Este espaço se quer simples: um altar à deusa Themis, um forno que libere pão para o espírito, uma mesa para erguer um brinde à ética, uma calçada onde se partilhe sonho e poesia!
sábado, 2 de junho de 2012
ENTARDECER NO SERTÃO
Ceará, meu Ceará,
Meu pedacinho de chão
A hora da ave Maria
É mágica em meu sertão
O sombreado do sol
Matizando o arrebol
Seduz sempre meu olhar
Entrevejo só beleza
Em tudo que a natureza
Se esmera para adornar.
*
Versos e foto de Dalinha Catunda
SÁBADO É DIA DE "ODE À CEBOLA"
Sábado é, por excelência, dia de brasa festiva, lírio de amizade, união etílica, confraternização gastronômica.
Hoje, por essas razões celestiais do ofício que cumpro na terra, estou impedido de cumprir a liberdade ritualística do sábado.
A vontade é de estar em volta de uma mesa festejando os ingredientes que fazem o riso do corpo. Porém, à distância, celebro pelas palavras de Neruda uma aparentada das Liliáceas, que nos faz "chorar sem nos afligir": a cebola!
ODE À CEBOLA
Cebola
Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando os seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
das gentes pobres.
Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro.
Também recordarei como fecunda
a tua influência, o amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
mas ao alcance
das mãos do povo
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no seu duro caminho.
estrela dos pobres,
fada madrinha
envolvida em delicado
papel, sais do chão
eterna, intacta, pura
como semente de um astro
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única
lágrima sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.
Eu tudo o que existe celebrei, cebola
Mas para mim és
mais formosa que uma ave
de penas radiosas
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina
baile imóvel
de nívea anémona
e vive a fragância da Terra
na tua natureza cristalina.
(Pablo Neruda)
Hoje, por essas razões celestiais do ofício que cumpro na terra, estou impedido de cumprir a liberdade ritualística do sábado.
A vontade é de estar em volta de uma mesa festejando os ingredientes que fazem o riso do corpo. Porém, à distância, celebro pelas palavras de Neruda uma aparentada das Liliáceas, que nos faz "chorar sem nos afligir": a cebola!
ODE À CEBOLA
Cebola
Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando os seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
das gentes pobres.
Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro.
Também recordarei como fecunda
a tua influência, o amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
mas ao alcance
das mãos do povo
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no seu duro caminho.
estrela dos pobres,
fada madrinha
envolvida em delicado
papel, sais do chão
eterna, intacta, pura
como semente de um astro
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única
lágrima sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.
Eu tudo o que existe celebrei, cebola
Mas para mim és
mais formosa que uma ave
de penas radiosas
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina
baile imóvel
de nívea anémona
e vive a fragância da Terra
na tua natureza cristalina.
(Pablo Neruda)
sexta-feira, 1 de junho de 2012
ÍNDIA - NA VOZ DE NANA MOUSKOURI
Dalinha Catunda deixou um novo comentário:
Muito lindo, Junior,
Tanto as imagens como a índia na voz de Nana.
Parabéns pela postagem
quinta-feira, 31 de maio de 2012
CONVITE
Hoje o poeta Dideus Sales lança o livro "Nos Cafundós do Sertão", às 20:00hs, na Ler Livraria, no Shopping Molina Center, Av. Washington Soares, 4040, lojas 22/24, FORTALEZA, CEARÁ.
O poeta Barros Alves fará a apresentação. Participe!
O poeta Barros Alves fará a apresentação. Participe!
quarta-feira, 30 de maio de 2012
CONJUNTURA NACIONAL
Meu povo e minha pova
Nesses tempos de preparo eleitoral, cai bem essa historinha. Parece absurda, mas é verdadeira. Deixamos de dar os nomes para evitar constrangimentos às famílias. Um ex-prefeito de Aracati, cidade litorânea do Ceará, em comício animado, gritou no palanque: "Meu povo e minha pova. Vou ser reeleito prefeito de Aracati com minha fé e as fezes de vocês".
A burocracia tem pernas
O cidadão chega à repartição e pede para ver seu processo. Ouve do chefe do departamento : "ah, meu senhor, tem muitos outros na frente do seu. Vai demorar um tempão até ser despachado. Papel, doutor, não tem pernas". Agastado, o interlocutor reage: "e quanto o senhor quer para por dois pés nesse papel?". Tirou do bolso um maço de dinheiro (que já tinha separado em casa para não dar na vista e, de maneira disfarçada, entregou ao sorridente chefe). Tiro e queda. O adjutório fez o papel correr rapidinho com seus dois pés. A corrupção se espraia por todos os lados.
Política, sempre uma gangorra
A política é uma gangorra. Eleva seus participantes, em um momento, e os rebaixa, instantes depois. Quando se pensa que o fulano está sentado à direita de Deus, Pai, eis que é flagrado na beira da estrada. Vejam os eventos mais recentes. Luiz Inácio, do alto de seu carisma e em plena convalescença, desce um degrau na escada do sucesso. Pediu ao amigo Nelson Jobim um encontro reservado com o ministro e ex-presidente do STF, Gilmar Mendes. Dito e feito. O encontro, um mês depois, veio à tona. Por quê?
Gilmar na onda
Gilmar Mendes abriu a expressão por uma razão: percebeu que seu nome estava passando de boca a boca como integrante do círculo de amizades do senador Demóstenes Torres. Mais: que teria marcado encontro com o senador em Berlim. Lula sabia do encontro. Por isso, na conversa teria sugerido - não solicitado - que o mensalão não fosse julgado nesse ano eleitoral. Poderia prejudicar os quadros petistas. O PT quer fazer 1.000 prefeitos municipais. Em troca, poderia dar cobertura a Gilmar, administrando eventual passagem danosa pela esfera da CPI mista. O ministro, ao perceber a insinuação, disse que não havia nada a temer. Lula: "e a visita a Berlim?", indagou o matreiro ex-presidente. O ministro argumentou que ia sempre a Berlim por ter uma filha morando lá.
Rebu
Gilmar deu detalhes, como se quisesse comprovar a fala. Lula teria ainda dito que pediria a Sepúlveda Pertence para monitorar a ministra Carmen Lúcia, enquanto ele próprio administraria os ministros Lewandowski e Toffoli. Teria ainda cometido o deslize de dizer que o ministro Joaquim Barbosa era um "complexado". Quanta informação comprometedora. Lula, por meio de seu Instituto da Cidadania, fez o desmentido. O rebu está formado. O encontro realmente ocorreu e os detalhes fornecidos por Gilmar criam um escudo contra falsas versões.
O que pode ter ocorrido
Digamos que Lula tenha feito uma observação de cunho pessoal. Até aí, tudo bem. Inaceitável é a ideia de sugerir proteção ao ministro. Um jogo de recompensas. Gilmar repeliu a sugestão. Lula deve ter achado que a viagem do ministro a Berlim tenha sido financiada pelo esquema de Cachoeira. Comprou bilhete errado. Gilmar Mendes, por seu lado, caiu numa encruzilhada. Não poderia se negar a um encontro arrumado pelo amigo Nelson Jobim. Que acabou negando tudo. O imbróglio está formado. Vai ter consequências.
Perguntinha necessária:
Por que Gilmar Mendes passou um mês para dar conhecimento da abordagem feita por Lula? Só ouviu bochichos a respeito de seu nome um mês depois do encontro?
Efeitos
O caso vai render na feira eleitoral. Por mais que Lula se valha de seu cobertor carismático, será difícil cobrir parte do corpo com as chamas da fogueira que acendeu. Projeta-se o efeito sobre a campanha paulistana. Seu candidato Fernando Haddad deverá ser chamuscado. É possível também que o assunto sirva de combustível para acender outras tochas em cidades que abram a polarização PT x Oposições. Outro efeito: o mensalão, agora sim, entra por inteiro na agenda do STF. Que não poderá mais postergar o julgamento. O próprio presidente da Alta Corte, ministro Ayres Britto, acaba de proclamar: a fruta está madura, pronta para ser tirada da árvore.
Pérolas do Enem (I)
- A fé é uma graça através da qual podemos ver o que não vemos.
- Os estuários e os deltas foram os primitivos habitantes da Mesopotâmia.
- O objetivo da Sociedade Anônima é ter muitas fábricas desconhecidas.
- A Previdência Social assegura o direito à enfermidade coletiva.
- O Ateísmo é uma religião anônima.
Retrocesso?
A crise na Europa poderá chegar por estas plagas. Há quem defenda a tese de que, desta feita, o Brasil não passará incólume pelo corredor turbulento do euro. Se o país crescer menos de 3% este ano, sob um dólar mais alto - R$ 2,20, por exemplo - o PIB brasileiro atingirá R$ 4,24 trilhões. Em dólares, seria US$ 1,93 trilhão. Com esse PIB menor, o Brasil seria novamente superado pela Grã-Bretanha, Itália e Rússia. Cairia novamente para a 9ª economia mundial. Previsão do bom pensador e diplomata Marcos Troyjo.
Caldeirão fervente
Junte-se a economia em declínio e a política pegando fogo, sob pano de fundo do julgamento do mensalão em curso, para se ter uma visão do caldeirão fervente em que mergulhará o país nos próximos meses. Claro, isso é apenas a ponta de um cenário. O governo Dilma poderá encontrar a fórmula mágica para segurar o crédito e o programa de bolsas para as margens. Nesse caso, o governismo continuará, faceiro, a desfraldar sua bandeira vitoriosa. No cenário de turbulência, as oposições terão chance de fazer grande baciada de prefeitos.
Lula, o articulador
O PC do B vinha mantendo conversações com o PMDB de São Paulo para fechar acordo em torno do candidato Gabriel Chalita. A ideia era que o PC do B apresentasse a candidatura a vice na chapa do Chalita. Lula entrou no jogo e desfez as cartas dadas. PSB paulista conversava muito com o PSDB sobre o apoio à candidatura Serra à prefeitura paulistana. Afinal, o secretário de turismo do governo Alckmin é o deputado Márcio França, presidente do PSB paulista. Lula entrou no baralho e redistribuiu as cartas. No Ceará, Lula dará as cartas ao PT para seguir a indicação do governador Cid Gomes para a prefeitura de Fortaleza. Em Recife, idem. Luiz Inácio nem bem se recuperou do grave problema de saúde que o afastou, temporariamente, das lides políticas e começa a sacar a arma, atirando para todos os lados.
Pérolas do Enem (II)
- A respiração anaeróbica é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos.
- O calor é a quantidade de calorias armazenadas numa unidade de tempo.
- Antes de ser criada a Justiça, todo mundo era injusto.
- Caráter sexual secundário são as modificações morfológicas sofridas por um indivíduo após manter relações sexuais.
Aliança das civilizações
Amanhã, o vice-presidente da República, Michel Temer, fará a palestra de abertura do Encontro dos Parceiros da Aliança das Civilizações, em Istambul, na presença do primeiro ministro da Turquia, do primeiro ministro da Espanha e do Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon e outros chefes de Estado. Esta iniciativa, proposta por José Luis Zapatero, primeiro ministro da Espanha, em 2004, tem por objetivo mobilizar a opinião pública mundial com vistas a superar preconceitos, percepções equivocadas e "polarizações entre o mundo islâmico e o ocidente".
Doação
O vice-presidente Michel Temer vai discorrer sobre o Brasil, um país multicultural, plurireligioso e multiétnico, e anunciará a decisão do governo brasileiro de apoiar o novo modelo de desenvolvimento para a Aliança das Civilizações. O Brasil vai contribuir com US$ 250 mil para financiar iniciativas na área da educação. Temer tem participado, em nome do Brasil, de importantes foros mundiais.
Régua eleitoral
Há 2 meses, a régua eleitoral mostrava a pontuação de 75% a 80% de candidatos situacionistas com grandes possibilidades de vitória em outubro. Esse índice, hoje, está entre 65% a 70%.
A persistência (I)
A persistência é uma das principais virtudes dos grandes homens. Cristóvão Colombo aferrava-se à obsessão de que poderia chegar ao Oriente pelo caminho do Ocidente. O pensamento não lhe dava trégua. Esta foi a diferença entre Colombo e os seus contemporâneos. Estava convencido. Queria partir. Mas seria forçado a esperar muito. Enquanto aguardava, falava do sonho. D. João II, Rei de Portugal, interessou-se pelo assunto e submeteu o projeto de Colombo a uma junta de sábios. Estes condenaram a ideia. Quando morreu a esposa, Colombo gastou a maior parte de suas economias com o enterro. E foi para a Espanha.
A persistência (II)
Fernando e Isabel, empenhados em dispendiosa guerra com os mouros, deram apenas meio ouvido à proposta do genovês. A Rainha, entretanto, foi simpática a ele. Concedeu-lhe uma pensão, enquanto a junta de notáveis do Reino estudava o assunto. Depois de dois anos, a pensão foi suspensa. Obrigado a se manter sem ajuda, durante os oito anos seguintes vendeu livros e mapas que confeccionava. Seus cabelos ficaram brancos. Foi atacado pelo artritismo. Mas nunca desesperou. E, um dia, realizou seu sonho.
Nomes próprios
Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida
Acheropita Papazone
Adalgamir Marge
Adegesto Pataca
Adoração Arabites
Aeronauta Barata
Agrícola Beterraba Areia
Agrícola da Terra Fonseca
Alce Barbuda
Aldegunda Carames More
Aleluia Sarango
(Próxima lista em outra Coluna)
Lula na 1ª instância?
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, encaminhará para a primeira instância a representação que pede uma investigação contra o ex-presidente Lula. Ontem, DEM, PSDB, PPS e PSOL protocolaram pedido contra Lula por causa de reunião em que ele teria pedido ao ministro do STF, Gilmar Mendes, o adiamento do mensalão. Gurgel encaminhará o caso para a chefe da Procuradoria da República do DF, Ana Paula Mantovani. O ex-presidente não tem mais foro privilegiado. A decisão terá consequências?
Demóstenes na CPI
O senador Demóstenes Torres respondeu a todas as questões que lhe foram feitas na CPI mista. Experiência de promotor. Sensação é a de que a corda no pescoço começa a ser afrouxada.
Governadores vão ou não?
Os governadores Marconi Perillo (PSDB), Agnelo Queiroz (PT) e Sérgio Cabral (PMDB) serão convocados pela CPI? Entre 0 a 10, as chances de permanecerem em seus palácios é de 9.
Zé Abelha
Eis uma historinha do repertório de Zé Abelha, o nosso mineirinho contador de causos. Dr. Luís da Costa Alecrim, juiz de Direito da comarca de Conselheiro Pena, interroga um cidadão acusado de ter esfaqueado uma prostituta, residente na Boate Luar.
- O senhor conhece esta faca?
- Não, doutor, nunca vi essa peixeira.
Dr. Alecrim manda recolher o indiciado.
Mês seguinte, novo interrogatório:
- O senhor conhece esta faca?
- Conheço sim senhor, responde com malícia o indiciado.
- Então o senhor confessa a tentativa de homicídio?
- Não senhor! Eu disse que conhecia a peixeira. Não é aquela que o senhor me mostrou, mês passado?
Conselho aos membros da CPI
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos. Hoje, sua atenção se volta aos membros da CPI:
1. A essa altura do campeonato, poucos acreditam na efetividade da CPI mista. Corre a impressão de que uma gigantesca pizza começa ser a preparada.
2. Se os componentes da Comissão Mista pretendem resgatar a credibilidade, urge retomar o foco, avaliar as investigações já realizadas, convocar os implicados - pertençam a qualquer partido - e fazer os encaminhamentos necessários.
3. Todo esforço se faz necessário para não transformar a CPI em palanque de partidos nesse ciclo pré-eleitoral.
____________
(Gaudêncio Torquato)
Nesses tempos de preparo eleitoral, cai bem essa historinha. Parece absurda, mas é verdadeira. Deixamos de dar os nomes para evitar constrangimentos às famílias. Um ex-prefeito de Aracati, cidade litorânea do Ceará, em comício animado, gritou no palanque: "Meu povo e minha pova. Vou ser reeleito prefeito de Aracati com minha fé e as fezes de vocês".
A burocracia tem pernas
O cidadão chega à repartição e pede para ver seu processo. Ouve do chefe do departamento : "ah, meu senhor, tem muitos outros na frente do seu. Vai demorar um tempão até ser despachado. Papel, doutor, não tem pernas". Agastado, o interlocutor reage: "e quanto o senhor quer para por dois pés nesse papel?". Tirou do bolso um maço de dinheiro (que já tinha separado em casa para não dar na vista e, de maneira disfarçada, entregou ao sorridente chefe). Tiro e queda. O adjutório fez o papel correr rapidinho com seus dois pés. A corrupção se espraia por todos os lados.
Política, sempre uma gangorra
A política é uma gangorra. Eleva seus participantes, em um momento, e os rebaixa, instantes depois. Quando se pensa que o fulano está sentado à direita de Deus, Pai, eis que é flagrado na beira da estrada. Vejam os eventos mais recentes. Luiz Inácio, do alto de seu carisma e em plena convalescença, desce um degrau na escada do sucesso. Pediu ao amigo Nelson Jobim um encontro reservado com o ministro e ex-presidente do STF, Gilmar Mendes. Dito e feito. O encontro, um mês depois, veio à tona. Por quê?
Gilmar na onda
Gilmar Mendes abriu a expressão por uma razão: percebeu que seu nome estava passando de boca a boca como integrante do círculo de amizades do senador Demóstenes Torres. Mais: que teria marcado encontro com o senador em Berlim. Lula sabia do encontro. Por isso, na conversa teria sugerido - não solicitado - que o mensalão não fosse julgado nesse ano eleitoral. Poderia prejudicar os quadros petistas. O PT quer fazer 1.000 prefeitos municipais. Em troca, poderia dar cobertura a Gilmar, administrando eventual passagem danosa pela esfera da CPI mista. O ministro, ao perceber a insinuação, disse que não havia nada a temer. Lula: "e a visita a Berlim?", indagou o matreiro ex-presidente. O ministro argumentou que ia sempre a Berlim por ter uma filha morando lá.
Rebu
Gilmar deu detalhes, como se quisesse comprovar a fala. Lula teria ainda dito que pediria a Sepúlveda Pertence para monitorar a ministra Carmen Lúcia, enquanto ele próprio administraria os ministros Lewandowski e Toffoli. Teria ainda cometido o deslize de dizer que o ministro Joaquim Barbosa era um "complexado". Quanta informação comprometedora. Lula, por meio de seu Instituto da Cidadania, fez o desmentido. O rebu está formado. O encontro realmente ocorreu e os detalhes fornecidos por Gilmar criam um escudo contra falsas versões.
O que pode ter ocorrido
Digamos que Lula tenha feito uma observação de cunho pessoal. Até aí, tudo bem. Inaceitável é a ideia de sugerir proteção ao ministro. Um jogo de recompensas. Gilmar repeliu a sugestão. Lula deve ter achado que a viagem do ministro a Berlim tenha sido financiada pelo esquema de Cachoeira. Comprou bilhete errado. Gilmar Mendes, por seu lado, caiu numa encruzilhada. Não poderia se negar a um encontro arrumado pelo amigo Nelson Jobim. Que acabou negando tudo. O imbróglio está formado. Vai ter consequências.
Perguntinha necessária:
Por que Gilmar Mendes passou um mês para dar conhecimento da abordagem feita por Lula? Só ouviu bochichos a respeito de seu nome um mês depois do encontro?
Efeitos
O caso vai render na feira eleitoral. Por mais que Lula se valha de seu cobertor carismático, será difícil cobrir parte do corpo com as chamas da fogueira que acendeu. Projeta-se o efeito sobre a campanha paulistana. Seu candidato Fernando Haddad deverá ser chamuscado. É possível também que o assunto sirva de combustível para acender outras tochas em cidades que abram a polarização PT x Oposições. Outro efeito: o mensalão, agora sim, entra por inteiro na agenda do STF. Que não poderá mais postergar o julgamento. O próprio presidente da Alta Corte, ministro Ayres Britto, acaba de proclamar: a fruta está madura, pronta para ser tirada da árvore.
Pérolas do Enem (I)
- A fé é uma graça através da qual podemos ver o que não vemos.
- Os estuários e os deltas foram os primitivos habitantes da Mesopotâmia.
- O objetivo da Sociedade Anônima é ter muitas fábricas desconhecidas.
- A Previdência Social assegura o direito à enfermidade coletiva.
- O Ateísmo é uma religião anônima.
Retrocesso?
A crise na Europa poderá chegar por estas plagas. Há quem defenda a tese de que, desta feita, o Brasil não passará incólume pelo corredor turbulento do euro. Se o país crescer menos de 3% este ano, sob um dólar mais alto - R$ 2,20, por exemplo - o PIB brasileiro atingirá R$ 4,24 trilhões. Em dólares, seria US$ 1,93 trilhão. Com esse PIB menor, o Brasil seria novamente superado pela Grã-Bretanha, Itália e Rússia. Cairia novamente para a 9ª economia mundial. Previsão do bom pensador e diplomata Marcos Troyjo.
Caldeirão fervente
Junte-se a economia em declínio e a política pegando fogo, sob pano de fundo do julgamento do mensalão em curso, para se ter uma visão do caldeirão fervente em que mergulhará o país nos próximos meses. Claro, isso é apenas a ponta de um cenário. O governo Dilma poderá encontrar a fórmula mágica para segurar o crédito e o programa de bolsas para as margens. Nesse caso, o governismo continuará, faceiro, a desfraldar sua bandeira vitoriosa. No cenário de turbulência, as oposições terão chance de fazer grande baciada de prefeitos.
Lula, o articulador
O PC do B vinha mantendo conversações com o PMDB de São Paulo para fechar acordo em torno do candidato Gabriel Chalita. A ideia era que o PC do B apresentasse a candidatura a vice na chapa do Chalita. Lula entrou no jogo e desfez as cartas dadas. PSB paulista conversava muito com o PSDB sobre o apoio à candidatura Serra à prefeitura paulistana. Afinal, o secretário de turismo do governo Alckmin é o deputado Márcio França, presidente do PSB paulista. Lula entrou no baralho e redistribuiu as cartas. No Ceará, Lula dará as cartas ao PT para seguir a indicação do governador Cid Gomes para a prefeitura de Fortaleza. Em Recife, idem. Luiz Inácio nem bem se recuperou do grave problema de saúde que o afastou, temporariamente, das lides políticas e começa a sacar a arma, atirando para todos os lados.
Pérolas do Enem (II)
- A respiração anaeróbica é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos.
- O calor é a quantidade de calorias armazenadas numa unidade de tempo.
- Antes de ser criada a Justiça, todo mundo era injusto.
- Caráter sexual secundário são as modificações morfológicas sofridas por um indivíduo após manter relações sexuais.
Aliança das civilizações
Amanhã, o vice-presidente da República, Michel Temer, fará a palestra de abertura do Encontro dos Parceiros da Aliança das Civilizações, em Istambul, na presença do primeiro ministro da Turquia, do primeiro ministro da Espanha e do Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon e outros chefes de Estado. Esta iniciativa, proposta por José Luis Zapatero, primeiro ministro da Espanha, em 2004, tem por objetivo mobilizar a opinião pública mundial com vistas a superar preconceitos, percepções equivocadas e "polarizações entre o mundo islâmico e o ocidente".
Doação
O vice-presidente Michel Temer vai discorrer sobre o Brasil, um país multicultural, plurireligioso e multiétnico, e anunciará a decisão do governo brasileiro de apoiar o novo modelo de desenvolvimento para a Aliança das Civilizações. O Brasil vai contribuir com US$ 250 mil para financiar iniciativas na área da educação. Temer tem participado, em nome do Brasil, de importantes foros mundiais.
Régua eleitoral
Há 2 meses, a régua eleitoral mostrava a pontuação de 75% a 80% de candidatos situacionistas com grandes possibilidades de vitória em outubro. Esse índice, hoje, está entre 65% a 70%.
A persistência (I)
A persistência é uma das principais virtudes dos grandes homens. Cristóvão Colombo aferrava-se à obsessão de que poderia chegar ao Oriente pelo caminho do Ocidente. O pensamento não lhe dava trégua. Esta foi a diferença entre Colombo e os seus contemporâneos. Estava convencido. Queria partir. Mas seria forçado a esperar muito. Enquanto aguardava, falava do sonho. D. João II, Rei de Portugal, interessou-se pelo assunto e submeteu o projeto de Colombo a uma junta de sábios. Estes condenaram a ideia. Quando morreu a esposa, Colombo gastou a maior parte de suas economias com o enterro. E foi para a Espanha.
A persistência (II)
Fernando e Isabel, empenhados em dispendiosa guerra com os mouros, deram apenas meio ouvido à proposta do genovês. A Rainha, entretanto, foi simpática a ele. Concedeu-lhe uma pensão, enquanto a junta de notáveis do Reino estudava o assunto. Depois de dois anos, a pensão foi suspensa. Obrigado a se manter sem ajuda, durante os oito anos seguintes vendeu livros e mapas que confeccionava. Seus cabelos ficaram brancos. Foi atacado pelo artritismo. Mas nunca desesperou. E, um dia, realizou seu sonho.
Nomes próprios
Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida
Acheropita Papazone
Adalgamir Marge
Adegesto Pataca
Adoração Arabites
Aeronauta Barata
Agrícola Beterraba Areia
Agrícola da Terra Fonseca
Alce Barbuda
Aldegunda Carames More
Aleluia Sarango
(Próxima lista em outra Coluna)
Lula na 1ª instância?
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, encaminhará para a primeira instância a representação que pede uma investigação contra o ex-presidente Lula. Ontem, DEM, PSDB, PPS e PSOL protocolaram pedido contra Lula por causa de reunião em que ele teria pedido ao ministro do STF, Gilmar Mendes, o adiamento do mensalão. Gurgel encaminhará o caso para a chefe da Procuradoria da República do DF, Ana Paula Mantovani. O ex-presidente não tem mais foro privilegiado. A decisão terá consequências?
Demóstenes na CPI
O senador Demóstenes Torres respondeu a todas as questões que lhe foram feitas na CPI mista. Experiência de promotor. Sensação é a de que a corda no pescoço começa a ser afrouxada.
Governadores vão ou não?
Os governadores Marconi Perillo (PSDB), Agnelo Queiroz (PT) e Sérgio Cabral (PMDB) serão convocados pela CPI? Entre 0 a 10, as chances de permanecerem em seus palácios é de 9.
Zé Abelha
Eis uma historinha do repertório de Zé Abelha, o nosso mineirinho contador de causos. Dr. Luís da Costa Alecrim, juiz de Direito da comarca de Conselheiro Pena, interroga um cidadão acusado de ter esfaqueado uma prostituta, residente na Boate Luar.
- O senhor conhece esta faca?
- Não, doutor, nunca vi essa peixeira.
Dr. Alecrim manda recolher o indiciado.
Mês seguinte, novo interrogatório:
- O senhor conhece esta faca?
- Conheço sim senhor, responde com malícia o indiciado.
- Então o senhor confessa a tentativa de homicídio?
- Não senhor! Eu disse que conhecia a peixeira. Não é aquela que o senhor me mostrou, mês passado?
Conselho aos membros da CPI
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos. Hoje, sua atenção se volta aos membros da CPI:
1. A essa altura do campeonato, poucos acreditam na efetividade da CPI mista. Corre a impressão de que uma gigantesca pizza começa ser a preparada.
2. Se os componentes da Comissão Mista pretendem resgatar a credibilidade, urge retomar o foco, avaliar as investigações já realizadas, convocar os implicados - pertençam a qualquer partido - e fazer os encaminhamentos necessários.
3. Todo esforço se faz necessário para não transformar a CPI em palanque de partidos nesse ciclo pré-eleitoral.
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(Gaudêncio Torquato)
terça-feira, 29 de maio de 2012
OBSERVATÓRIO
A edição passada desta coluna provocou uma série de reações. Algumas pessoas utilizaram as redes sociais para lançar petardos neste escriba. Como tem sido corriqueiro na cidade, alguns se manifestaram com ataques desproporcionais ao que foi colocado. É lamentável que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas que, em vez de considerar ideias, desconsideram os indivíduos. Ao invés do debate, optam pelo deboche. No lugar da racional discussão, preferem a irracional agressão. Conforme está pontuado na Crônica abaixo, recuso-me a receber esse tipo de presente. Quero apenas reiterar que as posições aqui esposadas refletem a minha opinião. Não são as palavras do Jornal. Não são pensamentos de grêmio partidário, pois nem filiação a partido possuo mais. Aqui vai a modesta avaliação de alguém que nasceu, se criou e viveu mais de 90% dos seus dias em Crateús, onde tem domicílio eleitoral. Só. Vamos ao trabalho.
AS QUESTÕES
As questões colocadas na edição passada sobre a coligação que reúne o maior número de partidos foram três: 1. O candidato das oposições deverá sair de um partido da base aliada do Governo. 2. Inexiste candidato imposto. Nenhum dos líderes oposicionistas saiu de Fortaleza – ou telefonou ou pediu – para impor qualquer candidatura. 3. Nos últimos quarenta anos só tivemos duas pessoas à frente da Prefeitura que nunca moraram fora de Crateús: Lionete Camerino e Leandro Martins. Todos os demais passaram períodos residindo fora da cidade. Se alguém discorda, é um direito. O espaço está aberto para que apresentem fatos e versões. Faz parte do processo democrático.
PADRE DAVI
Muita gente avaliou o lançamento do Padre Davi Silva como opção petista para figurar na condição de vice-prefeito do doutor Carlos Felipe, que disputará a reeleição. Trata-se de um cidadão que fiou um amplo leque de relações por seu trabalho pastoral. É óbvio que engrandece qualquer chapa. No entanto, há no PT um sentimento majoritário de que o espaço continua disponível para o doutor Mauro Soares. Sucede que o atual vice-prefeito tem enfrentado problemas de saúde. Amigos mais próximos e familiares já externaram a opinião de que ele deveria colocar a saúde em primeiro lugar. Mas essa é uma decisão estritamente pessoal. Só cabe a ele – e a mais ninguém – a palavra definitiva.
PSOL
A agremiação que ostenta a bandeira do socialismo e da liberdade, o PSOL, só deverá definir sua chapa ao executivo municipal no final de junho. Por enquanto, avalia os nomes do advogado Alexandre Maia e da professora Adriana Calaça. Certo, segundo um membro da Executiva Municipal, é que engendrará todos os esforços para conquistar vaga no Legislativo Municipal. Prepara um bom time para a Vereança. Destaque-se o líder sindical Paulo Giovani. Nas últimas três eleições vem sempre aumentando as votações.
PV
Já é certo que os Verdes apresentarão o maduro João Coelho Soriano, o Maçaroca. O candidato a Prefeito do PV é um nome oriundo da velha guarda do MDB. Tem nas veias o sangue saudosista da resistência ao poder estabelecido. É um velho combatente, uma figura emblemática. Está para Crateús como Paes de Andrade está para o Ceará. Pode se inserir na campanha com discurso bem humorado e desconcertante.
PSDB
Divergências entre os tucanos vieram a público na semana passada. Correu uma informação de que o Presidente José Vagno havia sido destituído. Esta informação está divorciada da realidade. Em verdade, segundo exibe o site do TRE - http://www.tre-ce.jus.br/partidos/informacoes-partidarias/orgaos-partidarios-1 – desde 30 de dezembro de 2011, a Comissão Provisória de Crateús perdeu sua vigência. Simplesmente, desde o final do ano passado, o PSDB está sem existência legal em Crateús. O Protocolo que a formalizou, de número 675932011, datado de 03/10/2011, exibe uma Comissão Provisória com a seguinte composição: José Vagno (Presidente), Olimpio Lopes (Secretário), José Rubens (Tesoureiro), Armstrong Tavares, Edmilson Coelho, Marcos Costa e Vicente Ludgero (membros). Segundo informaram alguns dos seus integrantes, que se deslocaram a Fortaleza para resolver a pendência (pois estavam preocupados com a possibilidade do Partido não se encontrar regularizado para participar das eleições), a Comissão Provisória deverá permanecer rigorosamente a mesma. Haverá apenas um rodízio nos cargos, o que é salutar e democrático.
OPOSIÇÕES
Afunila-se o processo para definição dos nomes que comporão a chapa das Oposições Unidas (PMDB, PSDB, DEM, PTB, PDT, PSD, PPS, PHS, PSL, PMN e PRTB). No final de semana passado ocorreram duas reuniões entre os pré-candidatos. O vereador Antonio Luiz, que aparece muito bem posicionado em todas as enquetes, externou que não pretende assumir a cabeça de chapa. Diz que amadureceu muito com as últimas experiências. Sabe, por vivência própria, que é difícil ir longe sem apoio logístico e sem estrutura. Em 2004, foi preterido pelo empresário Luizinho Sales, que tinha o apoio da cúpula. Em 2008, assumiu a cabeça de chapa. Quando sentiu o peso do abandono, resolveu apoiar Nenen Coelho. Agora, diz que ninguém vai muito longe sem o apoio dos líderes maiores.
OPOSIÇÕES II
Antonio Luiz tem razão. É difícil enfrentar uma eleição em Crateús – na aliança política que integra - desprovido de estrutura e respaldo explícito das lideranças, salvo se o postulante dispuser de meios pessoais para suprir essas carências. Pesquisas qualitativas têm revelado que o apoio dos três últimos ex-prefeitos (Nenzé, Zé Almir e Paulo), somados ao dos Deputados Estaduais e Federal oposicionistas, além de outras lideranças, altera significativamente o humor do eleitorado. Ou seja, esse apoio pode se traduzir em vitória para o candidato beneficiado.
PARA REFLETIR
“Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar./ A vida é combate,/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar”. (Gonçalves Dias)
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
AS QUESTÕES
As questões colocadas na edição passada sobre a coligação que reúne o maior número de partidos foram três: 1. O candidato das oposições deverá sair de um partido da base aliada do Governo. 2. Inexiste candidato imposto. Nenhum dos líderes oposicionistas saiu de Fortaleza – ou telefonou ou pediu – para impor qualquer candidatura. 3. Nos últimos quarenta anos só tivemos duas pessoas à frente da Prefeitura que nunca moraram fora de Crateús: Lionete Camerino e Leandro Martins. Todos os demais passaram períodos residindo fora da cidade. Se alguém discorda, é um direito. O espaço está aberto para que apresentem fatos e versões. Faz parte do processo democrático.
PADRE DAVI
Muita gente avaliou o lançamento do Padre Davi Silva como opção petista para figurar na condição de vice-prefeito do doutor Carlos Felipe, que disputará a reeleição. Trata-se de um cidadão que fiou um amplo leque de relações por seu trabalho pastoral. É óbvio que engrandece qualquer chapa. No entanto, há no PT um sentimento majoritário de que o espaço continua disponível para o doutor Mauro Soares. Sucede que o atual vice-prefeito tem enfrentado problemas de saúde. Amigos mais próximos e familiares já externaram a opinião de que ele deveria colocar a saúde em primeiro lugar. Mas essa é uma decisão estritamente pessoal. Só cabe a ele – e a mais ninguém – a palavra definitiva.
PSOL
A agremiação que ostenta a bandeira do socialismo e da liberdade, o PSOL, só deverá definir sua chapa ao executivo municipal no final de junho. Por enquanto, avalia os nomes do advogado Alexandre Maia e da professora Adriana Calaça. Certo, segundo um membro da Executiva Municipal, é que engendrará todos os esforços para conquistar vaga no Legislativo Municipal. Prepara um bom time para a Vereança. Destaque-se o líder sindical Paulo Giovani. Nas últimas três eleições vem sempre aumentando as votações.
PV
Já é certo que os Verdes apresentarão o maduro João Coelho Soriano, o Maçaroca. O candidato a Prefeito do PV é um nome oriundo da velha guarda do MDB. Tem nas veias o sangue saudosista da resistência ao poder estabelecido. É um velho combatente, uma figura emblemática. Está para Crateús como Paes de Andrade está para o Ceará. Pode se inserir na campanha com discurso bem humorado e desconcertante.
PSDB
Divergências entre os tucanos vieram a público na semana passada. Correu uma informação de que o Presidente José Vagno havia sido destituído. Esta informação está divorciada da realidade. Em verdade, segundo exibe o site do TRE - http://www.tre-ce.jus.br/partidos/informacoes-partidarias/orgaos-partidarios-1 – desde 30 de dezembro de 2011, a Comissão Provisória de Crateús perdeu sua vigência. Simplesmente, desde o final do ano passado, o PSDB está sem existência legal em Crateús. O Protocolo que a formalizou, de número 675932011, datado de 03/10/2011, exibe uma Comissão Provisória com a seguinte composição: José Vagno (Presidente), Olimpio Lopes (Secretário), José Rubens (Tesoureiro), Armstrong Tavares, Edmilson Coelho, Marcos Costa e Vicente Ludgero (membros). Segundo informaram alguns dos seus integrantes, que se deslocaram a Fortaleza para resolver a pendência (pois estavam preocupados com a possibilidade do Partido não se encontrar regularizado para participar das eleições), a Comissão Provisória deverá permanecer rigorosamente a mesma. Haverá apenas um rodízio nos cargos, o que é salutar e democrático.
OPOSIÇÕES
Afunila-se o processo para definição dos nomes que comporão a chapa das Oposições Unidas (PMDB, PSDB, DEM, PTB, PDT, PSD, PPS, PHS, PSL, PMN e PRTB). No final de semana passado ocorreram duas reuniões entre os pré-candidatos. O vereador Antonio Luiz, que aparece muito bem posicionado em todas as enquetes, externou que não pretende assumir a cabeça de chapa. Diz que amadureceu muito com as últimas experiências. Sabe, por vivência própria, que é difícil ir longe sem apoio logístico e sem estrutura. Em 2004, foi preterido pelo empresário Luizinho Sales, que tinha o apoio da cúpula. Em 2008, assumiu a cabeça de chapa. Quando sentiu o peso do abandono, resolveu apoiar Nenen Coelho. Agora, diz que ninguém vai muito longe sem o apoio dos líderes maiores.
OPOSIÇÕES II
Antonio Luiz tem razão. É difícil enfrentar uma eleição em Crateús – na aliança política que integra - desprovido de estrutura e respaldo explícito das lideranças, salvo se o postulante dispuser de meios pessoais para suprir essas carências. Pesquisas qualitativas têm revelado que o apoio dos três últimos ex-prefeitos (Nenzé, Zé Almir e Paulo), somados ao dos Deputados Estaduais e Federal oposicionistas, além de outras lideranças, altera significativamente o humor do eleitorado. Ou seja, esse apoio pode se traduzir em vitória para o candidato beneficiado.
PARA REFLETIR
“Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar./ A vida é combate,/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar”. (Gonçalves Dias)
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
SOBRE CALMA E PACIÊNCIA
Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.
Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama.
Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.
Desapontados pelo fato do mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram:
- "Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?"
- "Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?" - perguntou o Samurai.
"A quem tentou entregá-lo" - respondeu um dos discípulos.
"O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos" - disse o mestre. "Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir..."
A autoria da estória ou História acima me é desconhecida. No entanto, a reflexão que suscita é inquestionável. Ela saltou na prateleira da minha memória quando vi reações irascíveis em redes sociais a colocações que fiz no espaço deste periódico.
Primeiro quero pontuar que considero a internet uma das mais extraordinárias criações da moenda humana. É inimaginável como seria o complexo das relações entre as pessoas, ante os desafios das modernas gerações, se não existisse essa aldeia virtual que nos coloca de mãos dadas sob a mesma tenda global.
Porém, esse instrumento fantástico de massificação da produção científica, esse fascinante armazém do conhecimento acumulado, essa fonte inesgotável de recursos – que deveria ser a ecumênica e sagrada montanha da fraternidade universal – ás vezes é transformado em uma verdadeira arena grega. Internautas viram gladiadores. Transformam-se em ferozes animais. Substituem a sociabilidade pela selvageria. Ao invés do debate, optam pelo deboche. No lugar da racional discussão, preferem a irracional agressão. Devemos procurar nos abster de dar reflexo a esse tipo de postura.
É nessas horas que vejo mais nitidamente a relevância da calma e da paciência. Calma e paciência! Ou... paciência e calma! Palavras que se completam.
A calma, que nasceu do Latim tardio (vejam a coincidência!), vem de cauma, “o calor do meio-dia (quando tudo fica quieto)”. Ou, do Grego kauma, “calor (principalmente o do sol)”, de kaiein, “queimar”.
Por sua vez, a palavra paciência –do Latim patientia, “resistência, paciência”, do verbo pati, “agüentar, sofrer”, derivada de addurare, ou durare, “durar, resistir, perseverar”, alterando-se depois o sentido para “suportar, agüentar”. E, aqui, vale lembrar que agüentar vem do Italiano agguantare, “segurar firme”.
No grego bíblico a paciência é conhecida como makrothumia, traduzida como “tardio em vinganças incorretas”. É uma palavra composta, consistindo em makros (longo ou grande) e thumia (temperamento). Assim, literalmente significa ter um "fusível longo" ao contrário de ser curto/rápido, temperamental. Daí o motivo de chamarmos as pessoas explosivas e que têm dificuldade de regular as próprias emoções de “pavio curto”...
Quando a intolerância bate à nossa porta, devemos aguentar firme, resistir, pois devolver de bate pronto é fácil. Deixar saltar o nosso urso interior é simples. Difícil, complexo, exigente e delicado é domar os ímpetos, resistir à imprudência, manter longo o fusível dos sentimentos.
Certamente foi nessa esteira que o duque de La Rochefoucauld elaborou o pensamento de que “a moderação das pessoas felizes deriva da calma que a boa fortuna dá ao seu temperamento”.
Paciência e calma. A paciência – ou o ato de suportar as adversidades e aguentar firme ante os solavancos da existência - pode ser vista como a ciência da paz; a calma – essa quietude que é produto da queima das gorduras temperamentais - é viver em concordância com a alma.
William Shakespeare dizia que “as águas correm mansamente onde o leito é mais profundo”. Ao contrário do que sugere a superfície do mundo, os calmos e pacientes são muito mais profundos!
(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
**********************************************************************
Paulo Nazareno deixou um novo comentário sobre a sua postagem "SOBRE CALMA E PACIÊNCIA":
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche.De todos os que lí,foi o que mais me modificou.
Este episódio que citas,o encontraras lá.
Carpe Diem.
PN.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
VELHAS NOVIDADES NA ELEIÇÃO MUNICIPAL
“A palavra foi dada ao homem para dissimular seu pensamento”. Este lembrete de Charles Talleyrand-Périgord, matreiro político da era napoleônica, se faz muito presente no circuito político e, com mais intensidade, nos ciclos eleitorais. Querem um exemplo? “Não basta o novo nesta cidade. É preciso um programa novo”.
A senadora Marta Suplicy, na outorga do titulo de cidadão paulistano ao ex-presidente Luiz Inácio, semana passada, dizia à plateia que não adianta um candidato exibir sua estética jovem na campanha eleitoral se não portar, a tiracolo, um programa que reflita, de maneira competente, soluções para os graves problemas de uma metrópole.
Traduzindo o que a ex-prefeita do PT quis expressar: Fernando Haddad, candidato patrocinado por Lula, pode ter cara de meninão. Não será, porém, seu perfil que garantirá uma administração inovadora para São Paulo. Mais que isso, importa um plano “revolucionário”, capaz de contemplar as ingentes demandas da maior capital do país e adotar ações que resultem em mudanças e avanços.
O novo pode ser velho e o velho, ousando interpretar o pensamento da senadora, tem condições de vir a ser o condutor da locomotiva das mudanças. Marta, até então, detinha o maior índice de intenção de voto entre candidatos petistas à prefeitura. Referia-se a si mesma?
Sua intenção pode ter sido cutucar a cúpula petista. Mas não há como deixar de lhe dar razão. A campanha municipal no país ensaia os primeiros passos, com pré-candidatos atirando verbos uns contra outros, será certamente um exercício de fuga da realidade.
O conceito de novo inundará os palanques. Ladainhas, propostas mirabolantes e fórmulas mágicas comporão o discurso euforizante de candidatos às 5.565 prefeituras e às 57.748 vagas de vereadores. Desfilarão nas ruas diferentes tipos de candidatos, cada qual se esforçando para se diferenciar um do outro, pretendendo fixar a imagem do melhor, superlativo que puxará os qualificativos “preparado, experiente, inovador, conhecedor dos problemas, popular, sério, cumpridor de promessas”.
O PT emite sinais sobre a tônica de seu discurso. Recentes spots publicitários do partido, pela expressão do ex-presidente Lula e da presidente Dilma, mostram que o conceito-chave a ser usado na campanha será o da mudança, inovação.
O partido tem a intenção de colar nos candidatos o cenário das conquistas alcançadas no ciclo Lula, agora sob o manto do governo da primeira mulher presidente.
A estratégia, orientada pelo marketing político, deverá encontrar fortes barreiras, a partir da cultura dos grotões, que ainda se funda nos obséquios que Victor Nunes Leal descreveu no clássico Coronelismo, Enxada e Voto: arranjar ou prometer emprego, emprestar dinheiro, influenciar jurados, providenciar médico ou hospitalização, dar pousada e refeição, batizar filho e apadrinhar casamento, compor desavenças, proteger indicados na administração, enfim, uma infinidade de préstimos pessoais.
Portanto, o primeiro grupo de candidatos – nos 2.507 municípios de até 10 mil habitantes – se apresentará com o carimbo de despachantes de demandas pessoais. E o compromisso com a cartilha partidária? Ora, servirá apenas de passaporte de legitimidade.
Nas cidades de até 50 mil habitantes (2.449), cujas demandas nas frentes de serviços básicos são mais acentuadas – saúde, educação, transporte, habitação etc. – a tipologia será mais farta. Ver-se-ão perfis vestindo o figurino de obreiros sob o slogan “fulano fez, fulano faz.” Outros abrirão o cobertor do assistencialismo, usando a carona das bolsas da era Lula.
Populistas se esforçarão para acenar com gestos extravagantes e exibir as tradicionais mungangas: comer pastel na feira, tomar café na padaria, embalar crianças nos braços, visitar doentes, desfilar com o santo nos ombros na procissão religiosa. Aliás, nem os quadros de maior elevação cultural resistem às missas campais para 100 mil, 200 mil pessoas, celebradas por padres que habitam o Olimpo da cultura de massas. Faz parte da liturgia eleitoral.
Mas haverá sinais de mudança. Das comunidades médias, emergirão bons gestores saídos de profissões liberais -, principalmente médicos, advogados, agrônomos-, e também das áreas dos negócios, como comerciantes, empresários e proprietários rurais. Este núcleo geralmente conta com respaldo de entidades de intermediação social.
O foco discursivo abrigará demandas locais e imediatas e as ênfases obedecerão às especificidades de cada localidade.
Já nos ajuntamentos maiores – entre 50 mil até 100 mil e acima de 100 mil habitantes (609 municípios), a dispersão das mensagens tende a ser maior. O desafio dos contendores será o de criar uma identidade homogênea a todas as classes.
Os grandes centros poderão acolher a expressão bipolar – o novo contra o velho, o experiente contra o jejuno, a mudança contra o status quo, aposta do PT e do PSDB em São Paulo.
Mas o discurso ambivalente não será suficiente para formar duas alas, uma oposta à outra. Eis o ponto nevrálgico. No eleitorado paulistano de 8,5 milhões de pessoas, interesses se bifurcam, visões se aproximam, simpatia e antipatia se cruzam.
O fato é que o eleitor tornou-se mais crítico. Até pode continuar a eleger palhaços. Mas a figura do gaguinho prefeito se esvai na névoa do tempo.
Outubro de 1976. O candidato da Arena a prefeito de Palmares renuncia. O governador Moura Cavalcanti chega à cidade e pergunta: “quem é popular aqui?” Respondem: “o gaguinho”. Ante a informação de que “o gago não fala nada”, Moura fechou questão: “será ele”.
Levou-o ao palanque e anunciou: “prefeito não precisa falar, precisa agir.” O povo batia palmas. O gaguinho fazia apenas o V da vitória. Não disse um pio. Ganhou a eleição.
Um gaguinho, candidato de Lula, poderia levar a melhor no pleito de uma cidade pequena? É possível.
Mas a cáustica observação da senadora Marta tem lógica: o candidato pode ser jovem e gago, mas se não tiver programa novo, dança. Em tempo: não é o caso dos jovens candidatos em São Paulo.
(Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação)
A senadora Marta Suplicy, na outorga do titulo de cidadão paulistano ao ex-presidente Luiz Inácio, semana passada, dizia à plateia que não adianta um candidato exibir sua estética jovem na campanha eleitoral se não portar, a tiracolo, um programa que reflita, de maneira competente, soluções para os graves problemas de uma metrópole.
Traduzindo o que a ex-prefeita do PT quis expressar: Fernando Haddad, candidato patrocinado por Lula, pode ter cara de meninão. Não será, porém, seu perfil que garantirá uma administração inovadora para São Paulo. Mais que isso, importa um plano “revolucionário”, capaz de contemplar as ingentes demandas da maior capital do país e adotar ações que resultem em mudanças e avanços.
O novo pode ser velho e o velho, ousando interpretar o pensamento da senadora, tem condições de vir a ser o condutor da locomotiva das mudanças. Marta, até então, detinha o maior índice de intenção de voto entre candidatos petistas à prefeitura. Referia-se a si mesma?
Sua intenção pode ter sido cutucar a cúpula petista. Mas não há como deixar de lhe dar razão. A campanha municipal no país ensaia os primeiros passos, com pré-candidatos atirando verbos uns contra outros, será certamente um exercício de fuga da realidade.
O conceito de novo inundará os palanques. Ladainhas, propostas mirabolantes e fórmulas mágicas comporão o discurso euforizante de candidatos às 5.565 prefeituras e às 57.748 vagas de vereadores. Desfilarão nas ruas diferentes tipos de candidatos, cada qual se esforçando para se diferenciar um do outro, pretendendo fixar a imagem do melhor, superlativo que puxará os qualificativos “preparado, experiente, inovador, conhecedor dos problemas, popular, sério, cumpridor de promessas”.
O PT emite sinais sobre a tônica de seu discurso. Recentes spots publicitários do partido, pela expressão do ex-presidente Lula e da presidente Dilma, mostram que o conceito-chave a ser usado na campanha será o da mudança, inovação.
O partido tem a intenção de colar nos candidatos o cenário das conquistas alcançadas no ciclo Lula, agora sob o manto do governo da primeira mulher presidente.
A estratégia, orientada pelo marketing político, deverá encontrar fortes barreiras, a partir da cultura dos grotões, que ainda se funda nos obséquios que Victor Nunes Leal descreveu no clássico Coronelismo, Enxada e Voto: arranjar ou prometer emprego, emprestar dinheiro, influenciar jurados, providenciar médico ou hospitalização, dar pousada e refeição, batizar filho e apadrinhar casamento, compor desavenças, proteger indicados na administração, enfim, uma infinidade de préstimos pessoais.
Portanto, o primeiro grupo de candidatos – nos 2.507 municípios de até 10 mil habitantes – se apresentará com o carimbo de despachantes de demandas pessoais. E o compromisso com a cartilha partidária? Ora, servirá apenas de passaporte de legitimidade.
Nas cidades de até 50 mil habitantes (2.449), cujas demandas nas frentes de serviços básicos são mais acentuadas – saúde, educação, transporte, habitação etc. – a tipologia será mais farta. Ver-se-ão perfis vestindo o figurino de obreiros sob o slogan “fulano fez, fulano faz.” Outros abrirão o cobertor do assistencialismo, usando a carona das bolsas da era Lula.
Populistas se esforçarão para acenar com gestos extravagantes e exibir as tradicionais mungangas: comer pastel na feira, tomar café na padaria, embalar crianças nos braços, visitar doentes, desfilar com o santo nos ombros na procissão religiosa. Aliás, nem os quadros de maior elevação cultural resistem às missas campais para 100 mil, 200 mil pessoas, celebradas por padres que habitam o Olimpo da cultura de massas. Faz parte da liturgia eleitoral.
Mas haverá sinais de mudança. Das comunidades médias, emergirão bons gestores saídos de profissões liberais -, principalmente médicos, advogados, agrônomos-, e também das áreas dos negócios, como comerciantes, empresários e proprietários rurais. Este núcleo geralmente conta com respaldo de entidades de intermediação social.
O foco discursivo abrigará demandas locais e imediatas e as ênfases obedecerão às especificidades de cada localidade.
Já nos ajuntamentos maiores – entre 50 mil até 100 mil e acima de 100 mil habitantes (609 municípios), a dispersão das mensagens tende a ser maior. O desafio dos contendores será o de criar uma identidade homogênea a todas as classes.
Os grandes centros poderão acolher a expressão bipolar – o novo contra o velho, o experiente contra o jejuno, a mudança contra o status quo, aposta do PT e do PSDB em São Paulo.
Mas o discurso ambivalente não será suficiente para formar duas alas, uma oposta à outra. Eis o ponto nevrálgico. No eleitorado paulistano de 8,5 milhões de pessoas, interesses se bifurcam, visões se aproximam, simpatia e antipatia se cruzam.
O fato é que o eleitor tornou-se mais crítico. Até pode continuar a eleger palhaços. Mas a figura do gaguinho prefeito se esvai na névoa do tempo.
Outubro de 1976. O candidato da Arena a prefeito de Palmares renuncia. O governador Moura Cavalcanti chega à cidade e pergunta: “quem é popular aqui?” Respondem: “o gaguinho”. Ante a informação de que “o gago não fala nada”, Moura fechou questão: “será ele”.
Levou-o ao palanque e anunciou: “prefeito não precisa falar, precisa agir.” O povo batia palmas. O gaguinho fazia apenas o V da vitória. Não disse um pio. Ganhou a eleição.
Um gaguinho, candidato de Lula, poderia levar a melhor no pleito de uma cidade pequena? É possível.
Mas a cáustica observação da senadora Marta tem lógica: o candidato pode ser jovem e gago, mas se não tiver programa novo, dança. Em tempo: não é o caso dos jovens candidatos em São Paulo.
(Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação)
domingo, 27 de maio de 2012
FADO TROPICAL EM FRANCÊS (POR GEORGE MOUSTAKI)
Oh muse ma complice
Petite sœur d'exil
Tu as les cicatrices
D'un 21 avril
Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t'ont déçue
De n'avoir rien pu faire
Ou de n'avoir jamais su
A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal
On crucifie l'Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l'oubli
Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S'expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit
A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal
Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles
Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l'avenir
A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal
Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S'envole ta chanson
Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal
Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial
***************************
Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)
Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...
Com avencas na catinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado eu mesmo me contesto
Se trago as mãos distantes do meu peito
è que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto
Quando me encontro no claro da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito de desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."
Guitarras e sanfonas
Jasminas, coqueiros fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial"
sábado, 26 de maio de 2012
SR. VERSO
(Por Silas Falcão, no IV Seminário Revelando a Literatura Cearense realizado no teatro Emiliano Queiroz – SESC -, nos dias 21-22/05).
Ele não está na mídia. Permanece distante das festas literárias. Ele prefere a reclusão, a “solidão” de sua biblioteca, redescobrindo novas artes de cantar a vida, de elevar a alma. Poetas assim não formam uma população no universo literário. Francisco Carvalho, fala mansa, timidez assumida, faz questão de se manter afastado das igrejinhas literárias, das noites de autógrafos em clubes sociais e, em silêncio, realiza uma das mais sólidas obras poéticas do nosso país. Atentem para essas declarações do próprio poeta: “não faço questão de aparecer; a timidez faz parte de minha personalidade, sempre assumi uma posição mais reservada. Tenho certo pudor, certa preocupação de não me envolver com grupos; no meio literário há muitas vaidades”. Francisco Carvalho, mantendo-se à margem da confraria do elogio mútuo, não soma lenhas na grande fogueira das vaidades.
Com a publicação de um folheto de cordel sobre a seca no Ceará, Francisco Carvalho se inicia na poesia. Os anos eram 0 décimo quinto da sua existência. Esse cordel ressoava a influência dos cantadores de viola, cantadores ambulantes. Era natural que assim ele começasse.
Em minhas pesquisas/leituras para evoluir esta biografia afetiva do poeta da simplicidade grandiosa, assentei nestas páginas uma entrevista de 9 de abril de 1988, quando lhe é perguntado qual o papel da poesia: “é um instrumento de paz e solidariedade entre as pessoas. Assim como você ouve música para se apaziguar, você lê poesia. É sempre um instrumento de enriquecimento. Quando leio um grande poema sinto uma alegria interior inexplicável. A poesia deve emocionar. E se alguém se emociona lendo um bom texto, então está justificada a poesia”. E Francisco Carvalho emociona com sua produção poética, pela qual manifesta sua preocupação com a realidade social e a possibilidade de sua transformação. Ele poetiza as suas inquietudes metafísicas, a família, a terra, o amor, as mazelas sociais e a sua infância permanente, de quem declara “ser a pátria dos poetas, a matriz das nossas sensações, dos nossos alumbramentos, da nossa magia”.
Poeta de fôlego montanhoso, Francisco Carvalho transforma um acontecimento aparentemente corriqueiro ou um simples objeto em pura poesia, como se observa em MESA DE JACARANDÁ:
Nesta mesa de jacarandá
Já houve muita paz
O vinho já acendeu corações
Taças já entoaram
seus cânticos de cristais”.
Justificando a mesa deste poema, o poeta explica: “Éramos pobres, modestos agricultores. Nossa mesa era de imburana. Madeira comum no Nordeste brasileiro. Jacarandá, madeira nobre, só existe na Amazônia e em outras regiões privilegiadas. A mesa de jacarandá do poema vai por conta da imaginação poética. Afinal de contas, o sonho é a matéria-prima da poesia”.
Em 1939, ano da morte do seu pai, Francisco Carvalho, nascido em Russas em 11 de junho de 1927, após realizar estudos iniciais no Ateneu São Bernardo, de Russas, busca em Fortaleza outras imagens, inéditos burburinhos e espaços mais vivos se contrapondo aos clichês do cotidiano urbano da sua cidade natal, trazendo definitivamente para estas terras de Iracema, um poeta adolescente querendo se expandir, se aperfeiçoar, conquistar a sua singularidade poética através dos seus recursos verbais, pois como afirmou Mallarmé: “Não é com ideia que se faz versos, mas com palavras”.
Certa vez, falando sobre as origens da sua construção poética, Francisco Carvalho declarou: “Sem indignação não se produz boa literatura. Ninguém escreve de bem com a vida, com lugar no céu”. Na multidão poética que compõe a obra de Francisco Carvalho, existem épocas dolorosas, como as registradas em VERSOS AO PAI, quando este agonizou seis meses antecendentes a sua morte:
Volto a ser o menino que segurava o teu braço
pelas ruas de uma cidade vazia.
Só a manada dos ventos dialogava com
as aldravas que restaram de antigos invernos
e ríspidos estios de pássaros e nuvens
que se acasalavam no ar.
À morte, essa grandeza tenebrosa
com sua grinalda de espanto na cabeça,
já se desenhava em teu corpo
com suas teias de escárnio e seu odor de matéria que se decompõe
ao gargalhar das mortalhas dançarinas.
Expulsando-se da gargalhada das mortalhas dançarinas, o poeta pulveriza na sua escritura poética a esperança em uma nova estrutura espiritual para o homem, manifestada na poesia CANTO PARA A DIMENSÃO DO HOMEM.
Um homem é o que se atira à posse das estrelas
por serem do alto e puras.
O que se identifica pela chama
do seu amor às outras criaturas.
Um homem é o que acende a sua brasa
para aquecer o sono do vizinho.
O que põe o seu olho à escuta
da oculta beleza que mora no mundo.
Este é o canto do poeta preocupado com a grandeza humanística das pessoas.
Filho de Clicério Leite de Carvalho e Maria Helena de Carvalho, Francisco Carvalho é um poeta que assume o papel de ser o interlocutor, o intérprete dos nossos anseios, dos nossos descontentamentos, das nossas fragilidades também simbolizadas na figura dos heróis. Necessitando manifestar a nulidade dos heróis, o poeta escreveu
NÓS, NÓS NÃO TEMOS HERÓIS:
Nós, nós não temos heróis
nem jamais os tivemos.
Afinal, para que servem os heróis e suas estátuas de granito ou mármore negro, seus cavalos de bronze, suas medalhas barrocas e as espadas que não passam de metáforas?
Para que servem os heróis se o ácido da chuva desdenha da glória dos homens e nem os pássaros se importam com eles?
Para que servem os heróis se nem sabem quem somos nem jamais ouviram falar dos nossos mitos e utopias?
Infeliz do país que necessita de heróis
Na página literária d’O Povo de 27 de abril de 1987, encontrei a belíssima e trepidante poesia ROSA DA PEDRA:
Vi uma rosa nascer da pedra
Beleza ardente
Como a de um ser soprado pela boca de um deus
Vi uma rosa nascer da pedra
Pisada pela multidão
Uma rosa irrigada pelo sangue da síntese
Vi uma rosa nascer da pedra
Tamanha vida
Tamanho o impulso de ressurreição.
Na manhã do segundo domingo deste santo mês das mães, empunhando uma longa cerveja nevada, eu escutava atentamente João Cabral de Mello Neto declarar n’O curso do poeta, vídeo do distante ano de 1973: “Não pretendo fazer poesia lisa, macia como um carro deslizando no asfalto regular. Quero fazer uma poesia trepidante, de estrada de carroçal que faz o passageiro tremer aos solavancos. Quero fazer uma poesia que crie catarse”. A poética, com ritmo e planejamento, de Francisco Carvalho nos impõe seguidos solavancos a nossa alma.
No dia 24 de abril de 2012, o poeta Batista de Lima, cronista semanal do DN, publicou a II parte do ensaio A Pastoral Poética de Francisco de Carvalho, onde afirma: “Mesmo que esse filho de Russas pregue que seus poemas são menores e que todos morrerão consigo, não será morte com enterro final. Cada leitor disputará a alça desse esquife em busca de um sepultamento que nunca ocorrerá”. Retorno a outra leitura que fiz no jornal O Povo de 6 de março de 1964, em que uma nota do editorial anuncia: “Não faz muito tempo, o poeta Francisco Carvalho surpreendeu os meios literários cearenses com uma grave decisão de abandonar, em caráter definitivo, as suas atividades literárias. E apresentava uma estranha justificativa, com a qual não concordaram quantos conhecem a sua poesia. Disse que chega a conclusão de que realiza uma obra medíocre”.
Mas não foi assim que pensou a crítica literária nacional em 1982, quando o livro Quadrante Solar venceu o I Prêmio Nestlé de Literatura. Nem quando, em 1997, com Girassóis de Barro, Francisco Carvalho obteve o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Outro reconhecimento cearense foi o seu ingresso na Academia Cearense de Letras, onde ocupa a cadeira 31.
As angústias velhas e novas, os acontecimentos corriqueiros, as saudades intermitentes do pai, dos sobrados e casarões de sua terra. Outros calendários do passado como a recordação do tempo em que o adolescente Francisco Carvalho trabalhava numa bodega de subúrbio poluído e melancólico desta capital, fato este que motivou a crônica O poeta e a bodega, de 6 de março de 1962, do jornalista Deusdete de Sousa. Houve outras bodegas em que Francisco Carvalho amarga experiência de garçom num restaurante noturno da periferia da cidade, onde o dono era míope e tocava violino fanhoso que maltratava a alma do poeta, que recebia de salário apenas um bilhete azul e alguns conselhos para melhor ser sucedido na vida. Não posso esquecer nesta biografia a atitude humanista do então Magnífico Reitor Antonio Martins Filho resgatando o poeta de uma esquelética empresa comercial e levando-o para assessorá-lo na reitoria da UFC, onde permaneceu por trinta e nove anos. Todos esses fatos e outras memórias voluntárias e involuntárias que não fogem das raízes do poeta Francisco Carvalho, e tantos outros passados pesquisados/lidos por mim em livros e ausentes desta biografia por determinação do tempo para cada palestrante deste Seminário, são responsáveis pela construção de um longo e qualificado projeto literário iniciado em 1942 e dedicado inteiramente a poesia nas suas mais diversas formas de expressão.
Distribuo para vossos ouvidos a leitura que fiz em um texto do acadêmico Junior Bonfim, de um fato na vida do poeta Olavo Bilac. O dono de um pequeno comércio, amigo do poeta, abordou-o na rua: - Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que você tão bem conhece. Poderá redigir o anúncio para o jornal? Olavo Bilac escreveu: "Vende-se uma encantadora propriedade, onde os pássaros cantam ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e mareantes águas de um ribeiro. A casa, banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda." Meses depois se reencontraram. O poeta perguntou se o amigo havia vendido o sítio. “- Nem pense mais nisso. Quando li o anúncio foi que percebi a maravilha que tinha”.
Eis a função do poeta: revelar a beleza escondida nas coisas, nos lugares e nas pessoas!
Para Francisco Carvalho a poesia é a sua pele.
“Encerro” esta biografia afetiva intitulada Sr. Verso, com o depoimento de outro titã da nossa literatura, o saudoso José Alcides Pinto: “A poesia de Francisco Carvalho é patrimônio da humanidade. No entanto, esta humanidade vive em débito com o poeta Francisco Carvalho”.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
OUÇA A RESPOSTA DO VENTO!
O calendário registra o aniversário dele na data de ontem. Seu nome é uma legenda: Bob Dylan! Na certidão de nascimento consta Robert Allen Zimmerman.
Do solo cerebral desse cantor e compositor norte-americano brotou uma canção que é, também, uma peça literária que honra os mais nobres valores humanos. A sensibilidade explode de cada partitura. É imperioso que silenciemos para ouvir a resposta do vento.
Ouçamo-la:
Do solo cerebral desse cantor e compositor norte-americano brotou uma canção que é, também, uma peça literária que honra os mais nobres valores humanos. A sensibilidade explode de cada partitura. É imperioso que silenciemos para ouvir a resposta do vento.
Ouçamo-la:
quinta-feira, 24 de maio de 2012
A POLÍTICA E SUA PERVERSÃO
A política, que é a latitude máxima da ação humana, em busca de um fim social, e de uma práxis civil e emancipadora, corre em todas as sociedades qual rastilho de pólvora. Não há como deter a sua força, a sua energia dadivosa, o seu poder absoluto de envolvimento e de transformação.
Não podemos pensar em qualquer forma de sociedade sem que nela não esteja presente o exercício da política. A política é o que é, existe porque tem que existir. É a espinha dorsal e a coluna vertebral do Estado, do município, do poder político de uma forma geral.
Claro que a política não se submete aos limites da ética, porque a conquista do poder e a sua manutenção constituem, com certeza, um campo de guerra e não tem como ser diferente. Mas é claro que ela pode ser limitada pelas regras do Direito e pelas aspirações de Segurança que rondam o habitat da vida social.
Em face das conquistas da técnica e da clarificação das consciências, penso que, nos dias de hoje, a política poderia ser um pouco diferente. Deveria estar prioritariamente voltada para o homem, para as suas necessidades e para a superação das misérias sociais, que desafiam a paz e a busca dos Direitos Humanos.
A política, infelizmente, virou uma grande equação capitalista: transformou-se em patrimônio material de uns e em forma de extorsão com que outros se mantêm no poder, roubando os cofres da Administração, assaltando a partilha do orçamento, transformando tudo em uma mesa de jogo da corrupção e do desvio de recursos.
Após os avanços da globalização econômica, especialmente a partir da década de 1990, o capitalismo e os seus valores de ordem financeira foram assaltando, gradativamente, a máquina do Estado.
O mercado substituiu a política e os intelectuais foram expulsos do espaço público, porque a equação capitalista não precisa de ideias, mas de pessoas dóceis à sua sedução material.
O capitalismo, como sabemos, abomina qualquer discussão de ideias que não seja em proveito da sua utilidade, e que não seja a favor dos monopólios de todos os setores da vida; e a ideologia de ordem econômica e monetária passou a ser, ao que parece, a religião oficial do planeta.
A cultura, a arte e a educação, que são bases primordiais do humanismo, vêm sendo ultrapassadas, de último, pelos valores da tecnologia; a preparação técnica das pessoas assumiu o lugar da sua formação, do seu aprendizado sistemático e da sua capacidade de interação com os seus semelhantes; e a defesa da Ética e dos Direitos Humanos igualmente vem perdendo o seu lugar nessa nova forma de sociedade, calculadamente fria e esquisita.
Grande parte das pessoas, hoje, sucumbiu à sedução do consumo, e trocou sua alma pela exibição do seu ego. Muitos não estão nos espaços midiáticos da web porque fizeram alguma coisa de proveito no mundo, mas porque desejam promover as suas fantasias.
Assusta observar, por outro lado, que o homem perdeu a sua condição de reagir, de se indignar, de denunciar os desmandos da classe política, e de ocupar as ruas e as praças para reivindicar os seus direitos.
Os que se julgam acima do bem e da verdade, decretaram a morte dos princípios, como se fosse possível convencer os semelhantes com o barulho de suas teses enfadonhas.
A completa conivência de muitos chefes de Estado, e assim também do último governo do Brasil, para com a mentira e a falsificação da verdade, e para com aqueles que já estão cansados de mandar, tais os exemplos de Fernando Color, Renan Calheiros e José Sarney, são situações que estão, por outro lado, a desafiar a paciência das pessoas.
No caso específico do Brasil, a busca da justiça social e o resgate da política enquanto vocação parece que não são, decididamente, valores que agradam aos integrantes da classe dirigente.
E o povo, sempre alimentado de muitas ilusões, se acostumou demais com a mentira e com as esmolas que lhe são destinadas pelas autoridades que estão de plantão, e não desconfia sequer das intenções dos que estão no centro do poder.
Parece ser mesmo doloroso, para os homens de boa vontade, e para os que lutam pela ética e a dignidade, assistir a ascensão de pessoas despreparadas e gananciosas para a representação parlamentar, e para os postos de comando da máquina do Estado.
A política não constitui um fim, e o exercício da política, como sabemos, é uma vocação. Não é um patrimônio que se transmite por herança para os apaniguados do poder. A política é uma missão e exige de quem a ela se entrega um compromisso integral e efetivo para com as exigências da vida coletiva.
No Brasil, infelizmente, a maioria dos políticos ainda não despertou para a grave questão do ambiente e o povo ainda não se sente motivado para os desafios da educação ambiental, o que é lamentável, e a consequência de tudo será a transmissão, para as gerações futuras, dessa conduta irresponsável.
Essa perversão em que a hegemonia da política foi transformada, é a causa da violência social e da violência simbólica que nos cercam; é a causa da proliferação das drogas e das deformações que atacam as novas gerações, e entorpecem a mente dos que gravitam ao redor da máquina do poder.
Parece mesmo que existe uma desordem no cosmos, causada pela perversão em que se transformou a política, pois a sinfonia planetária, que há séculos encantava a audiência humana, hoje se encontra ameaçada. Empresários inescrupulosos e políticos de visão mesquinha têm feito da ganância e da especulação instrumentos de violação da paz e do equilíbrio da vida em sociedade.
O meio ambiente vem perdendo a sua qualidade. Agredido pela insensatez e a irresponsabilidade de muitos, agoniza qual um animal sangrado, e pede clemência para a tragédia da degradação ambiental e cosmológica.
Depois que o homem decretou a morte de Deus e do sagrado, parece mesmo que tudo se tornou possível, cumprindo-se assim a profecia do grande romancista russo Fiódor Dostoiévski.
A degradação ambiental, que hoje se espalha pelo mundo, tem recebido respostas muito convincentes da própria natureza, que aqui e ali vai se defendendo como pode, através de vulcões e terremotos, degelo das calotas polares, tsunamis marinhos e aquecimento de todas as regiões do planeta.
O ser humano, contudo, não recua e a sociedade de consumo vai achando normal a circunstância de conviver com o lixo e com as embalagens nunca recicláveis das mercadoras que consome, rejeitando o ciclo natural do ambiente à sua volta e substituindo-o pelo consumo de mercadorias e serviços provenientes da indústria do tóxico.
O homem que consome, de forma obsessiva, o ópio do mercado, e que sonha com o desejo do lucro, e que apoia, a seu turno, a poluição da natureza, parece mesmo que decidiu morrer abraçado com a sua imperfeição e com a sua teimosia de viés egoísta. Parece que decidiu sufocar a natureza, almejando assim o seu poder absoluto sobre o cosmos.
É possível que a voz dos ambientalistas, e daqueles que defendem a natureza, continue clamando no deserto, mas aceitar as coisas de forma diferente, e não reagir contra o agravamento da crise ambiental, me parece o jeito mesquinho de estar no mundo e de aceitar a sua total degradação.
Assim sendo, urge que as pessoas de boa vontade continuem resistindo ao avanço do mal e ao poder de degradação do universo, resultado da teimosia dos que não acreditam no amor e na compreensão, que maltratam a sensibilidade e tudo corrompem em nome dos bens materiais e dos interesses políticos inconfessos.
Para além de tudo, no entanto, está a esperança, a dignidade dos que sonham com a vida, que replantam a semente do bem e a partilha da Paz e da Justiça, porque os frutos perenes do amor, a defesa da ética e o denodo dos que lutam pelas formas de afirmação do bem e da verdade são as nossas crenças e os nossos valores de maior valia.
(Dimas Macedo, Fortaleza, inverno de 2012)
Não podemos pensar em qualquer forma de sociedade sem que nela não esteja presente o exercício da política. A política é o que é, existe porque tem que existir. É a espinha dorsal e a coluna vertebral do Estado, do município, do poder político de uma forma geral.
Claro que a política não se submete aos limites da ética, porque a conquista do poder e a sua manutenção constituem, com certeza, um campo de guerra e não tem como ser diferente. Mas é claro que ela pode ser limitada pelas regras do Direito e pelas aspirações de Segurança que rondam o habitat da vida social.
Em face das conquistas da técnica e da clarificação das consciências, penso que, nos dias de hoje, a política poderia ser um pouco diferente. Deveria estar prioritariamente voltada para o homem, para as suas necessidades e para a superação das misérias sociais, que desafiam a paz e a busca dos Direitos Humanos.
A política, infelizmente, virou uma grande equação capitalista: transformou-se em patrimônio material de uns e em forma de extorsão com que outros se mantêm no poder, roubando os cofres da Administração, assaltando a partilha do orçamento, transformando tudo em uma mesa de jogo da corrupção e do desvio de recursos.
Após os avanços da globalização econômica, especialmente a partir da década de 1990, o capitalismo e os seus valores de ordem financeira foram assaltando, gradativamente, a máquina do Estado.
O mercado substituiu a política e os intelectuais foram expulsos do espaço público, porque a equação capitalista não precisa de ideias, mas de pessoas dóceis à sua sedução material.
O capitalismo, como sabemos, abomina qualquer discussão de ideias que não seja em proveito da sua utilidade, e que não seja a favor dos monopólios de todos os setores da vida; e a ideologia de ordem econômica e monetária passou a ser, ao que parece, a religião oficial do planeta.
A cultura, a arte e a educação, que são bases primordiais do humanismo, vêm sendo ultrapassadas, de último, pelos valores da tecnologia; a preparação técnica das pessoas assumiu o lugar da sua formação, do seu aprendizado sistemático e da sua capacidade de interação com os seus semelhantes; e a defesa da Ética e dos Direitos Humanos igualmente vem perdendo o seu lugar nessa nova forma de sociedade, calculadamente fria e esquisita.
Grande parte das pessoas, hoje, sucumbiu à sedução do consumo, e trocou sua alma pela exibição do seu ego. Muitos não estão nos espaços midiáticos da web porque fizeram alguma coisa de proveito no mundo, mas porque desejam promover as suas fantasias.
Assusta observar, por outro lado, que o homem perdeu a sua condição de reagir, de se indignar, de denunciar os desmandos da classe política, e de ocupar as ruas e as praças para reivindicar os seus direitos.
Os que se julgam acima do bem e da verdade, decretaram a morte dos princípios, como se fosse possível convencer os semelhantes com o barulho de suas teses enfadonhas.
A completa conivência de muitos chefes de Estado, e assim também do último governo do Brasil, para com a mentira e a falsificação da verdade, e para com aqueles que já estão cansados de mandar, tais os exemplos de Fernando Color, Renan Calheiros e José Sarney, são situações que estão, por outro lado, a desafiar a paciência das pessoas.
No caso específico do Brasil, a busca da justiça social e o resgate da política enquanto vocação parece que não são, decididamente, valores que agradam aos integrantes da classe dirigente.
E o povo, sempre alimentado de muitas ilusões, se acostumou demais com a mentira e com as esmolas que lhe são destinadas pelas autoridades que estão de plantão, e não desconfia sequer das intenções dos que estão no centro do poder.
Parece ser mesmo doloroso, para os homens de boa vontade, e para os que lutam pela ética e a dignidade, assistir a ascensão de pessoas despreparadas e gananciosas para a representação parlamentar, e para os postos de comando da máquina do Estado.
A política não constitui um fim, e o exercício da política, como sabemos, é uma vocação. Não é um patrimônio que se transmite por herança para os apaniguados do poder. A política é uma missão e exige de quem a ela se entrega um compromisso integral e efetivo para com as exigências da vida coletiva.
No Brasil, infelizmente, a maioria dos políticos ainda não despertou para a grave questão do ambiente e o povo ainda não se sente motivado para os desafios da educação ambiental, o que é lamentável, e a consequência de tudo será a transmissão, para as gerações futuras, dessa conduta irresponsável.
Essa perversão em que a hegemonia da política foi transformada, é a causa da violência social e da violência simbólica que nos cercam; é a causa da proliferação das drogas e das deformações que atacam as novas gerações, e entorpecem a mente dos que gravitam ao redor da máquina do poder.
Parece mesmo que existe uma desordem no cosmos, causada pela perversão em que se transformou a política, pois a sinfonia planetária, que há séculos encantava a audiência humana, hoje se encontra ameaçada. Empresários inescrupulosos e políticos de visão mesquinha têm feito da ganância e da especulação instrumentos de violação da paz e do equilíbrio da vida em sociedade.
O meio ambiente vem perdendo a sua qualidade. Agredido pela insensatez e a irresponsabilidade de muitos, agoniza qual um animal sangrado, e pede clemência para a tragédia da degradação ambiental e cosmológica.
Depois que o homem decretou a morte de Deus e do sagrado, parece mesmo que tudo se tornou possível, cumprindo-se assim a profecia do grande romancista russo Fiódor Dostoiévski.
A degradação ambiental, que hoje se espalha pelo mundo, tem recebido respostas muito convincentes da própria natureza, que aqui e ali vai se defendendo como pode, através de vulcões e terremotos, degelo das calotas polares, tsunamis marinhos e aquecimento de todas as regiões do planeta.
O ser humano, contudo, não recua e a sociedade de consumo vai achando normal a circunstância de conviver com o lixo e com as embalagens nunca recicláveis das mercadoras que consome, rejeitando o ciclo natural do ambiente à sua volta e substituindo-o pelo consumo de mercadorias e serviços provenientes da indústria do tóxico.
O homem que consome, de forma obsessiva, o ópio do mercado, e que sonha com o desejo do lucro, e que apoia, a seu turno, a poluição da natureza, parece mesmo que decidiu morrer abraçado com a sua imperfeição e com a sua teimosia de viés egoísta. Parece que decidiu sufocar a natureza, almejando assim o seu poder absoluto sobre o cosmos.
É possível que a voz dos ambientalistas, e daqueles que defendem a natureza, continue clamando no deserto, mas aceitar as coisas de forma diferente, e não reagir contra o agravamento da crise ambiental, me parece o jeito mesquinho de estar no mundo e de aceitar a sua total degradação.
Assim sendo, urge que as pessoas de boa vontade continuem resistindo ao avanço do mal e ao poder de degradação do universo, resultado da teimosia dos que não acreditam no amor e na compreensão, que maltratam a sensibilidade e tudo corrompem em nome dos bens materiais e dos interesses políticos inconfessos.
Para além de tudo, no entanto, está a esperança, a dignidade dos que sonham com a vida, que replantam a semente do bem e a partilha da Paz e da Justiça, porque os frutos perenes do amor, a defesa da ética e o denodo dos que lutam pelas formas de afirmação do bem e da verdade são as nossas crenças e os nossos valores de maior valia.
(Dimas Macedo, Fortaleza, inverno de 2012)
quarta-feira, 23 de maio de 2012
FELICIDADE REALISTA!
A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar à luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.
Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.
Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável.
Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar. É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz mas sem exigir-se desumanamente.
A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva prêmio. Não sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo.
Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.
(Mário Quintana)
terça-feira, 22 de maio de 2012
POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL
Pavões também não se bicam
Na política brasileira acreditava-se – o que, aliás, se comprova quase todos os dias – que tucanos de plumas mais vistosas se bicam com gosto e frequência. Era, acreditava-se, uma característica apenas deles. Agora, descobre-se que os pavões partidários também não se bicam, embora suas "armas" sejam menores que a dos tucanos. Petistas de vários costados andam eriçados com certas ações da presidente Dilma, apenas ainda não botaram seus bicos para fora – é gente que se queixa de perda de espaço, de pouca atenção, de mudanças de política e até, agora, de ignorar os riscos de julgamento do mensalão. Menos discretos, dois coloridos (não são assim os pavões) peemedebistas, Nelson Jobim e Michel Temer, trocaram bicadas, aliás, flechadas mesmo, na semana passada, explicitando certo mal estar existente no partido que vende a imagem de estar unido em torno de seus líderes atuais. Se o PMDB não for muito bem nas eleições municipais, a disputa vai se acentuar. O ar político não está dos melhores para as aves partidárias.
O que a Petrobras não diz ao Brasil. Nem à Argentina (I)
Publicamente, o governo brasileiro e a Petrobras receberam com naturalidade a tomada pela Argentina da petroleira YPF das mãos da espanhola Repsol. O Brasil não viu ameaças aos negócios da nossa empresa estatal do setor por lá. Recebeu em Brasília o ministro argentino responsável pela área petrolífera e interventor na reestatizada YPF e até acenou, mesmo que apenas como uma cordialidade diplomática, com a possibilidade de a Petrobras fazer novos investimentos no país vizinho como deseja a presidente Cristina Kirchner. Ao mesmo tempo, apesar de desejos manifestados pelo ministro das Relações Exteriores da Espanha, que inclusive esteve em Brasília na semana passada, Dilma se recusou a condenar a posição adotada por sua colega argentina. Não aplaudiu abertamente, pela óbvia razão de não despertar desconfianças em investidores sobre o Brasil. O governo brasileiro aparentou total normalidade no caso. Para a Petrobras, dizia-se, nada muda.
O que a Petrobras não diz ao Brasil. Nem à Argentina (II)
Para o mundo real, no entanto, o conteúdo é outro. Em recente documento encaminhado à SEC, a Petrobras apresenta de outra forma a questão da YPF. Não a normalidade que passou para os brasileiros. Segundo relato das agências de Notícias Infolatam e Efe, a Petrobras informou aos americanos que é provável que o governo de Kirchner "siga intervindo" na indústria petroleira além do que já fez com a Repsol. Informa também que a intervenção na YPF pode ter "efeitos materiais adversos" sobre seus "próprios negócios, condição financeira e resultados operacionais". Diz ainda que "as permissões e concessões de exploração de petróleo e gás na Argentina estão sujeitas a condições e podem não ser renovadas ou ser revogadas". A CVM foi comunicada oficialmente dessas preocupações? Os investidores brasileiros sabem dela? O governo Kirchner, com quem Dilma quer manter uma vida serena, sabe dessas desconfianças brasileiras?
O pior dos mundos?
O governo Dilma testa uma "nova" política econômica, na qual o tripé usado nos últimos anos do governo FHC e na maior parte dos anos do governo Lula – meta de inflação, superávit primário robusto e câmbio flutuante – é relativizado e dá lugar a outras variáveis, como a do crescimento econômico vigoroso, com mais incentivo ao consumo interno num momento delicado. Os ventos do exterior sopram cada vez mais incertezas, para o lado negativo . E o mar interior não está nada róseo :
1. A inflação, discursos oficiais à parte, não dá sinais de arrefecer até agora, caminha para ficar mais para cima dos 5% do que para o perseguido centro de meta de 4,5%.
2. O crescimento da economia está lento e a recuperação do ritmo, esperada para o segundo trimestre foi adiada nas expectativas gerais, para o segundo semestre. Sem milagres, se o PIB ficar um pouco acima dos 2,7% do ano passado, em torno de 3% já será considerado excelente.
3. O forte crescimento da arrecadação tributária prevista inicialmente no Orçamento, uma das bases para, ao mesmo tempo, manter-se os gastos públicos, custeio e investimento, em níveis mais elevados que no ano passado e a meta de superávit primário de 3,1% do PIB, já está se frustrando. O Ministério do Planejamento, no relatório de avaliação fiscal do bimestre março/abril, reavaliou a previsão de receita em menos R$ 10 bilhões.
4. Os investimentos, tanto os privados quanto os públicos, estão em câmara lenta. Segundo as estimativas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, as inversões particulares no Brasil (medidas pela formação bruta de capital fixo, sigla FBKF) encolheram 2,5% em relação aos três meses anteriores. Do lado oficial, os investimentos tiveram uma queda de 5,5% nos primeiros quatro meses de 2012 em relação ao mesmo período do ano passado.
Nessa situação, haja discurso otimista do ministro Guido Mantega, que espalha sua confiança dia sim outro também, e de seus auxiliares. Ontem mesmo, Mantega deitava esta pregação no "Valor Econômico" e o secretário da Política Econômica do Ministério da Fazenda espargia a mesma lenga lenga no "Brasil Econômico". Como Dilma não quer ver a economia patinando, o governo começou a atacar ontem, com corte no IPI dos carros e outros incentivos ao consumo. Reprises de um filme - o crescimento pelo consumo - esgotado no momento, segundo muitos analistas.
Mais uma jabuticaba?
Mesmo com o gosto pela cor rósea, o governo já admite internamente que o PIB deste ano não será o dos sonhos da presidente Dilma. O ministro Guido Mantega deu a senha em entrevista ao "Estadão" ao admitir que partir de um patamar de 2,7% (o PIB de 2011) não é todo ruim. Mas não dá o braço totalmente a torcer e, como os meteorologistas costumam falar em "sensação térmica" quando o frio que as pessoas sentem parece maior do que aquele que os termômetros marcam, imagina que chegaremos ao fim do ano com uma sensação de PIB de 4,5% a 5%. Mais uma genuína contribuição brasileira para o vocabulário econômico.
O BC e suas circunstâncias
É diante desse quadro que o BC não terá outra circunstância do que continuar a queda, em ritmo acelerado da taxa de juros. Para a maioria dos analistas, o piso do fim do ano da Selic não será mais 8%, mas 7,5%.
A volta de uma expressão
Se a cabriolé da economia não mudar de ritmo como Dilma quer e Mantega assegura que ocorrerá e a situação europeia se deteriorar ainda mais como muitos parecem acreditar, não será surpresa que uma expressão em voga no Brasil depois que FHC deixou o governo, a tal "herança maldita", volte ao proscênio no linguajar oficial. Mesmo que discretamente sussurrado e endereçado não mais ao seu primeiro destinatário.
Silêncio constrangedor
Mesmo diante desse quadro, a oposição não tem o que dizer. Nem para uma condenável crítica aberta, puramente oportunista, muito menos com propostas concretas para políticas diferentes das que estão em jogo. O silêncio ecoa diante dos eleitores mais atentos e mais informados. Quando alguém ousa sair do óbvio, como recentemente o senador Aécio Neves em Recife, falando em uma "agenda para o Brasil da oposição para os próximos 20 anos", não explicita suas ideias. Governo politicamente balofo e oposição raquítica de nomes e ideias: eis os males do Brasil neste momento.
Enquanto isso, na Europa...
A cada semana que passa os sinais mostram que os líderes europeus não estão habilitados a lidar com a imensa crise do Velho Continente. O desemprego grassa por todos os países e a receita germânica de austeridade dá provas inequívocas de sua incompatibilidade com a realidade financeira dos países meridionais da Europa. A Espanha está à beira de um colapso de seu setor financeiro, a França apresenta sinais de acentuação da crise de emprego e a Itália se sustenta enfrentando a cada leilão de títulos públicos maiores custos e menor liquidez. A Grécia provavelmente sairá do euro e restará mais incerteza e sofrimento. Não vale apostar numa estabilização das economias europeias caso as medidas e políticas continuem dentro do padrão atual.
Commodities em queda
Desde o começo do mês as perdas dos mercados acionários foram de mais de US$ 4 trilhões. A instabilidade europeia está diretamente ligada a este resultado. Os preços das commodities persistem caindo, no rastro de uma substancial desmobilização de ativos por parte dos especulativos fundos hedge. Na semana passada, completou-se o período de três semanas seguidas de queda nos principais índices de commodities. Grande parte do segmento de metais está caindo, bem como as commodities agrícolas, especialmente o suco de laranja. Para o Brasil, este cenário é, ao mesmo tempo, deflacionário e redutor da atividade econômica. Note-se que a China pode ter um crescimento ainda menor que os 6% inicialmente imaginado considerando-se este cenário. Neste sentido, as exportações brasileiras devem sofrer muito mais que outros países, dado que a pauta de comércio exterior está muito mais dependente do desempenho das commodities que nos anos 80 e 90 do século passado.
JP Morgan: mais um sinal dos tempos
A perda de US$ 2 bilhões em operações de tesouraria com derivativos do banco americano não deve ser considerado como uma "exceção" na indústria financeira internacional. Muitos bancos podem não ter registrado perdas gigantescas como esta, mas o potencial de perdas é enorme. Infelizmente, desde a crise de 2008, os órgãos reguladores das principais economias não foram capazes de impor legislações mais rigorosas para que se evite este tipo de perdas. Os lobbies da área financeira são poderosos e paralisaram a onda reformista que parecia estar surgindo ao final de 2008. O que se vê é um elevado nível de complacência regulatória que enfraquece o sistema financeiro e a economia mundial. Os políticos permanecem captando recursos para as suas campanhas eleitorais no rico mundo financeiro. Sobretudo nos EUA. Especialmente, no caso do ex-reformista Barack Obama.
Direto para o forno de pizza
Ou alguns políticos mais audazes e menos comprometidos entram no jogo ou a CPI Cachoeira-Delta vai morrer lentamente nas mãos de pizzaiolos de diversas colorações partidárias. A oposição discursa e faz corpo mole. E os situacionistas ficam definidos no torpedo "nós somos teu" dirigido pelo deputado petista de SP e ex-líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, ao encapuzado (ou melhor, "enguardanapado") governo do RJ, Sérgio Cabral. O lado mais raivoso do situacionismo tinha como foco na CPI o procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, parte da imprensa, em especial a "Veja" e a oposição. Agora, o foco (ou a falta de foco) é evitar que a CPI vá mais fundo nas investigações. Para Dilma é um alívio que os aliados tenham tomado juízo, pois chegar fundo na Delta e em Cachoeira paralisa o Congresso e pode parar centenas de obras federais Brasil afora.
Salvando os bancos públicos?
A intenção, anunciada na imprensa e não desmentida oficialmente, de transferir créditos atrasados (também conhecidos como créditos podres) da CEF para a Empresa de Gestão de Ativos do Ministério da Fazenda, e que pode ser estendida a outros bancos oficiais, BB e que tais, tem cheiro de limpeza dos balanços dessas instituições, depois que elas foram forçadas a ser generosas nos juros e nos empréstimos ao público. Salvamento disfarçado em operação técnica. Há indícios de que o balanço da Caixa mostrará que todo o lucro dela decorre da remuneração dos serviços prestados ao governo, como um dos agentes financeiros oficiais. As operações com o público estariam no vermelho e com um azul bem tisnado.
Rir para não chorar
Como não tem infraestrutura viária (nem hoteleira, diga-se) para atender as necessidades de circulação de visitantes da cidade na Rio + 20, o governo carioca de Eduardo Paes, de comum acordo com o governo estadual e Brasília, declarou oficial feriado local nos dias da reunião de cúpula da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, 20, 21 e 22 de junho, um feriadão que vai de quarta-feira até domingo. E, como o ritmo dos preparativos para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 está de lento a quase parando, já se prevê que feriados idênticos poderão ser decretados por ocasião de algumas das competições desses grandes eventos. Pela Copa, ainda, o calendário escolar deverá mudar no país inteiro e as cidades-sedes deverão ter feriados nos dias dos jogos para facilitar o trânsito. A possibilidade é tanta que o humor carioca já está sugerindo até que se enforque de uma vez também o ano de 2015, exprimido que ficará entre duas memoráveis festas.
E a Igreja Católica ainda não sabe o porquê
Atrelada a exigências e comportamentos um tanto antiquados, alguns até mediáveis, a Igreja Romana mostra as estatísticas : vem perdendo fiéis para outras denominações religiosas, especialmente os neopentecostais. Estas andam muito mais afinadas com o "novo mundo". Em São Paulo, por exemplo, a Igreja Universal tem pelo menos um templo em que há um "drive thru de oração". Outro, tem uma espécie de "terceirização" também das orações: o fiel encontra um caixinha onde deixa o pedido de uma reza, sua contribuição pecuniária e alguém de direito ora por ele. Não há conhecimento ainda se a Universal aceita orações pela Internet ou tem delivery para esse serviço.
(Por José Márcio Mendonça e Francisco Petros)
Na política brasileira acreditava-se – o que, aliás, se comprova quase todos os dias – que tucanos de plumas mais vistosas se bicam com gosto e frequência. Era, acreditava-se, uma característica apenas deles. Agora, descobre-se que os pavões partidários também não se bicam, embora suas "armas" sejam menores que a dos tucanos. Petistas de vários costados andam eriçados com certas ações da presidente Dilma, apenas ainda não botaram seus bicos para fora – é gente que se queixa de perda de espaço, de pouca atenção, de mudanças de política e até, agora, de ignorar os riscos de julgamento do mensalão. Menos discretos, dois coloridos (não são assim os pavões) peemedebistas, Nelson Jobim e Michel Temer, trocaram bicadas, aliás, flechadas mesmo, na semana passada, explicitando certo mal estar existente no partido que vende a imagem de estar unido em torno de seus líderes atuais. Se o PMDB não for muito bem nas eleições municipais, a disputa vai se acentuar. O ar político não está dos melhores para as aves partidárias.
O que a Petrobras não diz ao Brasil. Nem à Argentina (I)
Publicamente, o governo brasileiro e a Petrobras receberam com naturalidade a tomada pela Argentina da petroleira YPF das mãos da espanhola Repsol. O Brasil não viu ameaças aos negócios da nossa empresa estatal do setor por lá. Recebeu em Brasília o ministro argentino responsável pela área petrolífera e interventor na reestatizada YPF e até acenou, mesmo que apenas como uma cordialidade diplomática, com a possibilidade de a Petrobras fazer novos investimentos no país vizinho como deseja a presidente Cristina Kirchner. Ao mesmo tempo, apesar de desejos manifestados pelo ministro das Relações Exteriores da Espanha, que inclusive esteve em Brasília na semana passada, Dilma se recusou a condenar a posição adotada por sua colega argentina. Não aplaudiu abertamente, pela óbvia razão de não despertar desconfianças em investidores sobre o Brasil. O governo brasileiro aparentou total normalidade no caso. Para a Petrobras, dizia-se, nada muda.
O que a Petrobras não diz ao Brasil. Nem à Argentina (II)
Para o mundo real, no entanto, o conteúdo é outro. Em recente documento encaminhado à SEC, a Petrobras apresenta de outra forma a questão da YPF. Não a normalidade que passou para os brasileiros. Segundo relato das agências de Notícias Infolatam e Efe, a Petrobras informou aos americanos que é provável que o governo de Kirchner "siga intervindo" na indústria petroleira além do que já fez com a Repsol. Informa também que a intervenção na YPF pode ter "efeitos materiais adversos" sobre seus "próprios negócios, condição financeira e resultados operacionais". Diz ainda que "as permissões e concessões de exploração de petróleo e gás na Argentina estão sujeitas a condições e podem não ser renovadas ou ser revogadas". A CVM foi comunicada oficialmente dessas preocupações? Os investidores brasileiros sabem dela? O governo Kirchner, com quem Dilma quer manter uma vida serena, sabe dessas desconfianças brasileiras?
O pior dos mundos?
O governo Dilma testa uma "nova" política econômica, na qual o tripé usado nos últimos anos do governo FHC e na maior parte dos anos do governo Lula – meta de inflação, superávit primário robusto e câmbio flutuante – é relativizado e dá lugar a outras variáveis, como a do crescimento econômico vigoroso, com mais incentivo ao consumo interno num momento delicado. Os ventos do exterior sopram cada vez mais incertezas, para o lado negativo . E o mar interior não está nada róseo :
1. A inflação, discursos oficiais à parte, não dá sinais de arrefecer até agora, caminha para ficar mais para cima dos 5% do que para o perseguido centro de meta de 4,5%.
2. O crescimento da economia está lento e a recuperação do ritmo, esperada para o segundo trimestre foi adiada nas expectativas gerais, para o segundo semestre. Sem milagres, se o PIB ficar um pouco acima dos 2,7% do ano passado, em torno de 3% já será considerado excelente.
3. O forte crescimento da arrecadação tributária prevista inicialmente no Orçamento, uma das bases para, ao mesmo tempo, manter-se os gastos públicos, custeio e investimento, em níveis mais elevados que no ano passado e a meta de superávit primário de 3,1% do PIB, já está se frustrando. O Ministério do Planejamento, no relatório de avaliação fiscal do bimestre março/abril, reavaliou a previsão de receita em menos R$ 10 bilhões.
4. Os investimentos, tanto os privados quanto os públicos, estão em câmara lenta. Segundo as estimativas do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, as inversões particulares no Brasil (medidas pela formação bruta de capital fixo, sigla FBKF) encolheram 2,5% em relação aos três meses anteriores. Do lado oficial, os investimentos tiveram uma queda de 5,5% nos primeiros quatro meses de 2012 em relação ao mesmo período do ano passado.
Nessa situação, haja discurso otimista do ministro Guido Mantega, que espalha sua confiança dia sim outro também, e de seus auxiliares. Ontem mesmo, Mantega deitava esta pregação no "Valor Econômico" e o secretário da Política Econômica do Ministério da Fazenda espargia a mesma lenga lenga no "Brasil Econômico". Como Dilma não quer ver a economia patinando, o governo começou a atacar ontem, com corte no IPI dos carros e outros incentivos ao consumo. Reprises de um filme - o crescimento pelo consumo - esgotado no momento, segundo muitos analistas.
Mais uma jabuticaba?
Mesmo com o gosto pela cor rósea, o governo já admite internamente que o PIB deste ano não será o dos sonhos da presidente Dilma. O ministro Guido Mantega deu a senha em entrevista ao "Estadão" ao admitir que partir de um patamar de 2,7% (o PIB de 2011) não é todo ruim. Mas não dá o braço totalmente a torcer e, como os meteorologistas costumam falar em "sensação térmica" quando o frio que as pessoas sentem parece maior do que aquele que os termômetros marcam, imagina que chegaremos ao fim do ano com uma sensação de PIB de 4,5% a 5%. Mais uma genuína contribuição brasileira para o vocabulário econômico.
O BC e suas circunstâncias
É diante desse quadro que o BC não terá outra circunstância do que continuar a queda, em ritmo acelerado da taxa de juros. Para a maioria dos analistas, o piso do fim do ano da Selic não será mais 8%, mas 7,5%.
A volta de uma expressão
Se a cabriolé da economia não mudar de ritmo como Dilma quer e Mantega assegura que ocorrerá e a situação europeia se deteriorar ainda mais como muitos parecem acreditar, não será surpresa que uma expressão em voga no Brasil depois que FHC deixou o governo, a tal "herança maldita", volte ao proscênio no linguajar oficial. Mesmo que discretamente sussurrado e endereçado não mais ao seu primeiro destinatário.
Silêncio constrangedor
Mesmo diante desse quadro, a oposição não tem o que dizer. Nem para uma condenável crítica aberta, puramente oportunista, muito menos com propostas concretas para políticas diferentes das que estão em jogo. O silêncio ecoa diante dos eleitores mais atentos e mais informados. Quando alguém ousa sair do óbvio, como recentemente o senador Aécio Neves em Recife, falando em uma "agenda para o Brasil da oposição para os próximos 20 anos", não explicita suas ideias. Governo politicamente balofo e oposição raquítica de nomes e ideias: eis os males do Brasil neste momento.
Enquanto isso, na Europa...
A cada semana que passa os sinais mostram que os líderes europeus não estão habilitados a lidar com a imensa crise do Velho Continente. O desemprego grassa por todos os países e a receita germânica de austeridade dá provas inequívocas de sua incompatibilidade com a realidade financeira dos países meridionais da Europa. A Espanha está à beira de um colapso de seu setor financeiro, a França apresenta sinais de acentuação da crise de emprego e a Itália se sustenta enfrentando a cada leilão de títulos públicos maiores custos e menor liquidez. A Grécia provavelmente sairá do euro e restará mais incerteza e sofrimento. Não vale apostar numa estabilização das economias europeias caso as medidas e políticas continuem dentro do padrão atual.
Commodities em queda
Desde o começo do mês as perdas dos mercados acionários foram de mais de US$ 4 trilhões. A instabilidade europeia está diretamente ligada a este resultado. Os preços das commodities persistem caindo, no rastro de uma substancial desmobilização de ativos por parte dos especulativos fundos hedge. Na semana passada, completou-se o período de três semanas seguidas de queda nos principais índices de commodities. Grande parte do segmento de metais está caindo, bem como as commodities agrícolas, especialmente o suco de laranja. Para o Brasil, este cenário é, ao mesmo tempo, deflacionário e redutor da atividade econômica. Note-se que a China pode ter um crescimento ainda menor que os 6% inicialmente imaginado considerando-se este cenário. Neste sentido, as exportações brasileiras devem sofrer muito mais que outros países, dado que a pauta de comércio exterior está muito mais dependente do desempenho das commodities que nos anos 80 e 90 do século passado.
JP Morgan: mais um sinal dos tempos
A perda de US$ 2 bilhões em operações de tesouraria com derivativos do banco americano não deve ser considerado como uma "exceção" na indústria financeira internacional. Muitos bancos podem não ter registrado perdas gigantescas como esta, mas o potencial de perdas é enorme. Infelizmente, desde a crise de 2008, os órgãos reguladores das principais economias não foram capazes de impor legislações mais rigorosas para que se evite este tipo de perdas. Os lobbies da área financeira são poderosos e paralisaram a onda reformista que parecia estar surgindo ao final de 2008. O que se vê é um elevado nível de complacência regulatória que enfraquece o sistema financeiro e a economia mundial. Os políticos permanecem captando recursos para as suas campanhas eleitorais no rico mundo financeiro. Sobretudo nos EUA. Especialmente, no caso do ex-reformista Barack Obama.
Direto para o forno de pizza
Ou alguns políticos mais audazes e menos comprometidos entram no jogo ou a CPI Cachoeira-Delta vai morrer lentamente nas mãos de pizzaiolos de diversas colorações partidárias. A oposição discursa e faz corpo mole. E os situacionistas ficam definidos no torpedo "nós somos teu" dirigido pelo deputado petista de SP e ex-líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza, ao encapuzado (ou melhor, "enguardanapado") governo do RJ, Sérgio Cabral. O lado mais raivoso do situacionismo tinha como foco na CPI o procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, parte da imprensa, em especial a "Veja" e a oposição. Agora, o foco (ou a falta de foco) é evitar que a CPI vá mais fundo nas investigações. Para Dilma é um alívio que os aliados tenham tomado juízo, pois chegar fundo na Delta e em Cachoeira paralisa o Congresso e pode parar centenas de obras federais Brasil afora.
Salvando os bancos públicos?
A intenção, anunciada na imprensa e não desmentida oficialmente, de transferir créditos atrasados (também conhecidos como créditos podres) da CEF para a Empresa de Gestão de Ativos do Ministério da Fazenda, e que pode ser estendida a outros bancos oficiais, BB e que tais, tem cheiro de limpeza dos balanços dessas instituições, depois que elas foram forçadas a ser generosas nos juros e nos empréstimos ao público. Salvamento disfarçado em operação técnica. Há indícios de que o balanço da Caixa mostrará que todo o lucro dela decorre da remuneração dos serviços prestados ao governo, como um dos agentes financeiros oficiais. As operações com o público estariam no vermelho e com um azul bem tisnado.
Rir para não chorar
Como não tem infraestrutura viária (nem hoteleira, diga-se) para atender as necessidades de circulação de visitantes da cidade na Rio + 20, o governo carioca de Eduardo Paes, de comum acordo com o governo estadual e Brasília, declarou oficial feriado local nos dias da reunião de cúpula da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, 20, 21 e 22 de junho, um feriadão que vai de quarta-feira até domingo. E, como o ritmo dos preparativos para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 está de lento a quase parando, já se prevê que feriados idênticos poderão ser decretados por ocasião de algumas das competições desses grandes eventos. Pela Copa, ainda, o calendário escolar deverá mudar no país inteiro e as cidades-sedes deverão ter feriados nos dias dos jogos para facilitar o trânsito. A possibilidade é tanta que o humor carioca já está sugerindo até que se enforque de uma vez também o ano de 2015, exprimido que ficará entre duas memoráveis festas.
E a Igreja Católica ainda não sabe o porquê
Atrelada a exigências e comportamentos um tanto antiquados, alguns até mediáveis, a Igreja Romana mostra as estatísticas : vem perdendo fiéis para outras denominações religiosas, especialmente os neopentecostais. Estas andam muito mais afinadas com o "novo mundo". Em São Paulo, por exemplo, a Igreja Universal tem pelo menos um templo em que há um "drive thru de oração". Outro, tem uma espécie de "terceirização" também das orações: o fiel encontra um caixinha onde deixa o pedido de uma reza, sua contribuição pecuniária e alguém de direito ora por ele. Não há conhecimento ainda se a Universal aceita orações pela Internet ou tem delivery para esse serviço.
(Por José Márcio Mendonça e Francisco Petros)
segunda-feira, 21 de maio de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
ANIVERSÁRIO
Sempre quando celebro o dia em que nasci, lembro dessa poesia que escrevi faz trinta anos.
******************************************************************************************
Que poderia eu dizer-te
Pelo aniversário, pela minha vida?
Só posso te dizer o que é possível
Dizer uma pessoa que ama
Com amor
O que não é amável!
Tenho apenas aquilo que é tudo:
O sorriso de infância, a alegria permanente!
E a alegria te envio
Como uma carta transparente.
Eu sou, camponesa, o errante menino
Que não se banha com lágrimas
Nem experimenta roupas de tristeza.
Ando somente com uma luz suave
E tudo aquilo que me toca
Sente o poder da amizade.
Agradam-me os violões
E as músicas que lhes saltam.
Admiro os pássaros... e quando saio voando
Tenho o coração mais vasto que o horizonte azul,
E o Sol luminoso a cada dia de Paz
Afasta de mim as dores e cicatrizes.
Para esta aventura te convoco, amiga,
Como uma abelha que convida outra abelha
Para conhecer a Árvore de Mel.
Quero que a partir de agora passes
A pertencer ao que é fecundo e germinal:
À vontade de nascer – das sementes
À teoria silenciosa – das noites
À fúria juvenil – dos ventos
À claridade derramada – das manhãs
À floração colorida – das primaveras!
Sou apenas aquilo que não sou
E por isso te desejo que sejas
Aquilo que hoje tu não és!
(Júnior Bonfim, em "Poesias Adolescentes e Maduras")
sábado, 19 de maio de 2012
HOJE É O DIA DE SANTO IVO - O PADROEIRO DOS ADVOGADOS
No atual cenário conturbado que vive o mundo, mergulhado num ambiente crepuscular de guerras de cunho religioso e/ou político-econômico, ataques terroristas, e crise sem precedentes de valores morais, éticos e humanitários, as religiões exsurgem como verdadeiros últimos bastiões de esperança para a população, apesar de muitas vezes serem acusadas de "ópio do povo", instrumento de manipulação das massas, "muletas", etc.
Diante disso, pareceu-me oportuno escrever sobre Santo Ivo.
Num Estado laico e no qual a liberdade de culto religioso é garantia constitucional prevista no artigo 5º, VI, da Carta Magna vigente, sei que determinadas pessoas - inclusive vários advogados - não crêem em Santos, enquanto outras não professam qualquer sorte de fé. Portanto, o presente estudo não almeja ser laudatório nem peça de divergência ou querela religiosa entre as comunidades católicas, espíritas, judaicas, umbandistas, evangélicas, adventistas, presbiterianas, luteranas (e demais ramos protestantes), budistas, agnósticas e atéias nacionais.
Destarte, visa, pois este artigo apenas proceder a uma abordagem perfunctória da figura histórica daquele que é tido como o Santo patrono dos causídicos.
QUEM FOI SANTO IVO?
Todos os anos, no dia 19 de maio se comemora o Dia de Santo Ivo(1), o Santo padroeiro dos advogados.
Yves Hélory (Helori ou Heloury) era filho de Helori, lorde de Kermartin e Azo du Kenquis. Nasceu nas proximidades de Treguier, na Baixa Bretanha, conhecida região da França, no dia 17 de outubro de 1253. Era, pois de família da pequena nobreza e recebera apurada educação, humana e cristã. Sua mãe, dizia-lhe:
"Meu filho, procura viver sempre de tal maneira, que venhas a ser um santo".
Após a conclusão dos primeiros estudos em sua terra natal, sob a orientação de um jovem sacerdote, Ivo foi enviado em 1267, a tenra idade de 14 anos, à já prestigiada Universidade de Paris, onde estudou Artes Liberais e Teologia. Dentre os seus mestres estava o Doutor Angélico, o prodigioso Santo Tomás de Aquino. Ivo também presenciou conferências do grande São Boaventura, dele aprendendo o espírito franciscano. Posteriormente, o futuro santo foi para Orléans em 1277, onde se especializou em Direito Civil e Direito Canônico. Depois de anos de estudos, durante os quais brilhou entre seus colegas, voltou para Bretanha.
Em 1280, convidado a ser o conselheiro jurídico e juiz eclesiástico, trabalhou primeiramente como juiz episcopal na arquidiocese de Rennes, cidade capital do Ducado da Bretanha, por quatro anos, e depois em Tréguier. Competia-lhe julgar todo tipo de litígios, processos matrimoniais, de contratos e heranças, salvo os processos criminais. Em 1824, seu Bispo o convenceu de receber a Ordenação Sacerdotal, permitindo-lhe manifestar seus dotes de pregador e de reitor de igreja.
Concomitantemente funcionando como sacerdote, advogado e juiz (o que era possível naqueles tempos em virtude de não vigorar a atual estrita distinção funcional) Ivo multiplicava suas atividades, semeando sua fama, por toda a Bretanha, com um contingente crescente de pessoas que se socorriam a ele. Até milagres já eram atribuídos a ele em vida.
Em suma, a defesa intransigente dos injustiçados e dos necessitados deu a Ivo o título de "advogado dos pobres", título esse que continuou merecedor ao se tornar sacerdote, e ao construir um hospital, onde cuidava dos enfermos com suas próprias mãos. Eis outra faceta de Ivo: Frade Franciscano.
Alimentando-se apenas de pão e água, passando a noite em vigília de estudo e oração, não deixava, todavia de percorrer longos caminhos, para encontrar os que dele precisavam. Pregando, orientando, consolando, escutando, reconciliando, decidindo, distribuindo seu dinheiro aos pobres, atendendo os doentes, erigindo uma casa para abrigar os abandonados, levando à sepultura os mortos, Ivo conseguia a admiração, apreço e respeito dos seus contemporâneos.
Ivo de Kemartin morreu de causas naturais na França em 19 de maio de 1303, aos 50 anos de idade. Seu corpo foi sepultado na Catedral de Tréguier, onde é objeto de devoção do fiéis até hoje. A pedido de Bispos e autoridades civis e após minudente processo de investigação, o primeiro desse estilo e nessa seara, o Papa Clemente VI, com a solene Bula de 19 de maio de 1347, assinada em Avignon, proclamava Ivo inscrito no Catálogo dos Santos e Confessores, devendo ser venerado como Santo da Igreja Católica Apostólica Romana anualmente no dia 19 de maio.
HISTÓRIAS E LENDAS
Numa de suas famosas defesas que entraram para a História, Santo Ivo logrou inocentar da prisão uma pobre e ingênua mulher, quando faltava tão-somente o veredicto final. Ela teria sido vítima de dois farsantes que haviam entregue à ela uma mala com ouro e dinheiro, para que a guardasse e somente a entregasse na presença dos dois. Decorridos alguns dias, os ladrões prosseguiram com o pérfido plano: o primeiro conseguiu que a mulher lhe entregasse a mala e o segundo a levou ao Tribunal, acusando-a de roubo. Sensibilizado, Santo Ivo foi ao Tribunal e asseverou que a mulher sabia onde se encontrava a mala e estava disposta a exibi-la. Pediram aí que ela a mostrasse. Santo Ivo acresceu: "Uma vez que a acusada somente pode devolver a mala na presença dos dois interessados, fica o demandante obrigado a apresentar o seu companheiro neste tribunal..."
Nessa esteira, reza a lenda que um pobre, não possuindo dinheiro para comprar comida, aproximava-se diariamente, na hora do almoço, da janela da cozinha de um restaurante e, com o saboroso odor inalado, dava-se por satisfeito. Uma ocasião, o dono do restaurante o interpelou sobre o seu repetido e suspeito comportamento e, ouvindo a cândida explanação do miserável, exigiu dele pagamento como se ele tivesse de fato comido uma refeição. Santo Ivo assumiu a defesa do pobre e, no Tribunal, fez soar aos ouvidos do acusador as moedas que exigia, dizendo-lhe: "Considera-te pago com o som dessas moedas".
Há relatos também de que o próprio Santo Ivo em pessoa buscava nos castelos os cavalos e carneiros tirados dos pobres sob o alegado pretexto de impostos não pagos.
SANTO IVO E A DEFENSORIA PÚBLICA
A criação da "Instituição dos Advogados dos Pobres" foi de inspiração de Santo Ivo, máxime para atender causas dos pobres, viúvas, órfãos e menos afortunados de modo geral. Os motivos históricos e a identidade das funções constitucionais da Defensoria Pública com a "Instituição dos Advogados dos Pobres", fundada pelo aludido Santo, bem como a sua relevante contribuição para o exercício de uma cidadania plena, inspiraram, a escolha eletiva da data de seu falecimento para instituir as comemorações do "Dia do Defensor Público".
Nesse sentido, Magna Carta Brasileira de 1988, no artigo 134 e parágrafo único, tornou realidade, de certa forma, o sonho de Santo Ivo, ao instituir pioneiramente no mundo a Defensoria Pública.
ANEDOTA
Santo Ivo é igualmente alvo de uma célebre anedota jurídica.
Nesse diapasão, e como uma singela forma de homenagear a figura sempre atual do Barão de Itararé, o qual em 29 de janeiro de 2007 estaria completando 112 anos de vida, peço vênia para transcrever na íntegra um trecho extraído do livro "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé":
"Como entrou no Céu o primeiro advogado”.
Logo que Santo Ivo morreu, encaminhou-se ao Céu e bateu à porta, que São Pedro não se atreveu a abrir, subestimando as razões do bom santo. - Faço o que quiseres - repetia o porteiro do Céu -, mas não acho que deva permitir a entrada a um advogado, não só porque nem um tem assento entre os santos, mas também porque, muito ao contrário, juraria que se encontram no inferno todos os de tua profissão.
Santo Ivo não se desconcertou; antes, como bom advogado, teve tão convincentes razões para rebater as de São Pedro que este lhe permitiu finalmente entrar no Céu, mas com a condição de permanecer junto à porta.
O hóspede entrou calmamente, sentou-se no lugar indicado por São Pedro, que foi participar a Nosso Senhor o sucedido...
- Fizeste mal! Muito mal, Pedro! - respondeu Deus, quando acabou de escutá-lo. - Havia resolvido que nenhum advogado entraria no Céu, e tinha cá minhas razões para isso. Mas já que está, deixa ficar; sem embargo, não deixes que ele se misture com os outros santos, pois do contrário acabarão no Céu a paz e a boa harmonia. Não o deixes passar além da porta.
Aborrecido e cabisbaixo, voltou São Pedro aonde estava Santo Ivo e comunicou-lhe as ordens dadas pelo Senhor. O Santo advogado encolheu os ombros e, à guisa de passatempo, começou a entabular conversa com São Pedro.
- Que posto ocupas aqui no Céu?
- Não sabes? Sou o porteiro.
- Por quanto tempo?...
- Para todo o sempre.
- Deixa disso. Só se tiveres algum contrato firmado...
- Não há contrato nem coisa que o valha, e para dizer a verdade não há necessidade disso.
- Como assim? Então não estás vendo, grande ingênuo, que qualquer dia Deus pode ter a idéia de te destituir, sem mais nem menos, do cargo que com zelo vens desempenhando há tanto tempo, sem que possas fazer valer teus direitos?
São Pedro coçou a orelha, e, mais amofinado que antes, foi novamente falar com Deus.
- Vamos lá, que é que pensas?
- Preciso de um contrato em que se declare que sou o porteiro do Céu para todo o sempre. Até hoje temos deixado as coisas andar à vontade; mas se vos der na idéia, qualquer dia me destituís do cargo que com tanto zelo...
- Não te dizia eu? Tudo isso são trapaças daquele advogadozinho que tens na porta e que soube encher-te a cabeça.
E ajuntou depois, tomando uma resolução:
- Anda, Pedro, corre e manda-o entrar imediatamente, pois prefiro tê-lo perto de mim a vê-lo junto à porta.
Eis como entrou no Céu o primeiro advogado."
Essa mesma piada também pode ser contada de outra forma:
"Quando Ivo morreu, apresentou-se ele a São Pedro no mesmo instante em que o faziam também diversas monjas. Ao advogado, Pedro fez grandes festas e proporcionou uma vibrante recepção no Céu. As monjas foram também admitidas, mas sem muita festa. Quando elas perguntaram a Pedro o porquê de tal diferença, tiveram esta resposta: "Minhas irmãs: é porque monjas entram aqui diariamente; mas esse advogado é o primeiro que alcançou a entrada do Céu".
CONCLUSÃO
Patrono dos advogados, Santo Ivo dedicou sua vida e obra à defesa dos pobres, fracos e oprimidos, contra os ricos e poderosos, notabilizando-se, máxime, por colocar a sua erudição à defesa nos Tribunais, de toda a classe de desafortunados, ofertando seus emolumentos aos pobres para que fossem utilizados em sua defesa. Com sua sabedoria, imparcialidade e espírito conciliador desfazia as inimizades e conquistava o respeito até dos que perdiam a contenda judicial.
Como se vê, Santo Ivo arrebatou a estima e apreço de todos pela integridade e retidão de vida e pela imparcialidade de seus juízos.
Além de Santo padroeiro dos advogados, Santo Ivo é patrono das crianças abandonadas e da Bretanha.
Assim, na sociedade superficial, materialista e consumista que vivemos, onde as perspectivas de certos advogados no mercado de trabalho não é mais mudar o mundo (como sonhavam os jovens idealistas acadêmicos do passado, que atualmente parece cada vez mais distante e sem volta), mas sim as próprias contas bancárias, só nos resta ficar com algumas das sábias e dadivosas palavras de Santo Ivo, as quais nos ensinam, ainda hoje, a refletir sobre o real significado de "caritas" (termo em latim para caridade), compaixão e amor ao próximo:
"Jura-me que sua causa é justa e eu a defenderei gratuitamente".
Eis, um modelo exemplar e inspirador a ser seguido por nossos doutos juízes e advogados.
(Por Francisco Carlos Távora de Albuquerque Caixeta)
sexta-feira, 18 de maio de 2012
quarta-feira, 16 de maio de 2012
CONJUNTURA NACIONAL
A circulação do dinheiro
Numa pequena cidade, os habitantes endividados passam um momento vivendo às custas de crédito. A sorte chega com um gringo. Que procura o único hotel. O gringo saca uma nota de R$ 100,00, deposita-a no balcão e pede para ver um quarto. Enquanto o turista sobe ao quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$ 100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas ao açougueiro. O açougueiro pega a nota e vai até o criador de suínos a quem deve. Paga tudo. O criador, por sua vez, pega a nota e corre ao veterinário liquidar sua dívida. O veterinário, com a nota de R$ 100,00 em mãos, decide ir à zona pagar o que devia a uma prostituta. Expliquemos: em tempos de crise, a categoria trabalha a crédito. A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, onde levava os clientes. Ultimamente, deixara de pagar pelas acomodações. Liquida a conta de R$ 100,00. Nesse momento, o gringo chega novamente ao balcão, pede sua nota de R$ 100,00 de volta, agradece e diz que o hotel não correspondeu às suas expectativas. Sai do hotel e vai embora da cidade. Ninguém ganhou um vintém! Mas todos saldaram suas dívidas. E, assim, mais felizes, começam a ver o futuro com confiança! Moral da história: quando o dinheiro circula, não há crise! (Historinha de Luis Costa em Leia Comigo)
Tempos nublados
A definição para esses meados de maio pode ser esta: tempos nublados. Se a observação cai bem sob o aspecto do clima - entre 16ºC a 18ºC - e das nuvens plúmbeas fechando os céus do Sudeste e do Sul, também pode ser usada para definir a temperatura política. Vivemos tempos cinzentos. Não se tem clareza sobre o que poderá advir. Há uma CPI em pleno curso, que ainda não deixa ver limites e horizontes. Além de Demóstenes, alguns deputados, Cachoeira - de onde poderá fluir uma torrente de águas poluídas - a indagação persiste: os governadores Marconi Perillo (PSDB/GO), Agnelo Queiroz (PT/DF) e Sérgio Cabral (PMDB/RJ) serão chamados a depor? E os braços da Delta em Mato Grosso e outros Estados serão apertados pela CPI?
Grandes dúvidas
Os tempos nublados fazem emergir grandes dúvidas: afinal de contas, qual será o impacto das revelações e apurações da CPI das Águas Correntes sobre o processo eleitoral? E mais: que impacto - influência - poderá ter a CPI sobre o julgamento do mensalão? Os ministros do STF tenderiam a se sensibilizar com as ondas de indignação que se formam no seio da Opinião Pública, por ocasião das CPIs que ganham alta visibilidade na mídia? Algumas situações podem ser interpretadas. Este consultor oferece algumas pistas.
Aprender a suportar
"É preciso aprender a suportar o que não é possível evitar. Assim como a harmonia do mundo, nossa vida é composta de coisas contrárias, e de diversos tons, doces e ásperos, pontudas e chatas, moles e duras. Que poderia exprimir o músico que só gostasse de um tom ? É necessário que saiba utilizar a todos e misturá-los; do mesmo modo nos cabe fazer com os bens e os males que são inerentes à nossa vida. Nosso ser não subsiste sem essa mistura, em que cada parte é tão imprescindível quanto a outra...". (Montaigne)
O escudo do governo
Ponto um. A imagem da presidente Dilma tende a continuar imune aos abalos e impactos por eventos na frente política. Do alto de sua aprovação, não terá a imagem chamuscada. A população a distingue como governante preocupada em dar eficiência à máquina. Ademais, firmou o conceito de "faxineira ética". Ponto dois. É possível, isso sim, que a agenda do Executivo sofra atrasos em função da CPI ou por conta de desdobramentos nas relações com o Parlamento: liberação de recursos, etc. Ganha força, porém, a ideia de que não haverá veto da Câmara ao veto da presidente ao Código Florestal, se isso efetivamente ocorrer. O próprio PMDB estaria disposto a mudar seu posicionamento.
O escudo dos governadores
Como deixar de convocar um governador e convocar outro? Cristaliza-se a tendência de posição homogênea. Se um governador for convocado, outros também o serão. Ou seja, o pau que bate em Chico bate em Francisco. Nesse caso, até Cabral poderá ser convocado a depor, se Perillo e Agnelo entrarem no envelope da convocação. Mais uma projeção: os partidos que integram a Comissão tendem a absolver os comandantes dos Executivos estaduais.
O escudo do procurador
O procurador-geral, Roberto Gurgel, não deverá ser convocado. Depois do ímpeto inicial do PT, animado e liderando a ideia, constata-se certo arrefecimento. Não seria de bom tom. Ademais, a questão poderia bater no STF e esta Corte tende a abrigar o procurador sob seu escudo com o argumento de que as funções que lhe competem asseguram o direito de não dar depoimento à CPI. O mesmo argumento é usado para evitar a ida de sua mulher, Cláudia Sampaio, subprocuradora da República.
A gravidade do senador
"Apareça o pregador: se a natureza lhe deu uma voz rouquenha e feições estranhas, se o barbeiro não o barbeou direito, se além disso o acaso ainda o salpicou de manchas, por maiores que sejam as verdades que ele esteja pregando, eu aposto na perda da gravidade do nosso senador." (Blaise Pascal)
O escudo de Demóstenes
Quebrado. Eis como se apresenta o escudo do senador Demóstenes. E, por isso mesmo, estará sujeito às chuvas e trovoadas da CPI. Deverá ser arrastado pela correnteza que jorra das águas correntes da (o) Cachoeira. Mas o senador vai lutar até a última gota de sangue. Tem DNA de promotor. É perito na arte de acusar e, claro, de colocar curvas em quem o acusa. No mais, ver-se-á um denso acervo no entorno do Direito.
Amor próprio
Um maltrapilho dos arredores de Madrid pedia esmolas com grande dignidade. Um transeunte lhe disse: "Não tem vergonha de exercer essa infame atividade quando pode trabalhar?" - "Senhor, respondeu o mendigo, peço-lhe esmola e não conselhos"; e tendo dito isto, deu-lhe as costas, com toda a empáfia castelhana. Era um mendigo orgulhoso esse; pouca coisa bastava para ferir-lhe a vaidade. Por amor de si mesmo pedia esmola; e ainda por amor de si mesmo não permitia que lhe fizesse qualquer reprimenda. (Voltaire)
CPI no momento errado?
Dizem que a CPI nasceu sob a vontade do ex-presidente Lula. Que desejava dar uma sinuca de bico em Demóstenes e Marconi Perillo, mesmo sabendo que poderia sobrar veneno na água de Agnelo Queiroz. O fato é que as oposições, até então sem discurso e sem ação, ganharam um copo de vitamina com essa CPI. Se Perillo, do PSDB, está na dança, Agnelo, do PT, está no centro da roda. Ademais, essa CPI cria um clima de indignação que tende a fazer pressão indireta a favor de apurações de ilícitos em todos os campos. Nessa moldura, entra o mensalão. Que estará na pauta do STF logo mais. Não há como protelar a decisão de julgá-lo. O momento é propício. O clima ambiental sugere aperto de parafusos. Condenação a culpados. A impunidade gera revolta no meio da pirâmide.
Venda da Delta
Até agora é inexplicável a venda da empreiteira Delta ao grupo JBS. A empresa está sendo considerada inidônea. Como o governo dá cobertura - via BNDES - a esse empreendimento ? Um dos acionistas do JBS garantiu que a venda se fez com o endosso do governo. Mais um caso a entrar no rol das explicações.
A verdade da comissão
Nem bem foi instalada, a Comissão da Verdade já debate sobre as veredas a seguir. Um dos integrantes, o advogado José Carlos Dias afirma que a Comissão apurará questões de todos os lados. Outros integrantes defendem a tese de que o grupo vai apurar os desmandos e os crimes cometidos pela Ditadura Militar. O outro lado, alegam, foi assassinado. Já o Clube Naval vai formar uma Comissão Paralela da Verdade. Militares da reserva vão fazer algum barulho.
Acesso à informação
O Brasil dá, hoje, mais um passo no território da Cidadania. Começa a valer a lei de acesso à informação. A Constituição prevê que todos os cidadãos têm direito a receber dos órgãos públicos informações do seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade. A lei estabelece obrigações para os órgãos e entidades do poder público quanto à gestão da informação e define os tipos de informação que podem ser solicitadas. Uma das novidades é a obrigação de cada órgão da administração pública criar uma Comissão Mista de Reavaliação de Informações, responsável pela implementação da norma.
Maus modos
"É indecente expressar com intensidade as paixões que se originam de certa situação ou disposição do corpo, pois não se pode esperar que quem está conosco, não possuindo a mesma disposição, simpatize com elas. Fome intensa, por exemplo, embora em muitas ocasiões seja não apenas natural, mas inevitável, é sempre indecente; e comer vorazmente é universalmente visto como demonstração de maus modos." (Adam Smith)
Ficha Limpa no executivo
Mais um passo nas veredas da moralização. O executivo quer barrar na administração pública perfis maculados de sujeira. Nos próximos dias, deverá ser produzida a norma para cercear a inserção de pessoas sem ficha limpa nas malhas da administração. Tem lógica a decisão. Se uma pessoa nessas condições não pode ser candidata, da mesma forma deverá ser afastada da função de cuidar da res publica.
Tolerância zero: álcool
Deve-se mesmo acreditar na hipótese de que o Brasil começa a andar nos trilhos da racionalidade. A defesa da tese de que o cidadão tem liberdade para consumir doses de álcool, evitar o flagrante da embriaguez por meio da recusa do uso do bafômetro, não resistiu a uma audiência no STF, presidida pelo ministro Luiz Fux. Os depoimentos dos convidados fecharam com a posição: tolerância zero para consumidores de álcool que decidem dirigir veículos.
E Haddad, hein?
Entremos, mais uma vez, no túnel da campanha de São Paulo. Para uns, o túnel está ainda muito escuro, a essa altura. A escuridão não deixa ver se Fernando Haddad, candidato de Lula e do PT à prefeitura, chegará ao final da jornada eleitoral. O PT abriu, ontem, uma bateria de inserções publicitárias para alavancar o candidato. Somará 15 minutos nos próximos dias. Lula e Dilma aparecerão nos spots. Este consultor acredita que Fernando Haddad chegará aos 25 pontos percentuais, margem que lhe dá condições de entrar no segundo turno. Claro, seu adversário será José Serra. Que contará com o empuxo das máquinas estadual e municipal. Entre 0 a 10, Serra tem 8 pontos na chance de ser um dos disputantes do segundo turno.
Testando identidade e imagem
Candidato precisa ter forte identidade. Que significa seu conceito. O tronco da árvore. Que lembra semente, história de crescimento, tradição, valores, princípios, caráter. A imagem que projeta é resultante desta identidade. Tênue, a imagem será frágil. Forte, a imagem será clara, retilínea. Que imagens, eleitores, têm os candidatos a prefeito de sua cidade ? Vamos oferecer alguns parâmetros: experiência, conhecimento, força política, tradição partidária, inovação, compromisso com cidade, proximidade do eleitor, firmeza religiosa, apoio de entidades e grupos, arrojo, coragem, honestidade/desonestidade, moral/ética, assepsia, conservadorismo, ficha suja, infidelidade, oportunismo, populismo. Esse acervo serve para enquadrar um perfil.
Royalties, Dilma
A presidente Dilma foi vaiada e aplaudida, ontem, em Brasília, por prefeitos participantes da 15ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios. Que queriam cobrar sua posição sobre os royalties do petróleo. A presidente irritou-se com os gritos e mandou ver: "Vocês não vão gostar do que eu vou dizer. Não acreditem que vocês conseguirão resolver a distribuição de hoje para trás. Lutem pela distribuição de hoje para a frente". Encerrou o discurso abruptamente. Prefeitos se dividiam entre aplausos e vaias.
Trens para a Copa
A CAF Brasil, subsidiária da espanhola Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles, está na frente na disputa para execução da obra do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Cuiabá e Várzea Grande/MT visando a Copa do Mundo de 2014. A empresa é uma das integrantes do consórcio VLT Cuiabá, que apresentou o seu projeto ontem à Comissão de Licitação no valor de R$1,4 bilhão. A decisão sairá daqui a 10 dias.
Aécio apagado
Grande decepção. É assim que muitos enxergam a figura do senador Aécio Neves. Por onde se passa, ouve-se: trata-se de uma figura apagada. Sem brilho. Sem discurso. Uma estrela cadente. Este consultor acha que o senador está perdido no mar. Um naufrago à procura de uma tábua de salvação.
Um truque do Padre Vieira
O Padre Antônio Vieira, o célebre pregador, escritor, político e diplomata jesuíta, subindo certa vez ao púlpito, iniciou estranhamente o seu sermão exclamando:
- Maldito seja o Pai!... Maldito seja o Filho!... Maldito seja o Espírito Santo!...
E quando a assistência, horrorizada, pensava que o grande orador houvesse enlouquecido, ele tranquilamente prosseguiu:
- Essas, meus irmãos, são as palavras e as frases que se ouvem com mais frequência nas profundezas do inferno.
Houve um suspiro de alívio no templo, mas com esse recurso teve Vieira despertada e presa a atenção dos fieis como poucas vezes, por outra via, houvera conseguido. (Narrado por Luis Costa em Leia Comigo)
Conselhos aos candidatos
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos membros da CPI das águas. Hoje, sua atenção se volta aos candidatos: atenção, candidatas e candidatos. Se quiserem receber a atenção do eleitorado, se empenhem em arrumar os traços de sua identidade para que sua imagem possa ser bem recebida. Atentem para estes aspectos:
1. Procurem compor um acervo de valores, princípios e ideias. E sempre que possível tentar expressar tal acervo.
2. Estabeleçam um denso e abrangente programa de ações, contemplando regiões, bairros, classes sociais e categorias profissionais.
3. Identifiquem as lideranças e as organizações sociais que mobilizam e animam as comunidades regionais. Tentem fazer parcerias com os elos da organicidade social.
____________
(Gaudêncio Torquato)
Numa pequena cidade, os habitantes endividados passam um momento vivendo às custas de crédito. A sorte chega com um gringo. Que procura o único hotel. O gringo saca uma nota de R$ 100,00, deposita-a no balcão e pede para ver um quarto. Enquanto o turista sobe ao quarto, o gerente do hotel sai correndo com a nota de R$ 100,00 e vai até o açougue pagar suas dívidas ao açougueiro. O açougueiro pega a nota e vai até o criador de suínos a quem deve. Paga tudo. O criador, por sua vez, pega a nota e corre ao veterinário liquidar sua dívida. O veterinário, com a nota de R$ 100,00 em mãos, decide ir à zona pagar o que devia a uma prostituta. Expliquemos: em tempos de crise, a categoria trabalha a crédito. A prostituta sai com o dinheiro em direção ao hotel, onde levava os clientes. Ultimamente, deixara de pagar pelas acomodações. Liquida a conta de R$ 100,00. Nesse momento, o gringo chega novamente ao balcão, pede sua nota de R$ 100,00 de volta, agradece e diz que o hotel não correspondeu às suas expectativas. Sai do hotel e vai embora da cidade. Ninguém ganhou um vintém! Mas todos saldaram suas dívidas. E, assim, mais felizes, começam a ver o futuro com confiança! Moral da história: quando o dinheiro circula, não há crise! (Historinha de Luis Costa em Leia Comigo)
Tempos nublados
A definição para esses meados de maio pode ser esta: tempos nublados. Se a observação cai bem sob o aspecto do clima - entre 16ºC a 18ºC - e das nuvens plúmbeas fechando os céus do Sudeste e do Sul, também pode ser usada para definir a temperatura política. Vivemos tempos cinzentos. Não se tem clareza sobre o que poderá advir. Há uma CPI em pleno curso, que ainda não deixa ver limites e horizontes. Além de Demóstenes, alguns deputados, Cachoeira - de onde poderá fluir uma torrente de águas poluídas - a indagação persiste: os governadores Marconi Perillo (PSDB/GO), Agnelo Queiroz (PT/DF) e Sérgio Cabral (PMDB/RJ) serão chamados a depor? E os braços da Delta em Mato Grosso e outros Estados serão apertados pela CPI?
Grandes dúvidas
Os tempos nublados fazem emergir grandes dúvidas: afinal de contas, qual será o impacto das revelações e apurações da CPI das Águas Correntes sobre o processo eleitoral? E mais: que impacto - influência - poderá ter a CPI sobre o julgamento do mensalão? Os ministros do STF tenderiam a se sensibilizar com as ondas de indignação que se formam no seio da Opinião Pública, por ocasião das CPIs que ganham alta visibilidade na mídia? Algumas situações podem ser interpretadas. Este consultor oferece algumas pistas.
Aprender a suportar
"É preciso aprender a suportar o que não é possível evitar. Assim como a harmonia do mundo, nossa vida é composta de coisas contrárias, e de diversos tons, doces e ásperos, pontudas e chatas, moles e duras. Que poderia exprimir o músico que só gostasse de um tom ? É necessário que saiba utilizar a todos e misturá-los; do mesmo modo nos cabe fazer com os bens e os males que são inerentes à nossa vida. Nosso ser não subsiste sem essa mistura, em que cada parte é tão imprescindível quanto a outra...". (Montaigne)
O escudo do governo
Ponto um. A imagem da presidente Dilma tende a continuar imune aos abalos e impactos por eventos na frente política. Do alto de sua aprovação, não terá a imagem chamuscada. A população a distingue como governante preocupada em dar eficiência à máquina. Ademais, firmou o conceito de "faxineira ética". Ponto dois. É possível, isso sim, que a agenda do Executivo sofra atrasos em função da CPI ou por conta de desdobramentos nas relações com o Parlamento: liberação de recursos, etc. Ganha força, porém, a ideia de que não haverá veto da Câmara ao veto da presidente ao Código Florestal, se isso efetivamente ocorrer. O próprio PMDB estaria disposto a mudar seu posicionamento.
O escudo dos governadores
Como deixar de convocar um governador e convocar outro? Cristaliza-se a tendência de posição homogênea. Se um governador for convocado, outros também o serão. Ou seja, o pau que bate em Chico bate em Francisco. Nesse caso, até Cabral poderá ser convocado a depor, se Perillo e Agnelo entrarem no envelope da convocação. Mais uma projeção: os partidos que integram a Comissão tendem a absolver os comandantes dos Executivos estaduais.
O escudo do procurador
O procurador-geral, Roberto Gurgel, não deverá ser convocado. Depois do ímpeto inicial do PT, animado e liderando a ideia, constata-se certo arrefecimento. Não seria de bom tom. Ademais, a questão poderia bater no STF e esta Corte tende a abrigar o procurador sob seu escudo com o argumento de que as funções que lhe competem asseguram o direito de não dar depoimento à CPI. O mesmo argumento é usado para evitar a ida de sua mulher, Cláudia Sampaio, subprocuradora da República.
A gravidade do senador
"Apareça o pregador: se a natureza lhe deu uma voz rouquenha e feições estranhas, se o barbeiro não o barbeou direito, se além disso o acaso ainda o salpicou de manchas, por maiores que sejam as verdades que ele esteja pregando, eu aposto na perda da gravidade do nosso senador." (Blaise Pascal)
O escudo de Demóstenes
Quebrado. Eis como se apresenta o escudo do senador Demóstenes. E, por isso mesmo, estará sujeito às chuvas e trovoadas da CPI. Deverá ser arrastado pela correnteza que jorra das águas correntes da (o) Cachoeira. Mas o senador vai lutar até a última gota de sangue. Tem DNA de promotor. É perito na arte de acusar e, claro, de colocar curvas em quem o acusa. No mais, ver-se-á um denso acervo no entorno do Direito.
Amor próprio
Um maltrapilho dos arredores de Madrid pedia esmolas com grande dignidade. Um transeunte lhe disse: "Não tem vergonha de exercer essa infame atividade quando pode trabalhar?" - "Senhor, respondeu o mendigo, peço-lhe esmola e não conselhos"; e tendo dito isto, deu-lhe as costas, com toda a empáfia castelhana. Era um mendigo orgulhoso esse; pouca coisa bastava para ferir-lhe a vaidade. Por amor de si mesmo pedia esmola; e ainda por amor de si mesmo não permitia que lhe fizesse qualquer reprimenda. (Voltaire)
CPI no momento errado?
Dizem que a CPI nasceu sob a vontade do ex-presidente Lula. Que desejava dar uma sinuca de bico em Demóstenes e Marconi Perillo, mesmo sabendo que poderia sobrar veneno na água de Agnelo Queiroz. O fato é que as oposições, até então sem discurso e sem ação, ganharam um copo de vitamina com essa CPI. Se Perillo, do PSDB, está na dança, Agnelo, do PT, está no centro da roda. Ademais, essa CPI cria um clima de indignação que tende a fazer pressão indireta a favor de apurações de ilícitos em todos os campos. Nessa moldura, entra o mensalão. Que estará na pauta do STF logo mais. Não há como protelar a decisão de julgá-lo. O momento é propício. O clima ambiental sugere aperto de parafusos. Condenação a culpados. A impunidade gera revolta no meio da pirâmide.
Venda da Delta
Até agora é inexplicável a venda da empreiteira Delta ao grupo JBS. A empresa está sendo considerada inidônea. Como o governo dá cobertura - via BNDES - a esse empreendimento ? Um dos acionistas do JBS garantiu que a venda se fez com o endosso do governo. Mais um caso a entrar no rol das explicações.
A verdade da comissão
Nem bem foi instalada, a Comissão da Verdade já debate sobre as veredas a seguir. Um dos integrantes, o advogado José Carlos Dias afirma que a Comissão apurará questões de todos os lados. Outros integrantes defendem a tese de que o grupo vai apurar os desmandos e os crimes cometidos pela Ditadura Militar. O outro lado, alegam, foi assassinado. Já o Clube Naval vai formar uma Comissão Paralela da Verdade. Militares da reserva vão fazer algum barulho.
Acesso à informação
O Brasil dá, hoje, mais um passo no território da Cidadania. Começa a valer a lei de acesso à informação. A Constituição prevê que todos os cidadãos têm direito a receber dos órgãos públicos informações do seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade. A lei estabelece obrigações para os órgãos e entidades do poder público quanto à gestão da informação e define os tipos de informação que podem ser solicitadas. Uma das novidades é a obrigação de cada órgão da administração pública criar uma Comissão Mista de Reavaliação de Informações, responsável pela implementação da norma.
Maus modos
"É indecente expressar com intensidade as paixões que se originam de certa situação ou disposição do corpo, pois não se pode esperar que quem está conosco, não possuindo a mesma disposição, simpatize com elas. Fome intensa, por exemplo, embora em muitas ocasiões seja não apenas natural, mas inevitável, é sempre indecente; e comer vorazmente é universalmente visto como demonstração de maus modos." (Adam Smith)
Ficha Limpa no executivo
Mais um passo nas veredas da moralização. O executivo quer barrar na administração pública perfis maculados de sujeira. Nos próximos dias, deverá ser produzida a norma para cercear a inserção de pessoas sem ficha limpa nas malhas da administração. Tem lógica a decisão. Se uma pessoa nessas condições não pode ser candidata, da mesma forma deverá ser afastada da função de cuidar da res publica.
Tolerância zero: álcool
Deve-se mesmo acreditar na hipótese de que o Brasil começa a andar nos trilhos da racionalidade. A defesa da tese de que o cidadão tem liberdade para consumir doses de álcool, evitar o flagrante da embriaguez por meio da recusa do uso do bafômetro, não resistiu a uma audiência no STF, presidida pelo ministro Luiz Fux. Os depoimentos dos convidados fecharam com a posição: tolerância zero para consumidores de álcool que decidem dirigir veículos.
E Haddad, hein?
Entremos, mais uma vez, no túnel da campanha de São Paulo. Para uns, o túnel está ainda muito escuro, a essa altura. A escuridão não deixa ver se Fernando Haddad, candidato de Lula e do PT à prefeitura, chegará ao final da jornada eleitoral. O PT abriu, ontem, uma bateria de inserções publicitárias para alavancar o candidato. Somará 15 minutos nos próximos dias. Lula e Dilma aparecerão nos spots. Este consultor acredita que Fernando Haddad chegará aos 25 pontos percentuais, margem que lhe dá condições de entrar no segundo turno. Claro, seu adversário será José Serra. Que contará com o empuxo das máquinas estadual e municipal. Entre 0 a 10, Serra tem 8 pontos na chance de ser um dos disputantes do segundo turno.
Testando identidade e imagem
Candidato precisa ter forte identidade. Que significa seu conceito. O tronco da árvore. Que lembra semente, história de crescimento, tradição, valores, princípios, caráter. A imagem que projeta é resultante desta identidade. Tênue, a imagem será frágil. Forte, a imagem será clara, retilínea. Que imagens, eleitores, têm os candidatos a prefeito de sua cidade ? Vamos oferecer alguns parâmetros: experiência, conhecimento, força política, tradição partidária, inovação, compromisso com cidade, proximidade do eleitor, firmeza religiosa, apoio de entidades e grupos, arrojo, coragem, honestidade/desonestidade, moral/ética, assepsia, conservadorismo, ficha suja, infidelidade, oportunismo, populismo. Esse acervo serve para enquadrar um perfil.
Royalties, Dilma
A presidente Dilma foi vaiada e aplaudida, ontem, em Brasília, por prefeitos participantes da 15ª Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios. Que queriam cobrar sua posição sobre os royalties do petróleo. A presidente irritou-se com os gritos e mandou ver: "Vocês não vão gostar do que eu vou dizer. Não acreditem que vocês conseguirão resolver a distribuição de hoje para trás. Lutem pela distribuição de hoje para a frente". Encerrou o discurso abruptamente. Prefeitos se dividiam entre aplausos e vaias.
Trens para a Copa
A CAF Brasil, subsidiária da espanhola Construcciones y Auxiliar de Ferrocarriles, está na frente na disputa para execução da obra do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Cuiabá e Várzea Grande/MT visando a Copa do Mundo de 2014. A empresa é uma das integrantes do consórcio VLT Cuiabá, que apresentou o seu projeto ontem à Comissão de Licitação no valor de R$1,4 bilhão. A decisão sairá daqui a 10 dias.
Aécio apagado
Grande decepção. É assim que muitos enxergam a figura do senador Aécio Neves. Por onde se passa, ouve-se: trata-se de uma figura apagada. Sem brilho. Sem discurso. Uma estrela cadente. Este consultor acha que o senador está perdido no mar. Um naufrago à procura de uma tábua de salvação.
Um truque do Padre Vieira
O Padre Antônio Vieira, o célebre pregador, escritor, político e diplomata jesuíta, subindo certa vez ao púlpito, iniciou estranhamente o seu sermão exclamando:
- Maldito seja o Pai!... Maldito seja o Filho!... Maldito seja o Espírito Santo!...
E quando a assistência, horrorizada, pensava que o grande orador houvesse enlouquecido, ele tranquilamente prosseguiu:
- Essas, meus irmãos, são as palavras e as frases que se ouvem com mais frequência nas profundezas do inferno.
Houve um suspiro de alívio no templo, mas com esse recurso teve Vieira despertada e presa a atenção dos fieis como poucas vezes, por outra via, houvera conseguido. (Narrado por Luis Costa em Leia Comigo)
Conselhos aos candidatos
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos membros da CPI das águas. Hoje, sua atenção se volta aos candidatos: atenção, candidatas e candidatos. Se quiserem receber a atenção do eleitorado, se empenhem em arrumar os traços de sua identidade para que sua imagem possa ser bem recebida. Atentem para estes aspectos:
1. Procurem compor um acervo de valores, princípios e ideias. E sempre que possível tentar expressar tal acervo.
2. Estabeleçam um denso e abrangente programa de ações, contemplando regiões, bairros, classes sociais e categorias profissionais.
3. Identifiquem as lideranças e as organizações sociais que mobilizam e animam as comunidades regionais. Tentem fazer parcerias com os elos da organicidade social.
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(Gaudêncio Torquato)
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