quarta-feira, 22 de julho de 2009

APRESENTAÇÃO


A CRÔNICA COMO VEÍCULO DE REALIDADES


Nos meus tempos de pré-adolescente, nos anos 60, através dos microfones da Rádio Educadora de Crateús, recém-inaugurada, dois cronistas da Ribeira do Poti se faziam ouvir, pela população embevecida. As crônicas eram lidas à noitinha (não lembro se pelos próprios autores ou pela voz do locutor Rodrigues Vale) e despertavam atenção respeitosa e comentários de aprovação. Nas casas e nas praças cessava o burburinho das conversas e se criava o clima favorável para escutar o relatório das reminiscências do Ferreirinha e a opinião conceitual e filosófica do professor Luiz Bezerra sobre os acontecimentos contemporâneos. Os dois intelectuais se completavam no seu afazer literário: um restaurando a memória da cidade e o outro comentando o presente.

A vida depois seguiu seu curso no processo vertiginoso e dinâmico que marca a história, levando de roldão coisas, gestos e pessoas e, com certeza, a antiga capacidade de se escutar com atenção e serenidade a leitura de crônicas.

Os sobreviventes lastimavam que as novas gerações, premidas pela velocidade dos meios de comunicação e o pragmatismo explícito, talvez não fossem capazes de gerar um cronista nos moldes daqueles que embalavam a Crateús singela doutros tempos. Um bom cronista, observador do circundante, que registrasse o cotidiano, opinando com lucidez e traduzindo o sentimento comunitário, além de, no resgate da tradição, pugnar pelo que foi construído pelos antepassados e por outros temas de importância capital, como a preservação ambiental.

Agora sabemos que o mesmo barro que gerou o poeta José Coriolano (o épico autor de “O Touro Fusco”) e o sociólogo Abelardo Montenegro (“Fanáticos e Cangaceiros”) ainda tem a força germinativa de produzir um escritor do quilate de JÚNIOR BONFIM, representante credenciado da melhor cepa dos homens de letras do Ceará atual.

Este livro, “AMORES E CLAMORES DA CIDADE”, reunindo a ativa participação do autor na imprensa regional, torna eterno o que poderia se perder pela própria condição fugaz das publicações de jornal, levando, assim, para os leitores do futuro, sua arguta e instigante observação da vida e das atitudes deste nosso tempo.

A obra obedece a uma divisão temática num arco de assuntos que englobam, na primeira parte, suas admirações (AMORES) e, na segunda, as denúncias contra o que lhe parece descabido, injusto ou desonesto (CLAMORES).

Confesso que me atraíram, de modo especial, os capítulos em que trata das personalidades que lhe encantaram, figuras do clero, os artistas, os boêmios, as professoras do Curso Primário, os intelectuais, as reservas morais da cidade. Muitos dos personagens homenageados estão também no meu altar, em que brilham de modo mais intenso Dom Fragoso e o historiador Ferreirinha.

Apesar da diversidade dos assuntos, cada crônica compõe a parcela oportuna e precisa dos elementos objetivos que dão unidade ao livro. O comentarista é o mesmo, altruísta, denunciador, romântico, sonhador, politicamente engajado, lotado de audácia cívica.

Escreve para todos os paladares, com texto enxuto e desenvolto, defendendo com a força de sua consciência os valores nativos, a cultura popular, a religião, a natureza, a mitologia ancestral, mostrando em tudo o impacto da história sobre o indivíduo e encetando uma campanha altiva contra a fúria assassina dos vândalos que destroem o meio ambiente em nome do progresso e de outras mesquinhas desculpas da ambição humana.

Existe em JÚNIOR BONFIM um sentido especial de perceber o mundo, um olho atento que vislumbra e absolve o trivial para dele retirar lições e construir o seu discurso ético.

Tem pleno domínio sobre os elementos que utiliza nessa verificação pertinente dos modos e costumes da terra natal. Não abre mão do que adota como a sua verdade e nisso às vezes é duro. Entretanto consegue seguir o verso de Ernesto Che Guevara, que embalou a Geração Anos 60, aquele que dizia que era preciso endurecer sem perder a ternura jamais. Por isso o vitupério mais ácido pode vir como um verso ou num sonoroso período de prosa poética, dizendo bonito e com graça o que poderia ser um insulto banal.

É leve e talentoso, como aqueles que conseguem produzir a melhor literatura, sem esnobismo semântico ou erudição gratuita. A arquitetura de suas crônicas segue a correnteza natural de sua emoção, nos levando também para as praças antigas, as tardes remansosas e as águas cristalinas da saudade que banharam no Poti várias safras de crateuenses.

O autor vem de outras experiências literárias, não sendo, portanto, um estreante. Mas é de se notar que, cada vez mais, seu texto se garante como o fruto maduro que nos traz o prazer gustativo desde a primeira mordida.

Posto, assim, sobre a nossa mesa, como um manjar tentador, “AMORES E CLAMORES DA CIDADE” nos induz à degustação.

Atendamos ao convite que nos faz este magnífico projeto editorial, porque, como poucas vezes acontece, neste livro estão juntos talento e autenticidade.


Juarez Leitão

(Da Academia Cearense de Letras)

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