
Este espaço se quer simples: um altar à deusa Themis, um forno que libere pão para o espírito, uma mesa para erguer um brinde à ética, uma calçada onde se partilhe sonho e poesia!
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
domingo, 25 de dezembro de 2011
DO NASCIMENTO DE JESUS - por ANA, A MÃE DE MARIA - na pena de Gibran Khalil Gibran

Jesus, o filho de minha filha, nasceu aqui em Nazaré, no mês de janeiro. E na noite em que Jesus nasceu, fomos visitados por homens do Oriente. Eram persas que vinham do Estraelon a caminho do Egito. E como não conseguiram lugar nas hospedarias, buscaram refúgio em nossa casa.
E eu lhes dei as boas vindas e disse-lhes: “Minha filha deu a luz um filho esta noite. Confio que me perdoeis se não vos servir como convém a uma boa hospedaria”.
E eles agradeceram a hospitalidade. E depois da ceia, disseram-me: “Gostaríamos de ver o recém-nascido”.
O filho de Maria era bonito, e ela também era formosa.
E quando os persas viram Maria e seu bebê, tiraram ouro e prata de seus sacos, e mirra e incenso, e puseram-no aos pés da criança.
Depois, prosternaram-se e rezaram num idioma estranho que não compreendemos.
E quando os conduzi ao seu quarto de dormir, andavam como que assombrados com o que tinham visto.
Ao amanhecer, despediram-se e seguiram para o Egito.
Mas, antes de partir, falaram-me e me disseram: “A criança tem apenas um dia, porém vimos a luz de nosso Deus nos Seus olhos e o sorriso de nosso Deus nos Seus lábios. Rogamos-lhe protegê-Lo a fim de que vos proteja a todos”.
Dito isto, subiram nos seus camelos, e não os vimos mais.
E Maria não parecia tão feliz com seu primeiro filho quanto cheia de deslumbramento e de surpresa.
Contemplava-O longamente, e depois virava a face para a janela e fixava seu olhar ao longe no céu como se estivesse vendo visões.
E havia vales entre seu coração e o meu.
E a criança cresceu em corpo e em espírito, e era diferente das outras crianças. Era solitário e difícil de dirigir, e eu não podia ter mão Nele.
Mas em Nazaré todos O amavam, e no meu coração sabia por quê. Muitas vezes levava nossa comida e a oferecia aos transeuntes. E distribuía a outras crianças os doces que Lhe havia dado, sem prová-los sequer.
Escalava as árvores do meu pomar para colher frutas, mas nunca as comia.
E disputava corrida com as outras crianças, mas como era ligeiro, atrasava-se de propósito para deixá-las atingir o alvo antes Dele.
E, às vezes, quando O punha na cama, dizia-me: “Dize à minha mãe e aos outros que somente meu corpo dormirá. Meu espírito estará com eles até que seus espíritos venham para meu amanhecer”.
E muitas outras palavras assombrosas, Ele dizia em sua infância, mas já estou muito velha para me recordar.
Agora, dizem-me que não O verei mais. Mas como acreditar no que dizem?
Continuo a ouvir Seu riso e o barulho de Suas correrias na minha casa. E todas as vezes que beijo a face de minha filha, Sua fragrância volta ao meu coração, e parece-me que Seu corpo está nos meus braços.
Mas não é estranho que minha filha nunca me fale de seu primogênito?
Às vezes, parece que minha saudade Dele é maior que a dela.
Ela permanece firme perante os dias como se fosse uma imagem de bronze, enquanto meu coração se derrete e corre em rios. Talvez ela saiba o que não sei. Pudesse ela contar-me o que sabe.
(Gibran Khalil Gibran, no livro JESUS, O Filho do Homem)
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