quarta-feira, 24 de outubro de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a coluna com rápida passagem por um teste feito com candidatos a estagiários em um grande jornal de SP.

Estagiários, sim, senhor

Uma das questões: No dia 22 de novembro de 1963 houve um crime de repercussão internacional em Dallas, EUA. Descreva, utilizando no máximo cinco linhas, como foi aquele crime. Algumas respostas:

- Morte de Matter Luther King.

- O caso Wart Gate.

- Este crime foi com mortes por fuzilamento de pessoas, que muitas delas sem causa.

- O presidente John Kennedy visitava a cidade de Dallas com sua esposa Jaqueline, quando, em desfile em carro aberto, ele foi alvejado a tiros, vindo a falecer.

- O presidente dos Estados Unidos deu um grande rombo nos cofres públicos.

- Foi a Revolução do Texas. Infelizmente não tenho referenciais consistentes para comentar a respeito.

- John Kennedy foi assassinado quando passeava em carro aberto na companhia de sua esposa Jackeline Onassis Keneddy.

(Esse último aluno, incrível, até conseguiu enxergar o futuro da primeira dama com o Aristóteles Onassis)

E o Titanic, hein? Afundou-se

Em cinco linhas, deveriam escrever o que sabiam sobre o naufrágio do Titanic em 1912. Eis alguns relatos:

a) Fato ocorrido com seus tripulantes gentes famosas que estavam a bordo desse magnífico navio, na busca onde conseguiram algumas relíquias de grande valor a pouco tempo.

b) O navio Titanic bateu contra uma rocha ou um iceberg, não me recordo.

c) Várias pessoas estavam a bordo do navio quando ele afundou levando consigo entre crianças e adultos, jóias em prata e ouro, deixando perplexos tantos os familiares, quanto autoridades competentes.

d) Para mim, foi mais uma vez coisa do destino, com provas já comprovadas e muitos dos tripulantes do Titanic vinham sendo avisados com sonhos e alucinações. Ele batendo sem mais nem menos, como foi o acidente não era dúvidas, que o destino vinha acontecendo.

e) O navio Titanic afundou-se.

f) Uma enorme onda veio em direção ao navio que se encontrava atravessando no oceano.

g) Não havia botes para todos os passageiros, por isso muitos homens foram obrigados a morrer.

(Que o destino vinha acontecendo é um achado glorioso)

Na reta final

A campanha eleitoral chega à reta final levantando algumas dúvidas: 1) Qual será o futuro de José Serra em caso de derrota em SP? 2) Qual o futuro de Eduardo Campos que preside o PSB, partido que integra, hoje, a base governista? 3) Qual o futuro do prefeito Kassab que dirige o PSD? 4) O que o PT fará caso ganhe em SP e confirme sua posição de maior vitorioso em número de votos? 5) Quais os caminhos que se apresentam ao PMDB, que continua a ser o partido com o maior número de prefeitos e vereadores do país? Estas são algumas das grandes interrogações que chamarão a atenção dos analistas políticos nos próximos meses? Vamos tentar mirar na bola de cristal.

O futuro de Serra

Caso se confirme a derrota de José Serra, em SP, sua vida não estará enterrada como se ouve de bocas plurais. O ciclo de vida na política é de altos e baixos. É bem verdade que Serra tem descido muitas ladeiras. E a idade consome formidável parcela de energias. A ele apresentam-se as seguintes alternativas: a) disputar um posto majoritário em 2014, o de senador, por exemplo. Haverá uma vaga apenas. O mandato que se encerra é o de Eduardo Suplicy, do PT. Este partido continuará a colocá-lo no páreo ? Ou buscará nome que encarne o conceito de mudança? b) Serra poderá disputar uma vaga na Câmara Federal. É pouco para a vaidade dele, dizem. Mas é uma alternativa; c) Tomará o lugar do deputado pernambucano, Sérgio Guerra, na presidência do PSDB. Correria o país nessa condição para fortalecer os tucanos. Entregar o partido nas mãos de um derrotado ? É uma alternativa; d) ser secretário do governo Alckmin, para continuar a ter visibilidade política. Lembre-se: Alckmin foi secretário do governo Serra; e) Ser candidato a presidente da República em 2014. Nesse caso, teria de vencer o senador Aécio Neves em convenção. Ao leitor, deixo a escolha da alternativa.

O futuro de Campos

Em termos comparativos com 2008, o PSB de Eduardo Campos foi o partido que mais cresceu. Eduardo Campos trabalha com perspectiva de ser protagonista de primeira linha nas lutas políticas dos próximos anos. Vejamos, então, alternativas para sua trajetória : a) Ser candidato à presidente da República pelo PSB em 2014. A alternativa ganha fôlego sob um pano de fundo de descalabro econômico, país em crise, governo de Dilma navegando na borrasca, PT com imagem despedaçada; b) Ser candidato à vice-presidente na chapa de Dilma, candidata à reeleição. Nesse caso, o PSB teria de desbancar o PMDB. Tarefa mais que complexa, tendo em vista a continuidade do PMDB como partido mais capilar e com o maior número de prefeitos, vereadores e deputados estaduais; c) Ser candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Aécio Neves. A alternativa se fundamenta na tese de má avaliação do governo Dilma e consequente fortalecimento do PSDB; d) Não ser candidato em 2014, tornar-se ministro do governo Dilma e tentar viabilizar seu nome para 2018 como candidato a presidente da República.

O futuro de Aécio

Aécio Neves confirma, a cada dia, sua condição de candidato tucano à presidência da República em 2014. O senador mineiro corre o país, abraça correligionários, procura atrair parcerias desde já, na tentativa de adensar a base oposicionista. Portanto, suas alternativas são : a) Ser candidato tucano em 2014 em oposição à presidente Dilma; b) Presidir o PSDB e procurar viabilizar sua candidatura presidencial para 2018; c) Continuar como senador e ajudar outro candidato do PSDB à presidência. Difícil. A alternativa adequada é mesmo a primeira.

O futuro de Kassab

O prefeito Kassab criou o PSD, que tem hoje cerca de 50 deputados. Ficará sem mandato a partir de 2013. Vejamos quais as alternativas que a ele se apresentam : a) Transferir o partido, com toda a sua bagagem, para a esfera governista. Apoiar, portanto, o governo Dilma. Presidente do partido, Kassab correrá o país articulando ingressos e fortalecendo a sigla; b) Tornar-se ministro do governo Dilma, ganhar visibilidade e habilitar-se a um cargo majoritário em SP, em 2014; c) Ser candidato ao governo do Estado. Nesse caso, teria de enfrentar Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, o candidato do PMDB (a indicação mais forte é Paulo Skaf), o candidato do PT (possivelmente Alexandre Padilha), além de outros nomes; d) Ser candidato a senador. Disputaria com nomes fortes de outros partidos; e) Ser candidato a vice-presidente numa chapa encabeçada por Eduardo Campos ou Aécio Neves. A condição implicaria não ingressar na base do governo Dilma.

O futuro de Alckmin

Geraldo Alckmin poderá ver parcela ponderável do poder tucano transferir-se para o habitat mineiro de Aécio Neves. Com quem, aliás, tem boa articulação. Por isso, eventual derrota de José Serra não o impactará tanto. Aliás, a tendência é a de que o eleitor decida dar uma no cravo e outra na ferradura. Conceder parcela do poder ao PT, com a prefeitura, e, em 2014, oferecer outra parcela a outros partidos como o próprio PSDB. Eis as alternativas de Alckmin: a) Ser candidato à reeleição em 2014; b) Ceder o lugar para José Serra na candidatura ao governo e disputar a senatoria. Alternativa de baixíssima chance. A mais lógica é sua candidatura à reeleição.

O futuro do PT

Com o maior número de votos alcançados nas urnas e com o domínio político e administrativo da maior capital do país (caso Haddad seja o vitorioso), ao PT abrem-se as seguintes alternativas: a) alargar o caminho para permitir reeleição tranquila da presidente Dilma, em 2014, e formar a maior base de governadores estaduais, a maior bancada de deputados Federais e grande bancada de senadores; b) Escolher um perfil que encarne mudança (sempre sob escolha de Lula) para ser o candidato petista em SP. O ministro Alexandre Padilha deverá trocar o domicílio eleitoral do PA por SP. Os ministros Aloizio Mercadante e Marta Suplicy vão chiar, mas simbolizam o passado. Lula enxerga o futuro. A conquista de SP seria o maior sonho do PT; c) sedimentar a trajetória com novas parcerias, oxigenar o partido, a partir das bases, e reorganizar os quadros com vistas ao projeto de hegemonia partidária e continuação no poder.

O futuro do PMDB

O PMDB enfrenta um grave dilema: renovar seus quadros. Lula trabalha, todo tempo, com a percepção de oxigenação do PT. A tarefa tem sido fácil por conta do sistema vertical de mando. A turma de cima manda e o grupo de baixo obedece. No caso do PMDB, a tarefa é bem mais complexa. O sistema de mando é horizontal. Uma teia de arranjos, famílias, grupos, caciques, mandos e tradições. Cada Estado tem o seu PMDB. Renovar um partido com essa estrutura arraigada no passado é missão para Hércules. Se realizar essa tarefa, pelo menos em parte, o partido descortinará novos horizontes. Mesmo assim, divisa com as seguintes alternativas: a) Continuar a ser o principal parceiro do PT na aliança em torno da presidente Dilma, significando a indicação de Michel Temer novamente como candidato a vice; b) Sair da base governista, em função de uma crise econômica corroendo o governo, e se tornar parceiro de outra chapa. Alternativa de baixa probabilidade; c) Apresentar candidato a presidente da República, em 2014, na perspectiva de conquista do poder central. Alternativa que levaria em conta a deterioração das condições econômicas do país e o encontro de um nome com capacidade de conquistar o eleitorado; d) Continuar a ser parceiro do PT, sofrendo pressões das bases, tentado expandir sua força na estrutura governativa e administrando pressões de todos os lados.

Mensalão e eleição

Como este analista sinalizou, em vários textos desta coluna, o mensalão não influiu nos resultados eleitorais. Apenas consolidou votos e posições dos eleitores que habitam os territórios do PT e do PSDB. SP é o maior exemplo de nossa hipótese. A eleição do segundo turno ocorrerá após o julgamento do último capítulo do mensalão, aquele que propicia as manchetes mais impactantes: a formação de quadrilha. Que envolve quadros do PT. Pois bem, nada disso tirou votos de Fernando Haddad. O eleitor está preocupado mesmo com a micropolítica, a política de atendimento às suas necessidades mais imediatas.

As penas

A conversa da semana é sobre as penas que recairão sobre os condenados do mensalão. A maior curiosidade é saber se a tal dosimetria puxará para baixo ou para cima as penas de alguns. Este consultor tende a acreditar que a régua passará pelo meio. Ou seja, nem lá nem cá. Mesmo considerando que os ministros que votaram pela absolvição não entrarão no jogo dosimétrico. Nem 12 anos nem 2 anos para o grupo político. Algo em torno de 5 a 6. Penas acima de 12 anos para condenados por muitos crimes, como é o caso de Marcos Valério. Claro, mera intuição.

Conselho aos prefeitos eleitos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos da capital paulista. Hoje a atenção se volta aos prefeitos eleitos:

1. Há um formidável Custo Brasil da Descontinuidade. Que abriga a interrupção de programas, projetos e ações de prefeitos que deixam as administrações. Isso é uma aberração.

2. Verificada e comprovada a importância de um programa administrativo em andamento, o ideal é que não seja apagado, excluído, extinto. Boas ideias devem ser, sempre, implantadas, reforçadas.

3. Por isso mesmo, urge mapear as coisas boas iniciadas e desenvolvidas pelas gestões anteriores. Devemos, isso sim, diminuir o Custo Brasil gerado por ignorância.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 23 de outubro de 2012

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

Descompasso político e econômico I

Temos chamado a atenção de nossos leitores para o "paradoxo" resultante do fato de a economia brasileira estar relativamente estagnada ou crescendo em patamares inferiores aos outros países emergentes (China, Índia, África do Sul, Rússia, quase todos os países da bacia asiática), bem como comparativamente aos outros países da América do Sul, e, de outro lado, não existir nenhuma deterioração política face a este paradoxo. Isso se deve à constatação de que a economia brasileira está praticamente no pleno emprego, apesar deste ser aparentemente incompatível com o nível de atividade atual e prospectivo de 2013. A pergunta que deve ser feita é : esta peculiar situação persistirá ? Bem, ninguém tem bola de cristal para formular uma resposta firme a uma pergunta tão inquietante. Todavia, enquanto as perspectivas estruturais das economias centrais permanecerem obscuras, esta situação pode prosperar. Apesar de muitos senões...

Descompasso político e econômico II

Uma situação como a acima apontada cria uma crescente instabilidade aos agentes econômicos. Estes apostam, por ora, nas perspectivas de médio e longo prazo, mesmo porque a estes faltam alternativas relativamente aceitáveis no mundo confuso de hoje. O capital é covarde, como dizia Lord Keynes. Porém não tenhamos ilusões : o cenário econômico brasileiro, pouco a pouco, vai se deteriorando no que tange a sua atratividade de longo prazo. Os agentes econômicos ressentem-se de um plano estrutural mais consistente da parte do governo, assustam-se para custos tão altos em moeda estrangeira, temem o intervencionismo governamental - este é muito evidente -, preocupam-se com a falta de infraestrutura, educação e tecnologia, dentre muitos aspectos. Além é claro, da ausência de reformas estruturais e estruturantes nas áreas tributária, trabalhista, previdenciária e de regulamentação de serviços públicos.

Descompasso político e econômico III

Voltemos à pergunta inicial sobre a estabilidade política e a situação de desemprego, o que se pode dizer com relativa segurança é que as "luzes amarelas" estão acesas na relação entre o governo e os agentes econômicos. Podem não ser ainda muito visíveis na mídia, mas são muito intensos nos bastidores. Do lado do governo, o que nos parece é que esta percepção já foi acolhida no centro do poder. Porém, o que colhemos em nossos contatos é que há certa desorganização estratégica no governo e pouca pressa para mudar os rumos do país. Isto apesar da solidez da base política e da apetência dos agentes políticos pela manutenção do poder. Ainda não se vê sinais de que há mudanças substantivas à vista, mesmo que estas sejam necessárias à satisfação de certas vontades pantagruélicas pelo poder político. Apesar de tudo não seria surpresa se 2013 fosse um ano mais tenso neste sentido que este ano recheado de decepções com a atividade econômica e apesar da "surpreendente" estabilidade política.

Dilemas econômicos

O "Estadão" está fazendo uma série de entrevistas com ex-presidentes do BC. Já conversou com Armínio Fraga, Affonso Celso Pastore, Carlos Langoni e Gustavo Franco. Embora com alguns pontos de vista diferentes e guardadas as posições da cada um em matéria econômica, há elogios, em tons diversos à condução da política econômica, mas todos apontam que o BC de Dilma caminha para um dilema : para manter os juros como estão em termos reais (1,5% a 1,7%) e não deixar a inflação desgarrar perigosamente, ele terá de liberar o câmbio, acabando com essa situação de um câmbio "flutuante quase fixo". O IPCA-15, uma espécie de prévia da inflação do mês de outubro, deu sinais claros de que os preços andam inquietos - e não apenas os agrícolas.

Dilemas políticos

Segurar o ambiente econômico em boas condições como agora, é essencial para os planos reeleitorais de Dilma. Seu agudo envolvimento na campanha no segundo turno não deixa ninguém mentir a respeito dos desejos menos secretos dela de ficar no Palácio do Planalto até 2018. Faz na campanha favores a Lula e ao PT e aliados, mas faz mesmo um serviço para ela: compartilhar com eles as vitórias e não ser apontada como culpada de algumas derrotas por omissão. Imagine-se que Fernando Haddad, como recentes pesquisas apontam com bem provável, vença a eleição em SP, sem que ela tivesse dado as caras por aqui ? Seria apenas uma vitória de Lula. Imagine-se - também com grandes probabilidades segundo os institutos de pesquisa - que Nelson Pelegrino, em Salvador, e Vanessa Graziottin, em Manaus, sejam derrotados por detestados oposicionistas, sem que Dilma desse as caras para tentar ajudá-los. A derrota também seria dela. A presidente está aproveitando as eleições para se ligar mais organicamente ao PT e aos partidos aliados, os quais ela sempre tratou com uma certa distância. Há indicações de que fará o mesmo com o mundo sindical. Embora nesse campo, ela possa enfrentar algumas dificuldades em função de sua agenda trabalhista - regulamentação do direito de greve dos servidores públicos, tornar mais flexível as negociações salariais... Dilma tem todos esses grupos gravitando em torno dela - afinal, ela tem a caneta, o "Diário Oficial" e muita popularidade. Mas o apoio popular já se sabe como é volátil: depende da satisfação do eleitor com suas condições de vida. Muitos candidatos situacionistas sentiram essa verdade mais uma vez na pele agora nas urnas municipais. Para preservar esse patrimônio e não ser trocada pelos aliados, terá de operar a economia com grande perícia.

A hora e a vez do ministério

Auxiliares da presidente têm dito que não é intenção dela fazer uma reforma ministerial mais ampla, nem agora nem no início de 2013. Se acontecer, seriam mudanças pontuais, levadas por circunstâncias específicas. Uma informação que não bate com a realidade e visa livrar a presidente da fila de candidatos e de partidos com pretensões de vagas que já se formam nos bastidores. É inevitável que ela faça a reforma, como já dissemos para se livrar de alguns auxiliares com desempenho insatisfatório, para compensar os "bons parceiros" (caso PMDB, PSD de Kassab) e punir maus companheiros (como o PRB e, dependendo do andar da carruagem do segundo turno e seus desdobramentos, até o PSB e o governador Eduardo Campos). Um manobra que está sendo bem articulada (não se sabe se ainda com o aval da presidente e que depende do sucesso de Gustavo Fruet) em Curitiba é a que levaria Aloizio Mercadante do Ministério da Educação para a muito mais poderosa e influente Casa Civil, alojaria o peemedebista Gabriel Chalita no Ministério da Educação e jogaria a ministra Gleisi Hoffmann de volta ao Senado, para que ela tenha tempo de preparar sua candidatura do governo do PR. Especula-se também que o Ministério dos Transportes, o Ministério das Cidades e até o pouco cobiçado Ministério da Pesca poderão ter outros titulares. Em outros tempos, quando ainda posava de avessa a esse tipo de política menor, Dilma recusaria tais movimentos. Agora, não se sabe.

Entre o dizer e o fazer

Com grande entusiasmo - nem tão grande assim do BC - o governo está apostando finalmente no aumento dos investimentos públicos e privados para sustentar o crescimento da economia nacional sem sustos e solavancos. O mundo real, porém, parece que pode ter ainda muitas contrariedades para a realização de tais propósitos. Por exemplo: a MP 579 do setor elétrico ameaça dar alguma pane se não for operada bem no Congresso. E já ajudou a aumentar a desconfiança dos investidores externos no chamado "excesso de ativismo governamental". A questão dos aeroportos, mais urgente do que se imagina, depois da confusão em Viracopos no último feriado, está com jeito de emperrar. A primeira proposta para as novas concessões, com a participação majoritária da Infraero, foi rechaçada externamente. A nova, com a Infraero minoritária, mas com a obrigação da participação dos fundos de pensão, já recebeu alguns narizes torcidos também - pois os grandes fundos são controlados diretamente pelo governo. O anúncio do novo modelo virá após o segundo turno, para não desgostar a ala do PT que continua criminalizando as privatizações. Dos portos, ainda não se tem notícias do modelo. E nas estradas há uma questão chave, ainda na resolvida: a taxa de retorno para os novos negócios. Ou seja, em boa tradução : nada sairá ainda este ano. As novas concessões na área de petróleo estão amarradas à delicada aprovação no Congresso da lei dos royalties. Se não sair este ano, pode atrasar os leilões, previstos para maio (áreas antigas) e novembro (áreas do pré-sal). Para completar, os investimentos de responsabilidade do governo, estão, como sempre, no velho ritmo da inapetência oficial: segundo um levantamento do site "Contas Abertas", 651 ações do PAC são tocadas pela União e empresas estatais em 2012. Somadas chegam à cifra de R$ 116 bi, dos quais, passados nove meses do ano, apenas R$ 63,3 bi foram efetivamente pagos (54,6%). (...) a União e as empresas estatais deixaram 310 ações do PAC paradas este ano. As iniciativas somam R$ 15 bi que ainda não saíram dos cofres públicos. Na maioria das rubricas sequer foram realizados empenhos, a primeira fase da execução orçamentária. Apenas R$ 5,3 bi foram reservados em orçamento. O governo necessita, urgentemente, botar em sintonia o seu "dizer" com o seu "fazer".

Esperando a oposição

As notas acima valem para reflexão sobre o governo atual, mas vale igualmente para a oposição. Esta está curta de ideias, marcada pelo mesmo mal do "caciquismo" oficial, pela voracidade eleitoral e fragilidade na execução dos planos de governos. Aécio Neves, figura de proa da atividade dita de "oposicionista", carece de planos consistentes que possam identificá-lo com a população. A cristalização das estruturas de poder é um fenômeno que pode ser facilmente atribuído à palidez da oposição. Um país tão desigual quanto o Brasil necessita de uma dinâmica política compatível com as ansiedades econômicas e sociais. Não é o que se vê da oposição. Está dominada não pelo governo, mas pela sua própria fragilidade.

Uma explicação de "mercado"

Um investidor muito bem inteirado das coisas responde à coluna o porquê do mercado acionário brasileiro estar estagnado: "Basta olhar os principais setores do mercado. Petróleo, gás, energia elétrica, mineração, telecomunicações. Em todos eles a intervenção estatal é muito superior à necessária e a obstrução de investimentos é evidente em função dos delírios regulatórios do governo. O investidor sabe disso. Não compra e só não vende porque o mundo vai muito mal".

Mensalão: ato final?

Por esta semana teremos o fim do maior julgamento penal da história brasileira. A maioria será condenada e outros tantos devem ir para detrás das grades. Todavia, a pergunta que ocorre é : será que depois das eleições municipais os réus deixarão de ser mudos? De fato, o STF faz história em um ato mesclado de aspectos jurídicos e, ao mesmo tempo, políticos. Todavia, o script parece incompleto. Os réus são seres de alta atividade política e parte integrante do atual núcleo do ex-presidente Lula, queira este ou não. É difícil acreditar que os réus políticos capitularão às sentenças e penas sem manifestações políticas expressivas. O final do período eleitoral indica que o tempo disto ocorrer está chegando. E duas instituições que se cuidem: o STF e a imprensa.

Uma dúvida

Como se comportará a presidente Dilma Rousseff na posse do ministro Joaquim Barbosa na presidência do STF no dia 22/11? Barbosa hoje é figura detestada no mundo petista, que tem cobrado fidelidades à presidente. Para informação: Dilma não compareceu em SP ao Congresso da Sociedade Interamericana de Imprensa, evento que movimentou durante quatro dias jornalistas e jornais de nível das três Américas.


(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A VIDA ENSINA


Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe.

Se você é muito simpático mas leva meia hora para concluir seu pensamento; que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema, aquele que começa pelo fim.

Se você faz exames demais; que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando.

Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.

Tanto mais lúdica quanto mais complexa.

Tanto mais complexa quanto mais consciente.

Tanto mais consciente quanto mais difí­cil.

Tanto mais difí­cil quanto mais grandiosa.

Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade; que a vida lhe ensine a aproveitar os raros momentos em que ela (a paz) surge.

Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar e próprio, por mais que pareçam úteis e eficazes as coisas que a ele, no fundo, não soam como tais, embora façam aparente sentido e se apresentem tão sedutoras quanto enganosas.

Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer as verdades na hora da raiva. Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se nos revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois.

Que a vida ensine que tão ou mais difí­cil do que ter razão, é saber tê-la.

Que aquele garoto que não come, coma.

Que aquele que mata, não mate.

Que aquela timidez do pobre passe.

Que a moça esforçada se forme.

Que o jovem jovie.

Que o velho velhe.

Que a moça moce.

Que a luz luza.

Que a paz paze.

Que o som soe.

Que a mãe manhe.

Que o pai paie.

Que o sol sole.

Que o filho filhe.

Que a árvore arvore.

Que o ninho aninhe.

Que o mar mare.

Que a cor core.

Que o abraço abrace.

Que o perdão perdoe.

Que tudo vire verbo e verbe.

Verde. Como a esperança.

Pois, do jeito que o mundo vai, dá vontade de apagar e começar tudo de novo.

A vida é substantiva, nós é que somos adjetivos.


(Artur da Távola)

domingo, 21 de outubro de 2012

VIVER É CORRER RISCOS


Rir é correr risco de parecer tolo.

Chorar é correr o risco de parecer sentimental.

Estender a mão é correr o risco de se envolver.

Expor seus sentimentos é correr o risco
de mostrar seu verdadeiro eu.

Defender seus sonhos e idéias diante da multidão
é correr o risco de perder as pessoas.

Amar é correr o risco de não ser correspondido.

Viver é correr o risco de morrer.

Confiar é correr o risco de se decepcionar.

Tentar é correr o risco de fracassar.

Mas os riscos devem ser corridos,
porque o maior perigo é não arriscar nada.

Há pessoas que não correm nenhum risco,
não fazem nada, não têm nada e não são nada.

Elas podem até evitar sofrimentos e desilusões,
mas elas não conseguem nada, não sentem nada,
não mudam, não crescem, não amam, não vivem.

Acorrentadas por suas atitudes, elas viram
escravas, privam-se de sua liberdade.

Somente a pessoa que corre riscos é LIVRE!

(Sêneca)

sábado, 20 de outubro de 2012

NO DIA DO POETA, AUTOPSICOGRAFIA - DE FERNANDO PESSOA


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


(Fernando Pessoa)

DESCOBRI QUE TE AMO DEMAIS - ZECA PAGODINHO

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Abro a coluna com duas historinhas da Paraíba.

Cancelo chuvas

A seca era medonha. A Paraíba em desespero, o governador aflito. Um dia, caiu uma chuva fininha no município de Monteiro. Inácio Feitosa, o prefeito, correu ao telégrafo:

"Governador José Américo: chuvas torrenciais cobriram todo município de Monteiro. População exultante: Saudações, Feitosa".

Os comerciantes da cidade, quando souberam do telegrama, ficaram desesperados. O município não ia mais receber ajuda. Ainda mais porque a mensagem era falsa e apressada. Feitosa correu de novo ao telégrafo:

"Governador José Américo: cancelo chuvas. População continua aflita. Feitosa, prefeito".

Sinceridade e sagacidade

Zé Cavalcanti, ex-deputado paraibano, conta em seu livro "A Política e os Políticos", que um coronel do sertão, ao passar o comando de seus domínios para o filho, aconselhou:

- Meu rapaz, se queres ser bem sucedido na política, cultiva estas duas verdades: a sinceridade e a sagacidade.

- O que é sinceridade, meu pai?

- É manter a palavra empenhada, custe o que custar.

- E o que é sagacidade?

- É nunca empenhar a palavra, custe o que custar.

Tucano bica, petista rebate

A campanha paulistana adentra o segundo turno sob bicadas do tucano Serra no candidato petista Fernando Haddad. As bicadas ocorrem em diferentes graus de contundência, pegando coisas da gestão do ex-ministro Haddad na Pasta da Educação como o Kit Gay, as provas vazadas do Enem, etc. O petista rebate com o argumento de que Serra destila ódio. E mais, lembra que o DNA do mensalão é mineiro. Serra espera que os ataques que faz consigam desconstruir a imagem do petista. E este acha que o revide acabe engolfando a imagem de Serra. Ora, nem um nem outro conseguirão induzir o eleitorado com suas estocadas recíprocas. O efeito é bem diferente do que esperam.

O efeito

Tenho lembrado, em muitas oportunidades e textos, que a desconstrução da imagem de candidatos só é eficaz quando o foco é o plano das ideias. Ou seja, quando se procura atacar as posições dos adversários sobre questões que afligem as massas eleitorais, desde grupamentos conservadores a contingentes abrigados nas margens. Exemplo dessa situação ocorreu com Celso Russomano, que recebeu uma paulada de Fernando Haddad quando defendeu custo mais alto de passagens para viagens mais longas. O pobre que mora nos confins da periferia de SP acabaria pagando o pato. Foi tiro e queda. Caiu Russomano. Coisas semelhantes podem ocorrer na esfera da defesa do aborto e de outros temas polêmicos.

Reforço de posições

Portanto, as campanhas negativas que procuram desconstruir perfis são, feitas as exceções, perniciosas aos candidatos que as patrocinam. No fundo, apenas reforçam posições e pontos de vista já firmados por eleitores já definidos de partidos e candidatos. E se isto é o que recomendam os manuais de marketing eleitoral, por que candidatos continuam a insistir em lições obsoletas? Velha resposta: porque os assessores de marketing querem testar todas as possibilidades. Ademais, há um grupo de porta-vozes informais que pensam na verdade da hipótese da desconstrução. Quando a diferença entre um candidato e outro ultrapassa a marca dos dois dígitos a vontade de encurtar a distância com a tática da guerra de guerrilha emerge com mais força.

O que se pode esperar?

Essa é a pergunta que fazem diariamente a este consultor. Que responde com o mantra: não tenho bola de cristal. Mas pode-se apontar tendências. Eis algo que parece platitude: quem saiu muito de baixo para chegar a um alto índice encarna a posição de candidato ascendente; a recíproca é verdadeira, ou seja, quem saiu de um alto índice e chega menor no segundo turno encarna o perfil descendente, em queda. Outro sinal é dado pelo índice de rejeição. Alta rejeição sinaliza alto risco; a recíproca é verdadeira. São duas abordagens a se considerar. Que o leitor/eleitor faça sua própria leitura.

Muita sede ao pote

A ambição na política é um fator de oportunidades. Quem tem ambição abre caminhos de determinação e persistência. Se um político ambiciona ser um alto cargo, bem mais alto do que o que exerce, precisa buscar os meios e instrumentos para viabilizar sua meta. Até aqui, tudo bem. Mas a meta precisa ser compatível com os meios que o político dispõe ou poderá dispor. Vamos dar nome à hipótese: Eduardo Campos, governador de PE, quer ser candidato à presidente da República. Se não vingar a ideia, diz-se que pleiteia ser candidato a vice na chapa encabeçada pela presidente Dilma à reeleição. Tem chances? Vejamos. O PSB teve um aumento de 53% em seu território municipal. Podendo crescer ainda mais. Foi o partido que mais ganhou com o processo eleitoral. Mas continua a ser menor do que o PT e o PMDB. Portanto, a meta é ambiciosa, mas o cacife é menor do que o governador de PE procura sinalizar.

O que pode acontecer?

Portanto, a parceria para 2014, em termos de presidência da República, deverá continuar envolvendo PT e PMDB. Edu Campos poderia se aliar à Aécio Neves e sair com ele numa chapa casando PSDB e PSB? Pode. Ele é um político pragmático. Nesse momento, deixará a amizade e o respeito que tem por Lula em segundo plano. Essa hipótese só vingará se a economia brasileira estiver capengando nos pastos de 2014. A economia será o termômetro da corrida de Campos. Que poderá cair na vala que ameaça colher políticos que querem dar um passo maior que as pernas. A ambição é importante, conforme ensina a lei; a ambição desmesurada mata.

Lula, o ideólogo

Para quem tem ainda alguma dúvida, eis a resposta : Lula não será mais candidato a nada. Basta refletir. Veio do andar mais baixo e subiu o mais alto. Comandou o país durante oito anos. Fez um governo de consolidação da base econômica de fortalecimento dos braços sociais do Estado. O maior programa de distribuição de renda da atualidade. Elegeu a presidente Dilma. Curou um câncer. Tirou do bolso candidaturas jovens, como as de Fernando Haddad, em SP, e Marcio Pochman, em Campinas. Pode eleger esses dois. É o guru do PT. O mais admirado político da atualidade. Tem carisma. Com toda essa bagagem, precisaria reforçá-la, ainda mais, com uma volta à presidência? Aqui pra nós, depois de pairar no Olimpo, descer à terra não seria retroceder?

Sociedade condenada

"Quando você perceber que, para produzir precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho; que as leis não nos protegem deles mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto-sacrifício, então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada". (Ayn Rand)

Eduardanas Cabralinas

Eduardo Paes mais parece um moço de recados de Sérgio Cabral. Nos últimos dias, tem dado entrevistas sobre a candidatura do governador Cabral para a vice da presidente Dilma em 2014 tirando da chapa Michel Temer. Que, aliás, está no auge de sua performance como articulador. Michel costurou o apoio do PMDB ao PT em diversos municípios, a partir de SP. A presidente Dilma, com quem tem estreitado as conversações, encontrou em seu vice o perfil do negociador e diplomata, dando a ele muitas representações no exterior. Pois bem, nesse momento de alto prestígio do vice, o prefeito Paes, cristão novo no PMDB, decidiu fustigá-lo e, de maneira deselegante, inventa a candidatura do seu amigo de boemia, Cabral, como vice de Dilma.

Indignação

O fato indignou o corpo peemedebista. Geddel Vieira Lima, que não tem papas na língua, lembrou que Paes, sem voz no partido, quer resgatar a República dos Guardanapos. Estocada para lembrar a farra parisiense do governador com Fernando Cavendish, todos dançando e envergando guardanapos na cabeça. Cavendish é personagem da CPI em andamento no Congresso. E assim, o tiro de Paes começa a entrar pela culatra. Os personagens de Paris à Meia Noite ameaçam voltar ao palco iluminado. Sob lembrança das bicadas ferozes que Eduardo Paes, ex-tucano de bico alto, dava em Lula. Nos bastidores, a indignação se expande : Paes troca de opinião e partido como troca de poeta. Dia desses, proclamou não ser PMDB, mas RJ. Se não é PMDB, por que tanto interesse em defender candidaturas como alto prócer do PMDB? Ou essa operação casada foi apenas um balão de ensaio?

Duda Mendonça

Esta coluna manifesta a sua satisfação pela absolvição de Duda Mendonça. E reconhece nesse profissional grandes qualidades como publicitário que escreveu seu nome em algumas das mais criativas e eficazes campanhas eleitorais do país.

Vereadores

A planilha de vereadores no Brasil ficou assim: PMDB, 7.964 (tinha 8.475); PSDB, 5.248 (tinha 5.897); PT, 5.164 (tinha 4.168); PP, 5.164 (tinha 5.128); PSD,4.6639 (não existia em 2008); PDT, 3.654 (tinha 3,523); PTB, 3.566 (tinha 3.934); PSB, 3.566 (tinha 2.956); DEM, 3.275 (tinha 4.801); PR, 3.190 (tinha 3.534). Outros: 12.135 (tinham 9.487).

Propaganda, à guisa de história

A propaganda política, ensinava Jean-Marie Domenach, professor francês de Humanidades e considerado um dos papas dessa ciência, "faz o povo sonhar com as grandezas passadas e com as glórias do futuro". Para "vender" esta miragem, a propaganda tem usado uma combinação de quatro impulsos - combativo, alimentar, sexual e paternal/maternal - que movem os seres vivos. Cada um desses instintos exerce uma função na estratégia de motivar e engajar a sociedade, mas os dois primeiros ganham ênfase por mexer com a conservação e a sobrevivência dos indivíduos. O uso da propaganda tem sido intenso não apenas nos ciclos dos grandes movimentos de massas - revoluções francesa e russa, I e II guerras mundiais - mas no dia a dia da política, transformando-se em eixo central das estratégias de marketing.

Correia de transmissão

Nos sistemas autoritários, é a correia de transmissão para dizer "a verdade dos governantes", enquanto nos regimes democráticos, passa a ser o anzol para pescar o voto dos eleitores e, ainda, o cabo de guerra para animar os exércitos das campanhas. A revolução francesa de 1789 pode ser considerada o marco da propaganda agressiva nos termos em que hoje se apresenta, inclusive neste nosso aguerrido segundo turno da campanha presidencial. Ali, os jacobinos, insuflados por Robespierre, produziram um manual de combate político, recheado de injúrias, calúnias, gracejos e pilhérias que acendiam os instintos mais primitivos das multidões.

Os americanos

Na atualidade, é a Nação norte-americana que detém a referência maior da propaganda agressiva, mola da campanha negativa. Este formato, cognominado de mudslinging pelos norte-americanos, apresenta efeitos positivos e negativos. No contexto dos dois grandes partidos que se revezam no poder - democrata e republicano -, diferenças entre perfis e programas são mais nítidas e a polarização sustentada por campanhas combativas ajuda a sociedade a salvaguardar os valores que a guiam, como o amor à verdade, a defesa dos direitos individuais e sociais, a liberdade de expressão, entre outros. Mesmo assim, nem sempre a estratégia de bater no adversário gera eficácia. Na campanha ao Senado, em 2008, a republicana Elizabeth Dole atacou a rival Kay Hagan, veiculando um anúncio que insinuava ser ela ateia. A democrata reagiu vigorosamente dizendo ser professora, religiosa e que Dole queria, na verdade, desviar a pauta econômica - eixo da crise financeira. Ganhou a disputa por uma margem de nove pontos. Já Lyndon Johnson, em 1964, detonou o republicano Barry Goldwater, associando-o à ameaça de uma guerra nuclear.

Conselho aos dois candidatos da campanha paulistana

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado aos candidatos que disputam o segundo turno. Pois bem, hoje a atenção se volta aos candidatos do maior pleito do Brasil, o da capital paulista:

1. Suas estocadas recíprocas - mensalão petista, mensalão mineiro, Kit Gay, falta de experiência, aborto - não fazem parte do menu apreciado pelo eleitor médio. Apenas reforçam pontos de vista de eleitores tradicionais dos partidos e candidatos.

2. Procurem apresentar propostas e ações para as diversas zonas e regiões que compõem a anatomia da capital. A partir das demandas mais urgentes e prioritárias.

3. Clareza, objetividade, concisão, precisão, proximidade. Eis alguns conceitos que podem servir de moldura aos programas. Falem com a expressão de suas crenças e com o ardor de suas convicções.

____________

(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

OBSERVATÓRIO

04 de outubro de 2012. Três dias antes das eleições. O Jornal O POVO estampou matéria paga noticiando o resultado de uma pesquisa realizada em Crateús fazia mais de uma semana. Resultado: Carlos Felipe – 52,3%; Ivan - 38%. 05 de outubro de 2012. Sessenta mil panfletos haviam sido confeccionados em uma gráfica da cidade e estavam sendo distribuídos por todo o município. A peça publicitária induzia as pessoas a assimilarem que a pesquisa era do dia 04.10. E que Felipe venceria as eleições com uma maioria de 6.800 votos. No dia anterior, uma decisão judicial havia proibido a divulgação de outra pesquisa, realizada na semana da eleição, apontando a vitória de Ivan por uma pequena vantagem. Resultado: Carlos Felipe foi reeleito com uma diferença de 1.900 votos. Deve isso a três fatores: o embuste das pesquisas, a exclusividade da utilização da última noite de campanha (carreata de sábado) e o uso da máquina. Em todas as épocas, a máquina sempre foi usada a serviço da candidatura oficial. Agora não foi diferente (os contratados que o digam).

PESQUISAS

As eleições deste ano comprovaram que pesquisas – apesar do rigor científico e da eficácia metodológica - também são permeáveis a manipulações e fraudes. Por sua força indutiva sobre a população, as pesquisas têm enorme peso sobre o resultado das urnas. Há um considerável contingente de votantes que só se define na semana da eleição. Em se tratando de disputas acirradas, esse percentual do eleitorado que é adepto do voto útil (ou que “não quer perder o voto”) acaba sendo decisivo. Foi o que se deu em Fortaleza com a candidatura de Heitor Férrer. E em Crateús, com Ivan. Tivessem sido divulgados os números da última pesquisa, certamente estaríamos diante de outra realidade.

CANDIDATOS

Todos os cinco postulantes à Prefeitura de Crateús merecem registro, reconhecimento e encômios. Eduardo Machado representou a ousadia individual de um cidadão simples que, mesmo passando ao largo dos cânones gramaticais, deu o seu recado. Massaroca realizou o sonho pessoal de concorrer à Chefia do Executivo e, apesar dos contratempos, manteve a bandeira içada até o final da batalha. Adriana delimitou o território do idealismo, dos que fazem política bronzeados pelo sol da utopia. Ivan foi a grande revelação do pleito. Em apenas três meses catalisou a insatisfação popular e se viabilizou como alternativa de poder. Carlos Felipe garantiu a continuidade do seu projeto. Foi o vitorioso e ganhou mais quatro anos à frente da municipalidade.

AS LIÇÕES

No mês passado registramos nesta Coluna: “que ninguém seja tomado pelo espasmo da admiração se candidaturas oposicionistas, em grande número, obtiverem êxito nas próximas eleições. Domínios de várias décadas estão sob o signo da ameaça. Dia sete de outubro as urnas revelarão um novo cenário”. De fato a previsão se confirmou. Na região, vários municípios corroboraram esse prognóstico: Quiterianópolis, Independência, Ipaporanga, Ararendá... Essas eleições inauguraram uma nova fase na vida política. Um eleitor diferente – atento e exigente – está se gestando. Este novo eleitor tende a ser intolerante com o caciquismo duradouro. Há um ambiente propício à alternância de poder. Ninguém quer mais um mesmo grupo ou cacique mandando a vida toda. Novo Oriente escapou dessa onda porque o grupo da situação, inspirado na sensibilidade política de Nenen Coelho, resolveu se compor com um segmento da oposição. Agora, o Prefeito eleito Godô deverá dar uma oxigenada na gestão.

AS LIÇÕES II

Em Crateús, a candidatura de Ivan deixou um legado positivo. O candidato do PMDB fez uma campanha inovadora. Não se rendeu ao modelo tradicional. Fez compromissos simples, claros e exequíveis. Registrou-os em Cartório, a fim de que não ficassem como palavras ao vento, conforme faz a maioria dos candidatos. Como oposicionista, foi combativo sem resvalar para a irresponsabilidade. Só aceitou fazer denúncias de irregularidades que podia comprovar documentalmente. Cumpriu todas as obrigações pactuadas com os aliados, até porque só deu passos proporcionais às próprias pernas. Do ponto de vista financeiro, racionalizou custos, fez uma campanha modesta, sem abuso de poder econômico. Não cedeu a pressões grupais. Deixou nítido que estava ali para cumprir uma missão. Sempre alimentou o sonho de servir à sua terra. Estava preparado para dar o seu contributo. Dentre os nomes disponíveis no segmento político que compunha, revelou-se o mais talhado para o embate neste momento. Sai da arena de luta pela porta da frente. Está de parabéns!

AS LIÇÕES III

Carlos Felipe deverá fazer uma análise amiúde da campanha. Há quatro anos, saiu consagrado por mais de 60% dos votos. Agora, obteve menos da metade dos votos válidos. Ou seja, mais de 50% do eleitorado não quis lhe sufragar. Noutras palavras: se a oposição tivesse marchado de maneira unificada, teria ganhado a eleição. Isto significa que Felipe começa seu segundo mandato sem o carimbo da legitimidade majoritária do povo. Portanto, se pretender se reconciliar com a maioria, é indiscutível que há necessidade de fazer alterações. Terá o médico Prefeito a coragem de pegar no bisturi da burocracia prefeitural e realizar a devida cirurgia? Só o tempo dirá.

PARA REFLETIR

“Nada é permanente, exceto a mudança”. (Heráclito)

(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

À MESTRA ROSA, NO DIA DO PROFESSOR!


Ao tempo em que estava à frente da Secretaria de Educação de Crateús, convidei o Professor Celso Antunes para proferir uma palestra para a comunidade escolar. O longevo mestre, cabelos flor de algodão, distribuidor de sorrisos, olhar penetrantemente delicado, com o magistério da própria experiência encheu a nossa alma de graça e encantamento.

Contou-nos, dentre outros fatos, que, em missão cultural ao Japão, foi levado pelo Ministro da Educação daquele País para um encontro com o Imperador. Ao adentrar no salão do monarca, viu uma cena inusitada: o nobre se curvou, com litúrgica solenidade e reverente respeito, ante a presença dos dois professores. Ficou intrigado. Na saída, indagou ao Ministro o motivo daquele gesto. E ele respondeu: - Se o perguntássemos, ele responderia que presta reverência aos professores porque foram eles que o formaram.

Com essa citação, o mestre Antunes queria deixar registrado que nalguns rincões do planeta os professores estão colocados no lugar que merecem: sobre o púlpito do respeito social, no altar da admiração coletiva.

Talvez para provocar nossa capacidade alterativa ou, simplesmente, como uma cândida lamparina de referência, ainda existem remanescentes – raros, é bem verdade – de uma época áurea da educação, em que os que lideravam as salas de aula estavam, ao lado do Padre e do Juiz, entre as figuras que ocupavam a tribuna de honra da deferência comunitária.

Entre esses nomes, e com indiscutível destaque, está o da crateuense ROSA FERREIRA DE MORAES. Escrevo o seu nome em negrito e com letras maiúsculas porque as palavras que o compõem formam um ternário biográfico.

A sua artística porção ROSA desabrocha permanentemente, como uma flor de roseira, no jardim invisível do seu coração, em especial quando, de posse de um pincel, nos chama a atenção para detalhes pouco perceptíveis do cotidiano, através de quadros pintados com acurado esmero e fina sensibilidade.

Dentre os presentes que esta vida me deu está o privilégio de ter sido aluno desta FERREIRA. De ferro, mesmo. Com seu jeito austero, com sua imponente compleição física, com sua voz grave e seu olhar severo, ensinou-nos os benefícios da férrea disciplina, da dedicação inflexível, do cumprimento do objetivo delineado, da satisfação do dever cumprido. Recordo como era comum, em suas aulas, quando identificava desvios de conduta nos alunos, a realização de paradas bruscas na transmissão dos conteúdos a fim de que pudéssemos ouvir exortações sobre os caminhos da retidão e do bem, verdadeiras lições de moral, preciosos sermões sobre as virtudes de cultuarmos princípios de vida.

Outro dia, ela me confidenciou que seu saudoso pai sempre escrevia MORAES com E ao invés de I porque, no entendimento dele, Morais com “i” era plural de moral. Para mim, esse MORAES deita raízes na palavra mora, não no sentido comercial de retardamento do devedor no pagamento de uma dívida, mas no profundo sentido espiritual da palavra demora, que se resume na rara capacidade de saber o tempo certo de cada coisa, de não atropelar o curso natural da existência, de não queimar etapas na caminhada da vida.

Em suas mais de oito décadas de vida, ROSA FERREIRA DE MORAES tem reluzido. Se pudesse, mudaria o seu nome para ROSA FERREIRA ESTRELA DE MORAES, pois é isto que ela é: uma pétala resplandecente que há iluminado gerações.

(Júnior Bonfim, in "Amores e Clamores da Cidade")

sábado, 13 de outubro de 2012

MAL DE ALZHEIMER

Diante de tantos contatos com pessoas portadoras do Mal de Alzheimer, resolvi escrever este cordel tentando colaborar com quem de uma forma ou de outra está envolvido em algum caso semelhante.

Tenho intenção de posteriormente editar num livro este cordel incluindo os comentários.

Se desejar, ao ler este cordel, deixe seu comentário, seu depoimento, o que tem feito para lidar com a situação e seu comentário sairá no livro e depois receberá um exemplar

Um abraço,

Levi Madeira
Médico e Cordelista


É sobre o tal Mal de ALZHEIMER
Que aqui vou tentar narrar
Todo mundo já conhece
Ou já dele ouviu falar
Alois Alzheimer, pois não
Psiquiatra alemão
Veio a isto desvendar

De mansinho vai chegando
Sem pedir nem permissão
Falhas leves na memória
Chamadas de distração
Passando despercebido
Até um fato ocorrido
Que vai chamar atenção

É bem mais raro no jovem
Sendo frequente no idoso
Chamam até de caduquice
Um eufemismo amistoso
Mas é degeneração
Cérebro com retração
Encarar é doloroso

É um mal bem traiçoeiro
Desconhece o portador
Esquecendo o que já fez
Vai desligando um sensor
Falha a memória recente
E a antiga lá na frente
Como um véu apagador

Uma doença incurável
Pois é degenerativa
E tem no seu tratamento
Medida paliativa
Dar suporte e condição
Cuidar da alimentação
Ativação cognitiva

Já existem no planeta
Cem milhões de portadores
No Brasil sendo um milhão
Ou bem mais nos bastidores
Será uma epidemia
Que ao mundo alastraria
O que são os causadores

Dia Mundial do Alzheimer
É vinte e um de setembro
Conscientizar o povo
Cuidador e cada membro
No seu mundo mergulhar
Pra melhor dele cuidar
De janeiro até dezembro

Para o cuidador do Alzheimer
Que missão bem delicada
Tem que agir com sutileza
É terra muito minada
Perguntar e repetir
Se zangar e discutir
Paciência redobrada

Portador vai se tornando
Repetitivo e estressado
Não raro até fica mesmo
Completamente zangado
É dele sempre a razão
Pra evitar mais discussão
É cuidador humorado

Na fase mais pro final
Paciente dependente
A linguagem é reduzida
Desconhece até parente
Mostra cansaço e apatia
E também anorexia
Alma ali parece ausente

Já nos primeiros sinais
Tratamento e prevenção
Procurar um geriatra
Seguir a medicação
Família se preparar
Cuidador se redobrar
Planejamento e atenção

Pra fortalecer o cérebro
O negócio é exercitar
E trabalhar conexões
Pra mais ágil ele ficar
Ginástica cerebral
Mais ativação neural
O SUPERA isto lhe dá

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O DIA DAS CRIANÇAS - UM BOM MOMENTO PARA PENSAR NO FUTURO DELAS


Como já referi nesta coluna, se o consumidor adulto é, como de fato é, vulnerável e hipossuficiente no mercado de consumo (como diz o Código de Defesa do Consumidor), a criança-consumidora é especialmente vulnerável. E, se o consumidor adulto é, geralmente, vítima do fornecedor, a criança-consumidora é não só vítima do fornecedor como também muitas vezes dos pais e demais pessoas próximas.

Os pais (e também os avós e demais parentes) poderiam – ou, melhor, deveriam – aproveitar essas ocasiões artificiais – como a do Dia das Crianças – em que o elemento externo (isto é, o mercado) impõe que eles façam compras e deem presentes aos filhos e netos para refletirem sobre como querem que essas crianças não só recebam esses presentes como que valor devam dar a eles.

Naturalmente que, uma vez que se está decidido a dar o presente, o primeiro caminho é descobrir o que dar. Tem-se, portanto, que refletir sobre a qualidade do presente. Haverá coisas úteis e porcarias. Coisas indispensáveis e outras desnecessárias. O mercado, como sempre digo, saberá oferecer de tudo. O marketing sedutor e enganador, aliado ao sistema de crédito e parcelamento consegue convencer até quem não pode comprar e adquirir produtos e se endividar (ou aumentar ainda mais seu endividamento).

E, nessa questão dos presentes, há muito mais do que simplesmente essa ocasião do dia das crianças: os produtos – e também serviços – de consumo de há muito têm intervindo nas relações de pais e filhos de modo que a reflexão impõe que pensemos num horizonte mais amplo do que apenas essa fictícia data comemorativa.

Muito se tem falado, nessa nossa sociedade que se diz civilizada, da dificuldade que os pais têm, atualmente, para educar seus filhos na imposição de limites claros. É um tema batido, mas repito o que se tem assistido: muitos pais acabam oferecendo para seus filhos produtos e serviços em excesso porque eles não tiveram essa oportunidade na própria infância. Isso por, pelo menos, dois motivos: primeiro porque os pais desses pais não tinham condições financeiras para adquirir os produtos e serviços que eram oferecidos; segundo, porque, de fato, naquela época, havia menos oferta e o preço era muito mais elevado. Agora, esses pais, que melhoraram seu padrão aquisitivo, têm à sua disposição muito mais produtos e serviços a menores preços, o que acaba sendo uma tentação irresistível.

Ademais, como aqui tenho sempre lembrado, o marketing agressivo de vendas de produtos e serviços para crianças, muitas vezes, cria de propósito um liame entre pais e filhos de modo a possibilitar que esses últimos pressionem os primeiros em busca das compras. Aliás, por causa disso, não é incomum que pais se endividem apenas e tão somente para comprar bugigangas e produtos desnecessários para seus filhos.

Não quer dizer que os filhos não possam fazer por merecer, nem que não devam, em algum momento, receber certos produtos e serviços. A questão é outra. É preciso que as crianças e adolescentes deem valor a tais oferendas; é necessário que eles saibam o real preço das coisas; que consigam, de fato, perceber que aquilo é uma conquista e não algo que facilmente caiu do céu. Lembro o que disse meu amigo Outrem Ego a respeito desse assunto. Ele me contou que, quando era criança, de infância pobre e recursos limitados, como qualquer garoto da idade dele, gostava de colecionar figurinhas. Mas, como seu pai, operário, não tinha recursos para adquiri-las a toda hora, ele ficava aguardando dias a fio numa alta expectativa.

Ele me contou que, até hoje, ainda lembra da torcida que fazia para que a chegada do seu pai em casa às sextas-feiras fosse acompanhada dos desejados pacotinhos de figurinhas. E me falou da enorme alegria que sentia quando ganhava cinco pacotinhos. Cinco. Apenas cinco e gerava um incrível sentimento de felicidade. Uma vez, seu pai trouxe-lhe dez e ele quase não dormiu de tão contente e eufórico que ficou. Ele dava muito valor não só às figurinhas como ao esforço do pai para adquiri-las.

Sei, como você, meu caro leitor, que os tempos são outros, mas o modo de aquisição de produtos e serviços e a importância que as crianças devem dar a esse ato continuam os mesmos. É preciso que elas consigam dar valor aos presentes; que descubram que eles exigem um esforço para sua compra e seu recebimento. E, como há muitos pais que, como os de meu amigo, não têm condições financeiras para a aquisição mesmo de alguns produtos simples e baratos, é também importante que elas saibam que nem sempre poderão possuir certos produtos e serviços sem que isso signifique alguma derrota ou tragédia.

Para terminar essa proposta de reflexão, já que estou falando de crianças e referi que vivemos numa sociedade civilizada, faço questão de apresentar uma história narrada pelo filósofo Mario Sérgio Cortella no seu livro "Qual é a tua obra?"1. Ele conta uma história da visita de dois caciques da nação Xavante em 1974 à cidade de São Paulo. Naquela época, diz Cortella, "os xavantes não usavam o dinheiro como meio de qualidade de vida. Para eles, qualidade de vida era alimento, porque era o jeito de garantir sobrevivência”2.

Dentre os vários lugares que os xavantes foram levados para conhecer, um deles foi o Mercado Municipal de São Paulo, no centro da cidade. O filósofo da PUC/SP conta que os xavantes ficaram pasmos e maravilhados com tanta comida sendo oferecida. Eram – e são – pilhas de alfaces, tomates, cenouras, laranjas etc. De repente, diante de uma banca repleta de legumes, um dos xavantes apontou para um menino e perguntou: "O que ele está fazendo?".

Tratava-se de um menino pobre, que estava "pegando alface pisada, tomate estragado e batata já moída"3. Ele recolhia do chão e colocava tudo num saquinho.

Cortella disse que responderam: "Ué, ele está pegando comida". O cacique, então, não disse mais nada e continuou andando e observando as coisas ao seu redor. Depois de um tempo, perguntou: "Eu não entendi. Por que ele está pegando essa comida estragada aqui no chão se tem essa pilha de comida boa?". Ao que responderam: "É que para pegar comida dessa pilha aqui, precisa-se de dinheiro". O cacique continuou: "E ele não tem dinheiro?". "Não tem", disseram. "Por que não tem dinheiro?", indagou o cacique.

Mario Sérgio Cortella afirma que, depois disso, os caciques disseram algo que ele nunca se esqueceu: "Vamos embora". E explicou que eles queriam dizer: "Vamos embora da cidade de São Paulo". "Veja como eles são 'selvagens'"4.

Cortella concluiu: "Eles não conseguiram compreender essa coisa tão óbvia: que uma criança faminta, diante de uma pilha de comida boa, pega comida podre. Eles não são civilizados".

Penso que a culpa por esse estado de coisas não é só do sistema, mas que o modelo de capitalismo selvagem em que vivemos contribui e muito para tanto não resta dúvidas. Quem sabe um dia possamos afirmar com o peito repleto de alegria que realmente atingimos um elevado estágio de civilização, no qual as crianças não precisam passar e morrer de fome – e que ninguém precise.

________________________

* Rizzatto Nunes, Desembargador do TJ/SP, escritor e professor de Direito do Consumidor.

A VIDA É O SOPRO DO CRIADOR NUMA ATITUDE REPLETA DE AMOR!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

CONJUNTURA NACIONAL

Falem com o Cráudio

Ex-governador de Minas e ex-vice-presidente da República no período do general João Baptista de Figueiredo, último do regime militar, o mineiro Aureliano Chaves lançou sua candidatura à presidência da República na primeira eleição direta depois da ditadura, em 1989, pelo PFL. Em suas andanças por SP, visitou a sede de um grande jornal acompanhado do presidente do partido em São Paulo, Cláudio Lembo, que era seu candidato a vice-presidente. Mas a hora passou depressa, o motorista veio buscá-lo para levar ao aeroporto e, na despedida aos editores, falou alto e bom som no seu mineirês arrastado:

- Bom, gente, eu to indo. Qualquer coisa, falem aí com o Cráudio...

Lembo percebeu a estupefação dos editores e emendou:

- Sabem como é, doutor Aureliano é um homem muito simples...

Aureliano ficou em nono lugar naquele pleito que elegeu Collor de Mello. (Quem conta a historinha é Luciano Ornelas)

A campanha mais racional

Há muito a comemorar na esfera político-eleitoral-cívica. A campanha eleitoral foi a mais racional da contemporaneidade. Vimos um eleitor atento, acompanhando a cena, ouvindo os candidatos, fazendo comparações entre perfis e até mudando de posições. O voto, como sempre tenho lembrado, cada vez mais sai do coração para se fixar na cabeça. O eleitor emotivo dá vez ao eleitor racional. Qual o pano de fundo que acolhe tal racionalidade? Saturação das velhas querelas, esgotamento da polarização entre partidos, desgaste de velhos perfis, desejo de abrir novas janelas no edifício político.

A descida do Russomano

Esta coluna sempre indagou: Russomano consegue segurar o alto índice? A pergunta embutia uma grande dúvida: como pode um candidato sem máquina partidária, sem bom tempo de mídia eleitoral, sem estrutura forte de campanha, sem programa substantivo de governo resistir ao rolo compressor dos candidatos poderosos? Russomano pode se considerar vitorioso. Resistiu muito mais tempo que o limite da previsibilidade. Sua queda se deve a um conjunto de fatores: desconstrução do perfil por opositores, a ideia do bilhete mais caro para percursos mais longos, o estreito tempo midiático e a falta de um programa de governo. Tornou-se alvo de um tiroteio geral. Entrou, então, no que se chama de voo da galinha. Subiu e, mais adiante, caiu. Uma galinha mais forte, que conseguiu o feito de subir mais que outras, consideradas as condições do candidato.

Polarização?

Pois é, PT e PSDB resgataram seus espaços históricos de votos em SP? Em termos. Na verdade, os votos petistas e tucanos na capital situam-se entre 30% a 35%. Nesse primeiro turno, Serra e Haddad obtiveram um pouco menos. Apesar da chegada de ambos ao segundo turno sinalizar a clássica polarização entre as duas alas, é possível inferir que o eleitorado paulistano está saturado desse fenômeno. Quer decidir olhando para as propostas, examinando os programas dos candidatos, decidindo, portanto, de acordo com a micropolítica, a política das zonas, regiões, bairros e distritos. E por que Serra e Haddad vão para o segundo turno? Razões: 1. máquinas partidárias (Serra-estadual, municipal; e Haddad, Federal); grande visibilidade; cabos eleitorais de peso; fortes programas eleitorais com ideias fortes.

Mensalão influirá?

Menos do que os candidatos imaginam. O julgamento do mensalão pelo STF dissemina ares de moralidade e ética. O país resgata sua crença na Justiça para todos. Mas não se pense que o eleitor votará em candidatos que se abrigarem no escudo do mensalão. O eleitor tende a distribuir o ônus da política - roubalheira e escândalos - por todos os atores e partidos, não distinguindo uns de outros. Portanto, muito cuidado.

Chalita em ascensão

Interessante observar a escala ascendente de Gabriel Chalita, que obteve mais de 13% de votos válidos. Teve boa performance. Foi o candidato que sempre cresceu, não descendo na escala de intenção de voto. Não conseguiu quebrar a polarização entre Serra e Haddad, mas fixou estacas na seara político-eleitoral.

PMDB com Haddad

O vice-presidente da República, Michel Temer, comandante maior do PMDB paulista conversou, segunda-feira pela manhã, com a presidente Dilma. E ontem, com Lula, acertando o ingresso do partido na campanha do petista. Presentes à reunião Haddad e Chalita. O candidato petista assumiu o compromisso de incorporar a seu programa importantes bandeiras e projetos de Chalita. A composição contribui para reforçar a parceria entre os dois partidos na esfera Federal.

Skaf a todo vapor

Paulo Skaf, presidente da FIESP/CIESP, viaja hoje ao exterior, mas deixa uma mensagem ao vice-presidente Michel Temer manifestando o seu apoio e entusiasmo à decisão do PMDB, ao qual está filiado, de se integrar à campanha do candidato petista Fernando Haddad à prefeitura de SP. Skaf está na linha de frente do partido, visitando municípios, ajudando candidatos do PMDB, seguindo as diretrizes do comandante maior, Temer, e do presidente da legenda no Estado, deputado Baleia Rossi.

Campanha cara

O custo das eleições para prefeito e vereador nos 5.568 municípios brasileiros será o mais alto da história do país. O TSE conta com a dotação orçamentária de R$ 597 milhões para custear todo o processo, incluindo primeiro e segundo turno, contra os R$ 480 milhões que foram consumidos nas eleições de 2010, para presidente, governador, senador e deputado Federal e estadual. Essa é a grana pública. Não estamos falando do PIB informal, o caixa 2.

Ganhadores

O PSB foi o partido que mais cresceu. A sigla do governador Eduardo Campos elegeu mais de 120 prefeitos além do que havia eleito em 2008. Chegou a 420. É o maior crescimento absoluto e proporcional entre todos os partidos. O PSB ganhou mais no Nordeste e em MG. Além do PSB, só um grande partido elevou seu número de prefeitos eleitos em relação ao que conquistou em 2008: o PT elegeu 67 a mais. Suas novas prefeituras foram conquistadas, principalmente, no RS, no PR, em SC, no CE e na BA. Em SP, os petistas ficaram na mesma: tinham 60, e agora têm 63 prefeitos, mas podem ganhar a capital.

PSD

O PSD também sai maior da eleição: o partido foi criado no ano passado e, portanto, não disputou a eleição de 2008, mas levantamento da Confederação Nacional dos Municípios mostra que o PSD havia cooptado 272 prefeitos neste ano.

Saldo geral

Vejam os números: PSB cresceu 39,68%; PT, 12,82%; PDT perdeu 11,93%; PSDB, 12,17%; PMDB, 15,03%; PP, 15,61%: PTB, 28,05%; PR, 30,43% e DEM, 43,90%.

Planilha de vereadores

Eis a planilha de vereadores dos 10 partidos mais votados: PMDB, 7.951(13,9%); PSDB, 5.253(9,2%); PT, 5.169(9,0%); PP, 4.924(8,6%); PSD, 4.655(8,1%); PDT, 3.656(6,4%); PSB, 3.556(6,2%); PTB, 3.566(6,2%); DEM, 3,278(5,7%); PR, 3.187(5,6%).

Erro de pesquisas I

Nove de 11 pesquisas de boca de urna realizadas pelo Ibope nas principais capitais brasileiras não foram capazes de projetar dentro da margem de erro os resultados de votação das eleições municipais de 2012. A margem de erro das pesquisas é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Em Curitiba, a pesquisa estimava segundo turno entre Ratinho Jr. (PSC), com 34% dos votos válidos, e Luciano Ducci, do PSB, com 29%. Gustavo Fruet (PDT) aparecia em terceiro lugar, com 24%. Deu 27,09% para Fruet, que passou Ducci e concorrerá com Ratinho Jr no segundo turno.

Erro de pesquisas II

No Rio, segundo o Ibope, Eduardo Paes teria ampla vantagem em relação a Marcelo Freixo, com 69% do peemedebista frente a 26% do candidato do PSOL. Paes reelegeu-se no primeiro turno, mas com 64,60%, enquanto Freixo ficou com 28,15%. Em Porto Alegre, apontava José Fortunati, do PDT, com 62% dos votos válidos e sua adversária, Manuela D'Ávila, do PCdoB, com 23%. Fortunati acabou superando a estimativa: marcou 65,22 %, enquanto Manuela atingiu 17,76%. Em Belém, projetava-se empate de Edmilson Rodrigues, do PSOL, e Zenaldo Coutinho, do PSDB, os dois com 33%. As urnas apontaram que nenhum dos dois atingiu a marca, com Rodrigues ficando com 32,58% e Coutinho com 30,67%.

Erro III

Surpresa em Salvador. ACM Neto (DEM), com 40,17%, passou Nelson Pelegrino (PT), 39,73%, contrariando a pesquisa Ibope, que cravava Pelegrino na ponta, com 43% e ACM atrás, com 36%. Em Natal, Carlos Eduardo (PDT) tinha, segundo a pesquisa, 36% da preferência nos votos válidos, enquanto Hermano Morais (PMDB) sustentava 25%. Carlos Eduardo está na frente com 40,42% e Hermano com 23,01%. Em Goiânia e Fortaleza, também mostrou erros. Paulo Garcia, candidato do PT, venceria a disputa pela prefeitura de Goiânia no 1º turno, com 56% dos votos válidos, deixando, Jovair Arantes, do PTB, com 18% para trás. Pois bem, Garcia marcou 57,68%, mas Jovair teve apenas 14,25%. Na segunda, Elmano, do PT, teria 28% dos votos válidos e Roberto Cláudio, 24%. As urnas apontaram diferença menor: Elmano ficou à frente com 25,44% ante 23,32% de Roberto Claudio. E em SP, José Serra chegou em primeiro lugar, com 30,75% dos votos válidos. Em segundo lugar, ficou Haddad com 28,99%. Ora, o Ibope viu Russomano, Serra e Haddad em empate. Todos estariam com 22%, ou 26% dos votos validos.

As maiores cidades

PT e PSDB estão no comando das 83 maiores cidades do país, aquelas com mais de 200 mil eleitores, que representam 1,5% das prefeituras e 36,5% do eleitorado. O PT venceu 8 prefeituras no primeiro turno e disputará segundo turno em 22. Quer chegar ao comando de 30, contra 21 que administra hoje. Além de SP, onde Fernando Haddad disputa segundo turno com José Serra, petistas estão na briga em outras cinco capitais, como Salvador e Fortaleza, e várias cidades de regiões metropolitanas, como Santo André/SP e Contagem/MG. O PSDB elegeu seis prefeitos nas 83 maiores cidades e tem amplo potencial de crescimento, com boas chances em 17 localidades no segundo turno.

Compra de votos

A coluna recebe denúncia de suposta cooptação de votos em cidade paraibana. Um radialista respeitado recebeu transcrição de uma gravação em áudio de uma suposta tentativa de cooptação de votos na cidade de São Domingos do Cariri. A gravação mostra o candidato a prefeito José Ferreira da Silva, "Zé Ferreira" (PSDB), participando de um evento na casa de um eleitor. Tenta cooptá-lo e aos demais presentes, conforme transcrição do vídeo. Que as autoridades ouçam a gravação e tomem as devidas providências.

Empate em Bananal

A eleição no município de Bananal, no interior de SP, terminou empatada. Com 100% das seções apuradas, os candidatos Peleco (PSDB) e Mirian Bruno (PV) somaram o mesmo número de votos: 1.849 cada. Segundo a legislação eleitoral, quando dois candidatos terminam empatados na primeira colocação, o eleito é o candidato mais velho. No caso da cidade do Vale do Paraíba, o desempate acabou favorecendo Mirian Bruno (PV).

Dirceu condenado

José Dirceu foi condenado pela maioria dos membros do STF por corrupção ativa. Era previsível. Vai virar uma página do livro de sua história. Consolidará sua consultoria. Continuará a ter voz ativa no PT. Terá tempo mais livre para fazer política de bastidor. Sem versões que falam de uma temporada fora do Brasil, etc.

Juscelino

Quem conta é Alex Salomon, grande pensador, escritor e eventual colaborador da coluna.

"Em 1975 estava eu trabalhando na Embratel indo e vindo no eixo Rio-SP. Numa das viagens sentei ao lado de JK. (de início nem o reconheci- as autoridades parecem encolher quando ao natural). Tímido e algo desinteressado, não tentei puxar conversa. Eis que de um banco de trás (ou teria sido da frente) aparece um sujeito que o cumprimenta efusivamente. Presidente....e presidente pra cá, presidente pra lá e JK gentil e sorridente, e trocaram banalidades. Não podia evitar de ouvir a conversa, o sujeito estava debruçado em cima de mim, e JK na janela. Lá pelas tantas, o indivíduo se sai com a pergunta. E o Benedito Valadares (falecido havia mais de ano) como está ele? Sem perder o sorriso, JK retruca: Não o tenho visto ultimamente! A conversa cessou, JK continuou lendo seu jornal".

Senhores candidatos

Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na última coluna, o espaço foi destinado ao eleitor. Hoje, sua atenção se volta novamente aos candidatos que disputam o segundo turno:

1. Tenham muita cautela na campanha do segundo turno. Há uma tendência, acentuada pelos assessores de marketing, para intensificar a estratégia de desconstrução do perfil de adversários. Campanha negativa gera mais prejuízos que vantagens.

2. O segundo turno propicia comparação mais objetiva entre perfis e propostas. Qual é o fator de eficácia? Um bom programa de governo, ideias claras, comunicação adequada e objetiva. Foco na PROXIMIDADE. Ou seja, foco no atendimento às demandas mais prioritárias da comunidade.

3. Organizem uma agenda que possa atender a todos os compromissos de articulação e mobilização. Entendam que precisam multiplicar sua presença nas regiões, bairros, distritos. Onipresença.

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(Gaudêncio Torquato)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

POLÍTICA & ECONOMIA NA REAL

A eleição da desconfiança e da insatisfação

A pulverização de votos entre diferentes partidos nas disputas nas capitais e nas grandes cidades, a enorme quantidade de segundos turnos nas capitais, as renovações elevadas nas Câmaras de vereadores em diversas cidades, são indicações reais de que o eleitor brasileiro cantou nas urnas de domingo toda sua desconfiança e insatisfação com o quadro atual da política brasileira. Sobrou um pouquinho para todo mundo - governistas e oposicionistas, à esquerda, à direita, ao centro e os "nem tanto". Em SP capital, especificamente, ainda houve um crescimento dos votos nulos e brancos, a maior percentagem desde 2000 na cidade. Entre mortos e feridos e alguns sucessos individuais, perderam todos. Parte do insucesso generalizado pode ser atribuído ao mensalão. Todavia, todos perderam um pouco com a exibição ao vivo e em cores de uma das maiores "ervas daninhas" da cultura política nacional, a corrupção. O eleitor está em busca não apenas do novo, do diferente, mas do confiável. Vai parar neste recado ou em 2014 tem mais?

Renovação

A Câmara municipal de SP terá renovação de 40% no próximo ano - em 2008, a dança de cadeiras foi de apenas 29%. Em BH, o índice de novatos chegou a 59% contra 39% da eleição anterior. No mundo dos vereadores foi normal o rolar de cabeças, nos grandes, médios e pequenos municípios.

Pulverização

No primeiro turno sete partidos elegeram prefeitos nas capitais. Mais oito diferentes desses têm chances de emplacar candidatos no segundo turno. Se tal se verificar, 15 legendas poderão ter prefeitos de capitais, contra 10 em 2008. A mesma tendência está se observando nas cidades com mais de 200 mil eleitores. Há mais gente dividindo o bolo eleitoral no país.

Divórcio à vista?

Os caminhos de Eduardo Campos e do PSB com os do PT (e naturalmente de Lula e Dilma) não vão continuar correndo no mesmo sentido por muito tempo. Os projetos políticos são distintos no longo prazo. O PT, a não ser no desespero, nunca abrirá mão de seu projeto de poder hegemônico, nem em 2014 e 2018, nem nunca. Campos tem seus próprios planos. As desavenças em BH, Recife e em alguns outros lugares, por ora, serão atenuadas. Num dado momento, o divórcio será inevitável. Provavelmente, antes de 2014.

Caciques em baixa

A família Sarney, aliada ao PT foi alijada do segundo turno em São Luís. Jader Barbalho viu seu sobrinho amargar um terceiro lugar em Belém. Renan Calheiros (como Fernando Collor) nem candidato teve em Maceió. Mesmo que Ronaldo Lessa não tivesse a candidatura cassada, não iria para o segundo turno. Bons sinais para o país, maus sinais para as oligarquias.

Réquiem para o DEM

A chamada "direita" no Brasil sempre teve marcas bastante negativas ao processo democrático. Em grande parte do século XX foi golpista e associada às oligarquias mais atrasadas do país. Ao final daquele século tentou se modernizar, mas foi engolida pelo discurso social democrata que, como no mundo afora, adernou o discurso na direção do centro. No caso brasileiro, o PSDB ficou mais à direita e o PT mais social democrata. Ambos com traços de modernidade e muitos de atraso. O Democratas não conseguiu progredir em nenhuma direção de forma consistente e vê o seu transcurso eleitoral mostrar que a hora é de formalizar o funeral ou seguir outro rumo. Apenas o oligárquico ACM Neto faz às vezes junto ao distinto eleitorado nas capitais. João Alves em Aracaju é nanico. Pois bem: a probabilidade maior é que o velho partido herdeiro da ditadura militar busque uma solução junto a outro partido, via fusão. O problema será o de sempre: como acomodar os caciques em prol de projetos. Sabe-se que os primeiros têm prevalecido. Mesmo que não seja nas urnas.

Reaproximação

Para seus planos futuros, a presidente Dilma terá de fazer movimentos de maior aproximação (ou reaproximação) com o PMDB e outros aliados eventuais como o PSD do prefeito Gilberto Kassab. Afinal, sua principal aposta nesta eleição era impor uma derrota conjunta em Aécio Neves e Eduardo Campos em BH. De fato, viu Campos, uma incógnita para 2014, sair fortalecido com a vitória no primeiro turno em Recife e um crescimento expressivo de sua base de prefeitos no país. Para o PMDB este retorno é bem vindo, pois o fantasma do PSB e do neto de Arrais há muito assombra o partido do vice-presidente Michel Temer. Como é bom de contas - e saiu das urnas ainda como o partido com maior número de prefeitos - o PMDB saberá cobrar sua parte nesse latifúndio governista Federal.

Efeito Lula e mensalão

Inegavelmente a ida de Fernando Haddad para a disputa do segundo turno da eleição paulistana foi uma vitória do ex-presidente Lula. Tirado do "bolso do colete" do líder petista, o ex-ministro conseguiu dois efeitos há muito desejados por Lula: (i) tornar a eleição paulistana um "divisor de águas" do predomínio tucano no maior estado da federação com o uso de um "novo nome" e (ii) "proteger" a presidente Dilma no futuro embate presidencial de 2014 da influência tucana paulista. Bem, ambos os objetivos não foram alcançados totalmente, pois, por óbvio que seja, necessitam da vitória final de Haddad. Sem ela, tudo permanecerá à espera de 2014. Todavia, uma coisa se tornou muito certa: o mensalão adquirirá um protagonismo que não teve totalmente no primeiro turno. O jogo será pesado e no exato momento em que José Genoíno e José Dirceu sobem no cadafalso e verão se o dedo do STF vira para cima ou para baixo. Em alto som o tucanato sairá do ninho e cantará: "dai a Lula o que é de Lula e a Haddad o que também é de Lula".

O teste de Serra

Serra deverá se preocupar menos com suas profundas olheiras e mensagens de 140 caracteres nas madrugadas daqui para frente. A questão segundo um tucano de alto coturno é outra: ele tem de ser capaz de ser um líder partidário e erguer o dedo na direção de Lula. Se ficar com um discurso meramente tecnocrático, vai perder. A questão, segundo este líder, é simples: Serra desuniu muito o tucanato e o elo de união é derrotar o "sapo barbudo", resgatando o passado anterior dos feitos do PSDB. Coisa que Serra sempre se recusou a fazer com todas as letras. Não à toa, o octogenário FHC em suas entrevistas só falou de "mensalão" e nada sobre calçadas ou transportes. Quis pautar Serra e o partido.

Voltas às aulas

Mesmo com todas as juras de todos os aliados de que os embates eleitorais entre eles não deixaram sequelas, a presidente Dilma terá de fazer um carinho geral para amaciar sua base aliada na volta aos trabalhos do Congresso, prometida para esta terça-feira. A agenda da Câmara e do Senado é ampla e com algumas bombas - mais ou menos inadiáveis e a ser consumida em pouco mais de 20 dias úteis (no apertado calendário legislativo nacional). Sem contar o Orçamento, que tem sido votado cada vez com mais descaso, mas que tem de ser acompanhado com lupa para que os deputados e senadores não extrapolem demais na conta da receita. Há pelo menos dois projetos com hora marcada para sair do forno: a MP do setor elétrico e as novas regras de distribuição dos royalties do petróleo, essencial para que o governo possa formatar os novos leilões de áreas de exploração, marcadas para maio e novembro. E ainda a regulamentação do direito de greve do funcionalismo público.

Bomba elétrica I

Em meio à repercussão negativa de dois "apaguinhos" de boas proporções na semana passada, um para uso exclusivo de Brasília, a capital que costuma ser imune a intempéries nacionais, entra o governo num sério embate legislativo para aprovar a MP 579 do setor elétrico. Haverá "queda de braço" com o setor privado para que as novas regras nelas impostas sejam aceitas pelas empresas atingidas inicialmente, pelo mercado de capitais e pelos investidores, principalmente o precioso dinheiro externo. No Congresso a liderança do governo terá de tourear mais de 400 emendas de parlamentares, em todas as direções e defendendo todo tipo de interesse. É o tipo do assunto que perpassa as forças partidárias, envolve aspirações regionais e, portanto, não poderá ser resolvido no Congresso simplesmente com uma ordem unida para a base aliada.

Bomba elétrica II

No mundo empresarial, embora no curto prazo o mercado tenha se acalmado, há inquietações na área de eletricidade, mas também fora dela. Há certo temor com o que está sendo chamado de "excesso de ativismo governamental". Para completar a confusão, as empresas atingidas diretamente não se manifestaram, porém estavam agindo a todo vapor nos bastidores. E o prazo para que elas digam se aceitam ou não termina dia 15, p.f.. Até o governo parece "piscar" no caso: não pode ter outro sentido a ameaça, nada velada, que o presidente da Aneel fez às empresas recalcitrantes em entrevista ao "Valor Econômico". Nelson Hubner avisou que quem não quiser o jogo agora, pode ficar fora do leilão de concessões se isto vier a ocorrer. Esta confusão toda, se não for bem gerida, pode prejudicar a mais que bem intencionada - necessária e urgente mesmo - redução das tarifas de energia elétrica que está embutida na MP 579.

Mensalão em doses

O empenho do STF no julgamento da AP 470 já fez despertar o temor de que a roda toda da Justiça vai girar na direção apontada pelos ministros do STF, em casos que envolvam também o setor público e o setor político. Nem tanto pelas sentenças que estão sendo distribuídas, mas pela simples disposição de julgar com mais celeridade tais processos. Entram nessa roda não só outros casos do "mundo político" como o chamado mensalão mineiro (ou do PSDB) e mensalão candango (ou do DEM), como também em histórias nas quais o público e o privado se encontram, como foi o caso da "Operação Castelo de Areia". Haja trabalho para a Justiça e, como disse a respeito do atual mensalão o ministro Marco Aurélio Mello, "haja coração".

Melancólica CPI

Passadas as eleições, haverá reunião da CPI do Cachoeira. Sabe o que deve ocorrer ? Provavelmente, nadinha. Não porque não existam fatos a serem investigados, mas exatamente o contrário. Estes são fartos e fariam os mais ingênuos ficarem muito mais ruborizados que no caso do mensalão. Com o agravante de que a coisa toda do Cachoeira é "multipartidária", para dizer uma palavra suave. O único movimento que pode alterar a melancolia desta CPI pode vir do réu. Como se sabe, ele está estressado da vida atrás das grades, vê seus recursos negados em função de certo "clamor popular" e, assim, pode buscar alternativas na sua videoteca, desconhecida do grande público. Note-se, adicionalmente, que a situação financeira de Cachoeira vem se deteriorando em função de sua ausência frente aos negócios.

Um COPOM para se ver

Nosso BC gosta de se autodenominar "operacionalmente independente". Ou seja, na ausência de amarras institucionais que o libertem do jugo da influência direta do Executivo e do Legislativo, diz-se que ele "opera" livremente. Tudo um jogo de palavras. Porém, não é um jogo inútil e sem efeitos. O BC vem agindo coordenadamente na direção de fazer um correto e histórico ajuste do juro básico nativo, bem como relaxou a política monetária em prol da fraqueza da demanda e na ausência de políticas vindas da Esplanada dos Ministérios e do Planalto que jogassem a taxa de investimento para cima. Tombini e seus companheiros de COPOM, nesta quarta-feira, mostrarão se o jogo deles em relação ao juro básico terá uma parada ou se prosseguirá na direção da baixa. O fato é que a demanda permanece ainda "insustentavelmente leve", apesar de melhora que houve, e a inflação não está no figurino que o próprio governo a ela atribui, ou seja, está fora da meta. Na próxima reunião do COPOM, o BC falará sobre tudo isso. É capaz de surpreender e jogar o juros mais para baixo.

Câmbio, ainda um problema

Mexer com câmbio é infernal. Pode explodir ou murchar. Pode-se agir num sentido e acabar indo em outro. O governo, como se sabe, pode controlar apenas a taxa nominal. A taxa real, por sua vez, depende da inflação do país e do exterior. Os fluxos cambiais, além de imprevisíveis, costumam ser voláteis. Se não existe modelo para prever o câmbio ou fazê-lo ser uma certa taxa, uma coisa é certa : sabe-se quando ele está errado. Basta ver se há debilidade nas contas de comércio, especialmente dos produtos industriais e medir os custos dos produtos non-tradeables, aqueles que não são passíveis de substituição por outros de fora. Numa nota, como esta, não nos cabe fazer enormes digressões acadêmicas sobre o tema, mas deixamos duas mensagens claras: (i) a indústria brasileira persiste sem competitividade internacional, o que aumenta o percentual das vendas externas sobre o PIB de forma consistente e (ii) os custos dos serviços no Brasil têm deixado os "gringos" de boca aberta. Acham caro. O câmbio persiste defasado para as ambições de o país ser de fato "emergente".

(por Francisco Petros e José Marcio Mendonça)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

ELEIÇÕES E ECONOMIA

As eleições realizadas ontem, em primeiro turno, e as últimas notícias sobre o desempenho da economia dominam, neste momento, o interesse dos brasileiros em razão das repercussões que têm sobre a vida nacional.

Pelo voto livre e soberano, o pleito reafirma a força da nossa democracia, expressa no encontro de milhares de candidatos e de milhões de eleitores nas urnas dos mais de 5.000 municípios brasileiros e no amplo debate sobre os problemas nacionais que incidem de forma aguda na realidade das nossas cidades: corrupção, gestão precária, saúde ruim, educação sem qualidade, o avanço da violência e os crescentes desafios na área da mobilidade urbana.

Na economia, relatório divulgado pela Cepal aponta que o Brasil crescerá apenas 1,6% neste ano. É o segundo pior resultado entre os 20 países analisados da América Latina e do Caribe, superior apenas ao do Paraguai e atrás de Panamá, Haiti, Peru, México, Costa Rica e Bolívia.

Referendado também por órgãos do próprio governo, como o Banco Central, o resultado desmente as previsões fantasiosas com as quais o governo tentou falsear a realidade.

O número da Cepal já havia sido antecipado por instituições financeiras internacionais e, à época, foi classificado como "piada" por nossas autoridades econômicas, que passaram o ano anunciando crescimento em patamar muito superior. Vê-se agora, de fato, com quem estava a realidade, neste lamentável espetáculo do PIB em queda livre.

Mesmo com tantas evidências, o governo insiste em debitar na conta de outros países a responsabilidade exclusiva sobre o problema, em vez de fazer o seu próprio dever de casa. Ao agir assim, cumpre agenda que atende outros interesses, sem se preocupar com os efeitos deletérios dessa estratégia, que condena o país a um crescimento medíocre, como nos dois últimos anos, e põe em risco a perspectiva brasileira como nação emergente.

Com o esgotamento das medidas emergenciais para tentar salvar o ano eleitoral --e a constatação de que não funcionou, como antes, o tripé oferta de crédito, queda das taxas de juros e benemerências fiscais a setores produtivos--, resta-nos voltar à cobrança das reformas ainda por fazer, único caminho para assegurar competitividade à economia e recolocar o país no rumo de um crescimento sustentado e duradouro.

Ao fim do ano eleitoral, o governo terá de se haver com os antigos desafios que se agravaram sem resposta: o peso dos impostos, o excesso de burocracia, juros ainda nas alturas, legislação trabalhista do século passado, inércia e incompetência para desatar o nó da infraestrutura, entre tantos outros que entravam o desenvolvimento nacional.

AÉCIO NEVES

domingo, 7 de outubro de 2012

A HORA DO VOTO!

O genial Filgueiras Lima - cuja biografia foi recentemente lançada pelo mais fino e lúdico Leitão que a nossa região já criou, o poeta Juarez – laborou uma frase memorável: “Ensino como quem reza”.

Por dentro dessas sílabas passeia um rio de ensinamentos, um córrego de sabedoria, uma fonte de vida! Reza, aqui, imagino eu em meu modesto arrazoado, significa ter uma deliberada atitude íntima de busca de profundidade.

Se em todos os atos significativos da nossa existência recorrêssemos a essa postura litúrgica, talvez muitos equívocos fossem evitados. Temos uma indisfarçável inclinação para tomarmos decisões sem antes meditar. Imaginemos quantos enlaces matrimoniais não se desfazem por ausência de uma reflexão anterior ao ato de firmar o compromisso legal...

Algo similar ocorre com o voto. Na maioria dos casos, votamos ao sabor do vento, sem qualquer fundamentação motivacional. Depois pagamos um enorme preço, pois “somos livres para escolher, mas escravos das conseqüências”.

Não raro vemos as pessoas esbravejando contra os que escolheram como representantes. Em regra, costumamos transferir para os outros o quinhão de culpa que é nosso. No entanto, quem de nós já parou, sincera e demoradamente, para refletir desapaixonadamente em quem vai votar? E, sobremaneira, as razões desse voto?

Pouco tempo nos separa do momento cerimonial do voto. Adentremos à urna conscientes de que estamos realizando uma tarefa cívica de grande envergadura.

No dia da eleição, lembremo-nos de um conselho antigo, mas muito atual, lançado por Rui Barbosa:

"Destranquemos as portas. Escancaremos as janelas. Vasculhemos os tetos, os vãos, as frinchas, as luras. Não poupemos o ácido fênico, a creolina, o formol. Renovemos o ar. Enxotemos os bichos. Sacudamos o mofo. Acabemos com o bafio. Introduzamos a luz. Chamemos a higiene".

Ou, para quem gosta de algo mais recente, da lição de Walter Franco, na música Serra do Luar:

“Viver é afinar o instrumento/ de dentro pra fora/ de fora pra dentro/ a toda hora, a todo momento/ de dentro pra fora/ de fora pra dentro./ Tudo é uma questão de manter/ a mente quieta/ a espinha ereta/ e o coração tranqüilo”.

Tenhamos com o voto o mesmo respeito e carinho que temos – ou deveríamos ter – com a vida! Ele é essencial à nossa existência!

(Júnior Bonfim, em Amores e Clamores da Cidade)