Acima da obediência que a Justiça impõe coercitivamente aos cidadãos – através de uma série de penalizações, considerando-se que os processos, em si mesmos, já representam alta carga de tensão emocional, que inclusive adoece as pessoas mais sensíveis – é necessário que cada um procure encher-se do sentimento de Fraternidade.
Somente plenificando-se dessa compreensão interior – que transforma-se em atitudes pacíficas e benfazejas em relação aos outros – é que o ser humano tem condições de viver em harmonia no meio onde é levado a desenvolver sua vida de relação.
Devemos nos desvincular um tanto das preocupações jurídicas e voltar os olhos para os seres humanos, levando em conta suas potencialidades como filhos de Deus.
Os debates jurídicos têm muito de frieza em relação aos seres humanos em si, tratados muitas vezes como meros dados nas estatísticas ou como criaturas manipuláveis pela vontade arbitrária dos donos do poder.
Quando nos debruçamos sobre os problemas humanos com os olhos da Fraternidade é que surgem as verdadeiras soluções para seus problemas, que nunca passam pela vitória de uns e humilhação de outros, pois, na verdade, todos merecem ter oportunidade de crescerem perante Deus.
As grandes almas – dentre as quais Mohandas Gandhi – superaram os meros julgamentos humanos e passaram a enxergar cada criatura com os olhos voltados para a essência divina de cada um. Por isso, pensam em todos num grande amplexo que supera todas as divergências.
Se não há condição de aplicar essa ideologia em todos os momentos dos processos judiciais – porque representam ainda muito da agressividade do próprio Estado – que, pelo menos nos momentos de reflexão, se imbua a mente dessa suavidade, que alivia a pressão das idéias de julgar os semelhantes, rotulando-os com uma certa carga de ódio mal disfarçado.
É necessária uma imersão periódica nas correntes da reflexão filosófica e religiosa para retornarmos arejados e em condições de continuar analisando culpas alheias e ódios sempre irracionais de uns contra outros.
Nem todo mundo inveja nossa profissão de analisar com uma balança fidelíssima quem é o menos culpado dos litigantes e cirurgiar os tecidos necrosados dos desavindos sem causar-lhes a morte.
Somente Deus pode nos manter íntegros nessas lutas entre ódios terríveis das partes, fazendo-nos não cometer injustiças e tentar pacificá-los.
Assim, tenho orado a Deus para enxergar com olhos de Fraternidade cada um que sou levado a julgar no meu duro ofício de juiz.
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(por Luiz Guilherme Marques, magistrado em Juiz de Fora, MG)
Este espaço se quer simples: um altar à deusa Themis, um forno que libere pão para o espírito, uma mesa para erguer um brinde à ética, uma calçada onde se partilhe sonho e poesia!
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
HOJE É O DIA DO NORDESTINO

Sou das águas retiradas.
Sou do sertão nordestino.
Das caatingas desertei,
Lamentando meu destino.
Pois deixar o meu torrão,
Machucava-me o coração
Causando-me desatino.
Meu dialeto sagrado,
Era motivo de riso.
Era uma rês desgarrada,
Mas seguir era preciso.
Pedi a Deus proteção,
E virgem Conceição,
Para me dar mais juízo.
Não reneguei minha terra,
E jamais renegarei.
De ser filha do Nordeste,
Sempre me orgulharei.
Lamento até ter perdido,
Aquele sotaque antigo,
Que de lá eu carreguei.
Na minha casa nova,
Onde hoje brilha o chão,
Num canto especial,
Avista-se um pilão,
Em outro canto uma rede
Onde embalo com sede,
As saudades do sertão.
Tapioca com manteiga,
Não deixo de comer não.
Numa panela de ferro,
Faço um gostoso baião.
Cabeça de galo e mal-assada,
São iguarias apreciadas,
Com gosto de tradição.
Rezo pra são Francisco,
E padre Cícero Romão.
Pra proteger Ipueiras,
Meu pequenino rincão
Pois é lá minha ribeira,
Onde a linda carnaubeira,
Ao vento lança canções.
Eu vim sem querer vir
Fiquei sem querer ficar,
Mas um dia ainda volto,
A morar no meu Ceará.
Longe da terra amada,
Serei sempre ave arribada
Voando tentando voltar.
(Por Dalinha Catunda)
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
AVE, CÉSAR!
O calendário assinala hoje o natalício do jornalista César Vale.
Nossa aproximação ocorreu quando, numa fogueira junina, envie-lhe um convite para, sob o luar do Mondubim, ouvirmos forró autêntico e saborearmos as típicas comidas da nossa terra.
Depois, foi ele que me convidou para pular a fogueira da lenha jornalística. Aceitei. E hoje, tal qual um pai se desdobra em prol do crescimento do filho, César tem me acompanhado e estimulado nos meus modestos vôos literários.
César é um jornalista completo: com singular desenvoltura, tanto mergulha nas águas profundas da reflexão consistente como passeia pelas praças hilárias da fina e mordaz ironia.
Talento maior do jornalismo crateuense contemporâneo, César conseguiu ainda a olímpica façanha de manter acesa, há mais de uma década, a tocha do Jornal Gazeta do Centro Oeste. Este é um feito nunca dantes alcançado pelos descendentes de Gutenberg nascidos na mata ciliar do Poty.
Por isso, que se dê a César o que a César pertence: a coroa de luz, o cetro libertador, o tapete azul do reconhecimento, as honras imperiais.
Parabéns! E longo reinado!
(Por Júnior Bonfim)
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Caro Júnior:
Mais uma vez você se excede na lhaneza mesmo sabendo que um coração aos 70 não aguenta bem as emoções.
Sou muito grato à sua gentileza.
Quero também parabenizá-lo pelo que escreveu sobre Mercedes Sosa, a voz que retombou na América Latina clamando por la Libertad.
César
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No dia em que o Jornal Gazeta do Centro Oeste completou dez anos escrevi esta crônica:
Esta GAZETA está completando dez anos de existência. É seguramente o periódico com mais tempo de vida na história do nosso município. Ao longo desse período, tem sido uma arena escancarada para o pugilato de idéias, um púlpito exposto à pregação cidadã, um palanque portátil para a difusão da queixa popular, um microfone invisível recepcionando o brado comunitário, um altar erigido em honra à deusa da Liberdade. Merece um brinde literário, uma efusiva salva de palmas, uma desassombrada aclamação pública, uma rajada de fogos sem artifícios, um grito ardente de Parabéns!
Como o padeiro entregando o pão ou o leiteiro distribuindo o leite, o jornal é sempre recebido como um gostoso alimento. Alimento para a consciência, tempero para a alma, energizante para o espírito. Jornal... Jornais... Tivemos muitos outros no entorno da Catedral do Senhor do Bonfim. O que mais se aproximou desta GAZETA, em tiragens conhecidas, foi A DEFESA, dirigido por Manoel Bezerra Cavalcante e sob o esteio logístico do chefe político Udenista José Carlos de Pinho.
Um poeta parente meu, chamado Lucas Bocquady, editou por cerca de três anos um jornal chamado O RIO POTY (registre-se que o rio que acaricia a nossa Urbe inspirou o batismo de outros pasquins, como A FOLHA DO RIO POTY, de Elias Duarte).
No inicio do século passado, um manuscrito comandado por Afonso Melo de Araújo Chaves e Ubaldino Souto Maior, denominado A IMPRENSA, era lido pelos crateuenses (Informaram-me, também, que em 1908 o jornal escrito à mão chamava-se O SERTANEJO. Tinha Afonso Chaves como redator e Joaquim Izidio – avô do ex-deputado Antonio dos Santos – como secretário). Anos depois, o iluminado guarda-livros José Hindenberg de Almeida lançava A LUZ.
Também num clarão literário e sob o aquecimento das brasas da juventude, os jovens Francisco das Chagas Aragão e Norberto Ferreira Filho (Ferreirinha) acenderam O CHARUTO, publicação que soltava faíscas libertárias.
Em tempos idos, um professor boa prosa, de nome José Soares, fez circular o CORREIO DE CRATEÚS. (Conta o senhor Ferreirinha que José Soares exalava um humor fino, gostava de pilhérias. Certa feita falou para uma cunhada-comadre: “Eu vi a cobra/ que mordeu minha comadre/ Eu via a rutila dela/ na braguilha do compadre”).
Nos anos 40/50 do século pretérito, os alunos da Escola Normal Rural também ofereceram seu contributo à preparação do terreno jornalístico local através de O ARADO, impresso na pioneira Tipografia Milene, pertencente ao senhor Minoso Lopes e que se situava na Rua Poty.
O colégio 15 DE NOVEMBRO entusiasmou o seu diretor, Antonio de Lisboa Rodrigues, a lançar um jornal com o mesmo nome do estabelecimento de ensino.
Na década passada, as jovens jornalistas Silvana Claudino e Vilma Anete Gonçalves nos brindaram com o JORNAL DO CENTRO OESTE. Por último, numa associação do doutor Chico Barros e do consultor Ivan Monte Claudino, brotou A FOLHA REGIONAL.
Todos, a despeito dos hercúleos esforços de seus patronos, sucumbiram quase sempre pela ausência de apoio. Por isto, reputamos ser um ato de bravura, resistência e heroísmo esta GAZETA se manter não só de pé, mas circulando freqüentemente pelos mais longínquos rincões da nossa pátria verde-amarela, azul e branca.
Com o ímpeto guerreiro, a fúria corajosa e o impulso conquistador de um imperador romano, o nosso César preenche o Vale da ansiedade de todos nós, fazendo chegar quinzenalmente às mãos mais distantes, notícias locais e informações gerais, conjecturas da tribo local e reflexões da aldeia global.
Esta GAZETA faz jus à visão de Machado de Assis em relação ao papel do jornalismo como formador de opinião e promotor da liberdade de expressão do homem comum: “O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual, em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das idéias e o fogo das convicções”.
Este, em verdade, sempre foi o papel da imprensa, termo que, segundo a Wikipédia, “deriva da prensa móvel, processo gráfico criado por Johannes Guttenberg no século XV e que, a partir do século XVIII, foi usado para imprimir jornais, então os únicos veículos jornalísticos existentes”.
Na Baixa Idade Média, as folhas escritas com notícias comerciais e econômicas eram muito comuns nas ruidosas ruas das cidades burguesas. Em Veneza, as folhas eram vendidas pelo preço de uma gazeta, moeda local, de onde surgiu o nome de muitos jornais publicados na Idade Moderna e na Idade Contemporânea.
Aliás, há um registro interessante: o primeiro jornal em língua portuguesa foi fundado em 1641, em Portugal. Seu nome? A GAZETA, de Lisboa. Intencionalmente ou não, por razão histórica ou dever amoroso, este quinzenário está ligado à mais remota, genuína, profunda e profícua tradição jornalística.
Não é por acaso que, com emocionada satisfação, oferecemos nosso modesto contributo a esse roçado de letras, resistindo ao espetáculo da parcialidade, enfrentando o mercantilismo da notícia e combatendo a banalização da violência, plantando a semente do milho da vida e engrossando as fileiras de uma cultura de paz.
Que esta nossa GAZETA viva muitas décadas, alimentada pela seiva pura das raízes mais originais do jornalismo autêntico, espada de luz cortando o véu da escuridão autoritária!
(Por Júnior Bonfim)
terça-feira, 6 de outubro de 2009
ALERTA

RECADO DA POLÍCIA MILITAR
CUIDADO em BARES, RESTAURANTES, IGREJAS e outros locais de encontros coletivos.
Bandidos estão dando de 10 x 0 em criatividade em nós e na Polícia, portanto, vamos acabar com isso...
Vejam: Você e seus amigos ou familiares estão num bar ou restaurante, batendo papo e se divertindo. De repente chega um indivíduo e pergunta de quem é o carro tal, com placa tal, estacionado na rua tal, solicitando que o proprietário dê um pulinho lá fora para manobrar o carro, que está dificultando a saída de outro carro.
Você, bastante solícito, vai, e ao chegar até o seu carro, anunciam o assalto e levam seu carro e seus pertences, e ainda terá sorte se não levar um tiro...
Numa mesma noite, o resgate da Polícia Militar atendeu a três pessoas baleadas, todas envolvidas no mesmo tipo de história.
Repasse esta notícia para alertar seus amigos... O jeito, em caso semelhante é ir acompanhado! Chame alguns amigos para ir junto, e de longe verifique se é verdade.
Isto também pode acontecer, quando se está na igreja, supermercado...ou em outros locais de encontros coletivos.
'MENSAGEM TRANSMITIDA PELO ATENDIMENTO 190 '
PESQUISA ZAYTEC/JORNAL DO CARIRI: CID 53%; ROBERTO PESSOA 16%

Está dada a largada às eleições de 2010.
As articulações começam a sair dos bastidores para dar visibilidade a nomes que se lançam ao Governo do Estado e ao Senado. A primeira etapa da corrida ao pleito do próximo já foi vencida com o encerramento, no último domingo, do prazo de filiação aos partidos de quem sonha em concorrer a um mandato eletivo em 2010.
O primeiro fato, porém, já começa a gerar discussão: uma pesquisa realizada pelo Instituto Zaytec Brasil, publicada nesta terça-feira pelo Jornal do Cariri, aponta que, se as eleições fossem hoje, o governador Cid Gomes (PSB) seria reeleito para um segundo mandato com 53,5% das intenções de votos.
A oposição, que ainda está longe de definir candidaturas, tem, porém, uma surpresa: a pesquisa mostra que o prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa (PR), receberia 16% dos votos em uma eventual disputa com Cid Gomes. Pessoa se movimenta nos municípios, tem conversado com o senador Tasso Jereissati (PSDB), mas ainda não demonstra convicção sobre a sua candidatura uma vez que teria que renunciar a dois anos de mandato como prefeito de Maracanaú – o mandato dele vai até o 31 de dezembro de 2012, e, para ser candidato, teria que deixar o cargo no dia 31 de março do próximo.
Ao lado do ex-governador Lúcio Alcântara, Roberto Pessoa está fazendo o que, para muitos, é o dever de casa: ocupa os espaços e se transforma em um nome conhecido no Estado. Essas são condições que o ajudam a pensar na sucessão do governador Cid Gomes que, ao longo dos últimos três anos, não sofreu oposição.
O quadro eleitoral no Ceará depende muito das decisões no cenário nacional. E uma peculiaridade da política local: a presença do ex-governador e deputado federal Ciro Gomes (PSB) muda para um lado ou para outro o quadro sucessório do irmão, Cid Gomes.
Se candidato a presidente da República, Ciro definirá um cenário político, podendo provocar um rompimento na aliança com o PT e, com isso, ficando ainda mais colocado no grupo do senador Tasso Jereissati. Se candidato ao Governo de São Paulo, com o apoio do presidente Lula, Ciro deixa o caminho mais livre para o irmão que pode juntar o PT e o PSDB no mesmo palanque, com as candidaturas de Tasso à reeleição e do ministro José Pimentel (a vice ou, mesmo,ao Senado).
O PR conta, porém, com um quadro diferente, tendo o prefeito Roberto Pessoa candidato a governador, em uma aliança com o PSDB e o DEM. Nesse cenário, Tasso seria candidato à reeleição e o ex-governador Lúcio Alcântara poderia sair, também, como postulante a uma das vagas ao Senado. Outros dois nomes – além de Cid e Roberto Pessoa, aparecem nas pesquisas de intenções de votos ao Governo do Estado: Renato Roseno, do PSOL, com 5,2% das intenções de votos, e Ilário Marques, do PT, com 2,3%. Entre os entrevistados, 15,3% não quiserem ou souberam responder, enquanto 7,7% anulariam o voto ou votariam em branco.A pesquisa do Instituto Zaytec Brasil foi realizada entre os dais 26 e 29 de setembro, ouviu 1.755 entrevistados em 57 municípios do Ceará, tem margem de erro de 2,34% e nível de confiança de 95%. Essa é a primeira pesquisa sobre intenções de votos ao Governo do Estado e ao Senado.
(Por Antonio Oliveira)
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
GRACIAS A LA VIDA
(Composição: Violeta Parra)
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida
MERCEDES SOSA

A Argentina alimentou - e alimenta -, a partir de Buenos Aires, a imagem de país europeizado e de classe média. Para muitos, sobretudo estrangeiros, Buenos Aires é a essência do país.
A cantora Mercedes Sosa demonstrou a fragilidade dessa imagem. Tornou-se uma das principais referências da cultura argentina e latino-americana vindo da "distante" Província de Tucumán, localizada no noroeste do país, a mais de mil quilômetros de Buenos Aires.
No país que, proporcionalmente, recebeu o maior contingente de imigrantes europeus em todas as Américas, Mercedes Sosa destacou-se por cantar a cultura indígena e popular, muito presentes em sua província natal e em sua história familiar. No país das "loiras magras", Mercedes Sosa, com sua silhueta variante, mas sempre avantajada, era chamada carinhosamente de "La Negra" por seus traços indígenas, a pele morena e os cabelos negros lisos.
Com o apelido, Mercedes Sosa conseguiu inverter o sentido negativo que a palavra costuma ter na Argentina. O termo "cabecita negra" foi difundido por imigrantes europeus e pelas classes médias e altas de Buenos Aires ao se referirem pejorativamente aos migrantes do interior, muitos dos quais tinham origens indígenas.
Mercedes Sosa nunca escondeu, também, a origem humilde. Certa vez declarou como sua família ficou sensibilizada ao receber da primeira-dama Evita Perón (1919-1952) dois pares de óculos, quando tinham pedido apenas um. No país onde muitos ainda se orgulhavam de sua "qualidade de vida", Mercedes Sosa já cantava e denunciava, na década de 1970, a pobreza, a opressão e a injustiça. Era uma presença incômoda para a ditadura instaurada em 1976. Em 1979, foi presa durante um show e exilada até 1982.
Na Europa, onde já tinha se apresentado, continuou a divulgar a cultura indígena tantas vezes perseguida pelos "antigos" colonizadores. Virou um dos símbolos do retorno à democracia em 1983. Apesar do avanço da "lógica de mercado" sobre a produção cultural argentina, principalmente durante a década de 1990, manteve-se conhecida como uma artista engajada social e politicamente. Criticou publicamente o governo neoliberal do presidente Carlos Menem (1989-1999). Se por um lado cantava, sim, para as classes médias e altas em apresentações de ingressos caros, por outro nunca deixou de cantar em eventos gratuitos e beneficentes.
O falecimento de Mercedes Sosa no domingo, dia 4, representa uma grande perda para a cultura argentina e latino-americana. Perda, pois continuava ativa, mesmo com 74 anos e a saúde debilitada. Neste ano lançou "Cantora", um CD duplo indicado ao "Grammy Latino". Mas sua obra permanecerá, certamente. Alguns argentinos costumam dizer que Carlos Gardel, o ícone do tango, canta melhor a cada dia, apesar de ter falecido em 1935. Mercedes Sosa será assim lembrada por todos os argentinos e latino-americanos que sonham com um continente mais desenvolvido, justo, plural e soberano.
Paulo Renato da Silva é doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Professor Adjunto da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Campus de Porto Nacional
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"Deus poderia ter esperado um pouquinho mais para leva-la;
não era somente uma voz,
mas uma lenda,um monumento.
Uma pena que nossa atual juventude não seja estimulada a ouvir uma boa música.
Sobra pra êles os forro sacode,mala sem(!)alça,pau de balançar...(Ja chega,né?)".
Paulo Nazareno
sábado, 3 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
DIA DO VEREADOR

Etimologia
Conquanto trazem os dicionários a origem do vocábulo como derivado do antigo termo verea - que significaria "administrar" - alguns autores apontam sua origem para uma significação diversa: seria, sim, a contração de "verificador".
A figura do Vereador hoje
Sendo o município um dos entes integrantes da Federação Brasileira, conforme define a Constituição de 1988, delegou a Carta Magna maiores poderes a este. Os artigos 29 a 31 prescrevem, para os vereadores, dentre outros:
1-Mandato de quatro anos, por voto direto e simultâneo em todo o país;
2-Elaboração da Lei Orgânica do Município;
3-Número de integrantes nas câmaras proporcional à população do município (variando de 9 a 55);
4-Fiscalização e julgamento das contas do Executivo;
5-Inviolabilidade por suas opiniões, palavras e votos - no exercício do mandato e na circunscrição do município;
6-Legislar sobre assuntos de interesse local;
Para concorrer ao mandato de vereador a idade legal mínima é de dezoito anos.
Para anotar ...
a) A primeira eleição para vereador, no Brasil, ocorreu em 1.532, na vila São Vicente;
b) Em toda a história do país, as casas legislativas somente deixaram de existir em dois momentos, ambos com Getúlio Vargas: de 1.930,com o golpe, até quando foi promulgada a nova Constituição; e de 1.937, quando foi instituído o Estado Novo, até 1.946, quando voltou o regime democrático;
c) Até meados dos anos 60, do século XX a função não era remunerada, no Brasil.
d)A Lei Federal 7.212/84 instituiu o dia 1 de outubro, como o "dia do vereador" em rodo território nacional;
e) Pero Vaz de Caminha, escrivão famoso por sua carta ser o único documento a registrar a chegada da armada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, foi "vereador" na cidade do Porto, encarregado de redigir os Capítulos da Câmara Municipal a ser enviados às Cortes.
http://pt.wikipedia.org
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
CIRCULANDO LIVROS
“O maior acontecimento de minha vida foi, sem sombra de dúvida, a biblioteca de meu pai”. Essa frase, comoventemente impactante e fascinantemente grandiosa, nasceu da boca do mais extraordinário poeta argentino, Jorge Luis Borges. Esse contagiante amor pelos livros acompanhou o escritor até os últimos dias de sua existência, quando já estava cego e dependente de amigos ou familiares que diariamente o realimentavam e rejuvenesciam através da leitura.
Em 1978, Borges completara vinte anos que havia perdido a visão. Fora convidado para proferir uma conferência na Universidade de Belgrano, em Buenos Aires. O tema? O LIVRO.
Cego – e só quem é privado da vista sabe a dimensão e a profundidade dessa experiência - Borges articulou ali uma das mais belas orações que conhecemos sobre o assunto. Ele, em pleno vôo de inventividade, espargindo a fertilidade imaginativa, recorre a figuras que sintetizam a sondagem do infinito e a captação das minúsculas partículas. Principia assim sua sinfonia reflexiva: “Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, sem dúvida, o livro. Os outros são extensões do corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões da vista; o telefone é extensão da voz; temos o arado e a espada, extensões do braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”.
Em verdade, o livro liberta. Quem experienciou o gáudio de se relacionar com um bom enfeixe de folhas, sabe o olor revolucionário que dali exala.
Só capta o perfume libertário de um livro quem se deixa por ele envolver, num enlace de flerte, num lampejo de namoro, numa relação amorosa. Se, através da viagem singular e intima da leitura, descobrirmos o minério de paixão que o livro esconde, seremos capazes de rapidamente nos tornarmos ricos. Ricos, sim! Detentores daquele invejável patrimônio que sobrevive à corrosão das traças e ao desgaste do tempo.
Foi por isso que meu coração palpitou de alegria e minha alma se inebriou de satisfação quando o amigo Lourival Veras me enviou uma correspondência avisando que, em Crateús, a SABi (Sociedade Amigos da Biblioteca Norberto Ferreira Filho) estava a desenvolver um Projeto batizado de “Circulando Livros”, uma inédita feira de livros combinada com a oferta de brindes culturais ao ar livre, tendo como lócus a área do anfiteatro da Praça da Matriz.
Além de disponibilizar bons livros a baixo custo (preço máximo: R$ 5,00), o Projeto corteja os presentes com animações culturais, barracas de comidas típicas, contação de histórias, exibição da companhia de teatro Os Cara da Arte e show. Outras etapas serão desenvolvidas nos meses de outubro, novembro e dezembro.
Convidado, juntamente com o historiador Norberto Ferreira Filho (Ferreirinha), para a noite de autógrafos de sábado (26/09), fiz uso da palavra para ressaltar três coisas:
1. A importância de valorizarmos os idosos, simbolizados na pessoa de Ferreirinha, o maior memorialista vivo da nossa terra;
2. Mencionar minha última obra, Amores e Clamores da Cidade e
3. Pronunciar algumas sílabas de estímulo aos presentes sobre o culto ao livro e aos escritores, imortais seres que fundam as civilizações.
Conclui relembrando o Condor Baiano Castro Alves:
“Por isso na impaciência
Dessa sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão-cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n`alma
É gérmen - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar”.
Por isso, saúdo com emocionado contentamento os idealizadores e realizadores desse projeto de circulação de livros. Oxalá sejam semeadores de uma nova safra de escritores para a nossa terra!
Viva o livro, prumo da alma, máquina de tear sonho, metamorfose estática, emancipador da consciência, berço de um novo homem!
Viva o livro, fonte de luz!
Viva o livro!
O livro, ser vivo!
Oh! Livro, viva!
(Por Júnior Bonfim)
terça-feira, 29 de setembro de 2009
OBSERVATÓRIO


Dois fatos. Domingo passado, feira livre de Crateús. Encontro o meu parente Olavo Leitão. De pronto, me indaga sobre o que acho da política. Respondo que vejo a política como uma das mais privilegiadas formas de se efetivar algo de significativo para a coletividade. Infelizmente, por ser teia melindrosa, muita gente se enrosca, às vezes sucumbe e termina decepcionando. Nem por isso devemos abdicar da esperança e batalhar para que os homens livres e de bons costumes nela se insiram.
Setembro de 2008. No prédio de uma instituição bancária da cidade uma senhora, em voz alta, faz uma pregação fustigando os vereadores e sobre a vida nova que a cidade experimentaria com a vitória de Carlos Felipe.
A REALIDADE
Já registramos nesta coluna, em edições passadas, que o prefeito de Crateús haveria de muito realizar na esfera material (obras físicas). Seu grande desafio se situava no campo imaterial (valores consagrados, princípios cultuados): democracia nas relações, transparência nas ações. Essa assertiva vem se confirmando. O prefeito anunciou obras como construção de praça, recuperação asfáltica das ruas etc. Parabéns! Mas, e a revolução nos costumes? A vida nova prometida? O fim da política do toma-lá-dá-cá? Era prá valer ou peça de retórica?... A relação com os edis é um exemplo de que tudo continua como dantes. Só que, destarte, com um ingrediente novo.
EDIS
O Congresso Nacional promulgou na última quarta-feira, 23/9, a Emenda Constitucional 58/08, a chamada PEC dos Vereadores. Essa Lei contempla dois efeitos práticos: de um lado, aumenta o número de vereadores do país; do outro, reduz os percentuais máximos de receita que os municípios podem gastar com suas Câmaras de Vereadores. Em que pese o debate jurídico, a Lei é clara, no artigo 3º, em relação aos seus efeitos: o aumento de Vereadores é retroativo a 2008, ou seja, assumem os suplentes eleitos no pleito passado; a diminuição do repasse ocorrerá apenas a partir de janeiro de 2010. Embora incompreendida, e às vezes repudiada sem maiores discussões, essa alteração normativa é benéfica e positiva. Primeiro, porque amplia a representação popular nos parlamentos municipais; segundo, porque diminui despesa. No caso de Crateús, teremos cinco novos vereadores, que obviamente vão impactar sobre a composição de forças entre situação e oposição.
PROJETO
Por falar em Vereadores, a Câmara Municipal de Crateús deverá apreciar importante Projeto de Lei oriundo do Executivo e que vai afetar os trabalhadores que litigam ou haverão de litigar com o Município. O prefeito pleiteia a aprovação de um projeto que altera o valor dos chamados Requisitórios de Pequeno Valor (RPV). Pelo regramento atual, quando uma pessoa ganha uma causa trabalhista cujo valor é igual ou inferior a trinta salários mínimos, ao invés de inscrever em precatório (que demora a ser pago), o Município é intimado a pagar em sessenta dias. Pois bem. O Executivo quer baixar o teto de trinta para cerca de dez salários. Ou seja, pretende reduzir em 70% o valor do RPV. Se passar esse projeto, qualquer humilde operário que ganhar uma causa acima de R$ 5.000,00 vai esperar anos para receber o que lhe é devido. Trata-se de um duro golpe nos trabalhadores. Sobretudo porque oriundo de uma administração comunista e que se diz do lado dos trabalhadores.
MV
Repercutiu a postagem, na edição passada, da informação dando conta da especulação em torno da possível candidatura de Manoel Veras à Prefeitura de Crateús. A grande maioria apoiando entusiasticamente a idéia. Porém, houve quem censurasse este escriba porque atua no Tribunal onde Veras é Conselheiro. Ora, qualquer pessoa minimamente informada sabe que, por força de lei, Manoel Veras é impedido de apreciar, dar parecer e votar nos processos onde figuram como parte os gestores dos municípios onde ele, quando Deputado, foi votado.
OAB
Sexta-feira passada (25/09), os advogados de Crateús almoçaram com Valdetário Monteiro, candidato a Presidente da OAB/CE. Concorre com Erinaldo Dantas e Edson Santana. Nas eleições de novembro vindouro, além de escolher o comando estadual, os causídicos elegerão também as diretorias das subseções regionais. No âmbito local, tudo se encaminha para um consenso em torno do doutor Ismael Pedrosa Machado, jovem e bem articulado operador do direito. Em se tratando de estado, nossa opinião é de que o candidato que exibe melhor trajetória pessoal, folha de serviços prestados à Ordem, arrojo empreendedor e desenvoltura operacional é Valdetário.
CULTURA
Maior gravador do Ceará na atualidade, o artista crateuense Francisco de Almeida estará marcando presença na VII Bienal do Mercosul, a ser realizada entre os dias 16 de outubro e 29 de novembro, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Almeidinha, mais uma vez, surpreende pelo ineditismo: vai exibir um trabalho com 20 metros de comprimento. Inexistem notícias de outra gravura com essas dimensões no País. No painel, é tratada a temática religiosa nordestina, enfatizando a chuva, o sol, o vento e a terra. Parte da obra é colorida e contém a utilização de grafite. Sobre esse artista plástico extraordinário, que deveria ser mais festejado e celebrado em sua terra natal, escrevemos uma crônica cuja reprodução segue ao lado.
SABi
Ainda bem que a cidade dispõe, desde 23 de outubro de 2004, de uma entidade do terceiro setor cuja motivação é o desenvolvimento de ações culturais voltadas prioritariamente para crianças e adolescentes. É a SABi: Sociedade Amigos da Biblioteca Norberto Ferreira Filho. No final de semana passado, no entorno do anfiteatro da Praça da Matriz, promoveu a primeira etapa do Projeto Circulando Livros. Além de disponibilizar bons livros a baixo custo (preço máximo: R$ 5,00), o Projeto brindou os presentes com animações culturais, barracas de comidas típicas, Contação de histórias, exibição da companhia de teatro Os Cara da Arte e show. Outras etapas serão desenvolvidas nos meses de outubro, novembro e dezembro. Vale a pena conferir!
PARA REFLETIR
“Aquele que tem por vício a leitura, droga alucinógena das mais leves, acabará cada vez mais dependente dela. E o pior, passará para drogas mais pesadas, como a escrita. Nesta fase crítica, o leitor, agora escritor, tende a fugir regularmente da realidade e ter devaneios de que, assim como Deus, é criador de Universos inteiros”. (Jeferson Luis Maleski)
(Por Júnior Bonfim – publicado na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará)
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
JOÃOZINHO
Ano 2000. Empolgado por ter retirado da fornalha o meu primeiro pão literário, o livro Poesias Adolescentes e Maduras, marchei para lançá-lo em Brasília, onde havia residido nos anos de 1997 e 1998. (Apesar daquele Planalto Central, no cumprimento da rogativa visionária de Juscelino Kubitschek, ter se transformado no poderoso cérebro das mais altas decisões nacionais, sempre consegui vislumbrar poesia naquele palpitar sinuoso de racionalidade). Se “companheiro”, ao gosto do mel que escorre do seu caule etimológico, é alguém com quem se “compartilha o pão” - naquela viagem desfrutei da agradável companhia de quatro deles: o poeta Dideus Sales, o compositor e sanfoneiro Edilson Vieira, o prefeito Paulo Nazareno e o deputado Manoel Veras.
Na empreitada de mobilização para o evento, Dideus me convida para fazer um périplo por alguns crateuenses. Invariavelmente, antes de chegarmos à residência ou ao local de trabalho onde encontraríamos o conterrâneo, ele fazia uma peroração sobre a trajetória da pessoa a ser visitada.
Certa manhã, Dideus me falou: - “Hoje vamos ao Guará, visitar uma pessoa especial. É o Joãozinho, um sujeito fantástico...” e começou a discorrer sobre a modelar história de vida do cidadão.
Ao chegarmos ao prédio comercial do cidadão, tive o primeiro e desconcertante impacto: o homem que Dideus me apresenta como o “dono” do negócio é o que aparenta ser o mais humilde dentre todos. Roupa de balconista, estilo receptivo, jeito centrado, conversa leve, Joãozinho começa a indagar sobre o que mais gosta: Crateús – sua terra e sua gente!
A partir daí passei a ser, também, um admirador de João Alves Lopes, o Joãozinho, crateuense nascido na Tapera do Canto dos Pintos aos doze dias do Augusto mês do ano em que Juscelino Kubitschek, o construtor de Brasília, foi eleito Presidente da República.
Último homem dos treze filhos do casal Belarmino Rodrigues Sousa (Mestre Belo) e Maria Alves Lopes, Joãozinho desde cedo, certamente por herança dos pais, aprendeu a fazer do labor um ato de amor. (Seu pai pontificou, na terra do Senhor do Bonfim, a mais famosa barbearia da cidade. Batizado com sua alcunha, o “Salão do Mestre Belo” – ainda hoje mantido à Rua Coronel Zezé – é um estabelecimento comercial onde se conserva a tradição de aparar os cabelos e apanhar as principais notícias da urbe).
Joãozinho parece ter nascido predestinado ao ofício de remediar. Seu primeiro emprego, no árido ano de 1970, foi na farmácia Seiva, do senhor Deusdeth Cavalcante, espaço onde desenvolveu a habilidade de oferecer lenitivo às pessoas que precisavam.
Sete anos depois se processaria a maior alquimia da sua existência: troca alianças com Lucília Araujo Soares e passa a residir na Capital da República.
Da mulher, companheira de fé e luta, recebe a força amorosa para os desafios da vida. Da cidade, em plena explosão desenvolvimentista, extrai a seiva para erigir, naquela selva de pedra urbana, o frutífero canteiro do progresso pessoal.
No ano de 1982 adquire a primeira farmácia, no Guará, uma das principais cidades satélite de Brasília. Hoje, controla uma ampla rede comercial no Distrito Federal, que soma cerca de vinte espaços negociais entre drogarias, lojas de cosméticos e restaurantes, disponibilizando oportunidade de trabalho para várias dezenas de crateuenses.
Cumprindo a assertiva superior de ‘crescer e multiplicar’, comprovando também que “filhos, melhor tê-los”, João e Lucília fecundaram três descendentes: Jorge (farmacêutico), Nádia (psicóloga) e Nayara (advogada).
Além da ampla casa no Guará, João mantém um paradisíaco sítio em Valparaíso, nos arredores de Brasília. Cercado por um primoroso pomar, com piscina de água natural e frondosas árvores, o local o remete ao torrão natal, de onde nunca se desvencilhou.
O erudito Gerardo Mello Mourão, citando Comenius, sustenta que “a natureza produz tudo a partir da raiz” e ensina: — “na árvore, tudo o que virá a ser a madeira, a tasca, as folhas, as flores e os frutos, não provém senão da raiz”. E conclui, dizendo que o ser do homem não se mantém e não floresce, se não estiver permanentemente plantado em suas raízes.
Visceralmente vinculado às raízes vitais, e para manter de pé a invisível ponte que liga o seu peito à terra onde enterrou o umbigo, João adquiriu uma propriedade, a Grota da Onça, localizada a poucos quilômetros do centro de Crateús - onde mantém, na Rua Moreira da Rocha, uma loja de artigos campestres chamada “Coisas do Campo”. Essas aquisições são o motivo para visitar, pelo menos duas vezes por ano, o chão que tanto ama.
Porém, o que mais chama atenção no fenótipo singular de João é a sua genuína humildade. O progressivo aumento do acervo patrimonial jamais interferiu na serenidade dos seus neurônios. Permanece manso como as pequenas e anônimas lagoas do nosso sertão. Lembra a majestosa generosidade de uma velha oiticica à beira do rio. É um vigoroso e despretensioso pau d’arco, desprovido de ambição predatória.
Que assim permaneças, João, semeador de bem-aventuranças, vaqueiro do comboio do progresso, homem moldado pela argila do trabalho, alfaiate da vestimenta da simplicidade. És a prova de que, à inspiração do evangelho, há um reino virtuoso para os mansos de alma e humildes de coração!
(Por Júnior Bonfim - publicado na Coluna Gente Que Brilha, da Revista Gente de Ação)
sábado, 26 de setembro de 2009


I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
(Por Vinicius de Moraes)
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
CONJUNTURA NACIONAL
BANANA NO BOLSO
Tenho de começar com Jânio Quadros. Na campanha pela prefeitura de São Paulo de 1985, contra Fernando Henrique, o senador sociólogo da época, Jânio foi ao bairro de São Miguel Paulista, na zona Leste, reduto de nordestinos. Depois de uma farta feijoada, inúmeras caipirinhas, Jânio não resistiu e caiu na cama. Atrasado, às 18 horas levantou-se, vestiu o terno amarfanhado e colocou uma banana no bolso. Ao começar o discurso, foi logo dizendo: "Político brasileiro não se dá ao respeito. Eu não. Desde as 7 horas da manhã, estou encaminhando por este bairro e até agora não comi nada. Então, com licença". Sob os aplausos da massa, devorou a banana.
A SEMÂNTICA JANISTA
O discurso semântico de Jânio – a substância de sua fala – ganhava mais força pelo impacto causado pelo discurso estético, a impressão provocada por sua maneira de falar, os olhos esbugalhados, os cabelos compridos e revoltos, a barba por fazer, um jeito desleixado que confundia interlocutores e assistentes: aquilo seria natural, coisa do acaso, ou algo preparado, artificializado? Em Jânio, essa ambiguidade tornou-se marca de sua personalidade. Ficaram famosas suas campanhas em São Paulo, desde os tempos de vereador, quando escolheu o bairro de Vila Maria para montar o primeiro palanque de sua trajetória. Ombros cheios de caspa, sanduíches de mortadela, pão com banana, tudo sob as vistas dos fotógrafos, eram um prato saboroso para a mídia.
NÉVOAS E NUVENS
Os horizontes de outubro de 2010 estão longínquos. As nuvens e névoas do tempo atrapalham a visibilidade. Mas pesquisa, como se diz, é a foto do momento. E esta pesquisa CNI/IBOPE revela pelo menos uma coisa: Dilma Rousseff tem dificuldades para fazer decolar a candidatura. Ela já havia alcançado a taxa de 20%. Cai, agora, para 14% e empata com os 14% de Ciro Gomes. Ciro vai à TV, circula pelas cidades médias e grandes, acirra o discurso. E assim abre espaços na mídia. Dilma também passou a dar entrevistas de fundo político. Mas seu tom arrogante emerge.
OS TUPINIQUINS
A entrevista da ministra chefe da Casa Civil, na Folha de S.Paulo, do último domingo, foi muito fraca. Esteve abaixo de sua identidade. A certa altura, defendendo o Estado forte – inchamento da máquina – cometeu a blague de atribuir essa polêmica aos "tupiniquins". Quis dizer que essa matéria só causa celeuma por aqui. Sobrou, porém, a gafe que pega parcela de nossa população indígena. Fosse um analista político a se referir ao tema, não haveria problema. A referência retrata uma cultura do atraso, das antigas. Na linguagem de uma autoridade, o termo parece inadequado.
ALTERNATIVAS DO PT
Pois é, se Dilma não decolar, por onde caminhará o PT? Pelo andar da carruagem, seus quadros melhores estão ainda se recuperando de tiroteios antigos. Dirceu está fora de campo. Palocci, absolvido, espera momento propício para reaparecer em cena. Marta Suplicy não tem votação suficiente para eleições majoritárias na esfera federal. Vai sobrar para o PT o nome de Ciro Gomes como alternativa. O polêmico, extravagante, irrequieto, mas – vale reconhecer – bem articulado Ciro Gomes. Candidato pelo PSB com o apoio do PT. E se o PT não topar? Ciro garante que vai adiante.
NESSE CASO
Nesse caso, colabora para a ruptura de alianças entre PSB e PT em alguns Estados. A razão: em algumas unidades federativas, o PSB quer lançar seus candidatos e o PT teria de abrir espaço. Vice versa. O PT quer o apoio do PSB para seus candidatos em Estados onde aquele partido também quer disputar. Impasse. A campanha de 2010 será uma costura de inimaginável complexidade. Será um samba atravessado.
SERRA VAI BEM?
José Serra continua com bons índices, apesar de já ter registrado mais de 40%. Com 34%, Serra lidera mas diminui sua taxa. A diferença entre ele e os segundos é muito grande: 20 pontos percentuais. Serra quer conquistar, devagarzinho, o Nordeste, onde tem a menor aceitação. Na Bahia, na segunda viagem que fez em menos de dois meses, saiu-se muito bem. Conseguiu puxar para sua palestra até Geddel Vieira Lima, ministro da Integração, que não tem muita certeza sobre a candidatura Dilma.
O BRASIL CERCADO
Embaixadas são territórios de países. A Embaixada brasileira em Honduras, portanto, é a extensão do território nacional. Não pode ser invadida sob pena de tal ato ser entendido como invasão do próprio país representado. Se cortam os serviços básicos da Embaixada brasileira, em Honduras, esse ato equivale a uma agressão. É como se houvesse um boicote ao próprio Brasil. Que os meus amigos especialistas em Direito Internacional me socorram: me condenem ou me absolvam. Estarei certo ou errado? Manuel Zelaya, presidente legal de Honduras, espera, no mínimo, uma reação à altura do Brasil.
ALCKMIN VAI BEM
Em longa conversa com este consultor, no final de semana, Geraldo Alckmin demonstrou inteira confiança em suas possibilidades como candidato ao governo de São Paulo. Acredita que o governador José Serra faz o estilo pragmático. Candidato à presidência da República, não pode perder em São Paulo. Por isso, escolherá o perfil com melhores condições de obter sucesso. Mas já quem ache que Alckmin não sustentará seus altos índices de pesquisa de opinião pública. E que as máquinas do Estado e da Prefeitura, juntas, alavancam qualquer candidatura. É possível, mas, em eleição, há sempre um imponderável.
QUEM FOI RADICAL?
Luiz Inácio lembrou, recentemente, que não há mais espaço para os trogloditas de direita. E lembrou que, na última campanha presidencial, quem radicalizou foi Geraldo Alckmin. Ora, quem conhece a índole equilibrada e balizada pelo bom senso do ex-governador, joga a pérola de Lula no lixo. Geraldo apenas lembrou que Lula estava cercado por mensaleiros e aloprados. Tal linguagem não é radical e apenas expressa a leitura das mídias e da opinião pública. Os tais figurantes dos ilícitos, esses, sim, radicalizaram.
DIREITA, VOLVER
José Sarney fecha posição com Lula. Renan Calheiros, idem. Fernando Collor, idem. O que o presidente quis dizer quando lembrou não haver mais espaço para trogloditas de direita?
VICES
O ministro Carlos Lupi, do Trabalho, é lembrado como um nome para compor a chapa de Ciro Gomes. O presidente da Natura, Guilherme Leal, é lembrado como vice de Marina Silva. Michel Temer, como vice de Dilma Rousseff. Henrique Meirelles (de que partido é?) também foi lembrado – agora pelo PMDB de Goiás – para compor a chapa de Rousseff.
TUCANOS E SOCIALISTAS
Na Paraíba, é bem possível que os tucanos fechem aliança com os socialistas do PSB. Ricardo Coutinho, o bem avaliado prefeito de João Pessoa, eventual candidato ao governo pelo partido de Ciro Gomes, poderá ser o fiador desta aliança. Como já disse, dançaremos um samba atravessado.
REFORMA TRIBUTÁRIA E TERCEIRIZAÇÃO
O Fórum Permanente em Defesa do Empreendedor, composto por empresários de cerca de 160 entidades do setor produtivo – entre elas Fiesp, ACSP, OAB e Fecomercio –, realizará no próximo dia 28 de setembro, na sede do Sescon (Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis no Estado de São Paulo), em São Paulo, um encontro com o deputado Sandro Mabel, relator dos projetos de reforma tributária e do PL 4.302/98 que regulamenta a terceirização. Mabel discorrerá sobre os dois assuntos.
TOFFOLI
E o nomeado José Antônio Toffoli, hein? Ministro do STF, passará 29 anos no cargo. Tempo para acompanhar, avaliar e julgar quase oito mandatos presidenciais. Assumirá mesmo não portando títulos de mestre e doutor – que Lula acha uma besteira. Vale, ainda é o presidente que garante, o fato de ele ser "um puta advogado". E mais: que "advogou para nós". Será que essa é a melhor qualificação. Benza-nos, Deus.
O S DE SKAF
Há quem veja, na pesada campanha de Paulo Skaf na mídia, intenção mais que explícita de uma postulação política. Pretenderia o presidente da FIESP ser candidato ao governo de São Paulo, meta que o teria levado a procurar dirigentes e lideranças de partidos em São Paulo. Daqui a uma semana, Skaf deverá optar por um partido se quiser efetivamente continuar defendendo sua postulação. Mas há empresários fortes que acham a estratégia de Skaf um desastre: essa campanha para vender o SESI – pois o enaltecimento ao Serviço é mais que óbvio – pode comprometer seriamente o sistema S, de onde sai a dinheirama para sustentar campanhas publicitárias. Dinheiro em publicidade com viés político?
DIREITO, PODER E DEVER
Paulo Skaf tem todo o direito, como cidadão, de alavancar sua cidadania e, por conseguinte, trilhar as veredas da política partidária. A questão é: sob o escudo desse direito, ele, como presidente da FIESP, poderia concorrer a um cargo majoritário, mesmo não tendo nenhuma experiência na área? Resposta: pode, sim. Quanto ao dever, essa é uma questão de consciência. Envolve sua posição no contexto das Federações, suas relações com os associados da FIESP, o engajamento político que aquela Casa pretende adotar, a relação com os partidos etc. Há, sob essa moldura, uma teia complexa de encadeamentos. Parece, porém, que Skaf não enxerga nada disso.
MARKETING MECATRÔNICO
A política é um sistema complexo. Envolve pesquisas, discurso substantivo (propostas, ideários), comunicação, articulação com a sociedade, articulação política e mobilização (encontros, reuniões, contatos com multidões etc.). Trata-se de uma rede de sistemas. Esse é o domínio do marketing político. Que, nas últimas décadas, passou a ser sinônimo de programas bem feitos de TV. Os chamados marqueteiros saíram das pranchas criativas de agências de publicidade. Vejam, senhoras e senhores, onde o marketing foi parar. Não por acaso, esbarramos nas TVs com uma linguagem "mecatrônica", parente da metafísica, que metabólica nenhuma, nem mesmo a metalinguística, há de entender. Haja picaretagem!
CONSELHO AOS SENADORES
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao ministro do STF, Marco Aurélio Mello. Hoje, volta sua atenção aos senadores:
1. Façam uma sabatina justa – sem exageros e sem diminuições – para aferir as condições do indicado José Antônio Toffoli para o STF.
2. Ao presidente da República cabe fazer indicações para a mais alta Corte do país. Mas os senadores poderão rejeitar essa indicação, se o perfil do escolhido não corresponder ao figurino exigido para o posto.
3. Pode ser que sua Excelência demonstre qualidades pessoais, profissionais e técnicas para galgar o cargo de ministro do STF. O que não seria aceitável é a discriminação por idade ou ideologia. A conferir a sabatina, dia 30 próximo.
____________
(Por Gaudêncio Torquato)
Tenho de começar com Jânio Quadros. Na campanha pela prefeitura de São Paulo de 1985, contra Fernando Henrique, o senador sociólogo da época, Jânio foi ao bairro de São Miguel Paulista, na zona Leste, reduto de nordestinos. Depois de uma farta feijoada, inúmeras caipirinhas, Jânio não resistiu e caiu na cama. Atrasado, às 18 horas levantou-se, vestiu o terno amarfanhado e colocou uma banana no bolso. Ao começar o discurso, foi logo dizendo: "Político brasileiro não se dá ao respeito. Eu não. Desde as 7 horas da manhã, estou encaminhando por este bairro e até agora não comi nada. Então, com licença". Sob os aplausos da massa, devorou a banana.
A SEMÂNTICA JANISTA
O discurso semântico de Jânio – a substância de sua fala – ganhava mais força pelo impacto causado pelo discurso estético, a impressão provocada por sua maneira de falar, os olhos esbugalhados, os cabelos compridos e revoltos, a barba por fazer, um jeito desleixado que confundia interlocutores e assistentes: aquilo seria natural, coisa do acaso, ou algo preparado, artificializado? Em Jânio, essa ambiguidade tornou-se marca de sua personalidade. Ficaram famosas suas campanhas em São Paulo, desde os tempos de vereador, quando escolheu o bairro de Vila Maria para montar o primeiro palanque de sua trajetória. Ombros cheios de caspa, sanduíches de mortadela, pão com banana, tudo sob as vistas dos fotógrafos, eram um prato saboroso para a mídia.
NÉVOAS E NUVENS
Os horizontes de outubro de 2010 estão longínquos. As nuvens e névoas do tempo atrapalham a visibilidade. Mas pesquisa, como se diz, é a foto do momento. E esta pesquisa CNI/IBOPE revela pelo menos uma coisa: Dilma Rousseff tem dificuldades para fazer decolar a candidatura. Ela já havia alcançado a taxa de 20%. Cai, agora, para 14% e empata com os 14% de Ciro Gomes. Ciro vai à TV, circula pelas cidades médias e grandes, acirra o discurso. E assim abre espaços na mídia. Dilma também passou a dar entrevistas de fundo político. Mas seu tom arrogante emerge.
OS TUPINIQUINS
A entrevista da ministra chefe da Casa Civil, na Folha de S.Paulo, do último domingo, foi muito fraca. Esteve abaixo de sua identidade. A certa altura, defendendo o Estado forte – inchamento da máquina – cometeu a blague de atribuir essa polêmica aos "tupiniquins". Quis dizer que essa matéria só causa celeuma por aqui. Sobrou, porém, a gafe que pega parcela de nossa população indígena. Fosse um analista político a se referir ao tema, não haveria problema. A referência retrata uma cultura do atraso, das antigas. Na linguagem de uma autoridade, o termo parece inadequado.
ALTERNATIVAS DO PT
Pois é, se Dilma não decolar, por onde caminhará o PT? Pelo andar da carruagem, seus quadros melhores estão ainda se recuperando de tiroteios antigos. Dirceu está fora de campo. Palocci, absolvido, espera momento propício para reaparecer em cena. Marta Suplicy não tem votação suficiente para eleições majoritárias na esfera federal. Vai sobrar para o PT o nome de Ciro Gomes como alternativa. O polêmico, extravagante, irrequieto, mas – vale reconhecer – bem articulado Ciro Gomes. Candidato pelo PSB com o apoio do PT. E se o PT não topar? Ciro garante que vai adiante.
NESSE CASO
Nesse caso, colabora para a ruptura de alianças entre PSB e PT em alguns Estados. A razão: em algumas unidades federativas, o PSB quer lançar seus candidatos e o PT teria de abrir espaço. Vice versa. O PT quer o apoio do PSB para seus candidatos em Estados onde aquele partido também quer disputar. Impasse. A campanha de 2010 será uma costura de inimaginável complexidade. Será um samba atravessado.
SERRA VAI BEM?
José Serra continua com bons índices, apesar de já ter registrado mais de 40%. Com 34%, Serra lidera mas diminui sua taxa. A diferença entre ele e os segundos é muito grande: 20 pontos percentuais. Serra quer conquistar, devagarzinho, o Nordeste, onde tem a menor aceitação. Na Bahia, na segunda viagem que fez em menos de dois meses, saiu-se muito bem. Conseguiu puxar para sua palestra até Geddel Vieira Lima, ministro da Integração, que não tem muita certeza sobre a candidatura Dilma.
O BRASIL CERCADO
Embaixadas são territórios de países. A Embaixada brasileira em Honduras, portanto, é a extensão do território nacional. Não pode ser invadida sob pena de tal ato ser entendido como invasão do próprio país representado. Se cortam os serviços básicos da Embaixada brasileira, em Honduras, esse ato equivale a uma agressão. É como se houvesse um boicote ao próprio Brasil. Que os meus amigos especialistas em Direito Internacional me socorram: me condenem ou me absolvam. Estarei certo ou errado? Manuel Zelaya, presidente legal de Honduras, espera, no mínimo, uma reação à altura do Brasil.
ALCKMIN VAI BEM
Em longa conversa com este consultor, no final de semana, Geraldo Alckmin demonstrou inteira confiança em suas possibilidades como candidato ao governo de São Paulo. Acredita que o governador José Serra faz o estilo pragmático. Candidato à presidência da República, não pode perder em São Paulo. Por isso, escolherá o perfil com melhores condições de obter sucesso. Mas já quem ache que Alckmin não sustentará seus altos índices de pesquisa de opinião pública. E que as máquinas do Estado e da Prefeitura, juntas, alavancam qualquer candidatura. É possível, mas, em eleição, há sempre um imponderável.
QUEM FOI RADICAL?
Luiz Inácio lembrou, recentemente, que não há mais espaço para os trogloditas de direita. E lembrou que, na última campanha presidencial, quem radicalizou foi Geraldo Alckmin. Ora, quem conhece a índole equilibrada e balizada pelo bom senso do ex-governador, joga a pérola de Lula no lixo. Geraldo apenas lembrou que Lula estava cercado por mensaleiros e aloprados. Tal linguagem não é radical e apenas expressa a leitura das mídias e da opinião pública. Os tais figurantes dos ilícitos, esses, sim, radicalizaram.
DIREITA, VOLVER
José Sarney fecha posição com Lula. Renan Calheiros, idem. Fernando Collor, idem. O que o presidente quis dizer quando lembrou não haver mais espaço para trogloditas de direita?
VICES
O ministro Carlos Lupi, do Trabalho, é lembrado como um nome para compor a chapa de Ciro Gomes. O presidente da Natura, Guilherme Leal, é lembrado como vice de Marina Silva. Michel Temer, como vice de Dilma Rousseff. Henrique Meirelles (de que partido é?) também foi lembrado – agora pelo PMDB de Goiás – para compor a chapa de Rousseff.
TUCANOS E SOCIALISTAS
Na Paraíba, é bem possível que os tucanos fechem aliança com os socialistas do PSB. Ricardo Coutinho, o bem avaliado prefeito de João Pessoa, eventual candidato ao governo pelo partido de Ciro Gomes, poderá ser o fiador desta aliança. Como já disse, dançaremos um samba atravessado.
REFORMA TRIBUTÁRIA E TERCEIRIZAÇÃO
O Fórum Permanente em Defesa do Empreendedor, composto por empresários de cerca de 160 entidades do setor produtivo – entre elas Fiesp, ACSP, OAB e Fecomercio –, realizará no próximo dia 28 de setembro, na sede do Sescon (Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis no Estado de São Paulo), em São Paulo, um encontro com o deputado Sandro Mabel, relator dos projetos de reforma tributária e do PL 4.302/98 que regulamenta a terceirização. Mabel discorrerá sobre os dois assuntos.
TOFFOLI
E o nomeado José Antônio Toffoli, hein? Ministro do STF, passará 29 anos no cargo. Tempo para acompanhar, avaliar e julgar quase oito mandatos presidenciais. Assumirá mesmo não portando títulos de mestre e doutor – que Lula acha uma besteira. Vale, ainda é o presidente que garante, o fato de ele ser "um puta advogado". E mais: que "advogou para nós". Será que essa é a melhor qualificação. Benza-nos, Deus.
O S DE SKAF
Há quem veja, na pesada campanha de Paulo Skaf na mídia, intenção mais que explícita de uma postulação política. Pretenderia o presidente da FIESP ser candidato ao governo de São Paulo, meta que o teria levado a procurar dirigentes e lideranças de partidos em São Paulo. Daqui a uma semana, Skaf deverá optar por um partido se quiser efetivamente continuar defendendo sua postulação. Mas há empresários fortes que acham a estratégia de Skaf um desastre: essa campanha para vender o SESI – pois o enaltecimento ao Serviço é mais que óbvio – pode comprometer seriamente o sistema S, de onde sai a dinheirama para sustentar campanhas publicitárias. Dinheiro em publicidade com viés político?
DIREITO, PODER E DEVER
Paulo Skaf tem todo o direito, como cidadão, de alavancar sua cidadania e, por conseguinte, trilhar as veredas da política partidária. A questão é: sob o escudo desse direito, ele, como presidente da FIESP, poderia concorrer a um cargo majoritário, mesmo não tendo nenhuma experiência na área? Resposta: pode, sim. Quanto ao dever, essa é uma questão de consciência. Envolve sua posição no contexto das Federações, suas relações com os associados da FIESP, o engajamento político que aquela Casa pretende adotar, a relação com os partidos etc. Há, sob essa moldura, uma teia complexa de encadeamentos. Parece, porém, que Skaf não enxerga nada disso.
MARKETING MECATRÔNICO
A política é um sistema complexo. Envolve pesquisas, discurso substantivo (propostas, ideários), comunicação, articulação com a sociedade, articulação política e mobilização (encontros, reuniões, contatos com multidões etc.). Trata-se de uma rede de sistemas. Esse é o domínio do marketing político. Que, nas últimas décadas, passou a ser sinônimo de programas bem feitos de TV. Os chamados marqueteiros saíram das pranchas criativas de agências de publicidade. Vejam, senhoras e senhores, onde o marketing foi parar. Não por acaso, esbarramos nas TVs com uma linguagem "mecatrônica", parente da metafísica, que metabólica nenhuma, nem mesmo a metalinguística, há de entender. Haja picaretagem!
CONSELHO AOS SENADORES
Esta coluna dedica sua última nota a pequenos conselhos a políticos, governantes e líderes nacionais. Na edição passada, o espaço foi destinado ao ministro do STF, Marco Aurélio Mello. Hoje, volta sua atenção aos senadores:
1. Façam uma sabatina justa – sem exageros e sem diminuições – para aferir as condições do indicado José Antônio Toffoli para o STF.
2. Ao presidente da República cabe fazer indicações para a mais alta Corte do país. Mas os senadores poderão rejeitar essa indicação, se o perfil do escolhido não corresponder ao figurino exigido para o posto.
3. Pode ser que sua Excelência demonstre qualidades pessoais, profissionais e técnicas para galgar o cargo de ministro do STF. O que não seria aceitável é a discriminação por idade ou ideologia. A conferir a sabatina, dia 30 próximo.
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(Por Gaudêncio Torquato)
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
POLÍTICA E ECONOMIA NA REAL
Produção em alta
Todos os sinais vitais da economia brasileira convergem para um crescimento consistente nos próximos meses e, quiçá, em 2010 o PIB pode vir a crescer entre 5% - 6%. Obviamente, previsões econômicas são sempre marcadas por elevados graus de incerteza, sobretudo em função da rapidez e profundidade pelas quais as expectativas se alteram nos tempos modernos. Os indicadores de consumo, divulgados na semana passada, somam-se aos indicadores anteriores (inclusive o crescimento do PIB de 1,7% no segundo trimestre) e dão evidências de que o PIB será positivo este ano e o grau de aceleração da demanda agregada é acelerado. A novidade que poderemos ter (esperamos !) é uma alta dos investimentos privados que foram paralisados por conta da crise. Os orçamentos empresariais estão sendo superados e os acionistas das empresas estão animados. Além disto, não são poucos os executivos de empresas multinacionais que tomam o caminho das matrizes e estão a negociar mais dinheiro para investir.
Inflação em alta
Não preste atenção nos números da inflação dos próximos meses. Estes não são os mais importantes para mensurar os riscos de inflação no médio prazo. É muito provável que a inflação se torne um perigoso risco no ano que vem. Todos os fatores convergem para o aumento dos riscos inflacionários. Vejamos: (1) a demanda cresce rapidamente e, possivelmente em meados do ano que vem, baterá num nível de capacidade instalada (80%) no qual as pressões de custos costumam emergir; (2) a queda do dólar já ocorreu e é improvável que possa "colaborar" ainda mais para reduzir a inflação no ano que vem; (3) à demanda privada crescente se somará a já alta demanda pública. Os gastos públicos elevados, tanto para investimento quanto para consumo, vão ajudar a acelerar a inflação. Difícil imaginar gastos públicos em queda num ano eleitoral; (4) haverá pressões de custos salariais com o nível de emprego melhorando e, finalmente, (5) se o cenário externo melhorar, os preços das commodities sobem e "contaminam" os preços domésticos.
E o BC?
Como se vê nas notas acima, há razões justificadas para apostarmos num ótimo 2010. E existem preocupações sérias para acreditarmos numa inflação crescente. Vejamos o lado da autoridade monetária, que costuma ser "preventiva". Quando poderia aumentar a taxa de juros básica, já que estamos vivendo os primeiros passos da recuperação ? É difícil apostar nisto, mas uma coisa é certa : o mercado vai apostar na alta de juros e os juros dos títulos prefixados vão subir, bem como o mercado futuro. Talvez logo. De outro lado, há um fator "político" a influir no BC : Henrique Meirelles é candidatíssimo ao governo de Goiás e abre um "vácuo" no BC difícil de ser avaliado. A própria diretoria do BC deve ser bem alterada em 2010. Por tudo isto é muito provável que o BC seja testado em 2010 no que diz respeito à sua competência e credibilidade.
BC independente não tem defensores
Embora seja um dos arcabouços mais importantes na defesa da moeda (contenção da inflação), a independência do BC não deve ter defensores com peso político (e votos) nas próximas eleições. Tanto Dilma quanto Serra, ou mesmo Marina, não acreditam num BC com independência funcional. Tudo fica para o futuro. Distante, diga-se.
Ajuste eleitoral
Quem leu a entrevista da ministra Dilma Roussef à "Folha de S.Paulo" de domingo percebeu que o PAC não é mais o principal carro-chefe eleitoral da preferida de Lula. Agora é o pré-sal e os programas sociais.
É especulação demais
Não se deve comprar pelo valor de face um bom número de "informações" a respeito da sucessão presidencial dando conta de que (i) já houve um acerto de uma aliança, (ii) que dois candidatos firmaram um acordo, (iii) que um partido está prestes a firmar outra aliança e coisas tais. São lances para "valorizar passes".
Quem confia no PMDB?
O PMDB que quer apoiar Dilma iniciou uma cruzada para levar Lula a definir logo, publicamente (quem sabe, até oficialmente), que o partido é prioritário na aliança situacionista e que a vice-presidência será dele. Ao mesmo tempo, porém, o PMDB não dá indicações de que pode definir logo sua aliança federal com o PT.
Quem confia no PT?
O PMDB que é do governo Federal somente vai definir oficialmente o apoio a Dilma depois que as alianças estaduais com o PT estiverem fechadas.
Voto regional é diferente
A se confirmar a aliança PT-PMDB para apoiar Dilma e fazer o máximo de "palanques únicos" para a candidata de Lula, o PMDB poderá levar uma enorme vantagem sobre o PT se o acordo for celebrado como o partido quer. O PMDB quer prioridade nos palanques estaduais. São esses palanques que determinam os votos para o Senado e, principalmente, para a Câmara. O eleitor vota com uma cabeça para a presidência e com outra completamente diferente no seu Estado, de olho em outros interesses. O PT corre o risco de ganhar a presidência da República e ficar menor do que é hoje no Congresso.
Marina e os "processos cumulativos"
Não se sabe se alguém no Planalto leu e comentou com Lula este trecho da entrevista da ex-ministra Marina Silva ao diário espanhol El País.
El País: A senhora manteria a política econômica do governo Lula?
Marina: Os processos são acumulativos. Não existe espaço para processos niilistas com relação ao já conquistado. Existe um reconhecimento de que nos últimos 16 anos o Brasil conseguiu o equilíbrio fiscal e a estabilização da moeda, junto com a grande inovação introduzida por Lula e que foi a questão da distribuição de renda. Tudo deve ser preservado. Creio que temos espaços para melhorar e já existe o perigo de que se destrua tudo o que se foi construindo nos últimos 16 anos.
Se os leitores palacianos tiveram conhecimento, coitada da senadora! Afinal, tudo de bom no Brasil não ocorreu depois de 2002? Como falar em 16 anos, se Lula está apenas há pouco menos de 7 anos em Brasília?
Simpatia ambiental
Ainda na mesma edição, em artigo sobre a entrada de Marina na corrida sucessória, na matéria intitulada "A companheira que desafiou Lula", os repórteres J. Arias e S. Gallego-Diaz, do El País, classificam a candidata de Lula, Dilma Roussef, como "uma espécie de primeira-ministra na sombra". O conjunto das matérias é muito simpático com a ambientalista.
Qual o discurso?
Que "coletinho" o Brasil vestirá na Conferência do Clima em dezembro em Copenhague? O do pré-sal ou o do etanol? Vocês já repararam que desde que virou um "futuro magnata do petróleo", Lula nunca mais fez uma referência aos biocombustíveis? Há informações – efeito Marina? – que o presidente abordará o tema do meio ambiente em sua fala amanhã na Assembleia Geral da ONU.
Obama é verde
Um dos mais ambiciosos programas para o futuro de Obama é a redução da dependência dos EUA de combustíveis fósseis, não apenas do petróleo do Oriente Médio. Na Inglaterra – e na Europa, em geral – o tema do momento é a "Revolução Verde".
Muito estranho
É ótimo que as autoridades de meio ambiente se preocupem com a emissão de gases poluentes pelos veículos automotivos. É saudável que divulguem, como o fizeram na semana passada, a lista dos carros mais ou menos poluentes. Curioso é que só tenham tomado esta providência agora e para mostrar, segundo o estudo oficial contestado pelas montadoras, que os carros movidos a álcool poluem mais do que a gasolina. O que a Opep do pré-sal não faz...
Sarney e suas pérolas
Sarney cita o Le Monde em sua coluna da última sexta-feira na Folha de S.Paulo e parafraseia um "assessor de Sarkozy": "a transparência absoluta [em tempo real] é o começo do totalitarismo". Outra frase reproduzida por Sarney seria de "um membro do partido governista francês UMP": [a internet] "é um perigo para a democracia". Depois destas frases esclarecedoras, o autor de "Maribondos de Fogo" encerra o artigo louvando a livre imprensa e que nunca a atacaria: "Meu Deus, eu nunca fiz isto e não faria", encerra. Sarney é mesmo um vanguardista: mesmo antes da internet ele já via riscos à imprensa livre, não é mesmo? Afinal, o que fazia a ditadura militar pós-64 que ele tanto apoiou? Não censurava? Sarney é um visionário.
Lembrando Chico Ciência
Nesse tempo de tanta sapiência jurídica que emana do ministério da Justiça do ministro Tarso Genro, não custa lembrar o que Rubem Braga disse da sabedoria do jurista Francisco Campos, dito Chico Ciência, autor de obras jurídicas "republicanas" para Getúlio, o ditador: "Quando as luzes de Chico Ciência acendem, há um curto-circuito na democracia brasileira". Algumas "jurídicas" de Tarso são de assustar os republicanos (sem aspas).
Collor, Franklin e os escrúpulos
Franklin Martins foi condenado na semana passada a pagar R$ 50 mil ao eminente senador e ex-presidente cassado Fernando Collor de Mello, por danos morais. Martins proclamou em artigo publicado na revista "Brasília em Dia", que Collor era "ladrão", "corrupto" e "chefe de quadrilha". Martins diz que vai recorrer da decisão. Resta saber o que ele diz ao seu chefe sobre as alianças políticas que envolvem Collor.
Quem tem a força
É cada vez maior a influência de Franklin Martins. Já está causando uma danada de uma ciumeira. Vejam um trecho de um artigo da jornalista Maria Cristina Fernando, no "Valor Econômico", relatando os bastidores de uma entrevista do jornal com o presidente Lula: "Lula é aparteado pelo ministro Franklin Martins –"Não foram só os bancos públicos que quebraram. Os privados, também." - antes de responder que o problema não foi com os banco públicos, mas a irresponsabilidade política dos governantes." Não consta que haja muitos mortais capazes de apartear e interromper impunemente o presidente.
Dúvida cruel
Mais do presidente Lula ao jornal "Valor Econômico": "Se Dilma for eleita, ela tem todo direito de chegar em 2014 e falar 'eu quero a reeleição'. Se isso não acontecer, obviamente a história política pode ter outro rumo". É por esses e outros "ses" que alguns maldosos em Brasília costumam especular que Lula não ficaria totalmente infeliz se a sua favorita não vencesse.
Oposição sem falas
É triste verificarmos o padrão ético da política brasileira. É desesperador verificarmos que a corrupção e a falta de interesse na res publica é generalizada. O senador Sérgio Guerra acaba de ser condenado pelo TCU a pagar as diárias de sua filha na estadia em Nova York em janeiro de 2007. O presidente do Senado que autorizou a viagem do senador por Pernambuco e sua filhinha foi nada menos que Renan Calheiros. Todos os gatos são pardos e não somente à noite...
Quem encontrar, avise
Já fizemos o apelo, mas não custa renová-lo: quem souber o que as idéias que a oposição vai apresentar para disputar os votos do processo eleitoral com a candidata do governo, por favor, remeta as informações para esta coluna. Se o governo vacila, a oposição cala. E consente.
Serra acelera
Assessores de segundo escalão do governo paulista já estão sendo escalados e convocados para a campanha presidencial. Pouco a pouco os auxiliares diretos de Serra no governo paulista estão revelando as intenções efetivas do governador em relação aos planos de um possível próximo mandato federal.
Demanda e oferta de ações de bancos
Grandes bancos internacionais vão passar por uma nova fase nos próximos dois anos. Socorridos pelos governos de seus países, estes bancos trocaram capital por ações – são estatizações parciais. Mesmo com o socorro governamental, muitos dos bancos apresentam indicadores sofríveis de capitalização e liquidez. Precisam de mais capitalizações. Para isto muitos deles terão de emitir novas ações. Assim sendo, os investidores se defrontarão com uma forte pressão do lado da oferta: (i) possíveis vendas de posições dos governos (privatizações) e (ii) novas capitalizações. Haja demanda para tanto.
Pré-sal e Petrobras
Sabe-se que a estatal de petróleo do Brasil terá papel preponderante nos investimentos e na exploração da camada do pré-sal. O que está difícil de estimar é a influência destes investimentos nos resultados da empresa. Investir em ações da Petrobras se tornou muito mais arriscado que há pouco tempo.
Essa a Petrobras vai perder
São facilmente identificáveis as digitais da Petrobras nas emendas aos projetos do pré-sal que reduzem o poder a abrangência da nova estatal da área, a Petro-Sal. Não vai vingar. Nos bastidores, antes de nascer, a nova estatal já está sendo devidamente loteada pela base, dita aliada.
Tudo pelo social
A idéia de se utilizar os ganhos do petróleo na execução de projetos sociais não é nada nova. Países (dentre muitos) como o México, a Nigéria e até mesmo a Arábia saudita já usaram o padrão ideológico "petróleo versus menos pobreza". Recentemente, o falastrão Chávez vem utilizando o argumento político, politiqueiro e populista. A discussão da exploração da camada pré-sal brasileira também passará por este tema. Em tempo: os resultados concretos deste falatório todo nos outros países foram, no geral, desastrosos. Os pobres continuaram pobres, mesmo que tenha jorrado petróleo por todos os lados!
Hino à Negritude
Foi aprovado pela Câmara o "Hino à Negritude", de autoria do professor Eduardo de Oliveira. O projeto que oficializou a homenagem ao negro é de autoria do deputado Vicentinho do PT paulista. Foi rejeitada a exigência da obrigatoriedade de sua execução nas cerimônias comemorativas. Esta exigência foi considerada pela maioria dos deputados como sectária na medida em que criaria uma "divisão" entre brancos e negros. Depois das complicadas quotas raciais nas universidades, agora temos o hino ao negro. Será que copiaremos os norte-americanos e teremos agora de dizer "afro-brasileiros", "nipo-brasileiros" e assim por diante?
Mudança de ramo
A Força Sindical que um dia se pretendeu uma entidade totalmente independente está em um novo negócio. Depois de engordar seus cofres com parte do dinheiro do Imposto Sindical em troca do amaciamento de suas reivindicações, depois de se meter no BNDES e depois de apropriar-se do controle dos recursos do FAT, a Força Sindical agora se voltou para o pano verde. Seu presidente, Paulinho da Força, foi um dos principais artífices da aprovação, na CCJ da Câmara, do projeto que legaliza os bingos e os caça-níqueis no Brasil. É uma porta aberta ao crime organizado e ao caixa dois. Talvez, estes sejam grandes "investidores eleitorais".
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( Por José Márcio Mendonça e Francisco Petros)
Todos os sinais vitais da economia brasileira convergem para um crescimento consistente nos próximos meses e, quiçá, em 2010 o PIB pode vir a crescer entre 5% - 6%. Obviamente, previsões econômicas são sempre marcadas por elevados graus de incerteza, sobretudo em função da rapidez e profundidade pelas quais as expectativas se alteram nos tempos modernos. Os indicadores de consumo, divulgados na semana passada, somam-se aos indicadores anteriores (inclusive o crescimento do PIB de 1,7% no segundo trimestre) e dão evidências de que o PIB será positivo este ano e o grau de aceleração da demanda agregada é acelerado. A novidade que poderemos ter (esperamos !) é uma alta dos investimentos privados que foram paralisados por conta da crise. Os orçamentos empresariais estão sendo superados e os acionistas das empresas estão animados. Além disto, não são poucos os executivos de empresas multinacionais que tomam o caminho das matrizes e estão a negociar mais dinheiro para investir.
Inflação em alta
Não preste atenção nos números da inflação dos próximos meses. Estes não são os mais importantes para mensurar os riscos de inflação no médio prazo. É muito provável que a inflação se torne um perigoso risco no ano que vem. Todos os fatores convergem para o aumento dos riscos inflacionários. Vejamos: (1) a demanda cresce rapidamente e, possivelmente em meados do ano que vem, baterá num nível de capacidade instalada (80%) no qual as pressões de custos costumam emergir; (2) a queda do dólar já ocorreu e é improvável que possa "colaborar" ainda mais para reduzir a inflação no ano que vem; (3) à demanda privada crescente se somará a já alta demanda pública. Os gastos públicos elevados, tanto para investimento quanto para consumo, vão ajudar a acelerar a inflação. Difícil imaginar gastos públicos em queda num ano eleitoral; (4) haverá pressões de custos salariais com o nível de emprego melhorando e, finalmente, (5) se o cenário externo melhorar, os preços das commodities sobem e "contaminam" os preços domésticos.
E o BC?
Como se vê nas notas acima, há razões justificadas para apostarmos num ótimo 2010. E existem preocupações sérias para acreditarmos numa inflação crescente. Vejamos o lado da autoridade monetária, que costuma ser "preventiva". Quando poderia aumentar a taxa de juros básica, já que estamos vivendo os primeiros passos da recuperação ? É difícil apostar nisto, mas uma coisa é certa : o mercado vai apostar na alta de juros e os juros dos títulos prefixados vão subir, bem como o mercado futuro. Talvez logo. De outro lado, há um fator "político" a influir no BC : Henrique Meirelles é candidatíssimo ao governo de Goiás e abre um "vácuo" no BC difícil de ser avaliado. A própria diretoria do BC deve ser bem alterada em 2010. Por tudo isto é muito provável que o BC seja testado em 2010 no que diz respeito à sua competência e credibilidade.
BC independente não tem defensores
Embora seja um dos arcabouços mais importantes na defesa da moeda (contenção da inflação), a independência do BC não deve ter defensores com peso político (e votos) nas próximas eleições. Tanto Dilma quanto Serra, ou mesmo Marina, não acreditam num BC com independência funcional. Tudo fica para o futuro. Distante, diga-se.
Ajuste eleitoral
Quem leu a entrevista da ministra Dilma Roussef à "Folha de S.Paulo" de domingo percebeu que o PAC não é mais o principal carro-chefe eleitoral da preferida de Lula. Agora é o pré-sal e os programas sociais.
É especulação demais
Não se deve comprar pelo valor de face um bom número de "informações" a respeito da sucessão presidencial dando conta de que (i) já houve um acerto de uma aliança, (ii) que dois candidatos firmaram um acordo, (iii) que um partido está prestes a firmar outra aliança e coisas tais. São lances para "valorizar passes".
Quem confia no PMDB?
O PMDB que quer apoiar Dilma iniciou uma cruzada para levar Lula a definir logo, publicamente (quem sabe, até oficialmente), que o partido é prioritário na aliança situacionista e que a vice-presidência será dele. Ao mesmo tempo, porém, o PMDB não dá indicações de que pode definir logo sua aliança federal com o PT.
Quem confia no PT?
O PMDB que é do governo Federal somente vai definir oficialmente o apoio a Dilma depois que as alianças estaduais com o PT estiverem fechadas.
Voto regional é diferente
A se confirmar a aliança PT-PMDB para apoiar Dilma e fazer o máximo de "palanques únicos" para a candidata de Lula, o PMDB poderá levar uma enorme vantagem sobre o PT se o acordo for celebrado como o partido quer. O PMDB quer prioridade nos palanques estaduais. São esses palanques que determinam os votos para o Senado e, principalmente, para a Câmara. O eleitor vota com uma cabeça para a presidência e com outra completamente diferente no seu Estado, de olho em outros interesses. O PT corre o risco de ganhar a presidência da República e ficar menor do que é hoje no Congresso.
Marina e os "processos cumulativos"
Não se sabe se alguém no Planalto leu e comentou com Lula este trecho da entrevista da ex-ministra Marina Silva ao diário espanhol El País.
El País: A senhora manteria a política econômica do governo Lula?
Marina: Os processos são acumulativos. Não existe espaço para processos niilistas com relação ao já conquistado. Existe um reconhecimento de que nos últimos 16 anos o Brasil conseguiu o equilíbrio fiscal e a estabilização da moeda, junto com a grande inovação introduzida por Lula e que foi a questão da distribuição de renda. Tudo deve ser preservado. Creio que temos espaços para melhorar e já existe o perigo de que se destrua tudo o que se foi construindo nos últimos 16 anos.
Se os leitores palacianos tiveram conhecimento, coitada da senadora! Afinal, tudo de bom no Brasil não ocorreu depois de 2002? Como falar em 16 anos, se Lula está apenas há pouco menos de 7 anos em Brasília?
Simpatia ambiental
Ainda na mesma edição, em artigo sobre a entrada de Marina na corrida sucessória, na matéria intitulada "A companheira que desafiou Lula", os repórteres J. Arias e S. Gallego-Diaz, do El País, classificam a candidata de Lula, Dilma Roussef, como "uma espécie de primeira-ministra na sombra". O conjunto das matérias é muito simpático com a ambientalista.
Qual o discurso?
Que "coletinho" o Brasil vestirá na Conferência do Clima em dezembro em Copenhague? O do pré-sal ou o do etanol? Vocês já repararam que desde que virou um "futuro magnata do petróleo", Lula nunca mais fez uma referência aos biocombustíveis? Há informações – efeito Marina? – que o presidente abordará o tema do meio ambiente em sua fala amanhã na Assembleia Geral da ONU.
Obama é verde
Um dos mais ambiciosos programas para o futuro de Obama é a redução da dependência dos EUA de combustíveis fósseis, não apenas do petróleo do Oriente Médio. Na Inglaterra – e na Europa, em geral – o tema do momento é a "Revolução Verde".
Muito estranho
É ótimo que as autoridades de meio ambiente se preocupem com a emissão de gases poluentes pelos veículos automotivos. É saudável que divulguem, como o fizeram na semana passada, a lista dos carros mais ou menos poluentes. Curioso é que só tenham tomado esta providência agora e para mostrar, segundo o estudo oficial contestado pelas montadoras, que os carros movidos a álcool poluem mais do que a gasolina. O que a Opep do pré-sal não faz...
Sarney e suas pérolas
Sarney cita o Le Monde em sua coluna da última sexta-feira na Folha de S.Paulo e parafraseia um "assessor de Sarkozy": "a transparência absoluta [em tempo real] é o começo do totalitarismo". Outra frase reproduzida por Sarney seria de "um membro do partido governista francês UMP": [a internet] "é um perigo para a democracia". Depois destas frases esclarecedoras, o autor de "Maribondos de Fogo" encerra o artigo louvando a livre imprensa e que nunca a atacaria: "Meu Deus, eu nunca fiz isto e não faria", encerra. Sarney é mesmo um vanguardista: mesmo antes da internet ele já via riscos à imprensa livre, não é mesmo? Afinal, o que fazia a ditadura militar pós-64 que ele tanto apoiou? Não censurava? Sarney é um visionário.
Lembrando Chico Ciência
Nesse tempo de tanta sapiência jurídica que emana do ministério da Justiça do ministro Tarso Genro, não custa lembrar o que Rubem Braga disse da sabedoria do jurista Francisco Campos, dito Chico Ciência, autor de obras jurídicas "republicanas" para Getúlio, o ditador: "Quando as luzes de Chico Ciência acendem, há um curto-circuito na democracia brasileira". Algumas "jurídicas" de Tarso são de assustar os republicanos (sem aspas).
Collor, Franklin e os escrúpulos
Franklin Martins foi condenado na semana passada a pagar R$ 50 mil ao eminente senador e ex-presidente cassado Fernando Collor de Mello, por danos morais. Martins proclamou em artigo publicado na revista "Brasília em Dia", que Collor era "ladrão", "corrupto" e "chefe de quadrilha". Martins diz que vai recorrer da decisão. Resta saber o que ele diz ao seu chefe sobre as alianças políticas que envolvem Collor.
Quem tem a força
É cada vez maior a influência de Franklin Martins. Já está causando uma danada de uma ciumeira. Vejam um trecho de um artigo da jornalista Maria Cristina Fernando, no "Valor Econômico", relatando os bastidores de uma entrevista do jornal com o presidente Lula: "Lula é aparteado pelo ministro Franklin Martins –"Não foram só os bancos públicos que quebraram. Os privados, também." - antes de responder que o problema não foi com os banco públicos, mas a irresponsabilidade política dos governantes." Não consta que haja muitos mortais capazes de apartear e interromper impunemente o presidente.
Dúvida cruel
Mais do presidente Lula ao jornal "Valor Econômico": "Se Dilma for eleita, ela tem todo direito de chegar em 2014 e falar 'eu quero a reeleição'. Se isso não acontecer, obviamente a história política pode ter outro rumo". É por esses e outros "ses" que alguns maldosos em Brasília costumam especular que Lula não ficaria totalmente infeliz se a sua favorita não vencesse.
Oposição sem falas
É triste verificarmos o padrão ético da política brasileira. É desesperador verificarmos que a corrupção e a falta de interesse na res publica é generalizada. O senador Sérgio Guerra acaba de ser condenado pelo TCU a pagar as diárias de sua filha na estadia em Nova York em janeiro de 2007. O presidente do Senado que autorizou a viagem do senador por Pernambuco e sua filhinha foi nada menos que Renan Calheiros. Todos os gatos são pardos e não somente à noite...
Quem encontrar, avise
Já fizemos o apelo, mas não custa renová-lo: quem souber o que as idéias que a oposição vai apresentar para disputar os votos do processo eleitoral com a candidata do governo, por favor, remeta as informações para esta coluna. Se o governo vacila, a oposição cala. E consente.
Serra acelera
Assessores de segundo escalão do governo paulista já estão sendo escalados e convocados para a campanha presidencial. Pouco a pouco os auxiliares diretos de Serra no governo paulista estão revelando as intenções efetivas do governador em relação aos planos de um possível próximo mandato federal.
Demanda e oferta de ações de bancos
Grandes bancos internacionais vão passar por uma nova fase nos próximos dois anos. Socorridos pelos governos de seus países, estes bancos trocaram capital por ações – são estatizações parciais. Mesmo com o socorro governamental, muitos dos bancos apresentam indicadores sofríveis de capitalização e liquidez. Precisam de mais capitalizações. Para isto muitos deles terão de emitir novas ações. Assim sendo, os investidores se defrontarão com uma forte pressão do lado da oferta: (i) possíveis vendas de posições dos governos (privatizações) e (ii) novas capitalizações. Haja demanda para tanto.
Pré-sal e Petrobras
Sabe-se que a estatal de petróleo do Brasil terá papel preponderante nos investimentos e na exploração da camada do pré-sal. O que está difícil de estimar é a influência destes investimentos nos resultados da empresa. Investir em ações da Petrobras se tornou muito mais arriscado que há pouco tempo.
Essa a Petrobras vai perder
São facilmente identificáveis as digitais da Petrobras nas emendas aos projetos do pré-sal que reduzem o poder a abrangência da nova estatal da área, a Petro-Sal. Não vai vingar. Nos bastidores, antes de nascer, a nova estatal já está sendo devidamente loteada pela base, dita aliada.
Tudo pelo social
A idéia de se utilizar os ganhos do petróleo na execução de projetos sociais não é nada nova. Países (dentre muitos) como o México, a Nigéria e até mesmo a Arábia saudita já usaram o padrão ideológico "petróleo versus menos pobreza". Recentemente, o falastrão Chávez vem utilizando o argumento político, politiqueiro e populista. A discussão da exploração da camada pré-sal brasileira também passará por este tema. Em tempo: os resultados concretos deste falatório todo nos outros países foram, no geral, desastrosos. Os pobres continuaram pobres, mesmo que tenha jorrado petróleo por todos os lados!
Hino à Negritude
Foi aprovado pela Câmara o "Hino à Negritude", de autoria do professor Eduardo de Oliveira. O projeto que oficializou a homenagem ao negro é de autoria do deputado Vicentinho do PT paulista. Foi rejeitada a exigência da obrigatoriedade de sua execução nas cerimônias comemorativas. Esta exigência foi considerada pela maioria dos deputados como sectária na medida em que criaria uma "divisão" entre brancos e negros. Depois das complicadas quotas raciais nas universidades, agora temos o hino ao negro. Será que copiaremos os norte-americanos e teremos agora de dizer "afro-brasileiros", "nipo-brasileiros" e assim por diante?
Mudança de ramo
A Força Sindical que um dia se pretendeu uma entidade totalmente independente está em um novo negócio. Depois de engordar seus cofres com parte do dinheiro do Imposto Sindical em troca do amaciamento de suas reivindicações, depois de se meter no BNDES e depois de apropriar-se do controle dos recursos do FAT, a Força Sindical agora se voltou para o pano verde. Seu presidente, Paulinho da Força, foi um dos principais artífices da aprovação, na CCJ da Câmara, do projeto que legaliza os bingos e os caça-níqueis no Brasil. É uma porta aberta ao crime organizado e ao caixa dois. Talvez, estes sejam grandes "investidores eleitorais".
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( Por José Márcio Mendonça e Francisco Petros)
terça-feira, 22 de setembro de 2009
FRANCISCO DE ALMEIDA - ARTISTA POR NATUREZA
O artista cearense Francisco de Almeida é um dos destaques da VII Bienal do Mercosul, com uma gravura de 20 metros de comprimento.
Homem simples, sorriso largo e aparência frágil, mas, sobretudo, grande em sua arte. Francisco de Almeida é um ser raro de se encontrar, tão pura e bondosa é sua alma. Confesso que, se pudesse, guardaria-o dentro de um vidrinho, protegendo de todos os males, para que não se perca na vastidão do mundo...
Quando a porta do apartamento 602, do prédio Copacabana, abriu para eu entrar, surpreende-me com uma simpática figura: boné virado para trás, macacão branco de alças soltas, camiseta amarelada e pés descalços. O artista Francisco de Almeida sorria feito uma criança, movendo os braços e contraindo os olhos de alegria. Assim, apressava-se em dizer- me: "por favor, moça, vamos entrando". Um afetuoso aperto de mão vem logo em seguida.
Na casa tudo respira arte, tudo ressoa Francisco. Nas paredes, encontram-se suspensos quadros e matrizes xilográficas trabalhadas por ele. Próximo ao sofá, num cantinho bem no "pé da parede", uma Iemanjá de gesso nos espreita discretamente, dividindo espaço com outras santidades: um cordial Padre Cícero, uma linda Nossa Senhora de Fátima e um triste São Sebastião traspassado por uma flecha. Percebendo meu interesse pelas imagens, ressalta: "sou muito religioso".
A sala é adornada também por fotografias dos três grandes amores da vida do artista: a avó "Mizinha", de 95 anos, a esposa Maria Eugênia e a pequena Talita, sua única sobrinha. A garota, cujo nome significa "cordeirinha", é como uma filha para ele.
VÔOS ALTOS
De pai ourives, mãe bordadeira e avó rendeira, Francisco herdou o dom de tecer a arte com as mãos. Ainda menino em Crateús (sua cidade natal), localizada no sertão dos Inhamuns, ele gostava de observar o trabalho do pai. "Sempre ia à oficina dele e adorava mexer em todas aquelas ferramentas. Papai ficava danado da vida quando entrava lá, não gostava que mexessem em suas coisas".
O garoto que tinha como sonho aprender a desenhar gente, aos 15 anos veio morar em Fortaleza. Na cidade, teve a oportunidade de estudar xilogravura com Sebastião de Paula, realizando, em seguida, vários cursos de pintura no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará. "Daquele tempo para cá não parei mais. Venho produzindo obras de todos os formatos e tamanhos", diz.
Inclusive, as alegorias e o interesse por trabalhos de grandes formatos são algumas das características desse artista, cujas obras estão guardadas em acervos importantes do País, como o da Pinacoteca, em São Paulo, e o Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar.
Trabalhando com xilogravuras extensas, Almeida está constantemente reinventando as próprias ferramentas, linguagens e métodos de gravação. Desde 2004, dedica-se à pesquisa de uma xilogravura fragmentada, que impede a repetição de uma mesma combinação, permitindo, portanto, infinitas formas de fazer um dado trabalho com uma única matriz. Fato que se opõe à produção mais convencional.
Para o artista, a xilogravura é uma técnica fascinante de onde se emergem inúmeras possibilidades. "A xilo é toda infinita. Fantástica! Todo trabalho é uma surpresa, porque a gente só vai saber como vai ficar depois que se termina a obra. A minha pesquisa é algo ainda inacabado, porém tenho o maior prazer de mostrá-la ao público. Por meio dela, vou ajudar outros artistas a produzir gravuras de grande porte e contribuir com a cultura cearense", afirma.
BIENAL DO MERCOSUL
Em suas investigações, Francisco criou uma espécie de equipamento feito com canos de PVC, madeira, corrente e coroa de bicicleta, do qual é possível produzir grandes gravuras. Através dele, elaborou o painel "Os quatro elementos" de 20 metros de comprimento, que marcará sua presença na VII Bienal do Mercosul , a ser realizada entre os dias 16 de outubro e 29 de novembro, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Não há notícias de outra gravura com essas dimensões no País. O artista plástico confecciona um feito inédito. No painel, é tratada a temática religiosa nordestina, enfatizando a chuva, o sol, o vento e a terra. Parte da obra é colorida e contém a utilização de grafite.
"Desde o início, quando Laura Lima (uma das curadoras da bienal) soube da minha pesquisa e me pediu para produzir o painel, foi um grande desafio, pois tudo era ainda incipiente, mas resolvi fazer. Fiquei quase nove meses sem sair de casa, trabalhando direto, isso é muita luz divina. Eu e a obra estávamos tão afinados, que domingo acordei 5 horas da manhã para ver se precisava fazer alguns retoques.
Ao olhá-la, era como se ela falasse para não a tocar mais. Nem coloquei a minha assinatura", revela Francisco sobre os último momentos com o trabalho, feito especialmente para a VII Bienal do Mercosul. Ao retornar do evento, está prevista a exposição da obra de Almeida em 20 seções por diferentes pontos da cidade.
Concluindo a reflexão, o artista diz: "Foi tudo tão intenso, que mesmo com as mãos lesionadas pelo esforço excessivo, chegando mesmo a colocar gelo para conter o inchaço e a dor, aproveitava da dormência das mãos provocadas pelo frio, para continuar a trabalhar. Depois dessa experiência posso dizer que sou outro homem, agora mais leve".
FIQUE POR DENTRO
BIENAL DO MERCOSUL, DIÁLOGO COM O MUNDO
Criada em 1996, a Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, com sede em Porto Alegre (RS), é uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos, dedicada à preparação e à realização das mostras e eventos que constituem as Bienais do Mercosul. O evento coloca o Brasil como referência internacional nas artes visuais. Além de promover a integração dos países que fazem parte do Mercosul por meio da arte e promover a arte latino-americana como um todo, a iniciativa oportuniza o acesso à cultura e à arte a milhares de pessoas. Em doze anos de existência, a Fundação Bienal do Mercosul realizou seis edições da mostra de artes visuais, somando 399 dias de exposições abertas ao público, 50 diferentes exposições, 3.616.556 visitas, acesso franqueado, 919.723 agendamentos escolares, 165.229 m² de espaços expositivos preparados, áreas urbanas e edifícios redescobertos e revitalizados, 3.131 obras expostas, intervenções urbanas de caráter efêmero e 16 obras monumentais deixadas para a cidade, 128 patrocinadores e apoiadores ao longo da história, participação de 923 artistas, mais de mil empregos diretos e indiretos gerados por edição, além de seminários, palestras, oficinas, curso para professores, formação e trabalho como mediadores para 1.048 jovens. A Diretoria e os Conselhos de Administração e Fiscal da Fundação Bienal do Mercosul atuam de forma voluntária.
Fonte: http://www.fundacaobienal.art.br/
ANA CECÍLIA SOARES
REPÓRTER
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Almeidinha me brindou com uma de suas premiadas obras, O DONO DO TEMPO, para enfeitar a capa do meu livro Amores e Clamores da Cidade, no qual está inserida a seguinte crônica:
ALMEIDINHA
Apesar do proselitismo agnóstico, apesar de vozes respeitáveis noticiarem a inexistência de Deus, afirmo que cada vez mais acredito na regência de um Ser Superior sobre os atos da existência humana.
Basta nos determos nesse incrível paradoxo: a parafernália eletrônica produzida pela expansão tecnológica – que aparentemente sinaliza um triunfo do materialismo - só prolifera porque os cientistas acreditam em algo imaterial. Quem inventou um aparelho de fax, por exemplo, só prosseguiu no intento porque tinha fé na migração energética que possibilita uma transmissão exitosa além-matéria.
Nas palavras de Deepak Chopra, “a conclusão fundamental dos estudiosos do campo quântico é que a matéria-prima do mundo não é material, as coisas essenciais do universo são não-coisas. Toda a nossa tecnologia baseia-se nesse fato, que faz cair por terra a atual superstição do materialismo”.
Não fosse isso, como poderíamos explicar determinados fenômenos humanos que se nos apresentam envoltos num manto de mistério? A história registra o caso, por exemplo, de uma mulher, doente mental, casada com um homem desequilibrado em todos os sentidos. Alcoólatra e desocupado, estava longe de ser pai modelar ou marido referencial. Esse casal, no entanto, teve quatro filhos: o primeiro, doente mental; o segundo, paralítico; o terceiro, acometido de outra enfermidade séria; o quarto também deficiente. Mesmo com todo esse histórico de tragédia, a mulher estava grávida pela quinta vez. E esse quinto filho, que tudo apontaria para ter também uma vida desventurada, foi Ludwung Van Beethoven, um dos maiores gênios musicais da humanidade.
É de casos como esse que me lembro quando miro a existência dura e desafiadora, simultaneamente dolorosa e portentosa de Francisco de Assis Rodrigues de Almeida, notabilizado Francisco de Almeida ou, simplesmente, Almeidinha. Nascido em Crateús entre as manjedouras da pobreza, tinha tudo para engrossar as fileiras do exército dos excluídos na mecânica perversa que orienta a nossa sociedade desigual. Pequeno na estatura, frágil na estrutura - revelou-se, no entanto, um gigante na desenvoltura. Desafiando céus e terra, em especial um problema neurológico que atrofia sua musculatura, Almeidinha empreendeu uma viagem fabulosa à auto-afirmação, protagonizando uma ascensão vertiginosa no mundo das artes e firmando-se como o mais talentoso nome da xilogravura cearense. Não é apenas um artista extraordinário, é um ser humano formidável que, de cada poro do corpo e da alma, exala a alegria de viver, o prazer da simplicidade, a essência do humano.
Quando criança alimentava o sonho de pintar o cartaz de cinema da sua urbe. Dirigia-se à porta do Cine Poty (nome também do rio da cidade) e detinha-se contemplando a pintura dentro da moldura de vidro. Admirava, à época, o trabalho do senhor João Batista, um pintor que morava às margens do rio e era o seu ídolo. O tempo passou, o cinema fechou, mas o sonho artístico continuava aberto no coração de Almeidinha. Contra a vontade do senhor Manuel Almeida Sobrinho e da dona Terezinha Rodrigues de Almeida, seus pais, resolveu ir para Fortaleza. Após ralar muito, escalou a montanha do sucesso e pisou os píncaros da glória. É um mago da culinária e da xilogravura. Da mesma forma que inventa novos pratos, misturando temperos inéditos, também brinca com as telas, misturando misticismo e crendices populares, pedras coloridas e astros-reis, pedaços de madeira e carvão, num inimaginável baile de magia e luz.
O que mais o orgulha, no entanto, não é o incontestável fato de ser o mais premiado gravador do Ceará, tendo suas telas sido exibidas nos mais importantes acervos do País e recebido aplausos na Argentina e na Europa. O que mais o orgulha é ter conhecido a fome, a sede e o frio de perto...
Um cancioneiro introvertido, português multivital, chamado Fernando Pessoa, dizia: “Tenho em mim todos os sonhos do mundo”. E um outro ser transcendental, o poeta chileno Pablo Neruda, afirmou que “o poeta vive todas as vidas do mundo”.
Almeidinha, um biocrata de marca maior, grava em suas telas toda a pulsação do planeta. É um filho do sorriso, um sujeito de festa, um caboclo danado, um cabra da peste, um menino do bem. Merece um lugar no frontispício dos iluminados. É GENTE DE AÇÃO!
(Júnior Bonfim)
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Olá Júnior,
Francisco de Almeida, sem dúvidas, é um artista que orgulha muito o nosso Ceará.
Ceará este, que muitas das vezes pena com a escassez das águas, mas transborda e inunda seu território com os valores que brotam do seu chão.
O texto de Ana Cecília Soares é maravilhoso, retratou bem o artista e me comoveu.
E você Júnior, fruto desta terra, advogado, poeta e escritor é também um excelente divulgador de nossa cultura e de nossa gente.
Sou feliz em ter encontrado você neste mundo virtual, sou agradecida pela divulgação que você faz do meu trabalho e mais contente fico, pois neste mundão real somos conterrâneos.
Saudações Cearenses!
Dalinha Catunda
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
PRIMAVERA E SONHOS

É começo de primavera
E um vento começa a bater,
Levemente em meu corpo,
E eu penso logo em você.
É o recomeço dos sonhos,
Que não devem se perder,
Nas amarras que existem,
Entre o meu e o seu querer.
É a esperança brotando,
Feito o botão de uma flor.
É o futuro querendo,
O que o passado negou.
(Por Dalinha Catunda)
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A Primavera é a estação do ano que se segue ao Inverno e precede o Verão. É tipicamente associada ao reflorescimento da flora e da fauna terrestres.
A Primavera do hemisfério norte é chamada de "Primavera boreal", e a do hemisfério sul é chamada de "Primavera austral". A "Primavera boreal" tem início, no Hemisfério Norte, a 20 de Março e termina a 21 de Junho. A "Primavera austral" tem início, no Hemisfério Sul, a 23 de Setembro e termina a 21 de Dezembro.
Do ponto de vista da Astronomia, a primavera do hemisfério sul inicia-se no equinócio de Setembro e termina no solstício de Dezembro, no caso do hemisfério norte inicia-se no equinócio de Março e termina no solstício de Junho.
Como se constata, no dia do equinócio o dia e a noite têm a mesma duração. A cada dia que passa, o dia aumenta e a noite vai encurtando um pouco, aumentando, assim, a insolação do hemisfério respectivo.
Estas divisões das estações por equinócios e solstícios poderão ser fonte de equívocos, mas deve-se levar em conta a influência dos oceanos na temperatura média das estações. Na Primavera do hemisfério sul, os oceanos meridionais ainda estão frios e vão aos poucos aquecendo, fazendo a Primavera ter temperaturas amenas ao longo da estação
(WiKipédia)
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Olá Júnior,
Obrigada por postar meu poema e também por postar esta aula sobre as estações do ano.
E lembrar também, que hoje é o dia da árvore e a sua preservação é de grande importância.
Um abraço,
Dalinha
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