sábado, 13 de maio de 2017

BELCHIOR


Notícias há que nos abalam as colunas d’alma, fazem lacrimejar os olhos do coração, emudecem os lábios do espírito...

A partida de Belchior foi uma delas. Melhor: Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Ou, como ele, sorridente, gostava de dizer: o maior nome da Música Popular Brasileira. Brincadeiras à parte, trata-se realmente do mais alado e elevado letrista germinado no Brasil dos últimos cinquenta anos.

Como Robert Allen Zimmerman, o Bob Dylan, ele inseriu nas partituras da MPB um idioma diferenciado, com novos contornos de expressão poética.

O seu amigo e contemporâneo Guilherme Arantes bem pontuou: “Belchior, que eu não canso de homenagear de todas as maneiras, foi e sempre será o melhor letrista de canções transformadoras que já existiu. Uma mente privilegiada em cultura e de talento cortante e visceral”.

Porém, não era apenas a sua inventividade apocalíptica, a floração de versos com mensagens revolucionárias, que me impressionava. Era, sobretudo, sua capoeira de sensibilidade, sua profunda ternura para com a singeleza, sua paixão para revestir com charme e elegância as situações mais simples. Em seu primeiro grande sucesso, Mucuripe, ele já sinalizava essa capacidade extraordinária ao revelar que, mirando o paletó de linho branco, via, antes, a flor do algodão: “Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo ainda era flor” ...

O ex-seminarista, que também perambulou no campus da Faculdade de Medicina e, depois, divagou pelos pátios da Filosofia, carregava no mais íntimo de si mesmo aquela inquietude particular dos reitores do espírito, dos enamorados da sabedoria, dos garimpeiros de asas, dos mineradores de sonhos.

Era temerário, assaz temerário imaginarmos que ele seguisse a saga dos iguais, o roteiro dos comuns, a trilha dos mortais. Eis o óbvio: um homem que imaginava serem seus os braços que se abrem no Corcovado jamais se quedaria conformado às injustiças mundanas, à engrenagem perversa desse mecanismo inexplicável do massacre de uma alma humana por outra humana alma. A barbárie das relações, o embrutecimento do cotidiano, o império da força feriram profundamente a camada mais sensível da sua pele poética. Com efeito, ‘mais angustiado que um goleiro na hora do gol’, ele constatou que ‘veio o tempo negro e, à força’, fez com ele ‘o mal que a força sempre faz’.

Mesmo assim, resolveu ‘viver a Divina Comédia Humana, onde nada é eterno’. Para os que diziam que estava vendo estrelas, ou que perdera o senso, resolveu afirmar que ‘enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto’.

E o menino – ‘alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais’, que ‘adoçava o pranto no bagaço de cana do engenho’, criado entre ‘galos, noites e quintais’ - resolveu nos falar não das coisas que aprendeu nos discos, mas de como viveu e tudo o que lhe aconteceu. Desiludido com os ídolos, que ainda são os mesmos, desenganado com as aparências, que não enganam mais, proclamou que ‘viver é melhor que sonhar’ e confessou sua profunda dor: ‘saber que, apesar de termos feito tudo, tudo, tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais’.

Certamente, por tudo isso é que Belchior escolheu os últimos outubros de sua caminhada terrestre para viver como havia iniciado seus passos da juventude: enclausurado. Na aurora da vida, pensava em se entregar à clausura teológica; no crepúsculo, à clausura filosófica. Em ambas pedras pensativas se destacava o mesmo diamante, a mesma fulgurância verdadeira: o mineral da complicação, a esmeralda labiríntica, o magnetismo do surreal!

Como Franz Kafka, o maior escritor Tcheco, que só recebeu a coroa da glória após a morte, Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes foi batizado para viver a sina do sucesso póstumo.

No nosso cancioneiro alguns reis magos da composição conseguiram a façanha de nos presentear com melodias bonitas, nas quais reluzem o ouro da filosofia, o incenso da profundidade e a mirra da reflexão. São profetas que nos apontam a estrela de um outro Reino. Suas músicas se incorporaram às partituras do nosso platô mais altruísta. Da clausura, a luz de Belchior ilumina todos eles.



DIDEUS SALES – POETA DE TERRA E LUZ!

As águas de abril nos trouxeram Dideus Sales, um poeta de terra e luz nascido no segundo dia do quarto mês do ano. O poeta da emoção, que realizou a façanha de unir mar e sertão, é um confeccionador de asas poéticas em formato de flor e companheiro de lavra no roçado civilizatório do amor! Quando o calendário avisa que é o seu aniversário, os amigos são silenciosa e invisivelmente convocados para a celebração vital. Este ano, não sem resmungos lamentosos, não saboreie a fruta da amizade comemorativa. É uma doce rotina, como rotina também é o momento em que nos abre um novo livro, cuja soma JÁ ultrapassa mais de duas dezenas. É... Rotina... Porém, a retina da rotina não há que ter necessariamente um veio pejorativo. Pois, tudo é rotina. Em defesa da repetição, ou da rotina, Gerardo Mello Mourão proclamou que “só há uma forma boa de gerar um ser novo no ventre de uma fêmea: repetir o ato imemorial de Adão em cima de Eva, com um movimento entre a cintura e as ancas. O resto é inseminação artificial. A repetição gera o novo.”

Nesses últimos tempos tenho me interrogado a respeito da aura que circunda a poesia. O que vem a ser esse cantante, encantado e encantador fenômeno? Parece-me que Poesia é tudo aquilo que nos torna essencialmente mais humanos, nos aprofunda no humanismo ao ponto de nos aproximar do divino. A poesia é a divinização do humano. Nessa esteira, o primeiro e maior poeta é Deus, que com seu sopro mágico desenhou o universo, a magnitude da natureza, a comunidade dos seres vivos. Nessa trilha, todos somos ou podemos ser poetas. Os que desenvolvem a arte de concatenar os fonemas musicais, as obras arquitetônicas das estrofes arrebatadoras nada mais são do que sonoros instrumentos que o Poeta original distinguiu com a missão de apontar, como guias abençoados, as trilhas de Orfeu. Por isso que o amazônico Thiago de Mello proclamou: Não somos melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa.

Em meio às notícias desairosas sobre a aridez de lideranças, ao deserto de nomes emblemáticos, relembramos com reverência um poeta que se fez líder global, herói maiúsculo, libertador singular, gênio da paz: Nelson Mandela!

O Dragão do Mar Africano, sem escrever poesias, foi um poeta militante, que na solidão da masmorra, na escuridão do cárcere, repetia um mantra: Não importa quão estreito o portão/ Quão repleta de castigo a sentença, / Eu sou o senhor de meu destino/ Eu sou o capitão de minha alma.

Mandela carregava na sua jangada existencial a lanterna da poesia. Senhor do destino, capitão da alma, general do coração e soldado da consciência, colonizou projetos pessoais e grupais e delineou um projeto de sociedade em que os seres não estavam apartados pela cor da pele, em que um governante não precisava demonizar o passado, em que os homens pudessem compartilhar civilizadamente o mesmo espaço social.

Quando dispunha do pescoço dos algozes e dele esperaram as correntes da vingança, estendeu a cadeira da reconciliação e ofereceu o banquete da paz. Quando lhe franquearam a continuidade no poder, lançou o manifesto do desapego. Era um homem superior, sintonizado com a melodia celeste. Como político, atuou não em função de uma parte ou de um partido, mas com uma invulgar compreensão de totalidade.

Era um homem, do ponto de vista ético, da melhor estatura, com visão de Estado. Um verdadeiro estadista. Poeta é, pois, todo aquele que se dispõe a romper os grilhões dos formalismos estéreis, das convenções descabidas, dos debates inúteis, do cotidiano infrutífero, da pusilanimidade dominante.

Poeta é aquele que, em qualquer barco de sonho, ultrapassa as ondas da superfície e alcança o espaço tranqüilo das águas profundas do oceano da vida. Dideus merece ser festejado porque é um desses desassombrados padeiros da massa poética.

Mello Mourão dizia que o poeta tem que ser assim: essencialmente poeta. De resto, tinha razão Rilke: cantar é ser. Às vezes somos forçados a fazer outras coisas na vida. Gerardo confessa ter tido a necessidade de exercer atividades as mais díspares na vida, como a política partidária e outras aventuras. Mas considerava tudo isso "adultério" à sua musa permanente, a poesia.

Dideus luta incessantemente para guardar fidelidade à poesia. Comete, vez por outra, alguns adultérios: ora edita uma Revista, ora se embrenha na produção rural, ora se entrega à intimidade de um microfone de rádio.

Todos esses ‘pulos de cerca’ são perdoáveis, porque ele é um incorrigível amante da poesia. E está sempre renovando esse matrimonio sagrado. O seu livro Poemas Telúricos é um delicado registro cartorial da renovação desses votos de amor. Telúrico vem de terra. Por isso fiz questão de consignar que a lírica desse fraterno filho da argila tem a altivez das carnaúbas, o perfume do mufumbo, a sombra do juazeiro, o desabrochar gratuito das jitiranas, o tempero do manjericão.

Um pequeno relato final. Johann Christian Friedrich Hölderlin, poeta lírico e romancista alemão, certa feita foi instado pela mãe a deixar esse negócio de poesia. (Sua genitora considerava isso um tanto perigoso, além de impedi-lo de viver uma vida normal). Em resposta, ele escreve à mãe: “a poesia é a coisa mais inocente do mundo.” Inocente, em alemão, é "unschuldig", que quer dizer uma coisa não-culpada, isenta de culpa. Em latim, “inocens” significa algo que não prejudica. Nocere é ser nocivo, prejudicar. Inocens é aquilo que não prejudica a ninguém e a nada.

Aprendamos com esse poeta terrestre, telúrico, a lição essencial da poesia: passar por essa vida insuflando a alegria, lançando sementes de sonho no coração dos nossos semelhantes e evitando causar prejuízos às coisas e às pessoas.

Parabéns, Dideus Sales, um Pereira de Jesus, rebento do rio Poty de Crateús, poeta de terra e luz!

sábado, 8 de abril de 2017

QUARTO CARNAVAL PÓS RENÚNCIA


Fevereiro de 2013. Era pleno Carnaval, festa dionisíaca por excelência, quando o mundo foi surpreendido com a notícia de que Sua Santidade, o Papa Bento XVI, havia tomado a ousada decisão de renunciar. Perante o Consistório, assembleia de cardeais por ele convocada, o Papa fez a solene declaração.

O Papa renunciou. Abdicou do anel de ouro, das vestes exuberantes, da solene chefia de Estado, do comando mundial da Igreja, dos reverentes cortejos de beija-mão, do orçamento bilionário, da pomposidade do trono de Pedro.

Nunca a assertiva profética de que o Autor Celestial insere sua escritura luminosa em pergaminhos obscuros foi tão verdadeira. Aqui, elegeu para protagonizar o ato pessoal mais desconcertante e revolucionário da Igreja nos últimos tempos exatamente um Papa que sempre exibiu o rótulo de conservador e reacionário.

Um pastor tido e havido como apegado ao poder pratica o gesto extremo de desapego...

Além de líder espiritual, o Papa é chefe de Estado, comandante maior de um poder terreno, temporal, secular. Renunciar ao Papado é, também, abrir mão de um império político e econômico.

O anúncio deixou estonteados tanto os que o admiram quanto os que o repulsam. A decisão de renunciar soou não como um ato de covardia, mas de coragem. Indiscutivelmente, um voluntário gesto libertário!

Pois é o apego, sobretudo o apego ao poder que nos torna presas fáceis e nos impede de seguir a trilha da liberdade!

Lembra sobre como se pega macaco na Índia?

Lá, toma-se um coco grande e nele se faz um buraco de tal forma que só entre a mão do macaco com certo aperto. Amarra-se o coco num tronco e lá dentro do coco se colocam torrões de açúcar para atrair o bicho. O macaco mete a mão e agarra o torrão de açúcar. Tenta retirar a mão e já não pode mais porque não quer largar o torrão. Pelo apego, é facilmente apanhado.

Segundo os Budistas, o desapego é essencial para o caminho da iluminação.

Há uma famosa história zen que é muito elucidativa disso. Um mestre e seu discípulo estavam a caminho da aldeia vizinha quando chegaram a um rio caudaloso e viram, na margem, uma bela moça tentando atravessá-lo. O mestre zen ofereceu-lhe ajuda e, erguendo-a nos braços, levou-a até a outra margem. E depois cada qual seguiu seu caminho. Mas o discípulo ficou bastante perturbado, pois o mestre sempre lhe ensinara que um monge nunca deve se aproximar de uma mulher, nunca deve tocar uma mulher. O discípulo pensou e repensou o assunto; por fim, ao voltarem para o templo, não conseguiu mais se conter e disse ao mestre:

— Mestre, o senhor me ensina dia após dia a nunca tocar uma mulher e, apesar disso, o senhor pegou aquela bela moça nos braços e atravessou o rio com ela.

— Tolo – respondeu o mestre – Eu deixei a moça na outra margem do rio. Você ainda a está carregando.

O apego é escravizador; o desapego, libertador!

O apego transforma a nossa existência em uma imensa cisterna abandonada, sem circulação vital, com a energia parada.

A água parada é um exemplo nítido dos efeitos do apego: cria substâncias lodosas, bactérias, contaminação. Por isso muitas pessoas resistem em descer aos porões de casas antigas: a energia ali estagnada incomoda.

A vida é pulsação constante, troca energética, circulação de afeto, mudança de padrões, renovação permanente.

O desapego libera a cristalina e generosa água corrente da vida! Pratiquemo-lo!

(Júnior Bonfim, Carnaval de 2017)

PADRE HELÊNIO


A cultura grega, dita Helênica, sempre foi uma olaria de esplendor e um farol referenciador para as demais civilizações. A partir da combinação entre solenidade e profundidade, ética e estética, nobreza e beleza, os gregos erigiram monumentos à virtude e edifícios ao humanismo assentados nas colunas do equilíbrio, da harmonia, da ordem e da moderação.

O estuário simbólico lapidado pelos gregos – o panteão mitológico, o encadeamento arquitetônico, o exercício compreensivo da polis e o manancial filosófico – tinha uma razão e um sentido, um leito a ser percorrido e uma foz a ser atingida: o enobrecimento da humanidade.

Tivemos, entre nós, até o último 17 de janeiro, um varão que encarnava a Cultura Helênica. Aliás, era Helênico até no nome: José Helênio Oliveira Pereira. E o nome diz muito sobre ele. José, nome bíblico, que auspiciou o pai de Jesus, significa “aquele que acrescenta”. Helênio, de Helênico, do grego hellenizein – quer dizer ‘viver como os gregos’. Oliveira (em hebraico zayit, que significa oliveira, azeitona), é uma árvore de profundo significado espiritual. As oliveiras, que rodeiam as montanhas na Galileia, Judeia e Samaria, são constantemente citadas nas Sacras Escrituras, inclusive no Evangelho, que menciona o Cristo no “Monte das Oliveiras”. Pereira, originalmente “árvore que produz peras” e, entre nós, madeira de boa qualidade.

O Padre Helênio absorveu os pontos cardeais do antropônimo. Como um bom José, acrescentou e muito, pois poeta, aprendeu que ‘o amor reparte, mas sobretudo acrescenta’. Helênio cultuou a cidadania plena, como os gregos da antiguidade, que beberam no nascedouro da democracia. Este Oliveira, assim como a árvore do mesmo nome, que cresce e vive bem sob qualquer solo, mesmo pobre e seco, brindou o mundo com o azeite da fecundidade. Era um legítimo Pereira, tronco que se fez piano nos templos da Diocese de Crateús, produzindo litúrgicos hinos de amor.

O decano da Diocese do Senhor do Bonfim cantou ou chorou inicialmente sob a brisa do rio Acaraú, na cidade de Cariré, no dia 15 de abril de 1929. Era fino nos modos e nobre nos pensamentos. Apreciava a Boa Nova, da qual se fez Mensageiro, e adorava compor partituras poéticas. Recebeu a unção sacerdotal do bispo-conde de Sobral, D. José Tupinambá da Frota, no abençoado dia 08 de dezembro de 1953.

Padre, após uma rápida passagem pela paróquia de Senador Sá, foi arrastado da ribeira do Acaraú para a ribeira do Poty, na qual se hospedou por toda a existência terrena.

Com a visão dilatada e a sensibilidade convivencial dos grandes homens, nadou com habilidade em meio às correntezas e os redemoinhos ideológicos do período inicial mais crítico da Diocese de Crateús. Afastou as ondas tempestuosas e as turbulentas intempéries segurando o cajado da serenidade.

Guardo dele um episódio fraterno, um diálogo afável. Era o dia 11 de setembro de 1985. Estávamos na calçada do Palácio Episcopal e mirávamos as torres da Catedral. Após um momento de silenciosa contemplação, iniciamos uma fala sobre a invisível catedral da poesia. Indagou-me se eu estimava uma moldura especial de poema, constituído de dois quartetos e dois tercetos, denominado Soneto. Disse que sim. (Soneto, para mim, é uma gaiola dentro da qual o pássaro é desafiado a cantar a liberdade do voo). E ele me instigou: - vamos compor um soneto às torres da Catedral?! Concordei. E ele disse: vou iniciar com a primeira estrofe e você continua... Ei-lo:

“Olho no além, vejo distante
Duas torres brancas apontando os céus
Braços erguidos numa prece a Deus
Sentinela altiva de um Povo Orante!

Oh! torres brancas, de almas puras,
Formosas e eretas, como palmeiras
Desta cidade, de verdes cabeleiras
Apalpais sonhos e arquiteturas!

Olho aqui perto, miro com emoção
Se despetalando em luta luminosa
Um pequeno povo que ama a Canção!

Saberá alguém dos segredos da rosa,
Ou o que, na meditação silenciosa,
As brancas torres têm no coração?!!!”

Pulsante e imóvel, tal qual a muda sonoridade da inventividade, dormita, no sacrário da minha memória, aquele instante fecundo, como a fotografia de um relâmpago de criatividade. Jamais olvidarei aquele dia, o dia em que tive, de um sacerdote, a resoluta parceria para abençoar o pão e vinho da poesia!

(Júnior Bonfim, janeiro 2017)

CANYON DO RIO POTY


Janeiro marca o natalício de Luis Carlos Prestes. Janeiro, precisamente o seu décimo quinto dia de 1926, registra o momento em que a terra apadrinhada pelo Senhor do Bonfim galgou destaque por ter sido palco do único combate das forças revolucionárias. O padre Geraldinho pontua em uma de suas obras sobre a passagem da Coluna através do Ceará: Frutuoso Lins, jovem em janeiro de 1926, narrou que quando o relógio bateu 3h “reboou uma saraivada de rifles e fuzis”. Lins explicou que João Calixto, guarda da Estação, revelou a euforia dos revolucionários no local: “Entre 4 e 5 horas da manhã, corriam eles pelas calçadas cantando ‘Mulher rendeira’ e gritando ‘Queima Chicuta’ e batiam com o coice do rifle nas portas da Estação”.

A saga da Coluna Prestes, com seus arroubos equivocados e seus rumos certeiros, teve em Crateús um de seus palcos privilegiados.

Estes dias, enquanto me recordava desse movimento revolucionário, vi passar na TV um spot sobre um acidente geográfico que assinala a divisa do Ceará com o Piauí em terras crateuenses: o Cânion do Rio Poty.

No início da década passada, o jovem Luis Carlos Prestes Filho resolveu fazer o mesmo percurso da Coluna que seu pai, o lendário ‘Cavaleiro da Esperança’, havia trilhado na liderança da famosa Coluna Prestes.

Relembro-me que um dia, em Crateús, ele externou: uma das paisagens mais belas que tinha encontrado naquele longo trajeto era o Cânion do Rio Poty.

O Cânion do Poty é umas das feições naturais da área limítrofe do Ceará com o Piauí, em áreas de Crateús, Buriti dos Montes e Castelo do Piauí. Fenda geológica por onde passa o rio Poty ao atravessar a cadeia montanhosa da Ibiapaba entre o Ceará e o Piauí, o Cânion foi formado pela erosão mecânica que as águas do Rio Poty proporcionaram ao cortar os sedimentos da Formação Cabeças, depositada no período Devoniano durante a Era Paleozóica, há cerca de 400 milhões de anos atrás.

Aparentemente o Rio Poty estabeleceu seu leito natural aproveitando uma falha tectônica conhecida como Lineamento Transbrasiliano, que corta o Brasil desde Sobral até o Mato Grosso. O rio corta o sistema de serras da Ibiapaba e no trecho entre a Cachoeira da Lembrada e o Canyon da Pedalta é onde se estabelece o Canyon do Rio Poty, embora ele apresente-se escarpado também por outros trechos até sua foz em Teresina.

Anteriormente chamado de Itaim-Açu, há registros de que na carta geográfica de Henrique Antonio Gallucio de 1760 (dois anos após a instalação da capitania do Piauí), já estava denominado Poty.

O melhor período para visitação é depois das chuvas, entre julho e dezembro. O local é indicado para prática de esportes de aventura como Rapel, Canoagem, ciclismo e trekking,

Como inexiste qualquer empreendimento, público ou privado, que sirva de apoio ao turista ou visitante nos dias atuais, resta-nos aguardar que algum empreendedor se disponha a investir naquela área fantástica, com paredões que alcançam 60 metros de altura, pleno de cavernas, pinturas rupestres e abrigos naturais, lindos para uma prazerosa apreciação.

Oxalá as autoridades despertem para o enorme potencial turístico rural e ecológico que o nosso Cânion representa e para ele desenvolvam projetos, oportunizando a divulgação de uma das formações geológicas mais extraordinárias que temos.

(Júnior Bonfim, janeiro de 2017)

EXTINGUIR O TCM?!


Abril de 1893. Floriano Peixoto, Presidente da República, determinou que seu Ministro da Viação, Limpo de Abreu, nomeasse um irmão de Deodoro da Fonseca e fixou a quantia a ser paga. O novel Tribunal de Contas, reputando ilegal o ato, ante a ausência de dotação orçamentária, negou–lhe o registro. Inconformado, Floriano disse:

- “São coisas do meu amigo Ministro da Fazenda, que criou um Tribunal superior a mim. Precisamos reformá-lo”.

- “Não!” replicou o Ministro da Fazenda, Serzedelo Corrêa. “Superior a Vossa Excelência, não. Quando Vossa Excelência está dentro da lei e da Constituição, o Tribunal cumpre as suas ordens. Quando Vossa Excelência está fora da lei e da Constituição, o Tribunal lhe é superior. Reformá-lo, não podemos”. Após o episódio, o Ministro deixou o cargo.

Ao assistir, estupefato, as notícias sobre a proposta de emenda constitucional que visa extinguir o Tribunal de Contas dos Municípios do Ceará, lembrei do episódio acima. Parece que as Cortes de Contas, como os demais organismos de fiscalização e controle dos negócios públicos, nasceram com a missão excelsa de enfrentar adversidades provenientes da ira dos poderosos de plantão, posto que um dos mais basilares fundamentos das nações civilizadas, a reverência aos ditames legais, constitui miragem para as nossas novas gerações, que ainda presenciam ‘a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que é subtraída, em tenebrosas transações’ ...

Ao elencar as justificativas para a criação da primeira Corte de Contas em nosso País, o mestre Rui Barbosa assinalou: “Convém levantar, entre o poder que autoriza periodicamente a despesa e o poder que quotidianamente a executa, um mediador independente, auxiliar de um e de outro, que, comunicando com a legislatura, e intervindo na administração, seja não só o vigia, como a mão forte da primeira sobre a segunda, obstando a perpetração das infrações orçamentárias, por um veto oportuno aos atos do Executivo, que direta ou indireta, próxima ou remotamente, discrepem da linha rigorosa das leis de finanças."

Nessa esteira, o ex-Ministro do STF José de Castro Nunes – que, se entre nós, celebraria 134 anos de nascimento no próximo dia 22 de dezembro de 2016, proclamou: “As Cortes de Contas não são delegações do Parlamento, são órgãos autônomos e independentes. Mas existem em função da atribuição política dos Parlamentos no exame das contas de cada exercício financeiro.”

Ambos viram ratificadas suas opiniões pelo magistério de Celso Antônio Bandeira de Melo:

“Tem-se, pois, que embora o Texto Constitucional nos afirme, no artigo 6º, que são Poderes da União, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, o certo é que, paralelamente a esses três conjuntos orgânicos, criou-se outro conjunto orgânico que não se aloja em nenhum dos três Poderes da República. Previu-se um órgão – o Tribunal de Contas – que não está estruturalmente, organicamente, albergado dentro desses três aparelhos em que se divide o exercício do Poder. Como o Texto Constitucional desdenhou designá-lo como Poder, é inútil ou improfícuo perguntarmo-nos se seria ou não um Poder. Basta-nos uma conclusão, a meu ver irrefutável: o Tribunal de Contas, em nosso sistema, é um conjunto orgânico perfeitamente autônomo.”

Eis, pois, a essência das Cortes de Contas.

Assento as premissas acima para opinar sobre essa Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que tramita na Assembleia Legislativa Cearense e visa a extinção do nosso TCM, sexagenária instituição com vultoso e vistoso álbum de atuação em todos os municípios da Terra da Luz.

Quais as razões aparentes que estão postas ou expostas à comunidade?

Segundo o autor, deputado Heitor Férrer, seria: gerar economia para os cofres públicos, evitar a politicagem no âmbito do Tribunal e que o estado tivesse apenas uma Corte de Contas, como a maioria dos estados da Federação.

Com todo respeito ao Parlamentar, nenhuma das alegações se sustenta em um debate mais demorado sobre a matéria.

O argumento da economia cai por terra quando a própria PEC prevê que as previsões orçamentárias de receitas e despesas apenas serão transferidas para o TCE. Ao reverso, ocorrerá um prejuízo: Conselheiros e Auditores do TCM ficarão em disponibilidade, percebendo todas as vantagens atuais. Ou seja, o Estado gastará quase R$ 6.000.000,00 (seis milhões de reais) com servidores públicos altamente qualificados que permanecerão remunerados sem qualquer contrapartida de trabalho.

O enredo de que os cargos de Conselheiros do Tribunal são silos de sinecuras, privilegiadas moedas de troca politiqueira ou espaços de premiação para amigos dos governantes de plantão – pode ser enfrentado não com a eliminação do órgão, mas com a definição de critérios impessoais, como o Concurso de Provas e Títulos.

Por fim, a assertiva de que a maioria dos estados só possui um Tribunal de Contas, não pode ser usada como parâmetro para confortar o arrazoado em favor da eliminação do TCM/CE. A atuação fiscalizatória repartida que existe no Ceará produziu, em ambas as Cortes de Contas (TCM e TCE) expertises diferenciadas. Se, na balança da Justiça, há um prato pesando mais, indubitavelmente é o do TCM. (Advogo na seara eleitoral e, durante a eleição deste ano, por exemplo, não vi um processo sequer de contas públicas irregulares – com base artigo 1º, inciso I, alínea “g” da Lei da Ficha Limpa - oriundo do TCE. Todos, absolutamente todos, têm como fonte a extensa lista fornecida pelo TCM.). Logo, o acúmulo de experiência, a qualidade técnica e a habilidade pericial dos servidores do TCM permitem-nos afirmar que esse processo abrupto, açodado, irracional, à sorrelfa e de afogadilho há que ser estancado.

Extinguir um órgão quase secular como o TCM/CE, sem qualquer consulta popular, debate público ou audiência da sociedade civil organizada é alojar um projétil no coração da cidadania. Ergamo-nos contra esse vilipêndio!

(Júnior Bonfim, dezembro de 2016)

FIDEL!


Quando, pela vez inicial, senti o perfume do estrume, embriaguei-me com o aroma do nosso bioma e mirei a ferradura de serra que enfeita a minha terra, a extensão do nosso planeta se resumia, do ponto de vista geopolítico, a uma construção bipolar: de um lado, os Estados Unidos da América (EUA) e, do outro, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Esses dois países, que despontaram após a segunda guerra mundial como as maiores potências globais – o primeiro, expoente do capitalismo; o segundo, do comunismo - detinham a hegemonia e apresentavam grande influência política, econômica e militar sobre o conjunto dos humanos, interferindo nas relações políticas de todo o planeta.

Essa repartição do mundo em duas correntes distintas e antagônicas influenciou sobremaneira o modo de agir e de pensar das pessoas. Éramos, sem o saber ou compreender à época, seguidores de uma religião extinta: o maniqueísmo.

O Maniqueísmo foi uma doutrina inaugurada por um profeta persa denominado Maniqueu (Manes ou Mani, no original). Sua filosofia religiosa, sincrética e dualística, se resumia em dividir o mundo simplesmente entre Bom (= Deus), e Mau (= Diabo).

Essa maneira simplista e reducionista de ver as pessoas e o mundo contaminou irremediavelmente a humanidade no período bipolar. Essa conformação binária da existência se refletiu de maneira avassaladora sobre a política. Aos olhos da juventude, em especial, predominava a rotulação extremista: direita e esquerda. Direita, encarnação diabólica, reprodução das trevas; Esquerda, manifestação divina, explosão de luz.

Sob a crepitação das brasas da adolescência, não tive dificuldade em optar pelo segundo lado, que considerava mais justo. Nossa consciência vivia aparentemente mansa, pois cultuávamos aquilo que para nós eram verdades absolutas. Exaltávamos os dogmas, as definições que nos eram impostas pelos iluminados líderes e que nos cabia aceitar sem discussão. É como se, apegados a um dogma, estivéssemos tranquilos, à sombra de uma árvore colossal. Uma dessas ‘verdades absolutas’ era a de quem fosse de esquerda tinha sempre razão. Olvidávamos de pôr a mão na algibeira da razão, agíamos pelo combustível do impulso ou embalados pelas notas sedutoras da emoção.

Foi nessa atmosfera dominada pela passionalidade que surgiram cones e ícones da esquerda latino-americana, como o recém-falecido advogado Fidel Alejandro Castro Ruz, o Fidel Castro.

Para emitir minha modesta opinião sobre essa lenda e legenda cubana, relembro aquele que Carlos Drummond de Andrade nominou como o maior poeta do Brasil. Gerardo Melo Mourão disse que cultuava ideias, mas abominava ideologias. As ideologias escravizam; as ideias libertam.

Descobri que é possível nos libertarmos das colocações binárias de tipo maniqueísta. Logo, podemos admirar ou respeitar uma figura histórica, sem descurar de evidenciar seus equívocos.

Fidel Castro, no campo da Justiça Social, foi um líder revolucionário que animou a utopia de um País socialmente justo.

No terreno das liberdades públicas, infelizmente foi caudatário do autoritarismo, incapaz de conviver respeitosamente com quem divergia da sua compreensão de mundo. Injustificável, sob qualquer ângulo sério, sua gana pela perpetuação no poder.

Como bem descreveu um cubano radicado no Brasil, ele “foi um pai severo, que deu saúde e educação para os filhos, mas não lhes permitiu que trilhassem o próprio caminho”.

Foi, portanto, um ser contraditório: trágico e portentoso, avançado e reacionário. Aliás, como a maioria dos líderes gerados em nossa Latino-América...

(Júnior Bonfim, novembro de 2016)

A VIDA APÓS A VIDA!


Sempre no mês de novembro, ao derredor do dia em que celebramos os que deixaram o nosso convívio, direcionamos a nossa atenção para a mesma coisa: a estrutura física dos cemitérios – que popularmente alguns chamam de campos santos - o estado de conservação dos túmulos etc.

Raramente, ousamos reflexionar além disso; dificilmente, adentramos no âmago da questão: - Qual o sentido da existência? - Qual o verdadeiro significado da vida? - Por que resistimos à morte?

Os ocidentais temos muita dificuldades de tratar desse tema. Em que pese as vistosas conquistas que temos obtido na esfera tecnológica, ainda tratamos o tema da morte como um tabu. Ensinam-nos a negar a morte e a internalizar que ela nada significa, a não ser aniquilação e perda. Vivemos a negá-la. (Para ser sincero, eu mesmo via de regra resisto em escrever sobre o assunto...).

É tão forte e arraigado este pré-conceito que falar da morte é considerado algo mórbido, e – pasmem! - corriqueiramente julgamos que a simples menção a ela pode atraí-la sobre nós.
Noutro extremo, há também quem encare a morte de maneira quase ingênua, frívola ou irracional: “se chega para todo mundo, não é nada demais. Vai chegar prá mim também. É absolutamente natural”. Ambas atitudes estão pouco próximas da com-preensão do verdadeiro significado da morte.

O professor Sogyal Rinpoche, que nasceu no Tibet e é um dos pioneiros na promoção do diálogo entre a Ciência e a Espiritualidade, leciona que “todas as tradições espirituais do mundo, inclusive, é claro, o cristianismo, dizem explicitamente que a morte não é um fim. Todas falam em algum tipo de vida futura, o que infunde em nossa vida atual um sentido sagrado. Mas, não obstante esses ensinamentos, a sociedade moderna é um deserto espiritual em que a maioria imagina que esta vida é tudo que existe. Sem qualquer fé autêntica numa vida futura, a maioria das pessoas vive toda a sua existência destituída de um sentido supremo”.

Segundo o mestre budista, são desastrosos os efeitos dessa atitude de negação da morte. Vão além da esfera individual, afetam o planeta inteiro.

Disso resultou o aço opressivo que pesa sobre nossos ombros: uma sociedade acorrentada por padrões comportamentais equivocados, que salpica de lama os valores mais sublimes do humanismo. Rendidas pela completa permissividade, as pessoas acham que obrigatoriamente têm que ser “modernas” (no sentido pejorativo do termo), cultuam uma rebeldia sem sentido, priorizam ser “sexy” desnudamento completo, em todos os sentidos, por dentro e por fora.

Disseminou-se uma falsa cultura de saúde total, em que padrão de beleza rima com excessiva magreza, que substituí a natural alegria pelo espectro da anorexia.

O resultado desse caldo insípido é um banquete surreal, no qual predomina um cardápio composto por dois ingredientes desprovidos de sedução: uma incontida decepção e uma crescente frustração.

Que estrada estamos a percorrer? Que farol poderá nos guiar? É difícil responder. Certo é que, se quisermos continuar, temos que urgentemente começar a mudar.

Como bem asseverou Charles Chaplin: “O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Supondo que esta vida é única, não desenvolvemos uma visão de longo prazo e, tomados pelo egoísmo, passamos a saquear o planeta em que vivemos para atingir nossas metas imediatas. E isso pode ser fatal no futuro.

Neste mês de novembro, em que celebramos o dia de finados (que deveria ter outro nome, pois finados diz respeito a falecido e encerra uma compreensão da morte com “fim” – o que não é o caso), alimentemos, como Raymond Moody, a forte e viva esperança de que há, de fato, uma “vida após a vida”.

(Júnior Bonfim, novembro de 2016)

A GRATIDÃO!


Outro dia fui mimoseado pelo amigo César com um vídeo de uma fala do Professor António Nóvoa, o renomado ex-reitor da Universidade de Lisboa, Portugal.

O conteúdo da prédica, visto em meio à turbulência cotidiana, me devolveu à enseada da paz mansa, abriu em minha alma o remanso de uma invisível e sossegada alegria.

A gravação nos convidava, a partir de São Tomás de Aquino, a revisitar o espaço sagrado, o habitat essencial, o apartamento único em que repousa o mais belo dos sentimentos humanos: a gratidão!

São Tomás de Aquino foi um das mais esplendorosas mentes que o ventre de uma mulher pôs no mundo: o santo mais sábio e o mais sábio dos santos. Sua vastíssima contribuição ao alargamento da inteligência humana é consenso entre os amigos do saber. Aliás, é dele a afirmação de que o estudo da sabedoria é o mais perfeito, sublime, proveitoso e alegre de todos os estudos humanos. “Feliz o homem que medita na sabedoria”. Vinculado à linguagem do povo, ensinava que saber vem de sabor e sábio é aquele que saboreia.

Apelidado de “boi mudo”, por conta de seu olhar vago, submerso em reflexões profundas e totalmente entregue ao silêncio, protagonizou algumas anedotas interessantes:

‘Consta que o tímido e bonachão Tomás debruçava-se, como sempre, em uma pilha de livros e escritos, sempre em produção frenética. Alguns monges se aproximam e decidem pregar uma peça no compenetrado monge:

– Tomás, Tomás! Veja! Um boi voando!

Tomás saltou da cadeira e, reclinado ao parapeito, vasculhou os céus em busca do boi, enquanto ao seu redor os outros monges explodiam numa gargalhada coletiva.
Surpreendido, o santo se explicou:

- “É que achei mais razoável um boi voar do que os monges mentirem.” E saiu rindo da situação, para vexame dos demais...

Mas, voltemos ao teor do vídeo com a fala do Professor Antonio Nóvoa, cuja reprodução compartilho abaixo e que, autoexplicativa, dispensa comentários:

“Se me derem mais dois minutos, explico-vos o que eu quero dizer com a palavra agradeço. Há uns meses atrás estava eu em Brasília a preparar a aula magna da Universidade de Brasília e vinha-me à cabeça que queria agradecer aos colegas brasileiros tudo o que me têm dado, e tem sido muito.

E vinha-me à cabeça o Tratado sobre Gratidão de São Tomás de Aquino. Todos aqui saberão que o Tratado da Gratidão de São Tomás de Aquino tem três níveis de gratidão: um nível superficial, um nível intermédio e um nível mais profundo.

(Na verdade, o usual é referir-se à questão sobre a gratidão da Suma Teológica; eu - como se vê ao lado, tomei a liberdade de chamá-la de Tratado).

O nível superficial é o nível do reconhecimento, do reconhecimento intelectual, do nível cerebral, do nível cognitivo do reconhecimento.

O segundo nível é o nível do agradecimento, do dar graças a alguém por aquilo que esse alguém fez por nós.

E o terceiro nível mais profundo do agradecimento é o nível do vínculo, é o nível do sentirmos vinculados e comprometidos com essas pessoas.

E de repente descobri uma coisa na qual eu nunca tinha pensado, que em inglês ou em alemão se agradece no nível mais superficial da gratidão. Quando se diz “thank you” ou quando se diz “zu danken” estamos a agradecer no plano intelectual.

Que na maior parte das outras línguas europeias, quando se agradece, agradece-se no nível intermediário da gratidão.

Quando se diz “merci” em francês, quer dizer dar uma mercê, dar uma graça. Eu dou-lhe uma mercê, estou-lhe grato, dou-lhe uma mercê por aquilo que me trouxe, por aquilo que me deu.

Ou “gracias” em espanhol, ou “grazie” em italiano. Dou-lhe uma graça por aquilo que me deu e é nesse sentido que eu lhe agradeço, é nesse sentido que eu lhe estou grato.

E que só em português, que eu conheço, que eu saiba, é que se agradece com o terceiro nível, o terceiro nível, o nível mais profundo do tratado da gratidão. Nós dizemos “obrigado”.

E obrigado quer dizer isso mesmo. Fico-vos obrigado. Fico obrigado perante vós.

Fico vinculado perante vós. Fico-vos comprometido a um diálogo, agradecendo-vos o vosso convite, agradecendo-vos a vossa atenção.

Fico obrigado, vinculado, a continuar este diálogo e a poder contribuir, na medida das minhas possibilidades, para os vossos projetos, para os vossos trabalhos, para as vossas reflexões, para o vosso diálogo. É esse diálogo que quero e é nesse preciso sentido que eu vos digo: MUITO OBRIGADO”
.

(Júnior Bonfim, outubro de 2016)

MANOEL VERAS OU A AMIZADE E SUA VIRTUOSA TRINDADE!


Como ocorre a germinação de uma amizade?

Imagino que, como os grandes fenômenos que transitam pelos leitos insondáveis dos mistérios, a amizade deve brotar de uma sintética trindade: semente, solo e sol. É esse trino congraçamento o responsável pelo espetáculo da fertilidade.

O vinho, a sedutora e sublime bebida, que o Cristo solenemente proclamou ser o seu próprio sangue, também é fruto de uma harmoniosa combinação triangular: semente, solo e sol. Da semente bem selecionada, a uva mais qualificada. O solo drenado é o mais adequado. E o sol... Ah! O sol precisa inclusive monitorar o tempo que necessita ficar recolhido atrás das nuvens...

A amizade é, ademais, um cálice sagrado. Quanto mais liturgicamente o ingerimos, mais nos transfiguramos e experienciamos o voo invisível rumo ao platô celestial da aurora humana.

Eu e o Manoel vimos ao sol a partir do mesmo solo, da mesma cama de argila situada à margem do rio Poty, que era palco de dança dos Karatiús, os mais festivos índios destas plagas.

Nascido aos 19 de setembro de 1956, Manoel Veras é um virginiano observador e entusiasmado, prático e trabalhador, modesto e inteligente, amigo sincero e bom companheiro.

Na rua em que um dia Frei Vidal da Penha fincou uma Cruz, símbolo feito do cruzamento de dois pedaços de madeira (o vertical indica o amor a Deus e o horizontal, o amor ao próximo), andamos as calçadas da infância e recolhemos a argamassa do edifício da existência.

Manoel, um Bezerra dito Veras, se fez pedra e cal no empreendimento de sua trajetória: a fiação de uma biografia escrita com estreladas sílabas de alegria. Fez-se homem de verdade, com três 'hs': é honrado, honesto e holístico!

Honrou pai e mãe, Expedito e Maria José; honra a mulher, Tania, tenaz e terna; honra os filhos, Renata e Renê, reprodutores do amor paternal.

A honestidade, que na tribo jurídica chamamos probidade, ou a capacidade de não fraudar, é um dos mais caros valores que este Veras conserva.

Principalmente depois que desenvolveu o saudável hábito de espiar os costumes de outros povos, Manoel virou um homem dado àquilo que os gregos chamam de ‘holos’, ou seja, procura ver as coisas por inteiro, compreender os fenômenos na sua totalidade e globalidade.

Por conta da incorporação dessas virtuoses, foi auspiciado com o óleo generoso das promissoras oportunidades.

A vida lhe sorriu muitas graças, dentre elas a de ser um dos nossos raros conterrâneos a servir sua gente ocupando assento nos três poderes: foi por seguidos mandatos representante do povo no Legislativo estadual; esteve no Poder Executivo como Secretário de Administração do Estado e, hoje, é Magistrado, Juiz, julgador das Contas Públicas Municipais.

Caro Manoel, cujo nome significa Deus Conosco, neste momento em que celebramos suas três décadas em dobro, não nos cabe outra coisa senão elevar o coração à Trindade Superior e cantar Gracias à la Vida!

Parabéns!

(Júnior Bonfim, 19 de setembro de 2016)

UMA SANTA DA ÍNDIA!


O mundo, sobretudo o católico, acompanhou exultante! O Papa Francisco (logo ele, um autêntico portador de boas novas) anunciou ao mundo, sob a forma de proclamação oficial perante mais de cem mil fiéis, aquilo que já sabíamos: a suave e espontânea santidade de Madre Tereza de Calcutá.

Sempre admirei as mulheres talentosas que, conservando a ímpar doçura maternal, exibem a fortaleza das descendentes de Eva. O útero da História é pródigo em exemplos: Cleópatra - uma das mulheres mais festejadas da história da humanidade – além de deslumbrante, era inteligente e culta, e sua notória esperteza manteve as fronteiras do seu reino; Joana D’Arc, jovem camponesa que vestiu a farda militar e foi protagonista de uma guerra que restabeleceu a dignidade francesa, além de ser queimada pela mesma Igreja que, séculos depois, reconheceu sua santidade; a catarinense Anita Garibaldi, combatente da Revolução Farroupilha, mulher muito à frente de seu tempo... A lista é, pois, numerosa...

Mas há uma mulher que, pela colossal história de vida, galgou um tipo tão superior de destaque que merece um registro todo especial. Antes do mais, foi considerada pelo então Secretário Geral das Nações Unidas, Pérez de Cuéllar, como “a mulher mais poderosa do mundo”.

Sem ter gerado um único filho, transformou-se, pela esplendorosa fé e pelo oceânico amor, na mãe mais fecunda do planeta.

Sobre ela, a diretora de uma revista feminina escreveu um chamativo artigo intitulado “UMA MULHER QUE NUNCA PASSARÁ DE MODA”. De início, afirmava: “Não é Cindy Crawford nem Cláudia Schiffer. Provavelmente, nunca entrou numa boutique, mas é uma das mulheres que marcam o passo à Humanidade e que deixarão um rasto indelével no século que termina. É muito possível que a preocupação pelo seu look não passe da água e do sabão, mas o seu olhar irradia uma força especial”.

A passarela por onde desfilou e exibiu seu glamour e sua beleza extraordinária foi o espaço onde reluzia a dor e a miséria mais comoventes, nos corredores desprezados dos aidéticos, nos esgotos onde se escondiam os vitimados pela lepra. Ruanda e Angola, Ulster e Biafra, a Etiópia e a Somália, o Harlem e o Bronx, o Tondo de Manila e o Líbano estão entre os palcos de sua vida. Diuturnamente, comendo de maneira frugal e dormindo apenas três horas diárias, em solene e incansável vigília de amor, operou sua missão sob o pálio do ‘ora et labora’.

Nascida em 26 de agosto de 1910, em Skoplje, um lugar entre a Albânia e a antiga Iugoslávia, atual República da Macedônia, construiu um verdadeiro império de amor e caridade. Hoje, seu legado é palpável em uma rede que conta com 4.500 religiosas trabalhando em cerca de 700 casas dedicadas a ajudar os mais desfavorecidos em mais de 130 países, inclusive no Brasil, espalhadas em albergues para adolescentes grávidas, cozinhas gratuitas para famintos e refúgios para pessoas sem lar.

No dia 5 de setembro de 1997, o coração dessa mulher iluminada parou de palpitar. Seu nome completo: Inês (Agnes) Gonscha Bojaxhiu, eternizada como Madre Teresa de Calcutá, a missionária do século XX. Em 19 de outubro de 2003, o Papa João Paulo II concluiu o último passo antes da canonização: o processo de beatificação! No domingo de 04 de setembro de 2016, o Papa Francisco a declarou oficialmente Santa!

Sua mensagem, estrela flamejante em defesa da vida, continua contundente:
- “O mundo que Deus nos deu é mais do que suficiente, segundo os cientistas e pesquisadores, para todos; existe riqueza mais que de sobra para todos. Só é questão de reparti-la bem, sem egoísmo. O aborto pode ser combatido mediante a adoção. Quem não quiser as crianças que vão nascer, que as dê a mim. Não rejeitarei uma só delas. Encontrarei uns pais para elas. Ninguém tem o direito de matar um ser humano que vai nascer: nem o pai, nem a mãe, nem o Estado, nem o médico. Ninguém. Nunca, jamais, em nenhum caso. Se todo o dinheiro que se gasta para matar fosse gasto em fazer que as pessoas vivessem, todos os seres humanos vivos e os que vêm ao mundo viveriam muito bem e muito felizes. Um país que permite o aborto é um país muito pobre, porque tem medo de uma criança, e o medo é sempre uma grande pobreza”.

Viva Santa Tereza de Calcutá!

(Júnior Bonfim, setembro de 2016)

11 DE AGOSTO: DIA DO ADVOGADO!


Narra a história que, há pouco mais de setecentos anos, na heráldica França, mais precisamente na região da Bretanha, viveu um ser iluminado que acumulou as funções de sacerdote, advogado e juiz. (Hoje pode nos soar estranho, mas naquele tempo isso era possível em virtude de não vigorar a atual estrita divisão social das funções).

Por conta de sua extrema sensibilidade social e fulgurante inteligência, galgou aura popular, prestígio comunitário e a reverência dos desvalidos da sociedade. Foi ele o fundador dessa veneranda Instituição que nos dias atuais chamamos Defensoria Pública.

Reza a lenda que um pobre, não possuindo dinheiro para comprar comida, aproximava-se diariamente, na hora do almoço, da janela da cozinha de um restaurante e, com o saboroso odor inalado, dava-se por satisfeito. Uma ocasião, o dono do restaurante o interpelou sobre o seu repetido e suspeito comportamento e, ouvindo a cândida explanação do miserável, exigiu dele pagamento como se ele tivesse de fato comido uma refeição. O causídico dos injustiçados assumiu a defesa do pobre e, no Tribunal, fez soar aos ouvidos do acusador as moedas que exigia, dizendo-lhe: "Considera-te pago com o som dessas moedas".

Esse operador do direito, batizado Ivo Hélory de Kermartin, que teve seu nome inscrito nos cânones da Igreja Católica como “Santo Ivo”, tornou-se o padroeiro dos advogados. Santo Ivo transformou sua existência terrena em um hino de louvor ao Reino dos Céus. Considerou a erudição que possuía um pergaminho musical para a elaboração das partituras mais profundas da humanidade: a Justiça e a Liberdade! Espargiu a sabedoria para fertilizar o terreno árido da arrogância, utilizou com habilidade os pratos da balança da deusa Thêmis, mirou de frente a imparcialidade e dilatou o espírito conciliador para desfazer as supostas inimizades que as contendas judiciais tendem a gerar. É ele o símbolo eminente, a bandeira excelsa, o estandarte imarcescível da atividade advocatícia.

O ordenamento jurídico brasileiro conferiu ao advogado o status constitucional de essencialidade à Justiça. O múnus que lhe foi conferido, para efeito de uma escorreita prestação jurisdicional, se assemelha ao do Juiz e ao do Promotor. A Lei assim estabelece, à inteligência do magistério estampado no artigo 6º da Lei 8.906/94: “Não há hierarquia nem subordinação entre advogados, magistrados e membros do Ministério Público, devendo todos tratar-se com consideração e respeito recíprocos”.

Advogar é aceitar a unção sacramental do óleo da Justiça! É celebrar um matrimônio de amor com a Liberdade!

Jean Giradoux anunciou que “não há melhor maneira de exercitar a imaginação do que estudar direito. Nenhum poeta jamais interpretou a natureza com tanta liberdade quanto um jurista interpreta a verdade”.

Neste dia em que comemoramos a nossa data, cabe uma acurada reflexão sobre os desafios presentes e futuros. Enquanto categoria que se abriga sob o teto dessa Instituição chamada OAB, cabe-nos abrir a mente e o coração para compreender a razão maior da nossa militância classista: a solidificação das pilastras do Estado Democrático de Direito e o acendimento das tochas olímpicas das nossas prerrogativas.

Sonho com uma advocacia que enfrente com altivez os desafios contemporâneos. Sonho com uma advocacia que estabeleça pontes de intimidade com a consciência dos clientes, a fim de que caminhem pelas trilhas da legalidade e da justiça, tornando irrelevante a jurisdição contenciosa. Sonho com uma advocacia protagonista da vanguarda republicana, que subsidie os clientes no destemor a quaisquer institutos legais - como delação premiada, por exemplo.

Gestos ousados, atitudes corajosas. Mais do que nunca, os tempos atuais, em que os castelos de sonhos de velhas utopias ruíram, precisamos praticar ações que enobreçam e dignifiquem a mais bela das profissões.

(Júnior Bonfim, agosto de 2016)

PITACOS SOBRE A CIDADE


Amanheci com vontade de dar pitacos. Diversamente do que muitos possam imaginar, pitaco não é um palpite sem fundamento. É uma opinião. Em se tratando da coisa pública, ou sobre os rumos de uma cidade, a opinião pode ser emitida independente de solicitação.

Obviamente, estou pensando em uma urbe específica, mas pode servir para outras.

Dirijo estas palavras aos que se lançam à nobre tarefa de interpretar sonhos: os candidatos. Sim, candidato a cargo eletivo, representante do povo, líder popular não é senão um intérprete de sonhos, dos sonhos da coletividade.

Enquanto escrevo me vem à mente um personagem bíblico do Antigo Testamento: José, o filho de Jacó e Raquel, que ficou para a posteridade como José do Egito. Certamente um emblema em se tratando de revelação da essência daquilo que é só aparência.

Uma noite, o Faraó sonhou. Naquele transe onírico viu que sete vacas magras comiam sete vacas gordas e mesmo assim continuavam magras. Em busca de uma explicação, convocou todos os sacerdotes do Egito. Nenhum conseguiu. Apenas José, que estava preso, ofereceu uma interpretação convincente ao Faraó: o Egito passaria por sete anos de fartura e sete anos de seca, consecutivos.

Empolgado com a sua desenvoltura, o Faraó presenteia José com um anel de seu próprio dedo e o nomeia Adon do Egito, um cargo de expressão, tipo chanceler ou governador.
José, então, ordena que se construam celeiros para guardar a produção do Egito durante os anos de fartura. Nos sete anos de seca, José passou a vender os cereais dos celeiros reais a preço de ouro e conseguiu comprar para o Faraó quase a totalidade das terras do Alto Egito. O nome José significa “aquele que acrescenta”.

Bem representa os seus concidadãos aquele que, além de interpretar os signos das aspirações populares, se lhes acrescenta alguma coisa. E age. Semeia. Planta. Cuida. Colhe. E reparte. Como lembra Thiago de Mello, “é sonhar, mas cavalgando/ o sonho e inventando o chão/ para o sonho florescer”.

A primeira tarefa de um líder, preferencialmente um prefeito, é despertar a coletividade do seu município para a alteração cultural. Mudar a forma de raciocínio, transformar os nossos esquemas mentais. Libertarmo-nos dos grilhões que acorrentam a massa encefálica. A diferença que separa um município pobre de um rico, ou um estado ou um país, não é a idade, muito menos a quantidade de recursos naturais. A Índia é um país milenar e possui uma pobreza vultosa e aviltante. A Nova Zelândia é novíssima. E riquíssima também. A Suíça não produz um grão de cacau, mas vende o melhor chocolate do mundo.

Estudiosos revelam: a fronteira que separa países ricos e pobres se resume à observância de algumas formas de conduta essenciais: 1. A ética como princípio básico. 2. A integridade. 3. A responsabilidade. 4. O respeito às leis. 5. O respeito pelos direitos dos demais cidadãos. 6. O amor pelo trabalho. 7. O esforço para economizar e investir. 8. O desejo de superar. 9. A pontualidade.

A ética pode ser resumida em tratarmos os outros como desejamos ser tratados. Para isso, basta nos colocarmos no lugar do outro. Será que eu gostaria de ser tratado como estou tratando um servidor, um contribuinte, um cidadão comum? Estou sendo íntegro, responsável, respeitador das leis e dos direitos alheios?

Valorizo o amor ao trabalho ou premio apenas o meu grupo independente do mérito dos que o compõem? Combato a mendicância e o clientelismo? Priorizo projetos que incentivam a independência financeira? Ao invés de festejar a quantidade de pessoas recebendo bolsa-família, deveríamos comemorar sua diminuição. Quanto mais pessoas deixassem os programas de transferência de renda e adquirissem sua própria renda por meio de empreendimentos montados e gerenciados por elas, melhor. (Outro dia um amigo me perguntou: - Você já viu um japonês pedindo esmola? – Não, respondi. Ele completou: - Pois é porque eles desenvolveram a cultura do trabalho, essencial para o progresso.)

Se uma Prefeitura deliberar para gastar menos do que arrecada e for pontual no cumprimento dos compromissos já eliminará mais da metade dos seus problemas. O resto se resolve com o firme propósito da permanente superação.

Entendo que a campanha política é o espaço para se divulgar ideias; não intrigas. Planejar o futuro; não propagar futricas. Dissecar projetos; não denegrir pessoas. Sonho com isso. E esse sonho, convenhamos, de tão nítido dispensa interpretações.

(Júnior Bonfim, julho de 2016)

SÍMBOLOS PARA O ATUAL MOMENTO


Se pudesse, queria que, ao invés de um texto, destas letras brotassem mãos, mãos estendidas, mãos fraternais para lhes afagar com um abraço de amizade, oferecer-lhes o ósculo da paz e lançar as sementes de boas novas. Só isso!

Mas a magnitude deste momento, misto de uma imbricação de angústias conceituais com redescobertas de trilhas, nos impulsiona a compartilhar com vocês uma breve reflexão.

Como bem sabeis, o pontal simbólico é um estandarte que atravessou os séculos graças à auréola das significações que o acompanham. A linguagem simbólica visa tornar mais fácil o entendimento das mensagens.

Não por acaso Jesus, em sua peregrinação terrena, disse que falava por parábolas. Porque ficava incomodado com o fato de, nas suas prédicas, as multidões olharem e não enxergarem, ouvirem e não escutarem, apreenderem e não entenderem.

Para nós, os símbolos têm o significado que a etimologia original, do grego clássico, elucidou: sim (junto) e bailein (lançar). O sentido é lançar as coisas de tal modo que permaneçam juntas.

Pois bem. Como no universo do simbolismo nada ocorre por acaso, fico perquirindo por que somos protagonistas de um momento histórico tão carregado de pinhos e espinhos, de fortunas e infortúnios, de flores e dores, de astres e desastres!

O invisível bonde que nos transporta convida permanentemente para um ágape fraternal, a fim de nos banquetearmos saboreando as nossas raízes. Ou melhor, extrairmos a seiva dos nossos radicais e oferecermos um contributo frutífero às gerações presente e futura. Resgatarmos nosso passado heroico! Afinal, como nos ensinaram os latinos, ‘Historia magistra vitae est’, ou seja, “a história é a mestra da vida”.

Com efeito, é hora de lembrarmos que a nossa existência constitui um ritual de passagem, do qual devemos recolher e internalizar as lições emanadas do forno da sabedoria dos nossos antepassados. Observarmos o córrego que banhou os grandes mestres do território complexo das ciências, os que bailaram no emaranhado fonético do salão das letras, os que percorreram o jardim florido das artes.

Permitam-me salientar três exemplos que povoam as enciclopédias universais.

Cito Benjamim Franklin, elétrico patriarca das Américas, inventor contumaz, criador do para-raios, dos óculos bifocais, dentre inúmeras outras criações da sua mente prodigiosa. É exemplo de humano empreendedor.

A história registra o caso, por exemplo, de uma mulher, doente mental, casada com um homem desequilibrado em todos os sentidos. Alcoólatra e desocupado, estava longe de ser pai modelar ou marido referencial. Esse casal, no entanto, teve quatro filhos: o primeiro, doente mental; o segundo, paralítico; o terceiro, acometido de outra enfermidade séria; o quarto também deficiente. Mesmo com todo esse histórico de tragédia, a mulher estava grávida pela quinta vez. E esse quinto filho, que tudo apontaria para ter também uma vida desventurada, foi Ludwig Van Beethoven, um dos maiores gênios musicais da humanidade. Varão das artes. Gênio perpétuo e inolvidável.

Outro, no campo das letras, foi François-Marie Arouet, o francês Voltaire. Incondicional amante da liberdade, foi advogado dos oprimidos e escritor magnífico. Deixou frases insuperáveis em defesa da liberdade de opinião, como essa: “Não concordo com uma única palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-la.”

É disso que estamos precisando: para um País abatido por sucessivas tormentas ao longo de seus anos, a aura empreendedora de um Benjamin Franklin; para uma Pátria abalada por solavancos de temor quanto ao futuro, a audácia do exemplo de um Beethoven; para um Povo que se engalfinha em discussões estéreis, que tem dificuldade de conviver com a opinião alheia, que enxerga no pensamento divergente uma razão para se render à inutilidade da cólera e alimentar uma irracional divisão interna, o exemplo libertário de um Voltaire.

É disso que precisamos. Este o nosso desafio: estarmos à altura do que nos cobra este momento histórico. Que sejamos instrumentos dessa força revolucionária, capaz de sacudir as frágeis colunas dos nossos egoísmos e nos fazer enxergar o universo mágico da verdadeira vida, da existência que importa.

Enfim, queria que deste texto pudessem emergir mãos, mãos de labor e luz, que segurassem a trolha aplainadora das diferenças e nos convocassem para a magnifica e magnânima prática da tolerância e do amor!

(Júnior Bonfim, junho de 2016)

domingo, 22 de maio de 2016

AGENTES DA INVENCÍVEL BENQUERENÇA!


O encontro inicial assinalou a celebração do deslumbre! Sob a orientação do idioma universal dos gestos, embalados pelo manual invisível da música e a gramática indescritível da dança, há mais de cinco séculos Brasileiros e Portugueses se avistaram e se achegaram pela vez primeira em uma “terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril” – consoante registrou um fidalgo e escritor nascido na cidade do Porto na famosa “CARTA A EL-REI DOM MANOEL SOBRE O ACHAMENTO DO BRASIL”, pergaminho que veio a se tornar o marco zero da nossa literatura formal.

O primeiro jornalista-cronista, dito Pero Vaz de Caminha, nomeado para o cargo de escrivão da armada de Cabral, narrou naquela escritura histórica – um édito louvatório permeado de estupefação - o alto índice de espanto ante a nova e formosa geografia. Depois de registrar “alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas”, viu um “grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz”. Em seguida, avistou os homens: “eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”.

Desde ‘entonces’, como registrei em outra ocasião, nossa relação foi cunhada por um batismo de subjugação e, após passar por intempéries de rebeldia, experimenta agora a unção sacrossanta da harmonia.

Se, nesta noite envolvida pela brisa da afetuosidade, sob o cobertor confortante da envolvente ternura, aponto os lábios da História para compartilhar um breve sorriso das nossas primícias, não é senão para acionar a luminosa irradiação que emerge da nossa planetária rotatória denteada: os homens não estão separados entre europeus e americanos, asiáticos e africanos, mareados ou terráqueos, coloridos ou incolores, crentes ou ateus, desprovidos ou afortunados. O Rotary nos ensina que habitamos uma aldeota comum e somos caminhantes da mesma trilha fundamental, cujo ponto final é a paz universal.

Por isso saudamos e respeitamos as Bandeiras de todos os Países, entoamos o hino da ética como atitude que comporta todas as latitudes, somos convidados a cultuar a filantropia como pão de cada dia e a fazer da dilatação da fraternidade uma das nossas qualidades.

É esse flamejar apaixonado pelos sentimentos excelsos, a sensibilidade às notas musicais da vida, a devoção à generosidade desinteressada, o desejo de contribuir com o refinamento civilizatório e a disposição para garimpar os minérios do altruísmo que devem constituir a divisa, o emblema, o bóton, o distintivo de um verdadeiro rotariano.

Presidente Carlos Trindade Moreira: o Rotary Club Vila Real, com quem assinamos Termo de Geminação em 18 de abril de 2015, é um grêmio que nos brindou com a alegria de percorrer essa encosta ascendente das relações compensadoras. Os Presidentes Levi Torres Madeira e José Alberto Borges, a partir de um papiro informativo, o nosso Jornal Dunas Rotário, iniciaram as tratativas que culminaram com a assinatura do Tratado de Irmandade. Jamais olvidaremos aquela extensa recepção desde Vila Nova de Gaia, o mergulho na biografia dos vinhos, o bacalhau compartilhado à beira do Porto, a nevada subida a Vila Real, a solenidade magnificada pela presença do Reitor e do Governador, o passeio pelas esquinas bucólicas da cidade, a parada na lendária Pastelaria Gomes e as piadas da madrugada. Tudo se agregou às carrancas sentimentais do oceano que nos une.

Retorno ao escriba Cabralino para pontuar que, ao final da missiva, antes de saber se aqui havia “ouro, prata, nem coisa alguma de metal ou ferro”; Caminha escreveu: “Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá”. (Entre-Douro-e-Minho foi uma província do Norte Atlântico de Portugal, composta dentre outros pelos atuais distritos de Porto e Vila Real.)

Somos mais próximos que imaginávamos... Somos rebentos da mesma placenta: gêmeos univitelinos.

E o que sói acontecer com os nossos Clubes agora é isso: a maravilha de descobrirmos que não apenas os indivíduos mas também os seus coletivos organizados podem constituir uma unidade siamesa. Apreciamos não somente o mesmo tempero climático mas em especial igual temperatura fraterna, semelhante ao aperitivo de ternura produzido no Douro.

Esta sessão, com sua solene simplicidade, sepulta qualquer réstia de cisma e sacraliza nossa crisma, confirma nosso batismo na pia rotária e nos faz agentes da invencível benquerença!

Repito: somos gêmeos univitelinos: os sinos dos nossos grêmios de serviço emitem o mesmo som. Estamos sincronizados! Palpitam simultaneamente os nossos núcleos centrais, os nossos músculos vitais, os nossos órgãos de fé, as nossas fontes de emoções, ou seja, os nossos corações!

Unamos nossas mãos e saudemos essa doirada e duradoura geminação! Viva o ROTARY!


(Discurso proferido por Júnior Bonfim ao saudar a comitiva lusitana do Rotary Club Vila Real, de Portugal, no Salão Meireles do Ideal Clube, em 11.02.2016)

LIÇÕES DE UMA ACADEMIA!


Dignidades que ornam a mesa,
Cavalheiros e Damas,
Mocidade aqui presente: meu cordial boa noite!

Se no princípio foi a palavra, antes da palavra foi o silêncio. E no âmago de ambos, do silêncio e da palavra, o estalido da alegria, que neste início de ano nos caiu como uma luva através da milagrosa chuva, que faz explodir o verde, os reservatórios transbordarem, as pessoas resplandecerem. É sob esse entusiasmo benfazejo e contagiante que vos falo...

Orienta o protocolo desses eventos de transmissão de cargo que o sainte preste contas. Perdoem-me se a isso me oponho: é que o acho enfadonho. Suplico, assim, a vossa generosidade compreensiva para, espancando o couvert do formalismo, fazer uma concessão à amenidade, realizar um breve convescote familiar, pronunciar algumas sílabas de intimidade e desenvolver uma conversação de camaradagem.

Não vou debulhar o milho da nossa safra literária ou desfiar o nosso rosário de ações, tampouco listar as realizações deste Sodalício que, em apenas um decênio, já se firmou como um lampadário respeitado na Terra da Luz. Apesar de ainda faiscar os olhos com as estrelas da infância, a AMLEF já caminha com elegância e galhardia pela trilha madura do aprendizado de Sofia.

Pretendo repartir convosco breves lições que aprendi e apreendi neste biênio que se encerra hoje, lições que cimentaram indelevelmente o singelo pórtico da minha alma.

Desde quando descobri que agradecer agrada ao ser, resolvi reposicionar a bússola do meu existencial curso, lançar mão de outros recursos e refazer percursos. Permitam-me nesta noite que apenas abra as modestas janelas do meu coração, a fim de que, por elas, se esparramem os galhos do meu flamboyant de emoção. Por isso uma palavra, soletrada como a melodia de uma canção, é o emblema desta ocasião: a doce gratidão.

Grato sou a cada um de vocês. Distingo, por impulso da gratuidade, aquele que me indicou e o aço dessa indicação significou uma campanha (a primeira em minha vida) em que fui eleito sem pedir votos: Seridião Correia Montenegro! Neste mandato tudo foi breve, porque o suposto fardo se quedou leve, graças à conjunção de mentes e mãos, prédicas e práticas, intenções e gestos protagonizados por nosso colegiado de artesãos literários.

Acho que os Catalães foram radiosamente felizes quando batizaram o órgão executivo das suas municipalidades de ‘ayuntamiento’ (ajuntamento, entre nós). Essa palavra resume a nossa Arcádia. Esta uma inolvidável lição: para nós, gestão é sinônimo de agregação. Bombeadores do oxigênio cerebral, constituímos um mosaico militante de trovadores contra as trevas, arco-íris de carpinteiros das palavras edificadoras. Ao invés do culto à personalidade, cultivamos o elogio à coletividade. Substituímos a exaltação da individualidade pelo louvor à pluralidade.

A tarefa de um sementeiro das letras é a aproximação dos seres. Neruda ensinava que “o primeiro dever do humanista e a tarefa fundamental da inteligência é assegurar o conhecimento e o entendimento entre todos os homens”. Conhecimento e entendimento não se esgrimam; ao contrário, rimam! De nada adianta os dispêndios com o cumular de compêndios se não mitigarmos os humanos vilipêndios. Despiciendo aplaudir a eloquência se descuramos da benevolência.

Com efeito, mais do que comemorar a façanha de termos atravessado o oceano para ser a primeira arcádia cearense a lançar a Antologia UM DEDO DE PROSA, OUTRO DE POESIA no Salão Internacional do Livro de Genebra, na Suíça, quero celebrar o fato de, sucessivamente, batermos recordes no aumento do nosso IDF - Índice de Desenvolvimento Fraterno. Nossas reuniões mensais - assim como nossas redes virtuais, que antes de tudo são reais - constituem pequenos banquetes de afeto, festas de integração. Destaque merecem as nossas parcerias humanitárias e sociais com a Casa de Afonso e Maria, a ALASAC (Academia de Letras e Artes da Sociedade de Assistência aos Cegos) e a Secretaria de Justiça, com quem conveniamos para a consecução do Projeto “Remição pela Leitura nos Estabelecimentos Penais”. E por que esse relevo? Porque, como já mencionei em outra oportunidade, a razão de ser do escritor – e dos seus coletivos organizados, que são as academias – é a de contribuir para que as galinhas se transformem em águias, é fomentar a proliferação de vaga-lumes nos obscuros túneis do tempo, é ser fresta de luz na caverna platônica, é proclamar a civilização da claridade e o império do amor.

Antes dos Titãs cantarem “a gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte”, o Jovem Jesus já havia proclamado que “não só de pão vive o homem”. Eis, Senhoras e Senhores, a aspiração oracular da literatura: reabrir diariamente a padaria espiritual e lançar o fermento sobre a massa do pão da eternidade, o único capaz de mitigar a nossa fome de altruísmo, o vácuo de caráter e a ausência de conteúdo.

Felicito a Diretoria que assume, coesa na busca da fertilidade literária exposta ao brilho do sol e ao sal da terra. Saúdo todos na figura fidalga, de sofisticada simplicidade e energia radiante, da Presidente entrante Grecianny Carvalho Cordeiro.

Diva da iniciativa, instrumento do talento, a nossa Grace - como a outra Grace, de Mônaco – nasceu para percorrer a alameda das grandezas e segurar o facho prodigioso do estrelato. O Carvalho que irrompe do chão do seu nome é o mesmo da raiz latina, ‘robur’, sinônimo de robustez e majestosidade – garantindo-lhe a performance essencial que controla trovões e tempestades. A porção Cordeiro, que ela incorporou do esposo Helder, haverá de transferir para os seus confrades, porque doravante ‘cordeiros’ seremos nós, seus liderados; e ela, a nossa Pastora. Namastê – o Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você!

(Júnior Bonfim - discurso proferido na Solenidade de Posse da nova Diretoria da AMLEF – no auditório da Procuradoria Geral de Justiça, em 28.01.2016)

ROSA MORAES FOI PINTAR PAISAGENS NO CÉU!


“Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás.” Esta citação está em Eclesiastes 11,1.

À primeira vista é difícil entendê-la: o pão, lançado sobre as águas, certamente depois de muitos dias tende a se diluir. Por que a máxima bíblica assegura que o acharemos?

A Bíblia é um livro parabólico, carregado de expressões figurativas. Segundo historiadores, era costume egípcio, herdado dos hebreus, o lançamento de sementes de trigo sobre as águas nas margens do rio Nilo. Quando as águas baixavam, elas brotavam e produziam trigo na entre safra trazendo, portanto, pão para os famintos nos tempos de mesa escassa.

Rosa Ferreira de Moraes, que nos deixou dia 12 de dezembro de 2015, foi pintar paisagens no Céu porque era uma mulher de fé!

Há dois anos, precisamente no dia 26 de outubro de 2013, partilhou o pão centenário, aprendeu a dadivosa extensão dessa Eclesiástica assertiva bíblica: celebrou um século de lúcida e lúdica existência rezando a Santa Missa na mesma Igreja em que se batizou, lançando um livro biográfico no Teatro que leva seu nome, sendo diplomada como honorária da Academia de Letras de Crateús e colhendo homenagens fiadas por familiares, autoridades e amigos na Cabana Mendes, clube de um parente seu.

1913. Ano de seu nascimento. Estados Unidos da América. Henry Ford concebia a famosa “linha de montagem”, revolução na engrenagem de trabalho capitalista que combinava componentes estandardizados, movimento mecânico, equipamento de precisão e processos padronizados.

1913. Rio de Janeiro, Brasil. Nascia, na cidade maravilhosa, o extraordinário poeta Vinicius de Moraes, que embalou a humanidade com algumas das canções mais entoadas no Planeta.

1913. Tagore, o místico poeta indiano a quem o Mahatma Gandhi se referia como "o grande mestre", ganhava o Premio Nobel de Literatura por sua Oferenda Mística. Tagore pontificou que “o homem só ensina bem o que para ele tem poesia”.

1913. Crateús, Ceará. 26 de outubro. Nascia Rosa Ferreira de Moraes. Contraponto aos equivocados e desumanizadores sinais dos tempos; ponto de encontro dos mais elevados valores que a higidez humana podia almejar.

Rosa musicalmente fez do trabalho a sua vida; e da sua vida, o trabalho. Não esse enfadonho labor fundado na individual ambição, mas aquele sintonizado com a transcendental compreensão do serviço de edificação.

Lecionou bem, com o espasmo sereno da verdadeira alegria, porque pincelou a faina com poesia!

Quando o ventre da História, por intermédio do casal José Olímpio de Moraes e Maria da Conceição Ferreira Moraes, pôs Rosa Ferreira de Moraes para abraçar a madrugada do mundo, estava lançando sobre a terra um lírio especial da flora humana.

Na noite do natalício centenário, invisivelmente postada na varanda do firmamento, sentada no trono magisterial de sua urbe, comandando o círculo dos discípulos de sua tribo, Rosa nos convidou para uma breve liturgia de amor.

Com o que podemos comparar Rosa?

Quando estendemos a retina por todo esse mágico bioma que nos circunda, facilmente se conclui que a nossa veneranda professora guarda similitude com o nosso principal estandarte: a elegante, expressiva, multifacetária e imponente Carnaúba!

Visivelmente majestosa, aparentemente solitária como as Carnaúbas – que, no entanto, possuem a fidalguia da palmeira imperial – Rosa tinha nas veias abertas do coração a nobreza de princípios.

Da aparente solidão que exibia descobrimos um ser completamente doado à interação com o próximo e ao serviço à comunidade. Da tua palha, Rosa, confeccionamos a vassoura que varre os nossos defeitos de caráter; o teu tronco, Rosa, se transforma na bancada que agrega a família ou no teto que oferece a sombra da reflexão; a tua cera, Rosa, alisa o piso da nossa alma e faz brilhar os talentos do nosso espírito!

Salve, centenária ROSA FERREIRA DE MORAES, sacerdotisa da educação, mestra da pintura, irmã da música, jardineira da fé, semeadora de bons costumes, legenda referencial!

Abençoada sejas, per sécula seculórum, pelo século dos séculos! Viva!

(Júnior Bonfim, 15 de dezembro de 2015)

domingo, 24 de abril de 2016

A SABEDORIA DO SABOR!

Leda Maria, desenhista das partituras sociais da envolvente sinfonia, colunista das molduras da concórdia e da alegria, estrelada pastora dos azulados búzios da poesia, agora nos surpreende com uma nova iguaria: um livro todo dedicado à gastronomia! Em verdade: “Família, Gastronomia e Sociedade”, os três córregos da efetiva afetividade.

Um livro talentosamente talhado é como um prato bem elaborado: há que ser suave e pacientemente degustado!

Este álbum memorial tem sol e sal, esmero e tempero, prazer e saber, amor e sabor. Aliás, saber e sabor vêm originalmente do mesmo habitat: basta mirar a fonte cristalina da palavra latina ‘sapere’ que encontraremos ‘saborear’. Por isso Horácio, poeta das odes do amanhecer, legou-nos o lema “sapere aude”, que significa “ouse saber” ou “atreva-se a saber”.

Com a serena solenidade de quem sai de uma vigília, Leda teve esse ímpeto de ousadia, juntando energia e mobília para compor um delicado mosaico com doze famílias e nos brindar com o itinerário generoso de suas gastronômicas trilhas.

Eis aqui um refinado manto que nos remete à civilização do encanto. Leda recompõe a alameda sentimental que nos transporta à nossa bela época tropical. Ao dobrarmos cada folha é como se fizéssemos uma escolha. Por um verbete vemos abrir os portões de um palacete; em outro momento, a varanda de um apartamento; noutro plano, um pascal sítio serrano.

Cresci auscultando falarem por toda parte que a culinária é uma arte. Por tudo que vi e ouvi, com essa assertiva sempre assenti. É fascinante descobrir e experimentar o que o casamento de ingredientes pode proporcionar.

Mas, além da arte e da candura, a culinária possui o aperitivo da cultura. Ao redor de uma mesa fraterna, a existência torna-se mais terna. A petição da radiante ventura é deferida e se descobre a fortuna de celebrar a vida. Há espaço para a tenebrosa travessia e para o arroubo de megalomania. Analisa-se o todo do mundo e o raso pires torna-se profundo.

Sem maiores exercícios de empenho, pelos poros da culinária brotam estrofes de arte e engenho, os suores revitalizantes da luta, os incensos da mítica labuta, o frio ardente da ternura, as calorias transcendentais da cultura, as frutíferas árvores da memória, os contagiantes orvalhos da História!

(No universo do religioso simbolismo, a mesa atingiu o ápice do misticismo. O Jovem de Nazaré, que na relva da humildade foi Rei – segurando o vinho e o pão com solene afeição - disse: comei e bebei! Desde então, para quem se proclama cristão, o móvel em que se serve a refeição é também um espaço de sagrada comunhão!)

Este livro é um portal de diamante, que se abre para receber os comensais de um banquete fascinante. Há nele o olor da especial predileção, o inconfundível aroma da envolvente sedução. A gastronomia, ordenamento jurídico do estômago e de sua fantasia, está acompanhada de outra peculiar alegoria: o roteiro de especialista montado por cada protagonista.

Como referencial de uma boa mesa, Abelardo elegeu a cozinha tailandesa, enquanto Cassandra, do ponto de vista da beleza, é apaixonada por aparelhos de louça inglesa. Em se tratando de fruta, Dona Beatriz escolheu a manga; enquanto Mana celebra a páscoa no ameno clima de Guaramiranga. Esta cultua o santo Francisco com fé, herança dos tempos de Canindé; aquela revela um segredinho: o toque da doçura em uma taça de vinho. A paulista Cybele espancou o preconceito e elegeu o baião de dois como um prato conceito. Dama das artes, Ignez Fiúza repontua o momento supréme do famoso La Boheme, espaço créme de la créme.

Porque trata da sabedoria do sabor, este é um caderno de raro esplendor. É para ser apreciado em um lugar aprazível, pois trata de um tema sensível. Ou melhor, daquilo que deve estar em primeiro plano: a essência do humano!

(Júnior Bonfim, no Prefácio do livro “Memórias Gastronômicas de Famílias Cearenses”, de autoria da Jornalista Leda Maria, Fortaleza, Ceará)

O DIA DE FINADOS E A VIDA APÓS A VIDA!

Sempre ao derredor do dia em que celebramos os que deixaram o nosso convívio, direcionamos a nossa atenção para a mesma coisa: a estrutura física dos cemitérios – que popularmente alguns chamam de campos santos - o estado de conservação dos túmulos etc.

Raramente, ousamos reflexionar além disso; dificilmente, adentramos no âmago da questão: - Qual o sentido da existência? - Qual o verdadeiro significado da vida? - Por que resistimos à morte?

Os ocidentais temos muita dificuldades de tratar desse tema. Em que pese as vistosas conquistas que temos obtido na esfera tecnológica, ainda tratamos o tema da morte como um tabu. Ensinam-nos a negar a morte e a internalizar que ela nada significa, a não ser aniquilação e perda. Vivemos a negá-la. (Para ser sincero, eu mesmo via de regra resisto em escrever sobre o assunto...).

É tão forte e arraigado este pré-conceito que falar da morte é considerado algo mórbido, e – pasmem! - corriqueiramente julgamos que a simples menção a ela pode atraí-la sobre nós.

Noutro extremo, há também quem encare a morte de maneira quase ingênua, frívola ou irracional: “se chega para todo mundo, não é nada de mais. Vai chegar prá mim também. É absolutamente natural”. Ambas atitudes estão pouco próximas da com-preensão do verdadeiro significado da morte.

O professor Sogyal Rinpoche, que nasceu no Tibet e é um dos pioneiros na promoção do diálogo entre a Ciência e a Espiritualidade, leciona que “todas as tradições espirituais do mundo, inclusive, é claro, o cristianismo, dizem explicitamente que a morte não é um fim. Todas falam em algum tipo de vida futura, o que infunde em nossa vida atual um sentido sagrado. Mas, não obstante esses ensinamentos, a sociedade moderna é um deserto espiritual em que a maioria imagina que esta vida é tudo que existe. Sem qualquer fé autêntica numa vida futura, a maioria das pessoas vive toda a sua existência destituída de um sentido supremo”.

Segundo o mestre budista, são desastrosos os efeitos dessa atitude de negação da morte. Vão além da esfera individual, afetam o planeta inteiro.

Disso resultou o aço opressivo que pesa sobre nossos ombros: uma sociedade acorrentada por padrões comportamentais equivocados, que salpica de lama os valores mais sublimes do humanismo. Rendidas pela completa permissividade, as pessoas acham que obrigatoriamente têm que ser “modernas” (no sentido pejorativo do termo),

cultuam uma rebeldia sem sentido, priorizam ser “sexy” desnudamento completo, em todos os sentidos, por dentro e por fora.

Disseminou-se uma falsa cultura de saúde total, em que padrão de beleza rima com excessiva magreza, que substituí a natural alegria pelo espectro da anorexia.

O resultado desse caldo insípido é um banquete surreal, no qual predomina um cardápio composto por dois ingredientes desprovidos de sedução: uma incontida decepção e uma crescente frustração.

Que estrada estamos a percorrer? Que farol poderá nos guiar? É difícil responder. Certo é que, se quisermos continuar, temos que urgentemente começar a mudar.

Como bem asseverou Charles Chaplin: “O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.

Supondo que esta vida é única, não desenvolvemos uma visão de longo prazo e, tomados pelo egoísmo, passamos a saquear o planeta em que vivemos para atingir nossas metas imediatas. E isso pode ser fatal no futuro.

Neste mês de novembro, em que celebramos o dia de finados (que deveria ter outro nome, pois finados diz respeito a falecido e encerra uma compreensão da morte com “fim” – o que não é o caso), alimentemos, como Raymond Moody, a forte e viva esperança de que há, de fato, uma “vida após a vida”.

(Júnior Bonfim)

CHICO ROSA!

1985 ou 1986. O ano não recordo precisamente, mas a voz de trovão, com tintas proféticas, do doutor Chico Barros, permanece indelével na minha memória:

- “Júnior, anote aí: há uma novidade na política de Nova Russas que atende pelo nome de Chico Rosa. É um jovem simples e arrojado, cheio de ideias inovadoras, que está fadado a ser o futuro Prefeito daquela cidade.”

De fato, em 1988, Chico Rosa liderava a primeira de uma série de empreitadas urnísticas vitoriosas. Na sua sucessão, indicou o então parceiro de lutas Luis Acácio e mergulhou intensamente nas atividades de campanha. Acácio foi eleito. No prélio de 1996, como em um teste pessoal, submeteu ao veredito popular a sua cara metade, Iranede Veras, e também logrou êxito. Após uma tentativa frustrada em 2004, saiu do exercício ativo da política e hoje cultiva um bom relacionamento com todas as forças políticas que atuam em Nova Russas, de modo que o seu nome é sempre citado com destaque em qualquer enquete popular.

No seu percurso de militância direta, estendeu-se entre nós um fio relacional a partir da afinidade com um amigo comum: Manoel Veras, naqueles idos um operoso representante do povo dos Sertões de Crateús na Assembleia Legislativa, de quem éramos eleitores e cuja amizade continua até hoje.

O fato é que sempre notei em Chico uma indisfarçável intimidade com o nosso bioma: suas mãos parecem ir ao encontro de raízes, seus olhos não disfarçam a afeição pelas árvores, sua alma se alimenta com a nossa flora, seu coração palpita em melodia ante o deslumbre invisível da nossa geografia.

Não por acaso escolheu ser engenheiro agrônomo. Decifrar os signos que ornam a agronomia, ciência que cuida das leis do campo ou da terra (agro: campo, terra; nomia: lei), é uma tarefa superior. Chico Rosa se desincumbe dessa missão com alegria e paixão. Quando o vejo absorto em pensamentos fora do chão, imagino que está mergulhando serenamente nas nossas croas, nos nossos serrotes e várzeas; enfim, nos subterrâneos da nossa desafiadora região.

Chico é dado ao espetáculo da inovação, à ousadia do pioneirismo, à arte de surpreender. Pouco tempo depois de formado, mirando o exemplo da iniciativa privada do Sul e Sudeste, fundou o grupo EMPA (Empresa Municipal de Projetos e Assistência Técnica e Agropecuária), que veio a ser a primeira empresa de assistência técnica rural do interland cearense.

Na política, apesar do legado da tradição paterna (seu pai governou Nova Russas na década de 1960) deixou uma marca própria: a vanguarda visionária, o pendor desenvolvimentista e a primazia das políticas sociais em favor dos mais carentes.

Porém, o ápice da trajetória, o experimento de glória, a página doirada da sua história estava reservada para ser escrita com sílabas de sobriedade, exatamente quando o empolgado agrônomo conhecesse o vale da maturidade: a ideia de Reflorestar o Semiárido gerando uma fonte de renda para os produtores rurais. Ou seja, uma harmoniosa combinação de sustentabilidade ambiental com alteração da paisagem econômico-social.

(Jamais esqueci o dia em que ele entrou no meu escritório para narrar, com entusiasmo adolescente, seu Projeto Poupança Verde, baseado no plantio de espécies florestais nobres de Cedros, Mognos, Ipês e outras, a partir da irrigação por gotejamento, em vários Municípios do Ceará e já com contatos para iniciar no Rio Grande do Norte e no Piauí. E mais: tudo isso em pleno período de extensa estiagem, o que só confirma ser uma excelente alternativa convivencial para o Semiárido).

É óbvio que esse fantástico lampejo não surgiu como um relâmpago. Como as boas sementes, que dormitam pacientemente na terra à espera do sagrado momento da germinação, esse Projeto é a colheita obtida após vários invernos de pesquisa.

Como os bons amantes da sabedoria, que experimentam o efeito benfazejo e multiplicador da partilha, Chico resolveu disponibilizar esse acervo técnico e humano para quem interessar possa através desta obra intelectual.

Este livro, marco no estudo sobre Reflorestamento no Nordeste, é mais que um simples contributo à alteração paisagística e ambiental da Caatinga. É o pulsante testemunho de um homem que revela ser possível, com ações simples, alterarmos o desafiador e complexo panorama do Semiárido Nordestino.

As páginas deste trabalho nos convidam para o estudo da beleza ou a reflexão sobre as infinitas possibilidades da nossa Natureza.

Vivemos o mais delicado momento de passagem da história humana. Mais do que a busca por Democracia – poder nas mãos do povo – a humanidade, até sem o saber ou verbalizar, anseia ardentemente pelo advento da Biocracia – poder nas mãos de todos os seres vivos (animais, plantas, águas, paisagens e todos os elementos da natureza).

Salve!

(Júnior Bonfim, na apresentação do Livro Reflorestamento do Nordeste, de Chico Rosa)