sábado, 1 de junho de 2013

16 ANOS DO JORNAL GAZETA!



O biógrafo Lira Neto, na acurada pesquisa que realizou sobre o escritor e político cearense José de Alencar, relata com detalhes a intimidade dos jornais com a produção literária no período imperial.

Os periódicos de uma maneira geral se constituíam no principal estuário da efervescência cultural daquelas distantes eras.

O estilo literário do cearense de Messejana, também conhecido como romance de costumes, em que se destacam livros como Diva, Lucíola e A Viuvinha, passando pelos romances regionalistas tipo O Sertanejo e O Tronco do Ipê, incursionando pelos históricos As Minas de Prata e A Guerra dos Mascates, até chegar ao mundo indianista por meio de Iracema e O Guarani, foi sempre inicialmente festejado na imprensa. Os jornais da época publicavam, em primeiríssima mão, capítulos de suas obras.

Mais do que pergaminhos noticiosos, os jornais cumpriram ao longo da história a solene missão de fornecer aos apreciadores da leitura a porção estrelada dos fonemas, o delicado perfume da crônica, o fermento sedutor da poesia.

Nesta edição o Jornal Gazeta do Centro Oeste finca o mourão dos dezesseis anos de existência, saúda a alegria vital e estende à retina de todos a faixa de feliz aniversário!

Há dezesseis anos João Aguiar idealizou este quinzenário. Convidou amigos e autoridades, preparou uma grande festa e exibiu o recém nascido à luneta da comunidade sob paternal emoção.

Depois de algum tempo passou a tocha para César Vale, que o pôs no topo do console: é o mais longevo forno de formação e informação escrita da nossa centenária cidade. Poucos sabem ou imaginam ou têm ciência ou se dão conta de quão meticulosa ou árdua ou exigente é a tarefa de organizar um Jornal. Hercúlea função.

Sei que o seu editor às vezes encetou campanhas em que recebeu pedradas de incompreensão. Polemista arrojado, já levantou bandeiras fulgurantes, como aquelas bordadas com as cores da nossa flora, exibindo as palavras de ordem de defesa do meio ambiente. Em outros momentos, esposou posicionamentos políticos que geraram reações adversas. Não quero aqui entrar nesse terreno. Não quero por na mesa de hoje o cálice amargo ou derramar o líquido ácido, apesar de sabê-los indispensáveis ao ofício jornalístico.

Quero, em especial, reconhecer o contributo saudável. Valorizar o mérito prazeroso. Enaltecer a dignificante edificação. O Jornal Gazeta do Centro Oeste é responsável por grande parte do banquete cultural que a cidade de Crateús hoje experimenta. Como o periodismo dos tempos do Império, aqui tivemos a oportunidade de conhecer em primeira mão a fluência literária de bons mestres das letras.

Algumas pessoas se revelaram luminares da escrita, talentosos manejadores das palavras através da incubadora deste periódico. A cidade hoje festeja nomes que se revelaram exímios cronistas pelas colunas da Gazeta. Flávio Machado é um exemplo desse movimento de fecundidade literária. O nosso Silogeu, a Academia de Letras de Crateús, teve seu primeiro estalo levado aos tímpanos da população por estas páginas. Quantos e quantos movimentos outros de emoção e sensibilidade, de alegria e cidadania emergiram do leito deste Jornal?

Aqui se ouviu o primeiro grito contra a algazarra, o barulho ensurdecedor, a perturbação do sossego alheio. Daqui explodiu uma luta renhida contra a poluição e em favor do equilíbrio sonoro. Só para citar outro exemplo: quem não lembra de ter lido as garrafais letras que denunciavam a crueldade ante o tombamento injustificado de árvores centenárias? Foi por estas páginas que escorreram as primeiras lágrimas oriundas daquelas caudalosas raízes...

Por dever de justiça impõe-se que reconheçamos a dedicação obstinada, a tenacidade guerreira do editor destas páginas. Este tem sido um Jornal forjado por múltiplos colaboradores, mas que se sustenta em uma só coluna: César Vale. Sei que não raro o concreto do tempo o açoita. Espero que não o desestimule.

Nesta edição desejo, de coração, que o único veículo de comunicação local com capilaridade nacional continue a ser um elo integrador da conterraneidade. Mas que, sobretudo, sobre tudo, continue sendo um semeador de letras que fortaleçam o espírito, animem a esperança e alimentem o altruísmo humano.

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

OBSERVATÓRIO

Esmerino Arruda, o mais longevo político cearense da atualidade e testemunha viva de momentos significativos da vida política brasileira nos últimos sessenta anos, aniversariou na quinta-feira passada, dia 29 de maio. Estava internado no hospital há vários dias. Sabendo que iria receber alta no dia do aniversário, disparou telefonemas para os amigos convidando-os para comemorar. Saiu do hospital pela manhã e, à noite, estava tomando uísque com os amigos. Na hora dos parabéns, resolveu discursar. Após os agradecimentos, disse que precisava daquela energia que emanava dos seus familiares, amigos e correligionários.

IVAN

Política é isso: troca de calor humano, circulação energética. Mesmo com todos os recursos tecnológicos disponíveis, o contato pessoal, pele na pele, continua sendo essencial na manutenção da sustentabilidade política entre candidato e eleitor, entre representante e representado. Talvez isso explique o empenho das lideranças oposicionistas de Crateús para viabilizar a nomeação de Ivan Monte Claudino para um cargo federal de relevo. Com isso, o candidato a prefeito que obteve surpreendente votação poderá ficar mais próximo das bases e animar a militância. Ivan estará na próxima semana, em Brasília, tomando posse em estratégica diretoria do DNOCS e fixará residência em Fortaleza. Assim, estará legal e funcionalmente inserido na vanguarda dos projetos do órgão, como é o caso do Lago de Fronteiras, em Crateús.

ARTICULAÇÃO

Para emplacar o nome de Ivan em uma diretoria importante e de visibilidade houve uma intensa articulação das oposições, sobretudo do triunvirato de líderes Nenen Coelho, Domingos Filho e Domingos Neto. Esse movimento contou com o beneplácito do Governador Cid Gomes, que pessoalmente formalizou o pedido junto à ministra Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil. O vice-governador Domingos Filho foi o responsável pela sensibilização do Chefe do Executivo Cearense, convencendo-o de que a região de Crateús precisava ter um nome em posição de destaque político-administrativo, fosse no âmbito federal, fosse na esfera estadual. Político com rico currículo técnico, Ivan terá agora a enorme responsabilidade de corresponder à expectativa. À cidade cumpre comemorar esse tento.

GARANTIA

O Governo Federal, por meio da Secretaria de Relações Institucionais, promoveu na sexta-feira (24/5), no Centro de Eventos do Ceará, a 10ª edição do Encontro Estadual com Novos Prefeitos e Prefeitas. A conferência reuniu gestores federais, estaduais e municipais com objetivo de aproximar as instâncias governamentais, orientando questões relativas a programas, ações e financiamentos. Quatro ministros se fizeram presentes: Ideli Salvatti, ministra da Secretaria de Relações Institucionais; Fernando Bezerra, ministro da Integração Nacional; Pepe Vargas, ministro do Desenvolvimento Agrário e Leônidas Cristino, ministro dos Portos. Ao usar a palavra, diante de um auditório superlotado, o Governador Cid Gomes mirou o Prefeito Carlos Felipe, referiu-se especificamente ao problema de fornecimento de água potável em Crateús e garantiu – em alto e bom som - que a cidade não entraria em colapso por falta de água, pois já dispunha de uma solução.

CANDIDATURA

No intervalo do encontro, o Prefeito Carlos Felipe procurou este escriba e, sem ser indagado, afirmou que não será candidato no próximo ano. Disse que estava empenhado em deixar um legado para a cidade, sobretudo na área de educação, com a possibilidade de três campus universitários.

BALHMANN

O site Crateús Notícias divulgou: “Deputado Balhmann Anuncia Uma Siderúrgica Para Crateús”. Outros órgãos de imprensa local repercutiram. A notícia é auspiciosa, alvissareira, extraordinária. Merece os aplausos de todo crateuense de bom senso. Mas isso não significa que seja consistente. Ou que se concretizará no curto prazo. Perguntamos a fontes governamentais sobre o assunto. Recebemos um leve, discreto e irônico sorriso como resposta... Para que tenhamos uma ideia do quanto demanda de tempo e dedicação para se viabilizar uma Siderúrgica, há muitos anos que o Estado luta para instalar a Siderúrgica do Pecém. Só em 2010 conseguiu o Licenciamento Ambiental. Com obras em andamento, há uma previsão de início de operação e funcionamento para 2015.

BALHMANN II

Certo mesmo é que o Deputado Antonio Balhmann está formando um grupo político em Crateús e região visando às eleições do ano que vem. Esteve em Crateús, Poranga e Ipaporanga. Em Crateús possivelmente terá o apoio de empresários da AJE e de Zé Vagno Mota e Luizinho Sales. Também conversou com o ex-prefeito Nenzé. Na Poranga, conseguiu apoio do grupo político liderado pelo Prefeito Carlisson Emerson, que realiza uma organizada e profícua gestão.

ACADEMIA

A Academia de Letras de Crateús - ALC, por seu Presidente Elias de França, convocou os seus 30 membros efetivos para uma Assembléia Geral Ordinária que se realizará hoje, dia 1º de junho de 2013, às 14:00h, em sua Sede à Rua do Instituto Santa Inês, n° 231, nesta Cidade de Crateús, para discutir e deliberar sobre eleição da nova diretoria da Arcádia, mandato 2013 a 2015.

PARA REFLETIR

Feliz aniversário! Esta GAZETA está completando dezesseis anos de existência. Conforme já registramos, é seguramente o periódico com mais tempo de vida na história do nosso município. Ao longo desse período, tem sido uma arena escancarada para o pugilato de idéias, um púlpito exposto à pregação cidadã, um palanque portátil para a difusão da queixa popular, um microfone invisível recepcionando o brado comunitário, um altar erigido em honra à deusa da Liberdade. Merece um brinde literário, uma efusiva salva de palmas, uma desassombrada aclamação pública, uma rajada de fogos sem artifícios, um grito ardente de Parabéns!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

CURIOSIDADES DO MEIO LITERÁRIO

O escritor Wolfgang Von Goethe escrevia em pé. Ele mantinha em sua casa uma escrivaninha alta.

O escritor Pedro Nava parafusava os móveis de sua casa a fim que ninguém os tirasse do lugar.

Gilberto Freyre nunca manuseou aparelhos eletrônicos. Não sabia ligar sequer uma televisão. Todas as obras foram escritas a bico-de-pena, como o mais extenso de seus livros, Ordem e Progresso, de 703 páginas.

Euclides da Cunha, Superintendente de Obras Públicas de São Paulo, foi engenheiro responsável pela construção de uma ponte em São José do Rio Pardo (SP). A obra demorou três anos para ficar pronta e, alguns meses depois de inaugurada, a ponte simplesmente ruiu. Ele não se deu por vencido e a reconstruiu. Mas, por via das dúvidas, abandonou a carreira de engenheiro.

Machado de Assis, nosso grande escritor, ultrapassou tanto as barreiras sociais bem como físicas. Machado teve uma infância sofrida pela pobreza e ainda era míope, gago e sofria de epilepsia. Enquanto escrevia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado foi acometido por uma de suas piores crises intestinais, com complicações para sua frágil visão. Os médicos recomendaram três meses de descanso em Petrópolis. Sem poder ler nem redigir, ditou grande parte do romance para a esposa, Carolina.

Graciliano Ramos era ateu convicto, mas tinha uma Bíblia na cabeceira só para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica. Por insistência da sogra, casou na igreja com Maria Augusta, católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa, evitou transtornos: casou logo no religioso.

Aluísio de Azevedo tinha o hábito de, antes de escrever seus romances, desenhar e pintar, sobre papelão, as personagens principais mantendo-as em sua mesa de trabalho, enquanto escrevia.

José Lins do Rego era fanático por futebol. Foi diretor do Flamengo, do Rio, e chegou a chefiar a delegação brasileira no Campeonato Sul-Americano, em 1953.

Aos dezessete anos, Carlos Drummond de Andrade foi expulso do Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), depois de um desentendimento com o professor de português. Imitava com perfeição a assinatura dos outros. Falsificou a do chefe durante anos para lhe poupar trabalho. Ninguém notou. Tinha a mania de picotar papel e tecidos. "Se não fizer isso, saio matando gente pela rua". Estraçalhou uma camisa nova em folha do neto. "Experimentei, ficou apertada, achei que tinha comprado o número errado. Mas não se impressione, amanhã lhe dou outra igualzinha."

Numa das viagens a Portugal, Cecília Meireles marcou um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira, em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar, a explicação para o "furo": Fernando Pessoa tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído que não era um bom dia para o encontro.

Érico Veríssimo era quase tão taciturno quanto o filho Luís Fernando, também escritor. Numa viagem de trem a Cruz Alta, Érico fez uma pergunta que o filho respondeu quatro horas depois, quando chegavam à estação final.

Clarice Lispector era solitária e tinha crises de insônia. Ligava para os amigos e dizia coisas perturbadoras. Imprevisível, era comum ser convidada para jantar e ir embora antes de a comida ser servida.

Monteiro Lobato adorava café com farinha de milho, rapadura e içá torrado (a bolinha traseira da formiga tanajura), além de Biotônico Fontoura. "Para ele, era licor", diverte-se Joyce, a neta do escritor. Também tinha mania de consertar tudo. "Mas para arrumar uma coisa, sempre quebrava outra."

Manuel Bandeira sempre se gabou de um encontro com Machado de Assis, aos dez anos, numa viagem de trem. Puxou conversa: "O senhor gosta de Camões?" Bandeira recitou uma oitava de Os Lusíadas que o mestre não lembrava. Na velhice, confessou: era mentira. Tinha inventado a história para impressionar os amigos. Foi escoteiro dos nove aos treze anos. Nadador do Minas Tênis Clube, ganhou o título de campeão mineiro em 1939, no estilo costas.

Guimarães Rosa, médico recém-formado, trabalhou em lugarejos que não constavam no mapa. Cavalgava a noite inteira para atender a pacientes que viviam em longínquas fazendas. As consultas eram pagas com bolo, pudim, galinha e ovos. Sentia-se culpado quando os pacientes morriam. Acabou abandonando a profissão. "Não tinha vocação. Quase desmaiava ao ver sangue", conta Agnes, a filha mais nova.

Mário de Andrade provocava ciúmes no antropólogo Lévi-Strauss porque era muito amigo da mulher dele, Dina. Só depois da morte de Mário, o francês descobriu que se preocupava em vão. O escritor era homossexual.

Vinicius de Moraes, casado com Lila Bosco, no início dos anos 50, morava num minúsculo apartamento em Copacabana. Não tinha geladeira. Para aguentar o calor, chupava uma bala de hortelã e, em seguida, bebia um copo de água para ter sensação refrescante na boca.

José Lins do Rego foi o primeiro a quebrar as regras na ABL, em 1955. Em vez de elogiar o antecessor, como de costume, disse que Ataulfo de Paiva não poderia ter ocupado a cadeira por faltar-lhe vocação.

Jorge Amado para autorizar a adaptação de Gabriela para a tevê, impôs que o papel principal fosse dado a Sônia Braga. "Por quê?", perguntavam os jornalistas, Jorge respondeu: "O motivo é simples: nós somos amantes." Ficou todo mundo de boca aberta. O clima ficou mais pesado quando Sônia apareceu. Mas ele se levantou e, muito formal disse: "Muito prazer, encantado." Era piada. Os dois nem se conheciam até então.

O poeta Pablo Neruda colecionava de quase tudo: conchas, navios em miniatura, garrafas e bebidas, máscaras, cachimbos, insetos, quase tudo que lhe dava na cabeça.

Vladimir Maiakóvski tinha o que atualmente chamamos de Transtorno Obsessivo-compulsivo (TOC). O poeta russo tinha mania de limpeza e costumava lavar as mãos diversas vezes ao dia, numa espécie de ritual repetitivo e obsessivo.

A preocupação excessiva com doenças fazia com que o escritor de origem tcheca Franz Kafka usasse roupas leves e só dormisse de janelas abertas – para que o ar circulasse -, mesmo no rigoroso inverno de Praga.

O escritor norte-americano Ernest Hemingway passou boa parte de sua vida tratando de problemas de depressão. Apesar da ajuda especializada, o escritor foi vencido pela tristeza e amargura crônicas. Hemingway deu fim à própria vida com um tiro na cabeça.


(Enviado por Gabriel Vale)



quarta-feira, 29 de maio de 2013

LUIS ROBERTO BARROSO E O PADRE DA MINHA IGREJA

Certa vez, muito tempo atrás, vi no Supremo Tribunal Federal uma sustentação de Luís Roberto Barroso. Há advogados ganhando a vida escrevendo. Outros se dão melhor na oratória. Pequeno grupo trabalha muito bem nos dois aspectos, exibindo ou não, segundo as contingências, capacidade de aproximação maior com seres humanos, circunstância não fundamental mas de grande ajutório. Não sou de cheganças a advogados distantes. Vi e ouvi a manifestação oral do colega Barroso e pensei com os meus botões: enxerguei pouco profissional, nestes meus cinquenta e três anos de advocacia criminal, com tal polimorfa cultura, precisão expositiva e frieza na argumentação.

Evidentemente, após mais de meio século de experiência nas lides dos Tribunais, tenho na memória cada um e todos que me antecederam nas sustentações orais ou vieram depois, naquelas decantadas e cansativas sessões de julgamento. Dentro de tal vocação, Luís Roberto Barroso foi exemplo expoente. Corria em Brasília, há muito, nos gabinetes dos tribunais, a suspeita de que mais cedo ou mais tarde Barroso chegaria à Suprema Corte. Não se sabia bem se ele queria ou não aquilo, mas até hoje eu só vi um advogado, Manuel Alceu Affonso Ferreira, desconsiderando o chamamento para integrar um Tribunal Superior. De uma forma ou de outra, a quase unanimidade quer ou se deixa levar a tanto, uns batalhando assiduamente no chamado “beija-mão”, outros agindo com plena discrição, mas ainda assim não antagonizando eventual convocação.

Sempre tive enorme respeito por bons oradores, fiado inclusive no complicado mecanismo biopsíquico a transformar alguns em preciosíssimas máquinas de comunicação, sabendo-se hoje que o cérebro é intricadíssimo sistema de transmigração de impulsos fisioquímicos, oitenta e cinco milhões de neurônios a se comunicarem através das denominadas sinapses. Barroso é, então, ser humano privilegiado, valendo também, é evidente, metódica aquisição de conhecimento durante os muitos anos de exercício da advocacia e do magistério superior. A indicação ao Supremo Tribunal Federal veio sem surpresas grandes. Intuíam todos que o sistema apenas esperava a hora e vez. O dia chegou.

A psique, embora ainda pouco conhecida, nunca me assustou em demasia. Funciona em multifária e livre associação de ideias, em combinação e comparação praticamente automáticas. Assim, surgindo influxo externo gerado por fato humano ou mesmo naturalístico, a primeira consequência é, no imenso armazém escalonado na memória, a comparação com circunstâncias iguais ou semelhantes, ou mesmo dissonantes. Funciona assim. Daí, ao ver a fotografia do diferenciadíssimo Luís Roberto Barroso, veio-me do inconsciente imediata iniciativa no sentido de anteposição a outros profissionais da mesma área de conhecimento, ou, quiçá, de setor diferente, fosse na linguagem verbal, fosse na palavra escrita. A primeira criatura a aparecer foi Evandro Lins e Silva, muito longe, aliás, quando pude vê-lo enquanto ele advogava nos grandes processos de júri decantados por Carlos Araújo Lima.

Apareceu também a figura de Waldir Troncoso Peres, este paulista, magro e não muito elegante nem bonito mas, sem dúvida, grande orador forense. Deixe-se de lado o chamamento de outros fantasmas, porque seriam muitos. Almas idas não podem ser olvidadas. Entretanto, na dialética gerada pela assimilação instintiva, tal convicção não conseguiu eliminar totalmente o desfile de personagens competindo contra Luís Roberto Barroso, sempre no tema correspondente à arte de transmissão verbal do pensamento.

Apareceu-me subitamente criatura chamada José Ulisses, um moço com seus quarenta e quatro anos, quem sabe, professor em colégio religioso e padre por profissão. Ele reza a missa de domingo, na Igreja Nossa Senhora do Sion, em São Paulo, anexa ao colégio que leva o mesmo nome, escola geratriz de Ângela Ro Ro e Maysa Monjardim, ex-Matarazzo. Um traço comum a ambas: cantam com igual beleza, cada qual no seu estilo, a música rainha da dor de cotovelo “Ne me quitte pas”. A canção, para mim, rivaliza com “Ronda”, de Paulo Vanzolini, meu herói supremo, cantando hodiernamente nas nuvens de São Paulo, perto da avenida São João.

Voltando ao padre Ulisses, seus sermões têm exatamente quinze minutos, nenhum segundo a mais ou a menos. É econômico até para falar das coisas de Deus, mas nesse terceiro terço de vida, em que o ser humano fica mais e mais medroso, a aproximação com o Criador é uma garantia que as pessoas inteligentes não devem desprezar. Assim, vou à missa do padre Ulisses. Faz meses aposto comigo mesmo, na homilia, que aquele sacerdote privilegiado vai engasgar, tartamudear, gaguejar ou mesmo ter dificuldade na união entre as premissas e as conclusões postas nas parábolas bíblicas. Aposto comigo mesmo: ele vai errar. Pelo amor de Deus, cometa um erro sequer, para dar a este penitente a sensação de que todos são mais ou menos iguais.

Entretanto, aquele sacerdote humilde é, seguramente, uma das mais precisas, racionais e eficientes máquinas de pensar já postas aos olhos dos semelhantes. Além de tudo, José Ulisses, o pároco referido, fala em nome do Maioral. Para quem não sabe, o Maioral é o Maior, aquele onipresente, onipotente e onisciente, aquele que sabe tudo, tudo enxerga e, no fim das contas, direciona o todo para onde quiser. Já se vê, no contexto, a vantagem que o sacerdote José Ulisses tem sobre Luís Roberto Barroso. Ambos, com as ressalvas da finitude da capacidade humana, são perfeitos, mas José Ulisses, com certeza, reza antes de falar. Valha isso para Luís Roberto Barroso: vai precisar, mesmo sendo agnóstico, tecer muita oração para ajudar a Suprema Corte a fazer, no “mensalão” e em julgamentos humildes, a melhor justiça possível nesse malferido Brasil hodierno. Oremos.

_____________

* Paulo Sérgio Leite Fernandes é advogado
.

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a coluna com três historinhas do incomparável Jânio Quadros, pinçadas do livrinho Bilhetinhos de Jânio, que me foi presenteado pelo amigo Luis Costa:

Cães

Juarez Távora, que Jânio apoiara com decisão no sentido de levá-lo à presidência da República, foi atacado com violência em sua honorabilidade. Jânio, imediatamente, telegrafou ao ex-candidato, confortando-o moralmente, dizendo:

- Felizmente ainda contamos com homens da estatura moral do prezado amigo. Os cães que ladram aí, ladram aqui, também.

Milagre

O prefeito de Fernandópolis/SP, na audiência aos prefeitos do interior, solicitou de Jânio providências urgentes para solucionar o problema da eletricidade do seu município, "ameaçado a ficar às escuras dentro de sessenta dias". O governador tinha de arranjar a luz.

- O amigo me pede um milagre! - respondeu Jânio. Ninguém pode dar luz em sessenta dias...

Após os sorrisos, o governador declarou que iria tentar o milagre.

Comida e trabalho

Num discurso pronunciado, de apoio à candidatura de Juarez Távora à presidência da República, Jânio emitiu a seguinte imagem, a respeito do trabalho e da comida: "Neste país, milhões e milhões de homens trabalham, trabalham para uns poucos comerem, comerem. Se o Criador desejasse que dos seus filhos uns só fossem criados para trabalhar e outros só para comer, tê-los-ia feito: uns, só com braços; e outros, só com bocas".

Caixa de boatos

Pois é, o boato que as oposições teriam maquinado para desestabilizar o programa-símbolo do governo Dilma foi um tiro n'água, ou melhor, um bumerangue. Voltou-se contra o próprio governo. A Caixa Econômica foi a responsável pela confusão, ao antecipar o pagamento dos benefícios do Bolsa Família na véspera da circulação da boataria sobre o fim do programa. Jorge Hereda confessa que o banco errou (cometeu uma heresia?) e pediu desculpas, na esteira da hipótese de que a antecipação teria efetivamente provocado a onda de saques.

Boato e bumerangue

Seria incrível que as oposições partissem para a montagem de boatos tratando do fim do benefício. Ao final do processo, a trama se voltaria contra as oposições, bastando que a tuba de ressonância do governo desmentisse a versão. O povão, claro, acabaria se revoltando contra a fofocagem que teria sido perpetrada pelas oposições. Este consultor já alertara sobre a inconsistência da tese, na coluna da semana passada. Hoje, confirma sua posição. Há que se ter muito cuidado com boatos. Eles podem acabar matando a fonte inspiradora. Podem ser um bumerangue.

Nuvens cinzentas

O horizonte mostra o aparecimento de nuvens densas. A economia dá sinais de fragilidade. A inflação começa a dar as caras e o povão começa a expressar preocupação. Pesquisas já apontam nessa direção. Os investidores ensaiam passos de retraimento. A esfera política se agita e avoluma críticas ao governo. A presidente Dilma, apesar da disparada boa avaliação, já não conta com tanta simpatia de suas bases. Ao contrário, os partidos da base, com exceção do PT, abrem suas trombetas. Parlamentares querem mais atenção da presidente Dilma. Que não tem a flexibilidade de Lula para olhar com atenção as demandas políticas.

Triângulo das Bermudas

SP, com mais de 30 milhões de eleitores, MG, com cerca de 15 milhões e RJ, com cerca de 12 milhões formam o Triângulo das Bermudas das eleições. Como se sabe, o Triângulo das Bermudas constituem o misterioso espaço no Caribe, que abriga navios e aviões nas profundezas do oceano. Também conhecido como Triângulo do Diabo, na área ocorrem fenômenos físicos, químicos, climáticos, geográficos e geofísicos, sendo palco de desaparecimentos de aviões, barcos de passeio e navios. Pois bem, SP, MG e RJ juntam a maior fatia do eleitorado brasileiro. Essa é a razão que justifica a tese: quem atravessar, incólume, o Triângulo, estará salvo.

Os votos de cada um

Aécio Neves deve conduzir em torno de seu nome a maior fatia do eleitorado de 15 milhões. Teria entre 6 a 7 milhões de votos (válidos). Dilma, entre 4 e 5. O restante se diluiria. No Rio, tudo vai depender do grupo de Cabral/PMDB. Se for com Dilma, esta ganharia a maior fatia, algo entre 5 e 6 milhões. Mas se for com Aécio, o mineiro poderá ter a maior vantagem. E se Lindenberg entrar no páreo? É possível que o senador na disputa rache o eleitorado, deixando Cabral com Aécio ou mesmo com Eduardo Campos, se este confirmar sua candidatura. Cabral garante que não topará apoiar Dilma se o senador Lindenberg for ao páreo. Em SP, o tucanato de Alckmin estará fechado com Aécio. Mas a presidente Dilma pode abocanhar os 30% tradicionais que o PT tem no maior contingente eleitoral do país. Ademais, o PMDB e outros partidos da base devem continuar a chancelar o nome da presidente. Há, ainda, o fator Lula, capaz de puxar mais uma sacola de votos na reta final. No Nordeste, com quase 30% dos votos do país, a maré tende a encher a praia de Dilma.

Campos, lá e cá

A cada semana, o governador Eduardo Campos acrescenta uma bateria de interrogações a respeito de seu futuro. Esta semana, longa matéria no jornal Valor Econômico praticamente mostra que as pontes com o governo Dilma e o PSB foram quebradas. Há uma ampla crítica ao governo e ao PT, que não respeitaria outros partidos, considerando-se o único responsável pelos êxitos da administração. Campos volta a ter uma agenda de viagens e a ouvir as bases do seu partido. Abriu as portas para o ingresso de seu vice, João Lyra, e estaria dando adeus ao seu correligionário, Fernando Bezerra, ministro da Integração. Que estaria arrumando as malas para deixar o PSB e ingressar noutra sigla. Mas as interrogações se expandem: entre os governadores socialistas, qual apoiaria a candidatura Eduardo Campos?

Serra candidato? SDS

O governador Geraldo Alckmin garante: José Serra será candidato. A que? Resposta: perguntem a ele. Maneira mineira de despistar. Serra poderá ser candidato a presidente da República? Sim, caso queira e seja acolhido pelo MD, partido a ser formado com a fusão do PPS e do PMN. Serra também poderá ser candidato a senador. E a deputado? Isso é coisa menor para ele. E a governador de SP pelo MD? Hipótese improvável. Lutar contra o tucanato que ajudou a nascer e a se consolidar? Nem mesmo ele, Serra, sabe quais são as rotas de seu futuro. SDS - Só Deus Sabe.

O ano da contabilidade

Foi lançada na segunda-feira, 27/5, na Assembleia Legislativa, a campanha "2013 - O ano da contabilidade no Brasil", iniciativa do Conselho Federal de Contabilidade, em parceria com as demais entidades da categoria. A profissão, regulamentada há quase 70 anos, é hoje uma das cinco mais procuradas nas universidades, segundo o deputado estadual Itamar Borges, que presidiu a sessão solene. Para Sérgio Approbato Machado Júnior, presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e de Assessoramento no Estado de São Paulo (Sescon/SP), a categoria contábil vem conquistando um canal de comunicação importante na esfera política. "Buscamos sempre mudanças significativas para a sociedade como a desburocratização e a redução da carga tributária. Não há desenvolvimento que não passe pelo contador. A contabilidade faz parte da gestão das empresas".

Mídias sociais no turismo

Um estudo realizado pelo Ipeturis (Instituto de Pesquisas, Estudos e Capacitação em Turismo), por encomenda do Sindetur/SP (Sindicato das Empresas de Turismo no Estado de São Paulo), mapeou o uso das mídias sociais no setor de agenciamento turístico. Entre as agências pesquisadas, 54% utilizam a rede para aumentar as vendas e fidelizar clientes. O Facebook é a ferramenta mais popular, citada por 97% das empresas. "Com a evolução tecnológica, as mídias sociais se tornaram indispensáveis para o trabalho dos agentes de turismo na comunicação com o cliente. Quem saiu na frente já ocupa um valioso espaço no mercado", afirma Marciano Freire, diretor do Ipeturis.

Em respeito aos passageiros

Diante da total omissão da ANAC, que tapa os olhos para as relações injustas entre empresas aéreas e seus passageiros, o Sindicato das Empresas de Turismo no Estado de São Paulo - Sindetur/SP, levanta a bandeira da defesa dos consumidores, sob o comando de seu presidente Eduardo Nascimento. O decálogo do sindicato mostra as obrigações que a ANAC deveria impor, mas não impõe:

1. indiquem a quantidade de assentos disponíveis nas tarifas promocionais;

2. atendam chamadas telefônicas no tempo máximo de um minuto;

3. atribuam validade mínima de 24 horas para o valor da tarifa oferecida;

4. informem claramente o preço total e as restrições da tarifa oferecida;

5. não apliquem taxas abusivas por remarcação ou cancelamento;

6. reparem, em no máximo 30 dias, os danos por voos cancelados;

7. reparem de imediato danos por extravio de bagagem em voos de ida;

8. reparem, em no máximo 30 dias, danos ou extravio de bagagem, na volta;

9. reembolsem, em no máximo 30 dias, passagens não utilizadas;

10. transportem consumidores de empresas que paralisarem atividades.

Choque de qualidade

O secretário do Desenvolvimento Econômico Sustentável do Estado de SC, Paulo Bornhausen, acaba de marcar um gol de placa com o lançamento de seu projeto "Gestão Municipal para a Nova Economia". Ao custo de R$ 3 milhões, o projeto pretende estimular o desenvolvimento econômico sustentável dos municípios catarinenses por meio do aumento da capacidade de investimento, qualificação dos serviços e dos servidores públicos, e melhoria da gestão para questões estratégicas. Com isso, quer dar um choque de qualidade na precária administração das prefeituras. Vários prefeitos e empresários já aderiram, entre eles Jorge Gerdau.

A Anvisa e os clandestinos

Donas de casa, pessoas responsáveis, continuam a sentir falta do álcool líquido mais forte nas prateleiras de supermercados e recusam aquele mais fraco ou o gel. Enquanto isso, os postos de gasolina continuam a vender o álcool mais forte (etanol) em garrafas pet para pessoas nem tão responsáveis assim. Usam este produto negado às donas de casa para fazer suas fogueiras nessas noites frias de outono ou então para, depois de muitos goles a mais, acender suas churrasqueiras. A Anvisa é a responsável por tamanha incoerência : proíbe o álcool 92 INPM para pessoas sérias e empurra outros consumidores para a clandestinidade, passíveis de acidentes. O governo Federal precisa entender que a sociedade brasileira não precisa da tutela da Anvisa.

Cachorro-quente e Aluízio

Aluizista roxo, que tinha no dedo polegar erguido um dos seus símbolos, o comerciante Francisquinho Nunes do Café e Bar Mossoró não se descuidava no culto à sua paixão. Em seu comércio no centro da cidade de Mossoró, com clientela diversificada, não tergiversava na hora de expressar sua preferência política. Para causar embaraço a Francisquinho, partidários do deputado Vingt Rosado ou mesmo circunstantes diversos, apenas à cata de diversão, chegam ao Café e Bar Mossoró e tascam o pedido. Um deles repete o que outros já vinham provocando:

- Francisquinho, dois cachorros-quentes.

Aliado ao pedido verbal, o cliente sinaliza com dois dedos formando um "V" de Vingt Rosado, ferrenho adversário do líder Aluízio Alves. Incontinenti, o comerciante não amolece, nem cai na armadilha simbológica.

- Está certo! Vai um e um - avisa ele, sinalizando com o polegar erguido duas vezes

(Historinha contada por Carlos Santos em "Só Rindo 2".)

Conselho aos diretores da ANAC

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao governador de SP, Geraldo Alckmin. Hoje, volta sua atenção aos dirigentes da ANAC:

1. A infraestrutura de serviços nos aeroportos e a falta de controle sobre as companhias aéreas atestam a ineficiência da Agência dirigida por Vossas Excelências.

2. Assumam suas responsabilidades, fiscalizem de maneira exemplar as companhias aéreas, atentem para as queixas dos consumidores, procurem cumprir de maneira rigorosa as funções que cabe à ANAC executar.

3. O Brasil se prepara para sediar os dois mais importantes eventos do calendário esportivo mundial. A continuarem os buracos, vazios e descontroles no sistema de transportes aéreos, o país será submetido à mais intensa bateria de críticas e denúncias de sua história. Atentem para evitar esse descalabro.

____________

(Gaudêncio Torquato)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O CRIME DO CASARÃO



Como as borboletas, que passam por uma metamorfose, as ocasiões explodem de seus casulos, após uma longa maturação, só para que os eventos se reagrupem nas prateleiras do mundo. Desabrochar é, simplesmente, uma exigência primordial da vida. O Universo em sua essência é um desejo de manifestação, em eclosão! O ano de 1925 desenrola-se de seu invólucro filamentoso, no sul do País, trazendo o perfume de modernidade, pela química mental de Osvaldo de Aranha e pelos fecundos pincéis de Tarsila de Amaral, que lançam o manifesto de poesia chamado Pau-Brasil, enfatizando a necessidade de brotar, de ressurgir nativamente, como vida nova.

No mesmo antropófago ano, nos Sertões de Crateús, não saímos do capucho. Quase nada acontecia de singularidade, nem pelas bucólicas ruas, nem pelas lúgubres praças, sequer pelos corações ou pelas almas dos citadinos, pois em tudo reinava uma rusticidade habitual e uma calma fora do comum. O passado existe no presente demente e o futuro nunca virá.

A luminosidade já se dissipa num crepúsculo vespertino no mês de julho desse mesmo ano e Dona Antônia Mirandolina Pinto não larga a camisa, nem a batina, ainda manchadas de sangue do saudoso Padre Antônio Cavalcante de Macedo e Albuquerque, seu primo. Tudo é reminiscência nas enodoadas vestes sacerdotais do Padre Macedo. Foi um crime vil, ocorrido há 27 anos. Ela recorda o tempo em que se impôs um Padrinho Vigário!

Macedo foi um Padre Colado, de 1859 até 1898, na Vila Príncipe Imperial. O título de colado era fornecido pelo governo imperial, para depois ser aprovado pelas autoridades eclesiásticas. Um sacerdote zeloso às necessidades espirituais, mas também atentava ao lado social e político de seu rebanho, condizente com um líder religioso da época.

Havia percebido que o prédio da Igreja da Matriz, Freguesia do Senhor Bom Jesus do Bonfim de Príncipe Imperial, precisava urgentemente de cuidados e ordenara a venda do gado do Padroeiro da Paróquia, nas fazendas Bom Jesus e Casa Nova, para pagar o material de construção que seria usado na reforma. Só não esperava que a frente da capela ruísse, inesperadamente, com aquele grande estrondo que apavorou toda cidade. Foi a Divina Providência quem protegeu tudo, não havia ninguém na hora e nada houve com os altares de Nossa Senhora e São Sebastião que ficam atrás da grade que dividia a nave ao meio. A Capela-Mor praticamente é a mesma construída pelos pedreiros e carpinteiros trazidos da Bahia por Dona Luiza Coelho da Rocha Passos, em 1772.

O dia mais importante no casarão do Padre foi quando ele recebeu, como hospede, o ilustre poeta e historiador cearense Antônio Bezerra de Menezes. O célebre escritor que viajava a serviço da Província do Estado colhendo dados geográficos e políticos das cidades, dos povoados, das vilas do Ceará e, por longos e penosos seis meses andou montado em lombos de animais para escrever o Livro Rotas de viagem. Havia descido a ladeira do Ipu, mas antes passara pela Gruta de Ubajara e por Ibiapina, seguira para ipueiras, passando pelo Distrito de Paz (Santa Quitéria) e agora estava na vila de Príncipe Imperial, mas não demoraria, pois teria que ir à São João do Príncipe (Tauá).

O grande historiador relata sua aventura pelo interior da Província, em 1884, onde registra as seguintes impressões sobre o Padre Macêdo: “Precisando de informações mais circunstanciadas acerca da vila, me dirigi à casa do Reverendo Vigário Macedo, homem respeitável por sua idade, sua delicadeza, sua inteligência, que pouco adiantado ao que eu havia colhido de outros, presenteou-me com uma preciosidade encontrada na profunda escavação que fez o rio Poti na grande enchente de 1879. Era a extremidade superior ou pelviana do fêmur de um mamífero extinto. . .” E continua narrando seu encontro com o sacerdote: “Referiu-me o Padre Macêdo que o rio Poti, rasgando uma das margens, deixou sobre à terra uma ossada de um animal tão descomunal, que o povo fazia das vértebras cadeiras, e as omoplatas de muitos palmos de comprimento servia de tábuas, sobre as quais as lavadeiras batiam a roupa.” E Conclui: “A população é cuidadosamente arrolada pelo Reverendo, que me informou conter a vila 900 almas, e toda a freguesia 4.300 pessoas.”

A poeirenta Vila tinha sido transferida para o território da Província do Ceará há pouco tempo, e não demorariam em elaborarem um decreto batizando-a por Cratheús, terra dos guerreiros Kara-thi-us.

Na época em que as decisões políticas desabrochavam como de um casulo no seio da igreja, onde se processava até as eleições, o Padre Macedo tem uma atuação política intensa, e chegou a ser eleito Deputado Provincial pelo Piauí. Publicou uma carta denuncia no Jornal “O Cearense”, em 09/12/1856, acusando o Coronel Joaquim Domingos Moreira, chefe político em Crateús como um dos implicados no perverso assassinato do padre Inácio Ribeiro de Melo.

Certa vez ocorreu um desentendimento entre o Padre Macêdo e o coronel Jacob de Melo Falcão. O Coronel chamara o padre de “ladrão” e esse processara o coronel, resultando em um compensação monetária determinada pela justiça, de 5.000$000, um grande prejuízo ao bolsos do referido coronel. O riquíssimo fazendeiro Jacob foi o 1º Intendente (prefeito) de Crateús e guardava seu ouro e a sua prata em três Mocós (grandes bolsas de couro de bode em forma de gotas d’água). Além de mesquinho extremoso, tinha o apelido de Casca Grossa, coisa que o deixara muito irritado. A despensa da casa do velho Intendente era repleta de mantimento, chouriço, carne de gado e porco pré-cozidas na banha para durar longo tempo, tinha ainda longas tábuas com rapaduras, queijos e manteiga da terra, mas tudo trancado a sete chaves e se um filho saboreasse alguma coisa, era uma surra na certa. O verdadeiro Senhor Nonô da novela. Muito severo com os filhos, tratava-os como se fossem animais, mas para gente de fora era amável e cortês. O povo dizia: O Casca Grossa tem Boca de mel, coração de fel! Coronel Jacob, o inimigo de Padre Macedo, era um sujeito vingativo e ficou remoendo uma desforra.

Após um dia de atividades eclesiásticas, resolvendo questões sagradas e profanas que sempre apareciam na sua frente, o Padre Macedo deixa o sacristão encarregado de bater no sino da Igreja as costumeiras badaladas das nove da noite e dirigiu-se à sua residência, um soberbo casarão por trás da Catedral, do lado esquerdo de um terreno baldio, muito bem arborizado. Não ver a hora de tirar a pesada batina preta, fazer uma refeição leve e orar para que Deus lhe conceda forças, espirituais e físicas, para completar os 40 anos à frente da Igreja do Senhor do Bonfim. Às noites da Villa Príncipe imperial é um descampado de solidão e a pálida lua é uma prerrogativa dos gatos e dos ébrios!

Ao ver uma jovem mulher choramingando pelos cantos da cozinha, o Padre percebe que houve um desentendimento domiciliar e procura se inteirar do que houve. As senhoras que cuidam do seu bem estar, logo revelam: - Foi o Adriano, meu Padrinho, que agora inventou um enxerimento e umas gaiatices com a gente! O cansaço imediatamente desaparece, pois o sangue fervilha por todo corpo do sacerdote de 65 anos e vai, colérico, confronta-se com o criado desrespeitoso.

- Mas que é isso, Adriano, você não pode desacatar as mulheres da minha casa!

O olhar faísca de raiva e parte para cima do criado, mas o Padre não ver o brilho do metal refletido no ar, nem o lance da mão assassina na intenção malévola. A lâmina amolada rasga a imaculada batina preta, e mancha a camisa branca com o rubor da vida que escorre pelo corpo do Padre Macedo.

Adriano pula a janela e livre, ganha à rua, escorrendo como uma sombra pela noite angustiante, enquanto o sacristão badala no sino da Matriz, ainda sem o adorno das suas duas torres. A morte é uma entidade imaginária que ceifa à vida quando menos se espera. E há algum tempo, um poeta crateuense, o Coriolano, que por longo tempo estivera esquecido e agora é revivificado, deixara uns versos langorosos sobre a vida e a morte: “É breve o viver d’aurora / Mas nessa vida d’uma hora / Brilha, fulgura e colora / Tudo ao seu alvorecer / Pura nasce e morre pura / Não sabe se há desventura, / Mas a humana criatura / Nasce e sofre até morrer.”

Tudo que não é lembrado se estiola, se olvida, como a grama que privada da luz do sol se acinzenta e morre. Dona Mirandolina agarrada na batina manchada de sangue do seu querido primo ainda desconfia da causa da morte do Padrinho Vigário e pergunta-se: Quem realmente matou o Padre Macedo, se a lâmina afiada e vingativa dos temperamentos políticos ou o enigmático acaso de um instante gratuito? Coisas que nem os poetas sabem explicar.

Passo, como sempre faço, em frente à belíssima Igreja da Matriz, o signo maior dos Sertões de Crateús, reverencio o disposto galo da Torre direita e também me pergunto: “Quantas vezes o Padrinho Vigário Macedo sonhou com este alto prisma erguido aos céus e nem imaginou que, um dia, poderia estar empoleirado no seu ápice!”

Raimundo Cândido

sábado, 25 de maio de 2013

OPINIÕES DO NOVO MINISTRO DO STF

Presidente do STF, Joaquim Barbosa ateou revolta nos meios políticos ao afirmar, há cinco dias, que o Brasil tem “partidos de mentirinha” e um Congresso “inteiramente dominado pelo Poder Executivo.” Indicado por Dilma Rousseff para ocupar uma cadeira no Supremo, o advogado Luís Roberto Barroso, disse coisa muito pior numa entrevista concedida há sete meses à repórter Andrea Michael.

Para Barroso, “a classe política vive em um mundo à parte, de poder e de interesses pessoais.” As alianças partidárias são feitas “sem base ideológica”. O eleitor “vota em candidatos e não em partidos”, num “modelo que está na raiz de boa parte dos problemas políticos brasileiros, inclusive os de corrupção e fisiologismo.”

O novo ministro será sabatinado no Senado nos próximos dias. Depois, assumirá a vaga aberta com a aposentadoria de Carlos Ayres Britto. Chegará em tempo de participar do julgamento dos recursos protocolados no STF pelos 25 condenados no julgamento do mensalão. Na entrevista de outubro do ano passado, Barroso disse: “Minha maior preocupação é com o pós-mensalão.” Ele indagou: “O que o Brasil vai extrair de positivo desse momento ruim para a política?”

Na opinião de Barrroso, manifestada numa fase em que o julgamento ainda não havia encerrado, “mais do que a condenação de pessoas, o processo do mensalão constitui a condenação de um modelo político que não vem de ontem.” Nos últimos 20 anos, disse ele, o Brasil avançou muito. Sob FHC, “conquistamos a estabilidade monetária, que foi um divisor de águas.” Sob Lula, avançou-se na área social, “com a ascensão de milhões de pessoas acima da linha da pobreza.”

A despeito de ter “muito a celebrar”, afirmou o novo ministro, o Brasil também tem o que lamentar. “Nem FHC nem Lula tentaram mudar o modo de fazer política no Brasil.” Como assim? “Para implementar sua agenda política, eles aderiram a esse modelo” viciado. No dizer de Barroso, é preciso “romper com essa tradição”. Uma tradição “que promoveu duas consequências negativas drásticas.”

Uma consequência nefasta “é o decolamento entre a classe política e a sociedade civil, que não se sente identificada com sua representação parlamentar.” A outra é a “criminalização da política.” Afora a “baixa representatividade” dos políticos, disse Barroso, “vivemos um momento em que as notícias são sobre o mensalão mineiro, o mensalão do DEM, o do PT, sempre flagrando casos de corrupção.”

Nessa matéria, Barroso não tem dúvidas: “Há um problema no sistema e, se não enfrentarmos isso, ficaremos sempre à espera do próximo escândalo.” Tomado pelas palavras, o novo ministro enxerga no Legislativo brasileiro uma instituição débil. “Tem-se falado que vivemos um momento de excesso de interferência e de atuação do Judiciário em instâncias antes dominadas pelo mundo político. A meu ver, vivemos um momento de escassez da boa política.”

Barbosa acredita que a solução da encrenca depende do empenho do inquilino do Palácio do Planalto. “Alguém precisa ter coragem e desprendimento para comprar essa briga.” Ele avalia que Dilma Rousseff “poderia ter condições de fazê-lo”. Porém, já desperdiçou a sua primeira hora. Agora, só “no início do próximo mandato.” Por quê? “Digo isso porque no início do mandato é que se tem o maior capital político.”

Do modo como está estruturado, afirmou Barroso, o modelo político brasileiro leva “pessoas de bem, que querem mudar o país”, a “negociar votos [ no Congresso] com aqueles que usam a política para fazer negócios particulares.” O agora ministro do STF acrescentou na entrevista de outubro que o país convive com um sistema político que “joga bons e maus no mesmo pântano.”

O custo das eleições, realçou o ministro indicado, “faz com que ninguém possa ter um projeto político sem um farto financiamento eleitoral. E é aí que o Brasil formal e honesto se aproxima do submundo em que há dinheiro de todas as origens.” De resto, “o sistema eleitoral não contribui para a governabilidade”.

Por que não? Como o presidente eleito sai das urnas sem maioria no Congresso, “o sistema eleitoral e o sistema partidário exigem que, depois da eleição, o ele precise compor essa maioria.” Uma maioria “que não vem do voto, mas da negociação caso a caso.” É quando “se misturam as negociações legítimas com fisiologismo, liberação de verbas e nomeações para cargos públicos que são providos sem concurso no Brasil.”

Evocando o mensalão, Barroso disse que enxerga no julgamento do caso “uma grande denúncia do modelo político-eleitoral brasileiro.” Usou uma metáfora forte: “É um grito por reformas.” Ou são feitas as mudanças ou “não há como entrar para a política sem pactuar com esse modelo baseado no dinheiro.”

Perguntou-se a Barreto o que mudou no entendimento do STF ao longo do julgamento do mensalão. E ele: “O Supremo, que sempre teve uma posição bem liberal e em defesa do acusado, principalmente do princípio de presunção da inocência, revela uma guinada um pouco mais dura e punitiva, superando, inclusive, alguns precedentes, como no entendimento de que não é mais necessário um documento assinado pelo acusado ou um ato oficial dele para que o crime de corrupção seja configurado.”

Prosseguiu: “Minha avaliação é que houve certo endurecimento do STF, talvez como resultado de uma interação com a sociedade. Não acho justa a afirmação de que o Supremo seja pautado pela sociedade, mas ele é permeável aos seus anseios. Há uma mudança de postura. Se isso vai ser bom ou mau, o tempo dirá.”

O tribunal foi técnico ou político? “É impossível um julgamento desse porte, com essas consequências, não ter uma dimensão política”, respondeu Barroso. “Mas os votos têm sido técnicos. No direito em geral, existem extremos em que há a certeza positiva, a significar que algo aconteceu, e há extremos em que há certezas negativas, quando é possível afirmar que algo nao aconteceu.”

Nesse contexto, filosofou o indicado de Dilma, “para o bem e para o mal, entre um extremo e outro, existem muitas possibilidades. E aí as interpretações dependerão da visão de cada um.” O país está ávido por conhecer a interpretação que Barroso dará aos recursos dos condenados do mensalão.


(Josias de Souza)

sexta-feira, 24 de maio de 2013

TERAPIA DO ELOGIO


Renomados terapeutas que trabalham com famílias, divulgaram uma recente pesquisa onde nota-se que os membros das famílias brasileiras estão cada vez mais frios, não existe mais carinho, não valorizam mais as qualidades, só se ouvem críticas.

As pessoas estão cada vez mais intolerantes e se desgastam valorizando... os defeitos dos outros. Por isso, os relacionamentos de hoje não duram.

A ausência de elogio está cada vez mais presente nas famílias de média e alta renda. Não vemos mais homens elogiando suas mulheres ou vice-versa, não vemos chefes elogiando o trabalho de seus subordinados, não vemos mais pais e filhos se elogiando, amigos, etc.

Só vemos pessoas fúteis valorizando artistas, cantores, pessoas que usam a imagem para ganhar dinheiro e que, por conseqüência, são pessoas que têm a obrigação de cuidar do corpo e do rosto. Essa ausência de elogio tem afetado muito as famílias.

A falta de diálogo em seus lares, o excesso de orgulho impede que as pessoas digam o que sentem e levam essa carência para dentro dos consultórios. Destroem seus casamentos, e acabam procurando em outras pessoas o que não conseguem dentro de casa.

Comecemos a valorizar nossas famílias, amigos, alunos, subordinados. Vamos elogiar o bom profissional, a boa atitude, a ética, a beleza de nossos parceiros ou nossas parceiras, o comportamento de nossos filhos.

Vamos observar o que as pessoas gostam. O bom profissional, o bom filho, o bom pai ou a boa mãe, o bom amigo, a boa dona de casa. A mulher e o homem que se cuidam...

Enfim, vivemos numa sociedade em que um precisa do outro, é impossível viver sozinho e feliz, e os elogios são a motivação na vida de qualquer pessoa.

Quantas pessoas você poderá fazer feliz hoje elogiando de alguma forma? Então elogie alguém hoje!



Autor: Arthur Nogueira, psicólogo.

_ _ _ _ _ _ _ _ _


Repito aqui parte de um recado do ano passado:

Dedique mais tempo para:

- estar com a família, conversando, sem TV,

- fazer refeições juntos, à mesa.

- colocar em ordem a cozinha.

- estar na varanda ou jardim.

- rezar com e pela família.

- escrever memórias de família

- dar atenção a cada membro da família.

- apontar qualidades de cada membro da família.

- recordar, listar e celebrar datas significativas para a família.

- admoestar, refletir, incentivar e corrigir com caridade.

- escolher programas de TV ou rádio que mostrem valores e virtudes.

- presentear a família com bons livros e revistas, iniciando uma biblioteca.




quinta-feira, 23 de maio de 2013

LUIS ROBERTO BARROSO É O NOVO MINISTRO DO STF



A presidente Dilma Rousseff escolheu Luís Roberto Barroso para ser o novo ministro do STF. O advogado substituirá Carlos Ayres Britto, que deixou a Corte em novembro do ano passado, após sua aposentadoria.

O anúncio oficial foi feito pela ministra da Comunicação Social Helena Chagas. Segundo a ministra, a presidente tomou a decisão na manhã desta quinta durante reunião com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. "O professor Luís Roberto Barroso cumpre todos os requisitos necessários para o exercício do mais elevado cargo da magistratura do país", diz a nota da Presidência.

Atuação

O jurista atuou em importantes processos junto ao STF, como a pesquisa científica com células-tronco (ADIn 3.510), a interrupção da gravidez de feto anencefálico (ADPF 54), a união estável homoafetiva (ADIn 4.277 e ADPF 132), o caso de extradição do italiano Cesare Battisti (Ext 1.085) e do convênio entre a Defensoria Pública de SP e a OAB/SP (ADIn 4.282).

Recentemente, Luís Roberto Barroso opinou acerca do poder de investigação do MP. Para ele, o problema da ineficiência, corrupção e violência da polícia não reside nas características dos membros ou na instituição em si, mas nas condições em que exerce o seu mister, isto é, “na linha de fronteira entre a sociedade e a criminalidade”. Dessarte, pergunta o constitucionalista, se o MP substituir a polícia em todas as suas atividades, manter-se-ia o parquet imune aos mesmos abusos e contágios.

História e formação

Formado pela UERJ (Turma de 1980), é advogado desde 1981 e Master of Laws (LL.M) pela Universidade de Yale, EUA, doutor e Livre-Docente pela UERJ, professor Titular de Direito Constitucional de graduação e pós-graduação da UERJ, da Escola da Magistratura do RJ e professor visitante da UnB. É ex-Conselheiro do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana e ex-Membro da Comissão de Estudos Constitucionais da OAB. Barroso integra a Comissão de Altos Estudos da Reforma do Judiciário, do MJ.

Ele nasceu na cidade de Vassouras (RJ) em 11 de março de 1958. O pai de Luís Roberto Barroso é membro aposentado do MP/RJ; sua mãe, já falecida, foi advogada e uma das poucas mulheres que se formaram na Faculdade Nacional de Direito, na década de 1950.

Barroso é o quarto ministro indicado no governo Dilma; os três ministros que ingressaram na Corte anteriormente foram Teori Zavascki, Rosa Weber e Luiz Fux. A indicação será publicada no DOU e o nome do constitucionalista ainda precisará ser aprovado pelo Senado após sabatina.

(Fonte: Migalhas)

quarta-feira, 22 de maio de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a coluna com mais uma historinha da Paraíba.

Zé Cavalcanti, político populista, filho de Né Cavalcanti, de São José de Piranhas, administrou a cidade de Patos entre novembro de 1963 a janeiro de 1969, devido a prorrogação de mandatos de prefeitos e vereadores. Sempre andou às turras com o governador João Agripino. Numa das campanhas, os ânimos ficaram mais acirrados. Certo dia, Zé foi surpreendido por um telefonema de João Agripino, que o chamava ao aeroporto de Patos. Sem qualquer explicação do governador, tomaram o avião e seguiram para Catolé do Rocha. Na chegada, Agripino comunicou:

- O seu amigo Zé Sérgio foi quem mandou que eu lhe trouxesse para tomar parte num comício hoje aqui em Catolé.

Era tarde para Cavalcanti protestar. Só que o candidato adversário de Zé Sérgio era o Frei Marcelino. A noite, no comício, Cavalcanti, o segundo orador, foi anunciado com estardalhaço. Começou pregando uma peça contra o governador, postado ao seu lado e de quem queria se vingar.

- Vocês daqui de Catolé já me conhecem bem, que esta não é a primeira vez que falo aqui em campanha. E, para ser sincero, vou iniciar desagradando a todos, dizendo que se estivesse aqui, acompanharia Frei Marcelino!

Suspense!

Repetiu:

- Já disse e torno a dizer: se eu estivesse aqui, acompanharia Frei Marcelino!

Antes de levar uma bofetada, emendou:

- Estaria com Frei Marcelino, sim, mas na Igreja, acompanhando procissão e assistindo missa, que ofício de frade é rezar e não fazer política!...

Ba(r)boseiras? não

O ministro Joaquim Barbosa acaba de receber mais uma bateria crítica por ter dito que os partidos políticos brasileiros são de "mentirinha" e mais: que o Congresso Nacional é inteiramente dominado pelo Executivo. Teria dito alguma baboseira? Ou, usando seu sobrenome, barboseira, algo exagerado em se tratando de uma figura polêmica como Sua Excelência? Pois bem, o presidente do STF não exagerou. Disse o que se sabe. Este consultor, ao longo dos últimos anos, tem se dedicado à tarefa de descrever a qualidade da nossa representação política. E comprova o que o ministro Barbosa diz: os partidos políticos são assemelhados, pasteurizados, perderam substância ideológica, lutam em torno da meta "o poder pelo poder".

Congresso refém

O nosso presidencialismo, por sua vez, é de caráter absolutista, imperial. O poder da caneta - nomeação, demissão, aprovação, desaprovação - o coloca na dianteira dos Poderes Legislativo e Judiciário. Todos comem no prato cozido pelo Executivo. Quem tem o poder de nomear os ministros do Judiciário? Ora, o presidente da República. Herdamos a índole absolutista dos tempos do Império. A força do presidencialismo nasce nas águas do nosso passado. Tradição ibérica. Veja-se o Orçamento da República. Tem o selo autorizativo. Aprovado pelo Parlamento, as verbas nele consignadas só são liberadas com a aceitação/aprovação do Executivo. Não é a toa que o atual presidente da Câmara quer aprovar o Orçamento Impositivo, pelo qual os recursos destinados aos seus fins serão garantidos.

Barbosa e a liturgia

Se o ministro Joaquim Barbosa falou o que já se sabe, por que tanta reação e tantas críticas à sua expressão? Porque ele esqueceu a liturgia do poder. Há coisas que são verdadeiras e não podem ser ditas por um comando de Poder. Joaquim representa a voz do Judiciário. Expressa a voz da autoridade máxima de um Poder. Trata-se, então, de um Poder execrando outro. A liturgia do cargo não permite que se expresse usando as palavras que usou: mentirinha, por exemplo. Quer dizer, não temos partidos políticos. Ocorre que eles existem. De maneira legal e legítima. Se são assemelhados, isso é outra coisa. O analista político pode dizer isso, mostrando que a crise da democracia representativa é exatamente o declínio dos partidos, o destroço das ideologias, o arrefecimento das bases e o enfraquecimento dos Parlamentos.

Leitura correta, expressão chula

A leitura pode ser correta, mas a expressão parece chula, quando emitida pelo presidente da nossa Corte maior. Acrescente-se ao fato o perfil polêmico de Joaquim Barbosa, ainda envolto no manto do mensalão. Foi um relator enérgico. Condenou importantes figuras da constelação política. Ganhou fama. Passou a ser visto como um eventual disputante da seara política. Diz o que lhe vem à cabeça. Não consegue administrar as tensões e pressões. Abriu fissuras em outras áreas que operam o Direito. Envolveu-se em projetos e recursos que formam um divisor de águas entre os Poderes Legislativo e Judiciário. Por isso, qualquer coisa que diga - mesmo as maiores obviedades - ganha alcance e gera efeitos bombásticos.

Crise entre poderes?

Há quem veja o acirramento da crise entre os Poderes. Ora, essas tensões fazem parte das democracias, principalmente as incipientes como a nossa. Não temos uma árvore democrática forjada ao longo de muitos séculos. Ainda estamos vivenciando o ciclo de ajustes e afinações. Nossas instituições ainda padecem da pequena vivência histórica. Tudo está para ser reformado: os partidos políticos, o sistema de governo, as estruturas de Estado. Não será mais uma fala franca e sincera do Barbosa que trincará as bases de uma relação entre os Poderes.

Estranha concorrência

O governo de SP conduz de maneira estranha a concorrência para a compra de 65 trens (520 carros) para a CPTM - Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, um negócio de quase R$ 2 bilhões, o maior da história neste setor. Ao abrir a licitação internacional, o governo impôs praticamente as mesmas condições para as empresas nacionais e estrangeiras. Detalhe da maior importância: as nacionais pagam todos os tributos, mão de obra, etc. Enfim, seu preço embute o altíssimo Custo Brasil. As estrangeiras, não: além de incentivos fiscais em seus países, entram aqui a custo zero, pois a Secretaria de Transportes Metropolitanos goza de imunidade tributária.

Perda de 80 mil empregos

Talvez o governo paulista não tenha avaliado as graves consequências de sua conduta nesta concorrência: ao favorecer os estrangeiros (pode-se ler chineses) com qualidade e preço inferiores, a Secretaria de Transportes pode decretar o fim da indústria ferroviária nacional. Isto significa a perda de 80 mil empregos (20 mil diretos e 60 mil indiretos), renúncia fiscal de todo imposto recolhido pelos fabricantes com plantas no Estado e a interrupção da tecnologia para este país tão carente disso.

Obedecer ou não à Justiça?

O caso de SP é ainda mais emblemático, pois o Palácio dos Bandeirantes procura inviabilizar a indústria ferroviária brasileira, em atitude oposta à do governo Federal, que incentiva as indústrias automobilística e naval, em franco crescimento. Uma liminar concedida pela Justiça pede que o governo paulista leve em consideração os "favores fiscais" conferidos às empresas estrangeiras, para nivelar a situação entre as concorrentes nacionais e internacionais. Resta saber se o governo paulista obedece à Justiça ou se leva adiante sua determinação de favorecer estrangeiros para quebrar as nacionais. Mas continua estranho o fato de o governo paulista promover o desemprego em empresas que têm suas fábricas justamente no Estado de SP.

Uma cunha no Cunha

Quem está carecendo de uma cunha - no sentido de uma interferência em seu padrão de comando - é o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha. Trata-se de um sujeito inteligente, trabalhador, ágil, e que passou a canalizar a indignação dos atores políticos que formam a base governista. É sabido que a presidente Dilma não vê com bons olhos as pressões da esfera política. Tende a rejeitá-las. Donde se pode pinçar a hipótese de que seu conceito nas casas congressuais é muito ruim. Bem distante da aprovação que alcança na sociedade, algo em torno de 75%. Pois bem, as demandas reprimidas da base governista estão sendo canalizadas por Eduardo Cunha, que viu a oportunidade de marcar posição e, em certo sentido, fazer oposição ao próprio governo, que apóia. Uma contradição. O que fazer? Ora, só inserindo uma cunha na estratégia oportunista do Cunha.

Aécio morno

Aécio Neves assumiu a presidência do PSDB com um clássico discurso de oposição. O que é ser clássico no campo da expressão? É dizer mais ou menos o seguinte: temos de mudar para melhor; temos de fazer mais; temos de combater a corrupção; temos de incentivar os investimentos; o Brasil tem de crescer muito mais do que mostra esse pibinho. E assim por diante. A pergunta é: como fazer isso? Quais as alavancas para mover o país? Por onde mexer? Quais as grandes ações prioritárias que devem merecer nossa atenção? Ninguém viu e ouviu respostas para essas questões. Não adianta dizer que esse escopo virá no momento certo. O momento de expor um ideário para o país é esse : bem antes do ciclo eleitoral. Quanto mais cedo se apresentarem as ideias, mais condições terão de ganhar o crivo social. O PSDB não tem ainda um discurso para o país. Fernando Henrique, que deveria ajudar, também continua com sua linguagem tatibitate.

Boato chegou ao bolso

Este consultor tem repetido seu refrão: quem pode tirar o eleitor do sério é a equação BO+BA+CO+CA= Bolso, Barriga, Coração, Cabeça. Bolso com grana significa geladeira cheia, barriga satisfeita, coração agradecido e cabeça dando o voto a quem....joga a graninha no bolso. Pois bem, a massa está satisfeita. Vivendo situação de conforto. Quando, porém, o boato desfaz a equação, a correria se instala. Todos correm aos bancos. Para sacar seu dinheirinho do Bolsa Família. O governo passa a ser execrado. Por poucas horas. Até se descobrir que a correria foi fruto de boato. Nesse caso, a indignação se volta contra as oposições. Moral da história: quem com boato ataca, com a verdade será ferido. Que aparecerá mais cedo ou mais tarde.

Slogans

Slogan da Dilma: vamos fazer mais. Slogan do Eduardo Campos: vamos fazer mais e melhor. Slogan do Aécio Neves: vamos diferente para fazer melhor. Resumo: todos compromissados com a fazeção. O Brasil é uma eterna repetição.

A rede de Marina

O partido Rede, de Marina Silva, deve chegar às 500 mil assinaturas nos próximos 30 dias. É razoável contar com ele no próximo pleito.

Honra ao mérito

Vejam essa: acontecimento curioso envolvendo a Câmara de Vereadores de Arcoverde, sertão de PE, tem causado muita polêmica na cidade. Uma ex-prostituta famosa no local e conhecida como Nena Cajuína vai ganhar uma medalha de honra ao mérito por serviços prestados à comunidade. A proposta foi da vereadora Célia Cardoso e foi aprovada com unanimidade.

Conselho ao governador Alckmin

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado à presidente Dilma Rousseff. Hoje, volta sua atenção ao governador de SP, Geraldo Alckmin.

1. Vossa Excelência dedicou, ao longo de sua vida, uma história densa em defesa dos interesses do Estado de SP. A essa altura de seu mandato, precisa cultivar essa história e coroar assim sua passagem pelo Palácio dos Bandeirantes;

2. Assim, não convém levar adiante uma concorrência lesiva aos interesses da indústria ferroviária nacional, que planta neste Estado o seu desenvolvimento;

3. Não permita que essa indústria quebre, com uma consequente demissão em massa de milhares de trabalhadores, apenas para beneficiar empresas estrangeiras que nenhum vínculo têm com o povo paulista.

____________

(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 21 de maio de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

O estado da Política

A Política, essa mesma com "P" maiúscula, existe como prática que facilita a solução e encaminhamento de conflitos de interesses dos cidadãos de uma comunidade determinada, seja um país, seja um condomínio. Nesta acepção específica da Política, o Brasil está vivenciando um momento particularmente "perigoso". Os interesses econômicos e sociais estão sendo solucionados por meio de uma classe política movida por interesses eleitorais, quando não por interesses pessoais, e os agentes deles ou desconfiam, ou se aproveitam, quando não fazem as duas coisas. A votação da chamada "MP dos Portos" na semana passada foi mais uma expressão do caos político que vivemos: interesses privados legítimos se misturaram a formas nefastas de interferência política, interesses públicos foram difusamente defendidos ou na base do "toma-lá-dá-cá", o governo viu-se chantageado, bem como chantageou, e assim foi. Isso tudo num contexto de votação de medida essencial ao desenvolvimento brasileiro. Este é o estado da Política.

O estado da Política - II

Afora a demonstração da semana passada no Congresso, vê-se que a corrida eleitoral iniciada pela presidente Dilma e seu tutor, o ex-presidente Lula, deve inviabilizar quaisquer reformas mais substanciais até o ano que vem. Os partidos que apóiam o governo sabem dos anseios palacianos e destes extraem as mais variadas formas de aproveitamento político. Não há coloração ideológica e nem nome de partido que não participe deste caro convescote do Poder Legislativo. A oposição, de outro lado, mostra-se débil, pouco programática e com articulação sofrível. Basta ver a patética (e simbólica) ação política do senador Álvaro Dias (PSDB/PR) flagrado pela Folha de S.Paulo ao apresentar uma emenda à votação da MP dos Portos igual à de um colega do PT, o deputado Luis Sérgio. Neste contexto, preocupa o acúmulo de pautas na agenda nacional : da violência urbana ao controle da inflação, da educação à desindustrialização do país, tudo está pendente de soluções estruturais. Isso enquanto a classe política está ilhada em seus próprios interesses e jogos políticos. Perigo à vista. Para quem quer ver, é claro!

O estado da economia

Procuramos não fazermos previsões categóricas, porquanto estas não são passíveis de serem feitas quando o assunto é economia e política, ou vice-versa. Afinal, a política depende da economia e vice-versa, mesmo que não faltem oráculos soltos no mundo. De todo o modo é possível perceber tendências, até mesmo quando estas não estão visíveis, a partir do exercício do espírito crítico da análise política e econômica. Pois bem : os números recentes da produção industrial e do consumo indicam que o PIB brasileiro este ano está mais para o número pífio do ano passado que para algo entre 3% e 3,5%. De outro lado, é praticamente certo que a fragilidade das relações políticas no Congresso não permitirá nenhum avanço institucional capaz de sanar os problemas estruturais que barram o desenvolvimento. A MP dos Portos foi a grande reforma do ano (vide as duas primeiras notas desta coluna).

O estado da economia - II

Preocupação que deve ser redobrada é a possibilidade de o país vivenciar uma onda de desinvestimento externo, num contexto em que os EUA se recuperam com certa rapidez - basta ver o desempenho das bolsas daquele país - e a Europa dá alguns pequenos sinais de avanços. Além dos avanços na Índia e China (de novo). As melhores expectativas em relação ao Brasil estão no passado por conta dos poucos avanços alcançados pelo atual governo e pelos riscos que decorrem da equação que combina valorização cambial, inflação em alta, desindustrialização e queda dos preços das commodities. Poucas variáveis estruturais do país estão sendo mexidas politicamente para melhor. Quase nenhuma, se observadas as principais (reformas tributária e previdenciária, incentivo à tecnologia, educação e aumento da eficiência da infraestrutura). Felizmente ou infelizmente, as políticas adotadas pelo país têm de atender as expectativas dos agentes econômicos para a taxa de investimento subir. O que se vê é um governo voltado de costas para o capital, sustentado pelo eleitorado mais pobre e encalhado pelos seus presumidos aliados. A economia segue este ritmo.

PSDB e Aécio: agora, o "como fazer"

Aparentemente - em política as aparências costumam enganar, ainda mais se tratando de tucanos de plumagens reais - o PSDB, sob a clara liderança do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, uniu-se em torno de um projeto comum e da candidatura presidencial de Aécio Neves. Até a seção paulista do partido, a mais reticente em relação às pretensões do ex-governador e senador mineiro, parece ter aceitado as regras do jogo, em que pesem as demonstrações de caturrice política do ex-governador José Serra. Em princípio, o PSDB está centrando sua campanha na recuperação do legado da gestão Fernando Henrique Cardoso - estabilização monetária (derrota da hiperinflação), reforma do Estado (especialmente as privatizações) e início das políticas de renda (depois aprofundadas e radicalizadas, no bom sentido, pelo governo Lula). Herança que os tucanos abandonaram nas três campanhas presidenciais em que foram derrotados e que defenderam muito envergonhados.

PSDB e Aécio: agora, o "como fazer" - II

Pode ser um bom começo para aquecer as forças partidárias para o embate eleitoral e solidificar a unidade agora exibida, alcançada a duras penas (coloridas, como só cabe a tucanos de extirpe). Não basta, porém, até porque, até agora, a estabilidade monetária já é uma conquista do país, a memória nacional quase perdeu o seu mentor, e as conquistas sociais estão definitivamente incorporadas ao patrimônio petista. Que, aliás, sabe incorporar muito bem os seus feitos - e também os não-feitos. Além de esconder os malfeitos. Aécio, para se mostrar competitivo, terá de passar da celebração do passado e das críticas à atual condução da política econômica para uma etapa mais avançada do que fazer e como fazer para melhorar a situação atual.

PSDB e Aécio: agora, o "como fazer" - III

Os percalços que a economia nacional está registrando nos últimos meses, como temos comentado em nossas colunas mais recentes, ainda não chegaram com força até as classes que têm o maior cabedal de votos e que decidem de fato no Brasil qualquer eleição: os extratos D, E e a chamada "nova classe média" ou "classe média de Lula". É para esses que os tucanos precisam arranjar um "discurso" e propostas concretas - e principalmente factíveis - para manter a estabilidade da moeda e melhorar a qualidade de vida da população. Os eleitores do que se convencionou também de chamar de o "andar de cima" do extrato social, tirante em algumas camadas, já são votos anti-petistas por natureza. O próprio PT já sabia disso e nas últimas eleições tem feito esforços para mudar isto. A candidatura vitoriosa de Fernando Haddad à prefeitura de SP teve tal viés. Agora, Lula busca novos "Haddads" para concorrer a alguns governos estaduais, especialmente ao de SP. Os tucanos terão de descer de seus poleiros engalanados e pular ao rés do chão se quiserem ser competitivos em 2014. Ficar simplesmente esperando a economia desandar pode significar mais quatro anos de relento na esfera Federal.

Um agravo para Dilma e para as expectativas econômicas

Como comentamos na nota anterior, o "andar de cima" nunca foi de depositar a maior parte de seus votos nos candidatos petistas ou por ele apoiado. Inclusive o empresariado - ele até financia as campanhas, no velho modelo de botar ovos em várias cestas, porém no silêncio das urnas costuma ser mais conservador. Aliás, aqui como acolá, mundo afora. Porém, impressiona como estão se deteriorando rapidamente as expectativas do mundo empresarial no governo Dilma, puxada pelos percalços que a economia vem apresentando e a forma como a política econômica vem sendo conduzida. Essa perda vem sendo registrada, paulatinamente, pelos índices de confiança mais recentes levantados tanto por instituições como a FGV como por entidades empresariais tipo CNI e Fecomércio.

Um agravo para Dilma e para as expectativas econômicas - II

O mais recente sinal dessa deterioração foi retratado por uma pesquisa realizada na semana passada pelo jornal "Valor Econômico". Levantamento feito com presidentes de 97 das 200 maiores empresas do país, durante o Fórum da Associação Brasileira de Recursos Humanos, revelou que 66% deles (56% na sondagem anterior) se revelaram dispostos a votar em Aécio Neves contra apenas 12% para ela, 11% para Eduardo Campos e o restante para Marina Silva e outros. A boa notícia para a presidente é que 68% dos entrevistados dizem que ela será eleita, o que significa que os empresários não acreditam que a deterioração do ambiente econômico que está elevando a insatisfação deles vá chegar à maioria dos eleitores.

Um agravo para Dilma e para as expectativas econômicas - III

De todo modo, a insatisfação dos empresários com o cenário macroeconômico é um dado complicador para a gestão econômica, no momento em que o governo busca reconquistar a confiança deles para ampliar os investimentos na economia nacional. E a política eleitoral está de tal maneira embaralhada com a economia que torna todo o quadro ainda mais confuso. Mais sobre a MP dos Portos no blog "A política como ela é".

O jogo político-partidário ficou mais delicado

As forças de informações governamentais dão como uma vitória do governo a aprovação, catimbadíssima como se diz na gíria esportiva, da MP dos portos, sem modificações "destrutivas" ao projeto original e ao parecer do senador Eduardo Braga (PMDB/AM). As distorções mais graves impostas pelos rebeldes aliados nas madrugadas de votação na Câmara, garantem as ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffman, serão extirpadas por vetos presidenciais. É meio fato esta interpretação oficial. Ao final da maratona, o que se viu é que está totalmente desprestigiada a chamada "coordenação política do governo" e as relações do Palácio do Planalto com seus aliados.

O jogo político-partidário ficou mais delicado - II

Não funcionam nem as resistências de Dilma em não ceder mais do que ela entende do que seria razoável - ceder ela cede, basta ver o rosário de nomeações de aliados - nem ceder além disso, com verbas para as emendas parlamentares e outras promessas sendo liberadas de última hora. O governo fica sempre a mercê do Congresso nos grandes momentos. Diz-se que o grande rebelde desta vez, o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, foi derrotado pelas forças governistas. Ora, se o foi, por que a necessidade de vetos ? E se os vetos podem gerar novas insatisfações e novos embates. A realidade é que a presidente Dilma saiu deste embate, infelizmente para ela e para boa parte dos brasileiros, um pouco mais dependente do PMDB no Congresso. Na última hora o socorro veio para ela de Henrique Alves e, especialmente, de Renan Calheiros. Parecia até que o PMDB jogou afinado para valorizar seu passe : enquanto Eduardo Cunha e sua turma batiam, o comando peemedebista assoprava. Com dois agravantes : o PT não gostou dessa afinação peemedebista. E uma parte do petismo não gostou nada do projeto aprovado. Dilma vai ter de mudar muito seu modo "político" de agir, tanto com o Congresso como internamente. Já começam a pipocar de todos os lados - e não apenas dos discursos da tímida oposição - críticas e observações negativas ao estilo presidencial de ser e de governar.

FT: frustração e o estilo "mandão" de Dilma

Vejamos os dois extratos do editorial do FT de ontem:

"(...) corre o risco, mais uma vez, de frustrar imensas expectativas". "A aparente sensação de bem-estar do Brasil é uma fachada. O crescimento da economia no ano passado foi de menos de 1%, pouco melhor que a zona do euro. Este ano, o Brasil está crescendo menos que o Japão. A inflação está corroendo a confiança do consumidor e há uma sensação de mal-estar. A causa é o abrandamento do investimento, tendência que começou em meados de 2011 e continua. Mais investimento é exatamente o que o Brasil precisa para manter os empregos e tornar-se a potência global a que aspira ser". (...) "O estilo 'mandão' dela não é adequado para a persuasão colaborativa exigida pelo tipo particular de política de coalizão do Brasil. A tomada de decisão tem sido centralizada, o que evita a corrupção, mas retarda o processo. Dilma também tem evitado consistentemente as reformas orientadas para o mercado em favor do protecionismo de alguns setores preferidos e seus lobbies, como as mimadas montadoras"(...)

Para quem tem dúvidas sobre a deterioração da imagem do país, meio editorial basta.

O vencedor é...

Renan Calheiros tornou-se candidato imbatível este ano ao "Troféu Bravateiro-Mor do Brasil", disputa no Brasil que na seara da política sempre teve uma boa centena de pós-doutores aptos a abocanhar o laurel. O senador alagoano e presidente do Senado já ganhou a corrida depois que alardeou que na votação da MP dos portos foi a última vez que a Casa fará algo de afogadilho como fez quinta-feira e que de agora em diante o Senado não votará MPs que lhe cheguem com menos de sete dias antes de caducar. Calheiros fará o que seu senhor - ou melhor, sua senhora - mandar. Escrevam para conferir.

Traduttori, traditori

Só pode ter sido uma traição - ou um grave equívoco do tradutor - a afirmação atribuída ao ex-presidente Lula no evento comemorativo dos dez anos do PT na presidência da República, em Porto Alegre, na presença de Dilma. Não pode ser para valer: "O político ideal que vocês desejam, aquele cara sabido, aquele cara probo, irretocável do ponto de vista do comportamento ético e moral, aquele político que a imprensa vende que existe, mas que não existe, quem sabe esteja dentro de vocês". Como diz o aforismo italiano, traduttori, traditori.

Lençóis maranhenses

Desculpem a ignorância, a falta de informação desses escribas, mas ficamos, por dizer assim, estupefatos, ao descobrirmos que no Maranhão existe um município batizado de Governador Edison Lobão. No futuro devemos esperar também um com o codinome "Ministro Edison Lobão" e uma série de outras municipalidades com o sobrenome "Sarney", uma família que é uma espécie de donatários da província, e à qual Lobão é agregado.

Mais notícias dos lençóis maranhenses

Informações de um blog local - "Blog Marrapa" - reproduzidas pelo blog do jornalista Ricardo Noblat, de Brasília, na semana passada:

"A governadora Roseana Sarney passou pelo maior vexame durante a passagem do governo itinerante por Governador Edison Lobão. Confrontada sobre a qualidade de ensino por um aluno da escola pública, Roseana se viu encurralada.

- Se as escolas não têm qualidade, você tem que cobrar isso dos professores - respondeu a governadora, se esquivando da responsabilidade.

Esperto, o estudante retrucou:

- Eu estou falando é de infraestrutura da sala de aula, escola com estrutura adequada.

Sem reação, ela tenta desviar do assunto:

- Ei, ei, ei, olha aqui. Eu quero saber qual foi sua nota do Enem.

Nisso o estudante desmascara Roseana mais uma vez e acusa a situação do ensino público oferecido pela rede estadual:

- Eu ainda não fiz o Enem, tô sem aula, e tô correndo risco de não fazer o Enem porque não tem professor na sala de aula".

Como diria Millôr Fernandes, pano rápido. E sem comentários, por desnecessários. O Índice de Desenvolvimento Humano o Maranhão já diz tudo.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

SE ANIVERSARIO, POESIO!



Quando um véu de escuridão
Cobria o céu da ampla pátria,
Um ano após a militar martelada
Que toscou a fecundação cidadã
E cortou asas de sonhos libertários,
Numa costela oeste do Ceará
Dois primos da mesma teimosa estirpe
Desafiavam as tolas imposições
Das familiares convenções
E se deixavam consumir
Pela sombra do cajueiro da paixão.

Rebentei de um lampejo de desobediência.

Fui gerado ao lado de uma oiticica de raízes colossais
No tapete de úmida areia da grota da Baé.

Jesomar e Rosária, Rosária e Jesomar
Meu pai e minha mãe, minha mãe e meu pai:
Muito aprendi com o esquadro e o compasso
Abertos sobre o Livro da Lei dos vossos salmos existenciais.

************************************************************

Volto aos barrancos de minha infância,
Às gitiranas doiradas que me abençoaram,
Às veredas escuras que me deram a luz,
Aos frondosos mufumbos que me perfumaram,
Ao estrume azul do velho Curral,
Ao piso vermelho do amendoim original
E retomo as essenciais interrogações
Que só a mim me interessam:

- De qual argila fui moldado?

- Qual o húmus que sustenta minha canafistula pessoal?

- Onde aportarei em minha errante caminhada?

Se ainda estou sem resposta,
Pelo menos um alento de carnaúba carrego,
Do drama que minha tia Dalva nunca escreveu
Do alforje curado no couro dos Vieiras
Do som do pífano do compadre Pedro Cabloco:

Dos três que passaram e do derradeiro que ficou
Uma lição recolhi, uma tocha se acendeu,
Uma lamparina permanece me alumiando a alma:

Hoje sou outro!

(Júnior Bonfim)

************************************************

Somente um dia grandioso poderia dar à luz um grandioso ser humano.

Feliz Aniversário, amigo Júnior Bonfim.

Que Deus o mantenha sempre o mesmo. Isso basta.

Parabéns.

Com efusivo abraço,

Boaventura Bonfim e família.

domingo, 19 de maio de 2013

O ARTIGO DE ANGELINA JOLIE NO "THE NEW YORK TIMES" - "MINHA ESCOLHA MÉDICA"



Minha mãe combateu o câncer por quase uma década e morreu aos 59 anos. Conseguiu sobreviver por tempo suficiente para conhecer seus primeiros netos e tê-los nos braços. Mas meus outros filhos jamais terão a oportunidade de conhecê-la e de descobrir o quanto ela era amorosa e carinhosa.

Minha mãe combateu o câncer por quase uma década e morreu aos 59 anos. Conseguiu sobreviver por tempo suficiente para conhecer seus primeiros netos e tê-los nos braços. Mas meus outros filhos jamais terão a oportunidade de conhecê-la e descobrir o quanto ela era amorosa e carinhosa.

Muitas vezes conversamos sobre a "mãe da mamãe" e me vejo tentando explicar a doença que a tirou de nós. As crianças perguntaram se o mesmo poderia acontecer comigo. Sempre respondi que não deviam se preocupar, mas a verdade é que tenho um gene "defeituoso", o BRCA 1, e isso eleva muito meu risco de ter câncer de mama e câncer de ovário.

Meus médicos estimaram que eu tinha risco de 87% de câncer de mama e de 50% de câncer de ovário, ainda que os riscos sejam diferentes de mulher para mulher.

Apenas uma fração dos cânceres de mama resultam de uma mutação genética herdada. As mulheres com BRCA 1 defeituoso têm, em média, 65% de risco de desenvolver a doença.

Assim que eu soube que minha realidade era essa, decidi agir de modo proativo e minimizar o risco ao máximo.

CIRURGIA

Tomei a decisão de realizar uma dupla mastectomia preventiva. Comecei pelos seios porque meu risco de câncer de mama é mais elevado do que meu risco de câncer de ovário, e a cirurgia é mais complexa.

Em 27 de abril, concluí os três meses de procedimentos médicos que a mastectomia requeria. Ao longo do período, pude manter o sigilo sobre o que estava acontecendo e continuar com meu trabalho. Mas agora decidi escrever a respeito com a esperança de que outras mulheres possam se beneficiar de minha experiência.

Câncer continua a ser uma palavra que causa medo no coração das pessoas, produzindo um profundo senso de impotência. Mas hoje é possível determinar por meio de um exame de sangue se você é altamente suscetível a câncer de mama e câncer de ovário e agir a respeito.

Meu processo começou em 2 de fevereiro com um procedimento conhecido como "nipple delay" [autonomização], que impede doença nos dutos mamários por trás dos mamilos e irriga a área com fluxo sanguíneo adicional.

O procedimento causa alguma dor e muitos hematomas, mas aumenta a chance de preservar o mamilo.

Duas semanas mais tarde, fiz a principal cirurgia, na qual o tecido do seio é removido e a área é ocupada por um preenchimento temporário. A operação pode demorar até oito horas.

Quando você acorda, está com tubos de drenagem e expansores nos seios. Parece uma cena de filme de ficção científica. Mas, dias depois da cirurgia, já pode voltar à sua vida normal.

Nove semanas mais tarde, a cirurgia final é completada com a reconstrução dos seios por meio de um implante. Houve muitos avanços nesse procedimentos nos últimos anos, e os resultados podem ser muito bonitos.

Eu quis escrever este artigo para contar a outras mulheres que a decisão de fazer uma mastectomia não foi fácil. Mas estou muito feliz por tê-la tomado.

FILHOS

Minha probabilidade de desenvolver câncer de mama caiu de 87% para menos de 5%. Agora posso dizer aos meus filhos que eles não precisam ter medo de me perder para o câncer de mama.

É animador que eles não vejam coisa alguma que lhes cause desconforto. Veem as pequenas cicatrizes que ficaram, e só. Tudo mais é a mamãe, a mesma à qual estão acostumados. E eles sabem que os amo e que farei qualquer coisa para ficar com eles pelo maior tempo possível.

Do ponto de vista pessoal, não me sinto menos mulher. Sinto ter ganhado força por fazer uma escolha forte que de forma alguma diminui minha feminilidade.

É minha sorte ter um parceiro, Brad Pitt, tão amoroso e tão presente. Assim, para quem tem uma mulher ou namorada que esteja passando por isso, é importante saber que você será parte importante da transição.

Brad esteve no Pink Lotus Breast Center, onde fui tratada, durante cada minuto das cirurgias. Conseguimos encontrar momentos que nos permitiram rir juntos. Sabíamos que essa era a coisa certa a fazer por nossa família e que isso nos aproximaria. E foi o que aconteceu.

Para qualquer mulher que esteja lendo este texto, espero que ele possa ajudá-la a saber que você tem escolhas.

Quero encorajar todas as mulheres, especialmente as que tenham histórico familiar de câncer de mama ou ovariano, a buscar informações e procurar especialistas médicos que possam ajudá-las quanto a esse aspecto de suas vidas e a fazer escolhas pessoais informadas.

Gostaria de apontar para o fato de que existem muitos médicos holísticos maravilhosos trabalhando em alternativas a uma cirurgia. Meu tratamento será postado no site do Pink Lotus Breast Center. Espero que isso seja útil para outras mulheres.

O câncer de mama mata 458 mil pessoas por ano, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), principalmente em países de baixa e média renda.

Garantir que mais mulheres tenham acesso a testes genéticos e tratamentos preventivos que podem salvar vidas deve ser uma prioridade, não importa quais sejam as origens e os meios das pacientes. O custo dos testes de BRCA 1 e BRCA 2, que é de mais de US$ 3.000 nos EUA, continua a ser um obstáculo para muitas mulheres.

Optei por não manter o sigilo sobre minha história porque existem muitas mulheres que não sabem que podem estar vivendo sob a sombra do câncer. Também espero que elas possam passar por testes genéticos e, em caso de risco, que saibam que existem opções fortes para elas.

A vida vem com muitos desafios. Aqueles que podemos encarar e sobre os quais podemos ter controle não devem nos assustar.

Angelina Jolie / 2013
The New York Times

Tradução de PAULO MIGLIACCI

sábado, 18 de maio de 2013

O VICIADO



No começo, ele sorve embevecido,
O alucinógeno cálice, com graça,
Não percebe estar sendo corroído
Pelo ácido do álcool e da fumaça

E veloz como o vento o tempo passa;
E, sem controle de si, todo envolvido,
Na teia miserável da desgraça
Celeremente vai sendo consumido.


Sem amigos, família, objetos...
Em lugares nojentos, com insetos,
Dorme todos os dias da semana.

Sem noção perambula igual um bicho,
Extraindo a comida em qualquer lixo,
Eis aí a degradação humana.

(Dideus Sales)

quinta-feira, 16 de maio de 2013

JOAQUIM BARBOSA: MANIFESTAÇÕES DA ADVOCACIA

Durante a sessão de terça-feira, 14, do CNJ, houve mal estar entre o ministro Joaquim Barbosa e um expoente da advocacia brasileira. O agastamento foi gerado quando os conselheiros discutiam a validade de uma norma do TJ/SP que determina que o horário de atendimento comece a partir das 11h.

Entre uma ponderação e outra, o ministro questionou: "mas a maioria dos advogados não acorda lá pelas 11 horas mesmo?". Imediatamente, em defesa da advocacia bandeirante, o ex-presidente da AASP Marcio Kayatt registrou seu legítimo protesto.

Nas redes sociais a declaração do ministro gerou repercussão. Uma foto de Barbosa com os dizeres "Acordo cedo, mas durmo no plenário" foi amplamente compartilhada na rede. Confira abaixo:



Entidades representativas da advocacia já manifestaram preocupação com a declaração. Confira abaixo as manifestações.

_______

Conselho Federal da OAB

A Diretoria do Conselho Federal da OAB vem a público reafirmar o valor dos advogados brasileiros, essencial à defesa do cidadão e indispensável à realização da justiça, como estatuído pela Constituição Federal.

O advogado acorda muito cedo e dorme muito tarde, sempre vigilante em defesa do cidadão, principalmente quando injustiçado por autoridades arbitrárias.

Ao anunciar que a maioria dos advogados acorda às 11h, o presidente do Supremo Tribunal Federal demonstra completo desconhecimento da realidade sofrida e de extrema dificuldade enfrentada pela advocacia brasileira.

É lamentável que instituições sejam obrigadas a gastar energia com afirmações preconceituosas. O momento atual impõe serenidade, equilíbrio e respeito. A OAB faz um chamamento à razão. As instituições da República devem se preocupar com as graves questões que afligem a sociedade. Comentários desrespeitosos não contribuem para a construção de uma nação fraterna e justa.
A OAB e a advocacia reafirmam a sua disposição ao diálogo de alto nível, pautado no cumprimento dos valores constitucionais e na busca da efetividade da justiça.

Brasilia, 15 de maio de 2013

Conselho Federal da OAB

____

Nota pública: AASP repudia manifestação do ministro Joaquim Barbosa

Na data de ontem, o Egrégio Conselho Nacional de Justiça retomou o julgamento do procedimento de controle administrativo proposto pela Associação dos Advogados de São Paulo, em conjunto com a Ordem dos Advogados do Brasil Seção São Paulo e o Instituto dos Advogados de São Paulo, em que se objetiva a revogação do provimento CSM 2.028, de 17 de janeiro de 2013, por meio do qual o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, contrariando dispositivo expresso na lei 8.906/94 (Estatuto da Advocacia), reserva o período das 9 às 11h apenas para serviços internos e impede o atendimento e até mesmo o mero ingresso de advogados, em todos os fóruns do Estado, antes das 11h da manhã.

Durante a referida sessão, o presidente daquele colegiado, ministro Joaquim Barbosa, visivelmente incomodado com a dificuldade que enfrentava para convencer seus pares de que sua opinião pessoal sobre o assunto deveria prevalecer, mesmo diante do texto expresso de uma lei federal e da jurisprudência do próprio órgão, indagou de forma jocosa: “Mas a maioria dos advogados não acorda lá pelas 11 h mesmo?”.

Trata-se de atitude absolutamente lamentável, que atenta contra a dignidade da classe dos advogados e que não se coaduna com o comportamento que se espera do presidente do CNJ, assim como da mais alta corte do país.

Por essa razão, a AASP vem a público manifestar seu veemente repúdio, não apenas a esta, como também às reiteradas manifestações do ministro Joaquim Barbosa de desapreço pela advocacia, emitidas com o claro propósito de minimizar o alcance e a relevância de prerrogativas profissionais exercidas em benefício de toda a sociedade.

Associação dos Advogados de São Paulo - AASP


________

NOTA

Foi recentemente veiculado pelos meios de comunicação, teor de julgamento ocorrido no âmbito do Conselho Nacional de Justiça, na qual o seu Presidente, Ministro Joaquim Barbosa, em tom de galhofa, teria indagado que “a maioria dos advogados não acorda lá pelas 11 horas mesmo?”

Tal observação foi feita no bojo da análise da legalidade de provimento do TJSP, que reservou o período das 9h às 11h, exclusivamente para serviços internos, limitando desta forma o horário de atendimento aos advogados. O referido Ministro estava respondendo a outro conselheiro, que havia ponderado que tal resolução faria com que os advogados tivessem “suas manhãs perdidas”. É de se ressaltar que na mesma sessão, o Ministro indaga se os advogados “gozam de direito absoluto nesse país?”.

Afirmações como as citadas, revelam seu desconhecimento acerca das agruras e percalços enfrentados diuturnamente pelos milhares de advogados, frente à precária e morosa engrenagem estatal brasileira.

Ao se dirigir de forma desrespeitosa à figura do advogado, Sua Excelência afronta a própria Justiça, posto que ataca um de seus pilares (cf. art. 133, da Constituição Federal), sendo tal postura absolutamente inaceitável e incompatível com o cargo que ocupa, merecendo repúdio.

IAB - Instituto dos Advogados Brasileiros

_______

O IASP - Instituto dos Advogados de São Paulo manifesta seu repúdio pelo comentário desrespeitoso do ministro Joaquim Barbosa, manifestado na sessão de ontem do Conselho Nacional de Justiça, de que: "Mas a maioria dos advogados não acorda lá pelas 11 horas mesmo?". É motivo de profunda preocupação a conduta incompatível com o exercício do cargo. Todas as profissões são honradas quando exercidas com ética e responsabilidade, sendo essa a expectativa de toda a sociedade diante da tão nobre e fundamental missão do Conselho Nacional de Justiça.

José Horácio Halfeld Rezende Ribeiro
Presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo – IASP

____

Nota Pública

O MDA - Movimento de Defesa da Advocacia, na qualidade de entidade cujos objetivos estatutários se fundam na valorização da Advocacia e na defesa intransigente das prerrogativas profissionais, tendo em vista as notícias veiculadas pela imprensa, vem a público manifestar sua perplexidade e frontal desaprovação com a forma inadequada e deselegante a que se referiu o Presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça ministro Joaquim Barbosa à classe dos Advogados, ao verbalizar, também segundo o noticiário e durante sessão do CNJ ocorrida no último dia 14/05, como um dos fundamentos para negar a pretensão de restrição de entrada junto aos Fóruns do Estado de São Paulo os seguintes dizeres "Mas a maioria dos advogados não acorda lá pelas 11h mesmo?"

Ainda que tal manifestação tenha se dado em tom "de brincadeira", como teria justificado posteriormente S.Exa., o fato é que posturas desse jaez não se coadunam, em absoluto, com a importância e a liturgia do cargo de Presidente da Suprema Corte da Nação e simultaneamente do Conselho Nacional de Justiça.

A Advocacia não se cala diante dos episódios mais sombrios vividos na História, de modo que também não poderá se calar em todas e quaisquer situações em que não apenas as prerrogativas profissionais sejam violadas, mas também quando as manifestações do Chefe do Poder Judiciário brasileiro ou de qualquer Autoridade não se mostrem compatíveis com o Estado Democrático de Direito.

Movimento de Defesa da Advocacia – MDA

________

NOTA OFICIAL

A OAB/SP lamenta profundamente e considera reprovável a manifestação do presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça, ministro Joaquim Barbosa, proferida durante sessão que analisava medida interposta pelas entidades representativas da advocacia (OAB SP, AASP e IASP), questionando a restrição de horário imposta aos advogados nos fóruns estaduais.

Na Justiça Paulista, tramitam 20 milhões de processos, sendo possível, desta forma, afirmar categoricamente que os advogados paulistas são operosos e não podem aceitar a pecha que quis lhes atribuir o presidente do CNJ, com a ironia de que “a maioria dos advogados não acorda lá pelas 11 horas mesmo?”. Lembramos que o episódio não é isolado, somando-se a uma série de manifestações inoportunas e extemporâneas feitas pelo ministro em diferentes ocasiões.

A Justiça não pode prescindir da advocacia, que postula em nome dos cidadãos e luta pelo reconhecimento de seus direitos em Juízo. A advocacia também é essencial à manutenção e ao aperfeiçoamento do Estado Democrático de Direito, por ser o advogado o profissional que torna possível retomar o ponto de equilibro e resgatar a harmonia social, quando os direitos são feridos e as garantias são usurpadas.

A OAB lutou pela instituição do CNJ, criado por meio da Emenda 45 de 2005, e voltado a exercer o controle da atuação administrativa, financeira e dos deveres funcionais dos magistrados. O Conselho, reconhecidamente, vem atuando para aprimorar a Justiça, sem interferir na autonomia, independência e comprometimento social da magistratura.

Ao longo de sua atuação, o CNJ tem propiciando respostas efetivas, com a gestão de informações fundamentais sobre a Justiça brasileira, fixando metas e determinando padrões de atuação para um Judiciário tão diversificado quanto o brasileiro.

Por isso, a advocacia paulista recorreu ao Conselho para atender ao interesse do jurisdicionado e reparar uma violação de suas prerrogativas causada pela redução do horário de atendimento aos advogados nos fóruns (Provimento 2.028 do TJ/SP).

Acreditamos em um Poder Judiciário que amplie o livre acesso da população à Justiça, como preconiza a Constituição Federal, que seja transparente e trabalhe pela modernização da prestação jurisdicional e que não busque superar suas dificuldades por meio de violações às nossas prerrogativas profissionais, instrumentos essenciais ao exercício da nossa profissão.

São Paulo, 15 de maio de 2013.

Marcos da Costa

Presidente da OAB/SP