domingo, 16 de setembro de 2018

DOM FRAGOSO, A FLAGRÂNCIA PROFÉTICA!


Pisando as babugens da infância e inebriado com as jitiranas de luz do sertão, o primeiro contato que tive com um religioso foi na fazenda Mondubim, do meu avô Tetero Bonfim. Um padre solene e sério, vestido em uma bela batina, passava para as festas religiosas do distrito de Assis, em Crateús. Seu nome: José Maria Moreira do Bonfim, que veio ao mundo no dia 16 de novembro de 1911, um dia após a elevação de Crateús à categoria de cidade. Era mais que um simples pároco, era um pai plúrimo, um padrasto severo, um professor dedicado, um pedreiro eclesial, um patrono civilizatório...

1980. Segundo ano de uma estiagem que se prolongaria pelos três anos seguintes. Inúmeras bocas falavam em abertura, palavra que eu pouco entendia. Na segunda quinzena do mês de junho, a eufórica expectativa nacional estava voltada para um homem que também eu pouco conhecia: João Paulo II. Os poros dos Meios de Comunicação Social do Brasil exalavam e exaltavam a personalidade de Sua Santidade. Certa tarde de abrasado sol, ao passar numa banca de revista, comprei um livrinho. Em casa, li-o de um só fôlego. Após a leitura, senti-me impulsionado por uma força estranha, invadido por algo novo, indescritível – como se uma tempestade divina transpassasse o meu corpo. Dirigi-me à minha mãe e, sem medir consequências, exclamei imatura e naturalmente: - Mamãe, quero ser Padre!

Guardo com carinho aquele livrinho. Ele conta a história de Karol Józef Wojtyla, o Santo Papa João Paulo II, esse homem que eu pouco conhecia. E foi através da leitura de sua biografia que nasceu em mim as primeiras vontades de conhecer o trabalho do Reino Celeste. Devo parte de meu despertar a ele.

Através de Osvaldo Fernandes, amigo do meu pai, entrei em contato pela vez primeira com o bispo de Crateús, D. Antonio Batista Fragoso, a quem expus o meu desejo de abraçar o sacerdócio. Ele me falou entusiasmadamente de uma experiência que estava em gestação - “seminaristas no meio do povo” – um projeto idealizado por ele e por Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife.

Nesse ínterim, minha genitora compartilhou com sua madrinha, a professora Rosa Morais, o meu propósito de trilhar a íngreme vereda religiosa. A veneranda sacerdotisa da educação crateuense ponderou que poderia levar o assunto para o seu irmão e Vigário de Ipu, Monsenhor Morais, e esse abrir-me-ia as portas do Seminário de Sobral, que ela considerava mais adequado para mim. Pouco tempo depois, recebemos a notícia de que o Monsenhor Morais havia conseguido a vaga.

Vi-me diante de duas propostas concretas e tinha que optar. Fui conversar com Dom Fragoso e escolhi viver a experiência iniciante. Acho que minha decisão fez germinar um certo desconforto no coração do Cura do Ipu. Quis Deus que nos seus últimos agostos de vida nos aproximássemos, nascendo daí uma recíproca admiração e uma fraterna amizade.

Em 1981, precisamente na noite de 30 de março, iniciei com outros quatro colegas aquela inovadora experiência vocacional. Naquela inolvidável noite fomos abençoados por Dom Aloísio Lorscheider; Dom Fragoso, com sua firmeza de aço, dizia com convicção vinda da alma que aquela experiência abriria caminho em termos de formação vocacional; Padre Alfredinho, cheio de infância, originalidade missionária e alegria evangélica, batizava o grupo de “Fraternidade Nova” e nos convidava a ser, como Francisco de Assis, “Loucos pelo Evangelho”; nossos pais, comovidos, contritamente felizes, nos entregavam à Comunidade presente.

Após a detida leitura deste livro essas doces e amabilíssimas memórias irrompem e se esparramam, qual cachoeira tranquila, na serra e na várzea da minha alma.

Este grande caderno de mensagens airosas me transporta para uma época inesquecível, plena de bons faróis referenciais.

Como os fastos – livros que, entre os Romanos, registravam fatos memoráveis - estamos diante de um compêndio memorial lavrado em um invisível tabernáculo portátil, sob o bálsamo da poesia. E aqui reside sua distinção. Como bem pontuou Pablo Neruda, “as memórias do memorialista não são as memórias do poeta. Aquele (o memorialista) viveu talvez menos, mas fotografou muito mais, recreando-nos com a perfeição dos pormenores. Este (o poeta) entrega-nos uma galeria de fantasmas sacudidos pelo fogo e pela sombra da sua época”.

Este álbum de memórias poéticas passeia pela história brasileira desde a República Velha, visita a Igreja Católica, notadamente no Ceará, para desenhar o tronco do qual se originou a Diocese de Crateús e, sobretudo, para remeter ao platô da dignidade o seu primevo pastor: Dom Antonio Batista Fragoso. (Jamais olvidarei sua silhueta severa e simples: a metálica voz, o andar inconfundível, o olhar cortante, a firmeza de aço na defesa dos ideais, a verdejante convicção brotando da alma árida de sertanejo. Era, flagrantemente, um Profeta, que se fez fogueira de sabiá sob as nuvens frias das noites trevosas...)

A antífona de entrada dessa empreitada de louvor teve lugar às margens da artéria vital da formosa Paris, o rio Sena, e se estendeu por outros espaços do planeta com os quais o homenageado teve relação: desceu aos subterrâneos de Roma para visitar as mais antigas e impressionantes catacumbas romanas, as Catacumbas de Domitila, local em que Dom Fragoso foi signatário do famoso Pacto das Catacumbas, “um dos momentos mais belos da história da Igreja Católica”; recebeu a benção silenciosa de Dom Thomaz Balduíno, bispo emérito de Goiás; sentiu o abraço de ternura e grande amizade do eterno pastor de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga; subiu às alturas peruanas de Macchu Picchu para, como o poeta, ‘mergulhar a mão no mais genital do terrestre’, e, em Lima, revisitar a memória do protetor dos índios, Bartolomeu de Las Casas, e conhecer o patriarca da Teologia da Libertação, Frei Gustavo Gutierrez; e, por fim, como um viajante imóvel, realizou uma romaria literária pelos principais expoentes desse modelo teológico de leitura do evangelho sob a ótica dos mais sofridos. Foi uma missionária peregrinação, de exigente respiração e prazerosa inspiração.

Não raro a carruagem da História suscita um fenômeno paradoxal: quanto mais nos distanciamos da paisagem dos fatos que vivenciamos, mais nítidos se tornam os seus detalhes, as distinções sutis, as variações essenciais.

Durante muitos anos os Crateuenses se dividiram entre apoiadores de Dom Fragoso e defensores do Padre Bonfim. Estas páginas, com sabedoria salomônica e humildade evangélica, removem a cor baça dessa rivalidade e nos devolvem à harmonia fundada no respeito entre diferentes, realizando uma imprescindível sublimação.

Particularmente, me impulsionaram para um reencontro íntimo com quatro seres especiais, quatro homens virtuosos, quatro colunas de sustentação, meu particular ‘quadrivium’, cruzamento e articulação de ramos ou caminhos fundamentais na minha formação pessoal: de um lado, Dom Fragoso e Padre Alfredinho; do outro, meus parentes Monsenhores, Bonfim e Moraes. Em vida, sob a combustão das convicções que os abastecia, percorreram trilhas distintas, em que pese realizarem a mesma busca terrena pelo Reino de Deus.

José Maria Bonfim Morais e seu primo Zacharias Bezerra Oliveira dedilham os fonemas deste livro como quem acaricia uma coroa de rosas, como quem se posta genuflexo, usando as vestes sagradas da serena alegria, diante de um altar: sob o incenso da poesia e com sabedoria oracular!

Esta escritura, cunhada em pergaminho sacro, há que ser apalpada com mãos cerimoniosas.

Antes de ser lida, com silenciosa reverência, há que ser contemplada sob a solenidade essencial dos monastérios. É uma missa completa! Namastê!


(Júnior Bonfim, na apresentação do livro Dom Fragoso - O Profeta do Inobtido)

sábado, 25 de agosto de 2018

JOSÉ CORIOLANO DE SOUSA LIMA

No meio da praça havia um busto. Um busto, robusto, em meio aos arbustos, um organizado labirinto de algarobas que enfeitava a praça principal, a geradora de todas as agendas da urbe. Era a pedra angular, o pátio do povo, a praça, a praça da matriz. Menino sem hino, ainda não havia descoberto a fonte da alegria, a poesia, sempre perto da nossa mais perfeita tradição. Mas sabia, com emoção, que alguma coisa ocorria no meu coração.

Sem susto, me intrigava aquele augusto busto. Indagava: quem é este? Respondiam-me: é o doutor José Coriolano de Sousa Lima... Depois descobri tratar-se de um dos maiores gênios da poesia no século XIX.


A LITERATURA PIAUIENSE FOI FUNDADA POR UM CRATEUENSE

Nascido na fazenda Boa Vista, quando Crateús era conhecida por Vila Príncipe Imperial, Coriolano foi um fidalgo das letras que teve a graça de alcançar os píncaros da glória. Morou em São Raimundo Nonato, no Piauí, em seguida cursou direito na lendária Faculdade de Direito do Recife e, depois, teve atuação destacada no Maranhão e no Piauí. Magistrado, poeta, político, jornalista. Foi deputado provincial pelo Piauí, por duas legislaturas, e presidente da Assembleia Legislativa. Participou ativamente da imprensa no Recife e Teresina. Foi eleito Príncipe dos Poetas Piauienses (pois à época em que viveu Crateús pertencia ao Piauí).

Mais: segundo o escritor Francisco Miguel de Moura, da Academia Piauiense de Letras, o crateuense José Coriolano – patrono da cadeira de número oito daquela Arcádia - foi o fundador da literatura piauiense:

Ícone da nossa literatura, diria mesmo que, com seu livro póstumo “Impressões e Gemidos”, de 1870, torna-se o fundador da literatura piauiense. Antes dele, praticamente não havia o instituto da literatura em nosso meio, como a conhecemos hoje, pelo menos com tantos autores e livros e, sobretudo, leitores e estudiosos.

(Esse fato lança por terra o estereótipo de que somos uma terra sem grandes luminares no campo das letras, desprovida de escritores de nomeada, carente de escribas fulgurantes. Escritores, de pena luminosa e asas de condor, sempre tivemos.)

Com efeito, uma boa maneira de se aferir ou conferir a contribuição existencial de um ser é observar o que os seus contemporâneos registraram, para a ribalta da posteridade, por ocasião de seu passamento. O olhar post mortem (depois da morte) costuma ser desembaçado. A opinião viaja para o patamar do equilíbrio e passa a repousar na lúcida e superior região da sensatez.

Na capital do Piauí, a edição trinta e cinco do Jornal Liberal Piauiense, de 4 de setembro 1869, destacou na primeira de suas colunas a morte do poeta nos seguintes termos:

“O Dr. José Coriolano de Souza Lima, juiz de direito da comarca de Pastos Bons, na província do Maranhão, acaba de falecer na vila de Príncipe Imperial. Quis a providência que, depois de uma peregrinação de muitos anos, ele fosse deixar os ossos na terra do seu berço, ao lado de seus progenitores, lá onde pela primeira vez a esperança lhe sorriu, nos lábios puros da virgem que tanto amou, e depois foi sua esposa.

Havia já alguns meses que o anjo da morte adejava-lhe em torno, e segredava ao coração de seus amigos palavras d’além túmulo. Mas, por fim, parecia que a saúde voltara a garantir por mais tempo a existência do ilustre magistrado. De Príncipe Imperial escrevia o Dr. José Coriolano, pouco antes de morrer, a um seu amigo desta capital: passo os dias contente, bebo leite suculento das vacas destes sertões, banho-me nas águas cristalinas do açude, respiro o ar puro de minha terra – que vida, meu amigo!”

Três dias depois, outro periódico – A IMPRENSA – na edição de número duzentos e quinze, estampou em suas páginas:

“Acabamos de receber uma infausta notícia que nos veio comover em extremo!

Neste momento os olhos se arrasam de amargo pranto, e os nossos corações se enchem de infinitas saudades!

Com voz entrecortada pela dor, temos a lamentar a morte prematura de um irmão de crenças, que era um atleta inspirado; um amigo leal, que era um tesouro de sinceras afeições, um pai de família sempre carinhoso e desvelado; um cidadão ilustre pelo seu saber e pelas suas virtudes!

Nossas frontes atribuladas – curvam-se hoje sob as ramas sombrias de um esguio cipreste plantado à beira de um túmulo venerável!...

Choramos sentidamente a morte de José Coriolano de Souza Lima, em quem a província perdeu, não só um dos seus mais dignos filhos, como, uma das suas mais viçosas esperanças. Incansável cultor das ciências e das letras, desde os bancos de academia; jurisconsulto que se enriquecia em constantes lucubrações; prosador castiço e elegante; poeta quase sempre inspirado; - José Coriolano era certamente um dos piauienses que mais honra fazia à sua terra natal. Hoje, apenas resta dele a memória de um nome puro; a lembrança de um belo talento que se pode dizer malogrado em vida, porque a maior parte de suas obras ainda não viram a luz da publicidade.

Oxalá que não se percam tão preciosos inéditos; muitos dos quais tivemos ocasião de apreciar, na intimidade que gozávamos junto ao distinto poeta”.

O apelo final do conceituado órgão de imprensa quedou-se insuficiente para evitar que cerca de cento e trinta poesias inéditas de José Coriolano sumissem no cânion do tempo. Apenas dois livros seus foram à linotipia: O Touro Fusco, concluído em 22 de fevereiro de 1856, publicado em 1858; e Impressões e Gemidos, publicação póstuma de 1870 viabilizada através de amigos seus.

A obra inicial de Coriolano, “O Touro Fusco”, foi escrita quando o jovem crateuense cursava o primeiro ano de Direito na Faculdade de Recife, que era uma das mais prestigiadas do País à época. Em 23 de agosto de 2005 nosso venerando Norberto Ferreira filho, o Ferreirinha, presenteou-me com um exemplar desse vigoroso aboio poético. Prefacialmente há dois apontamentos do autor, nos quais explica a origem do poema e as razões da publicação. Primeiro a origem:

“Passava eu as férias do meu primeiro ano de direito na cidade de Olinda. Em outra qualquer parte poderão escassear as inspirações, poderá gelar-se o estro; porém nessa encantadora cidade, tão bela e deliciosa como o seu mesmo nome, (Ó linda) tão pitoresca e poética, como o panorama que ela desenrola aos olhos do poeta e do pensador. – Sempre as inspirações serão freqüentes e o estro vigoroso, sempre o filho saudoso, o irmão terno, o amigo ausente, o amante apaixonado, encontrarão objetos, receberão impressões que lhes façam recordar os mimos, as delícias, os sonhos, os amores de uma idade que já não é do presente. Aí eu estava, um dia, embriagado na saudosa contemplação dos meus primeiros anos. Lembrei-me da Boa Vista, antiga fazenda de meus queridos pais, onde eu dera o primeiro grito da infância, onde eu vira pela primeira vez a luz. Nela havia eu aprendido a sorrir com minha doce mãe, - a fazer-me esperto com o meu querido pai e a brincar com os meus irmãos e com meus amigos. Nela havia eu visto pela primeira vez nascer o sol e a lua, por cima da pitombeira que havia em frente da nossa casa. Nela havia eu visto pela primeira vez cantarem os passarinhos, saltando alegres pelos ramos das laranjeiras que nos davam os seus amarelos frutos. Lembrei-me que nela tivera meu pai um “touro fusco”, que fora enjeitado, feio, barrigudo e cabeludo quando pequeno; - bonito, delgado e cachaçudo* quando grande. Lembrei-me que esse touro havia conseguido muitas vitórias, por mim testemunhadas; que nesses momentos sublimes de triunfos – meu coração pulava e se expandia de gosto. Lembrei-me finalmente que aquele touro tinha um urro tão saudoso e retumbante, que eu ao ouvi-lo estremecia como a terra e tremia como os matos. Cantei esse touro em algumas oitavas rimadas. Com isto fiz mais do que arquivar uma simples inspiração: levantei, à memória desse valente e brioso animal, um monumentosinho grotesco cujos hieróglifos, talvez pelo autor somente entendidos, serão para mim uma fonte inexaurível e deleitável de belas tradições, de queridas reminiscências, de infinitas associações de idéias.”

Na outra apresentação, dirigida “Aos Leitores”, esclarece que “algumas considerações me determinaram a publicar o Touro Fusco: eu as submeto ao critério de quem m’o ler”(assim no original). Após detalhá-las, faz um reparo para que não censurem o seu gosto e adverte:

“Assim, leitores, não admireis que o herói do meu poemeto seja um touro, e que esse touro seja descrito com caracteres mais próprios da humanidade do que da alimária. Eu o descrevi a princípio – pequeno, infeliz e vituperado; depois, grande, venturoso e respeitado. Eu o descrevi – bom, arrazoado e prudente. Eu o descrevi, finalmente, grande até nos reencontros da sorte nos seus últimos momentos de vida!”

Ao final, cônscio da carga de ineditismo contida na saga desbravadora que protagonizava e prevendo possíveis petardos de incompreensão, finca os mourões do seu território lúdico e soa eloquente, profético, desafiador:

“Agora, quem ousará impor balizas ao gosto do poeta? Quem ousará cercear-lhe as asas da inspiração, para que não voe livremente pelo imenso e risonho espaço da fantasia? Eu renego o poeta que despreza ou deturpa a inspiração que lhe veio, se ela não é ofensiva à moral; porque esse, está subentendido, também renegou a sagrada missão que Deus lhe confiou”.

Os primeiros versos de O Touro Fusco bem demonstram por que José Coriolano obteve primazia sobre os versejadores de seu tempo. João Crisóstomo da Rocha Cabral extasia-se ante a obra do poeta e diz:

“E ele cantou. Cantou como ninguém mais, com tanta doçura e entusiasmo, simplicidade e heroísmo, alma religiosa, olhar panteísta, a expressão própria de seu povo. O valoroso Touro Fusco é um poemeto que ainda não teve igual em nenhuma literatura, pela audácia de cantar em versos heróicos a estória de um novilho famoso, que luta e morre como herói, e nos deixa saudades, como as figuras humanas ou semidivinas de uma epopéia homérica ou virgiliana.”

Composto de quatrocentos e oito versos, hendecassílabos simétricos e numerosos, distribuídos em três cantos iguais, cada qual com dezessete oitavas, o Touro Fusco é uma inspirada canção de louvor a um animal, símbolo da humanidade, em especial da gente humilde e lutadora. Sintamos, nos três primeiros versos, a impulsão épica, o estilo superior do nosso Camões:

I

Não vou cantar heróis, nem esses feitos

Que adornam os anais da humanidade;

Nem incensos queimar, nem render preitos

À precária e terrena potestade:

A um bruto vão meus versos feitos.

Pois que aos brutos deu vida a Divindade;

E eu, louvando do bruto o fino instinto,

Mais amor e respeito por Deus sinto.

II

Ó minha doce infância suspirada,

Que o tempo estragador levou consigo;

Terna lembrança dessa vida amada,

Que há de sempre viver, morrer comigo;

Campos em que brinquei, onde fadada

A vida me pulava sem perigo,

Fazei que, embora pobre, o meu assunto

Seja do meu sentir fiel transunto.

III

No belo Crateús, sertão formoso,

Obra sublime do Supremo Artista,

Num terreno coberto de mimoso,

Está sita a Fazenda Boa Vista”;

Do Príncipe Imperial, pravo e rixoso,

Vila do Piauí, seis léguas dista:

Ai, num massapé torrado e brusco,

Nasceu o valoroso “touro-fusco”.


Sobre aquele animal, razão do poema, emblema do povo, o poeta faz questão de pontuar:

“Se o fusco fosse gente, ele seria

Mais herói que esse herói de Alexandria.”

Em Impressões e Gemidos, a segunda obra do poeta, publicada no ano seguinte à sua morte, identificamos o invulgar poder verbal e a original força telúrica que caracterizaram seu extasiante vale poético.

O amor à argila que deu luz à sua retina está presente na poesia ‘A Virgem do Crateús’:

Há na minha província uma ribeira,

Um sertão, onde eu vi a vez primeira

Sorrir-me da existência a doce luz:

Tem o nome da tribo que o habitava,

Quando ao rude tapuia entregue estava,

Esse nome, sabei-o, - “Crateús.”

No ‘Hino à Tarde’ exsurge o homem que se entregava aos bons fluídos da meditação:

I

Tarde meiga e gentil, se tu não fosses

Mais triste que a manhã, mais melancólica,

Quantas vezes comigo meditando,

Precursora do sol te julgaria!

Mas, depois, atentando em teus langores,

Na dor, na compaixão que em ti transluzem,

Conheço o teu fadário neste mundo

Não és ditosa, - não – e só tens risos

Para o filho infeliz da desventura.

Tarde meiga e gentil, amo-te muito!

Que peito pode haver ingrato e rude

Aos influxos suaves que respiras,

Sem do passado refletir saudoso

Nos dias de prazer que já gozamos!

Ou em que em teu seio, ébrio de saudade,

Não gema e não suspire, e aos tristes olhos

Não mande um pesaroso pranto – amigo!

Oh! sim – eu chorarei, porque meu peito

Às vezes no chorar encontra alívio.

Tarde meiga e gentil, amo-te muito.


Composta de cento e vinte três belíssimos hendecassílabos, ‘A Grandeza de Deus’ é uma dessas peças que nos suscita a dúvida: será uma típica pintura mural antiga ou um envolvente quadro de poesia que nos convida ao deleite das maravilhas da Criação?!

Foi Deus, que às flores também deu aroma,

Macio e fresco ciciar às brisas,

Sibilos ao tufão, sussurro às folhas,

Brandura à fonte, correnteza ao rio;

Foi Deus que fez os mares procelosos,

Que lhes deu ondas, escarcéus e vagas,

Que às campinas deu relvas e matizes,

Ao sol fulgores, às estrelas brilho,

E à lua doce luz que a mente aplaca;

Foi Deus que deu um pugilo informe, inerte,

Fez o homem moral à imagem sua!


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Senhor! – o teu poder é grande, imenso!

O mar no-lo revela em seus gemidos,

A terra nos seus verdes atavios,

A flor no seu perfume, o sol nas cores,

As aves no seu canto deleitável,

O céu no seu azul que se marcheta

De milhões de prodígios luminosos,


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Meu Deus! Senhor meu Deus! quanto és sublime!

Ao teu gesto potente a fronte curvam

O grande, o rico, o pobre, o sábio, o néscio!

O mar que enfurecido em flor rebenta,

O bravo furacão que os bosques prostra,

A fera que rugindo atroa os ares,

O raio que resvala pelo espaço,

O trovão que estrondeia retumbando,

A nuvem que desata em catadupas

E o corisco veloz que caracola,

Tudo, tudo a teus pés, ó Deus se humilha,

Tudo, tudo a teu nome um hino entoa!


É por isso que Lucídio Freitas, em “História da Poesia no Piauí” (1918), pinta-o como:

“um delicioso evocador, um paisagista capaz de plasmar toda a grandeza triste da nossa terra. E há nas suas descrições um pequeno beijo de saudade, leve como uma pluma, apaixonado como uma carícia nupcial. Nenhum poeta de seu tempo o iguala”.

Praticamente na mesma esteira Franklin Távora sentenciou que só o grande Juvenal Galeno rivalizava com ele:

“Na fiel pintura dos costumes do norte, musa elegante, generalisadora, erudita, só encontra rival em Juvenal Galeno”.

Foi esse ser extraordinário que encantou o trineto Ivens Roberto de Araújo Mourão, ainda entre nós, e que o fez um pesquisador e organizador desse incomensurável espólio lúdico. Ivens revela que José Coriolano descende do primeiro Mourão cearense: Alexandre da Silva Mourão. Pertence, pois, à mesma frondosa árvore genealógica de Gerardo Mello Mourão, o maior Poeta do Século XX.

O trineto narra a emocionante aventura que viveu ao realizar o resgate do acervo de José Coriolano e, ao mesmo tempo em que compõe um retrato primoroso do poeta, mostra como foi se envolvendo com a sua magnética força:

À medida em que me aprofundava na leitura de suas poesias, comecei a perscrutar os mistérios daquela alma sensível. A sua filosofia de vida, o temperamento apaixonado, a grandeza interior, a imensa cultura humanística, as idéias, a capacidade de amar deste antepassado que até então era simplesmente o trisavô poeta, me impressionaram! E, o debruçar-me sobre os originais num trabalho de resgate cultural e, vezes outras, de restauração, juntando fragmentos de papéis desgastados pelo tempo, fez-me sentir remontando a minha própria história. Muitas vezes, ao transcrever uma poesia inédita há 150 anos, tinha a sensação de que o poeta estava renascendo, reescrevendo-a agora, em um computador.

José Coriolano, como disse, era um apaixonado. Um apaixonado pela vida, pela realidade que o cercava. Preocupado com os problemas políticos e sociais de sua época que, guardadas as devidas proporções, são de certa forma atuais. Era um abolicionista e republicano. Entusiasta pela natureza, hoje seria um ecologista atuante. Com sua lira, pintou-a com cores tais, que quase podemos ver as campinas, os prados verdejantes, as fontes, as flores. E, se apurarmos o ouvido, nos deleitamos com os maravilhosos trinados dos pintassilgos, rolinhas e sabiás!

(...)

Homem dotado de uma profunda fé e sentimento cristão escreveu belíssimos poemas dedicados a Deus. Porém, mesmo nas poesias comuns, a sua fé e os seus sólidos princípios morais perpassam nitidamente.

Por felicidade, encontrei uma correspondência de Ivens, datada de 11 de julho de 2001, dirigida ao Executivo Municipal. Segundo Ivens, dona Maroca Mourão, que era neta de José Coriolano, em nome da família retirou o busto da praça “devido ao descuido em que se encontrava”.

Focado no futuro, e sem demonstrar qualquer ressentimento, Ivens elenca cinco sugestões, que continuam atualíssimas:

1. Realização de um seminário literário sobre a obra de José Coriolano;

2. Colocar na Matriz, ao lado da lápide existente, um resumo da vida do grande poeta e uma de suas poesias;

3. Criação de um Memorial em honra ao Poeta (onde poderiam ficar expostos objetos pessoais, originais escritos de próprio punho, fotografias etc.) e que também poderia abrigar as obras de outros poetas;

4. Engajar a Universidade nessa empreitada;

5. Reeditar sua obra, acrescentando poesias inéditas, que chegam a quatro dezenas.

Acho que este é o instante mais apropriado para materializarmos essas sugestões.

Júnior Bonfim (em 2011, na celebração do Centenário de Crateús).

sábado, 12 de agosto de 2017

JOATAN 8.0


Um bolo, sobre a mesa central do salão de um Clube à beira do Lago Sul, em Brasília, destacava o número 8.0 e exibia decoração com partituras e versos de músicas memoráveis (‘Gracias a la Vida!’, ‘Besame Mucho’, ‘Eu amanheço pensando em ti’ ...). As paredes, enfeitadas com os dantes famosos Long Plays, que a vox populi batizou de “discos de vinil”. No palco, um grupo musical embalava os presentes com um selecionado repertório de clássicas composições dos tempos áureos do cancioneiro nacional, em que letra e música rivalizavam quanto à soberania do conteúdo. Entes queridos, amigos dos mais variados quadrantes do território nacional, ex-colegas de labor na caserna, parentes de sangue e coração formavam um humano e invisível parque de energia eólica, acionado pelos ventos planaltinos da ternura e amizade.

Era o ápice das celebrações pelos oitenta bem vividos anos de Antonio Joatan Bonfim, o quarto filho do casal crateuense Donzinha Bonfim Leitão e Raimundo Bonfim, cujo habitat era o lendário e mais antigo casarão de alvenaria da cidade. Efusivo e camarada, corpulento e generoso, Joatan, com sua dilatada fraternidade, é um imã de atração de seres vivos, um ecossistema de agregação familiar, uma porção de terra que avança sobre o mar da generosidade humana. Parece que adotou como mantra o conselho de Goethe: “Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas.”

Desde as madrugadas mais priscas até o desabrochar das modernas auroras civilizacionais, é comum vermos na entrada dos espaços sagrados - sejam eles aureolados pelos contornos das incógnitas ou revestidos pelo mármore do mistério - a construção de dois pilares, como que a reavivar as duas colunas sagradas do Templo de Salomão, símbolos de estabilidade e força.

Joatan, nome hebraico que significa Rei de Judá, é um dos fidalgos da nossa família, um dos nobres pilares de convergência e sustentação do nosso pórtico familiar. Os solfejos da sensibilidade certamente lhe foram dadivados mercê de uma maternal herança, adquirida na alfaiataria da infância, quando costumava ajudar a mãe a movimentar a inesquecível máquina de costura. Recebia pelos serviços prestados uma bela moeda, um poema de Francisco de Paula Monteiro de Barros, intitulado Igualdade Ilusória ou “Mocidade e Primavera”.
Eí-lo:

“A primavera é uma estação florida,
Cheia de imenso, divinal fulgor;
De flores enche o coração da vida,
E enche de vida o coração da flor.

A mocidade é uma estação ditosa,
Cheia de risos, de ideal prazer;
E as almas sentem um viver de rosa,
Na mocidade, a rosa do viver.

Na primavera, há profusão de cores;
As flores brotam no rochedo bruto
Depois... o fruto que há de vir das flores,
E as novas flores que hão de vir do fruto.

Na mocidade, há melopeias calmas;
Tremem dos lábios os vermelhos frisos;
Os risos cantam no brotar das almas,
Cantam as almas no brotar dos risos.

Ambas se adornam de um viver risonho,
Iguais parecem – ambas são de amor
Se a mocidade faz nascer o sonho,
A primavera faz nascer a flor.

Tão iguais parecem quando a vida as solta,
E no entretanto, elas não são iguais:
A primavera passa e depois volta,
E a mocidade não nos volta mais.”


No divinal fulgor da mocidade, Joatan deixou Crateús para cavalgar nos prados do Exército Brasileiro, principiando pelo vizinho estado da Paraíba. Ali, em uma festa de São João, sentiu arder a fogueira d’alma ao divisar a beleza de uma sulista chamada Elci Cardoso Machado, com quem firmou um consórcio amoroso com selo de definitividade. Renovando o idílio há mais de cinquenta primaveras, o casal – que gerou Symone Maria, Carlos Antonio, Silvio Eduardo e Anna Izabel – adora receber e alegrar, servir e confraternizar.

Em sua longa peregrinação cívica e patriótica nas colunas do Exército, Joatan firmou laços de camaradagem e colecionou amizades duradouras, que perduram até os dias atuais.

Essa sua inclinação gregária o tornou um garimpeiro das esmeraldas da sua linhagem que estavam perdidas nos minérios do anonimato, um dos principais bandeirantes na exploração da floresta familiar, um autêntico “caçador de Bonfim”. Resgatou crônicas antigas, alfarrábios perdidos, preciosos manuscritos, minuciosas anotações e saiu recompondo raízes e folhas da nossa oiticica genealógica, nascida nas barrancas do Rio Poty. Depois, passou esse material às delicadas mãos de sua prima Maria Olivia Beserra Macedo, que nos brindou com o belo livro “Bonfim & Bezerra – No Início Uma Só Família”.

Estimado Joatan, que nos próximos oitenta anos, continues ostentando a intrínseca vitalidade e a espontânea jovialidade de quem ergue os olhos aos céus e movimenta os lábios, em solene gratidão, para dizer ao Criador: “Gracias à la Vida, que me ha dado tanto...”

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Boaventura Bonfim disse...

Estimado primo Júnior Bonfim:

Pleno de emoção, parabenizo-o por essa pérola literária, haurida de uma das mentes mais prolíferas da literatura cearense, senão brasileira.

Nosso dileto primo Joatan Bonfim, um dos maiores musicófilos e um dos seres humanos da alma mais leve que conheço, merece esse primoroso regalo e todas as dádivas do mundo.

Boaventura Joaquim Furtado Bonfim

Fortaleza, Ceará.

13 de agosto de 2017 01:46


DATAS GALAXIAIS


Há datas que são galaxiais. Embora únicas, circulam pela via leitosa e constituem uma aglomeração de estrelas, um conjunto imorredouro de fulgurâncias.
A data de nascimento é uma delas.

Talvez seja porque a relembrança da data em que nascemos nos remeta ao mais íntimo e profundo de nós mesmos, refazendo o itinerário fantástico que nos fez romper com a cápsula de ternura, com a nave de conforto protetivo, com a bolsa de afeto do útero materno e permitiu que abríssemos os olhos marejados para o espasmo do universo, para o espetáculo da existência, para o êxtase da vida!

É por isso que, movidos por uma manivela invisível, somos estimulados a celebrar natalícios.

Hoje nos reunimos ao redor de uma dessas atrativas molduras de tempo.

É a festa de aniversário do nosso nascimento coletivo em uma instituição em que sobranceia a bela insígnia do serviço à humanidade. Nosso edifício constitutivo está assentado sob as colunas entrelaçadas do companheirismo e nosso átrio convida ao exercício do auto conserto e da renovação por uma prova quádrupla que nos impulsiona a relações lastreadas no respeito, na compreensão e na tolerância.

Quis o Acaso, aquela protetora Força Superior, que nascêssemos para o companheirismo rotário em um 18 de maio, o mesmo dia em que, no ano de 1920, nasceu Karol Józef Wojtyła, o São João Paulo Segundo, coincidentemente o patrono na Academia Brasileira de Hagiologia do nosso querido e estimado fundador Seridião Correia Montenegro.

A mim me coube falar sobre esta Medalha que, desde 2015, a cada festa de aniversário é outorgada.

A “Medalha José Freire de Sena” é destinada a laurear rotarianos com postura destacada em favor do desenvolvimento e progresso do companheirismo e da fraternidade.

O Companheiro José Freire de Sena, que passou para o platô espiritual dia 29 de dezembro de 2014, foi um dos maiores estimuladores dos postulados de fraternidade e companheirismo no âmbito do nosso Clube.

Nas veias do cidadão de fulgurante álbum curricular - Advogado, Professor Universitário, Consultor de estratégia e gestão de negócios e investimentos privados internacionais – corria o sangue azul da nobreza feita companheirismo.

O poliglota Freire – que falava e escrevia com fluência e proficiência o Espanhol, o Francês, o Inglês, o Alemão e com extenso conhecimento do Latim, dominava, em especial, a linguagem simples do amor e da amizade.

O executivo de projeção e com vasta experiência internacional era um entusiasta do Rotary porque era nesta Instituição que vislumbrava o maior tesouro: dar de si antes de pensar em si.

A sólida formação religiosa cristalizou na alma do cristão Freire de Sena os altos princípios que devem nortear a existência de um bom varão: o ardor profético, o labor ético, o pendor estético!

A “Medalha José Freire de Sena” tem o objetivo de manter acesa, entre nós, a centelha memorável de um companheiro exemplar!

Por isso, nesta noite de memorável fulgurância, estremeço de emoção para anunciar que neste ano da graça de 2017 o agraciado, por deveres de consciência e razões do coração, é Seridião Correia Montenegro.

Foi Seridião o responsável pela tarefa delicada de arregimentar pessoas, escriturar papéis, realizar contatos e remeter para o banco de sêmen do Rotary Internacional o embrião do Rotary Clube de Fortaleza Dunas. Como o cantor Ednardo, ele carrega musicalmente nas veias o espírito original do nosso Clube: veio das dunas brancas, tem a mão que aperreia, tem o sol e a areia e é da América. Ou pela nata do lixo ou pelo luxo da aldeia, é do Ceará. Na aldeia ou na aldeota, está sempre batendo na porta, pra nos aperrear, pra nos aperrear... Sempre de olho à frente, ou na praia do futuro, onde para o velho e o novo, são os olhos do mar. Olhando a vida espalhou que, na praia, luzindo na madrugada, os braços e corpos, devem estar falando amor.

Por reverência ao altar da história, por amor à janela do anúncio, por impulso de gratidão, devemos consignar que Seridião era para ter sido o primeiro a receber as honras desta Medalha. Se isso não ocorreu, foi por culpa dele mesmo, que na sua extensa generosidade sempre teve a iniciativa de sugerir outros nomes. Este ano nós o driblamos. Omitimos a submissão do nome do agraciado à sua apreciação.

Seridião, responsável pelo alicerce fundacional e pela pedra filosofal desta Confraria do Servir, conseguiu desbancar a máxima de Nelson Rodrigues e provar que é possível – e de maneira decente – a construção de uma unanimidade inteligente. Não vou fazer referência ao álbum de ações, não vou mencionar a extensa trilha de serviços prestados por Seridião a este lar de companheiros. Em outra oportunidade já disse que nos cômodos das palavras jamais caberão os latifúndios afetivos que ele logrou matricular no cartório sagrado do nosso coração.

Aniversariante individual de antes de ontem, aniversariante coletivo de hoje, afilhado de São João Paulo Segundo, Companheiro e Irmão, Parabéns, Seridião!


(Júnior Bonfim - discurso proferido por ocasião da entrega da Medalha Freire de Sena para Seridião Correia Montenegro, na festa de aniversário do RCF DUNAS, em 18.05.2017)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

FELIZ ANIVERSÁRIO, CRATEÚS!


Existem vínculos que subsistem ao caminhar das eras. São imorredouros, eternos.

Como olvidar a protetora cavidade materna que, durante meses, foi o nosso refúgio terno e profundo antes de abrirmos os olhos ao latejar do mundo?!

Como esquecer o pedaço de chão que serviu de fraterno abrigo para que enterrássemos o cordão do nosso umbigo?!

Carregamos indelevelmente, no pomar do coração, o aroma da terra que nos pegou pela mão.

Mãe e terra, incansáveis germinadoras, fábricas de vida, explosões de rebentos, incubadoras de sementes selecionadas...

No próximo 06 de julho vamos proclamar louvores à terra de José Coriolano. É mais um natalício de Crateús. É um momento de abrirmos o baú memorial, retirarmos os retratos antigos e relembrarmos a imagem do nosso nascedouro.

Não temos escrituras dos índios, nossos antepassados mais remotos. Nas cabeceiras do rio Poty encontrava-se uma das duas dezenas de tribos indígenas do esquadro territorial denominado Siará. A tradição oral registra que eram índios amantes da festa e da alegria. Em tudo viam motivo para comemoração. (Talvez por isso a gente que aqui habita é vibrantemente festiva. A cidade já ostentou título de uma das urbes com vida noturna das mais agitadas do interland cearense.)

O povoamento branco destas terras principiou no meio do século XVII. No século seguinte estas terras foram adquiridas por Dom Ávila Pereira, da dinastia da Casa da Torre, na Bahia.

Crateuenses, temos raízes baianas!

Crateús integrava o imenso latifúndio comandado da Bahia pelos descendentes de Garcia D’Ávila. A Casa da Torre, sede dos então proprietários destas glebas, é o único castelo medieval existente no continente americano e está em processo de restauração. Localizado ao lado da Praia do Forte, dista cerca de cinquenta quilômetros de Salvador. Foi construído a partir de 1551 por Garcia D’Ávila Pereira, o almoxarife real que chegou ao Brasil com a expedição de Tomé de Souza, o primeiro Governador Geral do Brasil, que veio para fundar a cidade que hoje é a capital baiana.

Da Bahia também veio para Crateús a imagem do nosso Padroeiro, Senhor do Bonfim. A tradição de celebrar e festejar o Senhor do Bonfim, no Brasil, relaciona-se com a figura de Teodósio Rodrigues de Faria, Capitão de Mar e Guerra da Marinha Portuguesa, nascido na cidade de Setúbal, donde se originou a devoção ao Senhor Bom Jesus do Bonfim.

Em 1742, ao enfrentar uma tempestade, o Capitão Teodósio, fervoroso devoto do Senhor do Bonfim, fez uma promessa: se escapasse com vida daquela turbulência, traria para o Brasil a imagem do Santo.

De retorno a Salvador em 18 de abril de 1745, o capitão Teodósio trouxe consigo uma imagem do Senhor Bom Jesus do Bonfim em pinho de riga medindo 1,06 metro de altura.

Em 1792, quarenta e sete anos após sua chegada a Salvador, uma réplica da Imagem foi transportada, nos ombros de escravos, para a Capela da Fazenda Piranhas (hoje Crateús). 38 anos depois, já no século seguinte, nascia Alexandre Ferreira Santiago, cujo nome – por influência de uma tia que residia atrás da Igreja, viria a ser alterado para Alexandre Ferreira do Bonfim, tornando-se Patriarca de uma nova família, a família Bonfim.

Essa festa de aniversário é, também, um momento de nostálgica reflexão. Além de relembrarmos nossa herança indígena, que nos bafejou com essa índole festiva e boêmia, cabe também relembrarmos a sincrética mística de fé e luta que nos tocou do legado baiano com sua faceta libertária. Não por acaso Crateús sempre hasteou, com destacado fulgor vanguardista, a bandeira das liberdades democráticas.

Por isso o momento é propício, também, para crisma, sacramento de ratificação da graça batismal de poder sonhar. Sonhar com que esta cidade seja – como era para os antigos gregos - um espaço seguro, ordenado e pacífico, onde os homens possam se dedicar à busca da felicidade, à construção da dignidade, à insuflação do amor, à propagação da esperança e à ampliação da paz!

Feliz Aniversário, Crateús!


terça-feira, 20 de junho de 2017

OITO ANOS DA ACADEMIA DE LETRAS DE CRATEÚS!


O poeta, romancista, dramaturgo e estadista alemão Johann Wolfgang von Goethe certa feita advertiu que o artista tem de ser original. E explicou: “original é o que brota das origens”.

Sem ter a imodéstia de ser original, foi para as nossas raízes mais priscas que direcionei o pensamento por ocasião da Solenidade, realizada na Câmara Municipal, que homenageou os oito anos da Academia de Letras de Crateús – ALC.

Perquiri mentalmente o ponto de partida dessas confrarias que albergam os amantes das letras.

Registros históricos dão conta que, nos arredores de Atenas, havia um espaço com uma ampla residência, uma densa biblioteca e um bosque sagrado de oliveiras dedicado a Atena, a deusa da sabedoria. Nessa ambiência, ao redor de 300 anos antes de Cristo, estremeceu a primeira Academia, assim denominada em louvor a Academus - herói ateniense da guerra de Tróia.

Talvez até sem verbalizar isso, mas naquele espaço com três instituições distintas (casa, livros e jardim) encontramos os três vértices essenciais do triângulo literário: a interação mítico-sócio-ecológica – sintetizada pelo bosque sagrado; o fermento de ideias que habita o pão das palavras – cujo símbolo é a biblioteca; e a intimidade congregacional entre os seres – tão bem representada pela edificação residencial.

Com esse estuário na mente, proferi três palavras na Sessão Solene que marcou os oito juninos exercícios da ALC.

As primeiras foram sílabas de gratidão pela realização do evento, seguidas de um apelo às autoridades e à população: está na hora de pensarmos em erigir uma sede para a Academia de Letras de Crateús que esteja à altura do seu contributo à cidade. A ALC, em que pese ser um patrimônio imaterial, merece ser agraciada com um ponto físico referencial. De preferência, em um local estratégico, com jardim e biblioteca.

Na sequência opinei sobre aquilo que considero uma das razões para o sucesso da nossa Arcádia: o peitoral generoso do ecletismo, o seu estrelado firmamento voltado para a agregação, a magnética e acolhedora cortina da pluralidade!

Fundado em um 13 de junho, dia em que celebramos Antonio, o Santo do Matrimônio, o Sodalício de Letras Crateuense armou uma fogueira de sabiá e se instalou no invisível e sábio terreiro sertanejo que une a elaboração erudita e a rima inaudita, o fino papel e o popular cordel, a concepção vocálica rebuscada e a singela construção da palavra despojada. Com efeito, trocou alianças definitivas entre as atuais e vindouras gerações de discípulos das musas, os catadores dos fonemas que bailam sobre o leito do Poty.

Por fim, mencionei aquilo que, para mim, é indiscutivelmente visível, cristalinamente palpável: o contributo da ALC à mobilização da inteligência, à florada cultural, à insuflação de rebentos literários e, sobremaneira, à recuperação da nossa linha memorial, à reposição das nossas torres históricas.

Por ocasião das comemorações do centenário da Cidade, a ALC, após uma longa gestação, presenteou os conterrâneos com o livro CRATEÚS: 100 ANOS! – quatrocentas e uma páginas de hercúleo trabalho, amalgamando lavor e louvor, materializados em febril pesquisa e terna dedicação.

Constantemente os memorialistas da ALC – através do Jornal Gazeta do Centro Oeste, da Revista Gente de Ação ou da internet – brindam-nos com a reposição de fatos e cousas do passado, devolvendo-nos os elementos essenciais para a recuperação da nossa memória coletiva.


Para citar apenas uma de suas ações: a ALC – por intermédio dos acadêmicos Flávio Machado, Edmilson Providência e Raimundo Cândido – devolveu à praça principal da cidade o busto do doutor José Coriolano de Sousa Lima, um dos maiores gênios da poesia no século XIX. Nascido na fazenda Boa Vista, quando Crateús era conhecida por Vila Príncipe Imperial, Coriolano foi um fidalgo das letras que teve a graça de alcançar os píncaros da glória. Cursou direito na lendária Faculdade de Direito do Recife, a top do Brasil naquela época, e depois teve atuação destacada no Maranhão e no Piauí. Magistrado, poeta, político, jornalista. Foi deputado provincial pelo Piauí, por duas legislaturas, e presidente da Assembleia Legislativa. Participou ativamente da imprensa no Recife e Teresina. Foi eleito Príncipe dos Poetas Piauienses (pois à época em que viveu Crateús pertencia ao Piauí) e foi considerado o fundador da literatura piauiense.

Só um povo com a história na mão, é capaz de unir consciência e coração. Só quem repõe a própria trajetória, obtém a vitória da memória! Só um povo que conhece o próprio sumo, é capaz de trilhar um rumo com prumo.

Os escritores e seus coletivos organizados, as Academias, servem exatamente para isto: para colaborar na consecução dos maiores desejos dos terrestres, para alimentar os maiores sonhos dos humanos: a conquista da terra prometida, onde escorre o leite da paz e o mel da felicidade!


Viva, pois, Academia de Letras de Crateús – ALC!


(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará).

segunda-feira, 5 de junho de 2017

VINTE ANOS DA GAZETA!

Este Jornal completa duas décadas! Vinte agalopados anos deitando mourão. Vinte maios martelados de ação, formação e informação. Nascido de um João, foi mantido por um César. Guarda a aura mensageira do primeiro; conserva a marca de combatividade do segundo.

Revisitando seu repositório, encontramos um empório de idéias, um fluxo frenético de sangue vital que percorre as veias de suas páginas! Nenhum grande tema, nenhuma pauta estratégica, nenhum assunto de vulto (histórico, cultural, político e social) passou ao largo da linotipia do mais longevo Jornal erigido na orla do Poty.

Como descurar o contributo desta Gazeta ao nosso livramento memorial, ao retirar da clausura fatos e cousas do nosso passado?!

Quem não vibra o coração com a leitura das Crônicas e dos flashes do passado, que nos repõem momentos áureos da vivência coletiva desta Urbe?! Quem não se deleita com as viagens sentimentais pelos campos do nosso passado coletivo?! É óbvio que esse contributo no presente, por mais modesto que seja, constitui uma colaboração ativa para a construção efetiva de um melhor e mais afetivo futuro. Nessa empreitada de mergulho na lagoa da nossa História, de conservação das compotas de nossas raízes, destacam-se o próprio Cesar Vale e um memorialista que este periódico revelou: Flavio Machado!

Nos dormentes da cultura, na estrada de gitiranas das letras, este jornal ostenta posição de vanguarda.

Registre-se: aquela que talvez tenha sido a mais bela flor de germinação cultural da nossa cidade nos últimos tempos, a fundação da Academia de Letras de Crateús (ALC), ocorreu na estrumeira deste Quinzenário. Com a ALC, nossa terra, sacudida por gigantescas adversidades, estonteada por tantas frustrações políticas, castigada por intempéries, na contramão das opressões econômicas, à margem do fulgor capitalista tem assistido florescer talentos de toda sorte, humildes e valorosos atletas da criatividade, que correm as pistas olímpicas das artes com as tochas da inteligência e do saber. Esta Gazeta associou-se à tarefa fundamental de proporcionar a Crateús o ajuntamento, na mesma e invisível Catedral de Cultura, dos escritores de todos os sons, dos poetas de todos os sonhos, dos que batizam os seres e que nomeiam todas as coisas.

Qual de nós não testemunhou este Jornal realizar a elevação, altiva e solene, do estandarte cor de arco-íris em defesa da nossa fauna e da nossa flora?!

Como olvidar a comoção suscitada pelas fotos que exibiam as lágrimas de árvores desarrazoadamente decepadas?!

É possível deixar cair pela boca de lobo do esquecimento as catilinárias lançadas contra o desleixo oficial?!

Como não reconhecer que pairam, nas serras das nossas consciências, os ecos dos reptos lançados contra o alarido irracional, a barulheira excessiva, o afronta ao direito à tranqüilidade do próximo?!

Por várias vezes este púlpito de imprensa foi submetido a testes de coragem e ousadia, que puseram à prova a própria sobrevivência do órgão. Poucos imaginam quão engenhosa, quão delicada e quão exigente é a missão de manter a entrega periódica desta gazeta.

O itinerário para que este Jornal chegue aos vossos lares constitui um verdadeiro ritual de imolação, real ou simbólica, em que o sacrifício dos que o integram, em especial o seu editor chefe, é oferecido.

Esta publicação é patrimônio coletivo. Urge ser tombado pelo Parlamento das consciências dos crateuenses que residem aqui e alhures. Ele é um precioso espaço de armazenamento e bombeamento de angústias e sonhos de um povo que teima em manter-se sob estado de sonho, embalado pela valentia da esperança!

Crateús, esta pequena palma de terra que um dia se inseriu no mapa como a tribo dos Karatius, que conquistou contornos imperiais de Vila e, como uma Princesa delicada, construiu um reino sui generis, precisa fazer um gesto reverencial de reconhecimento e valorização do contributo do Jornal Gazeta do Centro-Oeste à história, à cultura, à política e à vida social da nossa região.

Que melhor presente poderíamos oferecer a esta Gazeta por ocasião do seu natalício do que uma reflexão sobre a atualidade da higienização das nossas relações?

Impõe-se não nos afogarmos no rio contaminado da pusilanimidade.

Impõe-se que assumamos, sob o bálsamo da cautela e do silêncio, a atitude de nos renovarmos interiormente.

O mais belo e precioso presente que poderemos oferecer, além da imprescindível sobrevivência físico-financeira, consiste em procurarmos realizar, dentro dos nossos corações, a mudança que sonhamos para a terra que amamos, que é a razão de ser deste Jornal.

Vida longa e próspera à Gazeta do Centro Oeste!

(Júnior Bonfim, em 30.05.2017, na edição de aniversário do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

sábado, 13 de maio de 2017

BELCHIOR


Notícias há que nos abalam as colunas d’alma, fazem lacrimejar os olhos do coração, emudecem os lábios do espírito...

A partida de Belchior foi uma delas. Melhor: Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Ou, como ele, sorridente, gostava de dizer: o maior nome da Música Popular Brasileira. Brincadeiras à parte, trata-se realmente do mais alado e elevado letrista germinado no Brasil dos últimos cinquenta anos.

Como Robert Allen Zimmerman, o Bob Dylan, ele inseriu nas partituras da MPB um idioma diferenciado, com novos contornos de expressão poética.

O seu amigo e contemporâneo Guilherme Arantes bem pontuou: “Belchior, que eu não canso de homenagear de todas as maneiras, foi e sempre será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu. Uma mente privilegiada em cultura e de talento cortante e visceral”.

Porém, não era apenas a sua inventividade apocalíptica, a floração de versos com mensagens revolucionárias, que me impressionava. Era, sobretudo, sua capoeira de sensibilidade, sua profunda ternura para com a singeleza, sua paixão para revestir com charme e elegância as situações mais simples. Em seu primeiro grande sucesso, Mucuripe, ele já sinalizava essa capacidade extraordinária ao revelar que, mirando o paletó de linho branco, via, antes, a flor do algodão: “Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo ainda era flor” ...

O ex-seminarista, que também perambulou no campus da Faculdade de Medicina e, depois, divagou pelos pátios da Filosofia, carregava no mais íntimo de si mesmo aquela inquietude particular dos reitores do espírito, dos enamorados da sabedoria, dos garimpeiros de asas, dos mineradores de sonhos.

Era temerário, assaz temerário imaginarmos que ele seguisse a saga dos iguais, o roteiro dos comuns, a trilha dos mortais. Eis o óbvio: um homem que imaginava serem seus os braços que se abrem no Corcovado jamais se quedaria conformado às injustiças mundanas, à engrenagem perversa desse mecanismo inexplicável do massacre de uma alma humana por outra humana alma. A barbárie das relações, o embrutecimento do cotidiano, o império da força feriram profundamente a camada mais sensível da sua pele poética. Com efeito, ‘mais angustiado que um goleiro na hora do gol’, ele constatou que ‘veio o tempo negro e, à força’, fez com ele ‘o mal que a força sempre faz’.

Mesmo assim, resolveu ‘viver a Divina Comédia Humana, onde nada é eterno’. Para os que diziam que estava vendo estrelas, ou que perdera o senso, resolveu afirmar que ‘enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto’.

E o menino – ‘alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais’, que ‘adoçava o pranto no bagaço de cana do engenho’, criado entre ‘galos, noites e quintais’ - resolveu nos falar não das coisas que aprendeu nos discos, mas de como viveu e tudo o que lhe aconteceu. Desiludido com os ídolos, que ainda são os mesmos, desenganado com as aparências, que não enganam mais, proclamou que ‘viver é melhor que sonhar’ e confessou sua profunda dor: ‘saber que, apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais’.

Certamente, por tudo isso é que Belchior escolheu os últimos outubros de sua caminhada terrestre para viver como havia iniciado seus passos da juventude: enclausurado. Na aurora da vida, pensava em se entregar à clausura teológica; no crepúsculo, à clausura filosófica. Em ambas pedras pensativas se destacava o mesmo diamante, a mesma fulgurância verdadeira: o mineral da complicação, a esmeralda labiríntica, o magnetismo do surreal!

Como Franz Kafka, o maior escritor Tcheco, que só recebeu a coroa da glória após a morte, Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi batizado para viver a sina do sucesso póstumo.

No nosso cancioneiro alguns reis magos da composição conseguiram a façanha de nos presentear com melodias bonitas, nas quais reluzem o ouro da filosofia, o incenso da profundidade e a mirra da reflexão. São profetas que nos apontam a estrela de um outro Reino. Suas músicas se incorporaram às partituras do nosso platô mais altruísta. Da clausura, a luz de Belchior ilumina todos eles.



DIDEUS SALES – POETA DE TERRA E LUZ!

As águas de abril nos trouxeram Dideus Sales, um poeta de terra e luz nascido no segundo dia do quarto mês do ano. O poeta da emoção, que realizou a façanha de unir mar e sertão, é um confeccionador de asas poéticas em formato de flor e companheiro de lavra no roçado civilizatório do amor! Quando o calendário avisa que é o seu aniversário, os amigos são silenciosa e invisivelmente convocados para a celebração vital. Este ano, não sem resmungos lamentosos, não saboreie a fruta da amizade comemorativa. É uma doce rotina, como rotina também é o momento em que nos abre um novo livro, cuja soma JÁ ultrapassa mais de duas dezenas. É... Rotina... Porém, a retina da rotina não há que ter necessariamente um veio pejorativo. Pois, tudo é rotina. Em defesa da repetição, ou da rotina, Gerardo Mello Mourão proclamou que “só há uma forma boa de gerar um ser novo no ventre de uma fêmea: repetir o ato imemorial de Adão em cima de Eva, com um movimento entre a cintura e as ancas. O resto é inseminação artificial. A repetição gera o novo.”

Nesses últimos tempos tenho me interrogado a respeito da aura que circunda a poesia. O que vem a ser esse cantante, encantado e encantador fenômeno? Parece-me que Poesia é tudo aquilo que nos torna essencialmente mais humanos, nos aprofunda no humanismo ao ponto de nos aproximar do divino. A poesia é a divinização do humano. Nessa esteira, o primeiro e maior poeta é Deus, que com seu sopro mágico desenhou o universo, a magnitude da natureza, a comunidade dos seres vivos. Nessa trilha, todos somos ou podemos ser poetas. Os que desenvolvem a arte de concatenar os fonemas musicais, as obras arquitetônicas das estrofes arrebatadoras nada mais são do que sonoros instrumentos que o Poeta original distinguiu com a missão de apontar, como guias abençoados, as trilhas de Orfeu. Por isso que o amazônico Thiago de Mello proclamou: Não somos melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa.

Em meio às notícias desairosas sobre a aridez de lideranças, ao deserto de nomes emblemáticos, relembramos com reverência um poeta que se fez líder global, herói maiúsculo, libertador singular, gênio da paz: Nelson Mandela!

O Dragão do Mar Africano, sem escrever poesias, foi um poeta militante, que na solidão da masmorra, na escuridão do cárcere, repetia um mantra: Não importa quão estreito o portão/ Quão repleta de castigo a sentença, / Eu sou o senhor de meu destino/ Eu sou o capitão de minha alma.

Mandela carregava na sua jangada existencial a lanterna da poesia. Senhor do destino, capitão da alma, general do coração e soldado da consciência, colonizou projetos pessoais e grupais e delineou um projeto de sociedade em que os seres não estavam apartados pela cor da pele, em que um governante não precisava demonizar o passado, em que os homens pudessem compartilhar civilizadamente o mesmo espaço social.

Quando dispunha do pescoço dos algozes e dele esperaram as correntes da vingança, estendeu a cadeira da reconciliação e ofereceu o banquete da paz. Quando lhe franquearam a continuidade no poder, lançou o manifesto do desapego. Era um homem superior, sintonizado com a melodia celeste. Como político, atuou não em função de uma parte ou de um partido, mas com uma invulgar compreensão de totalidade.

Era um homem, do ponto de vista ético, da melhor estatura, com visão de Estado. Um verdadeiro estadista. Poeta é, pois, todo aquele que se dispõe a romper os grilhões dos formalismos estéreis, das convenções descabidas, dos debates inúteis, do cotidiano infrutífero, da pusilanimidade dominante.

Poeta é aquele que, em qualquer barco de sonho, ultrapassa as ondas da superfície e alcança o espaço tranqüilo das águas profundas do oceano da vida. Dideus merece ser festejado porque é um desses desassombrados padeiros da massa poética.

Mello Mourão dizia que o poeta tem que ser assim: essencialmente poeta. De resto, tinha razão Rilke: cantar é ser. Às vezes somos forçados a fazer outras coisas na vida. Gerardo confessa ter tido a necessidade de exercer atividades as mais díspares na vida, como a política partidária e outras aventuras. Mas considerava tudo isso "adultério" à sua musa permanente, a poesia.

Dideus luta incessantemente para guardar fidelidade à poesia. Comete, vez por outra, alguns adultérios: ora edita uma Revista, ora se embrenha na produção rural, ora se entrega à intimidade de um microfone de rádio.

Todos esses ‘pulos de cerca’ são perdoáveis, porque ele é um incorrigível amante da poesia. E está sempre renovando esse matrimonio sagrado. O seu livro Poemas Telúricos é um delicado registro cartorial da renovação desses votos de amor. Telúrico vem de terra. Por isso fiz questão de consignar que a lírica desse fraterno filho da argila tem a altivez das carnaúbas, o perfume do mufumbo, a sombra do juazeiro, o desabrochar gratuito das jitiranas, o tempero do manjericão.

Um pequeno relato final. Johann Christian Friedrich Hölderlin, poeta lírico e romancista alemão, certa feita foi instado pela mãe a deixar esse negócio de poesia. (Sua genitora considerava isso um tanto perigoso, além de impedi-lo de viver uma vida normal). Em resposta, ele escreve à mãe: “a poesia é a coisa mais inocente do mundo.” Inocente, em alemão, é "unschuldig", que quer dizer uma coisa não-culpada, isenta de culpa. Em latim, “inocens” significa algo que não prejudica. Nocere é ser nocivo, prejudicar. Inocens é aquilo que não prejudica a ninguém e a nada.

Aprendamos com esse poeta terrestre, telúrico, a lição essencial da poesia: passar por essa vida insuflando a alegria, lançando sementes de sonho no coração dos nossos semelhantes e evitando causar prejuízos às coisas e às pessoas.

Parabéns, Dideus Sales, um Pereira de Jesus, rebento do rio Poty de Crateús, poeta de terra e luz!

sábado, 8 de abril de 2017

QUARTO CARNAVAL PÓS RENÚNCIA


Fevereiro de 2013. Era pleno Carnaval, festa dionisíaca por excelência, quando o mundo foi surpreendido com a notícia de que Sua Santidade, o Papa Bento XVI, havia tomado a ousada decisão de renunciar. Perante o Consistório, assembleia de cardeais por ele convocada, o Papa fez a solene declaração.

O Papa renunciou. Abdicou do anel de ouro, das vestes exuberantes, da solene chefia de Estado, do comando mundial da Igreja, dos reverentes cortejos de beija-mão, do orçamento bilionário, da pomposidade do trono de Pedro.

Nunca a assertiva profética de que o Autor Celestial insere sua escritura luminosa em pergaminhos obscuros foi tão verdadeira. Aqui, elegeu para protagonizar o ato pessoal mais desconcertante e revolucionário da Igreja nos últimos tempos exatamente um Papa que sempre exibiu o rótulo de conservador e reacionário.

Um pastor tido e havido como apegado ao poder pratica o gesto extremo de desapego...

Além de líder espiritual, o Papa é chefe de Estado, comandante maior de um poder terreno, temporal, secular. Renunciar ao Papado é, também, abrir mão de um império político e econômico.

O anúncio deixou estonteados tanto os que o admiram quanto os que o repulsam. A decisão de renunciar soou não como um ato de covardia, mas de coragem. Indiscutivelmente, um voluntário gesto libertário!

Pois é o apego, sobretudo o apego ao poder que nos torna presas fáceis e nos impede de seguir a trilha da liberdade!

Lembra sobre como se pega macaco na Índia?

Lá, toma-se um coco grande e nele se faz um buraco de tal forma que só entre a mão do macaco com certo aperto. Amarra-se o coco num tronco e lá dentro do coco se colocam torrões de açúcar para atrair o bicho. O macaco mete a mão e agarra o torrão de açúcar. Tenta retirar a mão e já não pode mais porque não quer largar o torrão. Pelo apego, é facilmente apanhado.

Segundo os Budistas, o desapego é essencial para o caminho da iluminação.

Há uma famosa história zen que é muito elucidativa disso. Um mestre e seu discípulo estavam a caminho da aldeia vizinha quando chegaram a um rio caudaloso e viram, na margem, uma bela moça tentando atravessá-lo. O mestre zen ofereceu-lhe ajuda e, erguendo-a nos braços, levou-a até a outra margem. E depois cada qual seguiu seu caminho. Mas o discípulo ficou bastante perturbado, pois o mestre sempre lhe ensinara que um monge nunca deve se aproximar de uma mulher, nunca deve tocar uma mulher. O discípulo pensou e repensou o assunto; por fim, ao voltarem para o templo, não conseguiu mais se conter e disse ao mestre:

— Mestre, o senhor me ensina dia após dia a nunca tocar uma mulher e, apesar disso, o senhor pegou aquela bela moça nos braços e atravessou o rio com ela.

— Tolo – respondeu o mestre – Eu deixei a moça na outra margem do rio. Você ainda a está carregando.

O apego é escravizador; o desapego, libertador!

O apego transforma a nossa existência em uma imensa cisterna abandonada, sem circulação vital, com a energia parada.

A água parada é um exemplo nítido dos efeitos do apego: cria substâncias lodosas, bactérias, contaminação. Por isso muitas pessoas resistem em descer aos porões de casas antigas: a energia ali estagnada incomoda.

A vida é pulsação constante, troca energética, circulação de afeto, mudança de padrões, renovação permanente.

O desapego libera a cristalina e generosa água corrente da vida! Pratiquemo-lo!

(Júnior Bonfim, Carnaval de 2017)

PADRE HELÊNIO


A cultura grega, dita Helênica, sempre foi uma olaria de esplendor e um farol referenciador para as demais civilizações. A partir da combinação entre solenidade e profundidade, ética e estética, nobreza e beleza, os gregos erigiram monumentos à virtude e edifícios ao humanismo assentados nas colunas do equilíbrio, da harmonia, da ordem e da moderação.

O estuário simbólico lapidado pelos gregos – o panteão mitológico, o encadeamento arquitetônico, o exercício compreensivo da polis e o manancial filosófico – tinha uma razão e um sentido, um leito a ser percorrido e uma foz a ser atingida: o enobrecimento da humanidade.

Tivemos, entre nós, até o último 17 de janeiro, um varão que encarnava a Cultura Helênica. Aliás, era Helênico até no nome: José Helênio Oliveira Pereira. E o nome diz muito sobre ele. José, nome bíblico, que auspiciou o pai de Jesus, significa “aquele que acrescenta”. Helênio, de Helênico, do grego hellenizein – quer dizer ‘viver como os gregos’. Oliveira (em hebraico zayit, que significa oliveira, azeitona), é uma árvore de profundo significado espiritual. As oliveiras, que rodeiam as montanhas na Galileia, Judeia e Samaria, são constantemente citadas nas Sacras Escrituras, inclusive no Evangelho, que menciona o Cristo no “Monte das Oliveiras”. Pereira, originalmente “árvore que produz peras” e, entre nós, madeira de boa qualidade.

O Padre Helênio absorveu os pontos cardeais do antropônimo. Como um bom José, acrescentou e muito, pois poeta, aprendeu que ‘o amor reparte, mas sobretudo acrescenta’. Helênio cultuou a cidadania plena, como os gregos da antiguidade, que beberam no nascedouro da democracia. Este Oliveira, assim como a árvore do mesmo nome, que cresce e vive bem sob qualquer solo, mesmo pobre e seco, brindou o mundo com o azeite da fecundidade. Era um legítimo Pereira, tronco que se fez piano nos templos da Diocese de Crateús, produzindo litúrgicos hinos de amor.

O decano da Diocese do Senhor do Bonfim cantou ou chorou inicialmente sob a brisa do rio Acaraú, na cidade de Cariré, no dia 15 de abril de 1929. Era fino nos modos e nobre nos pensamentos. Apreciava a Boa Nova, da qual se fez Mensageiro, e adorava compor partituras poéticas. Recebeu a unção sacerdotal do bispo-conde de Sobral, D. José Tupinambá da Frota, no abençoado dia 08 de dezembro de 1953.

Padre, após uma rápida passagem pela paróquia de Senador Sá, foi arrastado da ribeira do Acaraú para a ribeira do Poty, na qual se hospedou por toda a existência terrena.

Com a visão dilatada e a sensibilidade convivencial dos grandes homens, nadou com habilidade em meio às correntezas e os redemoinhos ideológicos do período inicial mais crítico da Diocese de Crateús. Afastou as ondas tempestuosas e as turbulentas intempéries segurando o cajado da serenidade.

Guardo dele um episódio fraterno, um diálogo afável. Era o dia 11 de setembro de 1985. Estávamos na calçada do Palácio Episcopal e mirávamos as torres da Catedral. Após um momento de silenciosa contemplação, iniciamos uma fala sobre a invisível catedral da poesia. Indagou-me se eu estimava uma moldura especial de poema, constituído de dois quartetos e dois tercetos, denominado Soneto. Disse que sim. (Soneto, para mim, é uma gaiola dentro da qual o pássaro é desafiado a cantar a liberdade do voo). E ele me instigou: - vamos compor um soneto às torres da Catedral?! Concordei. E ele disse: vou iniciar com a primeira estrofe e você continua... Ei-lo:

“Olho no além, vejo distante
Duas torres brancas apontando os céus
Braços erguidos numa prece a Deus
Sentinela altiva de um Povo Orante!

Oh! torres brancas, de almas puras,
Formosas e eretas, como palmeiras
Desta cidade, de verdes cabeleiras
Apalpais sonhos e arquiteturas!

Olho aqui perto, miro com emoção
Se despetalando em luta luminosa
Um pequeno povo que ama a Canção!

Saberá alguém dos segredos da rosa,
Ou o que, na meditação silenciosa,
As brancas torres têm no coração?!!!”

Pulsante e imóvel, tal qual a muda sonoridade da inventividade, dormita, no sacrário da minha memória, aquele instante fecundo, como a fotografia de um relâmpago de criatividade. Jamais olvidarei aquele dia, o dia em que tive, de um sacerdote, a resoluta parceria para abençoar o pão e vinho da poesia!

(Júnior Bonfim, janeiro 2017)

CANYON DO RIO POTY


Janeiro marca o natalício de Luis Carlos Prestes. Janeiro, precisamente o seu décimo quinto dia de 1926, registra o momento em que a terra apadrinhada pelo Senhor do Bonfim galgou destaque por ter sido palco do único combate das forças revolucionárias. O padre Geraldinho pontua em uma de suas obras sobre a passagem da Coluna através do Ceará: Frutuoso Lins, jovem em janeiro de 1926, narrou que quando o relógio bateu 3h “reboou uma saraivada de rifles e fuzis”. Lins explicou que João Calixto, guarda da Estação, revelou a euforia dos revolucionários no local: “Entre 4 e 5 horas da manhã, corriam eles pelas calçadas cantando ‘Mulher rendeira’ e gritando ‘Queima Chicuta’ e batiam com o coice do rifle nas portas da Estação”.

A saga da Coluna Prestes, com seus arroubos equivocados e seus rumos certeiros, teve em Crateús um de seus palcos privilegiados.

Estes dias, enquanto me recordava desse movimento revolucionário, vi passar na TV um spot sobre um acidente geográfico que assinala a divisa do Ceará com o Piauí em terras crateuenses: o Cânion do Rio Poty.

No início da década passada, o jovem Luis Carlos Prestes Filho resolveu fazer o mesmo percurso da Coluna que seu pai, o lendário ‘Cavaleiro da Esperança’, havia trilhado na liderança da famosa Coluna Prestes.

Relembro-me que um dia, em Crateús, ele externou: uma das paisagens mais belas que tinha encontrado naquele longo trajeto era o Cânion do Rio Poty.

O Cânion do Poty é umas das feições naturais da área limítrofe do Ceará com o Piauí, em áreas de Crateús, Buriti dos Montes e Castelo do Piauí. Fenda geológica por onde passa o rio Poty ao atravessar a cadeia montanhosa da Ibiapaba entre o Ceará e o Piauí, o Cânion foi formado pela erosão mecânica que as águas do Rio Poty proporcionaram ao cortar os sedimentos da Formação Cabeças, depositada no período Devoniano durante a Era Paleozóica, há cerca de 400 milhões de anos atrás.

Aparentemente o Rio Poty estabeleceu seu leito natural aproveitando uma falha tectônica conhecida como Lineamento Transbrasiliano, que corta o Brasil desde Sobral até o Mato Grosso. O rio corta o sistema de serras da Ibiapaba e no trecho entre a Cachoeira da Lembrada e o Canyon da Pedalta é onde se estabelece o Canyon do Rio Poty, embora ele apresente-se escarpado também por outros trechos até sua foz em Teresina.

Anteriormente chamado de Itaim-Açu, há registros de que na carta geográfica de Henrique Antonio Gallucio de 1760 (dois anos após a instalação da capitania do Piauí), já estava denominado Poty.

O melhor período para visitação é depois das chuvas, entre julho e dezembro. O local é indicado para prática de esportes de aventura como Rapel, Canoagem, ciclismo e trekking,

Como inexiste qualquer empreendimento, público ou privado, que sirva de apoio ao turista ou visitante nos dias atuais, resta-nos aguardar que algum empreendedor se disponha a investir naquela área fantástica, com paredões que alcançam 60 metros de altura, pleno de cavernas, pinturas rupestres e abrigos naturais, lindos para uma prazerosa apreciação.

Oxalá as autoridades despertem para o enorme potencial turístico rural e ecológico que o nosso Cânion representa e para ele desenvolvam projetos, oportunizando a divulgação de uma das formações geológicas mais extraordinárias que temos.

(Júnior Bonfim, janeiro de 2017)

EXTINGUIR O TCM?!


Abril de 1893. Floriano Peixoto, Presidente da República, determinou que seu Ministro da Viação, Limpo de Abreu, nomeasse um irmão de Deodoro da Fonseca e fixou a quantia a ser paga. O novel Tribunal de Contas, reputando ilegal o ato, ante a ausência de dotação orçamentária, negou–lhe o registro. Inconformado, Floriano disse:

- “São coisas do meu amigo Ministro da Fazenda, que criou um Tribunal superior a mim. Precisamos reformá-lo”.

- “Não!” replicou o Ministro da Fazenda, Serzedelo Corrêa. “Superior a Vossa Excelência, não. Quando Vossa Excelência está dentro da lei e da Constituição, o Tribunal cumpre as suas ordens. Quando Vossa Excelência está fora da lei e da Constituição, o Tribunal lhe é superior. Reformá-lo, não podemos”. Após o episódio, o Ministro deixou o cargo.

Ao assistir, estupefato, as notícias sobre a proposta de emenda constitucional que visa extinguir o Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará, lembrei do episódio acima. Parece que as Cortes de Contas, como os demais organismos de fiscalização e controle dos negócios públicos, nasceram com a missão excelsa de enfrentar adversidades provenientes da ira dos poderosos de plantão, posto que um dos mais basilares fundamentos das nações civilizadas, a reverência aos ditames legais, constitui miragem para as nossas novas gerações, que ainda presenciam ‘a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que é subtraída, em tenebrosas transações’ ...

Ao elencar as justificativas para a criação da primeira Corte de Contas em nosso País, o mestre Rui Barbosa assinalou: “Convém levantar, entre o poder que autoriza periodicamente a despesa e o poder que quotidianamente a executa, um mediador independente, auxiliar de um e de outro, que, comunicando com a legislatura, e intervindo na administração, seja não só o vigia, como a mão forte da primeira sobre a segunda, obstando a perpetração das infrações orçamentárias, por um veto oportuno aos atos do Executivo, que direta ou indireta, próxima ou remotamente, discrepem da linha rigorosa das leis de finanças."

Nessa esteira, o ex-Ministro do STF José de Castro Nunes – que, se entre nós, celebraria 134 anos de nascimento no próximo dia 22 de dezembro de 2016, proclamou: “As Cortes de Contas não são delegações do Parlamento, são órgãos autônomos e independentes. Mas existem em função da atribuição política dos Parlamentos no exame das contas de cada exercício financeiro.”

Ambos viram ratificadas suas opiniões pelo magistério de Celso Antônio Bandeira de Melo:

“Tem-se, pois, que embora o Texto Constitucional nos afirme, no artigo 6º, que são Poderes da União, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, o certo é que, paralelamente a esses três conjuntos orgânicos, criou-se outro conjunto orgânico que não se aloja em nenhum dos três Poderes da República. Previu-se um órgão – o Tribunal de Contas – que não está estruturalmente, organicamente, albergado dentro desses três aparelhos em que se divide o exercício do Poder. Como o Texto Constitucional desdenhou designá-lo como Poder, é inútil ou improfícuo perguntarmo-nos se seria ou não um Poder. Basta-nos uma conclusão, a meu ver irrefutável: o Tribunal de Contas, em nosso sistema, é um conjunto orgânico perfeitamente autônomo.”

Eis, pois, a essência das Cortes de Contas.

Assento as premissas acima para opinar sobre essa Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que tramita na Assembleia Legislativa Cearense e visa a extinção do nosso TCM, sexagenária instituição com vultoso e vistoso álbum de atuação em todos os municípios da Terra da Luz.

Quais as razões aparentes que estão postas ou expostas à comunidade?

Segundo o autor, deputado Heitor Férrer, seria: gerar economia para os cofres públicos, evitar a politicagem no âmbito do Tribunal e que o estado tivesse apenas uma Corte de Contas, como a maioria dos estados da Federação.

Com todo respeito ao Parlamentar, nenhuma das alegações se sustenta em um debate mais demorado sobre a matéria.

O argumento da economia cai por terra quando a própria PEC prevê que as previsões orçamentárias de receitas e despesas apenas serão transferidas para o TCE. Ao reverso, ocorrerá um prejuízo: Conselheiros e Auditores do TCM ficarão em disponibilidade, percebendo todas as vantagens atuais. Ou seja, o Estado gastará quase R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais) com servidores públicos altamente qualificados que permanecerão remunerados sem qualquer contrapartida de trabalho.

O enredo de que os cargos de Conselheiros do Tribunal são silos de sinecuras, privilegiadas moedas de troca politiqueira ou espaços de premiação para amigos dos governantes de plantão – pode ser enfrentado não com a eliminação do órgão, mas com a definição de critérios impessoais, como o Concurso de Provas e Títulos.

Por fim, a assertiva de que a maioria dos estados só possui um Tribunal de Contas, não pode ser usada como parâmetro para confortar o arrazoado em favor da eliminação do TCM/CE. A atuação fiscalizatória repartida que existe no Ceará produziu, em ambas as Cortes de Contas (TCM e TCE) expertises diferenciadas. Se, na balança da Justiça, há um prato pesando mais, indubitavelmente é o do TCM. (Advogo na seara eleitoral e, durante a eleição deste ano, por exemplo, não vi um processo sequer de contas públicas irregulares – com base artigo 1º, inciso I, alínea “g” da Lei da Ficha Limpa - oriundo do TCE. Todos, absolutamente todos, têm como fonte a extensa lista fornecida pelo TCM.). Logo, o acúmulo de experiência, a qualidade técnica e a habilidade pericial dos servidores do TCM permitem-nos afirmar que esse processo abrupto, açodado, irracional, à sorrelfa e de afogadilho há que ser estancado.

Extinguir um órgão quase secular como o TCM/CE, sem qualquer consulta popular, debate público ou audiência da sociedade civil organizada é alojar um projétil no coração da cidadania. Ergamo-nos contra esse vilipêndio!

(Júnior Bonfim, dezembro de 2016)

FIDEL!


Quando, pela vez inicial, senti o perfume do estrume, embriaguei-me com o aroma do nosso bioma e mirei a ferradura de serra que enfeita a minha terra, a extensão do nosso planeta se resumia, do ponto de vista geopolítico, a uma construção bipolar: de um lado, os Estados Unidos da América (EUA) e, do outro, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Esses dois países, que despontaram após a segunda guerra mundial como as maiores potências globais – o primeiro, expoente do capitalismo; o segundo, do comunismo - detinham a hegemonia e apresentavam grande influência política, econômica e militar sobre o conjunto dos humanos, interferindo nas relações políticas de todo o planeta.

Essa repartição do mundo em duas correntes distintas e antagônicas influenciou sobremaneira o modo de agir e de pensar das pessoas. Éramos, sem o saber ou compreender à época, seguidores de uma religião extinta: o maniqueísmo.

O Maniqueísmo foi uma doutrina inaugurada por um profeta persa denominado Maniqueu (Manes ou Mani, no original). Sua filosofia religiosa, sincrética e dualística, se resumia em dividir o mundo simplesmente entre Bom (= Deus), e Mau (= Diabo).

Essa maneira simplista e reducionista de ver as pessoas e o mundo contaminou irremediavelmente a humanidade no período bipolar. Essa conformação binária da existência se refletiu de maneira avassaladora sobre a política. Aos olhos da juventude, em especial, predominava a rotulação extremista: direita e esquerda. Direita, encarnação diabólica, reprodução das trevas; Esquerda, manifestação divina, explosão de luz.

Sob a crepitação das brasas da adolescência, não tive dificuldade em optar pelo segundo lado, que considerava mais justo. Nossa consciência vivia aparentemente mansa, pois cultuávamos aquilo que para nós eram verdades absolutas. Exaltávamos os dogmas, as definições que nos eram impostas pelos iluminados líderes e que nos cabia aceitar sem discussão. É como se, apegados a um dogma, estivéssemos tranquilos, à sombra de uma árvore colossal. Uma dessas ‘verdades absolutas’ era a de quem fosse de esquerda tinha sempre razão. Olvidávamos de pôr a mão na algibeira da razão, agíamos pelo combustível do impulso ou embalados pelas notas sedutoras da emoção.

Foi nessa atmosfera dominada pela passionalidade que surgiram cones e ícones da esquerda latino-americana, como o recém-falecido advogado Fidel Alejandro Castro Ruz, o Fidel Castro.

Para emitir minha modesta opinião sobre essa lenda e legenda cubana, relembro aquele que Carlos Drummond de Andrade nominou como o maior poeta do Brasil. Gerardo Melo Mourão disse que cultuava ideias, mas abominava ideologias. As ideologias escravizam; as ideias libertam.

Descobri que é possível nos libertarmos das colocações binárias de tipo maniqueísta. Logo, podemos admirar ou respeitar uma figura histórica, sem descurar de evidenciar seus equívocos.

Fidel Castro, no campo da Justiça Social, foi um líder revolucionário que animou a utopia de um País socialmente justo.

No terreno das liberdades públicas, infelizmente foi caudatário do autoritarismo, incapaz de conviver respeitosamente com quem divergia da sua compreensão de mundo. Injustificável, sob qualquer ângulo sério, sua gana pela perpetuação no poder.

Como bem descreveu um cubano radicado no Brasil, ele “foi um pai severo, que deu saúde e educação para os filhos, mas não lhes permitiu que trilhassem o próprio caminho”.

Foi, portanto, um ser contraditório: trágico e portentoso, avançado e reacionário. Aliás, como a maioria dos líderes gerados em nossa Latino-América...

(Júnior Bonfim, novembro de 2016)

A VIDA APÓS A VIDA!


Sempre no mês de novembro, ao derredor do dia em que celebramos os que deixaram o nosso convívio, direcionamos a nossa atenção para a mesma coisa: a estrutura física dos cemitérios – que popularmente alguns chamam de campos santos - o estado de conservação dos túmulos etc.

Raramente, ousamos reflexionar além disso; dificilmente, adentramos no âmago da questão: - Qual o sentido da existência? - Qual o verdadeiro significado da vida? - Por que resistimos à morte?

Os ocidentais temos muita dificuldades de tratar desse tema. Em que pese as vistosas conquistas que temos obtido na esfera tecnológica, ainda tratamos o tema da morte como um tabu. Ensinam-nos a negar a morte e a internalizar que ela nada significa, a não ser aniquilação e perda. Vivemos a negá-la. (Para ser sincero, eu mesmo via de regra resisto em escrever sobre o assunto...).

É tão forte e arraigado este pré-conceito que falar da morte é considerado algo mórbido, e – pasmem! - corriqueiramente julgamos que a simples menção a ela pode atraí-la sobre nós.
Noutro extremo, há também quem encare a morte de maneira quase ingênua, frívola ou irracional: “se chega para todo mundo, não é nada demais. Vai chegar prá mim também. É absolutamente natural”. Ambas atitudes estão pouco próximas da com-preensão do verdadeiro significado da morte.

O professor Sogyal Rinpoche, que nasceu no Tibet e é um dos pioneiros na promoção do diálogo entre a Ciência e a Espiritualidade, leciona que “todas as tradições espirituais do mundo, inclusive, é claro, o cristianismo, dizem explicitamente que a morte não é um fim. Todas falam em algum tipo de vida futura, o que infunde em nossa vida atual um sentido sagrado. Mas, não obstante esses ensinamentos, a sociedade moderna é um deserto espiritual em que a maioria imagina que esta vida é tudo que existe. Sem qualquer fé autêntica numa vida futura, a maioria das pessoas vive toda a sua existência destituída de um sentido supremo”.

Segundo o mestre budista, são desastrosos os efeitos dessa atitude de negação da morte. Vão além da esfera individual, afetam o planeta inteiro.

Disso resultou o aço opressivo que pesa sobre nossos ombros: uma sociedade acorrentada por padrões comportamentais equivocados, que salpica de lama os valores mais sublimes do humanismo. Rendidas pela completa permissividade, as pessoas acham que obrigatoriamente têm que ser “modernas” (no sentido pejorativo do termo), cultuam uma rebeldia sem sentido, priorizam ser “sexy” desnudamento completo, em todos os sentidos, por dentro e por fora.

Disseminou-se uma falsa cultura de saúde total, em que padrão de beleza rima com excessiva magreza, que substituí a natural alegria pelo espectro da anorexia.

O resultado desse caldo insípido é um banquete surreal, no qual predomina um cardápio composto por dois ingredientes desprovidos de sedução: uma incontida decepção e uma crescente frustração.

Que estrada estamos a percorrer? Que farol poderá nos guiar? É difícil responder. Certo é que, se quisermos continuar, temos que urgentemente começar a mudar.

Como bem asseverou Charles Chaplin: “O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Supondo que esta vida é única, não desenvolvemos uma visão de longo prazo e, tomados pelo egoísmo, passamos a saquear o planeta em que vivemos para atingir nossas metas imediatas. E isso pode ser fatal no futuro.

Neste mês de novembro, em que celebramos o dia de finados (que deveria ter outro nome, pois finados diz respeito a falecido e encerra uma compreensão da morte com “fim” – o que não é o caso), alimentemos, como Raymond Moody, a forte e viva esperança de que há, de fato, uma “vida após a vida”.

(Júnior Bonfim, novembro de 2016)