terça-feira, 12 de junho de 2012

OBSERVATÓRIO

Na Semana que passou celebrou-se o meio ambiente. Segundo Antonio Luis Francisco, o meio ambiente é “um tema cada vez mais recorrente no dia a dia dos governos, das empresas e das pessoas. Embora o planeta ainda sofra bastante os efeitos do desenvolvimento da humanidade, a conscientização quanto à necessidade de preservá-lo tem sido ampliada, com muitas iniciativas — pequenas ou grandes — que visam proteger o que temos de melhor: a natureza”.

O MEIO AMBIENTE

Eis um assunto essencial para os candidatos a Prefeito: a preservação do meio ambiente, o cuidado com os recursos naturais. Por que ninguém estabelece, como meta de campanha, que a cidade atinja um índice de ser a mais arborizada do planeta. Em regiões quentes como a nossa, por que não inserir no programa de governo a edificação de bosques, ampliação da área plantada, a disseminação de pulmões verdes na delimitação urbana? Mais árvores, mais sombras, mais espelhos d’água = clima mais ameno. Melhor qualidade de vida.

DEFINIÇÃO

Esta semana pode ser decisiva para as Oposições Unidas em Crateús. Virá a lume uma pesquisa encomendada para saber o índice de popularidade dos pré-candidatos. Vários cenários foram desenhados. Obviamente, com os dados na mão, estaremos próximos da decisão definitiva da chapa. A esta altura, todos correm contra o tempo. O prazo limite para a realização das convenções que escolherão os candidatos expira-se no final deste mês. O tempo urge.

NOVO ORIENTE

Sábado passado, em Novo Oriente, na casa do Vice-Prefeito Godofredo, o Godô, foi anunciada a aliança do seu grupo (liderado por Nenen Coelho e Rodrigão) com o grupo de Neto Vidal. Foi uma espécie de reação ao anúncio de rompimento promovido pelo ex-prefeito Valdeci Coelho. O espaço da ampla residência de Godô foi pequeno para a grande multidão que lá acorreu. Neto Vidal mostrou força. Levou um grupo expressivo de lideranças oposicionistas e fez um discurso inflamado. Godô pediu a união de todos e anunciou que pretende fazer a diferença no município.

NOVO ORIENTE II

Após Rodrigão, que conclamou o empenho de todos, ocorreu o recado mais duro da noite, dado pelo Deputado Nenen Coelho. Depois de uma longa explanação sobre os últimos episódios da política de Novo Oriente, em que ficou claro o seu empenho e ajuda para a ascensão política de Valdeci, Nenen declarou guerra ao primo. Mostrou que foi construída a maior e melhor aliança em favor da população de novorientense. Disse que, ali, Neto Vidal representava um grupo forte com ramificação estadual e federal. Por trás dele estava o apoio de um grande contingente de lideranças populares, vereadores, do vice-governador Domingos Filho e do Deputado Federal Domingos Neto. Essa junção de forças permitirá que a próxima gestão viabilize mais obras e realizações que a atual.

INDEPENDÊNCIA

Independência vive um momento de indefinição. Um problema de saúde ocorrido com o pré-candidato Valterlin Coutinho suscitou dúvidas na população sobre a candidatura oposicionista. No grupo da situação permanece, também, um clima de apreensão. O doutor Bezaliel, o nome mais forte do bloco, enfrenta resistências.

IPAPORANGA

O líder Nilson Moreira vai enfrentar o mais duro teste à sua liderança nas eleições deste ano. Sua esposa, a Prefeita Ybsen Keith Catunda Lima, enfrentará o ex-Prefeito Antonio Alves Melo, o Toinho Contábil. Desde 1988 Nilson vem obtendo sucessivas vitórias. Este ano enfrentará um ex-aliado, que também já esteve à frente da municipalidade. Toinho e Keith são candidatos carismáticos. É uma disputa que promete.

PORANGA

Em Poranga estão praticamente certas as candidaturas de Cárlisson Emerson, atual vice-prefeito, e do professor Adriano. Pesquisas apontam favoritismo para o doutor Cárlisson, profissional da área de saúde. Independente de quem seja o eleito, essa eleição marcará época: depois de muitos anos, a cadeira de Prefeito do município serrano será ocupada por alguém que não possui o sobrenome Pinho.

TAMBORIL

A disputa em Tamboril deverá ser polarizada por Ramiro Júnior, candidato do Prefeito Jeová, e o vereador Pedro Calisto, candidato da oposição. Pesquisas apontam leve vantagem para o candidato Ramiro. Em casos assim, repercutirá muito a candidatura que der mais volume à campanha. É aguardar para ver.

PARA REFLETIR

“É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a ouve”. (Victor Hugo)


(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, de Crateús, Ceará)

15 ANOS DA GAZETA

O biógrafo Lira Neto, na acurada pesquisa que realizou sobre o escritor e político cearense José de Alencar, relata com detalhes a intimidade dos jornais com a produção literária no período imperial.

Os periódicos de uma maneira geral se constituíam no principal estuário da efervescência cultural daquelas distantes eras.

O estilo literário do cearense de Messejana, também conhecido como romance de costumes, em que se destacam livros como Diva, Lucíola e A Viuvinha, passando pelos romances regionalistas tipo O Sertanejo e O Tronco do Ipê, incursionando pelos históricos As Minas de Prata e A Guerra dos Mascates, até chegar ao mundo indianista por meio de Iracema e O Guarani, foi sempre inicialmente festejado na imprensa. Os jornais da época publicavam, em primeiríssima mão, capítulos de suas obras.

Mais do que pergaminhos noticiosos, os jornais cumpriram ao longo da história a solene missão de fornecer aos apreciadores da leitura a porção estrelada dos fonemas, o delicado perfume da crônica, o fermento sedutor da poesia.

Nesta edição o Jornal Gazeta do Centro Oeste finca o mourão dos quinze anos de existência, saúda a alegria vital e estende à retina de todos a faixa de feliz aniversário!

Há uma década e meia João Aguiar idealizou este quinzenário. Convidou amigos e autoridades, preparou uma grande festa e exibiu o recém nascido à luneta da comunidade sob paternal emoção.

Depois de algum tempo passou a tocha para César Vale, que o pôs no topo do console: é o mais longevo forno de formação e informação escrita da nossa centenária cidade. Poucos sabem ou imaginam ou têm ciência ou se dão conta de quão meticulosa ou árdua ou exigente é a tarefa de organizar um Jornal. Hercúlea função.

Sei que o seu editor às vezes encetou campanhas em que recebeu pedradas de incompreensão. Polemista arrojado, já levantou bandeiras fulgurantes, como aquelas bordadas com as cores da nossa flora, exibindo as palavras de ordem de defesa do meio ambiente. Em outros momentos, esposou posicionamentos políticos que geraram reações adversas. Não quero aqui entrar nesse terreno. Não quero por na mesa de hoje o cálice amargo ou derramar o líquido ácido, apesar de sabê-los indispensáveis ao ofício jornalístico.

Quero, em especial, reconhecer o contributo saudável. Valorizar o mérito prazeroso. Enaltecer a dignificante edificação.

O Jornal Gazeta do Centro é responsável por grande parte do banquete cultural que a cidade de Crateús hoje experimenta.

Como o periodismo dos tempos do Império, aqui tivemos a oportunidade de conhecer em primeira mão a fluência literária de bons mestres das letras.

Algumas pessoas se revelaram luminares da escrita, talentosos manejadores das palavras através da incubadora deste periódico. A cidade hoje festeja nomes que se revelaram exímios cronistas pelas colunas da Gazeta. Flávio Machado é um exemplo desse movimento de fecundidade literária.

O nosso Silogeu, a Academia de Letras de Crateús, teve seu primeiro estalo levado aos tímpanos da população por estas páginas. Quantos e quantos movimentos outros de emoção e sensibilidade, de alegria e cidadania emergiram do leito deste Jornal?

Aqui se ouviu o primeiro grito contra a algazarra, o barulho ensurdecedor, a perturbação do sossego alheio. Daqui explodiu uma luta renhida contra a poluição e em favor do equilíbrio sonoro.

Só para citar outro exemplo: quem não lembra de ter lido as garrafais letras que denunciavam a crueldade ante o tombamento injustificado de árvores centenárias? Foi por estas páginas que escorreram as primeiras lágrimas oriundas daquelas caudalosas raízes...

Por dever de justiça impõe-se que reconheçamos a dedicação obstinada, a tenacidade guerreira do editor destas páginas. Este tem sido um Jornal forjado por múltiplos colaboradores, mas que se sustenta em uma só coluna: César Vale. Sei que não raro o concreto do tempo o açoita. Espero que não o desestimule.

Nesta edição desejo, de coração, que o único veículo de comunicação local com capilaridade nacional continue a ser um elo integrador da conterraneidade. Mas que, sobretudo, sobre tudo, continue sendo um semeador de letras que fortaleçam o espírito, animem a esperança e alimentem o altruísmo humano.

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, de Crateús, Ceará)

segunda-feira, 11 de junho de 2012

PARABÉNS, MARÍLIA!



Hoje é dia de cantar Parabéns para Marília, primeira filha do nosso sangue.

Cachoeira de espontaneidade, imantada de expansividade, desprovida de malícias e madrinha da bateria da boa vontade, encanta a todos que com ela convivem.

Sem esforços artificiais, adentra com naturalidade na mina delicada da nossa alma e se faz hóspede definitiva do espaço mais íntimo do nosso coração.

TE AMAMOS!


(Júnior Bonfim)

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Oi, Marília!

Depois da preciosidade que o teu pai te dedicou fica difícil pra gente escrever alguma coisa, contudo manifesto carinhosamente o meu desejo de feliz aniversário e vida promissora, nesta simples estrofe:


Doce Marília, que Deus

Borde os teus dias risonhos

E ornamente os teus sonhos

Como tu sonhas Marília!...

Que exales em abundância

Os halos da juventude

Com muita graça e saúde

No coração da família!...


(Dideus Sales)

AMANHÃ É DIA DA EDIÇÃO DE ANIVERSÁRIO DO JORNAL GAZETA DO CENTRO OESTE



CAÇADORES DE TESOUROS




Nunca o implacável tempo deu um mero sinal de cansaço na função de arrastar o mundo em redemoinho voraz, consumindo tudo, devorando a todos e deixando escassas imagens estampadas no ar, como vulto de um passado.

Ele sempre transpassou borrifando um ácido corrosivo na pele das coisas que se alteram, impreterivelmente, compondo aparêcias sombreadas decorrentes de um lento processo de metamorfose.

É quando a nossa atenção se volta para outro rumo, para o que é mais ostentoso aos olhos, sempre sequiosos por uma novidade, sedentos por mudanças.

E assim, as essências das épocas caem num esquecimento impiedoso, sem data prevista para acabar. É como se bebesse a água de um dos rios de Hades na Grécia antiga, o célebre e lamacento Lete, que cruza a morada dos mortos com seu fluido aquoso a provocar um demente olvidamento. A realidade transitória das coisas, como os homens, está sujeita a esta maresia, mesmo que esteja bem longe do mar. É necessária uma compleição forte para burlar o zelo profano do tempo em nos repostar como poeira da eternidade, e só conseguem este grande feito os tesouros verdadeiramente determinados, os que já deixaram em seu pretérito a feição da imortalidade.

A estes, que brilham mesmo na escuridão momentânea do esquecimento, o destino sempre dará um jeito para que voltem a cintilar, fazendo com que alguns devolutos cidadãos se transformem em caçadores de talentos perdidos, incumbindo-se da nobre missão de procurá-los: — Oh, doce brisa do norte, avistaste algum disperso poeta por aí? Saímos a revirar as entranhas abissais da terra, investigando nas fendas do tempo, auscultando seu tíbio sopro e até pomo-nos a catar nos entulhos abandonados pelos desleixados entes queridos, tudo para redescobri-los e salvá-los, e a isso nos dispomos.

Como os três mosqueteiros de Alexandre Dumas, Athos, Porthos e Aramis, partimos, eu e meus intrépidos companheiros: Edmilson Providência, um cabra bem oh xente, que veste o manto da composição poética, e o nobre historiador Flávio Machado, rumo à aventura, numa atitude que já se tornou bem habitual.

Havia começado “a busca”, casualmente, numa pesquisa de campo nos distritos de Crateús para o Livro dos 100 Anos, quando admirado soube da existência do poeta de Monte Nebo, Nelson Sabóia Barros, nascido no sopé da Serra Grande e de lá partiu, maturado e afeito ave migrante, para se revelar na distante cidade de Sobral, sob os olhares do poderoso Dom José Tupinambá da Frota.

A esse, Monte Nebo com certeza lhe dará mérito, e louvará a sua gloria como se deve exaltar a um filho querido que transporta nos ombros e nos versos a história de seu lugar.

Era como se levássemos uma quartinha com as águas do rio Mnemósine, a contraparte do Lete, e ao chegarmos no Curral Velho dos Bonfim aspergimos a água benta da memória e pululou poetas de todo canto, como se estivessem em sortilégio por muito tempo e agora vicejam e versejam ao vento. O Curral Velho é um grande celeiro de poetas. Só tivemos que separar direitinho, com ajuda do vate Dideus Sales, o enganoso joio do essencial trigo.

O Bastiãozinho, debaixo de uma velha casa alpendrada, observava-nos com um olhar penetrante e com certeza já sabia o que fazíamos por ali, pois nada disse e nada perguntou. Devia refletir sobre o destino de outro vate, seu amigo, que fora morar na cidade aos cuidados da família, o ativo e falante Datim Bonfim que gosta de recitar: “Tem quatro coisas no mundo/ Que faz eu trocer o camim/ Uma rodia de cascavel/ Uma briga de guaxinim/ Dos bebos do Curral Velho/ Ser morador dos Bonfim”.

O poeta Junior Bonfim, essência e pó do extremado nectário do Curral Velho, foi quem nos lembrou, no Livro do Centenário: “Foi um fidalgo das letras que teve a graça de alcançar os píncaros da glória!”. E saímos à procura dele - José Coriolano de Souza Lima, o Príncipe dos Poetas - um grande crateuense.
O pesquisador incansável, inquiridor metódico, um perfeito historiógrafo, Flávio Machado, liga-me dizendo que no Livro “Meus Avos” de Raimundo Raul Correia Lima, na página 247, poderia encontrar os dados exatos do poeta.

E vi entre as páginas amareladas deste livro, que conta a história da família correia Lima, a grande festa em homenagem ao vate crateuense.

A missa solene, no dia 30 de novembro de 1947, um ensolarado domingo, já havia acabado e o Pe. José Maria Moreira do Bonfim abençoou a lápide em que se encontram os restos mortais do poeta, quando todos foram convidados a se dirigir ao largo, no lado esquerdo da matriz, onde um pano encobria, como surpresa, um monumento.

O prefeito, Dr. Afonso de Almeida Vale, depois de descerrar o busto revelando um rosto fino sob um cabelo ondulado, o nariz afilado e um brônzeo olhar de poeta perscrutador, foi primeiro a falar. Advogado, de palavra fácil, exímio orador, encantou a plateia que se aglomeravam em círculo apurando a audição para ouvi-lo melhor. O doutor aproveitou a ocasião e mostrou seus dotes de excelente declamador, recitando o poema Crateús: “..... terra, onde a alvorada/ Primeira pra mim raiou!/ Onde a primeira morada/ Meu pai querido assentou! // Onde o galo, à madrugada/ Cantando me despertou!/ Onde à primeira alvorada/ Ouvi-lhe o có-corô-cô!”

Uma salva de palmas ecoou infundindo inveja aos badalos dos sinos que assistiam do alto das duas torres da matriz. Os vereadores presentes, Leônidas Bezerra de Melo, Chico Gomes, Tobias Soares Resende entre outros, olhavam sentindo vontade de ter sido deles aquele momento de exaltação ao digníssimo poeta. Encerrada a festa, todos se dirigiram a suas casas, buscando repousar para mais uma semana de trabalho.

A quem afirme que a vida é uma lousa e o destino quando quer escrever um novo caso precisa apagar o anterior, só para confirmar que esquecer é uma necessidade. Mas isso é para as lembranças imediatas e passageiras. O que se viveu intensamente nas cordas do coração, não se pode desprezar; as pegadas marcadas na alma são indestrutíveis.
Mas o implacável tempo que nunca deu um mero sinal de cansaço na função de arrastar o mundo em redemoinho voraz, fez o busto sumir, desaparecendo, levando até a lembrança do poeta.

Dizem que a família o retirou pelo descaso e abandono com que se encontrava em plena praça, comprovando que a ingratidão tem memória curta.
Foi quando os três mosqueteiros, como uma infalível cavalaria, entraram em ação numa descomedida busca pelo torso do poeta. Conjecturava-se: — Um busto tão pesado não pode ter saído a andar por ai, ou criado asas imitando a imaginação de poeta Coriolano! Por fim, alguém afirmou: — Tenho certeza de que o busto foi derretido! Uma tristeza enorme apossou-se dos animados caçadores de poetas, deixando-os em desalento profundo e, com olha incrédulo, perguntávamos ao vazio: — Como pode um líquido brônzeo que representa nossa poesia, escoar pelo ralo da ingratidão e desaparecer nas coxias da ignorância?

Como Aramis, um racionalista, detalhista e corajoso, o poeta Edmilson Lopes logo arranjou novas soluções e mobilizou a família inteira do poeta, espalhada pelos lugares por onde ele palmilhou o seu encantamento e seu valor. Premedita-se uma nova festa como aquela do domingo batido de sol, no ano 47, quando um novo busto resplandecerá na Praça José Coriolano, provando que o coração do poeta ainda pulsa e sua mente ainda vive.

E sinto-me um pouco o Athos, desacreditado e desiludido com os tristes fatos da vida, mas já mandei fazer uma roupa nova, como aquela de primoroso brim que minha mãe sempre me presenteava no natal para ir à praça. Tomara que na festa do retorno do Poeta José Coriolano, tenha o saboroso bolo de milho e o delicioso aluá feito com água do memorável Poti, para reviver alguns momentos felicidade. E antes que me esqueça, meu(minha) querido(a) amigo(a), você também está convidado.

Raimundo Candido

quarta-feira, 6 de junho de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Esselentíssimo juiz

Abro a coluna de hoje com uma engraçada historinha envolvendo advogados e juízes.

Ao transitar pelos corredores do fórum, o advogado, que também era professor, foi chamado por um dos juízes:

- Olha só que erro ortográfico grosseiro temos nesta petição. Que coisa vergonhosa!

Estampado logo na primeira linha do petitório lia-se:

"Esselentíssimo juiz".

Gargalhando, o magistrado perguntou ao advogado:

- Por acaso, professor, esse advogado foi seu aluno na faculdade?

- Foi sim - reconheceu o mestre. Mas onde está o erro ortográfico a que o senhor se refere?

O juiz pareceu surpreso:

- Ora, meu caro, acaso você não sabe como se escreve a palavra Excelentíssimo?

Então explicou o professor:

- Doutor juiz, acredito que a expressão pode significar duas coisas diferentes.

Se o colega desejava se referir a excelência dos seus serviços, o erro ortográfico efetivamente é grosseiro. Entretanto, se fazia alusão à morosidade da prestação jurisdicional, o equívoco reside apenas na junção inapropriada de duas palavras.

O certo então seria dizer:

"Esse lentíssimo juiz".

....Silêncio geral!

Depois desse episódio, aquele magistrado nunca mais aceitou o tratamento de "Excelentíssimo juiz", sem antes perguntar:

- Devo receber a expressão como extremo de excelência ou como superlativo de lento?

Ressentimentos

O que significa uma montanha de emendas sobre uma MP? Pode significar participação maciça do corpo político sobre as medidas provenientes do Executivo; pode significar tentativa de ajuste, melhoria, aperfeiçoamento do instrumento normativo. Mas grande quantidade de emendas a uma MP também pode ser considerada um sinal explícito de insatisfação dos parlamentares com o andar da carruagem movida pelo governo. É o que se infere das 620 emendas apresentadas para alterar o novo Código Florestal. A Comissão mista vai analisar a admissibilidade da MP e o senador Luiz Henrique (PMDB/SC) vai apresentar um cronograma de trabalho.

Mágoas acumuladas

É sabido que o poço de mágoas aberto na Câmara Federal em decorrência do trato que o Executivo vem dando às demandas parlamentares se aprofunda. A presidente Dilma Rousseff tem tratado a base governista a pão seco e água salobra. Os ressentimentos se acumulam. Os partidos não abrem críticas porque temem puxão de orelhas da presidente. Que tem, de maneira lenta e gradual, expurgado espaços, limpado áreas até então ocupadas pelos partidos da base. No território da Petrobras, os partidos ficaram a ver navios. Fala-se que o sistema Eletrobrás está na mira. Esse processo culminaria com a saída do ministro Edison Lobão do Ministério das Minas e Energia. Saindo, o ministro deixaria livre o caminho para uma drenagem no entorno. Para compensá-lo, a presidente quer vê-lo na presidência do Senado na próxima legislatura.

Combinar com os russos

Mas a presidente precisaria combinar essa jogada com os russos. Não apenas com os ursos do PT. Combinar com os russos quer significar fazer uma eficiente articulação junto ao PMDB, que tem o maior número de jogadores no plenário da Casa senatorial. Também tem o significado: combinar com os técnicos dos russos, a partir dos senadores José Sarney e Renan Calheiros. Especula-se que Sarney gostaria de patrocinar essa jogada por considerar Lobão um jogador de seu time. Mas Sarney deve ter suas restrições. No Senado, o técnico Renan Calheiros, que lidera a bancada do PMDB, tem voz ativa. E Renan não vai desistir com facilidade da presidência da Casa.

Governo de Alagoas?

A presidente Dilma já sinalizou a Renan que gostaria de vê-lo no governo de Alagoas. E teria se comprometido a apoiá-lo. Mas esse apoio mais parece abraço de urso. Mais apertado que afetuoso, mais estrangulador que amaciador. Sarney, por seu lado, sabe que o deslocamento de Lobão para a presidência do Senado implica ver espaços da Eletrobrás, onde teria alguma influência, desocupados. Neles a presidente fincaria estacas impermeáveis às pressões políticas. E assim, de grão em grão, de cargo a cargo, Dilma plasma o governo à sua imagem e semelhança.

Bumerangue

Sob o prisma estratégico, que leva em conta a necessidade de a presidente dotar o governo de todos os meios e recursos para atingir as metas que pretende, substituir gestores políticos por administradores técnicos é uma medida não apenas compreensível mas recomendável. Estamos falando dos cargos nas empresas governamentais. Ocorre que os partidos que perdem posições precisam ser recompensados. Sob pena de partirem para uma retaliação. Que pode ser no médio prazo. Já nos espaços políticos - presidências das Casas Legislativas - o risco da presidente é bem maior. Ali os interesses de partidos e blocos se cruzam. A cartilha do Executivo não é bem digerida quando dá receitas fortes. Por isso, a intenção de Dilma de querer eleger presidentes nas duas Casas que rezem pelo seu missal causa muita contrariedade.

Auge da popularidade

A presidente arrisca-se a operações políticas mais complicadas porque atingiu o pico da popularidade. Conta com quase 80% de aprovação. Logo, tem respaldo da comunidade nacional para adentrar em territórios dominados por interesses políticos. Se, daqui a pouco, sua popularidade começar a cair, será mais difícil tomar atitudes duras na frente política. O momento é esse. Ela age sob a crença de que "ou vai ou racha". Os partidos, por sua vez, aguardam o momento para o contra-ataque. Que, mais cedo ou mais tarde, virá. Na forma de desaprovação de pautas e nomes indicados pelo Executivo e que tenham de passar, necessariamente, pelo crivo do Parlamento.

Presidência do Senado

Quanto à presidência do Senado, está muito cedo para se projetar cenários mais claros. Lobão até pode querer enxergar esse horizonte, sob a indicação de que seu ciclo nas Minas e Energia está com os dias contados. Renan, por sua vez, administra o tempo observando, examinando, avaliando, conversando aqui e ali, falando pouco e agindo muito nos bastidores. No momento certo, tomará a decisão : colocar a bagagem no plenário e tomar o pulso dos senadores ou fazer as malas e correr para as Alagoas.

Câmara

Já na Câmara dos Deputados, o nome mais evidente para assumir o lugar de Marcos Maia (PT/RS) é o do deputado Henrique Alves. Por sinal, o mais antigo parlamentar, o que carrega nas costas o maior número de mandatos: 11. Henrique é o nome do PMDB e de confiança do vice-presidente da República, Michel Temer. Querer colocar alguém no lugar de Henrique, por parte de quem quer que seja, seria uma operação de alto risco. Há um compromisso formal do PT com o PMDB para que este indique o nome para dirigir a Casa na próxima legislatura. É claro que todos esses cenários ficarão mais aclarados após as eleições de outubro. Se o PMDB continuar com o maior núcleo de prefeitos, certamente reforçará seu cacife. A conferir!

Mais turistas estrangeiros

Com o câmbio desfavorável, a conta de gastos de turistas no exterior tende a arrefecer. É um bom momento para inverter essa matemática, inclusive facilitando a entrada de turistas vindos de além-mar. As divisas dos estrangeiros são alvo de cobiça de toda a cadeia econômica do turismo. Tramita no congresso uma matéria que flexibiliza os processos para turistas estrangeiros. Trata-se do Estatuto do Estrangeiro, cujo relator é o deputado Cadoca, de Pernambuco. O parlamentar é uma das referências no legislativo nas questões afetas ao turismo nacional.

Mare nostro

O setor de Cruzeiros Marítimos realizou em São Paulo o seu evento maior. Voltado aos agentes de viagens, o Cruise Day/Fórum Abremar contou com a presença do deputado Jonas Donizette que mostrou conhecimento da causa e citou números positivos sobre a atividade. Jonas, que lidera a corrida para a prefeitura campinense, sabe do que fala. Já presidiu a Comissão de Turismo e Desporto da Câmara no ano passado e desempenhou importante papel frente àquele colegiado arregimentando simpatia do trade em sua estreia no legislativo Federal.

Brasil menos competitivo

No debate entre agentes, autoridades e demais players do setor de cruzeiros marítimos, no Cruise Day 2012, os participantes puderam compreender melhor os gargalos da atividade. Entre eles, os altos custos operacionais e a limitada infraestrutura portuária que, pela primeira vez, devem causar redução de 15% na oferta da próxima temporada. "As discussões ganharam muito com o interesse do trade, em especial, dos agentes de viagens que agora entendem o motivo pelo qual a temporada será menor", revela o presidente da Associação Brasileira de Cruzeiros Marítimos, Ricardo Amaral.

Destino em alta

Durante sua participação na Aliança das Civilizações, o vice-presidente Michel Temer foi informado de que os turistas brasileiros estão em alta na Turquia. Istambul era o destino escolhido por cinco mil brasileiros por ano, segundo a imigração turca. Em 2011, esse número saltou para 91 mil. E deve crescer ainda mais: a Globo está desembarcando para filmar a novela Salve Jorge naquele país a ser exibida no horário das nove horas.

Vice em alta

O primeiro-ministro da Turquia, Tayyip Erdogan, prestou muitas homenagens ao vice-presidente brasileiro, Michel Temer. Erdogan o recebeu na entrada do palácio do governo em Istambul, elogiou o Brasil, falou dos laços de proximidade com o ex-presidente Lula, chamou a presidente Dilma de "irmã" e mostrou boa vontade de aumentar o intercâmbio comercial com o Brasil. A começar pela Embraer, cujo possível negócio com a Turkish Airlines pode chegar a U$ 600 milhões. Temer também mostrou suas credenciais, relatando que conseguiu a aprovação de decreto legislativo que acaba com a bitributação entre os dois países. Isso atrapalhava muito exportadores e importadores.

Presos

Apesar de ter apenas 5% dos habitantes do planeta, os EUA abrigam hoje 25% da população carcerária do mundo.

Tempo de TV

José Serra, PSDB, lidera, por enquanto, o palanque eletrônico em São Paulo. Pelo número de partidos que lhe darão apoio, já conquistou 8min e 14s de TV e rádio; Haddad, do PT, tem 6min e 3s e Chalita, PMDB, dispõe de 4min e 3s. Esses tempos deverão mudar até a definição de alguns partidos.

PT e PSB

PSB e PT se esforçam para fazer alianças em Recife e em São Paulo. Em Recife, o PT está detonando a candidatura do prefeito João da Costa. Em seu lugar, indica o senador petista Humberto Costa. Aceito pelo governador e presidente do PSB, Eduardo Campos. Em São Paulo, o PSB está caminhando para ingressar na campanha de Haddad. Mas há um grupo que gostaria de ver o partido saindo com um candidato próprio, forma de não se envergonhar de mudar tão rapidamente de estrada. O presidente do PSB estadual, que está saindo da secretaria de Turismo do governo de São Paulo, é o deputado Márcio França. Portanto, trabalhou na floresta tucana até esses dias.

Tomando ônibus

"Gostaria de dividir minha experiência com você que bebe e mesmo assim dirige. No último sábado à noite bebi não sei quantas taças de vinho. Bebi tanto que fiz uma coisa que nunca havia feito antes : deixei meu carro no estacionamento e peguei um ônibus. Resultado : cheguei em casa são e salvo, sem nenhum incidente. Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo, sobretudo porque nunca antes na minha vida tinha dirigido um ônibus". (Enviado pelo amigo Álvaro Lopes)

Conselho à presidente Dilma

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos membros da CPI. Hoje, sua atenção se volta à presidente Dilma Rousseff:

1. Todo cuidado é pouco, presidente. O crescimento de 0,2% no PIB, no último trimestre, recomenda urgentes e densas medidas de incentivo à economia. Urge verificar se a receita de 2008 - impulso ao consumo e acesso ao crédito - basta para estancar a queda. E os investimentos na infraestrutura, presidente?

2. Seria oportuno radiografar todos os setores que enfrentam estrangulamentos. Ouvir suas lideranças, mapear suas demandas.

3. Imagine, presidente, juntar crise econômica com caldeirão político do mensalão. Vossa Excelência, se isso ocorrer, poderá ter uma indigestão no segundo semestre deste ano.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 5 de junho de 2012

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

PIB: Riscos e oportunidades (I)

Não foi totalmente inesperado, mas teve uma dose relevante de surpresa a divulgação do crescimento de apenas 0,2% no primeiro trimestre deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. Neste ritmo, o PIB anual cresceria ao redor de 2%. Deixemos de lado o resultado (excepcionalmente ruim) do setor agrícola. O crescimento da indústria foi de 1,7% e do setor de serviços foi 1,3%. Ambos continuam com desempenho mensal muito fraco - o crescimento da indústria foi levemente negativo em abril (-0,2%). A análise dos segmentos da indústria e de serviços indica que o país tende à estagnação de vez que o consumo das famílias está positivo, mas está caindo em função da estabilização do mercado laboral e, principalmente, em função do endividamento pessoal. Ou seja, enquanto a indústria patina, o resultado do PIB flutuará em função do consumo. A agricultura permanece como a "incógnita" da equação.

PIB: Riscos e oportunidades (II)

O resultado do PIB no primeiro trimestre deste ano indica que não há espaço para o governo repetir a estratégia de 2008/09 para que o PIB do país cresça. O estímulo ao investimento e seus correspondentes reflexos sobre a competitividade brasileira são aspectos necessários, muito embora não suficientes para que o PIB retorne ao patamar de pelo menos 5% de crescimento. O estímulo ao investimento privado dependerá, do lado do empresário, da taxa de juros, mas especialmente da desoneração fiscal. Do lado do mercado é preciso alimentar o consumo doméstico. No que tange ao investimento público a coisa é mais complicada : há um "nó" que mistura problemas de regulação, eficiência de execução e problemas de litígio intra e extra no Estado.

PIB: Riscos e oportunidades (III)

Pelas razões acima relacionadas a questão do crescimento se tornou mais complexa que em 2008. Além disso, o contexto internacional indica um quadro de piora e não de melhora. Estes são os riscos. A oportunidade consiste em aproveitar a atual conjuntura e organizar o governo para exercer o seu papel de estimulador do crescimento. Não há no âmbito do governo "centros de planejamento e execução" de políticas públicas voltadas para o investimento. O próprio ministério do Desenvolvimento carece de mais poder para propor políticas. Ademais, o PAC necessita de uma gestão mais ativa, seja na fiscalização, seja na concepção e na implementação de investimentos públicos. O Brasil não pode confirmar a percepção de que o seu crescimento é débil e insustentável. É preciso reverter este quadro. Com paciência e gradualismo, porque não será uma tarefa fácil.

Investimentos: alguns dados

Para ficar num eufemismo, o governo continua demonstrando um extraordinário déficit de execução. Até abril, os gastos do PAC foram inferiores aos realizados no mesmo período em 2010 e 2011. Obras prioritárias como a transposição do rio São Francisco e a Ferrovia Norte Sul estão com seus cronogramas totalmente estourados - em anos, não simplesmente em dias ou meses. O DNIT acaba de confessar que 30 mil quilômetros de estradas dos poucos mais de 50 mil sob sua responsabilidade estão sem contratos de manutenção - e a maioria em frangalhos. Mais uma vez foi adiada a assinatura dos contratos de concessão dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília.

O PIB e o capital político do governo

O PIB é conceito incompreensível para a imensa maioria da população brasileira, uma abstração que não entra no seu estômago nem no seu bolso, assim como outros conceitos tais como superávit primário, metas de inflação... O que interessa, popularmente, é a conta final, o que vai para sua algibeira para pagar suas contas. Portanto, na frigideira de tantas discussões sobre o que se quer saber é o seguinte : qual o efeito de tudo isso no emprego e na renda do brasileiro ? É possível manter os dois em alta, com o horizonte que se tem pela frente ? O capital político a presidente Dilma é este : a paz social que isto proporciona.

Crescer pelo consumo?
Pensem nesses números...


1. A classe média no Brasil, segundo os últimos estudos da Secretaria de Assuntos Estratégicos da presidência da República, é formada pelas famílias com renda per capita de R$ 291 a R$ 1.019.

2. O PIB per capita dos brasileiros é de US$ 11,6 mil.

3. Cerca de 10 milhões de famílias no Brasil já estão com mais de 30% de sua renda comprometida com pagamento de dívidas.

Agora respondam: ainda é possível sustentar o crescimento da economia brasileira por muito mais tempo com simples estímulos ao consumo?

Medidas adicionais de estímulo

É questão de dias - muito mais para poucos dias - o governo anunciar que vai reduzir a meta de superávit primário deste ano, estabelecida na lei de Diretrizes Orçamentárias em cerca de 3,1% (o valor real é R$ 139 bilhões) para permitir mais investimentos públicos na luta para elevar o PIB. Vai utilizar-se da facilidade concedida pela própria LDO de abater do superávit parte dos gastos com obras do PAC. Vale tudo para não deixar o PIB ficar abaixo dos 3%. Aliás, desde a revelação do PIBinho de 0,2% no primeiro trimestre, passou-se a especular em Brasília, em informações de "cocheira" ou balões de ensaio, sobre o "arsenal" que o ministro Mantega tem para elevar o ritmo de crescimento da economia: (1) mais desonerações da contribuição patronal para a Previdência Social; (2) unificação na cobrança do PIS e da Cofins; (3) ampliação dos investimentos das estatais; (4) liberação da Petrobras da obrigação de compras com um mínimo de 65% de conteúdo nacional; (5) queda da Selic em agosto para menos de 8%; (6) redução dos juros do BNDES; (7) redução dos impostos para diminuir as tarifas de energia e transporte; (8) aceleração das concessões de serviços públicos; (9) novos incentivos pontuais, com os recentemente dados a setores como o automobilístico, de motos, de ar condicionado; (10) mais liberação de crédito e novos recursos para os bancos públicos; (11) eliminação de alguns entraves à entrada de capitais externos aplicados tempos atrás. É pagar para ver.

A crise é latente. E permanente

A ação de bombeiros poderosos abafou a crise instalada com a revelação do encontro "secreto" entre o ex-presidente Lula e o ministro do Supremo, Gilmar Mendes, sob os auspícios, a vigilância e, inicialmente, os aplausos do ex-ministro Nelson Jobim. Jogou para a catacumba sem que o deprimente - e indecente para todos os seus personagens - episódio ficasse devidamente esclarecido. Não elimina, porém, o mal estar vigente nas relações entre os três poderes da República, especialmente entre o mundo político representado pelo Legislativo e o Executivo, de um lado e o Judiciário. Há uma tensão latente, insatisfações e queixas mútuas. Sem conciliadores à vista, num momento de descuido alguma coisa pode explodir. Por pouco não foi agora, na trêfega ação Lula-Gilmar-Jobim.

É com eles também

O mesmo desamor Executivo e o Legislativo dedicam ao MP - incomoda-os o trabalho investigatório dos promotores.

O Supremo e o mensalão

Não há mais dúvidas: a CPI Cachoeira-Delta e o "convescote" Lula-Gilmar empurraram o STF para um impasse: ou julga logo ou julga logo o processo do mensalão. E sem se render a qualquer tipo de chicana. Por isso, como se dizia na imprensa de antigamente, há "mensaleiros", petistas ou não, infelizes com o ex-presidente Lula.

Jobim sim, Jobim não

Nota ferina do jornalista Carlos Brickman em sua excelente coluna:

"O excelente colunista político Jorge Bastos Moreno, de O Globo, conversou com Jobim logo que Veja publicou a notícia. Jobim, disse Moreno, afirmou-lhe que o encontro tinha sido casual, que Gilmar costuma ir a seu escritório e apareceu sem saber que Lula estava lá. Depois, disse aos jornais que Lula lhe havia pedido para chamar Gilmar. Em qual Jobim acreditar? Este colunista, que viu Jobim gabar-se introduzir itens não votados na Constituição, que o viu militando entusiástico nos Governos Fernando Henrique, Lula e Dilma, que sendo ministro de Lula votou em Serra, dá uma sugestão a Moreno: em nenhum deles. Jobim seria o nome ideal para uma Comissão da Inverdade".

Dilma-Lula: gratidão e dívida

Como fez ainda na semana passada em cerimônia no Palácio do Planalto, na qual arrancou aplausos calorosos para Lula, a presidente Dilma faz questão de registrar publicamente sempre que pode a gratidão que tem pelo companheiro por tê-la, praticamente sozinho, elevado até onde a elevou. É gratidão eterna. Porém, Lula, aos poucos, vai acumulando passivos para com a presidente, com custos que podem pesar para ele no futuro. Na contabilidade negativa está ter jogado o governo dentro de uma CPI que nunca interessou à presidente, e na qual, está provado, o governo não tinha nada a ganhar. A abertura das contas da empreiteira Delta nacionalmente é pura dinamite pronta para explodir nas cercanias do PAC. Já se fala em Brasília que a CPI Cachoeira-Delta pode virar a CPI do PAC. Esta semana podem vir as desagradáveis convocações da ministra Miriam Belchior e de Erenice Guerra, segunda de Dilma na Casa Civil (e depois a primeira), para explicarem as relações PAC-Delta. Lula deu uma declaração - gratuita ou marota? - num programa popularesco de televisão, dizendo que poderá ser candidato à presidência da República caso ela não concorra, para não deixar um tucano voltar ao Palácio do Planalto. Ele despertou nos aliados "descontentes" com Dilma um comichão de outra "alternativa de poder" além de Dilma. Os aliados com birra do Palácio do Planalto não são poucos.

PT versus PMDB

Está cada vez menos "amigável" a relação do PT com seu principal parceiro na aliança governista. A pouca confiança existente entre os dois esvaiu-se de vez. A "ajuda" peemedebista para a convocação de Agnelo Queiroz para depor na CPI e para a quebra do sigilo da matriz da Delta é fruto desse desentendimento. O PT em nome de Dilma e das alianças municipais teve de engolir mais ou menos calado. Depois das eleições será outra coisa.

Congresso desobediente

Por falta de acertos entre o Palácio do Planalto e suas bases, duas MPs editadas pelo governo no fim do ano passado não foram votadas a tempo e perderam validade. Uma delas continha pelo menos um ponto considerado crucial para agilizar os investimentos públicos: estendia às obras do PAC o Regime Diferenciado de Contratação adotado nos projetos para a Copa de 2014. O RDC permite queimar etapas nas exigências da lei de licitações. Os parceiros continuam insatisfeitos com o tratamento do Palácio - nem nomeações, nem o dinheiro de verbas no ritmo que desejam, nem açúcar e afeto. O mesmo desgosto contribuiu para puxar votos aliados a favor da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico da empreiteira Delta em todo o país.

Dando corda ao adversário

Mesmo contra a vontade deles, como mostra a confusão em que se meteram no caso do governador Marconi Perillo, os aliados, em especial o PT, têm se metido em tantas trapalhadas, que vão acabar acordando os oposicionistas e dando a eles um fôlego que não esperavam conquistar tão cedo. É o milagre da ressurreição de Lázaro.

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

POLÍTICA E MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Escrevo esta crônica nas vésperas de partir para o Japão e a China, de onde só regressarei depois de publicado o texto, daqui a duas semanas. É sempre arriscado, nessas condições, falar sobre a agenda política.

Será mesmo? O marasmo é tão grande que possivelmente, ao voltar e reler os jornais, encontrarei os mesmos temas: a CPI, a corrupção com suas teias enredadas, os candidatos às prefeituras já conhecidos e suas previsíveis alianças, o PIB que cresce pouco, os juros que finalmente começam a cair, a inadimplência dos devedores, as demandas por reformas tributárias, as soluções caso a caso para diminuir os estoques das empresas (principalmente automobilísticas) e assim por diante.

Dá até preguiça passar os olhos pelas colunas e notícias da mídia, sem falar das TVs que repetem tudo isso com sabor de press release, emitido seja pelo governo, seja por empresas.

Ainda recentemente, um sociólogo mexicano falando na Fundação iFHC e referindo-se a outro aspecto da mesma questão disse que o resultado das eleições em seu país independe das campanhas eleitorais. Isso porque, quando a propaganda partidária tem vez na mídia, a “opinião” já está enraizada nos eleitores, pois nos anos anteriores se elegeram os heróis e os vilões cujas virtudes e defeitos foram repetidos todo o tempo, sem contestação crítica.

Será muito diferente entre nós? É desta maneira que se exerce nas modernas sociedades de massa o controle ideológico da opinião, seja pelos governos, seja pelos grupos dominantes na sociedade, econômicos ou políticos.

A sensação do já visto que alimenta a modorra e leva ao tédio e ao descaso com a política é, entretanto, enganadora e perigosa. A despeito de tudo, nem só de manipulação da opinião vive uma sociedade. De repente, quando menos se espera, não são as “forças do mercado”, nem o “pensamento único” (que em nosso caso, menos do que neoliberal, é de esquerda desenvolvimentista-autoritária) que comandam a vontade popular.

É o que vemos agora na Grécia e na França, onde a vitória de Hollande, a despeito do irrealismo de algumas de suas promessas, ecoa até na alma de Obama e o rígido dogmatismo tedesco, fantasiado de racionalidade de mercado, vê-se cerceado por aspirações de outra natureza.

Convém, portanto, não sobrestimar a força das verdades preestabelecidas. Mormente em nossos dias, quando a internet permite que um sem número de opiniões divergentes circule sem que os leitores ou ouvintes da grande mídia se deem conta.

Não digo isso para aceitar o conformismo vigente em muitos meios de comunicação, mesmo porque, para fazer frente a ele, o desconcerto causado pela variabilidade de opiniões das mídias sociais e mesmo pela mistura entre lixo eletrônico e real opinião é insuficiente.

Digo para alertar: a despeito de parecer que a política, principalmente a partidária, é mais enganação do que afirmação de interesses e valores que podem enfrentar a luz do sol, no final das contas, o que decide nossa vida em sociedade é a política mesmo. Portanto, sensaborona ou não, repetitiva ou não, controlada pelos que mandam ou não, dependemos dela.

Nos dias que correm, sobretudo nos regimes democráticos, não há política sem comunicação; logo, é melhor tomar coragem para ler e ouvir tudo que se diz, mesmo quando partindo de fontes suspeitas.

A precondição para que haja alternativas ao que aí está é manter a liberdade de expressão, mesmo que haja distorções. Isso não exclui uma luta constante contra estas, não para censurá-las, mas para confrontá-las com outras versões. Afastando por inaceitável qualquer tentativa de “controle social da mídia”, o acesso de opiniões divergentes aos meios de comunicação poderia criar um ambiente mais favorável à veracidade das informações.

Por exemplo: será que é democrático deixar que os governos abusem nas verbas publicitárias ou que as empresas estatais, sub-repticiamente, façam coro à mesma publicidade sob pretexto de estarem concorrendo em mercados que, muitas vezes, são quase monopólicos?

E que dizer do tom invariavelmente otimista das declarações sobre a superação da crise financeira global oriundas de setores empresariais interessados ou, em nosso caso, da marcha contínua para o êxito econômico reiterada pelos governos?

O efeito deletério desse tipo de propaganda disfarçada não é tão sentido na grande mídia, pois nesta há sempre a concorrência de mercado que a leva a pesar o interesse e mesmo a voz do consumidor e do cidadão eleitor. Mas nas mídias locais e regionais o pensamento único impera sem contraponto.

A autenticidade das informações escapa das deformações advindas da influência das forças estatais (inclusive do setor produtivo estatal) e das empresas privadas precisamente pela voz crítica dos setores da mídia independente, por meio de seus repórteres, editorialistas e mesmo dos proprietários que têm coragem de expor opiniões.

Não por acaso, é contra estes que os donos do poder político e os partidos que os sustentam se movem: denunciam que é a imprensa quem faz o papel da oposição. Até certo ponto isso é verdade. Mais por deficiência dos partidos de oposição, cujas vozes se perdem nos corredores dos parlamentos, do que por desejo de protagonismo da mídia crítica.

Nos países europeus ou nos Estados Unidos, por mais que haja partidarismo nos meios de comunicação ou que por lá prevaleça o mesmismo das notícias que refletem o status quo, sempre há espaço para o outro lado, para o contraponto. Mal termina de falar o primeiro-ministro da Inglaterra e já a voz da oposição, como tal, é transmitida. O mesmo ocorre quando o presidente dos Estados Unidos faz sua apresentação anual ao Congresso.

Obviamente, não basta haver uma mudança na oferta de espaço pela mídia, é preciso que haja vozes de oposição com peso suficiente para serem ouvidas e se fazerem respeitar.

Sem esquecer que nas democracias a voz que pesa politicamente é a de quem busca o voto para se tornar poder.

(Fernando Henrique Cardoso é ex-presidente da República)

domingo, 3 de junho de 2012

"A SAÚDE É O ESPELHO DO QUE PENSAMOS"



Antes de perguntar ao médico o que fazer para viver mais e com melhor qualidade de vida, faça essa pergunta ao seu próprio corpo. Descobrir como ele se sente antes da tomada de decisões é um dos segredos para conseguir adotar hábitos saudáveis e chegar a um estado de perfeita saúde. Essa é uma das principais posições do médico indiano Deepak Chopra, 65 anos, autor de livros como “As Sete Leis Espirituais do Sucesso” e “Conexão Saúde” e admirado por celebridades como a cantora Madonna e a apresentadora Oprah Winfrey.

O endocrinologista radicado nos Estados Unidos usa como base de seus tratamentos os princípios da medicina ayurvédica, criada há mais de cinco mil anos na Índia. Ela preconiza a prevenção das doenças por meio de uma sintonia entre o corpo e a mente que poderia ser obtida, por exemplo, com a prática da ioga e da meditação.

Em sua clínica na Califórnia, no entanto, o médico também se utiliza dos instrumentos da medicina ocidental quando acha necessário. É, por excelência, um defensor da medicina integrativa, uma corrente cada vez mais forte que prega a união entre os conhecimentos da medicina praticada no Ocidente com os recursos oferecidos por terapias como a acupuntura. “É preciso caminhar para uma integração de tratamentos”, defende. No sábado 26, Chopra é esperado para ser um dos principais palestrantes da primeira edição do Fórum da Saúde e Bem-Estar, evento organizado pelo Lide, Grupo de Líderes Empresariais, realizado em São Paulo. Antes de desembarcar no Brasil, o médico falou à ISTOÉ:


Istoé - Embora o sr. tenha nascido na Índia, aprendeu a meditar em Boston, nos Estados Unidos. Também foi médico em tempo integral em um hospital de Massachusetts. Como foi sua transição da medicina convencional para a ayurvédica?

Deepak Chopra - Por meio da meditação, percebi que havia muitos mecanismos que a medicina não explicava porque olhava na direção errada. Ela, às vezes de modo eficaz, se concentra em um estado de doença, e não de saúde. Mas cheguei à conclusão de que a experiência da Ayurveda é simples, integrada. É um caminho de volta para o pleno funcionamento biológico.

Istoé - Mas seus princípios podem ser aplicados hoje, para o homem ocidental, com os mesmos efeitos?

Deepak Chopra - Não só podem como estão sendo usados para isso. Os meus pacientes seguem as recomendações, são capazes de analisar a própria vida, ouvir o próprio corpo, controlar a hipertensão, a diabetes. Eles aprendem a prestar atenção no funcionamento do organismo. E hoje temos aparelhos de biofeedback que dão uma medida do quanto um pensamento e uma atitude podem determinar uma resposta fisiológica e controlar uma doença. Essa tecnologia comprova o que o corpo já sabia e que pode ser percebido em um estado de atenção.

Istoé - De que maneira isso melhora a saúde?

Deepak Chopra - A saúde é o espelho da nossa consciência, do que pensamos. Atualmente, estudos comprovam que pensamentos geram respostas fisiológicas correspondentes, que podem ser positivas ou negativas. Cada estado de humor fica impresso em nossas células. Mas temos a capacidade de controlar algumas reações do organismo por meio do domínio dos pensamentos.

Istoé - Como fazer isso?

Deepak Chopra - Pode-se voltar a atenção para si mesmo, pensar na qualidade dos relacionamentos, questionar o próprio corpo e relacionar o bem-estar com as escolhas diárias. Tudo isso não é feito de uma maneira estritamente racional, mas com o pensamento que passa pela intuição do organismo sobre o que é a saúde ou simplesmente nos perguntando se estamos bem ou não.

Istoé - O que significa não pensar de uma maneira racional? O que é esse pensamento? Intuitivo?

Deepak Chopra - É um processo que nos livra dos condicionamentos. É preciso alguma inocência para ouvir o corpo.

Istoé - Uma técnica descrita em um dos seus livros para auxiliar a prática de uma vida saudável é justamente perguntar ao corpo, antes de uma tomada de decisão, se ele se sente confortável com aquela escolha. De que modo isso é benéfico?

Deepak Chopra - A resposta de conforto é uma medida do que nos é caro, do que nos é saudável, do que irá produzir uma sensação de bem-estar. Ela nos livra da dúvida, de um peso e nos coloca na direção da saúde.

Istoé - Para o tratamento de muitas doenças crônicas, como a diabetes e a hipertensão, os médicos frisam a importância de adotar hábitos mais saudáveis. Mas muitos não conseguem. O que poderia ajudá-los?

Deepak Chopra - Posso dar alguns mecanismos: atenção, repetição, foco no presente e o entendimento de que o novo hábito a ser instaurado é bom. Quando ele se instaura, a consciência consegue encontrar um canal para se sentir bem. Sem o hábito, o corpo se esforça para atender a consciência e, numa mente voltada para o cigarro e o álcool, por exemplo, vai se flexibilizar ao máximo até chegar à exaustão, dando espaço a doenças.

Istoé - Qual a sua opinião sobre a medicina ocidental?

Deepak Chopra - Há muitos tratamentos válidos que ajudam o corpo físico a combater uma enfermidade já instaurada, mas eles obtêm comprovadamente mais sucesso quando integrados a outras terapias. É preciso caminhar para uma integração de terapias. O problema é que algumas vezes a ciência do Ocidente se pauta em modelos reducionistas e a natureza não funciona dessa maneira. É preciso entender quando há outros mecanismos relacionados que, de algum modo, também podem intervir no processo de uma cura. É o que a medicina integrativa, na tentativa de unir essas terapias, está querendo mudar.

Istoé - Pode citar exemplos de comprovação científica de bons resultados dessa integração?

Deepak Chopra - Um estudo publicado na revista científica “The Lancet Oncology” mostrou que técnicas de meditação e ioga podem aumentar a quantidade de telomerase, enzima associada à proteção contra o envelhecimento precoce. Ela é responsável pelo aumento do comprimento dos telômeros, estruturas presentes nos extremos dos cromossomos cujo encurtamento está ligado ao envelhecimento e ao surgimento de males como o câncer. Em um outro extremo, uma pesquisa divulgada no “The New England Journal of Medicine” mostrou que a cirurgia de ponte de safena feita apenas como um recurso de prevenção em pacientes estáveis só conseguiu aumentar a expectativa de vida em 3% dos indivíduos que passaram pelo procedimento.

Istoé - Qual seria o tratamento indicado para doenças crônicas?

Deepak Chopra - Hoje, sabe-se que 95% dessas enfermidades são motivadas por fatores que envolvem um estresse sobre o organismo. A medicina ocidental é capaz de dar uma resposta positiva imediata para médicos e pacientes com drogas e tratamentos comprovadamente capazes de reduzir um tumor, por exemplo. Essa intervenção mais urgente é necessária em alguns casos, mas em outros ela é dispensável porque é preciso fazer uma análise mais profunda sobre as origens da doença e ter uma atitude de cura, de saúde, com alimentação adequada e bons relacionamentos.

Istoé - No seu livro “Cura Quântica”, o sr. descreve o caso de uma paciente com câncer de mama que acabou curada submetendo-se à quimioterapia e às técnicas da medicina ayurvédica. E, embora o câncer dela tenha tido remissão, ela continuou com a quimioterapia. Por que isso aconteceu?

Deepak Chopra - As pessoas tomam decisões baseadas naquilo que confiam, no que acreditam ser válido para a situação que enfrentam. É uma avaliação difícil. Eu faria uma análise diferente.

Istoé - O sr. não teme que seus pacientes deixem de seguir os tratamentos convencionais, abandonando os remédios, por exemplo?

Deepak Chopra - Não é essa a minha orientação.

Istoé - Em “As Leis Espirituais do Sucesso”, o sr. descreve a necessidade de não darmos importância aos resultados. Este seria o caminho para que eles, os resultados, de fato sejam obtidos. Pode explicar isso?

Deepak Chopra - É o que chamo de lei do desprendimento. O desprendimento dá espaço para a fé enquanto o apego aos resultados abre caminho ao medo e à insegurança. Quando você se prende ao resultado, opta por um símbolo que limita a natureza. A ordem natural tem uma ação que vai muito além de variáveis usadas para quantificar o efeito de um tratamento, por exemplo. O desprendimento dá espaço para uma busca profunda pelo bem-estar.

Istoé - Hoje a medicina sabe sobre o peso das emoções na nossa saúde. Mas, de alguma maneira, não estamos conseguindo chegar a uma vida sem estresse. Onde estamos falhando?

Deepak Chopra - É um caminho que cada um precisa trilhar, questionar de que modo algumas escolhas se refletem na saúde. Há pessoas conseguindo fazer isso com muito sucesso.

Istoé - Para alguns de seus pacientes que sofrem de insônia, o sr. recomenda, como tratamento, permanecer acordado de 48 a 56 horas. Como isso funciona?

Deepak Chopra - Essas pessoas estão em desequilíbrio biológico. Ficar em vigília por mais tempo comprovadamente renova o organismo e proporciona um recomeço.

(Publicada na Revista ISTOÉ da semana passada)

sábado, 2 de junho de 2012

ENTARDECER NO SERTÃO



Ceará, meu Ceará,

Meu pedacinho de chão

A hora da ave Maria

É mágica em meu sertão

O sombreado do sol

Matizando o arrebol

Seduz sempre meu olhar

Entrevejo só beleza

Em tudo que a natureza

Se esmera para adornar.

*

Versos e foto de Dalinha Catunda

SÁBADO É DIA DE "ODE À CEBOLA"

Sábado é, por excelência, dia de brasa festiva, lírio de amizade, união etílica, confraternização gastronômica.

Hoje, por essas razões celestiais do ofício que cumpro na terra, estou impedido de cumprir a liberdade ritualística do sábado.

A vontade é de estar em volta de uma mesa festejando os ingredientes que fazem o riso do corpo. Porém, à distância, celebro pelas palavras de Neruda uma aparentada das Liliáceas, que nos faz "chorar sem nos afligir": a cebola!


ODE À CEBOLA


Cebola
Luminosa redoma
pétala a pétala
cresceu a tua formosura
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra escura
se foi arredondando o teu ventre de orvalho.

Sob a terra
foi o milagre
e quando apareceu
o teu rude caule verde
e nasceram as tuas folhas como espadas na horta,
a terra acumulou o seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar remoto
duplicou a magnólia
levantando os seus seios,
a terra
assim te fez
cebola
clara como um planeta
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
das gentes pobres.

Generosa
desfazes
o teu globo de frescura
na consumação
fervente da frigideira
e os estilhaços de cristal
no calor inflamado do azeite
transformam-se em frisadas plumas de ouro.

Também recordarei como fecunda
a tua influência, o amor, na salada
e parece que o céu contribui
dando-te fina forma de granizo
a celebrar a tua claridade picada
sobre os hemisférios de um tomate.
mas ao alcance
das mãos do povo
regada com azeite
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no seu duro caminho.
estrela dos pobres,
fada madrinha
envolvida em delicado
papel, sais do chão
eterna, intacta, pura
como semente de um astro
e ao cortar-te
a faca na cozinha
sobe a única
lágrima sem pena.
Fizeste-nos chorar sem nos afligir.

Eu tudo o que existe celebrei, cebola
Mas para mim és
mais formosa que uma ave
de penas radiosas
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina
baile imóvel
de nívea anémona

e vive a fragância da Terra
na tua natureza cristalina.

(Pablo Neruda)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

ÍNDIA - NA VOZ DE NANA MOUSKOURI




Dalinha Catunda deixou um novo comentário:

Muito lindo, Junior,

Tanto as imagens como a índia na voz de Nana.

Parabéns pela postagem

quinta-feira, 31 de maio de 2012

CONVITE

Hoje o poeta Dideus Sales lança o livro "Nos Cafundós do Sertão", às 20:00hs, na Ler Livraria, no Shopping Molina Center, Av. Washington Soares, 4040, lojas 22/24, FORTALEZA, CEARÁ.

O poeta Barros Alves fará a apresentação. Participe!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Meu povo e minha pova

Nesses tempos de preparo eleitoral, cai bem essa historinha. Parece absurda, mas é verdadeira. Deixamos de dar os nomes para evitar constrangimentos às famílias. Um ex-prefeito de Aracati, cidade litorânea do Ceará, em comício animado, gritou no palanque: "Meu povo e minha pova. Vou ser reeleito prefeito de Aracati com minha fé e as fezes de vocês".

A burocracia tem pernas

O cidadão chega à repartição e pede para ver seu processo. Ouve do chefe do departamento : "ah, meu senhor, tem muitos outros na frente do seu. Vai demorar um tempão até ser despachado. Papel, doutor, não tem pernas". Agastado, o interlocutor reage: "e quanto o senhor quer para por dois pés nesse papel?". Tirou do bolso um maço de dinheiro (que já tinha separado em casa para não dar na vista e, de maneira disfarçada, entregou ao sorridente chefe). Tiro e queda. O adjutório fez o papel correr rapidinho com seus dois pés. A corrupção se espraia por todos os lados.

Política, sempre uma gangorra

A política é uma gangorra. Eleva seus participantes, em um momento, e os rebaixa, instantes depois. Quando se pensa que o fulano está sentado à direita de Deus, Pai, eis que é flagrado na beira da estrada. Vejam os eventos mais recentes. Luiz Inácio, do alto de seu carisma e em plena convalescença, desce um degrau na escada do sucesso. Pediu ao amigo Nelson Jobim um encontro reservado com o ministro e ex-presidente do STF, Gilmar Mendes. Dito e feito. O encontro, um mês depois, veio à tona. Por quê?

Gilmar na onda

Gilmar Mendes abriu a expressão por uma razão: percebeu que seu nome estava passando de boca a boca como integrante do círculo de amizades do senador Demóstenes Torres. Mais: que teria marcado encontro com o senador em Berlim. Lula sabia do encontro. Por isso, na conversa teria sugerido - não solicitado - que o mensalão não fosse julgado nesse ano eleitoral. Poderia prejudicar os quadros petistas. O PT quer fazer 1.000 prefeitos municipais. Em troca, poderia dar cobertura a Gilmar, administrando eventual passagem danosa pela esfera da CPI mista. O ministro, ao perceber a insinuação, disse que não havia nada a temer. Lula: "e a visita a Berlim?", indagou o matreiro ex-presidente. O ministro argumentou que ia sempre a Berlim por ter uma filha morando lá.

Rebu

Gilmar deu detalhes, como se quisesse comprovar a fala. Lula teria ainda dito que pediria a Sepúlveda Pertence para monitorar a ministra Carmen Lúcia, enquanto ele próprio administraria os ministros Lewandowski e Toffoli. Teria ainda cometido o deslize de dizer que o ministro Joaquim Barbosa era um "complexado". Quanta informação comprometedora. Lula, por meio de seu Instituto da Cidadania, fez o desmentido. O rebu está formado. O encontro realmente ocorreu e os detalhes fornecidos por Gilmar criam um escudo contra falsas versões.

O que pode ter ocorrido

Digamos que Lula tenha feito uma observação de cunho pessoal. Até aí, tudo bem. Inaceitável é a ideia de sugerir proteção ao ministro. Um jogo de recompensas. Gilmar repeliu a sugestão. Lula deve ter achado que a viagem do ministro a Berlim tenha sido financiada pelo esquema de Cachoeira. Comprou bilhete errado. Gilmar Mendes, por seu lado, caiu numa encruzilhada. Não poderia se negar a um encontro arrumado pelo amigo Nelson Jobim. Que acabou negando tudo. O imbróglio está formado. Vai ter consequências.

Perguntinha necessária:

Por que Gilmar Mendes passou um mês para dar conhecimento da abordagem feita por Lula? Só ouviu bochichos a respeito de seu nome um mês depois do encontro?

Efeitos

O caso vai render na feira eleitoral. Por mais que Lula se valha de seu cobertor carismático, será difícil cobrir parte do corpo com as chamas da fogueira que acendeu. Projeta-se o efeito sobre a campanha paulistana. Seu candidato Fernando Haddad deverá ser chamuscado. É possível também que o assunto sirva de combustível para acender outras tochas em cidades que abram a polarização PT x Oposições. Outro efeito: o mensalão, agora sim, entra por inteiro na agenda do STF. Que não poderá mais postergar o julgamento. O próprio presidente da Alta Corte, ministro Ayres Britto, acaba de proclamar: a fruta está madura, pronta para ser tirada da árvore.

Pérolas do Enem (I)

- A fé é uma graça através da qual podemos ver o que não vemos.

- Os estuários e os deltas foram os primitivos habitantes da Mesopotâmia.

- O objetivo da Sociedade Anônima é ter muitas fábricas desconhecidas.

- A Previdência Social assegura o direito à enfermidade coletiva.

- O Ateísmo é uma religião anônima.

Retrocesso?

A crise na Europa poderá chegar por estas plagas. Há quem defenda a tese de que, desta feita, o Brasil não passará incólume pelo corredor turbulento do euro. Se o país crescer menos de 3% este ano, sob um dólar mais alto - R$ 2,20, por exemplo - o PIB brasileiro atingirá R$ 4,24 trilhões. Em dólares, seria US$ 1,93 trilhão. Com esse PIB menor, o Brasil seria novamente superado pela Grã-Bretanha, Itália e Rússia. Cairia novamente para a 9ª economia mundial. Previsão do bom pensador e diplomata Marcos Troyjo.

Caldeirão fervente

Junte-se a economia em declínio e a política pegando fogo, sob pano de fundo do julgamento do mensalão em curso, para se ter uma visão do caldeirão fervente em que mergulhará o país nos próximos meses. Claro, isso é apenas a ponta de um cenário. O governo Dilma poderá encontrar a fórmula mágica para segurar o crédito e o programa de bolsas para as margens. Nesse caso, o governismo continuará, faceiro, a desfraldar sua bandeira vitoriosa. No cenário de turbulência, as oposições terão chance de fazer grande baciada de prefeitos.

Lula, o articulador

O PC do B vinha mantendo conversações com o PMDB de São Paulo para fechar acordo em torno do candidato Gabriel Chalita. A ideia era que o PC do B apresentasse a candidatura a vice na chapa do Chalita. Lula entrou no jogo e desfez as cartas dadas. PSB paulista conversava muito com o PSDB sobre o apoio à candidatura Serra à prefeitura paulistana. Afinal, o secretário de turismo do governo Alckmin é o deputado Márcio França, presidente do PSB paulista. Lula entrou no baralho e redistribuiu as cartas. No Ceará, Lula dará as cartas ao PT para seguir a indicação do governador Cid Gomes para a prefeitura de Fortaleza. Em Recife, idem. Luiz Inácio nem bem se recuperou do grave problema de saúde que o afastou, temporariamente, das lides políticas e começa a sacar a arma, atirando para todos os lados.

Pérolas do Enem (II)

- A respiração anaeróbica é a respiração sem ar que não deve passar de três minutos.

- O calor é a quantidade de calorias armazenadas numa unidade de tempo.

- Antes de ser criada a Justiça, todo mundo era injusto.

- Caráter sexual secundário são as modificações morfológicas sofridas por um indivíduo após manter relações sexuais.

Aliança das civilizações

Amanhã, o vice-presidente da República, Michel Temer, fará a palestra de abertura do Encontro dos Parceiros da Aliança das Civilizações, em Istambul, na presença do primeiro ministro da Turquia, do primeiro ministro da Espanha e do Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon e outros chefes de Estado. Esta iniciativa, proposta por José Luis Zapatero, primeiro ministro da Espanha, em 2004, tem por objetivo mobilizar a opinião pública mundial com vistas a superar preconceitos, percepções equivocadas e "polarizações entre o mundo islâmico e o ocidente".

Doação

O vice-presidente Michel Temer vai discorrer sobre o Brasil, um país multicultural, plurireligioso e multiétnico, e anunciará a decisão do governo brasileiro de apoiar o novo modelo de desenvolvimento para a Aliança das Civilizações. O Brasil vai contribuir com US$ 250 mil para financiar iniciativas na área da educação. Temer tem participado, em nome do Brasil, de importantes foros mundiais.

Régua eleitoral

Há 2 meses, a régua eleitoral mostrava a pontuação de 75% a 80% de candidatos situacionistas com grandes possibilidades de vitória em outubro. Esse índice, hoje, está entre 65% a 70%.

A persistência (I)

A persistência é uma das principais virtudes dos grandes homens. Cristóvão Colombo aferrava-se à obsessão de que poderia chegar ao Oriente pelo caminho do Ocidente. O pensamento não lhe dava trégua. Esta foi a diferença entre Colombo e os seus contemporâneos. Estava convencido. Queria partir. Mas seria forçado a esperar muito. Enquanto aguardava, falava do sonho. D. João II, Rei de Portugal, interessou-se pelo assunto e submeteu o projeto de Colombo a uma junta de sábios. Estes condenaram a ideia. Quando morreu a esposa, Colombo gastou a maior parte de suas economias com o enterro. E foi para a Espanha.

A persistência (II)

Fernando e Isabel, empenhados em dispendiosa guerra com os mouros, deram apenas meio ouvido à proposta do genovês. A Rainha, entretanto, foi simpática a ele. Concedeu-lhe uma pensão, enquanto a junta de notáveis do Reino estudava o assunto. Depois de dois anos, a pensão foi suspensa. Obrigado a se manter sem ajuda, durante os oito anos seguintes vendeu livros e mapas que confeccionava. Seus cabelos ficaram brancos. Foi atacado pelo artritismo. Mas nunca desesperou. E, um dia, realizou seu sonho.

Nomes próprios

Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida

Acheropita Papazone

Adalgamir Marge

Adegesto Pataca

Adoração Arabites

Aeronauta Barata

Agrícola Beterraba Areia

Agrícola da Terra Fonseca

Alce Barbuda

Aldegunda Carames More

Aleluia Sarango

(Próxima lista em outra Coluna)

Lula na 1ª instância?

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, encaminhará para a primeira instância a representação que pede uma investigação contra o ex-presidente Lula. Ontem, DEM, PSDB, PPS e PSOL protocolaram pedido contra Lula por causa de reunião em que ele teria pedido ao ministro do STF, Gilmar Mendes, o adiamento do mensalão. Gurgel encaminhará o caso para a chefe da Procuradoria da República do DF, Ana Paula Mantovani. O ex-presidente não tem mais foro privilegiado. A decisão terá consequências?

Demóstenes na CPI

O senador Demóstenes Torres respondeu a todas as questões que lhe foram feitas na CPI mista. Experiência de promotor. Sensação é a de que a corda no pescoço começa a ser afrouxada.

Governadores vão ou não?

Os governadores Marconi Perillo (PSDB), Agnelo Queiroz (PT) e Sérgio Cabral (PMDB) serão convocados pela CPI? Entre 0 a 10, as chances de permanecerem em seus palácios é de 9.

Zé Abelha

Eis uma historinha do repertório de Zé Abelha, o nosso mineirinho contador de causos. Dr. Luís da Costa Alecrim, juiz de Direito da comarca de Conselheiro Pena, interroga um cidadão acusado de ter esfaqueado uma prostituta, residente na Boate Luar.

- O senhor conhece esta faca?

- Não, doutor, nunca vi essa peixeira.

Dr. Alecrim manda recolher o indiciado.

Mês seguinte, novo interrogatório:

- O senhor conhece esta faca?

- Conheço sim senhor, responde com malícia o indiciado.

- Então o senhor confessa a tentativa de homicídio?

- Não senhor! Eu disse que conhecia a peixeira. Não é aquela que o senhor me mostrou, mês passado?

Conselho aos membros da CPI

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos. Hoje, sua atenção se volta aos membros da CPI:

1. A essa altura do campeonato, poucos acreditam na efetividade da CPI mista. Corre a impressão de que uma gigantesca pizza começa ser a preparada.

2. Se os componentes da Comissão Mista pretendem resgatar a credibilidade, urge retomar o foco, avaliar as investigações já realizadas, convocar os implicados - pertençam a qualquer partido - e fazer os encaminhamentos necessários.

3. Todo esforço se faz necessário para não transformar a CPI em palanque de partidos nesse ciclo pré-eleitoral.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 29 de maio de 2012

OBSERVATÓRIO

A edição passada desta coluna provocou uma série de reações. Algumas pessoas utilizaram as redes sociais para lançar petardos neste escriba. Como tem sido corriqueiro na cidade, alguns se manifestaram com ataques desproporcionais ao que foi colocado. É lamentável que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas que, em vez de considerar ideias, desconsideram os indivíduos. Ao invés do debate, optam pelo deboche. No lugar da racional discussão, preferem a irracional agressão. Conforme está pontuado na Crônica abaixo, recuso-me a receber esse tipo de presente. Quero apenas reiterar que as posições aqui esposadas refletem a minha opinião. Não são as palavras do Jornal. Não são pensamentos de grêmio partidário, pois nem filiação a partido possuo mais. Aqui vai a modesta avaliação de alguém que nasceu, se criou e viveu mais de 90% dos seus dias em Crateús, onde tem domicílio eleitoral. Só. Vamos ao trabalho.

AS QUESTÕES

As questões colocadas na edição passada sobre a coligação que reúne o maior número de partidos foram três: 1. O candidato das oposições deverá sair de um partido da base aliada do Governo. 2. Inexiste candidato imposto. Nenhum dos líderes oposicionistas saiu de Fortaleza – ou telefonou ou pediu – para impor qualquer candidatura. 3. Nos últimos quarenta anos só tivemos duas pessoas à frente da Prefeitura que nunca moraram fora de Crateús: Lionete Camerino e Leandro Martins. Todos os demais passaram períodos residindo fora da cidade. Se alguém discorda, é um direito. O espaço está aberto para que apresentem fatos e versões. Faz parte do processo democrático.

PADRE DAVI

Muita gente avaliou o lançamento do Padre Davi Silva como opção petista para figurar na condição de vice-prefeito do doutor Carlos Felipe, que disputará a reeleição. Trata-se de um cidadão que fiou um amplo leque de relações por seu trabalho pastoral. É óbvio que engrandece qualquer chapa. No entanto, há no PT um sentimento majoritário de que o espaço continua disponível para o doutor Mauro Soares. Sucede que o atual vice-prefeito tem enfrentado problemas de saúde. Amigos mais próximos e familiares já externaram a opinião de que ele deveria colocar a saúde em primeiro lugar. Mas essa é uma decisão estritamente pessoal. Só cabe a ele – e a mais ninguém – a palavra definitiva.

PSOL

A agremiação que ostenta a bandeira do socialismo e da liberdade, o PSOL, só deverá definir sua chapa ao executivo municipal no final de junho. Por enquanto, avalia os nomes do advogado Alexandre Maia e da professora Adriana Calaça. Certo, segundo um membro da Executiva Municipal, é que engendrará todos os esforços para conquistar vaga no Legislativo Municipal. Prepara um bom time para a Vereança. Destaque-se o líder sindical Paulo Giovani. Nas últimas três eleições vem sempre aumentando as votações.

PV

Já é certo que os Verdes apresentarão o maduro João Coelho Soriano, o Maçaroca. O candidato a Prefeito do PV é um nome oriundo da velha guarda do MDB. Tem nas veias o sangue saudosista da resistência ao poder estabelecido. É um velho combatente, uma figura emblemática. Está para Crateús como Paes de Andrade está para o Ceará. Pode se inserir na campanha com discurso bem humorado e desconcertante.

PSDB

Divergências entre os tucanos vieram a público na semana passada. Correu uma informação de que o Presidente José Vagno havia sido destituído. Esta informação está divorciada da realidade. Em verdade, segundo exibe o site do TRE - http://www.tre-ce.jus.br/partidos/informacoes-partidarias/orgaos-partidarios-1 – desde 30 de dezembro de 2011, a Comissão Provisória de Crateús perdeu sua vigência. Simplesmente, desde o final do ano passado, o PSDB está sem existência legal em Crateús. O Protocolo que a formalizou, de número 675932011, datado de 03/10/2011, exibe uma Comissão Provisória com a seguinte composição: José Vagno (Presidente), Olimpio Lopes (Secretário), José Rubens (Tesoureiro), Armstrong Tavares, Edmilson Coelho, Marcos Costa e Vicente Ludgero (membros). Segundo informaram alguns dos seus integrantes, que se deslocaram a Fortaleza para resolver a pendência (pois estavam preocupados com a possibilidade do Partido não se encontrar regularizado para participar das eleições), a Comissão Provisória deverá permanecer rigorosamente a mesma. Haverá apenas um rodízio nos cargos, o que é salutar e democrático.

OPOSIÇÕES

Afunila-se o processo para definição dos nomes que comporão a chapa das Oposições Unidas (PMDB, PSDB, DEM, PTB, PDT, PSD, PPS, PHS, PSL, PMN e PRTB). No final de semana passado ocorreram duas reuniões entre os pré-candidatos. O vereador Antonio Luiz, que aparece muito bem posicionado em todas as enquetes, externou que não pretende assumir a cabeça de chapa. Diz que amadureceu muito com as últimas experiências. Sabe, por vivência própria, que é difícil ir longe sem apoio logístico e sem estrutura. Em 2004, foi preterido pelo empresário Luizinho Sales, que tinha o apoio da cúpula. Em 2008, assumiu a cabeça de chapa. Quando sentiu o peso do abandono, resolveu apoiar Nenen Coelho. Agora, diz que ninguém vai muito longe sem o apoio dos líderes maiores.

OPOSIÇÕES II

Antonio Luiz tem razão. É difícil enfrentar uma eleição em Crateús – na aliança política que integra - desprovido de estrutura e respaldo explícito das lideranças, salvo se o postulante dispuser de meios pessoais para suprir essas carências. Pesquisas qualitativas têm revelado que o apoio dos três últimos ex-prefeitos (Nenzé, Zé Almir e Paulo), somados ao dos Deputados Estaduais e Federal oposicionistas, além de outras lideranças, altera significativamente o humor do eleitorado. Ou seja, esse apoio pode se traduzir em vitória para o candidato beneficiado.

PARA REFLETIR

“Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar./ A vida é combate,/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar”. (Gonçalves Dias)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

SOBRE CALMA E PACIÊNCIA



Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro conhecido por sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo, e aumentar sua fama.

Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade, e o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras em sua direção, cuspiu em seu rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive seus ancestrais. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

Desapontados pelo fato do mestre aceitar tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram:

- "Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?"

- "Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?" - perguntou o Samurai.

"A quem tentou entregá-lo" - respondeu um dos discípulos.

"O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos" - disse o mestre. "Quando não são aceitos, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior, depende exclusivamente de você. As pessoas não podem lhe tirar a calma, só se você permitir..."

A autoria da estória ou História acima me é desconhecida. No entanto, a reflexão que suscita é inquestionável. Ela saltou na prateleira da minha memória quando vi reações irascíveis em redes sociais a colocações que fiz no espaço deste periódico.

Primeiro quero pontuar que considero a internet uma das mais extraordinárias criações da moenda humana. É inimaginável como seria o complexo das relações entre as pessoas, ante os desafios das modernas gerações, se não existisse essa aldeia virtual que nos coloca de mãos dadas sob a mesma tenda global.

Porém, esse instrumento fantástico de massificação da produção científica, esse fascinante armazém do conhecimento acumulado, essa fonte inesgotável de recursos – que deveria ser a ecumênica e sagrada montanha da fraternidade universal – ás vezes é transformado em uma verdadeira arena grega. Internautas viram gladiadores. Transformam-se em ferozes animais. Substituem a sociabilidade pela selvageria. Ao invés do debate, optam pelo deboche. No lugar da racional discussão, preferem a irracional agressão. Devemos procurar nos abster de dar reflexo a esse tipo de postura.

É nessas horas que vejo mais nitidamente a relevância da calma e da paciência. Calma e paciência! Ou... paciência e calma! Palavras que se completam.

A calma, que nasceu do Latim tardio (vejam a coincidência!), vem de cauma, “o calor do meio-dia (quando tudo fica quieto)”. Ou, do Grego kauma, “calor (principalmente o do sol)”, de kaiein, “queimar”.

Por sua vez, a palavra paciência –do Latim patientia, “resistência, paciência”, do verbo pati, “agüentar, sofrer”, derivada de addurare, ou durare, “durar, resistir, perseverar”, alterando-se depois o sentido para “suportar, agüentar”. E, aqui, vale lembrar que agüentar vem do Italiano agguantare, “segurar firme”.

No grego bíblico a paciência é conhecida como makrothumia, traduzida como “tardio em vinganças incorretas”. É uma palavra composta, consistindo em makros (longo ou grande) e thumia (temperamento). Assim, literalmente significa ter um "fusível longo" ao contrário de ser curto/rápido, temperamental. Daí o motivo de chamarmos as pessoas explosivas e que têm dificuldade de regular as próprias emoções de “pavio curto”...

Quando a intolerância bate à nossa porta, devemos aguentar firme, resistir, pois devolver de bate pronto é fácil. Deixar saltar o nosso urso interior é simples. Difícil, complexo, exigente e delicado é domar os ímpetos, resistir à imprudência, manter longo o fusível dos sentimentos.

Certamente foi nessa esteira que o duque de La Rochefoucauld elaborou o pensamento de que “a moderação das pessoas felizes deriva da calma que a boa fortuna dá ao seu temperamento”.

Paciência e calma. A paciência – ou o ato de suportar as adversidades e aguentar firme ante os solavancos da existência - pode ser vista como a ciência da paz; a calma – essa quietude que é produto da queima das gorduras temperamentais - é viver em concordância com a alma.

William Shakespeare dizia que “as águas correm mansamente onde o leito é mais profundo”. Ao contrário do que sugere a superfície do mundo, os calmos e pacientes são muito mais profundos!

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

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Paulo Nazareno deixou um novo comentário sobre a sua postagem "SOBRE CALMA E PACIÊNCIA":

O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche.De todos os que lí,foi o que mais me modificou.

Este episódio que citas,o encontraras lá.

Carpe Diem.

PN.



segunda-feira, 28 de maio de 2012

AMANHÃ É DIA DE MAIS UMA EDIÇÃO DO JORNAL GAZETA DO CENTRO OESTE


VELHAS NOVIDADES NA ELEIÇÃO MUNICIPAL

“A palavra foi dada ao homem para dissimular seu pensamento”. Este lembrete de Charles Talleyrand-Périgord, matreiro político da era napoleônica, se faz muito presente no circuito político e, com mais intensidade, nos ciclos eleitorais. Querem um exemplo? “Não basta o novo nesta cidade. É preciso um programa novo”.

A senadora Marta Suplicy, na outorga do titulo de cidadão paulistano ao ex-presidente Luiz Inácio, semana passada, dizia à plateia que não adianta um candidato exibir sua estética jovem na campanha eleitoral se não portar, a tiracolo, um programa que reflita, de maneira competente, soluções para os graves problemas de uma metrópole.

Traduzindo o que a ex-prefeita do PT quis expressar: Fernando Haddad, candidato patrocinado por Lula, pode ter cara de meninão. Não será, porém, seu perfil que garantirá uma administração inovadora para São Paulo. Mais que isso, importa um plano “revolucionário”, capaz de contemplar as ingentes demandas da maior capital do país e adotar ações que resultem em mudanças e avanços.

O novo pode ser velho e o velho, ousando interpretar o pensamento da senadora, tem condições de vir a ser o condutor da locomotiva das mudanças. Marta, até então, detinha o maior índice de intenção de voto entre candidatos petistas à prefeitura. Referia-se a si mesma?

Sua intenção pode ter sido cutucar a cúpula petista. Mas não há como deixar de lhe dar razão. A campanha municipal no país ensaia os primeiros passos, com pré-candidatos atirando verbos uns contra outros, será certamente um exercício de fuga da realidade.

O conceito de novo inundará os palanques. Ladainhas, propostas mirabolantes e fórmulas mágicas comporão o discurso euforizante de candidatos às 5.565 prefeituras e às 57.748 vagas de vereadores. Desfilarão nas ruas diferentes tipos de candidatos, cada qual se esforçando para se diferenciar um do outro, pretendendo fixar a imagem do melhor, superlativo que puxará os qualificativos “preparado, experiente, inovador, conhecedor dos problemas, popular, sério, cumpridor de promessas”.

O PT emite sinais sobre a tônica de seu discurso. Recentes spots publicitários do partido, pela expressão do ex-presidente Lula e da presidente Dilma, mostram que o conceito-chave a ser usado na campanha será o da mudança, inovação.

O partido tem a intenção de colar nos candidatos o cenário das conquistas alcançadas no ciclo Lula, agora sob o manto do governo da primeira mulher presidente.

A estratégia, orientada pelo marketing político, deverá encontrar fortes barreiras, a partir da cultura dos grotões, que ainda se funda nos obséquios que Victor Nunes Leal descreveu no clássico Coronelismo, Enxada e Voto: arranjar ou prometer emprego, emprestar dinheiro, influenciar jurados, providenciar médico ou hospitalização, dar pousada e refeição, batizar filho e apadrinhar casamento, compor desavenças, proteger indicados na administração, enfim, uma infinidade de préstimos pessoais.

Portanto, o primeiro grupo de candidatos – nos 2.507 municípios de até 10 mil habitantes – se apresentará com o carimbo de despachantes de demandas pessoais. E o compromisso com a cartilha partidária? Ora, servirá apenas de passaporte de legitimidade.

Nas cidades de até 50 mil habitantes (2.449), cujas demandas nas frentes de serviços básicos são mais acentuadas – saúde, educação, transporte, habitação etc. – a tipologia será mais farta. Ver-se-ão perfis vestindo o figurino de obreiros sob o slogan “fulano fez, fulano faz.” Outros abrirão o cobertor do assistencialismo, usando a carona das bolsas da era Lula.

Populistas se esforçarão para acenar com gestos extravagantes e exibir as tradicionais mungangas: comer pastel na feira, tomar café na padaria, embalar crianças nos braços, visitar doentes, desfilar com o santo nos ombros na procissão religiosa. Aliás, nem os quadros de maior elevação cultural resistem às missas campais para 100 mil, 200 mil pessoas, celebradas por padres que habitam o Olimpo da cultura de massas. Faz parte da liturgia eleitoral.

Mas haverá sinais de mudança. Das comunidades médias, emergirão bons gestores saídos de profissões liberais -, principalmente médicos, advogados, agrônomos-, e também das áreas dos negócios, como comerciantes, empresários e proprietários rurais. Este núcleo geralmente conta com respaldo de entidades de intermediação social.

O foco discursivo abrigará demandas locais e imediatas e as ênfases obedecerão às especificidades de cada localidade.

Já nos ajuntamentos maiores – entre 50 mil até 100 mil e acima de 100 mil habitantes (609 municípios), a dispersão das mensagens tende a ser maior. O desafio dos contendores será o de criar uma identidade homogênea a todas as classes.

Os grandes centros poderão acolher a expressão bipolar – o novo contra o velho, o experiente contra o jejuno, a mudança contra o status quo, aposta do PT e do PSDB em São Paulo.

Mas o discurso ambivalente não será suficiente para formar duas alas, uma oposta à outra. Eis o ponto nevrálgico. No eleitorado paulistano de 8,5 milhões de pessoas, interesses se bifurcam, visões se aproximam, simpatia e antipatia se cruzam.

O fato é que o eleitor tornou-se mais crítico. Até pode continuar a eleger palhaços. Mas a figura do gaguinho prefeito se esvai na névoa do tempo.

Outubro de 1976. O candidato da Arena a prefeito de Palmares renuncia. O governador Moura Cavalcanti chega à cidade e pergunta: “quem é popular aqui?” Respondem: “o gaguinho”. Ante a informação de que “o gago não fala nada”, Moura fechou questão: “será ele”.

Levou-o ao palanque e anunciou: “prefeito não precisa falar, precisa agir.” O povo batia palmas. O gaguinho fazia apenas o V da vitória. Não disse um pio. Ganhou a eleição.

Um gaguinho, candidato de Lula, poderia levar a melhor no pleito de uma cidade pequena? É possível.

Mas a cáustica observação da senadora Marta tem lógica: o candidato pode ser jovem e gago, mas se não tiver programa novo, dança. Em tempo: não é o caso dos jovens candidatos em São Paulo.


(Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação)

domingo, 27 de maio de 2012

FADO TROPICAL EM FRANCÊS (POR GEORGE MOUSTAKI)




Oh muse ma complice
Petite sœur d'exil
Tu as les cicatrices
D'un 21 avril

Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t'ont déçue
De n'avoir rien pu faire
Ou de n'avoir jamais su

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal

On crucifie l'Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l'oubli

Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S'expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles

Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l'avenir

A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
À fleuri au Portugal

Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S'envole ta chanson

Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal

Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial

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Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)
Mesmo quando minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...

Com avencas na catinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
è que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no claro da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito de desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasminas, coqueiros fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial"