. Encarnará o conceito de renovação/depuração.

Chico

"Saudade é o revés de um parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu". Chico Buarque nos brinda com Saudade, palavra que só a beleza poética da língua portuguesa conhece.

O sindicalismo de oportunidades

Nunca o sindicalismo brasileiro ganhou tanta oportunidade para se expandir e fortalecer quanto nesses tempos comandados pelo PT. Pois bem, o petismo fez subir às alturas não apenas a bandeira da CUT, mas as flâmulas de todas as Centrais. Que recebem uma fortuna para fazer pressão (causar má impressão), barganhar e ganhar espaços na administração federal. Vamos lá : o sindicalismo tomou conta da área do trabalho. É quem dá as cartas. Mas se mostra frequentemente contra o governo do qual faz parte. Ou seja, faz oposição a ele mesmo. Jogo inteligente, não? (Quem não se lembra do Lula presidente reverberando contra o governo que ele mesmo comandava?)

Bandeiras sindicais

O que defendem as Centrais Sindicais ? Algumas questões são bastante concretas : redução da jornada de trabalho, fim do fator previdenciário, reforma agrária (apesar da polêmica e divisões de abordagens que o tema sugere), ratificação da Convenção da OIT que impede demissão imotivada e regulamentação de outra Convenção que estabelece negociação coletiva no serviço público. Outras propostas descambam para o terreno do discurso mais abrangente, distanciando-se de posições fechadas, como igualdade de oportunidades para homens e mulheres, valorização dos aposentados, etc.

E o ministério, hein?

Veja-se o Ministério do Trabalho. Foi entregue ao deputado Brizola Neto, um bom perfil, do PDT gaúcho, endossado pela Força Sindical, comandada pelo deputado Paulinho (PDT/SP). O PDT é um partido rachado. O comando é do ex-ministro Carlos Lupi. Brizola quer apagar os vestígios por ele deixados na pasta. Lupi, que faz parte da base governista, tenta resistir. O sindicalismo organiza grande passeata em Brasília para pressionar o governo. O PDT ameaça uma greve geral nos portos. Tudo por conta da MP que cassa a autonomia dos Estados em relação aos portos, tirando o poder do Órgão Gestor de Mão de Obra, enquanto os sindicalistas defendem a continuidade dessa autonomia. Tal prerrogativa passaria a ser da União.

Campos na jogada

Eduardo Campos entra nessa onda e defende a autonomia estadual. Paulinho da Força, que integra a base governista, alia-se ao governador de PE, e atira forte contra o governo. O samba do crioulo doido se completa quando se sabe que o ministro dos Portos, Leônidas Cristino, pertence aos quadros do PSB, tendo sido indicado pelos irmãos Gomes (Cid e Ciro), do CE. E assim caminha o Brasil...!

PMDB e PT nos Estados

PMDB e PT intentam apresentar candidatos ao governo em todos os Estados da Federação. Essa é a estratégia de adensamento do poder. Mais governadores implicarão mais deputados Federais, mais senadores, mais prefeitos e vereadores. Alongamento do ciclo do poder partidário. Mas é possível que, em alguns Estados, haja recuo de um e de outro parceiro para amparar a aliança.

No Rio

Pezão, pelo PMDB, e Lindberg, pelo PT, irão às urnas. Sem chance de parceria PT/PMDB. O PMDB do Rio ameaça não apoiar Dilma. Este consultor não crê na hipótese de Cabral vir a apoiar Aécio Neves.

No RS

Diz-se que Tarso Genro, o governador, quer ser candidato a senador. Não quer administrar um Estado sem recursos. A senadora do PP, Ana Amélia, é forte candidata ao governo. Beto Albuquerque, o líder do PSB de Eduardo Campos, também é candidato.

Em SC

Raimundo Colombo, do PSD de Kassab, é candidato à reeleição. Os tucanos deverão ir com o senador Paulo Bauer, enquanto Ângela Amin será candidata ao Senado.

Em MG

O PT deverá fechar posição em torno do ministro Fernando Pimentel, enquanto Clésio Andrade tentará ser o candidato do PMDB. Newton Cardoso, o deputado e ex-governador, será candidato ao Senado pelo PMDB.

Em PE

Todos apostam na ficha do ministro Fernando Bezerra, como candidato do governador Eduardo Campos.

No RN

Uma incógnita: o senador Garibaldi Alves, muito bem avaliado como ministro, toparia voltar ao governo? Este consultor acredita que não. E o seu filho, Walter Alves, deputado estadual? Já tem idade para ser candidato (32 anos), mas aconselham-no a pegar mais experiência. E o presidente da Câmara, Henrique Alves? Mais uma incógnita.

Garrote e garoto

Voz melosa como poucos, o professor Gumercindo Amorim era mestre em português, lecionando nas escolas em Currais Novos, onde gozava de grande prestígio. Como locutor de rádio, na Brejuí, vez ou outra escorregava :

- Atenção, garrote perdido. Procura-se um garrote trajando calça curta azul marinho, camisa de algodão, branca, conga azul com meias brancas, cabelo busca pé, aproximadamente 10 anos de idade. Quem souber do paradeiro, favor informar aqui na Brejuí ou na residência dos pais do mesmo na Avenida Desembargador Tomaz Salustino, que será bem gratificado.

O sonoplasta, que também redigia os avisos para a leitura dos locutores, percebeu o trocadilho e sinalizou. Sem perder a compostura, eis de novo Gumercindo:

- Mais uma vez, atenção. Retificando o aviso lido há pouco. Onde se lê garrote, leia-se ga-ro-to!

(Essa é também de Orlando Rodrigues)

Conselho às Centrais Sindicais

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos aos gurus do PT, Lula, e do PSDB, FHC. Hoje, dedica sua atenção às Centrais Sindicais :

1. O movimento sindicalista faz parte de uma sociedade democrática. Mas o sindicalismo não pode e não deve dormir eternamente nos cobertores do Estado.

2. É importante saber o que reivindicar, o que defender, o que propor. É irresponsável defender uma agenda que não condiz com as sensíveis economias da contemporaneidade.

3. É preciso saber recuar e não apenas fustigar as instituições. O mundo atual cultiva os valores da racionalidade, flexibilidade, diálogo, contemporização, respeito à ordem constituída. Tentem zelar por este escopo.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 5 de março de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

O crescimento além do PIB

O resultado do PIB que apresentou um crescimento de apenas 0,9% em 2012 não reflete apenas a realidade objetiva no curto prazo. É direto, espelho de um país que se distancia de suas possibilidades, estas muito mais grandiosas. O problema não é o "estático" desempenho de um ano para o outro, mas a ausência de "dinâmica". O consumo também capenga porque, a despeito do elevado nível de emprego, a população se engalfinhou em dívidas caríssimas no tempo da euforia lulista. A indústria está visivelmente pouco competitiva – 21% dos produtos industriais são importados numa arena cambial onde a indústria local não pode prevalecer. Neste contexto, falta ao governo visão estratégica e à iniciativa privada a vontade política de agir em prol de seus interesses. Todos parecem letargicamente esperar que algo aconteça. Não acontecerá. Enquanto isso, o PIB pode subir 3,0% ou 4,0%, mas a realidade subjacente está sólida e não é nada boa.

Copom vai manter juros

Num cenário que combina atividade econômica débil e emprego positivo, o BC vai tecer a sua estratégia em relação à inflação extremamente elevada para um país que zela pela sua moeda. O primeiro ato do teatro da autoridade monetária já foi cumprido: Tombini e seus diretores vieram a público para dizer que estão presentes e que a situação será controlada. Foi um calculado (e combinado) jogo de palavras que esclareceu o mercado e alinhou expectativas dos agentes e do próprio governo (que andava meio ausente neste tema). Agora começa a chegar o momento em que o BC terá de passar da prosa para a ação. Todavia, com o PIB lá embaixo e os indicadores de atividade ainda incipientes (no que tange ao crescimento) é provável que tudo fique como está para ver como é que fica. Depois desta próxima reunião do Copom é possível uma alta de juros porque palavras, como se sabe, não movem montanhas (ops!), não reduzem inflação.

Perguntas sem respostas

Digamos que o PIB deste ano não seja nem 3,0% e muito menos 4,0%. Seja apenas algo entre 1,0% e 2,0%. O que fará a presidente Dilma: removerá a equipe econômica que segue cegamente suas recomendações? Quem viria a substituí-la?

Mantega e a guerra cambial

O ministro Guido Mantega tem sido um exemplar alferes na retórica na qual prega contra a "guerra cambial" que os países centrais (liderados pelos EUA) estariam fazendo contra os emergentes. O Brasil neste tema tem sido o mais loquaz dentre os emergentes – repetiu a dose na última reunião do G-20 em Moscou. A China já pregou há dois anos com mais ênfase em favor da tese da "guerra cambial". Hoje, tem sido mais discreta e prefere cuidar dos vastos interesses cambiais, enquanto o Brasil se consolida como um país exportador de commodities. Em meio a toda esta retórica, Mantega acumula uma contradição substantiva frente ao largo esforço que faz alhures: está fortalecendo o real para manter a inflação baixa. Difícil sustentar argumentos contra os países ricos desta forma.

O preço das bravatas

O governo tem feito um esforço interno e externo – principalmente externo com as caravanas para atrair investidores nos Estados Unidos sob a batuta do ministro Guido Mantega e à Europa pela palavra da ministra Gleisi Hoffmann – na tentativa de convencer possíveis parceiros de que o Brasil é um porto seguro para quem quer fazer negócios. Não tem sido tão bem sucedido em sua logorréia tanto quanto esperava. Os empresários que ouviram Dilma quarta-feira no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o Conselhão, se publicamente saíram sorridentes, no fundo mantiveram suas reversas.

O preço das bravatas - II

Lá fora, Mantega e Gleisi também tiveram recepção simpática, mas as perguntas com que eles e outros expositores brasileiros foram bombardeados indicam que o clima de desconfiança e temor permanece vivo. A razão é muito simples: (1) contradições no discurso oficial, (2) certo irrealismo nas análises dos fatos reais da economia nacional e (3) algumas bravatas de governistas e aliados no âmbito interno. O que forma um caldo bem chacrianiano (de Abelardo "Chacrinha" Barbosa: aquele que não explica (ou convence), confunde). No primeiro caso, ainda não foram bem deglutidas, por exemplo, as divergências de ênfase entre o BC e o Ministério da Fazenda em relação à política de juros e à política cambial. Ou, ainda, a respeito da manutenção ou não do tripé macroeconômico que sustentou a economia brasileira desde a última fase do governo FHC até o fim do mandato de Lula antes da eclosão da crise em 2008.

O preço das bravatas - III

Questões como a confusão provocada pelas mudanças no setor elétrico também pesam nessas análises. O ministro Guido Mantega, na sexta-feira depois da divulgação do PIB de 0,9% em 2012, voltou a dizer que a economia do Brasil sofreu este novo baque por conta da crise externa (sem considerar que vários emergentes foram poupados, em grande medida, dela) e que o país este ano vai crescer 4%, o que nem o BC, por sua última projeção, parece acreditar possível. Tais procedimentos levam os analistas a desconfiar que a equipe econômica nacional não está com um diagnóstico correto da situação e, portanto, não sabe como agir. Ou que quer engambelar o distinto público. É por essas e outras que o prestigioso Financial Times classificou Mantega como um "vaticinador".

O preço das bravatas - IV

As bravatas são aquelas coisas que os governantes e seus partidos dizem apenas para agradar seu público interno, sem intenções (ou condições) de cumpri-las de fato. Por aqui, não são levadas tão a sério, mas para o estrangeiro, não tão acostumado a certas nuances da brasilidade política, é para valer. Há ainda uma quarta vertente desse estilo: o que se poderia chamar de "Lei de Gerson do setor público" : uma tentativa de levar vantagem em tudo. Isto é visível na atual safra de concessões de serviço público em preparação. Praticamente todos os programas inicialmente preparados para os setores de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos já foram alterados, para melhorar as ofertas feitas aos possíveis concorrentes. O governo Dilma parece estar necessitando urgentemente, além de um choque gerencial, de um choque de realidade.

Hora da verdade para o BNDES

Anuncia-se que o governo, nos próximos dias, por exigência do TCU, vai divulgar documento o qual torna público os subsídios implícitos nos repasses do Tesouro Nacional para o BNDES. Foram R$ 250 bi desde 2008, captados ao custo da Taxa Selic e emprestados pela TJLP, de taxas menores. Essa diferença não está registrada ainda nas contas públicas. Pode ser o início da hora da verdade financeira também para o BNDES. Os problemas da política de liberalidade e de escolha de "campeões nacionais" do banco já começaram a aparecer. O lucro da instituição caiu 9,55% no ano passado ante 2011. Teria sido ainda pior – de mais de 30% - se o Conselho Monetário Nacional (CMN) não tivesse autorizado a instituição a contabilizar diferentemente de outros bancos, o valor das ações de alguns de seus investimentos em empresas mais complicadas. Já se analisa a possibilidade de o Tesouro injetar mais R$ 8 bi no banco.

Como no Soneto da fidelidade?

Quem acompanhou as juras de amor trocadas na semana passada entre a presidente Dilma Rousseff (coadjuvada pelo ex-presidente Lula e o PT) e o PMDB e, ao mesmo tempo, conhece o temperamento da presidente, o pragmatismo de Lula, o apetite do PT e as rusgas às vezes nada discretas entre os dois partidos, logo se lembra dos últimos versos de um dos poemas mais citados de Vinicius de Morais:

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Como no Soneto da fidelidade? - II

Uma parcela do PMDB já saiu das festas de núpcias com uma caraminhola na cabeça : apesar de todos os elogios de Dilma e Lula ao PMDB e as referências a Temer, nenhum dos dois ousou confirmar o presidente do PMDB como parceiro (vice, entenda-se) na chapa reeleitoral da presidente. Alegou-se que a não referência direta foi para evitar complicações com a legislação. Ora, desde quando a Justiça Eleitoral é respeitada nesse universo ? Ou não foi Lula quem falou da candidatura de Dilma na festa do PT semana retrasada em SP ? A solidez dessas núpcias será testada logo. Hoje, por iniciativa dos peemedebistas presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, será votado pelo Congresso Nacional o veto presidencial à lei com a nova divisão dos royalties do petróleo. O Palácio do Planalto não queria esta votação agora, pois sabe o poder explosivo que a derrubada do veto pode ter. E se houver votação, o veto cai. Pode rachar a unidade do PMDB e a unidade do partido em torno da presidente.

Como no Soneto da fidelidade? - III

É esperado para esta semana também o início da reforma (ou ajuste, como prefere o governo) ministerial imaginada pela presidente. O PMDB quer recompensas por serviços já prestados e por outros serviços que deverá prestar no Congresso. Parece certo já que a seção do partido em MG vai ganhar o Ministério dos Transportes. O PMDB, porém, quer mais, quer mais "cartórios eleitorais", ou seja, postos que ajudem o partido a conquistar votos. Os peemedebistas costumam dizer que os ministérios que eles têm hoje "não elegem nem ao menos um vereador".

Verdade histórica

Ao contrário do que andam dizendo alguns e escrevendo outros, não foi o ex-presidente Lula o autor do lançamento da recandidatura da presidente Dilma Rousseff. Lula apenas avalizou o que já era fato. Foi a própria Dilma que se lançou, de forma muito pouco subliminar em seu último pronunciamento oficial em rede de rádio e televisão. Lula foi a reboque, com gosto ou sem gosto. Tudo para evitar que Lula crescesse no vácuo da ausência de declarações da presidente.

Uma nova Dilma?

Os afagos públicos da presidente Dilma ao PMDB e suas conversas com outros aliados estariam indicando que a presidente Dilma, mesmo sob o risco de desenvolver algumas urticárias, está mais afável aos contatos políticos, sua mais evidente dificuldade na chefia do governo. Talvez não seja sem tempo. O mundo da política não tem a presidente na mesma conta dos eleitores, que dão a ela quase 80% de popularidade no momento. Duas pesquisas recentes realizadas em Brasília indicam que com os deputados e senadores o prestígio da presidente é menor e está em queda. A consultoria Arko Advice constatou que a aceitação de Dilma caiu de 54,7%, em 2011, para 45,8% em 2012. Com 220 entrevistas, a FSB Tracking registrou que a nota dada pelos parlamentares à relação entre o governo Federal e o Congresso caiu de 5,9, em maio de 2011, para 4,4 em dezembro de 2012. Curioso é que a base parlamentar de Dilma conta com 80% dos parlamentares. Como a eleição já está no ar e deputados e senadores só pensam na reeleição, Dilma terá de ser um pouco mais generosa com seus aliados se não quiser colher dissabores.

Troféu político

Se no Brasil houvesse um troféu para o maior "cara de pau" da política dificilmente em 2013 ele escaparia das mãos do senador Renan Calheiros. Qualquer outro pretendente terá de fazer muito esforço para bater o senador alagoano. E olha que neste país não faltam bons candidatos a este privilegiado título.

Desembarque

É cada vez mais visível: Lula e o PT estão a cada dia um pouco mais distantes dos companheiros mensaleiros. Solidariedade sim, morrer pela causa, jamais.

Agora, os projetos

A oposição, com o PSDB, e, ainda na surdina, com Eduardo Campos, assanhou-se com o precipitado lançamento da recandidatura de Dilma Rousseff e está com o flanco adversário aberto para críticas e provocações. Mas, precisa ir além das críticas, como as que Aécio Neves tem feito nos últimos dias, tem de mostrar o que vai fazer para corrigir os erros que aponta. Discurso por discurso, ninguém bate Lula.

(José Márcio Mendonça e Francisco Petros)