sábado, 24 de março de 2012

MORREU CHICO ANYSIO: “ANJOS APLAUDIRAM CHICO DE PÉ” – AFIRMA MULHER DO HUMORISTA



Batizado Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, Chico Anysio nasceu no dia 12 de abril de 1931, em Maranguape, no interior do Ceará. Mudou-se com a mãe e três irmãos para o Rio de Janeiro quando tinha oito anos. O pai ficou na cidade natal para tentar se reerguer após perder toda a frota de sua empresa de ônibus num incêndio.

Chico sempre estudou em boas escolas durante a infância. Pretendia ser advogado, mas a vocação de comediante e as oportunidades que lhe foram surgindo levaram-no a escolher outra profissão.

Início da carreira

Com dezesseis anos, começou a participar de programas de calouros no rádio. Sua primeira apresentação foi no programa líder de audiência “Papel Carbono”, apresentado por Renato Murce na Rádio Nacional. Com seu número, o humorista ganhou o primeiro lugar e utilizou o prêmio em dinheiro para comprar uma bicicleta para o seu irmão mais novo, Zelito – que no futuro seria o cineasta Zelito Viana, pai de Marcos Palmeira.

O jovem Chico Anysio ficou tão popular que os programas de calouros pararam de aceitá-lo, pois ele sempre faturava os concursos. Ainda em 1947, ele deixou de ir a uma partida de futebol com os amigos para acompanhar sua irmã em um teste na Rádio Guanabara. Saiu da emissora com o emprego de locutor e rádioator.

Na Guanabara, Chico mostrou muitos dos seus talentos. Com apenas quinze dias de trabalho, virou locutor nas madrugadas, ator de rádionovela, comentarista esportivo e redator de programas humorísticos. Pouco tempo depois, abandonou de vez as rádionovelas para atuar como comediante.

Em 1949, foi convidado para trabalhar na rádio Mayrink Veiga, onde escrevia treze programas por semana. De lá, passou pela Rádio Clube Pernambuco e Rádio Clube do Brasil. Até que, em 1952, foi levado de volta para a Mayrink, como ator e diretor de vários programas. Nessa época, deu origem ao personagem que o consagrou: o Professor Raymundo, que fazia o quadro de encerramento do programa “A cidade se diverte”.

Estreia na TV

Já em 1957, estreia na televisão no programa humorístico “Aí Vem Dona Isaura”, estrelado por Ema D'Ávila na TV Rio. Nos anos seguintes, Chico Anysio foi redator de vários programas de humor, como “Milhões de Napoleões”, e participou de muitos outros, como o “Noites Cariocas”.

Após uma passagem relâmpago pela TV Excelsior (onde nem chegou a estrear), Chico voltou para a TV Rio, que tinha um novo diretor de programação: José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Ele também trabalhou na Tupi e na Record e, em 1968, desistiu de fazer televisão e investiu em seus shows de comédia no teatro.

Chico Anysio voltou para a televisão no ano seguinte em um humorístico transmitido pela TV Globo. Dirigido por Daniel Filho, o programa foi um sucesso e lhe garantiu um contrato com a emissora carioca – onde ele permaneceu até morrer, totalizando 42 anos como contratado da TV Globo.

Na emissora, estrelou diversos humorísticos, como “Chico City” (1973-1980), “Chico Anysio Show” (1982-1990), “Chico Total” (1995), “O Belo e as Feras” (1999), entre outros. Em todos eles, criou inúmeros personagens marcantes que lançaram bordões e marcaram época.

Novelas

Nos últimos dez anos, Chico passou a atuar em novelas, seriados e programas da TV Globo. Entre as novelas, “Terra Nostra” (1999), “Sinhá Moça” (2006) e “Caminho das Índias” (2009). Também apareceu na versão moderna do "Sítio do Picapau Amarelo" (2005) e em programas como "A Diarista" (2004) e "Guerra e Paz" (2008).Veja no vídeo algumas das mais marcantes criações de Chico Anysio:

Cinema, teatro, música, literatura e artes plásticas

Apesar de se definir como um ator de televisão, Chico Anysio também teve incursões no cinema e no teatro. Na telona, ele participou de várias chanchadas como ator e roteirista durante a década de 50. E nos palcos, realizou inúmeras apresentações, acumulando mais de 10 mil shows no Brasil e fora dele.

Em seus mais de 60 anos de carreira, o comediante também se aventurou em outras áreas. Na música, ele gravou mais de 20 álbuns com composições de sua autoria. Na literatura, publicou mais de quinze livros entre contos, romances e biografias. Como pintor, participou de dezenas de exposições dentro e fora do Brasil, vendendo seus quadros por alguns milhares de reais.

No cinema, sua atuação mais conhecida foi em “Tieta” (1996), de Cacá Diegues, onde encarnou o pai da protagonista.



(Sônia Braga, no portal IG)

sexta-feira, 23 de março de 2012

A PESCA


Os contadores de historias – alguns até diplomados pela SABI-Crateús e respaldados pela exímia instrutora e consagrada atriz Karla Kafka – dizem que quem conta um conto...aumenta um ponto!

Fui frequentador amiúde, até recentemente, de uma Bodega em cuja porta principal havia uma placa com os dizeres: CONVÍVIO PARA CAÇADORES, PESCADORES, CONTADORES DE HISTORIAS, POETAS E OUTROS MENTIROSOS. Foi lá que colhi incríveis ficções, todas recheadas de espetaculosas fábulas, felizmente não desenvolvi este terrível hábito de faltar com a verdade.

Passei a entender essa despudorada habilidade examinando alguns pescadores e sei que não existe essa de mentir pouco ou mentir muito, quem mente mente, é uma consequência patológica heteronímica de Pessoa, o poeta, que diz que o principiante mentiroso logo se converterá num profissional da lorota. Mesmo assim sinto-me bastante inseguro, pois o grande filósoso Sócrates, se não me falha a memória, uma vez falou: Quem mais conhece a verdade é quem mais é capaz de mentir. Eita, me vem mais este increspo, já daquela época.

Ora, se até uma complexa teoria científica respaldada pelos cabelos grisalhos do bioquimico Oparin, afirmando peremptóriamente que todas as formas de vida que perambulam por aí, descendem diretamente de uma molécula primordial que, de uma hora para outra, resolveu sair pulando das águas lodosas de um rio, fazendo com que este inconsequente biologo russo perdesse o direito de caminhar livremente pelas ruas da sua própria cidade, ao apresentar-se com um ar todo darwiniano a medida que sua lorota ia ganhando autoridade.

Ora, ora... muitas vezes eu vi, com esses dois olhos lamurientos, sairem das águas serenas do Poço da Roça no intermitente Poti, uns acanhados reptéis, umas lúbricas sereias que lavavam roupa nas pedras baixas, uns mirrados piaus, algumas dentuças traíras ou um roliço cangati ovado sendo puxado pelo anzol de um paciente pescador e nada mais. Mas acho que tenho o direito de coibir esse tal de Oparin especular sobre a origem da vida.

Quem teve a felicidade de encantar-se nas margens do Poti, aprendendo com as graciosas garças, com os pacientes socós a fina arte da pescaria, passa a entender o porquê da água ser a origem da vida e é o princípio de todas as coisas, sem precisar de nenhuma teoria.

Somente quando percebemos que um poço tem seus caprichos e um rio transporta um mundo de fantasias é que revelamos as habilidades peculiares de grande arremessador de tarrafa. Como o Martin Pescador, do poeta pantaneiro Manoel de Barros, “quando, de repente, do alto da água, arregaça o cuzinho e solta sua isca de guspe. Peixe vai ver o que foi aquele guspe: antepara! De veloz arrojo Martim-pescador frecha na água, e num átimo sobe – O peixe atravessado no bico! As águas remansam e rezam. Esse martim-pescador é fela.”

Um povoamento que começou com uma denominação de peixe, Piranhas, é para ser mesmo bem desenvolvido na arte da pesca. Naturalmente, pelo seu imenso rio, a espinha dorsal da região, que desce da Serra da Joaninha como um fiozinho d'água e cresce impetuoso e rouco, um Itaimanssu que vai se revestindo no serpenteado Poti, sedento, a ingerir as águas dos inúmeros riachos, mas vai deixando, aqui e acolá, alguns poços repletos de peixes pelo sertão ou se desenvolvendo artificialmente, pelos inúmeros criatórios de piscicultura que se propalam pelos açudes da região.

Quando o açude da Água Branca foi abastecido com milhares e milhares de alevinos de tambaquis, um escamoso e arredondado peixe da Amazônia que adora comer frutas, rapidamente a semente transformou-se em fruto maduro e a partir daí foi uma festa para os pescadores. Uma linha grossa, de meio milímetro, equipada com um anzol do tamanho de um dedo médio era o suficiente para fisgá-lo. A goiaba partida ao meio era um petisco para o colossal pacu vermelho. Mas algo estava errado, todos com a mesma linha, o mesmo anzol, a mesma isca e somente Seu Felício, o filho do Compadre Caboclo, conseguia apanhar o peixe do tamanho de um bode e arrastá-lo para fora d’água. Alguém, sorrateiramente, se aproxima do felizardo pescador, descobre seu segredo e sai alardeando: – O Felício está é para morrer de fome, morde a metade da goiaba e coloca o resto como isca. Os outros pescadores matam a charada, observam que a faca que usavam ia deixando um azinhavre na fruta e o peixe a rejeitava. Em pouco tempo estavam todos comendo goiabas e pegando tambaquis a vontade.

Ali, por perto, havia outro convidativo açude, também semeado de peixes em abundância: tilápias, carpas, tambaqui, afora a gostosa curimatã de meio quilo cada, um lugar adequado para se pescar. O problema era que o dono sempre vigiava, madrugada adentro, numa oscilante canoa ancorada bem no meio do açude, equipado com colchonete de dormir, uma boa lanterna e um potente papo-amarelo do lado, quem se atreveria a ir pecar! O Fanhanhã foi!

Um exímio pescador, conhecedor de todos os mistérios da pesca. Aprendera com o paciente Socó-boi e o preciso Martim-pescador, dizem até que era filho de Ártemis, a deusa da caça e da pesca, e que era bem afeiçoado de São Pedro, o protetor dos pescadores.

A água do açude estava fria e serena por àquelas horas da madrugada, e como um aquático quelônio vagarosamente, sem muita pressa, para não perturbar a paz do ambiente, desliza sobre a superfície distribuindo dezenas de metros de fio de náilon em rede de pescar. Um pescador vive grande parte de seus dias numa individual solidão aprendendo a esperar e a melhor hora de pescar é do pôr-do-sol ao amanhecer, nem tão cedo que não haja luz bastante para a transparência da água nem tão tarde que a viração do dia abale a serenidade do aquático santuário. A despesca de um galão deve ser feita na tranquilidade do lar tomando um gostoso cafezinho quente, tendo a visão exata do que se pescou. O finório pescador ainda deixou uma mediana tilápia dentro da canoa, para o desenjum do raivoso papo-amarelo.

Agora vocês me dão licença, já chaga de tanta lorota por hoje que eu que vou colocar a minhoca n’água, na beira do rio Poti, pois toda pesca também se assemelha à poesia e como o fanfarrão Fanhanhã, também nasci pescador.

Raimundo Candido

quinta-feira, 22 de março de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a coluna com a verve do passado.

Ao abrir a sessão da Câmara Federal, quando ainda era sediada no Rio de Janeiro, o presidente Ranieri Mazzilli concedeu a palavra a Carlos Lacerda, então representante do Distrito Federal. Rápido e agressivo, o deputado Bocaiúva Cunha gritou ao microfone, sob os risos do plenário:

- Agora vocês vão ver o purgante!

Lacerda, num piscar de olhos, respondeu:

- Os senhores acabaram de ouvir o efeito!

Nem os adversários prenderam o riso.

Frentes abertas

Sob as glórias de 76% de aprovação popular, a presidente Dilma Rousseff quer inaugurar uma nova forma de governar. À sua imagem e semelhança. Impondo conceito, regras, formas, métodos. Será bem-sucedida. É possível. Na política, tudo é possível. Por conta de seu estilo, algumas frentes foram abertas contra o Governo. Vejamos.

I - A onda política

A nomeação de novos líderes do Governo para o Senado e Câmara é prerrogativa da presidente. Incontestável. Mas a cultura política aconselha que as nomeações deveriam ser precedidas de um sistema de consultas. Se houve consulta, não se sabe. Deve, isso sim, ter havido muita conversa de bastidor entre Dilma, Lula e um pequeno grupo de assessores. Resultado: a demissão do senador Jucá e do deputado Vaccarezza de seus postos para dar lugar ao senador Eduardo Braga e ao deputado Arlindo Chinaglia pegou de surpresa o mundaréu político. O PT mostrou-se rachado. E o PMDB, ferido. Para complicar, o PR do Senado saiu da base do governo. Os políticos não estão satisfeitos com o estilo rompante da ministra Ideli. Que, como se deduz, não dá um passo sem consultar a presidente. Forma-se uma onda no Congresso que poderá inundar os vãos e desvãos do Palácio do Planalto.

II - A onda empresarial

Os empresários, principalmente os integrantes do universo industrial, se queixam do processo de desindustrialização a que vem sendo submetido o país. De cada quatro produtos adquiridos no mercado brasileiro, um é chinês. O PIB industrial despenca. O chão de fábrica se estreita. Os empregos estão migrando da indústria para os setores de serviços. A insatisfação se expande. O governo promete medidas pontuais. Mas não age. Fábricas são fechadas. Polos têxteis, como o de São Paulo, enfraquecem. A mais poderosa Federação das Indústrias do país, a FIESP, toma a frente da movimentação. Dia 4 de abril fará um grande movimento em São Paulo, juntamente contra as Centrais Sindicais. As Centrais querem mobilizar cerca de 100 mil pessoas. Essa é mais uma poderosa frente contra a inércia do governo em relação à indústria.

III - A onda militar

A terceira frente contra o governo Dilma emerge na área militar. Mais exatamente, no refúgio dos militares aposentados. Que, agora de pijama, expressam um discurso de insatisfação/indignação contra as pretensões da Comissão da Verdade. O Ministério Público pretende resgatar a história dos desaparecidos. E quer que a Comissão da Verdade abra o véu do passado. Os militares sustentam o argumento de que a lei da anistia passou uma borracha no passado. Os desaparecidos foram dados como mortos. Como poderiam, agora, ser considerados vivos? Não é possível, segundo eles, restabelecer essa condição. Mas os nossos aposentados das Forças Armadas não têm forças, ou seja, armamentos. Ocorre que os verbos contundentes que expressam poderão criar fagulhas nos quartéis. Não se pode desprezar a insatisfação nesse meio.

IV - A onda sindical

A quarta frente contra o estilo Dilma de governar age no seio das Centrais Sindicais. Que se sentem desprestigiadas. Sem a intensa interlocução que possuíam na era Lula. Naqueles tempos, os líderes sindicais desfilavam quando queriam pelo Palácio do Planalto. Agora, só esporadicamente. Não dispõem mais das portas abertas do poder central. Lutam para fazer chegar à presidente seu clamor. Por isso, as Centrais Sindicais se juntam aos empresários industriais, insatisfeitos, para adensar o bolsão de contrariedade contra o governo. Farão movimentação por todo o país, a partir de uma grande passeata, em São Paulo, dia 4 de abril.

V - A onda cultural

Há, ainda, uma frente contra o Governo, mais exatamente contra uma ministra do governo Dilma, Ana de Hollanda. A classe artística pede sua substituição. As manifestações pedindo a mudança da ministra se expandiram, recentemente, a partir da informação de que o Ministério da Cultura advogou em favor do ECAD (escritório de arrecadação e distribuição de direitos) em um processo no qual a instituição autoral é acusada de cartelização e gestão fraudulenta. O processo está em julgamento no Conselho de Administrativo de Defesa Econômica.

VI - A onda internacional

Há certo acirramento de ânimo entre o Brasil e alguns países. Na última viagem da presidente Dilma à Europa, ela fez sérias críticas à política monetária expansionista dos países europeus, que produz efeitos nocivos por desvalorizar de forma artificial as moedas. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, em tom crítico, respondeu com o argumento de que o Brasil exerce políticas protecionistas muito duras. A posição do Brasil em relação à ditadura síria e ao Irã também é motivo de críticas.

Mineirinhas

Frases de Augusto Zenun, de Campestre, sul de Minas - político, industrial, filósofo e, antes de tudo, udenista ortodoxo da linha bilaqueana (Bilac Pinto, o Bilacão, seu dileto amigo). Sempre infernou a vida de seus adversários, com as suas atitudes destemidas e sua natural mineirice.

"Quando estamos no governo, todo adversário que quer se encaixar, diz ser técnico".

"O preço do voto de um eleitor mentiroso é sempre o mais caro".

"Há um fato na política que a torna bastante interessante: o choque dos falsos políticos com os políticos falsos".

"Político é dividido em duas partes. Uma trabalha para ser eleito. A outra trabalha para conseguir um cargo público se for derrotado".

"Muita campanha eleitoral se parece com sauna: depois do calorão vem uma ducha fria". (Pinçadas de A Mineirice, de José Flávio Abelha)

Riscos

Não existe política sem riscos; o problema é de limites.

22% de insumos importados

Um dado revelador: 22,4% dos insumos utilizados por fabricantes brasileiros, no ano passado, foram importados. O maior patamar da série histórica iniciada desde 1996.

Uma frente por vez

Lição geral da política: ataque um inimigo por vez. Cuidado quando entrar na arena de guerra. Se você tem muitos adversários, poderá perder o foco.

Velhas lições

As lições de táticas e estratégias dos clássicos da política e das guerras parecem não merecer nenhuma consideração por parte de nossa presidente. Lembremos pequenos conselhos de Sun Tzu:

a) "Quando em região difícil, não acampe. Em regiões onde se cruzam boas estradas, una-se aos seus aliados. Não se demore em posições perigosamente isoladas. Em situação de cerco, deve recorrer a estratagemas. Numa posição desesperada, deve lutar. Há estradas que não devem ser percorridas e cidades que não devem ser sitiadas".

b) "Não marche, a não ser que veja alguma vantagem; não use suas tropas, a menos que haja alguma coisa a ser ganha; não lute, a menos que a posição seja crítica. Nenhum dirigente deve colocar tropas em campo apenas para satisfazer seu humor; nenhum general deve travar uma batalha apenas para se vangloriar. A ira pode, no devido tempo, transformar-se em alegria; o aborrecimento pode ser seguido de contentamento. Porém, um reino que tenha sido destruído jamais poderá tornar a existir, nem os mortos podem ser ressuscitados".

Não perder o controle

Lembro mais esses dois princípios:

- Nunca descuide da perda de controle sobre o processo de governo, se a governabilidade cai abaixo de seu ponto crítico;

- Se isso ocorrer, tente imediatamente reverter o processo de desacumulação de força, evitando ingressar nos limites de perda de capacidade de reverter o processo.

Serra nas prévias

No próximo domingo, ocorrerão as prévias tucanas para escolha do candidato do PDSB à prefeitura de São Paulo. Claro, José Serra será eleito. Apesar de José Aníbal garantir que ele ganhará essa pequena eleição. Serra será o candidato. Ganhará as eleições? Perspectivas: tem competitividade; poderá polarizar a campanha; ir para o segundo turno. E a rejeição? Se for muito alta, na margem dos 30%, babau. Perderá. Se conseguir baixar para a casa dos 15%, terá condições de chegar ao topo.

30% do PT

Fernando Haddad, candidato do PT, chegará aos 30% de intenção de voto. Essa é a margem histórica do PT. Lula carregando seu pupilo nas costas terá condição, sim, de elevar essa margem.

PR na oposição?

Onda. Não vejo PR na oposição. Coisa de momento. Crise de nervos. Passa com qualquer calmante. Um cargo melhor aqui, um Ministério acolá. Nada que possa mudar a índole governista do partido.

A união do PMDB

Deputados e senadores do PMDB serão convocados para refletir sobre a equação: a unidade partidária é a porta do futuro. Quanto mais unidos, mais larga será a porta. A recíproca é verdadeira.

PT e PSB

Eduardo Campos continua a tricotar sua roupa para desfilar em 2014. Mas o PT e o PSB começam a brigar em algumas capitais. Em João Pessoa, o PT quer lançar candidato próprio, quebrando a aliança com o PSB do governador Ricardo Coutinho. Em São Paulo, avançam as negociações em torno de uma aliança entre PSDB e PSB. Em Fortaleza, também será possível que o PSB lance candidato próprio, rompendo a parceria com o PT da prefeita Luizianne Lins.

65% de conteúdo local

A nova presidente da Petrobras, Graça Foster, promete que a indústria nacional de serviços de petróleo usará 65% de conteúdo local. Ou seja, para cumprir a meta de buscar óleo nas camadas de pré-sal, a empresa investirá muito dinheiro. Seu programa de investimentos é da ordem de US$ 225 bilhões em 5 anos. As compras locais fazem parte da política de fortalecimento da indústria nacional. Trata-se, segundo ela, de "requisito básico da Nação e da Petrobras".

Rumores

Sobre rumores de crise ministerial, face a demissão do Ministro Clemente Mariani, da Fazenda, Jânio Quadros dirigiu um bilhete ao seu secretário particular José Aparecido de Oliveira:

"Aparecido:

Leio num jornal que o Ministério está em crise...

Veja se localiza para mim.

Leio, também, que recebi, da Fazenda, um bilhete enérgico.

Desminta. O ministro é educado bastante, para não o escrever ao presidente.

E o presidente não é educado bastante, para recebê-lo...

Assinado - Jânio Quadros

09/08/1961". (Historinha contada pelo escritor e jornalista amigo Nelson Valente em seu livro sobre Jânio Quadros)

Conselho aos novos líderes do Governo

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos novos líderes. Hoje, sua atenção se volta aos novos líderes do governo no Senado e na Câmara, respectivamente, senador Eduardo Braga e deputado Arlindo Chinaglia:

1. Na política, nem sempre a menor distância entre dois pontos é uma reta, como na geometria euclidiana. Portanto, procurem fazer também algumas curvas. Ou seja, não queiram andar apenas nas retas da política. Sob pena de tropeçarem.

2. Significa que deverão anotar as demandas de parlamentares e partidos. E implementar, pontualmente, tais demandas sob pena de um alto preço a pagar, mais adiante.

3. Os novos líderes precisam se lembrar que a imposição de uma nova modelagem na esfera da gestão e articulação política implica combinação/acordo com as partes envolvidas no processo.

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(Gaudêncio Torquato)

quarta-feira, 21 de março de 2012

OBSERVATÓRIO



Os cinemas brasileiros estão exibindo o filme A DAMA DE FERRO, que narra a história de Margareth Thatcher, a primeira mulher a assumir o cargo de primeira-ministra na Grã-Bretanha, durante um período de grande turbulência social. No ano de 1979, quando assumiu, a Europa se encontrava em um período de recessão econômica, elevadas taxas de inflação, altos índices de desempregos e uma quase incontornável crise petrolífera. Buscou colocar em prática aquilo que disse sobre o nosso País: “Parece-me bem claro que o Brasil não teve ainda um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional. Bastaria um período assim, acompanhado da verdadeira liberdade empresarial, para que o país se tornasse realmente próspero”.

CRATEÚS

Mutatis mutandis – mudando o que tem de ser mudado – e guardadas as imprescindíveis proporções, a conjuntura atual por que passa o município de Crateús guarda semelhança com um quadro de crise: queixas em todos os setores. No entanto, antes de realizar uma avaliação profunda e delinear rumos para solução dos nossos desafios estratégicos, a grande maioria dos dirigentes partidários (tanto da situação quanto da oposição) está ávida para discutir nomes, pré-candidatos – como se uma vitória eleitoral resolvesse os dilemas. Ora, os enormes problemas que assolam o município, em especial nas áreas vitais da Administração e que afetam diretamente a vida dos cidadãos, reclamam um olhar mais sério e uma análise mais profunda. Bem acima das vaidades pessoais.

O EIXO DA CAMPANHA

A campanha que se avizinha revela-se um terreno fértil para o lançamento das sementes da sinceridade: o município precisa se preparar para realizar uma intervenção cirúrgica que exigirá o empenho e a colaboração de todos. As principais mazelas que assolam a vida pública (o fisiologismo, o clientelismo, o nepotismo dentre outros) precisam ser eliminadas. Não adianta depositar a esperança dessa renovação em uma pessoa. Mas é óbvio que o nome a ser escolhido precisa preencher os requisitos que indiquem essa possibilidade. Tem que preencher o perfil adequado. Celebrar em praça pública compromissos claros e simples. Não prometer o céu na terra. Dizer sem rodeios que vai cortar na própria pele, reduzir gorduras, eliminar privilégios, confrontar interesses poderosos, sanear as finanças. E que isto exigirá compreensão e sacrifício.

NOMES

O quadro eleitoral indica que teremos quatro candidaturas: a do PV, a do PSOL, a da situação e a das Oposições Unidas (PMDB, PSDB, DEM, PTB, PDT, PSD, PPS, PHS, PSL, PMN e PRTB). O PV já definiu que o nome é o de João Coelho Soriano, o Maçaroca. O PSOL discute nomes como Alexandre Maia, Paulo Giovane ou Adriana Calaça. O Prefeito Carlos Felipe está indeciso quanto a postular uma reeleição. Disse que tem dois obstáculos a transpor. Anunciou que vai sondar o apelo popular em torno de quatro possíveis candidatos: o vice, Mauro Soares, o Secretário Elder Leitão, o empresário Gerardo Teles e o Deputado Pierre Aguiar. Nesse quarteto, se prevalecer a pressão da cúpula do PCdoB – que deseja manter um dos seus quadros – o nome mais cotado é o de Pierre.

NOMES II

Na oposição há uma profusão de nomes: dezesseis! Sábado passado a Comissão Coordenadora das Oposições Unidas divulgou uma Nota em que assenta duas ações imediatas: 1. Elaboração de um Programa de Governo para a próxima gestão; 2. Definição de critérios para escolha do candidato do grupo e que irá colocar em prática esse Programa de Governo. Deliberou por coletar opiniões e sugestões da comunidade para a elaboração desse plano, realizando o Seminário PLANEJA CRATEÚS no próximo dia 31 de março, a partir das 8:00 hs da manhã, no auditório do CREA, na rua Auton Aragão, 505. Com isso, fica patente que o candidato só será oficializado no mês de abril.

PREOCUPAÇÃO

Prefeitos, cuidado! Muito cuidado! Este é o último ano do atual mandato. Todos os gestores deverão concentrar seus esforços em cumprir a legislação. Há um conjunto de normas (nas áreas eleitoral, administrativa, penal, financeira e fiscal) que obrigam os Agentes Públicos no período das eleições e no último ano de mandato. É vedado, por exemplo, gastar com publicidade acima da média dos últimos três anos, aumentar a dívida do município, usar a máquina em benefício de determinada candidatura, deixar restos a pagar sem o respectivo lastro financeiro, realizar shows artísticos nos três meses que antecedem o pleito, contratar operação de crédito por antecipação da receita etc. Antigamente, ter o comando da Prefeitura em período eleitoral era motivo de euforia e quase certeza de vitória. Hoje é motivo de grande preocupação. Os Agentes Políticos (Prefeitos e Secretários) têm que pisar em ovos...

PARA REFLETIR

“Se as coisas são inatingíveis...ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!”

(Mário Quintana)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

NENEN FRANCELINO

Se tivéssemos que extrair, do imenso e singular painel da vegetação nordestina, uma bandeira para homenagear a radiosa teimosia, a valente esperança, a gratuita hospitalidade, o horizontal sorriso do homem sertanejo, certamente esse estandarte atenderia por uma sagrada madeira chamada Juazeiro.

O nome Juazeiro, fruto de um matrimônio silábico do Tupi com o Português - "juá" ou "iu-á" (fruto de espinho) e o sufixo "eiro" – bem traduz o efeito da nossa “Invenção do Mar”, o achamento brasileiro e sua conseqüente miscigenação.

A mais voluptuosa mancha de solo do município de Crateús repousa no distrito de Monte Nebo, no calcanhar da Serra da Ibiapaba, que limita o Ceará com o Piauí. Nesse distrito pujante há uma localidade chamada Juazeiro. Ali nasceu, em 12 de fevereiro de 1932, um cidadão encomendado para se aparentar com a nossa árvore símbolo: Francisco Fernandes Sales, o Nenen Francelino, filho de José Francelino Sales e Maria Fernandes de Oliveira.

O Nenen Francelino, que recentemente recebeu os amigos para celebrar as oito décadas de vida, é um permanente som de viola tinindo um louvor à simplicidade da vida. Lembra um autêntico mourão voltado, aquela forma de cantoria tradicional apreciada pelo homem do campo nas noites enluaradas. Sua história é uma chuva de estrofes concatenadas com o povo que apreciou e representou. Fez da lida um verso dialogado, sempre obedecendo à rima que o outro escolheu.

Ao lado da esposa, Maria de Fátima Moreira Sales, dos filhos James Moreira Sales, Jane Moreira Sales e José Fernandes Sales Moreira Neto, Nenen Francelino se mantém renovado como o solo que o gerou ao receber os primeiros fios celestes.

Fiel às origens, deitou raízes na região em que nasceu. Como agricultor aprendeu que nossa passagem pelo roçado da vida é sempre uma prosa entre plantar e colher. E invariavelmente colhemos o que plantamos. Por isso optou por espalhar sementes de bem-aventuranças, caroços de ajuda, grãos de doação ao semelhante. Trabalhou com tranqüilidade a fecundação do óvulo da pacificação. Exerceu, durante trinta anos, a missão de Juiz de Paz na região.

A gente humilde da sua terra, identificando nele um apóstolo da causa pública, alguém capaz de “ver” a “dor” dos eleitores camponeses, o elegeu Vereador por quatro legislaturas.

Na primeira vez em que tomou assento no Parlamento Mirim de Crateús não recebia remuneração. Aqueles eram bons tempos. Tempos de políticos vocacionados. Tempos em que a fama de um homem público era construída por sobre a rocha da coerência. Com a argamassa da capacidade de ser firme e leal. De honrar a palavra empenhada. De ser inquebrantável no cumprimento dos compromissos. Duro como os troncos das velhas árvores. Bons tempos aqueles...

Tua biografia, Nenen, é um convite à reflexão. Para que estamos em cima deste chão? Certamente, para no alimento por o sal, servir o próximo de coração, acorrentar o mau e espalhar gratidão. Eis o teu recado. Isso é que é mourão voltado. Isso é que é voltar mourão!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste e na Revista Gente de Ação)

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Caro Junior,

Cumprimento-o pelo artigo sobre o meu bom amigo Nenen Francelino.

Tantas vezes fui recebido na casa dele lá no Juazeiro, sempre com o sorriso no rosto e em busca de melhoria para o seu povo.

O seu registro resgata a história do Nenen, político que sempre trabalhou em prol do povo daquela região.

Sergio Moraes

terça-feira, 20 de março de 2012

AMANHÃ É DIA DE MAIS UMA EDIÇÃO DO JORNAL GAZETA DO CENTRO OESTE

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

O pior já passou? (I)

O título desta nota é uma das perguntas mais repetidas em tempos de crise, especialmente quando se trata de uma crise de proporções equivalentes à de 1929. Há quem seja capaz de dar uma resposta clara em meio ao cenário obscuro que se desfralda perante os olhos do analista. De nossa parte, preferimos repisar alguns aspectos já abordados difusamente nos últimos meses. Vejamos:

1. A crise de crédito iniciada em meados do terceiro trimestre de 2008 ainda produzirá efeitos por mais alguns anos. Um montante enorme de capital foi "queimado", o que reduz a capacidade do sistema financeiro privado financiar o consumo e o investimento;

2. A perda de capital do sistema financeiro privado se transformou numa crise fiscal de Estados de vez que recursos públicos foram utilizados para resgatar, mesmo que imperfeitamente, o sistema privado. Assim...

3. A capacidade de consumo e investimento público também estão limitados, o que limita a criação de emprego via dispêndios públicos;

4. As taxa de desemprego das economias centrais devem permanecer elevadas por alguns anos, até que a produtividade (mais produção com o mesmo quantum de fatores de produção) cresça. O efeito é que o consumo está estagnado;

5. Faltam lideranças políticas capazes de mudar as expectativas dos agentes e, com efeito, alterar a debilitada confiança de consumidores e investidores;

6. Não houve alteração significativa na forma de operar dos mercados. Os reguladores não conseguiram alterar politicamente e de forma significativa os riscos sistêmicos relacionados à má alocação de recursos, sobretudo no que tange à especulação;

7. O preço do petróleo, bem acima de US$ 100/barril, retira ainda mais o poder de compra dos consumidores dos países centrais.

O pior já passou? (II)

Em larga medida os fatores de risco acima mencionados continuam presentes no cenário mundial e estão ainda a espalhar seus efeitos, desta feita sobre os países menos desenvolvidos (ou emergentes) dentre os quais o Brasil, a China e a Índia. Estes últimos começam a dar sinais de que vão crescer menos do que se projetava há poucos meses, sobretudo a China, que ainda cresce muito, mas bem menos (para os padrões chineses) quando se analisam os últimos trimestres em relação aos imediatamente anteriores. Paradoxalmente, é possível, e até mesmo provável, que os ativos reais e financeiros dos países mais implicados com a crise se valorizem. Isso se deve não propriamente em função de uma mudança estrutural nos frágeis fundamentos, mas em função da queda do risco espelhado na volatilidade dos mercados. Cai o risco, sobem os preços. É este fenômeno que estamos a identificar nos diversos segmentos do mercado acionário norte-americano, especialmente o de empresas tecnológicas (NASDAQ). No caso dos EUA, há tênues sinais de recuperação, mesmo que não sejam ainda seguramente promissores. Assim sendo, a nossa melhor visão indica que se esta calmaria atual permanecer mais algum tempo, o valor dos ativos vai subir ainda mais. Não é o caso de se desprezar os significativos riscos. Todavia, não é o caso de majorá-los.

O pior já passou? (III)

Na opinião da diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, já está passando sim. Embora alertando que há ainda muito o que fazer, ela percebe "os mercados financeiros estão mais calmos e os indicadores recentes sugerem um pequeno ímpeto na atividade econômica, basicamente nos Estados Unidos" e que "existem sinais de que as fortes ações de política econômica - especialmente na Europa - estão fazendo a diferença".

O BC: mais transparente e menos soberano

O anúncio da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do BC deixou ao mercado o entendimento de que a taxa básica de juros cai para o patamar de 9% e por aí fica por um bom tempo. Há quem critique o BC por esta linguagem "surpreendente". A nosso ver não há propriamente uma "surpresa". A mudança da linguagem da autoridade monetária, mais transparente e previsível, chega em boa hora. O futuro não é tão opaco desde 1929 e os BCs de todo o mundo têm procurado demonstrar que estão mais ocupados com a recessão que com a inflação. Para isto tem inovado na linguagem abandonando as frases mais tradicionais de seus informes. O Brasil segue esta linha e está correto. O que nos parece mais preocupante é que esta positiva mudança vem acompanhada por uma desconfiança crescente de que a soberania operacional do BC está mais reduzida. O governo parece interessado em dar as cartas na política monetária e isto não é institucionalmente interessante, sobretudo quando os problemas estruturais da economia brasileira estão se multiplicando e contaminando as expectativas dos agentes ansiosos por investir. O governo precisa mostrar que está operando para minorar os riscos macro e microeconômicos da economia brasileira, sem retirar da autoridade monetária a necessária soberania operacional para agir em favor do real. A bola esta com o Planalto e não com o BC.

E a caderneta de poupança?

Ou o governo propõe uma mudança em relação à remuneração da caderneta de poupança ou a política monetária do BC ficará limitada no que se refere à redução dos juros. Dificilmente isto ocorrerá nestes meses pré-eleição, mas esta questão é urgente e necessária.

O rumo do câmbio

É certo que o governo tem um "arsenal" para tentar controlar a valorizada taxa de câmbio. Isto não significa que as medidas combinadas com vistas a este objetivo vão funcionar bem, sobretudo porque os efeitos são bem elásticos, seja sobre o mercado financeiro, seja sobre a economia real. O maior risco de todos, a nosso ver, é que uma queda mais forte dos preços das commodities possa desvalorizar mais velozmente o real. Neste caso, podemos ter o recrudescimento da inflação e os consequentes efeitos sobre a taxa de juros. E o tal do "arsenal" pode ser inútil e o BC talvez tenha de mudar sua postura de acomodação monetária mais rapidamente. É lógico que estamos falando de uma hipótese ainda não muito visível, mas o governo deveria examinar esta possibilidade para fins de estabelecer políticas macroeconômicas que evitem riscos exacerbados.

A gerente e o seu perfil político

Ao que parece a presidente gostaria de projetar para o seu imenso eleitorado a imagem de "gerente" em detrimento da de "líder política". O noticiário carregado de informações que dão conta de atrasos significativos no cronograma de obras indica que o perfil tecnocrático pretendido pelos viventes palacianos de Brasília está distorcido e pode contaminar o eleitorado mais à frente. Como as coisas não vão bem também na arena política, há perda de identidade por parte da presidente. Apesar disso, Dilma goza de invejável taxa de aprovação popular por conta do "bom desempenho econômico". O fato é que a taxa de emprego está menos exuberante e os ganhos de renda andam caindo. A paciência popular pode tomar o sentido contrário e resvalar na popularidade presidencial. O governo talvez esteja exagerando na crença de que são imbatíveis. Mas enquanto o amparo popular bafejar a presidente, a rebeldia de seus aliados - entre os rebeldes inclua-se parte do PT - será limitada.

Dilma em seus labirintos

Segundo tese que as fontes oficiais fazem questão de alimentar, a mais recente crise política que Dilma está enfrentando com seus parceiros é uma "crise da política" (ou dos partidos), sem maiores consequências. Coisa de estômagos ávidos e mau atendidos. Não é bem assim, porém, no mundo real, embora a dose de fisiologismo esteja na origem das rebeliões contra a presidente. Tudo isso gera prejuízos sim, imediatos e de longo prazo:

1. A necessidade de nomear gente não qualificada para cargos no Executivo e de manter ministérios e órgãos e secretarias inúteis torna o governo mais ineficiente ainda do que qualquer governo normalmente já é e encarece seu custo para a sociedade.

2. Por causa desses desarranjos, o governo já desistiu de levar adiante qualquer uma das reformas estruturais que dariam mais segurança à economia nacional. A reforma tributária se restringirá, se ocorrer, apenas ao fim da guerra do ICMS entre os Estados; a reforma política dorme em berço esplêndido; a previdenciária vai se resumir à criação do fundo de aposentadoria dos servidores federais; a trabalhista e sindical a presidente acaba de descartar em conversa semana passada com líderes sindicais. E assim por diante.

3. A ANTT já está parada, por falta de quorum em sua diretoria para tomar decisões colegiadas.

4. Dificilmente será votado antes de julho o Código Florestal.

5. As novas regras de distribuição dos royalties do petróleo continuam suspensas, com prejuízos para os Estados e municípios que reivindicam parte desses recursos e atrasos na licitação de novas áreas para exploração.

O fisiologismo e a articulação política, ao contrário do senso comum, tem um custo elevadíssimo, não são para serem tratadas como "coisas da politiquinha".

Não é dela apenas

A crise que Dilma vem enfrentado praticamente desde que tomou posse, em intervalos cada vez menores entre um episódio e outro, não é uma crise do governo Dilma somente, embora a situação se agrave pelo estilo da presidente. É uma crise do "sistema político" de partilha do poder com um carrilhão de partidos. A presidente pode até mudar isso. O problema é que...

...Dilma é de choque

Dilma parece não admitir ser contrariada. Lula também não. Que o diga o senador Eduardo Suplicy, no index lulista desde que ousou disputar as prévias presenciais petistas com o ex-presidente em 2002. Só que Lula tinha jogo de cintura elástico, sabia como poucos usar o bambolê da política. Como se diz popularmente, fazia com a arte do limão uma limonada. Dilma até agora só mostrou que é capaz de fazer da limonada um limão. Carrega ressentimentos e os expõe, às vezes com truculência, como se deu agora na demissão dos líderes. Mantém ministros sob permanente tensão, com cenas de humilhação diante de terceiros. Está colhendo os azedumes que espalha.

Líderes sem liderança?

Eduardo Braga (Senado) e Arlindo Chinaglia (Câmara) vão ter de esforçar muito para confirmarem na prática a liderança que Dilma lhes entregou. Nenhum dos dois é conhecido por sua habilidade política, ambos costumam ser ásperos e ríspidos, ao contrário de seus antecessores, Romero Jucá e Cândido Vaccarezza. Mas Dilma não levou para casa o desaforo da derrota de Bernardo Figueiredo (ANTT) no Senado nem as conversas de Vaccarezza com os ruralistas para tentar mudar o texto do Código Florestal aprovado pelo Senado. Deu o rompante e até terá de segurar a ventania. Ontem, segunda-feira, ela já se meteu diretamente nas negociações para a aprovação da Lei Geral da Copa, ação que até agora evitava fazer. Vai ter se se meter cada vez mais.

Em fogo brando

Piora a situação o fato de a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, por culpa de seu estilo não raras vezes grosseiro, não estar mais nas graças de seus liderados. Ideli está sendo cozinhada em banho-maria por gente de diferentes partidos. Se não mudar, o óleo pode ferver e vai ser outra enxaqueca para Dilma.

Eduardo tropeça

Não foi muito feliz o senador Eduardo Braga em algumas de suas primeiras declarações como novo líder do governo no Senado, ao dizer coisas como, por exemplo, "a política do 'toma lá, dá cá' está no passado" e "os partidos terão direito de indicar, mas dentro de um novo contexto". Primeiro, é confessar que esta prática era normal, o que a presidente sempre fez questão de negar. Segundo, porque vai irritar os parceiros, que também detestam se apontados publicamente como fisiológicos. E terceiro, porque não é real: um governo que acaba de nomear o senador Marcelo Crivella para o inútil ministério da Pesca e se prepara para recolocar o PDT no ministério do Trabalho única e exclusivamente para adular aliados, não está mudando nada. E os aliados tanto sabem disso que vão continuar chiando e levando. O novo slogan do franciscanismo político pode até ser este: "É chiando (ou chantageando) que se recebe".

Este sabe o certo

Veja-se o PMDB nesta história: está amuado, mas ficou quietinho, pois sabe que as mudanças vieram para tudo permanecer como está. O PMDB teme mesmo é que tentem lhe "roubar" a presidência da Câmara (e até a do Senado) em 2013 e a vice-presidência da República em 2014.

Troco na agulha

Para lembrar a presidente Dilma de que ele existe, é forte e merece ser bem tratado, o PMDB já prepara uma armadilha para o Palácio do Planalto: escolhido por Renan Calheiros para relatar o Orçamento da União de 2013 no mesmo dia em que foi escorraçado a liderança do governo no Senado, Romero Jucá estuda a possibilidade de tornar as normas do orçamento impositivas e não apenas autorizativas. Hoje, pela lei, o governo é "autorizado" a gastar tanto em tais lugares. Não está obrigado. Se o Orçamento virar impositivo, ele terá de cumpri-lo rigorosamente. Uma camisa de força para a gestão da economia. E um possível desastre pela forma pouco séria como o Congresso trata do assunto. Mas o PMDB sabe como pouco criar o perigo para depois salvar a "mocinha".

Haddad na UTI

Lula não terá muito tempo de sossego quando for liberado pelos médicos até o fim desse mês. A candidatura do ex-ministro Fernando Haddad à prefeitura de SP inspira sérios cuidados. E somente Lula, com muito esforço, pode tirá-la da UTI. Baixou o desânimo em uma parte dos petistas. E há petistas com indisfarçável sorriso de vingança, com cara de "eu não avisei". Para mal de todos os pecados do ex-ministro, seu substituto na Educação, Aloizio Mercadante, sem querer ou querendo, está "desconstruindo" sua gestão aos poucos.

Depois é que serão elas

Tudo indica que Serra levará as prévias do PSDB paulistano neste domingo, contra os seus dois contendores na disputa, o deputado Ricardo Trípoli e o secretário estadual José Aníbal. Mas o processo todo, até pela ação tortuosa de Serra, deixará sequelas. E Serra nunca foi bom aparador de arestas. Pelo contrário.


(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 19 de março de 2012

MEU BOM JOSÉ

Tomara que chova hoje,

Em meu querido rincão

Quero fartura de milho,

Pras bandas do meu sertão.

Apostando em São José

O santo que tenho fé.

Vou fazer minha oração.

*

Meu querido São José,

Mande chuva de verdade

Pra nascer milho na roça,

De mim tenha piedade!

Quero pular a fogueira,

Comer milho e macaxeira,

Quero matar a saudade.

*

Dalinha Catunda

domingo, 18 de março de 2012

SERRA DO LUAR




Amor, vim te buscar
Em pensamento
Cheguei agora no vento
Amor, não chora de sofrimento
Cheguei agora no vento
Eu só voltei prá te contar
Viajei...Fui prá Serra do Luar
Eu mergulhei...Ah!!!Eu quis voar
Agora vem, vem prá terra descansar

Viver é afinar o instrumento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

Amor, vim te buscar
Em pensamento
Cheguei agora no vento
Amor, não chora de sofrimento
Cheguei agora no vento
Eu só voltei prá te contar
Viajei...Fui prá Serra do Luar
Eu mergulhei...Ah!!!Eu quis voar
Agora vem, vem prá terra descançar

Viver é afinar o instrumento (de dentro)
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo
Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro
A toda hora, todo momento
De dentro prá fora
De fora prá dentro

Autor: Walter Franco
Voz: Leila Pinheiro

sexta-feira, 16 de março de 2012

CAÇA


Quando o desenhista Jean-Baptiste Debret, um pintor devotado em homenagear Napoleão (Naipolloné como o chamavam seus compatriotas), aceitou o convite da Coroa Portuguesa para vir lecionar pintura na Academia de Artes e Oficio do Rio de Janeiro, em 1816, na certa já imaginava a diversidade incomum e exótica da paisagem do novo mundo para os seus ávidos e destros pincéis. Foram tantos os quadros que revelaram o cotidiano de um Brasil Colônia, que sua obra “Viagem Pitoresca” converteu-se num importante livro histórico. Há um belíssimo quadro em que um índio deitado de costa exibe uma extrema habilidade no manejo do arco e se faz acompanhar de dois outros nativos que espreitam um bando de patos voando em sua direção. É a figurinha predileta que ornamentava o famoso livro Exame de Admissão que muito estimulou o interesse dos estudantes pelos encantos da natureza.

Desde a pré-história, a luta pela sobrevivência induzia à caça. Do indígena com arco e flecha ao humilde caboclo com uma rústica espingarda de ouvido, a velha soca-soca, que a atividade da caça virou uma refinada arte e uma impreterível necessidade. A intervenção de um mito que habitava o mato, o Caipora, se fez necessário para controlar a situação e foi com certeza o primeiro empregado do IBAMA. Indispensável também era depositar uns farelos de fumo de corda no tronco de uma árvore e ainda contar com ajuda da sorte, pois o travesso negrinho montado num dentuço porco-do-mato era traiçoeiro e afugentava as caças despistando o caçador com estalos de galhos e simulando o ruído dos animais em fuga.

Um poeta e grande caçador, chamado Patativa cantou: ”Eu vou caçando/ a minha vida levando/ com meus cachorros fie,/ com eles nada me imbaraça,/ só não mato muita caça/ quando o caipora não quer.// É quem a caça defende/ e quando o caipora entende/ dos cachorros trapaiá/ o mato fica esquisito/ e o caçador fica aflito/ não mata nem um preá”.

O Curupira, esse estranho ser que tem os calcanhares voltados para frente, acabou vencendo a todos os caçadores!

Hoje, ouço a Sariema soltar sua gostosa gargalhada, quase nas portas da cidade sem o temor das flechas com ponta de osso ou do atordoante estampido da pólvora, que a fazia disparar em desenfreada carreira.

Outrora era comum o karati instalar-se num tosco jirau, entre os troncos das Aroeiras, feito cama de varas, só para espreitar a chegada dos animais no bebedouro. Do seu posto de observação arremessava flechas certeiras nas cutias, nas jaguatiricas, nos porcos-do-mato que se exibiam aos bandos, em marcha ligeira.

Quem passa pelas proximidades do Bar do Chico Correia, já na saída para o Curral Velho dos Poetas, avista Seu Aluísio Cavalcante, tolhido, sentado numa cadeira posta na calçada, pelo resultado de uma inesperada trombose, e nem imagina o fino caçador que fora um dia. Dizem que era protegido de Oxossi, o Orixá da caça. Ao embrenhar-se na mata já fazia parte dela, só se ouvia os estampidos de sua espingarda e ninguém, nem homem nem bicho, via sequer um vulto de um caçador, pela astúcia, pela sutileza e pelo jeito ardiloso de caçar. Numa caminhada, por uma região propícia, trazia rapidamente duas dúzias de saborosas codornizes, aí era só entregar nas casas que lhe solicitaram a incumbência.

Outro que não ficava muito atrás era o Quidé, um morador do bairro dos Patriarcas, caçador de olhos, ouvidos e faro apuradíssimos nesta milenar arte de Ártemis. Conhecia todos os segredos para uma caçada eficiente, camuflando-se na mata que nem camaleão. A ardilosa Nambu, a elegante Asa Branca, as tumultuosas Avoantes ou as preferidas Codornizes, ele ia buscar era ao meio dia de um sol escaldante, quando estavam serenamente malhando debaixo de uma moita.

Numa época, um pássaro malvado que come até cobra queimada, estava dizimando os recém nascidos borregos na Fazenda São Francisco. Os criadores diziam assim: Em céu de gavião, pinto não pia e cabrito não berra! Convocaram então o Quidé para caçar à vontade na região, contando que eliminasse àqueles que possuem mais coragem que o homem, os famigerados Carcarás. Por um contrato verbal, cada predador eliminado era um saboroso queijo que o caçador levava para casa. Aproveitou então a ocasião e construiu uma forja na beira de um grande açude no qual as aves iam beber, ficou camuflado pela água, por galhos e pelas folhas sobre a cabeça. Foi só recolhendo, rapidamente, com as duas mãos, uma centena de sedentas avoantes.

Um dos grandes espetáculos da natureza é um bando de marrecas viuvinhas fazendo uma barulhenta revoada sobre as chamas amarradas na beira da lagoa, é sem dúvida a mais clássica de todas as caçadas. Em baixo sobre as pedras, insistentemente, as duas chamas, a lavandeira e o rabo curto – todas as chamas tem um nome – esgoelavam-se num I-re rê, i-re-rê, i-re-rê contínuo. E lá de cima o bando todo grasna, respondendo ao chamado, sem perceber o perigo que lhes aguarda na descida. Desfazem aquele belíssimo V de vitoria que sempre nos emociona nos textos de auto-ajuda, e sucumbem ao engodo deslizando pelo ar, com suas asas tremeluzendo à luz da lua, para uma chuvarada de chumbo e o desesperado encontro com a morte.

Neste momento tomei conhecimento que o Tatu-bola virou Herói Nacional. Pasmado ainda estou, pois o matutão, o bobão achou que um dia aquela couraça conversível iria lhe salvar. Ele está mais é para um mártir santo em acreditar que estaria livre de seus atrozes inimigos, pois se esqueceu do pior deles: o homem. Naquele dia, havia dois cachorros latindo e correndo desesperados pela solta de catingueira, numa noite sem lua e uns destemidos caçadores de primeira viagem levando nos ombros enxadas, picaretas, foices, e lanternas, pulando cercas de um campo aberto, em que os carrapichos disputavam espaço com as jitiranas e as moitas de pega-pinto que rasgavam as roupas e os braços dos incautos aventureiros. No local em que os cachorros acuavam havia um razoável buraco, cavou-se até o amanhecer e tenho a leve impressão de que os pebas que moravam ali ainda riem dos bisonhos caçadores, mas pensei cá com meus botões, se fosse o inocente do bola...

O tolypeutes tricinctus está confirmado como o Mascote Oficial da Copa do Mundo de 2014, numa belíssima homenagem da Associação Caatinga da Serra das Almas, pois mesmo em fase de extinção, os que restaram e perambulam por esse imenso sertão de Crateús ainda pensam que o mundo é uma bolota e acho que por isso a Fifa o escolheu.

Agora que todos os olhos do planeta Terra estão direcionados para a Mata Branca deste nosso imenso sertão, devemos pensar duas vezes se formos cortar uns gravetos para acender o fogão a lenha ou se desejarmos uma saborosa avoante assada, nem pense mais em ofertar uma tora de fumo no tronco de uma árvore, o caminho é outro, os buliçosos Curupiras atuais são eficazes funcionários do Instituto do Maio Ambiente... Todo cuidado é pouco!

Raimundo Candido

quinta-feira, 15 de março de 2012

SERIDIÃO MONTENEGRO LANÇA HOJE "EXPRESSO PARA O FUTURO" NA OBOÉ DA MARIA TOMÁSIA

O Centro Cultural OBOÉ e a Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza - AMLEF - têm a honra de convidar para o lançamento do livro "EXPRESSO PARA O FUTURO" de autoria de Seridião Correia Montenegro com apresentação do Deputado Mauro Benevides.
Dia 15 de março de 2012
19h30min
Centro Cultural OBOÉ
Rua Maria Tomásia, 531.




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Eis o prefácio:


PREFÁCIO


Estimado Seridião, ditoso companheiro:

Sou – e sempre fui - apaixonado por rede. Há símbolo mais excelso da brasilidade cearense do que uma rede? Imagino que não. Herança indígena – que a chamavam de “ini” - a rede foi pioneiramente registrada no pergaminho linguístico português por Pero Vaz de Caminha – que, sem procurar saber o nome já usado pelos nativos, batizou-a de rede de dormir, pela semelhança com a rede de pescar.

A rede é tão carregada de força multiforme que virou pia batismal de todas as interligações relacionais, perpassando o desejo de comunicação entre os seres (redes sociais), à assepsia urbana (redes de drenagem) até a modernização tecnológica (redes de computadores), dentre outras.

Perscrutador e amante das redes de dormir, Câmara Cascudo demarcou muito bem as diferenças entre a rede e a cama: "A cama obriga-nos a tomar o seu costume, ajeitando-nos nela, procurando o repouso numa sucessão de posições. A rede toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo. A cama é dura, parada, definitiva. A rede é acolhedora, compreensiva, ondulante. A rede colabora com a movimentação dos sonhos. Entre a rede e a cama há a distância da solidariedade à resignação".

Por isso peço permissão para estender, entre dois generosos coqueiros, uma rede de tucum, de preferência a céu aberto. Rede confeccionada com a cristalina areia litorânea, bordada pelas mãos suaves da nossa brisa noturna, cujo balanço segue o ritmo das ondas do mar de Iracema.

Pois bem, só deitado em uma rede posso folhear adequadamente este teu fabuloso álbum memorial.

Disseste, Seridião, que eu teria liberdade para fazer a ponderação que julgasse necessária, sugerir alteração e, inclusive, lançar o petardo da crítica.

Começo pelo título. Condeno-o. Por que Expresso? Grande e rápido meio de transporte que anda sem fazer escalas?

Não, meu amigo, este teu precioso caderno de reminiscências deveria ter o nome da nossa principal insígnia simbólica, emblema da nossa hospitalidade militante, expressão telúrica do nosso oceânico espírito: a Rede. Este livro é, em todas as acepções, uma rede, efetivo emaranhado de cordéis afetivos, conjunto entrelaçado de fios vitais.

Esta tua delicada rede, Seridião, embora tenha os punhos amarrados nos armadores do presente, quando se balança tem uma varanda tocando o passado e a outra visitando o futuro.

Dormir nesta rede é viajar. É esparramar o corpo no córrego cristalino do embevecimento. É transmutar-se em um viajante imóvel. É fitar a trajetória de um legítimo pretor romano, que começa pela cidade maravilhosa, passa pela metrópole soteropolitana, sente o esplendor da construção na Capital da República e termina com o retorno à Terra da Luz. É divisar o itinerário de um servidor público que afixou no átrio da alma o código da decência. Como um autêntico cristão, expulsou da sala quem tentou aliciá-lo, profanando o seu sagrado espaço de trabalho. Amassou a folha rota do suborno. Esmurrou a pusilanimidade.

Por certo, em alguns momentos, olvidou de tragar o cálice da moderação e exorbitou. Usando a regra da igualdade de Ruy Barbosa – “não ser baixo com os grandes, nem arrogante com os miseráveis; servir aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade” – lançou-se sobre um Juiz de Direito para vingar o ferido sentimento paterno e lavar a honra familiar. Está perdoado porque só usou as garras da lei. Evitou as luvas de pugilista amador da categoria dos meio-médios ligeiros...

Deitar nesta rede é deleitar-se na história galante de um professor de sedução, cujo magistério nos bafeja com aquilo que Blaise Pascal chamava de l'esprit de finesse (o espírito de finesse).

Teu “S”, Seridião, é severo e sensível, singelo e solene, sutil e sonhador, sapeca e sereno, sementeiro e sentimental, simples e simpático, sábio e sóbrio. És, surpreendentemente, um sujeito sacral. Que acredita em milagre, pois ele se opera em ti. Fervoroso devoto de Nossa Senhora das Graças, daí graças. Graças à vida. Vida que se fez rede. E que tu nos entrega sob a forma de um livro.


Júnior Bonfim – poeta e advogado.

***************************************************

Caro Júnior:

A cada página que você escreve, mostra a sua maestria literária. Este prefácio, além de belíssimo, é encantador. Nele o poeta se supera a cada palavra. Morro de inveja, mas minha inveja é sadia.

Meu abraço e, se possível, arranje-me um exemplar do livro do Seridião.

César Vale

quarta-feira, 14 de março de 2012

HOJE É O DIA NACIONAL DA POESIA

A POESIA

*

Poesia é o olhar

Diferente do poeta

Que lança sua seta

Na hora de contemplar.

E para nos enlevar,

Daquela contemplação

Vai brotando a inspiração

Alimento do dia-a-dia,

Que o poeta contagia

E transforma em criação.

*

Dalinha Catunda
--

CONJUNTURA NACIONAL

Einstein no Brasil

Abro a coluna contando uma historinha do amigo Sebastião Nery sobre a relatividade das coisas. Quando Einstein esteve no Brasil, foi ciceroneado por Austregésilo de Athayde. Saiu olhando as coisas, Austregésilo a tiracolo, explicando a relatividade do jeitinho brasileiro. A toda hora, Austregésilo tirava do bolso um caderninho e fazia anotações. Einstein ficou curioso:

- O que é que o senhor anda escrevendo aí?

- Suas opiniões, Mr. Einstein, suas observações. Às vezes as minhas também. Tenho o hábito de anotar sempre as ideias que me ocorrem para aproveitá-las nos meus artigos. O senhor não anota suas ideias?

- Não anoto, Dr. Austregésilo, porque até hoje só tive uma, a teoria da relatividade.

Tensão no Planalto

Parece pleonasmo falar em tensão no Planalto. Porque os ares de Brasília são permanentemente contaminados pela água em ebulição nos fornos do poder. A semana começou tensa com a substituição dos líderes do Governo no Senado e na Câmara. No Senado, Romero Jucá (PMDB/RR) cede lugar ao também senador da região amazônica, Eduardo Braga (PMDB/AM). Que já foi prefeito de Manaus, governador do Amazonas por duas vezes, depois de ter iniciado a carreira política como deputado Federal. Hoje, faz parte da ala que se diz independente do PMDB. Jucá vem lá de trás e já serviu o governo FHC. Passou pelo ciclo Lula e chegou até o governo Dilma. Cândido Vaccarezza (PT/SP) sai da liderança do Governo depois de um bom tempo. Trata-se de um perfil cordato, conciliador, um dos quadros do PT com melhor articulação junto aos partidos. Entra Arlindo Chinaglia (PT/SP), perfil também cordato. Foi presidente da Câmara e conhece bem os meandros das articulações.

O significado

A substituição dos dois líderes não se deu apenas por conta da insatisfação das bases governistas. Afinal, a não aprovação do nome de Bernardo Figueiredo para a ANTT não se deu por conta da inabilidade do senador Jucá. O nome não tinha bom conceito na casa. E passou a ser alvo do tiroteio do senador Roberto Requião. Já a indignação que se espraia nos corredores da Câmara também não pode ser contida por Vaccarezza. Afinal de contas, a rebeldia que ali se desenvolve é fruto de alguns fatores: 1º) represamento de verbas aprovadas no Orçamento para obras patrocinadas por deputados; 2º) a não contemplação dos pleitos partidários nos ministérios e o próprio fechamento de portas para as demandas parlamentares; 3º) a equação mal resolvida de preenchimento das vagas ministeriais a cargo da presidente Dilma.

Como será?

Pode ser que as coisas melhorem nas frentes de articulação. Mas outros atores também deverão ser trocados. Por exemplo, a ministra Ideli Salvatti faz muita força para acertar. Mas não tem sido eficaz. A esfera política não a considera com estofo para fazer articulação política. Que depende, e muito, do perfil pessoal, do DNA de cada um. Ideli é amarga e zangada. Um ente fora do habitat natural.

PMDB, o maior polo

O maior polo de insatisfação se encontra no PMDB. Que vê seus ministros sem autonomia decisória; monitorados por secretários executivos nomeados pelo PT; com verbas de seus parlamentares represadas. O PMDB acredita que essas barreiras são todas planejadas : o PT quer bloquear o crescimento do partido, temendo que ele continue com o maior número de prefeituras e vereadores. O projeto petista tem como meta fazer do partido uma gigantesca estrutura a serviço da continuidade de mando do PT.

Temer, o conciliador

Michel Temer, o vice-presidente da República, tem sido muito importante nesse momento de foguetório desvairado. É cercado de pressão por todos os lados. Tem agido como algodão entre vidros. E até suportado fogo amigo. Não se sabe até quando. Pequeno conselho aos fogueteiros : quando a fumaça é constante, ela mesma avisa onde se localiza a fogueira.

Tudo valerá

Nem bem o processo eleitoral começou e as jogadas no tabuleiro mostram que a campanha deste ano será a mais contundente da contemporaneidade. Uns contra uns e outros contra outros; podendo ser também de ex-adversários contra ex-aliados. Tudo valerá.

O jeito Dilma de ser

A cada dia, a presidente Dilma mostra seu jeito de ser. E de fazer política. Ouve um pequeno grupo. E toma decisões. Ao que parece, não faz consultas à área política. Apenas comunica suas decisões aos líderes. Sua cartilha é a cartesiana. Os políticos, segundo ela, precisam andar na linha reta. Mas a política, como se sabe, é, frequentemente, uma curva. Os tropeços ocorrem a cada momento. Lula tem aconselhado a presidente a ouvir mais os políticos. Por mais que ela tenha conversado com alguns, a sensação é a de que falta lábia nas conversas.

Churchill 1

O General Montgomery estava sendo homenageado, pois venceu Rommel na batalha da África, na 2ª Guerra Mundial. Discurso do General Montgomery:

'Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói'.

Churchill ouviu o discurso e com ciúme, retrucou:

'Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele'.

(As historinhas sobre Churchill, que continuam adiante, foram enviadas por Jorge Massad)

O Brasil vai bem

O Brasil vai muito bem. Essa é a versão que as autoridades fazem questão de expressar. Crise internacional? Ah, o Brasil passa ao largo. Estamos indo bem na frente de comércio exterior. Nossas commodities têm ajudado a alcançarmos bons resultados comerciais. Nossas reservas estão aumentando. O que nos permite um bom lastro para eventuais problemas cambiais. Esse é o discurso do ministro Guido Mantega. E a indústria? Ora, a indústria vive um momento difícil. Mas é um momento só, frisa o nosso ministro da Fazenda.

A indústria vai mal

A verdade é que a indústria vai mal. De cada quatro produtos adquiridos no mercado, um é importado. A indústria manufatureira registrava uma participação no PIB de 27,2% em 1985; esse índice despencou para 15,8% em 2010. A queda de emprego na indústria entre setembro de 1985 e setembro de 2010 foi de 28%; já a participação dos manufaturados na pauta de exportações baixou de 55% em 2005 para 39,4% em 2010. A pauta de importações engorda a olhos vistos. Em 2003, o coeficiente de importação era de 12,5%; no segundo trimestre do ano passado, 22,9%.

China ganha todas

E quem está devastando a indústria brasileira ? A China. Ganha concorrências a torto e a direito. E mais: vende gato por lebre. Não entrega as encomendas nos prazos. Não dá manutenção. Faz comparações absurdas. Compara o preço de um trem com 4 carros (o que fabrica) sendo apenas 50% motorizados, com um trem de 6 carros, todos motorizados. E há Estados que entram na "emboscada" chinesa, como o Rio de Janeiro, com a maior tranquilidade.

Churchill 2

Certa vez, Einstein recebeu uma carta da Miss New Orleans onde dizia a ele:

"Prof. Einstein, gostaria de ter um filho com o senhor. A minha justificativa se baseia no fato de que eu, como modelo de beleza, teria um filho com o senhor e, certamente, o garoto teria a minha beleza e a sua inteligência".

Einstein respondeu:

"Querida miss New Orleans, o meu receio é que o nosso filho tenha a sua inteligência e a minha beleza".

Capital e trabalho juntos

A FIESP e as Centrais Sindicais estabeleceram um programa de ações e eventos em defesa da indústria nacional. O primeiro evento em prol da indústria nacional está previsto para o dia 27 de março, com o lançamento de uma frente parlamentar no Congresso Nacional. Outro, em 4 de abril, reunirá cerca de 100 mil pessoas em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo. A mobilização de entidades empresariais e sindicais tem o objetivo de alertar o governo para a adoção de políticas que visem proteger a esfera industrial e, consequentemente, os empregos.

Desaceleração?

E se a economia mundial desacelerar em 2012 ? O Brasil será afetado ? Não há razão para acreditar que o Brasil é uma ilha de segurança em um mar agitado. Todos os continentes sofrerão com as águas batendo em suas costas.

Passando a perna nos trabalhadores

Funcionários de empresas terceirizadas, a serviço do Governo, que quebram e não arcam com os passivos trabalhistas vão precisar de paciência. É que a Subseção 1 Especializada em Dissídios Individuais (SDI-1) do Tribunal Superior do Trabalho, decidiu, por unanimidade, suspender a tramitação dos processos que tratam da responsabilidade subsidiária dos órgãos públicos tomadores de serviços, no caso de não cumprimento de obrigações trabalhistas pela empresa prestadora. Algumas decisões monocráticas têm acolhido liminares em reclamações e cassado decisões tomadas pelo TST em que se aplicou a súmula 331, alterada em maio de 2011 para limitar a responsabilidade subsidiária aos casos de conduta culposa do ente público no cumprimento da Lei das Licitações.

Churchill 3

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto. Convite de Bernard Shaw para Churchill: "Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver". Resposta de Churchill: "Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver".

8 mil recursos no TST

Mais de oito mil recursos extraordinários sobre o assunto estão paralisados no TST. Com a decisão da SDI-1, uma quantidade ainda maior de processos deve permanecer à espera da definição do STF. O fato é que não haveria impasse, se a contratação tivesse como preceito a idoneidade financeira, operacional, fiscal e a qualidade da prestação de serviços da contratada. Algo que pode ser perfeitamente definido por uma legislação específica.

Jegue para o Japão

A China quer importar do Brasil 300 mil jumentos. Que sairão do Nordeste. O jegue já inspirou poetas e escritores. E agora mobiliza os nordestinos que querem evitar sua exportação para a China, onde seriam industrializados - carne e derivados. As campanhas pela "salvação do jegue" estão no ar. Uma dela, "Adote um Jumento. O menino Jesus lhe agradecerá".

Churchill 4

Quando Churchill fez 80 anos, um repórter de menos de 30 foi fotografá-lo e disse:

- Sir Winston, espero fotografá-lo novamente nos seus 90 anos.

Resposta de Churchill:

- Por que não? Você me parece bastante saudável.

Modernização no futebol?

Ricardo Teixeira, ufa, deixou a CBF. Poucos acreditariam que um cartola tão cheio de poder pudesse, um dia, renunciar a um dos mais ambicionados cargos por estas plagas. Teixeira saiu não apenas por conta de sua saúde, que merece cuidados. Mas por desgaste de material. Muito tempo no mesmo canto desgasta as pessoas. Por mais força que pareçam ter. É de esperar que, doravante, o futebol seja vitaminado com novas ideias, ajustes de programas e projetos, reordenação estratégica. Mas, sabem quem assumiu? Um cartola que vai completar em breve 80 anos. Nada contra ele. Felizmente, o próprio se comprometeu a implantar rodízio no comando da Confederação. A sociedade, hoje, tem o mando das coisas.

Lula puxará Haddad?

Essa é a pergunta que este consultor tem tentado responder. O candidato do PT, Fernando Haddad, está com apenas 3%. Pois bem, respondo : Lula vai arrastar Haddad para o patamar histórico do PT, cerca de 30%. E mais : Haddad continua competitivo. Por isso, qualquer tentativa de resgatar o nome de Marta Suplicy é coisa de apressadinhos.

E Serra é o favorito?

É. José Serra continua como favorito. Mas tem uma grande rejeição para administrar. É bem provável que seja um dos candidatos do segundo turno. Mas não se pode, a essa altura, apontar para nenhum vencedor ou perdedor.

Chalita entra no meio?

Esta é também mais uma pergunta que me fazem. Gabriel Chalita, hoje com 7%, poderá quebrar a polarização entre PT e PSDB. Vai depender dos tempos nebulosos ou claros de outubro.

O caldeirão eleitoral

O sistema cognitivo do eleitor tende a conjugar aspectos múltiplos: condições folgadas ou apertadas do bolso; mais alimentos ou menos alimentos na geladeira; simpatia proporcionada pelo candidato; proximidade/distanciamento que o candidato represente para o eleitor; qualidade das propostas - credibilidade, factibilidade, utopia/factóides, condições de realização; apoiadores do candidato; bom programa de TV; presença nos bairros e regiões da cidade, etc.

Churchill 5

Bate-boca no Parlamento inglês. Aconteceu num dos discursos de Churchill em que estava uma deputada oposicionista, Lady Astor, conhecida pela chatice, que pediu um aparte (Sabia-se que Churchill não gostava que interrompessem os seus discursos, mas concedeu a palavra à deputada. E ela disse em alto e bom tom:

- Sr. Ministro , se Vossa Excelência fosse o meu marido, eu colocava veneno em seu chá!

Churchill, lentamente, tirou os óculos, seu olhar astuto percorreu toda a plateia e, naquele silêncio em que todos aguardavam, mandou:

- Nancy, se eu fosse o seu marido, eu tomaria esse chá com prazer!

Conselho aos novos líderes

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado à presidente Dilma Rousseff. Hoje, sua atenção se volta aos novos líderes:

1. Cuidado. Examinem as demandas de grupos e regiões. Não prometam coisas que não poderão cumprir/realizar.

2. Procurem convencer a presidente Dilma que o governo de coalizão é uma via de duas mãos.

3. Tentem alcançar consenso junto às bancadas; a cartilha cartesiana da presidente Dilma há de conter sambas variados, não apenas um sambinha de uma nota só, ou seja, atendimento às demandas de um único partido.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 13 de março de 2012

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - I

Lula voltou neste fim de semana para casa, um tanto mais magro, curado da pneumonia. Até o fim do mês terá o exame definitivo para saber se está com o câncer da laringe "zerado", como se diz popularmente. Os médicos que o acompanham garantem que seguido um repouso absoluto até lá, já pelos meados de abril ele poderá retomar o que mais gosta na vida - fazer política. Porém, mesmo com esta chancela médica, as duas idas de Lula para o hospital em espaços de duas semanas, abatido por causa da queda de suas imunidades como consequencia do rigoroso tratamento a que se submeteu (e também pela inobservância de certa moderação de atividades nesse período), abriram para os aliados, de um modo geral, e os parceiros mais diretos, a terrífica visão de que não deverão (não poderão) contar com um Lula 100% provocador por um bom tempo.

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - II

Esta possibilidade real de ter que lidar com um Lula mais moderado já abriu também disputas na seara oficial tanto para o futuro imediato de 2012, como para o futuro mais distante de 2014. Este ano, quem contava com Lula para alavancar candidaturas e ajudar a impingir derrotas humilhantes na oposição, em outubro, já está tirando não somente "o cavalinho", mas "a tropa inteira da chuva". Queira ou não a presidente Dilma, tal situação vai obrigá-la a cair na vida eleitoral mais visivelmente do que apenas dando apoio "logístico" aos aliados. Terá de mostrar a cara - e não apenas em SP. (Aliás, São Paulo, com as brigas internas do PT para ver quem comanda a campanha de Fernando Haddad, politicamente e financeiramente, com o ex-ministro patinando nas pesquisas, e com a dificuldade de somar aliados à candidatura do ex-ministro da Educação, é o mais límpido sinal da falta que Lula faz. Em outros municípios, começam a pipocar também indícios de que a união dos aliados federais no nível das prefeituras também começa a desandar).

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - III

No plano de 2014, por mais cruel que isso possa parecer, os aliados também já dão indicações de que estão atordoados com a possibilidade de não terem mais "um craque no banco de reservas" (expressão usada por Gilberto de Carvalho como uma ameaça quando se falava no plano da oposição de desestabilizar politicamente Dilma). E já fazem movimentos para o jogo da sucessão presidencial nessas condições. Os movimentos do PMDB na Câmara (manifesto dos deputados Federais) e no Senado (participação decisiva, porém não única, na derruba do diretor-geral da ANTT) são lances que extrapolam as divergências por cargos e verbas e as eleições de outubro. O olho do furacão peemedebista está em 2014. Lula é o grande avalista de peso do PMDB na coalizão (mais parece uma "colisão") governista. Nunca foi sonho de consumo de Dilma, como ela tem demonstrado na prática ao tratar os ministros do PMDB como essência de segunda categoria.

Lula, 2012 e 2014, uma odisseia eleitoral - IV

Os peemedebistas temem perder o lugar de vice de Michel Temer para o PSB e, ao mesmo tempo, preparam-se para uma eventual possibilidade, dependendo do andar da carruagem econômica, de as forças aliadas ficarem sem uma candidatura forte em 2014. Os mesmos passos do PSB do governador Eduardo Campos - vice ou candidatura própria no ano da Copa - é o foco do partido. As outras legendas olham também para o fato de Dilma, por modo próprio ou induzida por circunstâncias, entre elas um menor protagonismo forçado de Lula, estar redesenhando a correlação de forças na base aliada, não só com a redivisão da participação dos partidos no poder como também dentro do próprios partidos. No PT, por exemplo, é visível a perda de força do mundo baiano do governador Jaques Wagner (perdeu de uma só vez Florence no ministério do Desenvolvimento Agrário, Negromonte no ministério das Cidades e Gabrielli na Petrobras), a contenção do "paulistanismo" e a ascensão dos gaúchos de sua lavra política.

Dilma em transe

Há alguns meses escrevemos nesta coluna que o excesso de centralização que a presidente Dilma está imprimindo a seu governo estava deixando os ministros em pânico e inseguros, com medo de tomar iniciativas, de tomar decisões e depois serem "espancados" (figurativamente, esclareça-se) por ela. Havia, por isso, uma paralisia decisória e um enorme déficit de execução no governo, visível até para um míope. De repente, Dilma deu-se conta dessa situação e propaga "irritação" que teria crescido segundo fontes que nunca se identificam. Gerou, embora negada como motivação, até a demissão do ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence. Teria sido, segundo alguns, para dar um exemplo, para dar um recado do desgosto da presidente.

Dilma e a área econômica

A insatisfação atinge até a área econômica, exceção do BC que tem feito direitinho o dever de casa traçado por Dilma: incentivar de preferência a retomada do crescimento econômico em ritmo de avião supersônico. O carnaval já passou, mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai ter de botar seu bloco "desenvolvimentista" de novo esta semana na rua. A dúvida é saber se com a preocupação de Dilma com os detalhes a máquina vai desemperrar. Uma alma maldosa em Brasília diz que há ministro da Esplanada que não vai nem ao banheiro sem consultar antes o Palácio do Planalto.

Um novo estilo

Dilma, depois dos sustos políticos dos últimos dias, promete inaugurar esta semana um novo modelo de relações com os partidos aliados, o Congresso e os sindicatos. Vai amanhã ao Senado, o que não fez no ano passado, para a homenagem ao Dia das Mulheres. A presidente recebe na quarta-feira os dirigentes das centrais sindicais, a terceira vez em mais de um ano de governo. Inicia com o PMDB as rodadas de afagos aos parceiros de coalizão. Teria mandado (a conferir) as ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann apressarem a liberação das emendas dos parlamentares, segundo fontes oficiais emperradas mesmo por culpa da lentidão (e até uma certa desobediência, pasmem!) dos ministérios. Dilma está abrindo a porteira, mas a quer sob controle. Está pagando para ver. O risco é se a abertura for limitada e as confusões continuarem. Se houver uma brecha maior, o risco é a presidente ficar nas mãos dos nunca inteiramente saciáveis parceiros.

Dilma e o apoio das elites

A presidência de Lula se caracterizou por uma vontade férrea em se destacar das suas bases políticas originárias, sobretudo os sindicatos e os denominados "movimentos sociais", além de boa parte dos funcionários do Estado. Assim, forjou com inegável competência política a aquisição de credibilidade junto à burguesia financeira e empresarial. Aqui e lá fora. O resultado do PIB de 2011 o qual dá mais evidências do continuado processo de desindustrialização do Brasil é mais um sinal de que as elites empresariais estão dando conta de que o atual governo e sua agenda econômica já não atendem os seus interesses como no passado lulista recente. Junte-se a isso a ineficiência governamental em gerir a coisa pública no que tange às obras de infraestrutura e reformas estruturais. Por estas e por outras, está se abrindo um espaço político de insatisfação que apenas não está sendo aproveitado em função da ausência de uma oposição ativa e de uma maior organização política das elites.

Artilheiro sem precisão?

O ministério da Fazenda, em conjunto principalmente com o BC e o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior deverá, na sequência da queda de juros patrocinada pelo BC semana passada, anunciar nos próximos dias novas medidas para incentivar a produção nacional e para não deixar o real se valorizar (em economês se diz também "apreciar") demais. Sempre que as coisas se complicam para o ministro Guido Mantega, este avisa, em tom de ameaça, que o governo dispõe de um arsenal de medidas quase infinito para combater tais ameaças. É possível, mas até agora o arsenal parece composto de armas de antes da Primeira Guerra Mundial e/ou o artilheiro não anda bem de pontaria. Um levantamento feito na semana passada pelo jornal "Valor Econômico" mostra que desde o início do governo Dilma já foram adotadas 16 medidas de proteção comercial ou para aumentar a competitividade da indústria brasileira. Com efeitos muito limitados como provam as constantes novas providências ditas no embornal. Será por essa razão que a presidente Dilma ameaça ela mesma pegar em armas?

Um fato para complicar

O STF não tinha outra atitude a tomar que a de voltar atrás na decisão de considerar inconstitucional a transformação da MP que criou o Instituto Chico Mendes. Filustrias à parte, o caos jurídico que se instalaria no país, pois outras 500 leis resultantes de Medidas Provisórias, teriam o mesmo destino. Todavia, os ministros do Supremo criaram um enorme problema para o governo ao considerar que daqui para frente o rito de passar antes das MPs por uma comissão especial de deputados e senadores deve ser obrigatoriamente cumprido. O Palácio do Planalto terá de negociar muito mais com o Congresso para fazer valer sua vontade de legislar sem que os parlamentares opinem para valer, como ocorre hoje com o modo de tramitação das MPs. É um avanço democrático sério e vai despertar na Câmara a discussão sobre os ritos das MPs, que tem uma proposta de alteração profunda, de autoria conjunta José Sarney-Aécio Neves, já aprovada pelo Senado e ainda em suas gavetas. A proposta visa dar mais tempo ao Senado, "dividindo-o" melhor com a Câmara para analisar as MPs, acabar com o contrabando (inclusão de assuntos de todo o tipo numa MP, fora de seu objeto específico) de emendas, e forçar o Executivo a cumprir a norma de só editar o instrumento quando de fato ele cumprir os princípios constitucionais de urgência e relevância.

Novos vocábulos do economês

O brasileiro já começou a ouvir falar e vai ouvir muito mais ainda a respeito de três novos termos incorporados ao vocabulário diário do economês nacional nesses tempos em que o governo trata de adaptar a política econômica de meses atrás ao propósito oficial de turbinar o crescimento econômico. Acostumem-se:

1. PIB potencial - mede quanto a economia brasileira pode crescer sem provocar inflação nem problemas sérios nas contas externas.

2. Taxa neutra de juros - é a taxa básica de juros real (Selic menos inflação) que pode ser aplicada pelo BC sem gerar inflação e sem inibir o crescimento.

3 NAIRU, sigla em inglês para taxa de desemprego de equilíbrio ou neutra, aquela que não provoca aumentos salariais que onerem demais os custos das empresas por gerarem aumentos salariais muito acima da produtividade da economia.

É bom acompanhar porque não existe nenhum termômetro econômico para medir nenhum dos três com precisão. Ao contrário, estas estimativas tem um caráter experimental perigoso : podem gerar um desequilíbrio custoso para qualquer lado, sendo que somente a posteriori tais desequilíbrios podem ser corrigidos.

Se nem eles sabem

Não nos cobrem, por favor, informações sobre os movimentos da oposição que não sejam as mumunhas políticas e o nhem nhem nhem de sempre. Se nem os oposicionistas sabem direito o que está acontecendo e que seja relevante e mesmo ainda sabem o que fazer, o que podem dizer os pobres mortais que não têm bola de cristal?

O fator China

Já começam a pulular por aí os rebentos das informações que dão conta que a China está a reduzir a atividade econômica. Por alguma destas artimanhas desconhecidas o governo comunista de Pequim conseguirá limitar o crescimento em 7,5%, nada acima e nada abaixo. Os chineses parecem dotados de conhecimentos milenares, mas é difícil acreditar que quando se "freia" uma economia é possível se prever com precisão o quanto uma economia reduzirá em termos de produção, investimentos, etc. O certo é que o mundo teme tanto o assunto que nas últimas semanas andou aumentando a tensão no mercado financeiro que costuma ser pródigo neste tipo de especulação. Também parece bem razoável acreditar que nenhum país consegue crescer constantemente a taxas de 10% ao ano sem que se gerem desequilíbrios estruturais na formação fixa de capital (vulgo, investimentos) e no setor de crédito. A China não tem tais riscos mais identificados porque transparência não é o forte de Pequim e ninguém está (ainda) conseguindo saber algo diferente sobre o gigante do oriente. Todavia, as últimas tensões no mercado devem ser levadas a sério. A China pode não continuar sendo a força motriz que movimenta o mundo enquanto os países centrais do ocidente jogam hordas de desempregados nas ruas.

A China e o Brasil - I

A China está sustentando o preço de nossas commodities lá nas alturas. Mesmo com algum recuo nas últimas semanas, os bons comerciantes externos sabem que as cotações estão ótimas. Todavia, não se pode ficar pendurado na ideia de que isto é eterno. Alguém poderia imaginar que estamos exagerando. Convidamos o leitor a pensar no seguinte: estaria a taxa de câmbio neste patamar valorizado e haveria tranquilidade cambial não fossem os chineses comprando as nossas valorizadas exportações. Há, como se vê, um problema estratégico a ser resolvido: ou se aumenta o consumo doméstico (e se estimula uma pauta de exportações mais variável) ou estaremos pendurados num parceiro só, para o bem e para o mal.

A China e o Brasil - II

Se o risco chinês é considerável e merece atenção, mesmo que seja inescapável dado seus efeitos para o mundo atual repleto de destruição de empregos, redução de consumo e investimento, há de se considerar que políticas comerciais com excessos protecionistas, bem como ajustes que tornem elevada a volatilidade do câmbio não são boas práticas. É preciso fazer ajustes significativos em todas estas variáveis sem que isto reverta as boas expectativas de forma abrupta. Uma tarefa muito complexa e que o governo da presidente Dilma não parece muito preparado para fazer em vista de seus problemas de gestão. O Brasil tem perdido a sua dinâmica em meio aos parceiros de comércio exterior. Faltam às exportações conteúdo tecnológico e exploração de nichos. Sobra às importações uma taxa de câmbio tão favorável. O país parece querer brincar com fogo.

Ainda sobre a decisão sobre o juro básico

Ao que parece o BC está mesmo sensibilizado com a estagnação da atividade econômica que o país está metido. A queda de 0,75% da taxa básica de juros na semana passada foi realmente um recado para os agentes econômicos de que o BC está preocupado mesmo é com a queda da produção e que abandonou o regime de metas de inflação pelo menos em seus moldes mais tradicionais, para dizer o mínimo. Tombini e sua equipe estimulam a imaginação dos analistas de plantão em prever até que nível a taxa de juros básica pode cair. Note-se que o BC de Dilma está em pleno jejum de palavras no que tange à política fiscal e aos baixos ganhos de produtividade da economia brasileira. Isto não nos parece de boa cepa. Assim sendo, é bem possível que a taxa de juros caia para patamares nunca imaginados a princípio (8% ou menos) e que isto ocorra ainda neste primeiro semestre. Resta saber se será suficiente para estimular uma economia que parece estagnada, sobretudo no campo político.



(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 12 de março de 2012

COMO USAR AS PALAVRAS

Certa vez, uma jovem foi ter com o bom homem, São Filipe Neri, para confessar seus pecados. Ele já conhecia muito bem uma de suas falhas: não que ela fosse má, mas costumava falar dos vizinhos, deduzindo histórias sobre eles. Essas histórias passavam de boca em boca e acabavam fazendo mal, sem nenhum proveito para ninguém.

São Filipe lhe disse:

– “Minha filha, você age mal falando dos outros; tenho que lhe passar uma penitência. Você deverá comprar uma galinha no mercado e depois caminhar para fora da cidade. Enquanto for andando, deverá ir arrancando as penas e espalhando-as. Não pare até ter depenado completamente a ave. Quando tiver feito isso, volte e me conte".

Ela pensou com seus botões que era mesmo uma penitência muito singular! Mas não objetou. Comprou a galinha, saiu caminhando e arrancando as penas, como ele lhe dissera. Depois, voltou e reportou a São Filipe:

– "Minha filha" – disse o Santo – "você completou a primeira parte da penitência. Agora vem o resto."

– "Sim, e o que é, padre?"

– "Você deverá voltar pelo mesmo caminho e catar todas as penas."

– "Mas, padre, é impossível! A esta hora, o vento já as espalhou em todas as direções. Posso até conseguir algumas, mas não todas!"

– "É verdade, minha filha. E não é isso mesmo que acontece com as palavras tolas que você deixa sair? Não é verdade que você inventa histórias que vão sendo espalhadas por aí, de boca em boca, até ficarem fora do seu alcance? Será que você conseguiria seguí-las e cancelá-las, se desejasse?"

– "Não, padre..."

– "Então, minha filha, quando você sentir vontade de dizer coisas indelicadas sobre seus vizinhos, feche os lábios. Não espalhe essas penas, pequenas e maldosas, pelo seu caminho."

By William Bennett, em “O Livro das Virtudes II – O Compasso Moral”.

domingo, 11 de março de 2012

ISSO TAMBÉM PASSARÁ

Havia certa vez um rei sábio e bom que já se encontrava no fim de sua vida.

Certo dia pressentindo a chegada da morte chamou seu único filho que o sucederia no trono, tirou do dedo um anel e o deu dizendo:” Meu filho, quando for rei leva sempre contigo este anel. Nele há uma inscrição, quando estiveres vivendo situações extremas, de glória ou de dor, tira e lê o que há nele”.

O rei morreu e o seu filho passou a reinar em seu lugar sempre usando o anel que o pai deixara. Passado algum tempo surgiram conflitos com um reino vizinho que acabaram culminando numa terrível guerra.

O jovem rei, a frente de seu exército, partiu para enfrentar o inimigo. No auge da batalha seus companheiros lutavam bravamente, mortos, feridos, tristeza, dor. O rei lembra-se do anel, tira-o e lê a inscrição: Isso também passará!

E ele continuou a luta, perde batalhas, vence outras, mas ao final saiu vitorioso.
Retorna então ao seu reino e coberto de glória entra em triunfo na cidade. O povo o aclama.

Neste momento ele se lembra de seu velho e sábio pai, tira o anel e lê: Isso também passará!

Todas as coisas na terra passam, os dia de dificuldades passarão, passarão também os dias de amargura e solidão, as dores, as lágrimas, as frustrações que nos fazem chorar, um dia passarão.

Os dias de glória, de triunfo em que nos julgamos maiores e melhores do que os outros, igualmente passarão.

Essa vaidade interna que nos faz sentir como o centro do universo um dia passará.

Dias de tristeza, dias de felicidade são lições necessárias que na terra passam deixando em nosso coração as experiências acumuladas.

Se hoje para nós é um dia desses repletos de amargura paremos um instante.
Com o coração entregue a Deus ouçamos Ele nos dizer: Isso também passará!


(Mensagem enviada por Wagner Vitoriano)