terça-feira, 17 de setembro de 2013

MARIA DALVA BONFIM DE ALMEIDA

O casarão do meu avô Têtero, amplo e acolhedor, ventilado e avarandado, com calçada alta e teto artisticamente trabalhado, era o espaço por excelência de congregação da prole. Quando vim ao mundo, na década de 1960, eram raros os profissionais que podiam exibir a carteira comprobatória do juramento de Hipócrates, o pai da Medicina. (Se hoje há um clamor por mais médicos, imagina naquele tempo...).

O fato é que o primeiro ritual de passagem, o nascimento, era um vibrante e caloroso evento familiar e não um mero acontecimento hospitalar. A vizinhança inteira se envolvia antes, durante e depois daquela celebração comunitária. Ganhava destaque a figura da parteira – que, antes da medicalização do parto, exercia papel de centralidade.

Partejar, uma das mais longevas funções que os pergaminhos da história humana registram, ocupou – e ainda ocupa nalgumas – posição de relevo em praticamente todas as culturas. O livro Êxodo, do Antigo Testamento, descreve a exemplar trajetória de Sifrá e Fuá, parteiras das hebréias. Com fé e valentia elas enfrentaram os éditos ditatoriais do Faraó, que desejava eliminar as gerações descendentes de José, almas oriundas dos lombos de Jacó. As parteiras, contrapondo-se à ira do Faraó, colocaram em risco a própria existência para manter acesa a tocha da vida.

A parteira da minha vida, irmã de meu pai, na certidão de batismo foi nomeada Maria Dalva Bonfim de Almeida. Nascida em dois de julho do ano de mil novecentos e trinta e um, faleceu no dia dois de setembro de dois mil e treze.

Salpicada por faíscas de vida em todos os poros do corpo, exalava uma oceânica fé, essa extraordinária capacidade de acreditar no invisível, de enxergar concreto no abstrato, de extrair energia da languidez.

Essa crença no Inefável foi responsável pelo entusiasmo que a fez motivar e despertar o distrito em que residia, Curral Velho, para erigir uma capela, espaço de súplica e louvação à Mãe de Deus e à Trindade Sagrada.

A ligação da “mãe Dalva” com o magnetismo da concepção era tão intensa que a levava a ter premonições. Certa feita pressentiu que uma mulher não resistiria às dores do parto. E recusou-se a fazê-lo. Credite-se à fé, sintonia com a orientação profunda e as lições superiores, esses arroubos intuitivos.

Dalva também amava incondicionalmente a família. Tinha a compreensão alargada de família que o Evangelho preconiza. Para Jesus, qualquer um que seguisse a vontade do Pai fazia parte do seu núcleo familiar. Pai, mãe e irmãos eram todos aqueles que partilhavam o pão da vida e o vinho da paz. Para a parteira do Curral Velho as várias dezenas de rebentos em cujo cordão umbilical ajudou a pegar eram seus aparentados de alma.

Dalva desenvolveu também o nervo do labor. Adorava principalmente o trabalho convertido em serviço ao próximo. Sem verbalizar, punha em prática a máxima rotária de “dar de si entes de pensar em si”. Acordava cedo. Adorava iniciar a luta de mãos dadas com o amanhecer. Nunca reclamou da labuta cotidiana, dos afazeres diários, dos constantes compromissos.

Octogenária, ainda lembrava os dramas juvenis. Antes de ser abatida pelos tufões do esquecimento, costumava cantar as estrofes da mocidade e as músicas que enchiam de ternura as suas tardes adolescentes, que assinalavam a quadra doirada da sua existência.

Como bem lembrou seu amigo Paulo Nazareno, Dalva tinha nome de estrela. Não há dúvidas de que foi para o céu!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará).

OBSERVATÓRIO

Na quinta-feira passada, o editor deste periódico, jornalista César Vale, foi convidado para comparecer à Câmara Municipal de Crateús a fim de falar sobre as denúncias que o Jornal Gazeta do Centro-Oeste, sob sua responsabilidade, tem propagado. César compareceu. A maioria dos vereadores que dão sustentáculo ao Executivo Municipal, não.

A CRÍTICA

O aperfeiçoamento de uma sociedade, assim como o de um indivíduo em particular, só ocorre com o desenvolvimento de uma cultura de auto-avaliação e autocrítica, nascida da meditação aberta e permanente sobre o caminho que percorre. Quando nos dispomos a refletir sobre nós mesmos, aceitamos com naturalidade as avaliações externas. Quem está à frente de um órgão público, no entanto, assume esse compromisso de respeito à divergência em decorrência de mandamentos legais. A atitude de abrir-se para a crítica externa, na democracia, não é uma concessão. É um dever, uma obrigação. Prestar contas da maneira como está tangendo os negócios públicos – que são bancados com o dinheiro de todos – é um ditame legal para o administrador.

A CRÍTICA II

Desde que assumiu uma linha editorial de questionamento à gestão municipal de Crateús, o condutor deste Jornal é vítima de boicotes e tentativas de intimidação, inclusive até com acionamento judicial. O episódio ocorrido no Legislativo é apenas um exemplo. Soa estranho, estranhíssimo, que um governo que se proclama antenado com valores democráticos, fuja do campo de luta aberto, do debate claro e transparente e recorra a métodos subterrâneos de manipulação dos fatos.

ACESSO

A Constituição Federal, no artigo 5º, incisos XIV e XXXIII, afiança à população o direito de acesso à informação de interesse geral ou de interesse particular. Este direito foi regulamentado pela Lei de Acesso à Informação - Lei nº 12.527, sancionada em 18 de novembro de 2011. A Lei de Acesso à Informação tem por finalidade acabar com a idéia de que as instituições públicas podem se esconder sob o manto do sigilo. A informação é sempre pública, devendo o acesso a ela seguir ao princípio da publicidade como preceito geral e o sigilo como exceção. A transparência, agora, é tão elementar como comer e beber. A divulgação espontânea, independentemente de requerimento do cidadão, chamada ‘transparência ativa’, é obrigatória. A partir desse moderno arcabouço legal é injustificável a omissão, a ausência de explicação, a fuga ao exercício do contraditório. Nenhuma figura pública, em respeito à população, deve deixar de enfrentar com seriedade e serenidade as críticas, as opiniões divergentes, as palavras contrárias. A Prefeitura de Crateús deve à comunidade uma nota explicativa a respeito das denúncias divulgadas.

PROS

Surge no cenário político brasileiro o Partido Republicano da Ordem Social (PROS). Aprovado pelo TSE no último dia 10 de setembro, a mais nova legenda nacional nasce com ramificação em Crateús. Há um grupo político local engajado na estruturação municipal da agremiação. O PROS, em Crateús, será formalizado com o ingresso de membros do Legislativo Municipal. Um Vereador já acertou seu ingresso. Outros estão em negociação. Lembrete importante: pela atual legislação, o prazo para que um político com mandato migre para novo partido e não sofra condenação por infidelidade é de 30 (trinta) dias após a aprovação no Tribunal Superior Eleitoral.

DESAFIO

Várias Prefeituras da região amargam um momento financeiro crítico. Há alguns anos o montante do FPM de um município pequeno era suficiente para pagar cerca de 10.000 (dez mil) salários mínimos; hoje, não consegue bancar a metade disso. As demandas se avolumam, os dispêndios crescem e as receitas despencam. O momento é de ajustes. Hora de programar soluções criativas e controlar a ansiedade.

CONVITE

Joatan Bonfim, crateuense radicado na Capital Federal, convida parentes e amigos para a festa de renovação de suas promessas matrimoniais com Elci. As Bodas de Ouro do casal serão comemoradas no próximo sábado, 21 de setembro, em Brasília, Distrito Federal. Efusivo e camarada, corpulento e generoso, Joatan, com sua dilatada fraternidade, merece muitos setembros de união ao lado da sua amada esposa Elci.

PARTIDAS

Na quinzena passada, várias pessoas queridas partiram para o Oriente Eterno. A coluna registra sílabas de solidariedade para os familiares de todos os que deixaram nosso convívio. O comerciante Artaguinan Machado e o ex-bancário Vicente Sampaio eram pessoas estimadas nos respectivos círculos familiares e de amizade. Raimundo Freire – que, com os irmãos João e Luiz – compunha um triunvirato de barbeiros com clientela cativa, representante de um período em que os salões eram espaços de atualização das notícias da urbe. A senhora Ana, mãe do ex-vereador Nunes, matriarca destacada no bairro dos Venâncios. Maria Dalva, a Mãe Dalva, famosa parteira do Curral Velho (vide crônica acima).

PARA REFLETIR

"No dia em que o mundo for mais justo, a vida será mais simples e mais verdadeira". (Oscar Niemeyer).

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará).

domingo, 15 de setembro de 2013

MARCUS FERNANDES


No mês de março do tenebroso ano de mil, novecentos sessenta e cinco, em pleno mar, Pablo Neruda escreveu a apresentação do livro Faz Escuro Mas Eu Canto, de Thiago de Mello, e fez uma indelével descrição do amigo: “O tempo e Thiago de Mello trabalham em sentido contrário. O tempo desgasta e continua. Thiago de Mello nos aumenta, nos agrega, nos faz florear e logo se vai, tem outros afazeres. O tempo se adere à nossa pele para nos gastar. Thiago passa por nossas almas para nos convidar a viver”.

Suponho que, à Neruda, senti vontade de desenhar esta orelha com a mesma tinta que o poeta chileno pintou seu amazônico irmão de poesia.

Desde quando aportou nesta Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, o paraibano Marcus Fernandes tem revelado aos cearenses a fortuna de viver em sintonia com todos os tempos e desenvolver os talentos de todas as artes.

Perscruta os búzios do passado e os caracóis do escuro pisando a areia branca da Praia do Futuro. Surfa com benevolência nas ondas de qualquer frequência. A sua voz de trovão acende no céu de nossa alma relâmpagos de emoção. É, no palco que lhe aprouver, um cavalheiro da sedução.

Marcus José nasceu com espírito de águia: usa as asas da criatividade para romper os limites imaginários e as barreiras pré-conceituais. Lança mão da alavanca de Arquimedes para remover obstáculos conceituais. Com a brisa do amor e o tufão do destemor, voa à frente do seu tempo de forma aguerrida apontando o horizonte de luz e o oceano energizante da vida.

Corajoso e militante combativo, quando se dispôs a vestir a túnica de político, foi conduzido pelo povo que se banha nestes verdes mares como seu representante no Legislativo.

A oratória inflamada, a postura destemida e a intimidade com a ousadia o tornaram protagonista de republicanos debates, voto condutor de memoráveis resoluções e subscritor de históricas proposições.

Polivalente, bacharelou-se em ciências jurídicas, empunhando as bandeiras libertárias da advocacia; fez-se mestre, doutor e cientista na área da odontologia. Poliédrico, incursiona pelas pedrinhas de brilhantes da crônica (ou “conto-crônica”, como pontua Olimpio Araújo), pela ribalta azul da dramaturgia e pelas veredas mágicas da poesia.

Tece o fio da composição e nos mostra a peça de renda feita canção. Desenha a partitura e dá melodia à criatura. Chuta a bola do canto e cabeceia para o gol do encanto. Poliglota, passeia com desenvoltura pelo inglês, francês, espanhol e alemão. Em especial, adora o dialeto universal do coração.

Escrito com amor, este livro é um primor. Aureolada com gravuras da pena infanto-juvenil de Raphaella, filha de Marcus, a obra é um cuidadoso obelisco de nostalgia, um esmerado monumento literário erigido em louvor a Severino, pai do autor.

Este texto, mergulho sentimental nos balseiros da infância, resgate memorialístico paterno, é mais que um conjunto de contos – ou crônicas.

É, em verdade, um canto. Hino de amor à cultura nordestina, à linguagem popular, aos anônimos varões assinalados pelo ferro da civilização da sabedoria, dos mestres forjados no magistério oral dos tamboretes da vida, aqui representados por Severino.

É, sobretudo, uma composição à vitalidade, uma prova de que nossa passagem terrena pode ser uma saudável experiência de superação, um permanente elogio à renovação!

(Por Júnior Bonfim, na orelha do livro VINTE E DOIS CONTOS DE SEVERINO).

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

"Seu filho não passa"

Abro a coluna com a cultura mineira.

Em 1922, Noraldino Lima era diretor da Imprensa Oficial de MG. Jornalista e professor. Personalidade marcante na política mineira. Com audiência marcada, Noraldino recebe em seu gabinete um coronel, chefe político no interior de Minas, acompanhado de um rapazinho, e um pedido de emprego irrecusável: o aval do governador. Noraldino conversa com o filho do coronel, com o objetivo de verificar a capacidade intelectual do jovem. Terminado o vestibular, diz Noraldino:

- Coronel, seu filho está colocado. Vai ser assistente no meu gabinete. Amanhã sai a nomeação no Minas Gerais.

- Mái doto Norardino, tenta argumentar o coronel, o minino num tem preparo, só dá pra contíno...

- Vai ser assistente de gabinete, coronel, insiste Noraldino.

E antes que o coronel surgisse com outro argumento, Noraldino encerra a audiência:

- Para contínuo, caro coronel, existe concurso... e no concurso, seu filho não passa.

(Historinha contada por José Flávio Abelha em A Mineirice)

Pessimistas x otimistas

A cada dia, fica mais patente a querela entre pessimistas e otimistas. Os primeiros são adeptos da deterioração da economia brasileira e os segundos apostam no cavalo econômico sob cabresto, mesmo que este se esforce para se livrar da pressão. Os pessimistas crêem que a economia, às margens eleitorais de 2014, darão às oposições condições reais de entrar no segundo turno eleitoral e, naquele momento, se unirão para derrotar a candidata Dilma Rousseff. Os otimistas vêem o cenário menos perturbador, mesmo com inflação entre 6% e 7%. Se o bolso das margens sociais continuar garantindo a geladeira abastecida, a barriga cheia empurrará a satisfação para o coração. Que, agradecido, mandará a cabeça votar na presidente Dilma.

2º turno

Analisemos os eventuais quatro candidatos, a partir da premissa de que Marina Silva conseguirá formar a sua Rede Sustentabilidade até 5/10. Teremos: Dilma, Marina, Aécio e Eduardo Campos. Sob esses quatro nomes, a possibilidade de a campanha entrar no segundo turno é bem viável, algo entre 50% a 60% numa medida de 100%. No segundo turno, o governismo conta com a vantagem de uso das estruturas : governos de situação, candidatos da base, espaços governativos que funcionam como feudos, cabos eleitorais. É o que se chama de máquina. As oposições terão também as suas estruturas, a partir de governos importantes, como os de SP e PR. Mas o situacionismo no Brasil é um rolo compressor maior.

Chances

Dilma continua sendo a favorita. Hoje, conta com 35% dos votos. Mas poderá subir nos próximos meses, na esteira de uma economia sob controle e continuidade da operação bolsa família. Marina é a grande incógnita. Hoje, com 25% dos votos, tenderia a crescer? Vai depender do clima ambiental, a situação da economia, a indignação social, a maré dos movimentos. Ela é a que mais ganha com a perda de governantes inseridos no baú da velha política. Mas terá pequena visibilidade na campanha. E seus recursos financeiros, escassos, poderão afogá-la antes mesmo de chegar à praia. A depender dos ventos (suaves, fortes?) da primavera de setembro de 2014. Já Aécio Neves tem dificuldade de encarnar o manto da novidade. A jovialidade do perfil não encobre a camada da matreira mineirice, extensão do conservadorismo. Eduardo Campos, mais que Aécio, tem potencial de crescimento. É possível, porém, que lhe falte apoio dos próprios correligionários do PSB, a partir dos irmãos Gomes, do CE.

Por pouco

Estas primeiras projeções, sujeitas a chuvas e trovoadas, jogariam o candidato no segundo turno a poucos metros da vitória. Ou seja, o quadro indica hoje uma disputa ferrenha. Uma eventual vitória da candidata à reeleição se daria por margem bem menor que a da primeira eleição.

Uma união

"Toda a vida (ainda das coisas que não têm vida) não é mais que uma união. Uma união de pedras é edifício: uma união de tábuas é navio: uma união de homens é exército. E sem essa união, tudo perde o nome e mais o ser. O edifício sem união é ruína: o navio sem união é naufrágio: o exército sem união é despojo. Até o homem (cuja vida consiste na união de alma e corpo) com união é homem, sem união é cadáver". Padre Antônio Vieira (1608-1697)

E Serra, hein?

José Serra, é o que comenta nos últimos dias, teria decidido permanecer na floresta tucana. Tanto que se recusou a participar de eventos importantes do PPS, comandado pelo deputado Roberto Freire. José Serra é um perfil experiente. O mais experiente tucano, com exceção de Fernando Henrique. Saindo do PSDB, teria a imagem fragmentada. Seria uma saída sem brilho. Candidato à presidência, contaria com estruturas parcas e frágeis conjuntos eleitorais. Campanha é guerra. Sem arsenal, qualquer candidato morre logo no início da primeira batalha. José Serra deve levar em consideração seus potenciais, pontos fortes e pontos fracos.

São Paulo, interior

A esperança do governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, é o interior de SP. O governador padece de um conjunto de problemas: 1. Não formou uma forte identidade, ao longo de seu tempo na política; 2. Não há um eixo forte na administração capaz de imprimir uma marca, um símbolo, uma ideia-força ao governo tucano; 3. O PSDB paulista sofre com o fenômeno desgaste de material. 20 anos de administração corroem a imagem. É inegável que o governador é um gentleman, educado, atencioso, bem-humorado, respeitador. Valores que o engrandecem como pessoa. Mas e as qualidades da gestão? Quem consegue distinguir o eixo da administração geraldina?

Mais médicos

É evidente que a administração Dilma, ao levar adiante o programa Mais Médicos, teve como inspiração as pesquisas. Nada se faz no governo sem a lupa sobre as ruas. O povão vai aprovar a estratégia de botar médicos nos fundões do país. E mais: esse poderá ser o algo mais que Dilma carecerá, no segundo semestre de 2014, para ganhar mais um diferencial sobre os outros candidatos.

Eixo das oposições

Qual será o eixo dos candidatos oposicionistas? Uma visão nova na economia? Um choque na infraestrutura? Que estratégias para crescimento auto-sustentado defenderão? Eis o dilema oposicionista. O país quer ver um projeto para a Nação. Um plano estratégico de desenvolvimento de longo prazo. Algo mais que fazer oposição por oposição, criticar por criticar. Campanhas precisam de discursos substantivos, não de paixões adjetivas.

Faxineira é metalúrgica?

O projeto 4330 sobre terceirização é um avanço para o país. Que abriga cerca de 15 milhões de trabalhadores terceirizados e temporários na esteira das tendências internacionais. Esse contingente tem os mesmos direitos dos trabalhadores normais. E as empresas prestadoras de serviços, os mesmos deveres nas frentes de impostos, tributos e benefícios aos trabalhadores. O que empaca é a questão dos recursos. A CUT quer multiplicar seu cofre de Tio Patinhas. Como ? Fazendo com que uma copeira, um limpador, uma faxineira, uma cozinheira que trabalhem numa metalúrgica sejam considerados metalúrgicos. Representados pelo sindicato dos metalúrgicos.

O cabo de aço do atraso

Ou seja, a CUT quer que a representação sindical seja feita por um de seus sindicatos. Ora, o maior sindicato dos terceirizados é o Sindeepres, que reúne 280 mil filiados. Ligado à UGT. A CUT, com seus sindicalistas, e apoio de alguns (poucos) deputados petistas, também sindicalistas, ao lado de conhecidos assessores que trabalham na Secretaria do ministro Gilberto Carvalho, agem como cabos de aço para amarrar o Brasil à árvore do passado. Manjaram a questão ? Grana, pecúnia. Pior: há um grupo que ameaça deputados que não votarem conforme sua orientação. Esse é o pano de fundo da República sindicalista, que aufere milhões do Estado para fazer vingar um pérfido neo-peleguismo, ainda vivo e agindo nos bastidores.

Renovação congressual

É arriscado dizer, hoje, que a renovação do Congresso Nacional será muito elevada, ou seja, algo como 2/3. Pergunta básica: quantos parlamentares, entre os atuais 513 deputados, partirão para a reeleição? Quantos candidatos a senadores sairão do atual conjunto de 81? Se não houver um número suficiente de perfis jovens e identificados com o eco das ruas, a composição congressual não passará por grandes renovações. O eleitorado terá de votar nas listas de que dispõem. E acabará votando em parcelas dos tradicionais perfis. A conferir.

Bancadas corporativas

Já a tendência de fortalecimento das bancadas corporativas é mais provável. A sociedade brasileira ganha, a cada dia, mais organicidade. Que se caracteriza pelo nucleamento de setores, grupos, alas. A crise da democracia representativa - e consequentemente o distanciamento entre o eleitor e sua representação política - propicia o adensamento dos grupos sociais. Daí a miríade de sindicatos, associações, federações, clubes, movimentos. Essas frentes constituem o aríete que faz pressão sobre as Casas Congressuais. Por isso, as bancadas que as representarão sairão fortalecidas em 2014.

O novo, cadê o novo?

Haverá muita procura pelo Novo, pelo perfil que se identifique com o avanço. Os novidadeiros serão prestigiados. Vamos ver onde serão encontrados.

Pros e Solidariedade

Um tal de Partido Republicano da Ordem Social e o Partido Solidariedade, este de Paulinho da Força, deverão ser criados mesmo antes da Rede Sustentabilidade, de Marina. Significará fuga em massa de parlamentares de um partido para outro. Partidos que ameaçam ver parlamentares fugindo: PDT, PDS, PP, PTB e outros menores.

Dúvida

Gilberto Kassab será candidato a governador, a senador ou a deputado? Trata-se de um dos mais hábeis articuladores políticos do país. A conferir.

Foro São Paulo

Informação de bastidor: a movimentação que tem tomado as ruas do país começou na esfera do Foro SP, espaço onde as esquerdas se refugiam para traçar suas estratégias. Diz-se que a ideia nasceu lá, animada pela visão de que o socialismo deveria ganhar as ruas sob o eco do povo. Mas o Foro perdeu o controle da situação. Os movimentos saíram de sua égide e patrocínio. Partidos políticos passaram a ser mal vistos. O Foro deu com os burros n'água. Estão pensando como rebobinar o fio do novelo.

Embargos infringentes

Se o STF aceitar julgar os embargos infringentes, a pizza da Alta Corte será motivo para aumentar o grito das ruas. Este consultor não aposta nessa hipótese. A conferir os passos do Supremo nesta semana.

Petróleo de libra

Se os americanos fizeram a espionagem sobre a Petrobras, é evidente que sabem tudo sobre o campo de petróleo de Libra. As empresas americanas vão participar do processo? E se ganharem? Serão carimbadas com a impressão de "cartas marcadas". O governo garante que não vai adiar esse leilão. Cada qual com seus segredos. Ou arremedos.

Caças americanos

Depois da espionagem voltada para os interesses econômicos e estratégicos, este consultor fica com a impressão de que a compra dos "caças americanos" pela Força Aérea subiu ao telhado. Os caças franceses e os suecos passaram a ter chances novamente?

Classe média

Atentem para o conjunto das classes médias: 100 milhões de eleitores. Definirão o futuro do país.

Solidariedade malandra

Fecho a Coluna com mais uma historinha de Carlos Santos, em Só Rindo 2:

Candidato a vice-prefeito da também enfermeira Fafá Rosado em 2000, Galba Silveira (irmão do então deputado Francisco José) é conhecido por sua permanente verve. Caminhando num corpo a corpo em favela da cidade ao lado da candidata, ele é atalhado por uma senhora maltrapilha, olhos fundos, couro e osso, desfiando lamúrias:

- Seu Galba, aqui a gente não tem nada. (...) Hoje ninguém comeu ainda. (...) Os bichinhos estão cheios de pereba e esse lamaçal não tem quem aguente...

À espera de um alento ($) ou alguma panacéia para tantos sofrimentos, ela ganha a "solidariedade à miséria" do candidato de outra forma:

- Como é que a senhora aguenta viver aqui? Mulher, se mude.

Conselho aos parlamentares

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos governantes. Hoje, dedica sua atenção aos parlamentares:

1. Nas próximas semanas, deverá ser votado o PL 4330 sobre terceirização. Trata-se de lançar as bases das relações do trabalho do amanhã. Significa modernização e empregabilidade. Mas há forças retrógradas que lutam para amarrar o Brasil à árvore do passado.

2. Senhores deputados, tomem consciência dos aspectos inovadores, avançados que embasam o projeto 4330. E não se deixem levar por ameaças que, frequentemente, a CUT e outras forças fazem sobre o conjunto parlamentar. Chegou a hora de começar a fazer a reforma trabalhista.

3. Ao presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, cabe não ceder às pressões de alas retrógradas que procuram semear o neo-peleguismo nas largas frentes das relações de trabalho no país.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

HERMANO FREIRE BONFIM, FELIZ ANIVERSÁRIO!


Filho - ou ser que veio ao mundo por intermédio dos pais - embora não lhes pertença:

Depois de várias sugestões rejeitadas, tua mãe concordou com o nome que sugeri.

Foste conduzido à pia batismal e registrado Hermano.

Pela significação de sua raiz teutônica, Hermano pode ser traduzido por “Homem do Exército”.

Porém, foste aspergido não com o óleo queimado da guerra, mas com as águas cristalinas da fraternidade.

Nossa intenção era te nomear - docemente, castelhanamente - como “irmão”.

Vieste ao mundo pelo influxo inspirador da música LOS HERMANOS, do compositor, cantor, violonista e escritor argentino Atahualpa Yupanqui, pseudônimo de Héctor Roberto Chavero.

Desde as calçadas tenras da infância já te revelaste uma figura proativa, que perscruta soluções rápidas para problemas demorados.

Tens a linguagem múltipla dos que se alimentam dos desejos de águia!

És um cientista estrelado, que acostumou a audição à sinfonia saudável do coração!

Aprecias os labirintos anatômicos e os virtuais escaninhos eletrônicos!

Nenhum assunto – paire acima das nuvens ou brote dos subterrâneos da vida, surja dos preconizadores do futuro ou dos mercadores de antanho – te soa estranho!

Queremos compartilhar contigo, ó irmanado ser, o pão da paz, a estrela da luta, o vinho da fraternidade, a esmeralda do sonho!

Feliz aniversário!


(Júnior Bonfim)


POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

O pior já passou? - 1

Diz em alto tom a presidente Dilma Rousseff que "falharam mais uma vez os que apostavam em aumento do desemprego, inflação alta e crescimento negativo". O governo acerta, diz a primeira mandatária do país porque "nosso (do governo) tripé de sustentação continua sendo a garantia do emprego, a inflação contida e a retomada gradual do crescimento". Trata-se evidentemente de uma perspectiva bastante eleitoral pelo qual a presidente procura distinguir "nós" (o governo) "deles" (qualquer um que discorda do governo). Como se vê, não é esta a questão de fato, especialmente quando se trata a crítica como mera aposta, quem sabe daquelas que se faz em mesas de botequins. O que fica evidente é a face autoritária do discurso e da presidente, pessoa conhecida por ser temperamental e pouca afeita ao diálogo. De nossa parte, não cremos que homens de negócio, trabalhadores, servidores públicos, estudantes, etc., não cremos que exista uma "aposta" contra o país.

O pior já passou? - 2

O que de fato se vê é um país sem reformas estruturais, baseado na improvisação nas relações (tensas) com o setor privado, marcado pela profunda incompetência na concepção e estruturação das políticas públicas e sem avanços substantivos nas relações econômicas e sociais. Neste último item é clara a cooptação de segmentos sociais desprotegidos por meio de políticas que cristalizam as condições das classes sem educação, saúde, sem acesso à tecnologia e moradoras de lugares tristemente coroados pela miséria. Os resultados são evidentes, queira a presidente desejar vê-los ou se esconder por detrás de um discurso escrito por seu "marqueteiro". O que se comemora é um PIB bem abaixo das possibilidades do país. O que se vê na política é o compasso "fisiológico" das negociações com os agentes políticos, cujos fins são unicamente as eleições. As finanças públicas são maquiadas por artimanhas que realçam a pouca transparência e aguçam o desejo da Fazenda em fingir-se de "correta" para o tal do mercado e "social-desenvolvimentista" para quem quer ver o país andar.

O pior já passou? - 3

Este é um governo sem rumo claro, sem afinação com os princípios mais consagrados da democracia, sobretudo a transparência e a disciplina em buscar o bem comum. A presidente vocifera contra os que "apostam" contra, como se o dia da Pátria fosse palanque eleitoral. É grosseira quando se pronuncia sobre as críticas que sofre. Nada tem da imagem de "gerente" que pretendeu lançar nos tempos de sua eleição. Parece ter aprendido pouco quando se vê a mediocridade de seus resultados. É certo que o governo retomou a liderança do processo político. Afinal de contas, a oposição não propicia nenhuma alternativa crível às ansiedades mais profundas das sociedades. Estas temem pregar e se aliar aos segmentos sociais, pois carecem de legitimidade política. Neste contexto, não será surpresa a reeleição da tutelada do ex-presidente Lula. No passado também se viu FHC reeleito para quatro anos em que o país pagou o preço de sua política econômica desastrada no que diz respeito ao câmbio e à taxa de crescimento.

A arrogância poderá aumentar

Provavelmente, as próximas semanas podem instigar os instintos mais otimistas dos que leem o funcionamento do poder. Muito provavelmente, a taxa de câmbio estará mais calma, a inflação ficará comportada no atual (incômodo) patamar e os juros podem parar de subir (ata do Copom foi um poço de otimismo). São aparentemente bons sinais. Mas, esta conjuntura não é sinal de alterações estruturais nas carências do país. Um país que é capaz de ganhar a autoridade de fazer uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos com um gerenciamento de tão baixa qualidade quanto o que é feito, também é capaz de ter a sua economia administrada em altas doses de improvisação e sem visão estratégica que possibilite a remoção do atraso e do subdesenvolvimento social, econômico e político. Lula trafegou nas ondas favoráveis dos países emergentes durante os seus anos de presidência. Dilma Rousseff pode ter ventos favoráveis por uns tempos. Todavia, tristemente os problemas estruturais estão sendo jogados "para debaixo do tapete", dentre os quais: (i) inflação elevada; (ii) déficit externo recorde; (iii) contas públicas deterioradas; (iv) indústria em processo de obsolescência; (v) reformas estruturais eternamente adiadas. Vamos ter uma paz conjuntural enquanto as estruturas sofrem a deterioração continuada dos últimos anos.

Há o que comemorar? - 1

Sábado havia civicamente e oficialmente o que comemorar: o 7 de Setembro, o Dia da Pátria, desde sempre a mais importante festa cívica nacional. No entanto, pelos lados oficiais ela acabou um tanto quanto esvaziada pelo temor das manifestações de rua. A segurança e as precauções foram tantas, mormente em Brasília, que a festa acabou vazia, um tanto chocha, mais parecendo a dos tempos mais duros da ditadura militar e não os melhores momentos dos tempos da democracia pós-85. Sinal de que, tanto numa ponta como na outra, o povo na rua só é mesmo bem visto quando a favor - no mais, assusta. Porém, o que assustava e se temia não ocorreu. O povo não foi para as ruas como se imaginava, ficou em casa curtindo o feriado. Aliviadas, as autoridades e os políticos até já ensaiam comemorações : o pior já passou, a agenda positiva dos executivos Federal, estaduais e municipais e do Legislativo já começou a funcionar.

Há o que comemorar? - 2

Aconselha-se que se olhe o quadro com um pouco de cautela antes que de pensar que estão todos absolvidos dos seus pecados gritados pelas ruas juninas. Devagar com o santo, ensina o popular dito, porque o andor ainda é de barro. Objetivamente, o povo não foi para as ruas por duas razões:

1. O temor da violência, que voltou a tomar conta dos movimentos.

2. Porque se estava num sábado, feriado.

A "agenda positiva" não tem nada a ver com os fatos. Até porque ela é mais - ou quase somente - marketing do que ações de verdade. O clima ainda está no ar. Basta haver uma nova conjugação de fatores para a rua voltar a urrar. Se não foi agora, certamente será nas eleições.

O triângulo das bermudas

Aparentemente revigorada pelo esvaziamento das manifestações programada para 7 de Setembro, que o Palácio do Planalto tanto temia a ponto de montar um vigoroso esquema de segurança em Brasília e esvaziar os desfiles em todo o Brasil, a presidente Dilma Rousseff vai retomar, mais aliviada seu périplo eleitoral pelo Brasil. E, mais aliviada, deve ensaiar novamente aparições "públicas" menos controladas que as suas últimas aparições fora da capital Federal, nas quais arriscou pouco em contatos diretos com os eleitores. Nesta fase da campanha, o fogo maior vai continuar concentrado em dois estados - SP e MG. Foram sete visitas às duas regiões para mostrar a importância que o governo dá a mineiros e paulistas. A razão é simples : juntamente com o RJ, SP e MG formam o que se pode chamar de "triângulo das bermudas" eleitoral do Brasil. Sozinhos, eles concentram mais de 40% do eleitorado do país e quem não tiver um desempenho pelo menos razoável nos três vai ter de suar muito nas outras regiões para compensar.

Conta eleitoral

SP foi sempre o "calcanhar de Aquiles" do petismo. Nunca venceu por aqui. Mas sempre compensou essa diferença em MG e, principalmente, no RJ. Desta vez, há um senão nesse caminho: com Aécio Neves candidato, a votação mineira certamente não será a mesma que Lula (duas vezes) e Dilma tiveram por lá. (Há até uma intriga na política nacional que diz que José Serra complica agora a vida de Aécio como uma espécie de vingança contra a falta de empenho do mineiro a favor de sua candidatura.) O RJ, por sua vez, tornou-se uma incógnita. O governador Sérgio Cabral, aliado fiel nas duas vezes, deu empenho nas alianças com os petistas. Hoje Cabral é um fantasma eleitoral e sua companhia não é aconselhável na proximidade das urnas. Tanto que o Estado tem sido evitado por Dilma. Mas ele deverá começar a merecer também mais atenção. Especialmente se Marina Silva confirmar a criação de seu partido, o Rede. O eleitor fluminense já demonstrou que tem uma quedinha por ela. Falta ainda encontrar uma fórmula de entrar mais fundo no Rio contornando a companhia de Sérgio Cabral.

O PMDB na conta eleitoral - 1

Há que não irritar o PMDB, considerado essencial na operação SP, MG e em alguns outros Estados. Em Minas, por exemplo, todo o esforço está sendo feito para que o partido, meio partido ao meio, não vá para os braços de Aécio Neves, atire-se mesmo ao regaço de Fernando Pimentel. Nesta equação um nome desponta: o senador Clésio Andrade, poderoso presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e que um dia foi aliado de Aécio. É carta para vice. Outra carga ainda são alguns cargos no governo ainda vagos, como uma diretoria da Petrobras, a Internacional, ocupada interinamente pela presidente Graça Foster. É o preço a pagar para o PMDB não ficar com o tucano. Em SP, a equação ainda não está montada. Está dependendo de um cálculo: qual o real potencial eleitoral do possível (já em franca campanha) candidato do PMDB, Paulo Skaf, e da estrutura da Fiesp. De quem Skaf tiraria mais votos: do tucano Geraldo Alckmin ou do petista Alexandre Padilha. Respondida esta questão, a montagem será feita. Skaf, em ascensão nas pesquisas, sonha naturalmente com o apoio do PT à sua pretensão de chegar ao Palácio dos Bandeirantes. Quase impossível. Só terá esse apoio se a operação Alexandre Padilha, engendrada por Lula e não contestada nem em SP nem em Brasília, se revelar um fracasso. O mais provável é que o presidente da Fiesp venha a ser "convidado" a compor, como vice, a chapa encabeçada pelo petista.

O PMDB na conta eleitoral - 2

Como o PMDB será convocado a se "sacrificar" em SP e Minas, é possível que tenha a compensação no RJ. Embora o petismo local esteja entusiasmado com o desempenho pré-eleitoral do senador Lindbergh Farias, mesmo com algum risco o mais provável é que o PT fluminense seja aconselhado a ficar com o Pezão, candidato de Sérgio Cabral. Mas o PMDB poderá ser levado a fazer outros sacrifícios: ele será sempre lembrado que já tem assegurado a vice-presidência para Michel Temer e, portanto, deve colaborar mais nos Estados para o bom andamento da aliança governista.

Dois outros pepinos

Preocupam também a cúpula petista dois Estados: a BA, o quarto eleitorado brasileiro, e PE. Foram dois locais nos quais Lula e Dilma colheram algumas de suas mais avantajadas vitórias sobre os tucanos que os confrontaram. Agora, a situação, pelo menos no momento, não parece tão promissora assim. Na BA, Jaques Vagner já não está com um prestígio nas alturas, o PMDB com Geddel Vieira Lima rebelde ameaça complicar a aliança e com o governo de Salvador nas mãos do DEM, de ACM Neto, os votos da capital podem ser mais divididos. É um desafio para o poder de persuasão de Lula. Em PE, não tem mistério: com Eduardo Campos no grid de largada vai ser impossível repetir a votação de Lula e Dilma nas eleições anteriores.

Quadro formado

Não há mais dúvidas de que a corrida eleitoral de 2014 terá quatro grandes personalidades na largada; Dilma Rousseff, Aécio Neves, Eduardo Campos e Marina Silva. Não há mais volta para nenhum deles. As dúvidas sobre se Campos vai ou não vai já não existem, Aécio assegurou o seu lugar no ninho tucano, e Marina muito provavelmente nos minutos finais terá o seu Rede. A corrida agora é para fazer composições com outros partidos, em busca de mais tempo no horário eleitoral, e composições regionais para assegurar palanques fortes nos Estados. É quando partidos como PMDB, PP e outros se tornam mais exigentes.

A crise com os EUA

Tendo o governo descoberto o que até o mundo mineral sabe - que os EUA espionam por todos os lados - há dois caminhos que poderão ser seguidos. O primeiro é a presidente-candidata Dilma "capitalizar" a crise com um discurso nacionalista muito útil para o público interno, inclusos os países latino-americanos. O segundo é se aproveitar da crise e realinhar a relação com os EUA, de sorte a agenda se aprofunde a partir de uma maior percepção dos EUA de não ter mais um problema entre os aliados, muito embora o Brasil não seja um player importante para a política norte-americana. No caso da Europa, que também flagrou os EUA em plena delinquência espiã, preferiu-se fazer o jogo de cena e persistir negociando acordos econômicos. Com o Brasil, o jogo de cena precisa ser iniciado pois que não há contencioso, mas também não há grandes acordos. Deve-se seguir o patamar atual, pouco intenso e sem interesses muito elevados de ambas as partes.

Eike e a Res Publica

Além dos questionamentos sobre a rela situação econômica e financeiro das empresas "X" do empresário Eike Batista, ainda falta outro debate mais importante: quanto foi o investimento de dinheiro público nas empresas do arrojado empresário carioca? Interessante ver que nenhuma corrente política se esforça para saber a resposta desta incômoda questão.

Na cadeia

Os tais mensaleiros estão preparados para passar algum período (entre dias e apenas noites) na prisão. Especialmente José Dirceu parece certificado de que o seu destino está traçado pelo STF. Ver-se-á as consequências políticas desta inédita cena na política brasileira. A presidente Dilma já guarda providencial distância de seus parceiros de PT há bons tempos. Logo é muito improvável que o governo seja abalado pela turma que ajudou a financiar a campanha de Lula à presidência em 2003. No que diz respeito ao STF, os embargos infringentes parecem que serão engavetados. Mas com cerimônia. No caso, no salão do pleno do STF.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

15 DICAS PARA VIVER MELHOR

Que tal entrar em um túnel do tempo e fazer uma breve viagem pela sua vida? Você já parou para pensar o que tem feito dela? Como você já deve ter notado, o tempo passa vertiginosamente e mal podemos percebê-lo passar. A não ser que se viva com a consciência despertada, a vida passa por nós e nem percebemos as benesses deixadas por ela. Se fizer um balanço do que tem sido sua vida nos últimos tempos, o que você encontra além de muito trabalho e responsabilidades? Afinal, você se considera uma pessoa feliz? Ou nem sabe mais o significado dessa palavra? Acha que tem conseguido atingir objetivos que não sejam apenas metas de trabalho? Onde você tem colocado os seus sonhos afinal? Sente-se frustrado, triste, desmotivado, sem energia? Quantas vezes por dia você se lembra que o Universo está ao seu lado e que está aí para que você se una a Ele e conquiste o que o faz verdadeiramente feliz? Quantas vezes por dia você se lembra que somos nós os responsáveis pela construção do nosso futuro, assim como fomos nós que construímos o momento presente através dos nossos pensamentos, sentimentos e ações?

Nossas vidas são feitas de hábitos, somos seres que vivem mais seguros através da construção de hábitos saudáveis, escolhidos e controlados por nós. Por isso achei interessante montar um guia prático de bons hábitos que podem ajudar na construção de um dia a dia de paz e felicidade. Que tal assumir de uma vez por todas a responsabilidade por uma vida mais agradável e feliz?

1. Determine-se a sofrer menos por coisas e situações sem importância. Aprenda a lidar de maneira mais tranquila com situações inesperadas. Lembre-se que a única certeza que temos é que tudo passa e que tudo muda. aprenda a não se desesperar com as adversidades e possíveis frustrações. Na maioria das vezes, quando nos deparamos com o inusitado, perdemos a capacidade de raciocínio e tomamos atitudes baseadas na impulsividade. Não faca isso com você. respire fundo, reflita e somente depois que conseguir se guiar pela razão tome a decisão adequada.

2. É preciso antes de mais nada refletir sobre a maior e mais verdadeira lei que existe neste planeta: a lei da transitoriedade. Tente compreender com o coração e não racionalmente esta verdade. A vida é uma grande roda na qual estamos atados. Em um momento estamos em cima e nesse momento devemos ter consciência que em breve estaremos fazendo o movimento descendente. Procure não deixar passara as oportunidades e as bênçãos que tens recebido do Universo.quando sabemos que o inverno vai chegar, o melhor que temos a fazer é deixar reservada alguma lenha para nos aquecer.

3. Busque o prazer. Não se submeta à vontade de pessoas que não dão a mínima para você. Ame-se, cuide-se, não se violente fazendo o que não gosta. Diga não quando for necessário. Respeite-se.

4. Se a vida te dá um limão, faça uma limonada! Pare de se queixar pelo que não tem, pare de olhar o que te falta. Aprecie o que a vida lhe oferece e se puder observar mais minuciosamente perceberá que tem o bastante para este momento. Caso ache pouco, deve começar desde já a construir um novo futuro, com mais abundância e prosperidade. A queixa faz parte de um processo infantil ainda não superado, mostrando que existe ainda em você se uma criança dependente. Se sua vida não está de acordo com o que deseja, faça melhor daqui para frente.

5. Em seu dia a dia procure ocupar-se de poucas coisas. Cuidado com a tendência a fazer muitas coisas de uma só vez, pois isso só gera ansiedade e intranquilidade. Dessa forma você não vai conseguir a harmonia que pretende. Lembre-se: o tempo sempre está a nosso favor. Não tente atropelá-lo, pois essa atitude é uma forma de tortura auto imposta. Busque a tranquilidade, seja mais amoroso consigo mesmo, observe seus limites e respeite-os.

6. Procure buscar dentro de você, pensamentos de paz e serenidade. Saia conscientemente de um estado de desassossego. Comece pela sua respiração e diminua seu ritmo ao caminhar e até mesmo o ritmo de seus pensamentos. Momentos de descanso e até mesmo de ócio são altamente saudáveis.

7. Aceite a vida com o que ela tem de melhor e de pior. Aceite as adversidades e pare de achar que é a única pessoa com problemas neste planeta. Acredite, existem pessoas que, neste exato momento estão sofrendo muito mais que você. busque a compreensão, a aceitação e consequentemente encontrará a serenidade.

8. Pratique a simplicidade. Se precisar, diminua o tamanho da sua ambição, ou ao menos, dê-se um prazo maior para conseguir o que deseja. Já parou para pensar nisso? Será que você precisa mesmo de tudo o que a sociedade tem exigido de você? Procure ser simples e natural no falar, no vestir, no pensar. A vida é uma só e o seu momento é agora.

9. Viva cada segundo a seu tempo, um dia de cada vez. Desenvolva a fé de que a vida caminha por si só, independente do nosso controle. E lembre-se: existe algo ou alguém olhando e cuidando de você. faca a sua parte e entregue o que não está sob o seu controle. Entregue à própria vida, a Deus, ao Universo ou a qualquer força que acredite existir. Confie e você vai se surpreender com os resultados.

10. Fique atento, pois a maioria das pessoas ao nosso redor estão insatisfeitas e frustradas, carregadas de ambição de poder e dificuldade em amar e se relacionar desinteressadamente. Portanto, não se submeta aos humores dos outros – viva e seja você mesmo, independentemente do que o outro é e sente em relação à vida e a você.

11. Busque e trabalhe pela sua independência. Conte consigo mesmo na construção de sua felicidade. Quando você aprender a se amar tudo te será dado. Ame-se, cuide de si mesmo. Mas cuidado com o narcisismo, não seja egoísta. Olhe para os outros da mesma maneira que olha para você, como um ser humano com necessidades e medos como você.

12. Pare de fazer planos a longo prazo, pois dessa forma você perde o controle sobre os seus passos. Faca planos anualmente, pois dessa forma é possível organizar cada atitude e decisão que deve tomar e cada passo que deve dar em direção às suas metas.

13. Tenha como objetivo melhorar o que há de pior e aperfeiçoar ainda mais o que há de melhor em você. mas não se esqueça de sempre ser muito amoroso consigo mesmo. Aceite seus limites, mas não acredite que não possa fazer melhor.

14. Você pensa na morte? Pois deve pensar! Você é mortal, sabia? Nenhum de nós escapará desse momento, desse destino. Não pense na morte de maneira mórbida, mas como a finalização de uma historia de luta, perdas e conquistas.

15. Aprenda a envelhecer com dignidade. Cultive sua alma, suas melhores qualidades, o amor que possui dentro de si. Cuide de si mesmo, de suas emoções e de seu corpo, sem neuroses, sem obsessões. Seja feliz!

(Dica do Recanto das Andorinhas)

MADRE TERESA DE CALCUTÁ


Agnes Gouxha Bojaxhiu, madre Teresa de Calcutá, nasceu, no dia 27 de agosto de 1910, em Skopje, Iugoslávia, de pais albaneses. Seus pais, Nicolau e Rosa, tiveram três filhos. Na época escolar, Agnes tornou-se membro de uma associação católica para crianças, a Congregação Mariana, onde cresceu em ambiente cristão. Aos doze anos, já estava convencida de sua vocação religiosa, atraída pela obra dos missionários.

Agnes pediu para ingressar na Congregação das Irmãs de Loreto, que trabalhavam como missionárias em sua região. Logo foi encaminhada para a Abadia de Loreto, na Irlanda, onde aprenderia o inglês e depois seria enviada à Índia, a fim de iniciar seu noviciado. Feitos os votos, adotou o nome Teresa, em homenagem à carmelita francesa, Teresa de Lisieux, padroeira dos missionários.

Primeiramente, irmã Teresa foi incumbida de ensinar história e geografia no colégio da Congregação, em Calcutá. Essa atividade exerceu por dezessete anos. Cercada de crianças, filhas das melhores famílias de Calcutá, impressionava-se com o que via quando saia à rua: pobreza generalizada, crianças e velhos moribundos e abandonados, pessoas doentes sem a quem recorrer.

O dia 10 de setembro de 1946 ficou marcado na sua vida como o "dia da inspiração". Numa viagem de trem ao noviciado do Himalaia, percebeu que deveria dedicar toda a sua existência aos mais pobres e excluídos, deixando o conforto do colégio da Congregação.

E assim fez. Irmã Teresa tomou algumas aulas de enfermagem, que julgava útil a seu plano, e misturou-se aos pobres, primeiro na cidade de Motijhil. A princípio, juntou cinco crianças de um bairro miserável e passou a dar-lhes escola. Passados dez dias, já se somavam cinqüenta crianças. O seu trabalho começou a ficar conhecido e a solidariedade do povo operava em seu favor, com donativos e trabalho voluntário.

Para irmã Teresa, o trabalho deveria continuar a dar frutos sem depender apenas das doações e dos voluntários. Seria necessário às suas companheiras que tivessem o espírito de vida religiosa e consagrada. Logo, uma a uma ouviram o chamado de Deus para entregarem-se ao serviço dos mais pobres. Nascia a Congregação das Missionárias da Caridade, com seu estatuto aprovado em 1950. E ela se tornou madre Teresa, a superiora.

As missionárias saíram às ruas e passaram a recolher doentes de toda espécie. Para as irmãs missionárias, cada doente, cada corpo chagado representava a figura de Cristo, e sua ajuda humanitária era a mais doce das tarefas. Somente com essa filosofia é que as corajosas irmãs poderiam tratar doentes de lepra, elefantíase, gangrena, cujos corpos, em putrefação, eram imagens horrendas que exalavam odores intoleráveis. Todos eles tinham lugar, comida, higiene e um recanto para repousar junto às missionárias.

Reconhecido universalmente, o trabalho de madre Teresa rendeu-lhe um prêmio Nobel da Paz, em 1979. Esse foi um dos muitos prêmios recebidos pela religiosa devido ao seu trabalho humanitário. Nesse período, sua obra já se havia espalhado pela Ásia, Europa, África, Oceania e Américas.

No dia 5 de setembro de 1997, madre Teresa veio a falecer, na Índia. A comoção foi mundial. Uma fila de quilômetros formou-se durante dias a fio, diante da igreja de São Tomé, em Calcutá, onde o seu corpo estava sendo velado. Ao fim de uma semana, o corpo da madre foi trasladado ao estádio Netaji, onde o cardeal Ângelo Sodano, secretário de Estado do Vaticano, celebrou a missa de corpo presente.

Em 2003, o papa João Paulo II, seu amigo pessoal, ao comemorar o jubileu de prata do seu pontificado, beatificou madre Teresa de Calcutá, reconhecida mundialmente como a "Mãe dos Pobres". Na emocionante solenidade, o sumo pontífice disse: "Segue viva em minha memória sua diminuta figura, dobrada por uma existência transcorrida a serviço dos mais pobres entre os mais pobres, porém sempre carregada de uma inesgotável energia interior: a energia do amor de Cristo".

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(Texto enviado por José Cavalcante ARNAUD)

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

ANOTAÇÕES À POLÍTICA ECONÔMICA, POR CIRO GOMES

Descontado o fato natural de as declarações presidenciais não necessariamente terem total apego ao real em virtude de expectativas que podem causar, especialmente em assuntos econômicos, é inquietante o erro de percepção a que tem sido induzida Dilma Rousseff por sua frágil equipe. A pressão sofrida pelo real perante o dólar nos últimos tempos, disse a presidenta, é um fenômeno produzido por causas externas, especialmente pelos norte-americanos. Não se deve, portanto, a questões internas do Brasil.

Gravíssimo engano se esse for o ponto de partida para atacar o explosivo problema cambial brasileiro. Diga-se logo: não falamos de urgências urgentíssimas. De fato, temos muita “bala na agulha”, como disse a presidenta, para administrar uma transição, graças aos mais de 370 bilhões de dólares em nossas reservas cambiais. É preciso, entretanto, conhecer o aspecto cancerígeno que o problema tem sobre nossa sorte econômica enquanto nação.

O Brasil tem experimentado déficits recordes em suas contas externas. A cada mês, o recorde é batido e neste ano já quer mirar os 75 bilhões de dólares. É o resultado de todas as nossas contas em dólar com o estrangeiro. O que temos de pagar a eles, em todas as rubricas, e o que eles têm de nos pagar de volta. Tirante um restinho de saldo comercial de cuja certeza nem sequer temos mais, o buraco é generalizado e em escala crescente. Trata-se de um problema estrutural. Não foi criado pelo atual governo, mas é dele a indeclinável tarefa de montar a equação de saída, tanto mais se o prazo para termos turbulências graves explodir muito provavelmente em um possível segundo governo Dilma.

Perdoem-me os letrados, o mercado de dólar funciona da mesma maneira que aquele de bananas em Sobradinho: se tiver pouca banana e muita gente disposta a comprá-la, o preço sobe. Se o Brasil tem uma brutal escassez de dólares, em virtude de déficits recordes e em expansão, o preço do dólar em real tende a subir. A causa é intrinsecamente nacional. Certamente, causas externas podem atenuar ou agravar a tendência estrutural de nosso momento econômico. E todas as condicionantes visualizáveis externamente hoje nos estressam. Até as possíveis boas notícias, como a especulada retomada de um nível razoável de atividade econômica nos EUA.

Vejam aonde chegamos por nossa própria culpa e incompetência: se melhorar a economia global puxada pelos Estados Unidos, nossas dificuldades de financiar o brutal rombo que cevamos se agravarão. E teremos de começar a usar nossas “balas na agulha”… Ou seja, manipular a taxa de câmbio por meio da venda de dólares baratos (como o Banco Central tem feito) para os especuladores encastelados na banca brasileira e internacional. Para, mais cedo ou mais tarde, quebrarmos.

Enquanto isso, o País se desindustrializa. A indústria brasileira hoje representa exíguos 13% do PIB.

O diagnóstico correto é a condição essencial para o correto ataque ao problema. E assusto-me em ouvir meu amigo Guido Mantega falar em “minicrise” e não abrir uma conversa franca sobre as saídas, enquanto a crise é só crônica. Esse filme é velho, já visto. E teve a reeleição, essa praga introduzida em nossos costumes, como causa. “A bala na agulha” na época foi o maior empréstimo do FMI em toda a sua história, em vez das reservas atuais. Fernando Henrique ganha as eleições de 1998 e, em janeiro de 1999, o real mica. Nota cultural: todos os bancos privados acertaram claramente a véspera de virada no câmbio, menos o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e os minúsculos Marka e FonteCindam (mas aí o escândalo é outro, é o do Chico). O prejuízo para a nação brasileira foi superior a 18 bilhões de dólares.

Vamos decompor esse déficit. Vamos entendê-lo, produzir iniciativas consistentes para superá-lo. Algumas pistas são óbvias. Como a Petrobras pode ser a principal causa isolada da deterioração de nosso saldo comercial? Temos de pagar tal fortuna em royalties?

Vamos auditar essa conta. Por que um país detentor de 8,4 mil quilômetros de costa abre mão de ter uma Marinha Mercante e paga mais de 10 bilhões de dólares de frete a estrangeiros? De novo a assaltada Petrobras, a maior responsável… Por que a maior agricultura tropical do planeta tem de importar 40% de seus insumos? Por que o governo federal importa mais de 15 bilhões de dólares para o Ministério da Saúde, 76% com patente vencida, segundo o professor Carlos Gadelha, da Fiocruz? É razoável que os uniformes das Forças Armadas brasileiras sejam importados da China, como quase aconteceu recentemente?
Saudades do Bussunda: fala sério.

* Ciro Gomes,
Ex-ministro da Fazenda.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

PIB e pibinho - 1

Não deixa de ser significativo o que é comemorado no Brasil nestes estranhos tempos. Começou-se o ano se especulando que o crescimento do PIB gravitaria ao redor de 4%. Já em meados do ano, o próprio governo admitia que este crescimento não seria maior que 2,5%. Agora o PIB do terceiro trimestre, cujas previsões giravam entre 0,8% e 1,3% no segundo trimestre, "surpreendeu" (+1,5%). Os setores que surpreenderam foram a agricultura (+3,9% registrado contra 1,5% esperado) e a construção civil (+3,8%). Os outros indicadores foram razoavelmente dentro das expectativas o que pode ser considerado como bom no atual contexto de desânimo. A questão é sabermos se houve uma mudança estrutural que justificasse tal desempenho superior. A resposta é não. A economia brasileira deve cair um pouco em relação ao segundo trimestre e, ao final do ano, subir um pouco. Na contabilidade do ano vamos crescer algo como 2,3%-2,4%, o patamar que os EUA apresentam e que é insatisfatório. Mas, por aqui, a surpresa faz com que o ministro da Fazenda saia de sua rotina e manifeste a glória de sua política econômica. O Brasil continua um país de crescimento medíocre e não há nenhum vetor estrutural sendo alterado para que este 'voo de galinha' se afaste de nós.

PIB e pibinho - 2

O principal item que acalenta a tendência medíocre do crescimento brasileiro é a ausência de uma visão estratégica para as políticas econômicas. A combinação confiável entre o capital privado e o estatal persiste opaca pelo arranjo entre uma visão ideológica vencida da presidente-ministra da Fazenda Dilma Rousseff. Além disso, o governo flerta com a falta de disciplina fiscal e com a inflação mais alta, controlada, em parte, pela compressão de preços públicos e pela alta (hesitante) da taxa de juros básica. Não há nenhuma relação de causa e efeito que indique que o crescimento no Brasil será mais robusto nos próximos dois anos. É essencial que se supere (i) a inoperância/ineficiência governamental em relação às reformas e ao investimento, (ii) a política cambial desindustrializante, (iii) o custo elevado do crédito local e (iv) a baixa produtividade do setor público. Isso requererá reformas estruturais que vão da educação à tributação e que o governo e a sociedade gostam de jogar para debaixo do tapete. Resultado : PIB que cresce 2,5% é razão de euforia.

Sucesso eleitoral? - 1

Há dúvidas - ver notas acima - a respeito da continuidade da recuperação da economia brasileira no ritmo flagrado pelo IBGE no segundo trimestre. O próprio ministro Guido Mantega, o "dr. Pangloss" nacional de plantão, preferiu ser comedido e ficar com sua previsão anterior, de crescimento de 2,5% até dezembro, melhor que no ano passado, mas inferior da 2011. A presidente Dilma, sempre, agora com a direta orientação de seus marqueteiros, sempre disposta a trombetear qualquer sucesso de seu governo, mesmo quando é apenas uma pedra fundamental, preferiu também ser comedida nas suas comemorações. As razões nos parecem mais políticas que econômicas. Um dado do PIB do primeiro trimestre não é para comemorar, pelo menos sob a ótica político-eleitoral mais imediata do Palácio do Planalto. Enquanto economistas apontavam como um dos sinais o fato de a economia nacional estar invertendo sua lógica de crescimento dos últimos anos, saindo da força no consumo e recuperando ainda que em bases baixas, o investimento, o mundo do marketing político vê essa inversão como um ponto negativo.

Sucesso eleitoral? - 2

Afinal, a popularidade da presidente até a eclosão das ruas juninas, assim com a de Lula antes e sempre, se sustentou exatamente neste ponto: a satisfação da sociedade, especialmente a impropriamente chamada classe C, por estar consumindo mais. O sinal de que o consumo está estagnado - cresceu apenas 0,3% no trimestre abril/maio/junho, depois de ter caído 0,8% no período anterior - foi um soco na boca do estômago dos marqueteiros. Ainda mais se somarmos a isto os dados de que o crescimento da oferta de empregos com carteira assinada está desacelerado, que a renda média do trabalhador cai desde o início do ano, que o crédito ao consumo está mais seletivo. As manifestações juninas tiveram como estopim o aumento nos transportes coletivos em SP, RJ e em algumas outras cidades, porém só tiveram o alcance de público e de crítica que tiveram porque havia um caldo de cultura para o movimento prosperar.

Sucesso eleitoral? - 3

Centenas e milhares de pessoas foram se manifestar e mais de 80% dos brasileiros (dados de mais de uma pesquisa) aplaudiram as ruas em movimento não apenas pela insatisfação com a qualidade dos serviços públicos em geral e com a capacidade dos políticos fazerem as coisas certas, mas também por uma difusa sensação de insegurança, medo de perder o que foi conquistado nos últimos anos. Enquanto os economistas de Dilma não encontram uma fórmula para recuperar o poder de consumo da população e afastar o temor do desemprego, o desafio de Dilma e seus marqueteiros será encontrar outro mote para manter o discurso de gosto popular que a presidente abraçou nos últimos meses. Daí a ênfase no programa "Mais Médicos", um ideia positiva, porém cheia de aventuras e improvisações que tanto pode ser bem sucedida como virar um fracasso do qual Dilma e menos ainda o ministro Alexandre Padilha dificilmente se recuperarão.

Mais médicos

A reação inconsequente por parte de alguns profissionais brasileiros de medicina, como os que vaiaram indecentemente médicos cubanos em Recife, ou do CRM de MG, estão ajudando Dilma e Padilha a empurrar o programa "Mais Médicos" porque desviam a discussão de questões gravíssimas da saúde brasileira. Parece que tudo se resume a ter ou não ter mais médicos formados em Cuba no Brasil. Ajuda também a presidente o fato de seus oposicionistas não saberem o que dizer sobre o assunto. Bom ou mal para ajudar a minorar os problemas do atendimento às populações mais carentes do país em matéria de saúde, não há dúvidas de que o projeto tem claramente um cunho eleitoreiro. Basta ver que o acerto com os cubanos já estava feito há mais de seis meses, inclusive com instrutores brasileiros tendo ido a Cuba treinar seus profissionais, muito antes de a presidente Dilma, com uma espécie de resposta ao clamor das ruas, ter anunciado o "Mais Médicos".

Perca-se a ilusão. Ou: uma homenagem a Tiririca

Quase tudo o que se escreveu e o que ainda se escreverá sobre o escárnio, a cusparada na cara dos brasileiros como pode ser denominada a recusa da Câmara em cassar o mandato do deputado Natan Donadon, terá sido pouco para espelhar a indignação nacional contra a indignidade cometida pelos parlamentares e seus partidos. A imagem já está ficando batida, mas vale dizer mais uma que o deputado (e palhaço, no bom sentido) estava errado ao dizer que 'pior que está não fica'. Fica sim. Perca-se a ilusão de que alguma coisa possa mudar por lá: a verdadeira reforma política não sai. Um dia, se sair, sai apenas na parte que interessa políticos e partidos. Nem o fim do voto secreto no Parlamento, apontado como principal responsável pela manutenção do mandato do deputado Donadon, será aprovado com rapidez, embora o presidente da Câmara, Eduardo Alves, tenha prometido botar o projeto imediatamente em votação. Pode até passar na Câmara, mas para "inglês ver": será modificado, como quer o deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ), uma espécie de quase dono da casa dos deputados, sem o qual nada de bom ou de mau por lá acontece. Ademais, terá então de voltar ao Senado. Também é coisa para algum tempo longínquo a aprovação no Senado da PEC, que torna automática a perda de mandato dos parlamentares condenados por corrupção ao crime comum. Tiririca vai ter de mudar seu slogan se quiser se reeleger.

Contas a pagar

1. Estão sendo crucificados os deputados que assinaram a folha de presença na sessão de cassação do mandato do deputado Donadon e não votaram. Mesmo com o voto secreto eles foram identificados. São identificados e execrados também os que se ausentaram totalmente da Câmara naquela hora. Porém, os 513 deputados, exceção para aqueles (por doença ou viagem oficial) com justificativas plenas, são responsáveis por aquelas cenas de desrespeito aos brasileiros. O voto secreto também tem isto : todos são suspeitos igualmente, porque não dá para saber quem votou de tal ou qual forma.

2. Com O episódio, ficou ainda mais difícil de entender a mudança de entendimento do STF em casos de condenados como o de Donadon e do mensalão. No caso dos mensaleiros, os ministros entenderam que a cassação do mandato dos que são ainda parlamentares é automática. O que até ameaçou abrir uma crise entre o Judiciário e o Legislativo. No do deputado presidiário, já com o voto dos novos ministros Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso, entendeu-se que a questão do mandato era privativa da Câmara. O STF também precisa se explicar.

3. Se alguns dos ausentes na fatídica sessão de terça-feira na Câmara e os que, beneficiados pelo covarde manto secreto contribuíram com a "absolvição" de Donadon, acreditavam estar abrindo caminho para dar boa vida aos mensaleiros-parlamentares, estão enganados. Como se diz popularmente, o tiro saiu pela culatra. Um dos temas que as manifestações programadas para este sábado, 7/9, em todo o país, vão levar para as ruas é exatamente o da impunidade política de parlamentares e dos mensaleiros.

Veio a calhar

O vexame da Câmara veio em boa hora para o Palácio do Planalto. Não que a presidente Dilma esteja comemorando qualquer coisa do caso Donadon. É inegável, porém, que este assunto deve desviar um pouco a atenção de outras palavras de ordem popular das manifestações de sábado. De todo modo, a segurança oficial está tomando todas as precauções possíveis - e muito mais - para proteger a presidente de cenas desagradáveis no palanque do desfile militar em Brasília. No ano passado, com um clima bem melhor, a presidente já foi alvo de vaias.

Cadê?

Nada mais se fala sobre o plebiscito, sobre referendo, sobre nenhum plano arquitetado por Aloizio Mercadante?

Trinta dias decisivos

Em pouco mais de um mês (exatamente no dia 5/10) parte do jogo eleitoral de 2014 estará definido : é quando termina o prazo para inscrições partidárias. Daí para frente ninguém mais muda de partido ou poderá se inscrever numa legenda para disputar as eleições ano que vem. Apenas a presidente Dilma Rousseff, do grid de sucessão presidencial, passará o mês sem muitas tensões nesta área. Aécio Neves vai ficar na expectativa do que vai fazer José Serra. Para o senador mineiro o ideal é que o ex-governador paulista ficasse no PSDB e se engajasse de fato em sua campanha. Isto, porém, parece impossível - e, aconteça o que acontecer, terá um custo para os tucanos. Eduardo Campos vê algumas reações às suas pretensões presidenciais, cada vez mais evidentes, contestadas por alguns governadores e prefeitos que não querem se indispor com os cofres do governo Federal. E pode perder aliados. O governador do CE, Cid Gomes, um empedernido governista Federal, anda caçando um novo partido abertamente. Seu mais recente sinal foi para o Solidariedade, partido que o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, promete colocar de pé no tempo devido. Marina Silva está às voltas com a criação de um partido para chamar de seu ou na busca de uma legenda que aceite abrigá-la e tenha uma imagem mais aceitável para a população. Enquanto isso Dilma terá tempo de cuidar dos seus renitentes parceiros que prometem para ela grandes emoções quando de fato os palanques regionais começaram a se formar.

Não preocupa agora

A presidente Dilma e sua turma da política não deram sinais de ter sentido o golpe do acordo de cooperação e não beligerância celebrado entre dois de seus prováveis adversários ano que vem : Aécio Neves e Eduardo Cunha. Pelo menos aparentemente. No momento, embora não confesse, a preocupação do staff reeleitoral é cortar as asas de Marina Silva. Uma leitura atenta das diversas pesquisas de opinião pública mostra que a ex-ministra é a que tem o maior potencial de surrupiar votos de Dilma. Com Marina está a chave do segundo turno, mesmo que ela não seja a escolhida para disputar o turno derradeiro.

É tudo ou nada nas concessões - 1

Exatamente em 15 dias, com o leilão de dois trechos de rodovias, o governo terá exatamente os sinais definitivos se o seu PIL (Programa de Investimentos Logísticos), lançado há mais de um ano e andando até agora a passos de cágado, vai deslanchar ou não. Para exorcizar o risco de um fracasso - em janeiro falho o primeiro leilão rodoviário -, que poderia contaminar em seguida as concessões também previstas para este ano de ferrovias, portos e aeroportos, além da primeira venda do pré-sal, o governo abriu o cofre de concessões.

É tudo ou nada nas concessões - 2

Colocado diante da ameaça de possíveis concorrentes de ficar em casa, o governo alterou várias regras inicialmente previstas. Poderá alterar outras até o dia 18/9. Semana passada, por exemplo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chamou dirigentes de bancos a Brasília para induzi-los a criar consórcios para financiar empresas interessadas em participar dos leilões. E ofereceu a eles risco zero nessas operações. O sucesso dos leilões é essencial por pelo menos quatro razões para Dilma:

1. A óbvia: sem a participação do capital privado nacional e estrangeiro será impossível melhorar, em prazo razoável, as condições da economia nacional para que ela possa crescer sem constrangimentos. Certamente o início efetivo de obras, no ano que vem, ajuda a turbinar o PIB de 2014.

2. Acertar bons negócios, ainda com a boa notícia relativa do PIB do segundo trimestre, pode quebrar a desconfiança e a resistência dos investidores na economia brasileira.

3. Vai melhorar também o astral da população e, naturalmente, dar a Dilma mais um bom argumento de palanque.

4. O dinheiro que deve entrar ainda este ano, com a assinatura dos contratos, o bônus de concessão, é essencial para fechar as contas públicas de 2013, especialmente os R$ 15 bilhões esperados para a primeira concessão do pré-sal.

Por isso, depois de muitas resistências e incensos de todos os lados ao estatismo velho de guerra, o Palácio do Planalto agora está erguendo todas as velas à Santa Concessão.

Espia que eu gosto

Usualmente quando a área de inteligência de um governo proporciona inquietações ao governo, os assessores se mexem muito antes dos atores principais para "mapear o problema". Em matéria tão sensível, não deve um presidente se expor primevamente antes de um tratamento inicial da questão pelas instâncias menores. Até o mundo mineral sabe que os EUA espionam mundo afora numa velocidade e quantidade jamais vistas. O Brasil não é exceção, muito embora esteja distante daquilo que seria o interesse central dos americanos. Ora, a presidente Dilma tem especial predileção em fazer do tema "espionagem" matéria de ampla divulgação social. Não faltam expressões de indignação patriótica na boca dos ministros do governo. Enquanto isso, as relações Brasil/EUA vão se deteriorando no momento em que a ocupante do Planalto prepara-se para tomar seu avião e ir tratar com o chefe do Império, Mr. Obama. Se a espionagem é tão certa, esta indignação pública ainda precisa ser explicada. Será que a presidente quer ganhar pontos junto à opinião pública às custas de um assunto tão obscuro?

O sonho de Obama

Se os EUA irão ou não atacar a debilitada Síria não é possível saber. São muitos os fatores a serem analisados em torno deste sensível assunto. Uma coisa é certa: sabia-se que Obama não passa de um conservador suficientemente provido de atributos de produto de marketing; o que não se sabia é que Obama era quase igual a Bush Jr. Se Barack fizesse o discurso I have a dream de Martin Luther King talvez ele dissesse que o sonho se realizou: Obama é igual a Bush, the little one.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

OBSERVATÓRIO

Ano passado viajei para Crateús em companhia do líder político Antonio dos Santos. Expansivo e envolvente, loquaz e divertido, o filho de João Melo e eterno Deputado dos Crateuenses narrou-me episódios de sua longa trajetória pública. A certa altura fez um olhar compenetrado, mirou o horizonte e desabafou: - os problemas do nosso grupo político começaram com a morte do Leandro... (Leandro Martins, eleito em 1982 para um mandato de seis anos, faleceu em 1987). Assim, Antonio dos Santos relatou, com riqueza de detalhes, todo o sofrimento que Leandro e família passaram naquele período: desde o telefonema que recebeu da então primeira-dama Toinha, a visita ao médico em Fortaleza, a descoberta do grave problema de saúde, a internação forçada e a morte que causou enorme comoção na cidade.

FELIPE BEZERRA

A política é uma mulher sedutora que, não raro, leva à cegueira os que por ela se deixam conduzir. Apesar das contrariedades, dos enormes dissabores e, sobretudo, da rotina estafante, muitos se envolvem tanto com os seus aparentes encantos que só a deixam quando partem para outra dimensão. Alguns conseguem a façanha de deixá-la à francesa no tempo certo. Felipe Bezerra Cavalcante foi dadivado com essa graça. Militante político, Vereador por Crateús na sequencia do irmão Manoel Bezerra, conseguiu sair da linha de frente da política após vários anos de intensa atividade. E ainda viveu vários janeiros ao lado da família, vindo a falecer na última quarta-feira, dia 28 de agosto, contando 102 anos de existência. Esta coluna externa sua solidariedade à família. (Espaço de análise crítica à gestão, esta Coluna evitará qualquer menção ao Executivo Municipal, até porque o seu titular é filho do falecido patriarca).

LEANDRO

Voltando a falar de Leandro Martins. Detentor de exíguo currículo escolar, Leandro era um arguto e popular comerciante, que atuou destacadamente nos tempos áureos da produção de algodão, também chamado “ouro branco”. Percorrendo o interior do município, se fez popular. Construiu uma carreira política que principiou como Vereador e encerrou como Prefeito. Era um político tradicional, amante do clientelismo. Um de seus programas mais populares como Prefeito foi a distribuição de enxadas no período que antecedia às chuvas. Diferentemente de hoje, quando se distribui bolsas sem exigência de contrapartida – o que estimula a ociosidade – Leandro distribuía um instrumento de trabalho essencial à agricultura manual. Era fomentador da cultura do trabalho, da prática produtiva.

O TRABALHO

A súmula da vida monástica instituída por São Bento continua atual: ora et labora (“reza e trabalha”). Ninguém pode descurar quão bela é a cultura da fé aliada ao trabalho. Rui Barbosa ensinou que “oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem. A oração é o íntimo sublimar-se da alma pelo contacto com Deus. O trabalho é o inteirar, o desenvolver, o apurar das energias do corpo e do espírito, mediante a ação contínua sobre si mesmos e sobre o mundo onde labutamos. O indivíduo que trabalha acerca-se continuamente do autor de todas as coisas, tomando na sua obra uma parte de que depende também a dele”.

LOJAS AMERICANAS

O grupo RAMLIVE, sob a liderança do empresário Adonel Rodrigues Sales, premia a cidade de Crateús com um empreendimento digno de aplauso: uma unidade da rede Lojas Americanas. Com um projeto arquitetônico que preservará a estrutura do octogenário Casarão situado na esquina das ruas Barão do Rio Branco com Coronel Lúcio, no Centro de Crateús, o empreendimento tem previsão de entrega para setembro de 2014. “Aqui, começamos, crescemos e nos sentimos alegres e motivados a investir, para colaborar e contribuir com esta terra. O empreendimento trará desenvolvimento econômico para a Região”, destacou o empresário Adonel, que reside em Sobral, centro dos negócios do grupo.

LAGO DE FRONTEIRAS

O DNOCS publicou, no Diário Oficial da União de 21/8/2013, o Aviso do Edital de Licitação que tem como objeto a contratação de empresa para executar as obras e serviços de implantação do Lago de Fronteiras. O mais importante é que a obra tem potencial para irrigação de seis mil hectares. Ivan Monte Claudino, diretor do órgão, teve papel essencial na liberação dessa obra. Logo que assumiu a Diretoria, Ivan – que também é adepto da cultura do trabalho – colocou o projeto debaixo do braço, foi de setor em setor até conseguir esse resultado positivo. O investimento deverá ultrapassar a ordem de R$ 200 milhões.

PARA REFLETIR

“Trabalha com gosto e terás o gosto do trabalho”. (Benjamim Franklin)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

sábado, 31 de agosto de 2013

PARABÉNS, NUTRICIONISTAS!


Num País de obesos e famintos, o nutricionista exerce papel estratégico. É ele o responsável pela promoção da alimentação saudável.

No dia 31 de agosto, data desta profissão, o Conselho Federal dos Nutricionistas (CFN) reconhece que a categoria vem ganhando destaque na sociedade brasileira pelos serviços prestados.

Para a nutricionista Christina Maia, o profissional da área “atua como orientador e educador no que diz respeito à alimentação adequada para prevenir e tratar as doenças”. Com esse objetivo, as cerca de 280 universidades de nutrição ensinam a diferenciar hábitos alimentares, a interpretar fatores culturais e sociais na formação de cardápios. Enfim, a promover a saúde alimentar da sociedade.

A profissão no Brasil está estruturada. Tem Conselho Federal dos Nutricionistas (CFN) e código de ética. Essa é uma realidade que vem sendo construída nas últimas seis décadas.

Nos anos 40, sugiram as primeiras universidades da área. A importância do nutricionista poderia ser resumida num provérbio antigo: "Nós somos o que comemos".

Hoje, a atuação do nutricionista é tão abrangente que é necessário, além dos conhecimentos acadêmicos, ter habilidades extras, como a capacidade de enfrentar situações aflitivas e conflitantes; lidar de forma positiva com as adversidades; manter a perseverança; e ainda desenvolver uma grande resistência às frustrações.

O Papel da Alimentação na Prevenção e Tratamento das Doenças

Todos sabem que a alimentação equilibrada é fundamental para preservar a saúde e prevenir doenças, pois os alimentos são fontes de vitaminas e minerais indispensáveis ao bom funcionamento do organismo.

Porém a maioria das pessoas não sabe alimentar-se de forma adequada e por este motivo surgem doenças que poderiam ter sido prevenidas.

Como exemplo temos a doença diverticular causada pela deficiência de fibras na dieta; a osteoporose por deficiência de cálcio; a anemia por deficiência de ferro, e tantas outras. .

Além do papel preventivo, a alimentação adequada também é fundamental no tratamento das doenças que muitas vezes se agravam por falta de orientação adequada.

Como exemplo temos o diabético que se preocupa em não consumir açúcar e desconhece que alimentar-se nos horários certos também é importante, pois a hipoglicemia (falta de açúcar no sangue) é tão perigosa quanto a hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue);

O paciente obeso, que tão preocupado em emagrecer, corta radicalmente o consumo de carboidratos (massas e pães) pois desconhece o fato de que 1g de carboidrato fornece 4 calorias e 1g de gordura fornece 9 calorias.

Será mesmo que o pão engorda? São tantos exemplos.

O que faz o nutricionista, então?

O nutricionista atua como orientador e educador no que diz respeito a alimentação adequada para prevenir e tratar as doenças.

É o profissional indicado e o mais capacitado para esta tarefa, pois conhece à fundo os alimentos e trabalha com dietas personalizadas, respeitando as diferenças de hábitos alimentares, estrutura física e situações fisiológicas especiais, tornando o tratamento das doenças mais eficiente e mantendo a saúde das pessoas que acreditam neste provérbio: "nós somos o que comemos".

Fonte: www.fomezero.gov.br

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ENCARE OITO VERDADES CRUÉIS SOBRE PERDER PESO

No dia 31 de agosto é comemorado o Dia do Nutricionista, um profissional que é bastante associado à dieta. Mas com a recém - divulgada pesquisa Vigitel 2012, do Ministério da Saúde, revelando que 51% dos brasileiros (acima de 18 anos) estão com excesso de peso é possível dizer que os nutricionistas são menos requisitados do que deveriam na guerra contra a balança. Verdade seja dita, muita gente perde tempo apostando nas táticas erradas de emagrecimento. "Muitas pessoas copiam a dieta da moda que o amigo seguiu, apostam em alimentos 'milagrosos', tomam medicamentos, mas o fato é que a perda de peso é um processo que leva tempo e, acima de tudo, que varia de acordo com cada pessoa", explica a nutricionista Fabiana Marangoni, do Spa Igaratá. É fato, não existe fórmula mágica para mandar os quilos embora, e ainda que você integre o time de quem faz tudo certo, logo abaixo podem estar as respostas para uma dúvida muito comum dentro e fora dos consultórios: "por que eu não consigo emagrecer?"

1. Seu corpo trabalha contra você

Quando você decide iniciar a reeducação alimentar e começar a cortar as calorias extras da dieta, acredite, seu corpo irá perceber rapidinho. Isso porque existem dois hormônios - leptina e grelina - que estão diretamente relacionados com o metabolismo e o emagrecimento. "A grelina é responsável por avisar nosso cérebro que estamos com fome, já a leptina tem a função de mandar uma mensagem dizendo que o corpo já está saciado e não precisa de comida", explica a nutricionista Fernanda Brunacci, da Equilibrium Consultoria em Nutrição e Bem Estar, de São Paulo. Segundo a especialista, quanto maior for a concentração de leptina e/ou menor for a concentração de grelina no organismo, maior é a dificuldade para o emagrecimento no início do tratamento. O grande problema está nas pessoas que, quando começam a dieta, estão com esses hormônios desequilibrados - aí não adianta, parece que a fome está sempre à espreita.

2. Não existem soluções rápidas

"Quanto mais restrita e radical é a dieta, maior é a chance de a pessoa querer sair da dieta", explica a nutricionista Fabiana. Pode até ser que você consiga emagrecer com uma dieta milagrosa - mas as chances de recuperar o peso ou ter algum tipo de sequela são grandes. Um corpo bem nutrido e livre de toxinas nocivas ao seu bom funcionamento responde melhor a qualquer tratamento, seja para perder peso, para ganhar qualidade de vida ou ainda para envelhecer de maneira saudável. Dessa forma, fugir das dietas rápidas, que cortam de maneira radical qualquer alimento saudável, é um avanço em sua meta para perda de peso. "O ideal é buscar um profissional qualificado, que identificará suas reais necessidades e traçará metas claras, respeitando seu estilo de vida e ritmo metabólico", completa o especialista.

3. Só exercício não basta para emagrecer

Está certo que a atividade física é essencial para levar um estilo de vida mais saudável, ajudando a prevenir e tratar uma série de doenças, além de aumentar o gasto calórico diário. Entretanto, ele sozinho pouco mudará os números estampados na balança. "De nada adianta queimar calorias se a qualidade da sua alimentação não é boa ? temos que pensar primeiramente na saúde", diz a nutricionista Fabiana. Ao depositar todas as suas esperanças de emagrecer na atividade física e enfiar o pé na jaca no cardápio com frequência, usando a desculpa de que está fazendo exercícios, você além de não perder peso, estará negligenciando a sua saúde - já que a dupla reeducação alimentar e exercícios é a chave para uma vida saudável e longe de doenças.

4. Remédios para emagrecer não funcionam sozinhos

Os remédios para emagrecer podem até ser um estímulo para quem tem dificuldade em seguir a dieta - entretanto, só podem ser usados com indicação médica e em casos muito específicos, geralmente quando a adoção de uma alimentação mais saudável e a prática de exercícios físicos feitos corretamente não mostraram resultado na perda de peso. E mesmo que você tenha o uso dos medicamentos prescritos pelo médico, eles não fazem o milagre por conta própria. O remédio sozinho não irá trazer resultados positivos, sendo necessário controlar a alimentação e praticar atividades físicas juntamente com a medicação para conseguir perder peso. "Se os remédios não estiverem acompanhados de hábitos saudáveis, há o risco de a pessoa ganhar os quilos perdidos assim que interromper o uso", declara Fabiana Marangoni.

5. Não existe uma dieta que sirva para todo mundo

Cada um tem suas preferências na cozinha - desde o tempero até um alimento que ela goste mais ou menos. E é por isso que a dieta do seu amigo ou de um parente pode não funcionar para você - ainda que ele tenha emagrecido 20 kg seguindo o tal cardápio. "De uma maneira geral, uma dieta de baixa caloria pode levar a uma redução de peso, mas não garante que a pessoa consiga levar a dieta durante muito tempo por, na maioria das vezes, não estar de acordo com seus hábitos e costumes", afirma a nutricionista Fabiana. Por isso uma dieta personalizada e individual elaborada por um nutricionista, que leve em conta suas preferências, é muito mais eficaz.

6. As pessoas não perdem peso de forma igual

Tem aqueles que perdem 10 kg no primeiro mês, outros que vão demorar mais para ver o ponteiro da balança mudar, e até aqueles que perderão o peso regularmente, um pouquinho de cada vez. E isso acontece porque cada organismo é único e trabalha de uma maneira muito particular, inclusive quando o assunto é gastar calorias. "Fatores como sexo, idade, mudanças hormonais e atividades diárias é que vão favorecer ou dificultar a perda de peso."

7. Dieta é para a vida toda

Não adianta lutar contra - reeducação alimentar é um estilo de vida, não um cardápio que você segue por dois meses e depois volta a comer fritura e refrigerante todos os dias. "Claro que o processo do emagrecimento tende a ser uma fase mais restrita que o processo de manutenção de peso, mas de qualquer forma, a melhora dos hábitos alimentares deve ser para o resto da vida, pois se a pessoa se descuidar irá ganhar o peso novamente, além de expor seu corpo a diversas doenças", alerta a nutricionista Fabiana.

8. Manter é mais difícil que perder

Essa verdade é absoluta principalmente entre as pessoas que, ao atingirem a meta de peso, voltam a ter os hábitos alimentares anteriores à dieta. Isso só fará com que a pessoa ganhe o peso novamente, gerando o efeito sanfona. É importante continuar fazendo exercícios e adequar sua alimentação ao gasto calórico diário, sempre priorizando alimentos saudáveis, como frutas, verduras, legumes, cereais integrais, oleaginosas e carnes magras.

(Por Carolina Serpejante)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

HIPÓCRATES, PERDOAI, ELES NÃO SABEM O QUE FAZEM

"Pela pobreza de argumentos, apelam para o grito, levantam a voz e partem para atitudes agressivas "
Não levante a voz, melhore seus argumentos! Não consigo tirar da cabeça esta frase do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, desde a lamentável cena protagonizada por algumas pessoas formadas em Medicina sob a equivocada liderança de um sindicalismo anacrônico, caduco e nocivamente corporativo, desrespeitando e agredindo os médicos estrangeiros, sobretudo os cubanos, na Escola de Saúde Pública, na segunda-feira passada.

Neste momento de inquietação sobre o futuro do País e na busca de uma sociedade com justiça social, precisamos buscar novos paradigmas para a formação profissional e para o exercício da prática médica. Não é fácil ser protagonista deste processo, pois exigente do ponto de vista intelectual, tanto em sua formulação teórica como no exercício da práxis política.

Nesta busca, é preciso compromisso e sensibilidade para que o Estado Brasileiro, a sociedade, médicos e todos os profissionais de saúde possam garantir atenção básica à saúde nos pequenos, pobres e distantes municípios, com baixo IDH e indicadores de morbi-mortalidade vergonhosos.

O discurso político do sindicalismo médico cearense vem se estruturando em cima de verdades distorcidas, falseando a realidade. Não encontra lugar diante dos desafios colocados à categoria médica. Pela pobreza de argumentos, apelam para o grito, levantam a voz e partem para atitudes agressivas, tendo nos cubanos o alvo principal. Como é possível uma cultura de paz com comportamentos violentos?

Certamente, alguns estabanados, ao adjetivarem os colegas de “incompetentes” e “escravos”, não se apercebem que são escravos de uma vaidade desmedida, de sede de prestígio e um indisfarçado desejo de enriquecimento. Nos movimentos reivindicatórios por melhores salários, condições de trabalho, em defesa do SUS e saúde para todos, garantida a conquista salarial, as reivindicações “acessórias’’ são rapidamente esquecidas, e as pessoas à margem de qualquer atenção à saúde permanecem aonde estavam e estão abandonadas e sofridas.

Gostaria que os “valorosos manifestantes”, com a devida humildade, pedissem desculpas não só aos médicos e médicas cubanos, mas à sociedade pelo inconsequente e desastrado ato, incapaz de contribuir para o debate sobre os rumos da política de saúde em nosso País.

Neste momento cabe lembrar o pensamento de José Martí, herói Nacional de Cuba: “A verdadeira Medicina devemos ter em nossos corações”.

Mário Mamede
Médico

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

REVENDO GONZAGÃO NOS VERSOS DE DIDEUS SALES


Falar a respeito da obra monumental de Luís Gonzaga é tarefa das mais desvanecedoras, posto que trata-se de personalidade que deve ser inscrita entre os gênios da música popular brasileira com raízes fincadas nos adustos sertões nordestinos. A música de Gonzaga e seus parceiros foi haurida no solo seco dos sertões do Meu Padim Ciço e de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, mas paradoxalmente fértil para inspiração de quem nos proporciona a imensidão de muitos sonhares através da musicalidade de sua sanfona e de seu canto que encanta e protesta.

Todavia, encantamento redobrado é quando nos deparamos com poeta cantando e contando a história de outro poeta. Dideus Sales, poeta forjado sob o sol escaldante dos sertões do Crateús, onde o vento de Aracati já chega cansado e morno lá pelas horas décimas da noite, hoje habita na beira do mar da própria Aracati, berço de inspirados poetas, onde ele foi buscar vendavais de inspiração, mercê da qual nos tem oferecido para libações literárias, um poesia cuja relevância sonora e rítmica o inscreve entre os grandes nomes da poesia popular brasileira.

Neste ano em que se comemora em todos os quadrantes do Brasil, o centenário de nascimento de Luís Gonzaga, sanfoneiro insuperável e cantador inconfundível, eis que o poeta Dideus Sales dedilha sua lira e em versos cheios de fervor e melodia, conta a vida do filho de Januário, num preito de ímpar homenagem àquele cuja voz soa à audição do povo nordestino como um hino perene de estímulo à resistência e à luta pela liberdade e pelo direito inalienável a uma vida digna.

Os que somos nordestinos, comprometidos com os valores mais firmes e autóctones da raça sertaneja, rude e quase nômade, que ainda agora, em pleno século XXI se debate diante de uma seca atroz, cantamos dolentemente a “Asa Branca”, a “Triste Partida” enquanto reafirmamos a crença em que “seu doto uma esmola a um homem que são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

Esta sertanidade, a um tempo cheia de langor e de um sentimento de inquebrantável resistência diante das agruras da vida, se faz presente tanto na obra musical de Luís Gonzaga, quanto na obra poética de Dideus Sales. Quero crer que esta irmanação de espírito é a fonte de onde fluiu a inspiração que se faz presente nesta breve biografia versificada que ora Dideus nos presenteia.

Repito à saciedade quão belos são a poética e a música que emanam da criação desses dois artistas. E não descuro do fato – assim o entendo – que o chão crestado do Crateús e do Exu que os viu germinar, bem como o sol escaldante que lhes deu a luz que os faz brilharem além dos limites da nordestinidade, contêm a força que se esparge sobre todos nós através da imaginação aguçada pela Poesia. Dideus vai além dos limites de sua capacidade criativa toda vez que escreve. Desta feita, intuído pelos sonhos gonzagueanos e introjetado dos mais profundos desejos que o sertão desperta, não foi diferente. Temos uma obra poética para se ler e reler prazerosamente.

Barros Alves - Jornalista - no Jornal O ESTADO de hoje

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CONJUNTURA NACIONAL

As galochas, padre, as galochas!

Um padre da paróquia de Caratinga procurou, um dia, o renomado médico, dr. Edmundo Lima. Queixava-se de um prosaico, mas renitente resfriado. O médico constatou, de pronto, não se tratar de resfriado. A coriza não era nasal. O padre insistiu alegando haver pisado no chão do banheiro com os pés descalços. O doutor Edmundo, experiente, já havia feito o diagnóstico: uma baita blenorragia. O médico sentiu o drama do sacerdote. Receitou os remédios da época para curar blenorragia, com um conselho:

- Olha, padre, quando o senhor for tomar banho não se esqueça de usar galochas. Elas são de borracha, garantidas, e não deixam passar a friagem que provoca essa coriza que lhe está atormentando. Padre, as galochas, viu?

- Ah! Já ia me esquecendo: é bom que o senhor bispo não fique sabendo desse resfriado. Padre, todo cuidado é pouco!

(A historinha é do mineiro Zé Abelha).

Crise de autoridade

A onda de manifestações que tomou conta de ruas e praças de capitais e grandes cidades, nos últimos tempos, abre um amplo cenário que junta demandas gerais, reivindicações pontuais, gestos e atitudes que embasam as ações de grupamentos, setores e categorias profissionais. Tudo isso já foi suficientemente diagnosticado. Mas pouco se destacou sobre um fenômeno que tem marcado o atual ciclo político-institucional : a leniência e a incapacidade do poder do Estado para coibir os atos que culminam com a depredação de propriedades tanto na esfera privada quanto na esfera pública (prédios, lojas, sedes de governos, monumentos, etc). Essa evidência aponta para uma crise de autoridade. O vandalismo, na forma do poder invisível, desafia o poder visível, o poder formal, o poder do Estado.

Medo de reagir

As autoridades governativas, possivelmente receosas de voltarem a ser alvo de manifestações e intencionando vestir sua imagem com o manto da democracia, reagem de maneira tumultuada e errática, acabando por alavancar os tumultos. A quebradeira nas ruas tem sido responsável pela retirada tática de apoio que setores das classes médias ofereciam aos movimentos. O Brasil da bandalheira, com sua fotografia de depredação, começa a ocupar o lugar do Brasil cidadão, que foi às ruas para mostrar sua indignação contra o status quo.

A moldura congressual

Após um primeiro momento - quando parecia interpretar os ecos das ruas e a atender às demandas sociais - as casas congressuais voltam à rotina das agendas, na esteira de uma previsibilidade de interesses dos grandes partidos. O Senado, ao que se observa, está mais inclinado a ouvir os pleitos do Palácio do Planalto. A Câmara continua pautando temáticas importantes, mas a melhoria dos índices de avaliação da presidente Dilma tem contribuído para arrefecer os ânimos e a aplacar a insatisfação da base governista.

Mudança de atitudes

Ademais, a presidente tem mudado seu comportamento em relação aos congressistas. Dá sinais de que quer ouvir mais os pleitos; dá ordens para liberar emendas de parlamentares, dentro de critérios razoáveis; vai aos eventos que reúnem muitas pessoas em diversos Estados; ou seja, desenvolve uma liturgia política mais aberta e do gosto dos atores políticos. Lula, diz-se, tem atuado como guru da presidente, dando indicações, fazendo sugestões, apontando correções de rumo, enfim, usando sua experiência de raposa matreira para evitar tiroteios sobre o alvo principal do Planalto.

Cenários - I

Dilma continua sendo a favorita no pleito de 2014. E as razões começam pelo plano da economia. Não há indicações de que a economia saia dos trilhos a ponto de destroçar o trem das políticas sociais e prejudicar o ponto mais sensível do brasileiro : o bolso. As previsões apontam para dificuldades pontuais - um pontinho a mais na inflação, atrasos no cronograma de obras - mas não há previsão de catástrofe. Esse cenário, mesmo com um pouco de tumulto, não seria suficiente para derrubar o favoritismo da presidente em 2014. A economia norte-americana se recupera e volta a puxar massa estupenda de recursos. Não a ponto de inviabilizar o feijão com arroz brasileiro.

Cenários - II

A ameaça mais próxima da presidente tem o nome de Marina Silva. Que se identifica com a nova política. Mas a nossa Madre Teresa de Calcutá ou, se quiserem, nossa irmã Dulce teria muitas dificuldades de enfrentar uma guerra sangrenta. Não aceitará recursos de empresas; não fará parcerias importantes para eleger governadores, senadores, deputados Federais e estaduais; não teria espaço de mídia eleitoral capaz de garantir alta visibilidade e exposição de seu escopo. Sob essa teia de carências, pode-se deduzir que morrerá antes de chegar à praia. Claro, se puder contar com sua Rede Sustentabilidade, a ser criada até 5/10. Admitamos, porém, que Marina vá ao segundo turno e ganhe a eleição. Com sua ojeriza à velha política e descarte da estratégia de parcerias com os grandes partidos, a hipótese aponta para a impossibilidade de criar condições de governabilidade.

Cenários - III

Aécio Neves será o candidato das oposições. Mais precisamente, do PSDB. Porque o parceiro tradicional dos tucanos, o DEM, já admite que poderá vir a apoiar a eventual candidatura de Eduardo Campos, governador de PE. Aécio, ademais, tem dificuldades de produzir um discurso nacional. Critica por criticar, sem apresentar alternativas viáveis, uma proposta densa para o país. Por exemplo, sua crítica desta semana teve como foco o fato de Dilma ter discursado, numa cidade mineira, de costas para o busto de Tancredo Neves. Foi ovacionado pelos mineiros. Mas, aqui prá nós, esse detalhe está eivado de demagogia. E não contém substância. Perfumaria.

Cenários - IV

Eduardo Campos esteve duas vezes em SP na última semana, sempre em encontros com empresários de grande porte. Critica a presidente, destacando a sua falta de liderança. Entusiasma as platéias. Começa a comer pelas beiradas. Na visão deste consultor, tira mais votos das oposições do que votos de Dilma. Em vez de prejudicar a presidente, pode empurrar a campanha para o segundo turno. Nesse momento, se forem Marina ou Aécio os candidatos ao lado de Dilma, no segundo turno, é evidente que o governador de PE voltaria a fazer aliança com a presidente. Sob o aconchego de Lula.

Cenários - V

E Lula, em alguma hipótese poderia voltar a ser candidato ? Sim. No caso de um desastre na economia. Desastre, não um pequeno tombo. Lula seria instado a aceitar a tarefa. Mesmo contrariado. Até porque sabe que pegaria um país muito diferente do que aquele que governo nos oito anos de seus dois mandatos. A moldura internacional não favorece o país. A crise virá mais cedo ou mais tarde. Tudo se faz nesse momento para empurrar os efeitos de uma crise para 2015, depois das eleições. O fato é que o ciclo da polarização entre PT e PSDB está se esgotando. Se ainda conserva fôlego, é por falta de novas lideranças.

Cenários - VI

E José Serra? Viverá seu crepúsculo se for candidato à presidente da República pelo PPS, de Roberto Freire. Terá votos, sim, mas não suficientes para entrar em um segundo turno ou ameaçar qualquer concorrente. Serra está no final de seu ciclo de vida político. Poderia ser candidato ao Senado, em SP, ou até a deputado Federal. Mas sua ambição olha mais alto. Diz-se, a boca pequena, que está com um pé no PPS. Que engordaria um pouco a bancada com Serra puxando a lista de candidatos do partido.

Eu tenho um sonho

Hoje, faz 50 anos do famoso discurso de Martin Luther King. Vale a pena lembrar o final.

"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto. Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos, de qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!" E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar verdadeiro. E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire. Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas de Nova York. Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da Pennsylvania. Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado. Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia. Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee. Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi. Em todas as montanhas, ouvirei o sino da liberdade. E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo Estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e cantar nas palavras do velho spiritual negro: "Livre afinal, livre afinal. Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal." 28 de agosto de 1963

Alckmin

Geraldo Alckmin poderá ter a maior dificuldade de sua vida política. Alckmin é um dos mais sensíveis e humanos perfis da política. Uma pessoa boa, como se diz entre amigos. Mas não construiu uma identidade, entendida como um conjunto de conceitos, valores e princípios que formam a construção do perfil. É um tocador de obras ? Hum... É um governante voltado para a esfera social ? Hum... É um gerentão ? Hum... É um cara determinado, corajoso, zangado como Mário Covas ? Hum.. É uma pessoa boa. E tem fama de honesto. Mas a identidade, mesmo, deixa a desejar. Terá dificuldades.

Padilha

O candidato ao governo de SP deverá ser mesmo o ministro Alexandre Padilha. Envolvido em polêmica. O programa Mais Médicos poderá ser aplaudido pelos fundões do país, beneficiando Dilma, mas nos grandes centros, terá a oposição dos médicos brasileiros e suas entidades. Mas o PT, vale lembrar, tem seus 30% históricos em SP. Lula conhece bem essa demografia eleitoral. Pode crescer? É possível. Mas o PT está puxando o último rolo de sua linha histórica. E se Haddad não estiver com boa imagem? Vai puxar também Padilha para baixo.

Skaf

Paulo Skaf poderá ser a surpresa do pleito. Hoje, já agrega cerca de 20% dos votos, segundo a última pesquisa Datafolha. É um índice surpreendente. Trata-se do pré-candidato do PMDB, presidente da FIESP, um bom articulador e que se movimenta bastante. Corre de um lado para outro, fazendo inaugurações de escolas do SESI e SENAI, desenvolve uma agenda plena de contatos com bases. Um perfil arrojado. Pode ser o contraponto à cansada polarização entre PSDB e PT. Como candidato do PMDB, teria condições de reagrupar o partido em SP.

Pezão e Lindbergh

Será difícil ao PT e ao PMDB chegarem a um acordo no RJ. Cada qual sairá com seu candidato. Por parte do PT, o senador Lindbergh Farias já conta com o passaporte do partido. Por parte do PMDB, o candidato será o vice-governador Luiz Fernando Pezão. Pois bem, Sérgio Cabral, antes da movimentação das ruas, tinha chances de conduzir Pezão nas costas. Tornou-se o governador mais atingido pelo tiroteio. Será difícil a jornada. Lindbergh tem problemas antigos a resolver, desde os tempos em que foi prefeito de Nova Iguaçu. Denúncias de corrupção. Cada qual com seu calvário.

Espelho de um corpo apaixonado

O corpo apaixonado, dia após dia
derrete no vento
vira perfume
volteia evoca outros perfumes
chega às camas
cobre os sonhos se evola volta
é como incenso
seus poemas primeiros lembram
o sofrimento de uma criança -
perde-se olhando o redemoinho das pontes:
como ficar nessas águas? Como sair?

Poema de Adonis, traduzido por Michel Sleiman

Conselho aos governantes

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes, membros dos Poderes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos membros do STF. Hoje, volta sua atenção aos governantes:

1. Atentem para a quadra em que vive o país. Por todos os lados, clama-se por ordem, por autoridade. Façam cumprir a lei. Evitem que a desordem tome conta das ruas.

2. Urge coibir o vandalismo dos mascarados. Democracia implica liberdades de manifestação, associação, livre expressão, religiosa, etc. Mas nenhum cidadão tem o direito de colocar uma máscara e ocupar as ruas para praticar atos de depredação.

3. O exercício democrático pressupõe o respeito à ordem jurídica. Que impõe, por sua vez, a necessidade de garantia dos direitos individuais e coletivos, sempre na esteira da obediência aos princípios legais.

(Gaudêncio Torquato)