sexta-feira, 25 de outubro de 2013

MEMENTO PARA ARACATI


Aracati é a beleza selvagem, a poesia deslumbrante, a duna suntuosa, o espetáculo vital, a pulsação eólica, a praia magnética, a esparramada alegria, a festa do firmamento.

Aracati é o registro permanente, memória em diário, testemunho cotidiano, apadrinhamento perene da renovação invariável das promessas de casamento do Jaguaribe com o mar.

Aracati significa vento. É, portanto, redundante dizer “vento do Aracati”. Aracati é o abano dos deuses, hélice feita pela natureza, movimento olímpico do ar na atmosfera, latência de tornado, arrojo de tufão. É, também, aragem cheirosa, suavidade noturna, sazonalidade de monção, fruta da estação, lua enamorada, brisa perfumada.

Aracati é o coração aberto, palma da mão estendida, rede de acolhida, lençol cantante, hospitalidade militante, colo acolhedor, habitação de amor.

Aracati: do teu agitado acordo com o mar surgiu Majorlândia, a ‘terra do Major’, sacudida pelas ondas fortes, largo banco de areia, exuberante parque coqueiral, arco-íris de velas de jangadas, falésias vestidas de branco e vermelho, cristal bucólico, prateleira de garrafas de areia colorida, harmoniosa tela de beleza!

Improvável resistir ao dinâmico encantamento do afetuoso aconchego da lua com a estrela tendo a falésia como altar! Um desenho topográfico com o formato de uma canoa (ou será coroa?) quebrada! Meca dos mochileiros, paraíso hippie, conjunção gastronômica planetária, santuário cultural de continentes, moldura ecumênica!

Canoa, Canoa! Coroa ou Canoa?! Canoa ou Coroa?! Importa, inspirada loa, sedutora proa - preta branca, branca preta, tua envolvente silhueta! Pergaminho histórico do achamento brasileiro, visão combinada de narrativa fabulosa de pescador, encomenda turística esquecida, casamento indígena de astros celestes, desencargo muçulmano de consciência, síntese dialética do firmamento expressando a união dos pólos masculino e feminino, êxtase procriativo, explosão de fertilidade e amor!...

Aracati transpira história por todos os poros. A imponência silenciosa do casario guarda segredos nunca revelados. Os azulejos portugueses enfeitam a fronte dos prédios ao mesmo tempo em que escondem a escritura invisível dos antepassados. O Centro Histórico, as construções coloniais, os templos seculares são a expressão material de uma memória imaterial. A antiga masmorra municipal, que hoje abriga o Parlamento Mirim da urbe, talvez ainda possua grilhões não quebrados. Muitos foram os filhos desta terra, no entanto, que elevaram às alturas estreladas os sentimentos mais puros e profundos da alma. Vários deles, que enalteceram com o talento todas as artes do engenho humano, hoje nomeiam logradouros de relevo na Capital.

Como olvidar o sabor de réplica na ousadia épica do jangadeiro Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde, um dragão nascido no mar? Sentinela do oceano, libertador de primeira fila, destruidor de algemas, vanguardista da eliminação do tráfico negreiro, suscitou em Joaquim Nabuco a famosa expressão: “O Ceará é o começo de uma Pátria livre”.

Aracati, és histórico estuário do sonho libertário. Quando teu nome, em forma de brasa, arde, escreves a palavra Liberdade.

Aracati, Aracati: nativo ou visitante, próximo ou distante, de longe ou daqui, impossível não gostar de ti!


(Júnior Bonfim, na edição deste mês da Revista GENTE DE AÇÃO, em louvor ao aniversário de ARACATI)

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Os fundos

Abro a coluna com um "causo" do querido Estado do CE.

Garboso, o candidato a prefeito de Jaguaribe/CE, não economizou promessas em sua campanha, lá pelos idos de 60. Prometeu tudo ou quase: maternidades, poços artesianos, estradas vicinais, escolas e até uma ponte. Mas não se conformava com tão pouco. Queria fazer mais. Tinha de prometer alguma coisa mais popular, que caísse no gosto do povo. Mandou verbo:

- Pois é, minhas conterrâneas e conterrâneos, se vocês tiverem em suas casas redes rasgadas, daquelas que não prestam mais, guardem os punhos da rede. Quando eu for eleito, darei os fundos.

(Quem me mandou a historinha, não conta se perdeu ou ganhou; e se ganhou, deixamos de saber se cumpriu a promessa).

A última campanha

Cada ciclo político-eleitoral tem o seu marco. Pode ser um evento, o clima ambiental, as ondas do momento, o pano de fundo social. Pois bem, a campanha de 2014 será emblemática sob essa visão. Primeiro, por abrigar a última peleja contemporânea entre PT e PSDB, pois é mais que provável que esses dois partidos não resistam a mais um pleito presidencial com candidatos que ainda frequentam o ringue da polarização. As siglas enfrentam o fenômeno da corrosão de material. Duas décadas no poder parecem constituir o ciclo de mando de um partido no comando da Nação. Até é possível que, na campanha que se abre, um novo ator consiga desbancar os dois principais eixos da polarização política no país. Referimo-nos, claro, ao PSB e seus mais destacados perfis, Marina Silva e Eduardo Campos.

Poder dividido

Alguém poderá objetar: eles terão vida mais longa, eis que o poder está dividido entre ambos. Se o país se encontra nas mãos do PT, o maior Estado da Federação - maior colégio eleitoral, maior força econômica, maiores quadros políticos, maior ajuntamento social - , SP, está nas mãos do PSDB. A verdade, porém, é que o PSDB também vive em SP tempos de desgaste de material. Cinco governos seguidos fechariam a cota dos tucanos. O revezamento que se observa é no espaço municipal, na disputa eleitoral na capital. O PT ganhou a última, como já havia ganho com Luiza Erundina, no passado, e com Marta Suplicy, mais recentemente. Agora, é a vez de Fernando Haddad.

Ares novos

O fato é que, tanto na esfera Federal quanto na frente estadual, a população sinaliza a vontade de respirar ares novos, climas diferentes, passando a conviver com novos atores, até para experimentá-los sob o prisma da gestão pública. Em muitos Estados, essa sinalização já é praticada com a eleição de perfis que fogem ao modelo da velha política. Noutros, se não há tanta renovação, é porque os "donos" das grandes siglas que ascendem ao mando usam fortes baterias de comunicação, abrindo espaços gigantescos de visibilidade e, dessa forma, perpetuando-se no sistema cognitivo do eleitorado.

Dilma favorita

Sob a moldura da corrosão pelo tempo no poder, dar-se-á a campanha de 2014. No caso da campanha presidencial, a candidata do PT continua sendo a franca favorita. Por representar um estilo de trabalho, por dar continuidade a um gigantesco braço social - o Bolsa Família -, que poderá ser bastante esticado com o sucesso (bastante provável) do Mais Médicos e, claro, com uma economia controlada. Mas o sucesso da presidente Dilma, mesmo que ultrapasse as melhores expectativas, não significará necessariamente a continuidade do PT no comando do país. O partido sofre desgaste de imagem. Perdeu raiz histórica. Abandonou valores. Para recuperar vetor de força, deve ceder lugar a outros, refluir seu poder. É possível que abra um período sabático. Para, lá mais adiante, voltar sob novas luzes.

Eduardo e Marina

Faz bem à democracia e, particularmente, ao sistema eleitoral a participação da dupla Eduardo e Marina no pleito presidencial. Conseguem ambos passar a ideia de figuras novas na desgastada paisagem política. Fizeram uma aliança à base do modelão antigo. Pois o PSB é sigla do sistema; o estilo Campos, que puxou o avô, Miguel Arraes, em matéria de trabalhar a arte da política, é duro; o ingresso de Marina no PSB se deu pela porta da velha tradição - alguém, às vésperas de findar o prazo para filiação, corre e crava o apoio a um candidato de sigla tradicional.

Lula e o velho PT

Lula dá uma no cravo, outra na ferradura. Depois de bater nos adversários, principalmente os tucanos, o ex-presidente dá um puxão de orelhas no PT. Diz que muitos petistas só pensam em cargos. Outros, em mandatos no Legislativo. E se esquecendo dos tempos em que carregavam tijolos para construir o grande empreendimento petista. Forma de dizer: companheiros, voltemos às origens. Isso é possível ? Não. Heródoto ensinava: nenhum homem atravessa o mesmo rio duas vezes.

A fatura de Dilma

A presidente Dilma Rousseff colocou o carro na rua e já engata a terceira. Esse programa Mais Médicos será a marca principal do fim do seu primeiro mandato. Vai para as urnas sob o empuxo desse carro em velocidade. Dilma não perde tempo. O leilão de Libra só teve um consórcio. Não houve, a rigor, leilão. Mas ela proclama aos quatro cantos que o país abre as portas do futuro. Dinheiro para livros, educação, saúde para todos. Estamos abrindo a porta do paraíso. Em 30 anos, para explorar o campo e produzir óleo, serão necessários 400 bilhões de reais. Mais uma vez, podemos dizer como nossos tataravós: vamos lutar para fazer o Brasil dos nossos filhos e netos. O futuro abrirá os discursos per secula seculorum.

250 mil dólares

Li que Fernando Henrique e seu ex-genro queriam vender o Libra por US$ 250 mil. Não me recordo disso. Deve ser ufanada exagerada dos adversários. Não?

Reforma política?

Esqueçam. A reforma política, para fim de adoção em 2014, é mais uma dessas promessas de primavera. O projeto em andamento gera muita polêmica. E praticamente só altera questões relativas a recursos de campanha e apresentação de contas. Coisinhas pontuais.

Sem censura - I

Wagner Kotsura, jornalista dos bons, um dos mais diligentes caçadores de detalhes, chama a atenção deste consultor, com esta mensagem: "o artigo do Código Civil que se está aplicando às biografias, se não contiver um tremendo erro de Português (concordância), não parece autorizar censura. Vejamos. Art. 20: "Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da Justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais".

Sem censura - II

Wagner arremata: "O complemento 'de uma pessoa' refere-se a todas as expressões antecedentes ("a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem"). Trata-se, portanto, de escritos, palavra e imagem de uma pessoa, e não sobre uma pessoa. Dito de outra forma, não se pode reproduzir nada que alguém tenha escrito ou falado, sem autorização prévia; mas não parece haver nenhum impedimento a que se divulgue qualquer coisa sobre uma pessoa". Advogados e juízes, atentem para a observação.

Menos burocracia

Já está disponível o Módulo Estadual de Licenciamento, programa do governo do Estado de SP que permite a abertura de empresas de forma mais rápida e sem burocracia. Os detalhes do novo sistema, que integra 645 municípios, foram acertados em reunião recente entre o secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de SP, Rodrigo Garcia, e representantes do setor contábil, entre eles, o presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e de Assessoramento no Estado de SP (Sescon/SP), Sérgio Approbato Machado Júnior. Por meio do site da Jucesp é possível fazer todos os procedimentos de abertura de empresas e obter licenças do Corpo de Bombeiros, da Vigilância Sanitária e Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb).

ICMS: prazo estendido

Empresas do Estado de SP que recolhem o ICMS no terceiro dia útil do mês subsequente ao da ocorrência dos fatos geradores terão prazo para pagamento do tributo prorrogado para o 20º dia do segundo mês subsequente. A mudança trará benefícios de fluxo de caixa para as empresas e mais tempo de processamento das operações para as organizações e profissionais da Contabilidade. A novidade foi dada pelo secretário da Fazenda, Andrea Calabi, durante o 5º Gescon - Seminário de Gestão de Empresas Contábeis, realizado pelo Sescon/SP, nos dias 16 e 17/10, em SP. A prorrogação do prazo era um pleito antigo da entidade e da classe contábil. O anúncio oficial da mudança será feito em breve.

Você

O amigo Luis Costa manda essa peça sobre o tratamento você. O empregado de um condomínio usou o termo, ao se dirigir a um condômino. Este não gostou. Foi bater na Justiça. O juiz, Alexandre Eduardo Scisinio, julgou assim (resumo da peça):

- O empregado que se refere ao autor por "você", pode estar sendo cortês, posto que "você" não é pronome depreciativo. Isso é formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incidência de insubordinação. Fala-se segundo sua classe social. O brasileiro tem tendência na variedade coloquial relaxada, em especial a classe "semiculta", que sequer se importa com isso.

(...) Seu, Dona

- A professora de linguística Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos literários que apresentam altas frequências do pronome "você" devem ser classificados como formais. Em qualquer lugar desse país, é usual as pessoas serem chamadas de "seu" ou "dona", e isso é tratamento formal.

(...) Etiqueta, cortesia

- A própria presidência da República fez publicar Manual de Redação instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes. Mas na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso que se diz que a alternância de "você" e "senhor" traduz-se numa questão sociolinguística, de difícil equação num país como o Brasil de várias influências regionais. Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero, a ser estabelecida entre o empregado do condomínio e o condômino, posto que isso é tema interna corporis daquela própria comunidade.

Conselho aos médicos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos pré-candidatos nas eleições majoritárias. Hoje, dedica sua atenção aos médicos brasileiros:

1. O programa Mais Médicos, da alçada do governo Federal, já virou lei. Não adianta, agora, questioná-lo. E nem é o caso de torcer contra ele. A população brasileira, principalmente das regiões mais carentes, quer ser amparada. Seja por um médico daqui, dali ou dos cafundós do mundo.

2. Se houver problemas ou se os médicos demonstrarem ineficácia ou desconhecimento de seu ofício, estarão sujeitos às penalidades normativas. Há fiscalização, há controles e há denúncias.

3. Importa, nesse momento, estender as mãos na gigantesca tarefa de ajudar as comunidades miseráveis a ter um padrão de vida mais saudável.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Radicalizar: a opção de Aécio - 1

Disse o respeitadíssimo sociólogo Manuel Castells sobre os protestos de junho passado que foi "a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados" (O Globo, 29/6/13). De fato, aquele sentimento das passeatas permanece assentado na sociedade. Todavia, quase nada foi articulado para que certas demandas sociais fossem atendidas pelos que controlam as instituições (situação e oposição). Note-se, por exemplo, que do lado do governo a estratégia tornou-se tão somente eleitoral. Daí as razões mais profundas do discurso de Dilma sobre a espionagem norte-americana ou o lançamento do programa "Mais Médicos". Este, embora justificável na sua essência, é insustentável diante da ausência de estrutura na área de saúde. Já quando à espionagem, a reação não tem condições de produzir alterações na relação EUA/Brasil. Do lado da oposição, a resposta aos ventos de junho foi igualmente burocrática. Desliza a oposição pelas mesmas propostas de sempre, do denominado "tripé macroeconômico" às críticas relacionadas com a incompetência governamental para realizar concessões e privatizações. Pois é exatamente esta visão burocrática e sem as inovações necessárias ao país que une Dilma ao tucano Aécio.

Radicalizar: a opção de Aécio - 2

A grande dificuldade de Aécio Neves reside em encontrar elementos políticos que sejam suficientemente sedutores do ponto de vista eleitoral e que, ao mesmo tempo, sejam habilitados a diferenciá-lo da presidente-candidata. Até agora, a opção do mineiro é olhar o passado e usar o governo FHC como referência estrutural para efetuar a crítica aos governos petistas. Esta estratégia acaba por cair numa armadilha inescapável : no petismo a estratégia política de Lula-Dilma foi a de incluir milhões do ponto de vista social, coisa que não se viu sob os tucanos liderados por FHC no período pós-real - a estabilização foi o grande fator de inclusão social. O discurso em prol da privatização e da estabilidade tem cunho ideológico, mas não "pega", do ponto de vista eleitoral. Aqui não é o caso de se examinar a essência do tema (se boa ou ruim), mas apenas se perguntar o que o eleitor "ganha de fato" com a privatização. Há ainda a realidade de que a privatização, em alguns casos bem significativos, aumentou proporcionalmente mais os preços dos serviços que sua melhoria operacional, como no caso emblemático da telefonia celular. Discursar sobre eficiência, racionalidade, consistência, etc., é uma coisa, torná-la palpável ao eleitor é outra.

Radicalizar: a opção de Aécio - 3

A opção natural de Aécio Neves, se quiser se configurar como a "verdadeira oposição", é uma estratégia de confronto radical com Dilma e seu padrinho Lula. Caso contrário, sobrará com um discurso ideológico insensível às demandas efetivas do eleitor e, de resto, será "semelhante" à burocrática presidente Dilma. A opção por uma radicalização de Aécio deve encontrar barreiras enormes entre seus aliados, da "Casa das Garças", no RJ, até os marqueteiros munidos de pesquisas por todos os lados. Do lado dos ideólogos, incluso FHC, a tarefa de identificar o candidato com o povo não parece muito promissora às pretensões pessoais dos "pensadores". Talvez estes prefiram as planilhas ao pensamento "eleitoral" - não se sabe. Do lado dos marqueteiros, estes dirão que há nas pesquisas muitos fatores contra uma "radicalização". De outro lado, estes mesmos marqueteiros não mostrarão o que haveria a favor. Vale sublinhar que o problema de Lula, quando da eleição que o levou à presidência, era se mostrar um "moderado". O problema de Aécio é exatamente o oposto e a pergunta é : o que ele radicalizará frente à Dilma-Lula ? O distinto público deseja saber, pois tanto Aécio Neves quanto a dupla petista são parte do mesmo establishment. Um no poder, o outro na oposição. É o que ensina Manuel Castells. O que parece diferente (e talvez não seja) é Campos-Marina. Mas aí o problema é de conhecimento e intimidade entre eleitor e candidatos. No caso de Aécio Neves, sabe-se quem ele é, mas ainda não há reason why para nele votar.

Os tucanos na muda? - 1

Bons observadores notaram que os tucanos foram aqueles que menos participaram dos debates pré-eleitorais depois da anunciada união Marina Silva/Eduardo Campos. Marina, possivelmente para poupar Campos de se expor criticando um governo do qual foi aliado até pouco tempo, tomou a dianteira. Com críticas bem contundentes à política econômica de Dilma, de tal veemência que forçou até a presidente a, em três ocasiões diferentes, rebater a líder da Rede. Prova que Marina está incomodando, uma vez que a estratégia traçada pelo Conselho Reeleitoral do PT era evitar "encher a bola" da ex-ministra do Meio Ambiente. Alguns analistas acham que Dilma foi bem ao rebater Marina, principalmente na questão levantada por ela do abandono do tripé macroeconômico criado no governo FHC e seguido em parte do governo Lula. Foi, dizem, a oportunidade para Dilma e sua equipe confirmarem seus compromissos nesta área.

Os tucanos na muda? - 2

Talvez não seja bem assim. Ao atacar este ponto, Marina tirou Dilma da zona de conforto e colocou-a na defensiva. Por enquanto, pelo menos, quem está conduzindo a agenda do debate é a parceira de Eduardo Campos. A ausência dos tucanos pode ter duas explicações:

1. Ainda não se recuperaram do susto que foi o acordo Rede/PSB. O PSDB contava com uma disputa com quatro candidatos fortes, o que seria mais fácil para levar a eleição para o segundo turno.

2. Os tucanos têm uma estratégia herdada da política de Minas, do devagar e sempre, e estão deixando Dilma e Marina/Campos se desgastarem nessa troca de farpas enquanto eles são poupados para fazer seus ajustes internos e com possíveis parceiros. De todo modo, Aécio e seu grupo não poderão ficar muito tempo nessa área de sombra.

Fora do ar

Por falar em tripé macroeconômico, quando se pensa em seu pilar do ajuste fiscal, observa-se que quem está há algum tempo fora do ar é o secretário do Tesouro Nacional, Arno Agustin. Principal executor da "maquiagem orçamentária", Agustin era presença constante, figurinha carimbada nos jornais até pouco tempo atrás. Sumiu, sumiu por quê?

Espionagem: a indignação francesa

O jornal Le Monde, em sua edição de ontem, informou que a NSA realizou 70,3 milhões de gravações de dados telefônicos de franceses em um período de 30 dias entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013. Como não poderia deixar de ser, a fonte do jornal é o jovem espião Edward Snowden. Os EUA, por meio do diretor da NSA, não fez por menos e declarou que os EUA fazem o que todos fazem, espionam! Há certa ira em Paris em relação ao tema, mas veremos como será a reação depois de alguns dias. Por fim, resta saber se Dilma se sentirá inferiorizada em função do modesto número de gravações do Brasil frente à França. A conferir.

Candidatura útil

O PMDB meio que oficializou neste fim de semana a candidatura do empresário Paulo Skaf, presidente da endinheirada Fiesp, ao governo de SP. É para valer, asseguram os peemedebistas: eles acham que têm chance de ganhar beneficiando-se de uma disputa fratricida entre o PT e o PSDB e precisam de uma candidatura ao Palácio dos Bandeirantes para tentar aumentar as bancadas estaduais e Federais do partido. É para valer até certo ponto. Hoje ela é uma candidatura útil também para os planos do presidente Lula, pois se imagina que, ligado aos empresários, Skaf tiraria mais votos de Geraldo Alckmin do que do petista Alexandre Padilha. O contrário do ministro Aldo Rebelo, do PC do B, à esquerda, que só prejudicaria Padilha, e por isto mesmo, foi aconselhado a permanecer em Brasília e desistir de disputar a sucessão de Alckmin. Se até a homologação das candidaturas não se comprovar que Skaf rouba votos do tucano ou se, ao contrário, ele começar a dividir votos com o ministro da Saúde, discretamente o PMDB será aconselhado a desistir dessa aventura. Até para manter a vice-presidência nas mãos de Michel Temer. Há uma outra utilidade para o PMDB na candidatura Skaf : naturalmente ele não demandará muito financiamento do partido para sua campanha e ainda poderá ajudar os candidatos do partido ao Legislativo.

Frase interessante

Vista a candidatura do empresário Paulo Skaf ao governo de São Paulo, vale a menção da declaração de Eduardo Giannetti da Fonseca sobre o apoio do empresariado à Dilma: A elite empresarial está no bolso do governo. (Folha de S.Paulo, 21/10/13). Que surpresa, não é?

Lula, idealismo e Kafka

Vejamos a declaração do ex-presidente Lula ao jornal El País, no dia 20/10/13: "Eu queria dizer que as pessoas tendem a esquecer os tempos difíceis em que achavam bonito carregar pedra. A gente acreditava, era maravilhoso. Um grupo mais ideológico, as pessoas trabalhavam de graça, de manhã, à tarde e à noite. Agora você vai fazer uma campanha e todo mundo quer cobrar. Não quero voltar às origens, mas gostaria que não esquecêssemos para que fomos criados (o PT). Por que queríamos chegar ao governo? Não para fazer como os outros, mas para agir de maneira diferente". Nosso comentário: não são poucas as declarações do ex-presidente Lula ao longo dos anos pós-ele mesmo. Uma hora o ex-presidente "tutela" a sua sucessora. Noutra, defende os seus polpudos cachês pagos por empreiteiras. No ausência do público e da imprensa articula como ninguém, o faz no governo e para o governo. Desta feita, o ex-presidente Lula, respirando ares espanhóis, resolve cavalgar num idealismo que não se provou quando estava sentado no Planalto e convoca o próprio partido para que "não esqueça porque foi criado". Já não é o ex-presidente apenas uma "metamorfose ambulante", como aprecia se definir. Ao que parece, ele é o seu próprio álibi a encobrir suas próprias más ações. Um caso kafkiano que se sustenta enquanto silente estiverem os que observam a cena.

E a CPI da Siemens, cadê ela?

Quando voltou à cena a história das propinas que a Siemens e outras companhias estrangeiras teriam pago a funcionários dos governos tucanos em SP para conseguir negócios no Metrô e na CPTM, a partir de vazamentos de processo que corre no CADE, órgão do Ministério da Justiça, o líder do PT, Eduardo Teixeira, anunciou imediatamente a coleta de assinaturas para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional para apurar a irregularidade. Duas semanas depois, Teixeira anunciou que estava prestes a protocolar o pedido de CPI, pois já tinha praticamente todas as assinaturas necessárias para instalar a investigação. O que não é nenhuma façanha uma vez que os governistas têm uma ampla maioria na Câmara e no Senado e a oposição não tem como impedir nada que o governo queira fazer no Legislativo em Brasília, nem mesmo impedir aprovação de emendas constitucionais. Isto foi há mais de dois meses e de lá para cá, em Brasília, não se fala mais no assunto de CPI. Por que será?

Ah! Esses estrangeiros...

O ministro da Fazenda Guido Mantega, nosso mais incorrigível cultor da filosofia do dr. Pangloss ("Cândido, ou o Otimismo", Voltaire), em entrevista ao "Estadão" de domingo afirmou que o PIB brasileiro vai crescer 3% em 2014 (a previsão dos especialistas é de que será inferior aos 2,5% projetados para este ano) e que poderá chegar até a 4% se o ambiente externo permitir. Ah !, como são malvados esses estrangeiros. Estão sempre conspirando para prejudicar o trabalho das autoridades econômicas brasileiras para colocar nossos negócios no lugar.

Habeas corpus (ou desculpa preventiva)

O presidente do BNDES declarou, no fim de semana, que até 2015 o Brasil poderá voltar a reduzir os juros. Até recentemente, Luciano Coutinho foi um dos mais ardorosos defensores da "nova matriz econômica" que o ministro Guido Mantega anunciou há cerca de dois anos haver implantado no Brasil. Esta matriz contraria o tripé macroeconômico (neoliberal ?) aplicado pelo governo FHC na economia nacional e seguido por Lula em boa parte deseu mandato. Coutinho dizia-se entusiasta da redução mais acentuada dos juros básicos iniciada pelo BC em meados de 2011 e interrompida há meses. Nada como uns "indicizinhos" teimosos de inflação para converter os mais fiéis desenvolvimentistas.

BC: ainda na alta

A leitura da ata da última reunião do COPOM que elevou a taxa de juros básica para 9,5% dá poucas esperanças de que a taxa de juros deixe de subir na próxima reunião do COPOM. A situação, de fato, é curiosa. A demanda permanece estável, mesmo que num bom patamar, o mercado laboral está sem pressões substantivas, mas a inflação não cai. Isso tudo com o "apoio" da Petrobras que não majorou os preços dos combustíveis, bem como houve a "baixa" das tarifas de energia elétrica. A inflação é, portanto, um problema incômodo e parece que estará presente por um longo período. O BC sabe disso e vai forçar a taxa para cima de novo. Daí por diante, a nosso ver, o BC terá de renovar a anuência do Planalto em relação a esta estratégia. Pesará a eleição do ano que vem na orientação que virá da chefe do Executivo. Por esta e por outras, a probabilidade da taxa de juros subir para 9,75% na próxima reunião e aí ficar é bem alta. Um outro dígito na taxa básica pode ser um dígito a menos nas pesquisas eleitorais.

Língua pátria, novilíngua

Do "The NSA Herald", o diário mais xxxxxxxxxxxx do país, uma criação da revista "Piauí" (outubro/2013), com degravações de espionagens americanas no Brasil:

"General updates

Ref. Fucking language

Atenção: interceptações feitas em todo o território brasileiro indicam que o idioma falado no país não é o espanhol, e sim um dialeto usado como código na Primeira Guerra Mundial, o Português. Há variações no linguajar no STF, e nos cadernos de cultura dos jornais de grande circulação, em particular na crítica de cinema. Textos acadêmicos publicados nos cadernos de fim de semana empregam idioma criptografado, cuja chave parece exigir conhecimentos desumanos de Lacan, Badiou, Agamben, Huck, Schwarz e Chauí. No domingo passado um dos nossos mais tarimbados analistas abandonou o cargo e converteu-se à religião Amish depois de tentar compreender um texto sobre Merleau-Ponty publicado no caderno Ilustríssima.

Ref. To previus REF.:

Ainda em relação ao idioma: agências de publicidade e setor financeiro falam inglês (versão apache).

Frases da semana

Do jornalista e escritor Humberto Werneck, autor de uma excelente biografia (não autorizada, obviamente) do intelectual brasileiro Jaime Ovalle e de uma extraordinária história de intelectuais mineiros dos anos 1920/1960 que foram formar uma diáspora da "mineiridade" na antiga capital da República: "Esses caras [Chico Caetano, Gil e cia.] não precisam preocupar-se com os maus biógrafos. Eles mesmos já estão se encarregando de avacalhar suas biografias."

De um jornalista de Brasília, amigo desta coluna: Quem iria ler a biografia não autorizada da Paula Lavigne? E quantas páginas seriam necessárias para relatar a obra produzida por ela? O autor da pergunta, José Rubens Pontes, promete também, em solidariedade aos artistas roubados pelos biógrafos não autorizados, não comprar e nem ler qualquer biografia não autorizada da Paula Lavigne. E nem a autorizada.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

OS OLIMPIANOS E AS CURVAS DA ESTRADA

Um oceano de distância separa os territórios de artistas como Roberto Carlos (que saudades das curvas da estrada de Santos), Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros de áreas frequentadas por figuras exponenciais da política e do governo. Mas uma condição os torna habitantes da mesma constelação: a visibilidade de seus perfis, que lhes confere fama e poder.

O mesmo ocorre com jogadores de futebol, atores e atrizes de novelas, príncipes e princesas de monarquias que ainda povoam o mapa das Nações.

Ao lado de um político comum, Pelé, Neymar ou Messi, a atriz Deborah Secco, o ator Antônio Fagundes ou William e Kate, duque e duquesa de Cambridge, certamente ganhariam mais palmas, não se descartando a hipótese de apupos dirigidos ao detentor de mandato popular.

Se o político, porém, dispuser de extraordinário poder, como Barack Obama, que preside a maior potência do planeta, seria razoável pensar em efusivos aplausos para ele.

A admiração por uns e a rejeição a outros decorre da simbologia que encarnam, um formidável arco de conceitos e situações que abarca o mundo das diversões; as esferas da política, com seus graus diferenciados de poder; os reinos que fazem lembrar contos de fadas, onde os olhares se embevecem com casamentos reais entre príncipes e plebeias que adentram os palácios e ascendem às alturas; as novelas noturnas, com dramas e tramas psicológicas, fontes de catarse e consolação de plateias fiéis aos personagens; os shows musicais, que permitem às multidões fruir um frenesi coletivo, abrindo as gargantas para acompanhar bandas e cantores, sob a cadência movimentada de corpos e braços; os espetáculos esportivos, onde torcedores fanáticos aplaudem seus ídolos e xingam adversários e o juiz da partida, beijando a camisa dos times e promovendo a integração de sentimentos e paixões.

Essa moldura do novo Olimpo, que o filósofo e educador Edgar Morin descreve como o habitat das vedetes do Estado Espetáculo, é iluminada todos os dias pela fosforescência midiática. Os tipos, com sua dualidade divino-humana, alguns elevados à categoria de heróis do cotidiano, se tornam onipresentes em todos os setores da cultura de massa.

Essa casta desperta curiosidade e admiração. Afinal, indagam-se os mortais, eles fazem as mesmas coisas que fazemos? Enfrentam dificuldades, acordam cedo, tomam banho, têm dores de cabeça, queixam-se da dureza do dia a dia ou suas rotinas são um desfile interminável de almoços e jantares, conversas e festas?

Para entrar nesses céus envoltos em mistério, as pessoas comuns se valem dos fenômenos da projeção e da identificação, que os fazem transferir seu ambiente psicológico para o habitat das celebridades, depois de conhecer seu lado humano e se identificar com seus gostos, atitudes e pensamentos.

A felicidade frui quando alguém descobre: “puxa, sou um pouco parecido com ele (o ídolo)”. Nessa esteira, multiplicam-se as histórias sobre a “vida pessoal” de cantores, compositores, políticos, jogadores de futebol, ao mesmo tempo em que se expandem as revistas ilustradas e de “fait divers”, com matérias sobre o mundo artístico.

As biografias não autorizadas constituem o acervo mais denso desse nicho. São ferramentas para furar as muralhas que cercam as fortalezas em que se encastelam estrelas da constelação olimpiana.

Dito isto, vem a pergunta: as vedetes da cultura de massa podem ter biografias não autorizadas sobre suas vidas ou os relatos devem receber sua prévia autorização? A resposta comporta, de início, considerar a faceta pública desses semideuses, tanto os políticos quanto os artistas. Uns e outros têm deveres para com a sociedade. Dependem do público.

A partir do momento em que suas atividades são massificadas – fator de sucesso profissional – submetem-se ao ordenamento ético de prestar contas a quem os acompanha. Que inclui relatos não apenas das retas, mas das curvas de sua existência.

A esse posicionamento público do artista e do político, soma-se o ditame constitucional que acolhe a manifestação de pensamento e da informação sem restrição. Se a honra, a vida privada e a imagem das pessoas são invioláveis, ainda nos termos constitucionais, lembre-se que há dispositivos no código penal contra danos morais, calúnia (art.138), difamação (art. 139) e injúria (art. 140), além da restrição às biografias, prevista pelo art. 20 do Código Civil. Países democráticos, como EUA, Canadá, Reino Unido, França, Espanha não admitem qualquer censura às biografias não autorizadas, ao contrário de Rússia, China e Síria, por exemplo.

Imagine-se a execração pública de Bill Clinton se censurasse biografia sobre sua trajetória presidencial, nela incluído o episódio com a estagiária Mônica Lewinski. Aliás, os norte-americanos estão lendo avidamente o livro Sexo na Casa Branca, do historiador David Eisenbach e do editor Larry Flynt, que conta histórias impactantes, algumas conhecidas, mas não relatadas com detalhes, como as que envolveram os presidentes Abraham Lincoln, Thomas Jefferson, James Buchanan, Franklin Roosevelt e John Kennedy.

Houvesse censura na Inglaterra, a história do príncipe Charles e Camila Parker teria sido guardada no baú. E também o caso mais escandaloso da política inglesa: o envolvimento do ministro da guerra, John Profumo, com a modelo Christine Keeler, no começo dos anos 60. Isso é importante? Sem dúvida. São as entranhas da política.

Estabelecer patamar diferente para político e artista é defender tratamento privilegiado para uns. É formar uma casta dentro da casta. Biografias autorizadas são livros de autoglorificação, loas ao biografado. E querer cobrar do autor percentagem pela obra é apropriar-se de um direito que não pertence ao artista.

Nas situações em que as biografias alavanquem a venda de discos, o autor da obra teria direito a uma percentagem da vendagem? Livros maldosos e mentirosos devem ir, sim, para a fogueira. Pelas mãos dos leitores, não pelo tacão da censura.



(Gaudêncio Torquato)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

I.N.R.I. - Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum

O mestre Leonardo Mota conta que outro mestre, Henrique, era afamado marceneiro nos sertões de SE. Sua especialidade estava nas camas francesas à moda Luís Quinze. Quando o freguês achava que o leito era baixo, recebia a explicação de que a cama era francesa, mas era à Luís Quatorze; se havia queixa da excessiva altura, ficava sabendo que aquilo era cama francesa à moda Luís Dezesseis. O mestre Henrique pôs toda a sua ciência no Cruzeiro do patamar da igreja de Aquidabã. No topo do sagrado madeiro, o vigário da freguesia fizera o mestre Henrique colocar uma tabuinha com as letras I.N.R.I., iniciais de Jesus Nazareno Rei dos Judeus, a irônica inscrição latina de que a ruindade de Pilatos se lembrara na ignominiosa sentença de morte do filho de Deus. Decorrido algum tempo, um sertanejo sergipano, intrigado com a significação daquelas quatro letras, perguntou a um seu conhecido:

- Que é que quererá dizer aquele negócio de INRI, que tem escrito em riba do Cruzeiro?

- Você num sabe não? Ali falta o Q-U-E. Esse QUE não cabeu na tabuinha: aquilo é a assinatura de quem fez, que foi o mestre INRIque.

Pesquisas eleitorais

As pesquisas eleitorais, muito distantes dos pleitos, costumam servir para abrir portas de candidatos nos meios empresariais. Na verdade, são retratos desfocados da realidade eleitoral. O retrato do momento flagra atores em movimento, pré-candidatos fazendo alianças barulhentas, discursos proferidos para atacar adversários e vice-versa, e tendo como pano de fundo o cobertor social e a malha política. Por tudo isso, devemos considerar as pesquisas como passaportes de viajantes que se preparam para fazer o percurso eleitoral.

Transferência

Essa coluna já bateu muito no tema : o voto no Brasil é fundamentalmente na pessoa física, não na pessoa jurídica. Apenas partidos que funcionam como igrejas, pequenas ou grandes, ainda conseguem capturar um voto por sua identidade. Os grandes partidos são geleia partidária. Mistura de quase tudo. Por isso, não se espere grande transferência de votos de Marina para Eduardo Campos. Aliás, a aliança entre os dois foi feita sob as bênçãos da velha política, que ambos execram. O governador de PE faz política, em sua terrinha, à base do cabresto ou do açoite. Aos amigos, pão; aos adversários, pau.

Fora de moda: polarização PT x PSDB

Eis alguns produtos, símbolos, sinais e coisas que começam a sair de moda. Polarização entre PT e PSDB. Há duas décadas e meia, tucanos e petistas se enfrentam. O lengalenga entre os dois entes partidários ainda é forte em alguns espaços, como o paulista. Mas tende a cair em desuso. Tucanos se acham auto-suficientes; petistas se consideram parentes diretos do senhor dos céus. A corrosão de material é visível.

Fora de moda: marketing da glorificação

As campanhas eleitorais adensam, a cada ciclo, os feitos e glórias dos candidatos. Que são apresentados como cidadãos sem nenhum defeito, passado limpo, vida decente, fazedor de coisas, pessoa de ideias, o melhor de todos. Esse marketing da glorificação, que é centrífugo (do candidato para os eleitores), deverá ceder lugar ao marketing das demandas sociais, que é centrípeto, ou seja, dos eleitores para os candidatos. A falação do candidato deverá ser alternada com a forte expressão popular.

Fora de moda: caras e bocas

Na verdade, continuaremos a ver um desfile de caras e boca nos programas eleitorais. Um desfile de extravagâncias e frases decoradas. Que terão impacto perto de zero. Essa massa amorfa será substituída por perfis ligados a setores, categorias e núcleos organizados da sociedade. Teremos, em 2014, a mais orgânica e racional campanha dos últimos tempos. O voto será mais seletivo, menos descompromissado.

Fora de moda: invencionices

Muitos candidatos, no passado, foram eleitos por conta de um marketing mentiroso, cheio de invencionices. Furas filas, centros hospitalares do primeiro mundo, obreirismo faraônico, que mais pareciam integrar os jardins suspensos da Babilônia. O marketing do pleito de 2014 deverá demonstrar a relação causa-efeito. A ideia deverá ser demonstrada em termos de viabilidade técnica, operacional, financeira. As elucubrações serão anotadas pelo sistema cognitivo do eleitor.

Eleitor mais racional

A cada eleição, é perceptível a expansão do voto racional no país: o voto mais consciente, o mais exigente, o voto em candidatos mais próximos, o voto em candidato conhecido, o voto em ideias, o voto em compromissos. Donde se pinça a moldura de uma organicidade social mais forte. Os tempos do eleitor "Maria vai com as outras" (apenas para lembrar o ditado popular, sem nenhum ranço discriminatório) estão dando vez aos tempos da autogestão técnica : o eleitor assume sua cidadania; sabe o que quer e ainda é capaz de selecionar os meios para alcançar seus fins.

Bolsões tradicionais

É evidente que o país não é, em sua totalidade, o território da racionalidade. Ainda se contabiliza, nos fundões e grotões, um voto de amizade, um voto de cabresto, um voto ao candidato mais jovem e garboso, um voto manobrado pelo "coronel", um voto de agradecimento pela dentadura recebida, pelo emprego ganho. Mesmo em regiões politicamente ainda defasadas, como o Norte, o Nordeste, o Centro Oeste, bolsões racionais de multiplicam. A racionalidade se expande dos centros para as margens, conduzida por círculos concêntricos, que realizam o movimento da pedra jogada no meio do lago.

O processo racional

A racionalidade é resultante de um conjunto de fatores, a saber: a elevação dos níveis educacionais, a melhoria do status social e econômico; a indignação gerada pela ineficiência dos serviços públicos; a ausência de respostas e feitos dos representantes em relação às regiões que os elegeram; a vontade de votar em um perfil diferente; a influência dos movimentos sociais; a elevação dos padrões éticos, a partir da bateria de denúncias intensificada pelos meios de comunicação de massa, etc.

Emoção x razão

Se o voto emocional, no passado, chegava a somar algo em torno de 60% a 70% por cento, hoje, baixou para algo em torno de 40%.

Articulação

O marketing político tem cinco eixos: a pesquisa, o discurso (propostas), a comunicação, a articulação e a mobilização. Em função dos aspectos descritos acima, a campanha de 2014 deverá dar muito valor ao fator articulação. Articulação com os núcleos sociais, entidades de todos os gêneros; articulação com os diversos atores políticos. E a mobilização deverá privilegiar os pequenos e médios encontros em vez dos grandes eventos de massa. O país mudou. Não há mais clima para grandes comícios.

O eleitor é uma caixa-preta

O conceito é velho. Ninguém sabe o que se passa na cabeça do eleitor. Há induções e deduções. Mas ele certamente é influenciado por um conjunto de fatores, a saber: o candidato, o cenário (o espaço onde está), a comunicação, custos e recursos da campanha, concorrentes, influências de amigos e comunidades e circunstâncias.

O voto em São Paulo

O Brasil teve, em 2012, mais de 140 milhões de eleitores, cerca de 67 milhões de homens e 73 milhões de mulheres. SP é o maior colégio eleitoral do país. Hoje, abarca cerca de 33 milhões de votos, mais de um quinto de todos os eleitores. Como pode se dividir esse contingente? Há um pouco de tudo : as maiores categorias trabalhistas; as maiores densas classes médias; os maiores núcleos de profissionais liberais; os mais cheios colégios eleitorais de cunho religioso; as mais fortes entidades de organização social; os maiores sindicatos e assim por diante. O que isso quer significar? Um voto mais orgânico, menos amorfo, mais seletivo, mais focado no perfil compromissado com a sociedade organizada.

O voto nordestino em SP

Eduardo Campos sonha em fincar pé no território paulista e paulistano, por saber que aqui, nessas plagas, concentra-se a maior capital nordestina do país. O fato, amplamente medido pelo IBGE, não faz, porém, SP uma capital nordestina. O nordestino que aqui aportou é um saudosista, sim, ama o torrão, visitas cidades de origem, canta as toadas da terra, mas SP é seu país. Vive os dramas, sente as angústias dos munícipes, faz cobranças aos governantes, etc. Ou seja, não vota em um candidato nordestino apenas pela identificação regional. Se Dudu Beleza espera ter imensa votação na maior capital nordestina do país, é bom, logo, logo, começar a administrar a reversão de expectativas que o tomará.

Padilha com 30%

Alexandre Padilha espera contar com 30% de intenção de voto um mês após ser consagrado pela convenção do PT em junho de 2014. Será ? Como será avaliado o "Mais Médicos", hein? O PT é uma religião que soma, a cada pleito, cerca de 30% dos votos em SP. Conseguirá desta feita?

Alckmin com 35%

Geraldo Alckmin espera iniciar a jornada com 35% de intenção de votos. E chegar aos 40% em julho/agosto. Pode ser. Terá de lubrificar muito a máquina tucana. Que, em SP, sofre de fadiga de material.

Skaf

Pois é, esse candidato poderá surpreender. Atualmente, está na faixa dos 20%. Incorpora o perfil do novo. Figura dinâmica, passa imagem de inovação e se encaixa no figurino de uma alavanca para a área educacional. Ao fundo, suas realizações no SESI e SENAI, sob o manto da FIESP.

Marina no lugar de Dudu

Este consultor não crê na hipótese. Eduardo Campos, mesmo abaixo de Marina em matéria de intenção de voto, não deverá ceder a ela a cabeça de chapa.

Este não serve

Em Antenor Navarro/PB, o júri ia começar. O juiz da comarca, Nelson Negreiros, viu o réu chegar sem advogado de defesa:

- O senhor não tem advogado?

- Tenho, doutor juiz. Meu advogado é Deus.

- Esse não serve. Não é inscrito na Ordem.

Conselho aos pré-candidatos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao governador de PE, Eduardo Campos. Hoje, volta sua atenção aos pré-candidatos nas eleições majoritárias:

1. Procurem, desde já, formar suas equipes, não deixando para a última hora a organização da estrutura de campanha.

2. Como o pleito de 2014 deverá privilegiar o conteúdo, ênfase deve ser dada à equipe encarregada de propor um programa de governo.

3. É conveniente, nesse momento, planejar e executar uma bateria de pesquisas para aferir demandas sociais, por classes sociais e categorias profissionais, mas para procurar interpretar o animus animandi (a forma de pensar, o sistema cognitivo) do eleitor.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Coisas a comemorar, muito com que se preocupar - 1

A pesquisa do DataFolha divulgada no fim de semana, trouxe motivos para todos os candidatos à presidência da República terem alguma coisa a comemorar. É a primeira sondagem depois do terremoto (ou maremoto) provocado pela união entre Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva (Rede, ainda não oficialmente existente) e não captou ainda todos o efeitos da inusitada colaboração entre os sustentáveis e os socialistas. Demorará algum tempo ainda para que a onda provocada pela pedra jogada no meio do lago atinja as margens da lagoa eleitoral. Apesar disso, quem tem mais a sorrir é a presidente Dilma Rousseff e o seu grupo: as indicações do momento apontam que ela ganharia em primeiro turno se seus adversários fossem Aécio Neves e Eduardo Campos e venceria qualquer um de seus prováveis concorrentes (os dois mais Marina Silva e José Serra) numa hipotética segunda rodada.

Coisas a comemorar, muito com que se preocupar - 2

Viu-se, também, que Marina permanece sendo a principal competidora de Dilma, o que explica a quantidade de notas e análises "isentas" na mídia, na última semana, apontando para as dificuldades que a dupla Campos-Marina enfrentará na prática. Pura torcida, pois não apenas os dois enfrentarão dificuldades regionais em seus palanques: também Dilma e Aécio/Serra vão sofrer muito para acomodar os interesses de prováveis aliados. Para Dilma, o pior sinal do levantamento do DataFolha é o que diz que sua popularidade, com brutal queda depois das manifestações juninas, e depois em recuperação, perdeu fôlego, está praticamente parada. Este dado já estava presente na pesquisa do Ibope, divulgada em meados de setembro. Para todos os partidos, o sinal que deixa tudo em suspense é que cerca de 25% dos eleitores sondados pelo DataFolha, ou seja, um em cada quatro, ainda não escolheu seu candidato. O que pode mudar tudo até as vésperas das eleições. Também é bem significativo, conforme outras pesquisas, o número de eleitores que admitem mudar sua preferência ao correr da campanha.

Coisas a comemorar, muito com que se preocupar - 3

O mais relevante a considerar para qualquer prospecção mais profunda, porém, é que todos esses movimentos estão sendo proporcionados apenas por eventos políticos e de "marquetagem", importantes sem dúvida na conquista do eleitor, mas não totalmente determinantes. Dois serão os fatores que poderão, de fato, decidir as eleições de 2014:

1. O sempre falado comportamento da economia, com ênfase na questão do emprego e da renda. Nesse ponto, a maioria dos analistas independentes não está vendo no horizonte, grandes abalos para a candidatura de Dilma à reeleição. O governo tem instrumentos para ir tocando a situação, sem deixar a inflação escapar ao controle e segurando ameaças de desemprego. Vamos continuar crescendo mediocremente, mas sem turbulências maiores ou mesmo uma crise.

2. A percepção, a sensação dos eleitores sobre a qualidade dos serviços públicos, naquilo que mais afeta o seu dia a dia, a sua qualidade de vida, aliás, o grande mote das manifestações juninas. Desse ponto de vista, o quadro que se apresenta hoje não é dos mais animadores para quem, Federal ou estadual, vai defender as cores governistas.

Campos-Marina: Moderno-Arcaico - 1

Não cabe neste honrado espaço enormes e profundas digressões sobre a sociologia política brasileira neste momento. Todavia, parece-nos que é o caso de utilizarmos as "ferramentas" da política para pensarmos um pouco sob a luz da recente aliança Campos-Marina. Ocorre que esta dupla reserva ao eleitorado uma soma inusitada entre o antigo e o moderno que precisa ser deduzida com certa urgência sob pena de a esfinge do eleitorado dragá-los e expeli-los. Campos, com seus europeus olhos azuis, é homem que denota tradição (o ex-governador Miguel Arraes) e um carisma local (e não nacional). Todavia, falta-lhe o tempero da modernidade na política, aquele que no dizer de Max Weber está ligado ao entendimento mais completo da legalidade formal e dos limites (formais ou não) da democracia. Marina, de outro lado, tem tradição calcada em luta política, é abastada de carisma pessoal e apega-se a visões de mundo estruturadas de forma ideal e, às vezes, um pouco distante da realidade objetiva. Saiu da floresta e provou-se astuta na associação que fez, mas ainda persiste em seu discurso certo exagero onírico. Campos-Marina, enfim, não é uma combinação tal qual feijão com arroz. Está mais para uma mistura tropicalista, onde ele pensa no casamento e ela saboreia um açaí.

Campos-Marina: Moderno-Arcaico - 2

Se as diferenças de Campos e Marina são notórias, estas serão bem mais exploradas pelos seus opositores que os poços de petróleo de Eike Batista. Logo, por dedução lógica-política, é melhor mostrar logo para o respeitável público como a equação funciona entre os dois, sob pena de esta parceria virar inequação e terminar esquecida em algum lugar inabitado da Amazônia. Para Marina cabe sair do respeitado discurso sobre a vocação política para a ação política concreta, dizer aquilo que vai fazer. Eduardo Campos terá de fazer que o leito do PSB, tão assoreado por nada ortodoxas alianças políticas, sobretudo nos Estados, não vire um atoleiro onde não andarão juntos a pureza ideal da política de Marina e o necessário pragmatismo na ação política. A dúvida sobre a "cabeça de chapa" vai ficar até que se saiba sobre os efeitos externos desta surpresa política. Internamente, não há nada mais perigoso que as vaidades reinarem e desunirem o partido que já era um composto complexo e que sofreu mais uma mutação genética jamais vista nas últimas décadas no Brasil no âmbito formal dos partidos políticos.

Campos-Marina: Moderno-Arcaico - 3

O programa de rádio e TV da nova dupla dinâmica da política brasileira, na última semana, foi bom para tratar não apenas das aparências, mas também começar a falar concretamente a que veio. Pareceu sincero e trouxe até alguma felicidade frente à tremenda chatice que, em geral, se vê. Daqui por diante, porém, será essencial que se saiba mais sobre o que pensam Campos e Marina sobre a economia, a política, a educação, a saúde, etc. Sumir de cena para realizarem os "debates com as bases" sobre o que deve ser feito se constituirá enorme erro de estratégia porquanto dará tempo para que os adversários se recoloquem para destronar a vanguarda que Marina-Campos (nessa ordem) criaram. Política é liderança, e não pode ser guia o "curtir" do Facebook com todo o respeito que as tais redes sociais merecem. Esta coluna não é afeita a "conselhos", mas a nossa melhor análise leva a crer que o eleitorado gostará de ver algo novo no ar, mas quer saber como a vida concreta de cada um vai ser afetada. Campos-Marina criaram riscos enormes à frente, mas há de se reconhecer que abriram horizontes no céu da triste política brasileira.

Dilma, eleições e melões

Na semana passada a presidente Dilma Rousseff esteve presente a eventos que são bem a conta de (i) o quanto a campanha eleitoral está prematuramente nas ruas e (ii) a falta de uma visão estratégica em relação ao Brasil, no momento em que se vê a olhos nus a desindustrialização do país, a incompetência generalizada na gestão do Estado, a corrupção elevada em diversos segmentos e assim vai. O primeiro foi o encontro com taxistas para fazer coro em prol de um projeto que altera as regras das permissões de serviços públicos em caso de morte do permissionário. O outro, sábado passado, foi a entrega de 57 motoniveladoras no RS com direito a fotos com as belas gaúchas da Festa do Melão. Tais encontros representam bem a tônica do governo Dilma neste momento. Não bastasse isso, há vazamentos na imprensa dando conta do forte interesse de Dilma Rousseff por motocicletas, ao que parece uma Harley-Davidson. A presidente vai, inclusive, agravar as já debilitadas contas externas do país.

Insatisfação social: uma medida

Dados da pesquisa do Ibope de setembro mostram que é constante a deterioração da satisfação da sociedade com os serviços de obrigação dos governos de um modo geral. Vamos a eles na comparação com setembro de 2011:

- desemprego: (a) aprova - 53% em setembro de 2011, 39% em setembro de 2013; (b) desaprova - 42% em setembro de 2011, 57% em setembro de 2013.

- inflação: (a) aprova - 55% em setembro de 2011, 38% em setembro de 2013; (b) desaprova - 68% em setembro de 2011, 27% em setembro de 2013.

- combate à fome e à pobreza: (a) aprova - 59% em setembro de 2011, 51% em setembro de 2013; (b) desaprova - 38% em setembro de 2011, 47% em setembro de 2013.

- saúde: (a) aprova - 30% em setembro de 2011, 21% em setembro de 2013; (b) desaprova - 67% em setembro de 2011, 77% em setembro de 2013.

- educação: (a) aprova - 46% em setembro de 2011, 33% em setembro de 2013; (b) desaprova - 51% em setembro de 2011, 65% em setembro de 2013.

- segurança pública: (a) aprova - 37% em setembro de 2011, 24% em setembro de 2013; (b) desaprova - 59 % em setembro de 2011, 74% em setembro de 2013.

- impostos: (a) aprova - 27% em setembro de 2011, 22% em setembro de 2013; (b) desaprova - 66% em setembro de 2011, 77% em setembro de 2013.

- meio ambiente: (a) aprova - 54% em setembro de 2011, 41% em setembro de 2013; (b) desaprova - 38% em setembro de 2011, 52% em setembro de 2013.

- taxa de juros: (a) aprova - 32% em setembro de 2011, 23% em setembro de 2013; (b) desaprova - 59 % em setembro de 2011, 71% em setembro de 2013.

(A diferença para 100% das entrevistas correspondente a quem não sabe ou não respondeu à questão. Quem quiser acompanhar a evolução desses índices nesse período)

Alianças muito precárias

A não ser em casos muito específicos, como no caso PSB-Rede - nesta altura a aliança é indissolúvel sob pena de total desmoralização de Marina e Eduardo Campos - e da sólida composição PT-PC do B - praticamente todas as alianças que os principais concorrentes à presidência estão correndo para fechar agora, tendo em vista, principalmente, a conquista de tempo no horário eleitoral obrigatório no rádio e na televisão. Ademais, estão sujeitas a revisão no futuro. Até julho, quando todos os partidos farão suas convenções, ninguém é de ninguém nesta vida, apesar de flerte, namoros e até "ficadas". Para todos os partidos que não estão na tabela principal - PT, PSDB e PSB-Rede o que importará mesmo, será garantir poder de barganha com o novo governo e tomar posse em 2015. Para isso, eles precisam eleger o maior número possível de deputados Federais e senadores e também não fazer feio demais nas eleições estaduais. Assim, o que contará para eles são as composições que lhes garantem mais chances nessas disputas. Afinal, depois das eleições, com exceção dos dois derrotados - e mesmo assim olhe-se lá - todos serão chamados para compor o "alianção" governista. O que eles ganharão em troca será proporcional ao tamanho que apresentarem depois das urnas.

Águas revoltas: a Receita Federal - 1

Algumas semanas atrás, citando especificamente o BC, o Tesouro Nacional e o Itamaraty, falávamos de uma surda revolta nas burocracias mais consolidadas do governo Federal contra decisões em suas áreas e posições de seus comandos que eles consideram mais políticas que técnicas. Esta semana as águas ficaram revoltas na secretária da Receita Federal, com um e-mail interno expedido pelo chefe da Fiscalização RF Caio Cândido, reclamando abertamente de "interferências externas" nas decisões do órgão e com uma entrevista dada por outros dois comissionados dizendo claramente que os pareceres técnicos da área desaconselham o novo Refis que está para ser aprovado pelo Congresso com as bênçãos do Palácio do Planalto. Houve uma tentativa de amenizar a crise, porém sabe-se que o ambiente por lá é efervescente. A interpretação é a de que a revolta é com os benefícios e vantagens que empresas influentes estariam conquistando. É um fato, porém não é o único. Incomoda (na expressão usada pelo chefe da fiscalização que está demissionário) também o uso de expedientes para sustentar artificialmente certos aspectos da política econômica. A inquietação não é, para usar uma expressão introduzida no meio pelo ex-presidente Lula, uma simples marolinha.

Águas revoltas: a Receita Federal - 2

Há que se notar que as complicações envolvendo a Receita são enormes. O órgão sempre é instado a arrecadar mais num contexto em que o governo gasta mal e muito. Não é fácil a tarefa. Além disso, é relativamente comum certos obstáculos jurídicos que garantem a segurança das operações de empresas e pessoas serem ultrapassados. Foi o ocorreu na questão na tentativa da Receita em faturar mais alguns reais tributando os dividendos passados das empresas em função da diferente contabilização entre os critérios definidos pela Receita e aqueles referentes ao sistema contábil IFRS. A intenção, neste caso, foi a de aumentar a arrecadação. Contou com a anuência da Fazenda e, quando os órgãos de representação das empresas, especialmente a Abrasca - Associação Brasileira das Companhias Abertas, reagiram aos efeitos daquela tentativa, houve singelo recuo da Receita e da Fazenda como se fosse tudo um mal entendido. Não foi. Isto está inserido no contexto de "perseguição arrecadatória" na qual está mergulhada a Receita, por força da atual gestão das finanças públicas do país.

Projeto de Alckmin

Vejamos esta afirmação do governador de SP no Fórum de Mobilidade Urbana promovido pela Folha de S.Paulo: "Trilhos são o melhor investimento. Um trilho faz 80 mil passageiros/hora em cada sentido. Ônibus, 5 mil. Um corredor de ônibus pode chegar a 12 mil, 14 mil". Nosso comentário: até o final de 2014 a Cidade de SP o Metropolitano deve chegar a 102 km. Diz o governador que o objetivo é chegar a 200 km. Para tanto, não especificou a data. O certo é que deveria o metrô ter mais de 300 km. O metrô de SP é uma ilha de esperança da população cercada por um mar de tubarões onde são fartas as denúncias de corrupção na construção dos trilhos, bem como o proselitismo político do poder de plantão. Não há um plano consistente que tire a população do aperto diário dentro dos ônibus. Os números sobre o tema sobram nas palavras dos governantes, mas não há o sentimento de emergência em relação à população, sobretudo a mais pobre, que depende do transporte público. Sequer há prazos bem planejados. Em tempo : o prefeito de SP tem uma aposta curiosa. Incentivar que as pessoas andem a pé. Afinal, as calçadas estão sendo reformadas.

Haddad: saída fácil

Os imóveis de SP terão a tributação elevada em cerca de 30%. O IPTU de Fernando Haddad tornará a tributação paulistana a fonte de recursos para sanear as mazelas de SP, do transporte público até a saúde. O ex-ministro da Educação demonstrou que sua capacidade de criar algo novo na cidade é zero. Não há reformas, não há economias projetadas, não há inovações. Há apenas a alta do IPTU. Com a Câmara Municipal aos seus pés, o distinto alcaide pode tudo. Como membro da "nova geração" política do país, Haddad age como todo poderoso de plantão de velha guarda : faz alarde sobre projetos destituídos de visão estratégica como são as faixas de ônibus e dá um carnê de imposto mais alto na mão dos eleitores. Há também medidas populistas, típicas dos velhos tempos da política nacional: Haddad quer obrigar o seus secretários a irem de ônibus para o trabalho. O sistema deve ficar lotado, afinal são 29 subprefeituras e 27 secretarias, distribuídas pelos partidos que apóiam o prefeito. Será interessante, para dizer o mínimo, a experiência que o prefeito quer introduzir.

Verdades pela metade

O ex-presidente Lula, em entrevista publicada segunda-feira no jornal argentino "Página 12" voltou a acusar a oposição brasileira de ter prejudicado o setor de saúde ao ter acabado, em fins de 2007 com a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras). Este é um velho discurso de Lula e ele voltou a retomá-lo comparando a atitude da oposição no Senado naquela época com a disputa hoje entre os republicanos e o presidente Barack Obama no Congresso a respeito do orçamento Federal, por causa dos planos do presidente americano para os planos de saúde. Trata-se de uma boa conversa de apelo eleitoral, mas que não encontra amparo na realidade por duas razões:

1. O PMDB, partido governista e que tinha (e tem) o vice-presidente da República, Michel Temer, foi um dos principais artífices da derrota da prorrogação da vigência da CPMF pedida então por Lula. Primeiro, porque segurou ao máximo da MP correspondente na Câmara, dificultando as negociações para sua aprovação pelos senadores. Comandou o boicote o deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), hoje líder do partido, que só soltou o osso quando conseguiu acertar nomeações para Furnas. E depois, quando vários peemedebistas votaram contra a MP. A oposição sozinha já então não tinha número suficiente para derrotar o governo, nem no Senado nem na Câmara.

2. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, logo depois da derrota, em janeiro, soltou uma MP, aprovada no Congresso em abril, aumentando o IOF de algumas operações e a Contribuição Social sobre o lucro líquido dos bancos, de 9% para 15% exatamente para compensar as perdas com o imposto do cheque. Os maus serviços públicos de saúde no Brasil se devem apenas em parte à falta de recursos. Em boa parte é culpa de desperdícios e má gestão mesmo.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

domingo, 13 de outubro de 2013

CARTA AO EDUARDO (POR OCASIÃO DO SEU ANIVERSÁRIO!)


Meu primo Eduardo Paula Rodrigues:

Um pássaro virtual me trouxe a missiva em que narras a sucessão dos fatos que constituem tua árvore essencial. Minha primeira reação foi correr para o mar. Tua vida parece se resumir a uma corrida, após uma busca para conhecer o mundo através de uma inserção marítima. E hoje à tarde o mar, esse incansável viajante que nunca sai do lugar, me estimulou a te pedir vênia para dar publicidade a alguns detalhes da tua intimidade.

Confesso que desconhecia, oh sexto filho do Janjão e da Mariinha, o porquê do teu nome composto Eduardo Paulo. Eduardo porque nasceste em 13 de outubro, dia de santo Eduardo, o Confessor, penúltimo rei saxão da Inglaterra. Já o Paulo surgiu em homenagem a Paulo Sarasate, excelso líder cearense quando viestes ao mundo. No cartório, grafaram ‘Paula’ ao invés de Paulo.

Na infância fostes talhado para a fortaleza, sendo cúmplice da madrugada e acordando antes da aurora para beber o leite ‘mugido’, a fim de tanger o comboio de animais que transportava a água de beber em pipas de madeira.

Na sequencia, a cidade. Crateús. Febril, pulsante, desafiadora. O Externato Nossa Senhora de Fátima, a Escola da Dona Delite. E a inusitada recepção: o código do rigor, o estatuto da severidade, o puxão na orelha, o regimento da palmatória. Mas essa exigente etapa era condição sine qua non para a realização do sonho de todo estudante daquela agradável província: passar no exame de admissão do Ginásio Pio XII. Como “reprovar era um verbo proibido de se conjugar”, passaste.

Naquele final da década de 1960, o País sob o governo das armas, um anúncio te despertou a atenção: “Entre na Marinha e conheça o mundo”. Vislumbraste ali não apenas uma oportunidade de trabalho, mas a oceânica aventura de mudar de vida. E foi na Escola de Aprendizes Marinheiros, precisamente em 04 de junho de 1971, que enfrentaste o teu maior maremoto existencial: a perda do pai, aos 52 anos, vítima de acidente automobilístico.

Se a amplidão do mar tinha inicialmente te inebriado, o convés do navio te sufocava.

Desejavas um porto seguro, correr em terra firme, subir degraus na escadaria educacional, viver novas experiências. Aí, concursado do Banco Central, foste para o centro do País, a Capital da República. Tiveste a oportunidade de saborear o convívio poético com o tio-avô Alexandre Lucas, o maior condoreiro do nosso clã, que resolveu adotar o sobrenome Boquady - “Jatobá” em tupi-guarani – como uma forma de prestar reverência à nação indígena. Jamais esqueceste o gesto generoso de Jesus, filho de Lucas, ao te ofertar o indispensável apoio na condução do barco educacional, essencial para que pudesses aportar com tranqüilidade nessa ilha de excelência pública que é o Banco dos Bancos, regulador do crédito e do volume de dinheiro na economia.

Em Brasília, saboreaste a Ambrosia, o doce de divinal sabor, produzido pelo fogão de lenha do coração. Desposaste Antonia, que te deu a inteligente e radiosa Ana Paula, a mais velha, jovem discípula da deusa Thêmis e o promissor Lucas, o mais novo, em adiantado estágio de preparação para prestar o juramento de Hipócrates.

Quem enfrenta a procela, aprende a pisar com agilidade no espaço terreno. Por puro diletantismo, começaste a correr pelas ruas, como um hobby para recondicionamento físico, e viraste um maratonista de dimensão internacional, com atuação na famosa maratona de Nova Iorque e, por quatro vezes, na COMRADES, a ultra maratona da África do Sul, que ocorre desde 1921.

Porém, a incursão mais espetacular que registraste foi em direção às montanhas da bem-aventurança, praticando a filantropia nas ribanceiras da própria vazante familiar, presidindo a Associação Beneficente em Prol dos Portadores de Ataxia (ABPAT/DF), um lenitivo para o incômodo hereditário que inquieta vários parentes com dificuldades de coordenação motora.

Sei que amas a leitura, gostas de ouvir música e adoras pescar. Tens, porém, uma frustração: nunca aprendeste a tocar um instrumento musical. Ficai tranqüilo: tua trajetória é uma melodia à essência solene da vida!

(Júnior Bonfim)

sábado, 12 de outubro de 2013

PAULO NAZARENO: "FELIZ CUMPLEAÑOS!"


HOJE É O NATALÍCIO DE PAULO NAZARENO SOARES ROSA!

O acaso protegeu Paulo. Além de o registro batismal assentar o místico “Nazareno”, incluiu o lusitano “Soares” (sinônimo de ousadia, espírito competitivo, força de vontade, originalidade) e, por fim, ”Rosa”, lírica expressão do perfumado desabrochar da vida!

Como se fosse pouco, ainda inaugurou sua presença neste mundo no Dia das Crianças!

Por isso vive teimando contra o tempo. Alheio à ação envelhecedora dos anos, mantém-se criança, rejuvenescendo as idéias e atualizando os dias. É rosa: murcha e ressuscita – simples, sim! – e mantém incólume a sedução do jardim.

Um feliz aniversário! Segue, endoscopista de almas, amante da natureza, aviador natural, apreciador da boa música, estudioso dos grandes temas, visionário trabalhador! Segue, com o estandarte desbravador do convertido “Paulo”, transformando água em vinho (como o “Nazareno”), mantendo a vocação pastoril dos “Soares” e escrevendo, nas pedras do caminho, o suave nome da “Rosa”.

Como dizem os latino-americanos, feliz cumpleaños!

(Por Júnior Bonfim)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

PARA REFLETIR

"A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão.

É uma questão de consciência."

(Mahatma Gandhi)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

Peibufo, o maior assassino

Abro a Coluna com uma historinha de PE.

Em um mês "bro", setembro de 1998, o economista e professor Joel de Hollanda, ex-secretário da Educação de PE, fazia campanha pela reeleição a deputado Federal pelo PFL, hoje DEM. Corria pelas estradas poeirentas de São José do Egito, entre 12 e 13 horas. Calor infernal, margeando os 40ºC. Transpirava por todos os poros. Chegando à cidade, refugiou-se à sombra de frondosa árvore na praça da matriz. Ao seu lado, sentado no banco, um sujeito amarelo, muito magro, miúdo, fala mansa. Diante da figura e cheio de cansaço, arrastou um papo. Pescava um votinho. Neste instante, seu cabo eleitoral, voltando com uma garrafa de água, viu a cena e ficou pálido. Começou a fazer sinal para o deputado. Disfarçava para o amarelinho não perceber a agonia. Joel entendeu, disfarçou e pediu licença ao companheiro de banco para se retirar. Foi ao encontro do cabo eleitoral. Mais que depressa, este abriu a boca para confessar:

- Deputado, este cara é o Peibufo, o maior assassino da região. Tem na cartucheira mais de 100 mortes gravadas. Mata qualquer um por qualquer trocado. Pelo amor de Deus, se afaste desse cangaceiro antes que ele se enfastie do senhor e lhe meta chumbo.

Joel ouviu com atenção. Fixou os olhos no sujeito e, confiando na lábia de educador e político calejado, voltou ao banco e foi direto ao assunto.

- Moço! Como é que o senhor tem coragem de matar uma pessoa?

De pronto, Peibufo resmungou:

- Doutor, eu não mato por coragem, não! Só mato por costume!

(Historinha contada por Carlos Alberto Pereira de Albuquerque)

Essa ninguém previa

Pois é, a entrada de Marina no PSB foi a bomba política do ano. Poderia até ter sido uma estratégia articulada ao longo dos últimos meses, mas a decisão, tomada no último minuto do segundo tempo do jogo, pegou todos de surpresa. É claro que Marina, na entrevista dada pouco antes, apontara uma pista : desejava quebrar a polarização entre tucanos e petistas. Ou seja, seria candidata. A pista se mostrou correta. Quer romper a polarização, mas com Eduardo Campos sendo o candidato. Ela como candidata a vice. Conseguirá? Vamos à análise.

Transferência? Coisa complicada

Vota-se nessas plagas em pessoas, muito pouco em partidos. Portanto, há de se distinguir um voto em Marina do voto de Eduardo Campos. Cada qual com seu bornal de votos. E a transferência de votos dela para ele? Pouco provável. Digamos que uns 10% a 15% de votos sejam transferidos para o conjunto da chapa. E os outros? Parcela boa da votação de Marina tende a migrar para Dilma Rousseff. Consideremos, nesse caso, a esfera ideológica em que ela e Dilma se abrigam. É a mesma, entre centro-esquerda e esquerda. Eduardo Campos também está circunscrito nesse espaço. Mas a tendência maior é a de migração de votos para a presidente. Principalmente em um ciclo de economia sob controle, inflação abaixo dos dois dígitos e empregabilidade mantida.

Aécio, maior perdedor

Quem perde mais no jogo que está sendo jogado é Aécio Neves. Encarna mais a oposição do que Eduardo Campos, que pertencia, até pouco tempo atrás, ao governo Dilma. Campos fala em melhorar, fazer melhor as coisas. Aécio prega mudança mais radical. Não há um clamor geral por mudanças radicais. As exigências apontam para a qualificação de serviços públicos, principalmente nas áreas da saúde, educação, transportes urbanos e segurança pública. Portanto, a tendência é a de manutenção das vigas macroeconômicas. Aécio quer polarizar.

Eduardo cresce?

Pode haver crescimento de Eduardo Campos, sim, mas em um contexto de insatisfação crescente. Vai depender, ainda, da visibilidade que alcance. Antes, precisa arrumar os parafusos da aliança com Marina. Primeiro, os empresários que simpatizam com sua candidatura continuarão com ele ? Não aceitam por completo Marina Silva. Esta, por seu lado, teve uma decepção com parte da bancada do PSB, que votou contra sua visão no projeto do Código Florestal. Os socialistas de Campos fecharam questão com a bancada ruralista. Campos vai precisar de Marina para se infiltrar nos colégios eleitorais do Sudeste. Um desafio e tanto.

Uma inversão na chapa?

É possível haver uma inversão na chapa. Digamos que, no primeiro trimestre de 2014, Marina continue com alta visibilidade e bons índices de intenção de voto, algo como 25%; e Eduardo Campos, mesmo sob o empuxo de Marina, não consiga uma alavancagem que o posicione como segundo colocado. Será que a chapa se mantém? A lógica, nesse caso, aponta para uma inversão, com Marina assumindo a cabeça da chapa?

Lula, metamorfose

Há, ainda, Lula. Que já prometeu ser a metamorfose ambulante da campanha. Puxará as massas para o espaço de Dilma. No Nordeste, tende a ser o maior puxador de votos de sua pupila. Seu imbróglio maior será SP, o maior colégio eleitoral do país, e que tem um voto menos emotivo e mais racional. As classes médias paulistas têm um canal muito estreito com o tucanato, apesar da sensação de esgotamento do ciclo tucano. 20 anos de poder corroem os melhores materiais.

Black blocs

Pelo andar da carruagem, as manifestações de rua tendem a continuar. Se hoje, fazem barulho nos centros do RJ e SP, imaginemos os meados de 2014. O imprevisível estará na esfera desses grupamentos mascarados, que se intitulam de black blocs. Os movimentos de rua começam pacíficos e acabam com depredações de patrimônios público e privado. As polícias reagem tardiamente, quando o quebra-quebra assume proporções fantásticas. Não há prevenção e isso é um grande erro. Governos parem tíbios e tímidos, denotando receio de fazer uma repressão mais dura. O Brasil vive efetivamente uma crise de autoridade.

Enxugamento na Petrobras

Petrobras era um gigante. Hoje, um gigante que vê buracos por todos os lados. Esfacela-se. A última nota da Petrobras é sobre o enxugamento de sua estrutura. Fechará 38 escritórios no exterior. Velhos tempos de glórias. Novos tempos de aflição.

A moldura partidária

A migração partidária apenas balanceou as bancadas, sem alterar as fisionomias situacionista e oposicionista na Câmara. O governo Dilma continua com o rolo compressor, formado por 384 parlamentares. Sobram 129 na base oposicionista, se considerarmos que o PSB, de Eduardo Campos, com 22, tende a formar com o bloco de oposição. Quem esperava uma debandada na direção oposicionista ficou a ver navios.

O novo quadro

1. Governo

PT, de 87, ficou com 86; PMDB, de 83, ficou com 77; PSD, de 48, ficou com 41; PP, de 40, ficou com 43; PR, de 37, ficou com 36; PDT, de 28, ficou com 19; PSB, de 19, ficou com 22; PTB, de 17, ficou com 18; PSC, de 16, ficou com 14; PC do B permaneceu com 13; PV, de 10, ficou com 9; PRB, de 10, ficou com 11; PT do B permaneceu com 3; PRP permaneceu com 2; PHS, de 1, ficou com nenhum.

2. Oposição

PSDB, de 50, ficou com 46; DEM, de 27, ficou com 25; PPS, de 11, ficou com 8; PSOL permaneceu com 3; PMN permaneceu com 3; PEN, de 1, ficou com nenhum.

3. Novos

Solidariedade - 21
PROS - 14

Na Academia de História

Registro, com alegria, meu ingresso, ontem, na Academia Paulista de História. Assumo a vaga deixada pelo grande professor de psicologia, Samuel Pfromm Netto, que conheci, desde os idos de 1975, quando a Proal, empresa da qual era sócio, promoveu um Simpósio sobre TV e Criança. Fui o coordenador desse evento. Hoje, nossas histórias novamente se cruzam. O patrono da Cadeira nº 7, que ocupo, é Alexandre de Gusmão, o criador do Tratado de Madri, pelo qual o Brasil ganhou sua atual configuração geográfica. Gusmão é considerado o "avô da diplomacia brasileira".

Canuto

Canuto, rei dos vândalos, mandando justiçar uma quadrilha, e pondo um deles embargos de que era parente Del-Rei, respondeu:

- Pois se provar ser nosso parente razão é que lhe façam a forca mais alta.

(Padre Manuel Bernardes)

PS. Os vândalos, hoje, são de outra espécie.

Conselho a Eduardo Campos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado às oposições. Hoje, volta sua atenção ao governador de PE, Eduardo Campos:

1. Vossa Excelência merece congratulações pela jogada de mestre, como pode ser interpretada a parceria com Marina Silva. Mas não pense que transferência de votos ocorre de maneira natural entre parceiros. Será muito difícil que os votos de Marina sejam depositados em seu bornal.

2. Procure aproveitar a parceria com a ícone da Sustentabilidade para entrar em espaços que ainda não o conhecem bem, como as regiões Sudeste e Sul. Mas deixe para tomar uma decisão sobre a real composição de sua chapa mais adiante, no primeiro trimestre de 2014.

3. Se Marina continuar como segunda colocada e Vossa Excelência em quarto lugar, o lógico seria ceder o espaço à acreana. Seria um gesto de boa política e boas práticas.

(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

OBSERVATÓRIO


“A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos poderes, mudou restaurando a federação, mudou quando quer mudar o homem em cidadão. E só é cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa.” Com uma oração heróica e histórica, Ulysses Guimarães anunciou, em 5 de outubro de 1988, a nova Carta Magna Brasileira. No dia em que celebrava os 25 anos da Constituição Cidadã o mundo político nacional foi surpreendido com a filiação da ex-senadora Marina Silva ao Partido Socialista Brasileiro, o PSB. Esse gesto também foi permeado de simbolismos.

MARINA

Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, nascida em 8 de fevereiro de 1958 na pequena comunidade de Breu Velho, no Seringal Bagaço, Acre, possui uma biografia que fala por si mesma. Seus pais, de raízes nordestinas, tiveram 11 filhos, dos quais três faleceram. A mãe morreu quando Marina tinha apenas 15 anos. A vida no seringal era difícil. Marina conta que “acordava sempre às 4h da manhã, cortava uns gravetos, pegava uns pedaços de seringuins, acendia o fogo, fazia o café e uma salada de banana perriá com ovo. Esse era o nosso café da manhã”. Seu histórico de saúde ainda inclui hepatite aos 16 anos (a primeira das três que foi acometida), cinco malárias e uma leishmaniose. Destoando da aparente fragilidade, é detentora de uma grande força espiritual e poder de superação. Por tudo isso se tornou a principal líder sócio-ambiental do País.

MARINA II

Marina se notabilizou nacionalmente na eleição passada ao obter uma votação que superou todos os prognósticos. Inseriu-se, com leveza e liberdade, no pesado e amarrado cenário do debate político. Sentindo o apelo popular por uma nova política, desprovida das vicissitudes que grassam na prática convencional, Marina iniciou um movimento pela criação do partido Rede Sustentabilidade. Teve o projeto frustrado pela ação de boicote de adversários políticos combinada com uma decisão judicial que priorizou a forma (burocracia) em detrimento do conteúdo (democracia).

MARINA III

Mulher de extrema fé, Marina exala espiritualidade sem fazer proselitismo religioso. Isso a faz protagonista de um estilo político que privilegia o desprendimento, o desapego aos caminhos convencionais e, sobretudo, uma maneira toda especial de dialogar com os opositores. Marina trata os que estão em trincheiras opostas à dela com respeito e sem a ira característica dos contendores políticos. Foi por isso que, sábado passado, publicamente reconheceu méritos em Fernando Henrique e Lula, algo que os aliados de ambos não fazem. Que falta faz esse tipo de postura!!!...

CÂMARA

Precedida de intensa movimentação nos bastidores, a Câmara Municipal de Crateús apreciou o Projeto de Lei que trata da mudança de regime jurídico dos servidores municipais. Os servidores, por meio dos Sindicatos dos Servidores e Professores, se uniram nos protestos. A cidade parou para assistir. Por maioria os senhores Vereadores rejeitaram o Projeto do Executivo Municipal. Votaram a favor: Arimilson, Cleber Bonfim, João de Deus, Paulo Teles, Adriano das Flores e Aldairton Carvalho. Votaram contra: Conegundes Soares, Arnaldo Minelvino e Antônio Luiz Jr (DEM), Alesson Coelho e Cabo Bonfim, do PSDB, Bibi Apolônio (PMDB), José Humberto (PCdoB), Eva (PSL) e Toré (PV). Para quem está distante, soa estranho o resultado: ganhou a manutenção do regime celetista (CLT) em detrimento do regime estatutário. Em tese, os doutrinadores são de opinião favorável a que o regime mais adequado aos entes públicos é o estatutário. Por que a derrota, então?

A RAIZ

Não se pode analisar esse assunto isoladamente. Na raiz desse problema está uma questão maior: a frustração do povo de Crateús com os rumos da gestão. Quando foi eleito a primeira vez, em 2008, o doutor Carlos Felipe era a encarnação da novidade, o caudatário das aspirações superiores da gente crateuense por uma nova política, higienizada e alvissareira. Ele, porém, imaginou que acumulando índices de volumes de obras superiores aos que o antecederam se firmaria para a história. Ledo engano. O desejo do povo era – e continua sendo – ver um Prefeito que, além de fazer as obras materiais necessárias, faça sobretudo a renovação das práticas, a revolução dos costumes.

A RAIZ II

Um dos primeiros testes a que o atual Prefeito foi submetido ocorreu logo no início do primeiro mandato: os professores o procuraram em busca de discutir a pauta anual de reivindicações. Ao invés de ouvi-los respeitosamente, o Prefeito resolveu impor a própria opinião. Imaginou que a larga maioria de votos obtida era um cheque em branco para os quatro anos. Substituiu a conversação pela imposição. Enfrentou uma greve dolorosa e, desde então, os servidores passaram a lhe olhar com desconfiança. Aquele episódio – e outros que o sucederam - criou feridas ainda não cicatrizadas. A lição que fica é: há uma crise de credibilidade da gestão!

A RAIZ III

Em momento posterior à votação, o Prefeito se pronunciou através de uma emissora de rádio. Fez uma fala um tanto amarga, carregada de ressentimentos e reveladora do poço de contradições em que se encontra mergulhado. Sem reconhecer equívocos, culpou o PSOL pela derrota. Falou que o Município ia ter um prejuízo de quinhentos mil reais. De onde? Do pagamento de FGTS. Paciência, isso não é prejuízo, mas conquista social do trabalhador. Todos os Prefeitos anteriores pagaram sem reclamar. Aliás, é obrigação legal no regime celetista. Disse que não era perseguidor, mas revelou que ia tratar de maneira diferenciada os vereadores. Ou seja, vai privilegiar os ‘fiéis’ e castigar os ‘infiéis’. Isso, por óbvio, é perseguição. Ora, o Chefe do Executivo não é o Prefeito de uma parte das pessoas, mas de todos. Ele não pode discriminar nenhum cidadão, muito menos os representantes do povo. Todos nós temos erros, defeitos e caímos em contradição. Necessitamos, vez por outra, de um momento de introspecção: reconhecer as falhas e buscar a superação. Um pouco de humildade faz bem ao coração. O prefeito, também, precisa exercitar essa lição.

PARA REFLETIR

“Quero o amor por razão./ Sendo assim não terei arma,/ Só assim não farei a guerra./ E assim fará sentido/ Meu passar por esta terra./ Sou o arco, sou a flecha,/ Sou todo em metades,/ Sou as partes que se mesclam/ Nos propósitos e nas vontades./ Sou o arco por primeiro,/ Sou a flecha por segundo,/ Sou a flecha por primeiro,/ Sou o arco por segundo./ Buscai o melhor de mim/ E terás o melhor de mim./ Darei o melhor de mim/ Onde precisar o mundo.” (Marina Silva)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

CÉSAR VALE: FELIZ ANIVERSÁRIO!


No dia 30 de novembro de 1895, ao proferir mais uma de suas primorosas peças de oratória, em solenidade realizada no maior órgão de imprensa à época – o Jornal do Comércio - Ruy Barbosa assim inicia: “SENHORES: Em um desses processos famosos, cujos autores a história arquiva, o interrogatório começou por este diálogo entre o réu e o presidente do tribunal: ‘- Acusado, vosso nome? - Francisco Renato, Visconde de Chateaubriand. – Vossa profissão? – Jornalista. ’ É deste modo que se qualificava, em 1833, à barra do júri, o grande poeta, o grande artista, o grande regenerador literário, o maior dos modernos escritores franceses, o homem que escrevera O Gênio do Cristianismo, traduzira Milton e arrostara Bonaparte. Tão múltipla era a sua atividade, em tantas esferas da inteligência era primaz o escritor, o historiador, o diplomata, o administrador, o antigo par de França, tantos títulos tinha, e de todos se esqueceu, para se condecorar, perante os seus juízes, com o de simples jornalista”.

Fazia Ruy esse intróito para externar o frescor de encanto que o sacudia por se encontrar na condição de confrade no círculo ilustre dos homens de imprensa de sua geração, mercê da distinção que lhe era conferida. Três foram os púlpitos em que o genial baiano forjou sua trajetória: nas páginas da Imprensa, nas barras dos Tribunais e na Tribuna do Congresso. A Liberdade, o Direito e a Justiça foram a trinca de unidade que abrasou sua vida laboriosa. De todas, porém, o jornalismo era a estrela mais radiosa: "E jornalista é que eu nasci, jornalista é que eu sou, de jornalista não me hão de demitir enquanto houver imprensa, a imprensa for livre, e este resto de liberdade nos indicar que a pátria respira".

Dedilho estas sílabas sob a envolvente brisa da Serra das Matas, onde estou por dever de ofício. Aqui, no antigo Arraial da Telha, hoje Monsenhor Tabosa, nasceu em 07 de outubro de 1939, filho de Antônio do Vale Filho e Ignez Aguiar Vale, um jornalista de nome nobre e filiado à plêiade de Chateaubriand e Ruy: Sebastião César Aguiar Vale!

Em verdade, pouco tempo depois do seu nascimento, a família foi residir em Crateús, cidade que o acolheu como filho e à qual está sentimental e literalmente filiado. Na terra do Senhor do Bonfim, desfrutou os anos doirados da infância, brincando de jogar pião e castanha, pega-pega, “mãos ao alto”, pitéu recheado de cera de abelha e enfeitado com tampinhas de refrigerantes e muitas outras travessuras. Teceu o linho de inúmeras amizades nessas manhãs memoráveis e armazenou, na caixa de memória da alma, fatos que hoje recompõe nas páginas da Gazeta do Centro Oeste, noticioso que compila sob a linotipia do coração e que transformou no mais longevo periódico das tórridas plagas do Poty.

Discípulo de D. José Tupinambá da Frota no Seminário de Sobral, meditou por boa estação pelos pórticos eclesiais, onde apreendeu a sabedoria monasterial e se enamorou do Latim, cujas locuções essenciais acalenta com habilidade oracular. Serviu como acólito na Igreja Matriz de Crateús quando era vigário o Padre Bonfim. Com o desassombro de um bandeirante da fé, peregrinou muitas vezes na garupa da moto do meu parente sacerdote em incursões missionárias, visitas pastorais e, em especial, para levar aos enfermos o sacramento da extrema unção, costume da época. Por falar em moto, no vigor dos seus dezessete anos um trágico episódio testaria sua força e resistência. Atropelado por uma motocicleta na Praça do Mercado, próximo à atual Rádio Educadora, amargou pesado choque em uma das pernas, que foi fraturada em três partes. Encaminhado para Fortaleza, em 1957, ficou meses internado na antiga Policlínica sem conseguir a reabilitação. Para agravar a situação, os seus rins foram seriamente afetados por enormes cálculos renais. Teve que buscar auxílio médico no Hospital das Clínicas, na cidade de São Paulo, onde permaneceu por um ano. Nesse hospital, enfrentou duas cirurgias: uma nos rins - que lhe deixou uma marca permanente - e outra na perna fraturada, inclusive com enxerto no calcanhar. Como um indomável guerreiro, de tudo se reergueu altivo para sorver o cálice da superação.

Em Fortaleza, onde se estabeleceu depois dessa batalha, laborou por muitos anos em atividades comerciais e se bacharelou em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará. Seu pendor jornalístico reluziu nas páginas do renomado Jornal O Povo.

Desde que retornou a Crateús, com um cetro de bravura, resistência e heroísmo mantém de pé o Jornal GAZETA DO CENTRO OESTE, circulando quinzenalmente pelos mais longínquos rincões da nossa pátria verde-amarela, azul e branca. Já enfrentou pesadas tempestades. Sua pena, não raro, vira uma peixeira afiada para lavar a honra da cidadania aviltada ou uma simples palha de carnaúba, que desdenha com incomparável ironia a arrogância fútil dos espíritos medíocres.

Degustador de vinhos e livros, aprecia a boa prosa e o convívio fraterno, sobretudo com a família. Do primeiro enlace matrimonial com Leda Montenegro Vale (in memorian), é pai de Maria Tereza, Claudio César e Danielle. Com Leudinha, atual esposa, rejuvenesceu o coração ao ver nascer Tereza Danielle, que enche de enlevo o cotidiano do casal.

Ave, César, militante da audácia, imperador da fortuna que a traça não corrói, atleta que conduz a pira olímpica do jornalismo combatente, oleiro que manuseia a argila preciosa do pensamento libertário, talentoso escriba das sílabas independentes! Ave, César, conserva teu reino: uma invisível gleba de terra, escriturada em papel real e virtual, que acolhe o brado do mundo e faz germinar jitiranas de luz!

(Júnior Bonfim, em 2009)

domingo, 6 de outubro de 2013

MANIFESTO DE FILIAÇÃO DEMOCRÁTICA DA REDE AO PSB

“Os partidos Rede Sustentabilidade e Partido Socialista Brasileiro decidiram neste sábado, 5 de outubro, formar uma coligação política e eleitoral em torno de um programa para a disputa das eleições de 2014.

Ambos os partidos reafirmam a legitimidade da integridade e da identidade partidária do outro.

Nas circunstâncias criadas por recente decisão da Justiça Eleitoral, o caminho para construir essa coalizão é a filiação democrática e transitória das lideranças e da militância da Rede ao PSB. A filiação democrática e transitória é uma tradição brasileira nas situações em que correntes políticas são impedidas de se organizar formalmente e de participar com sua própria legenda dos processos políticos e eleitorais.

O objetivo central da aliança entre o PSB e a Rede é aprofundar a democracia e construir as bases para um ciclo duradouro de desenvolvimento sustentável, os dois pilares da verdadeira soberania nacional.

A luta da sociedade brasileira tem alcançado importantes conquistas nas últimas décadas: a redemocratização, a estabilidade econômica, a redução das desigualdades sociais. A única forma de manter e aprofundar essas conquistas é avançar. Por isso estamos unindo forças para apresentar uma alternativa ao Brasil.

A convergência programática entre a Rede e o PSB, que será desdobrada num calendário apropriado, é uma contribuição para superar velhos hábitos e vícios da política brasileira. Chegou a hora de a política ser colocada a serviço da sociedade e de o Estado ser finalmente comandado pelo povo brasileiro.

O ato político de hoje é o início de um processo. A aliança entre PSB e Rede será construída de baixo para cima nas escolas, locais de trabalho, municípios, Estados, no diálogo permanente e democrático com as organizações da sociedade.

Esse é o nosso compromisso.”

ARCO E FLECHA - POEMA DE MARINA SILVA

Do arco que empurra a flecha,
Quero a força que a dispara.
Da flecha que penetra o alvo
Quero a mira que o acerta.

Do alvo mirado
Quero o que o faz desejado.
Do desejo que busca o alvo
Quero o amor por razão.

Sendo assim não terei arma,
Só assim não farei a guerra.
E assim fará sentido
Meu passar por esta terra.

Sou o arco, sou a flecha,
Sou todo em metades,
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades.

Sou o arco por primeiro,
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo.

Buscai o melhor de mim
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.

(Autoria: Marina Silva)