quarta-feira, 24 de abril de 2019

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS



Dignidades que ornam a mesa,
Damas que aformoseiam,
Cavalheiros que abrilhantam
E mocidade que empresta mais fulgência às lâmpadas deste Palácio de Luz:
Meu cordial boa noite!



Impulsionado pela deferência da indicação para, em meu nome próprio e de três férreas e finas fêmeas, articular as sílabas de gratidão, sinto simultaneamente o latejar estrelado da honra e a inquietante fagulha metálica do assombro feito desafio.

(Suponho ser esta a vez inaugural em que profiro uma oração acadêmica na solitária e afortunada condição de bendito entre mulheres...).

Principio homenageando a cálida Casa que nos acolhe em nome daquele que a representa ativa e passivamente, o seu Presidente Seridião Correia Montenegro! Fraterno amigo, bondoso companheiro, Seridião alcançou o Tibet da montanhosa cadeia existencial após uma portentosa senda de imersão axiológica e inversão cronológica. Além de se ressintonizar com os valores duradouros que são, para o mundo, pilastras de sustentação, o atual comandante desta Arcádia experiencia o milagre da permanente renovação. Saulo Ramos, o renomado jurista que, nos píncaros da maturidade, virou romancista e poeta, confidenciou: “Sempre que escrevo um poema tenho menos de vinte anos. Não importa minha idade. Tenho menos de vinte anos quando a poesia me desassossega”. O que ocorre com Seridião não é muito diferente: eis um varão maduro e decente que a literatura tornou adolescente.

Mais do que um preceito de regência, tornou-se um dispositivo pétreo nos grêmios que evocam o sítio de Akademus e, sob o mesmo arrimo histórico, as pilastras regimentais da Academia de Richelieu – que, aprovado o ingresso, os recipiendários balbuciem notas básicas de auto apresentação e, sobremaneira, referenciem o assento patronal que ocuparão.

Por isso, como um modesto puxador de bateria, retiro o chapéu invisível e estendo a mão para saudar as divas da noite, todas detentoras da notoriedade curricular. Adianto que optei pelo ritual da brevidade, tão cultuado nos dias atuais, bem como as mencionarei em ordem alfabética, porque indistintamente exibem igual ordem de relevância.

A primeira é oriunda de um dos mais belos espaços da nossa sedutora geografia, cujo corpo resta dotado de voluptuosos seios de pedras que chamamos de monólitos. Ela ainda engatinhava pelas babugens redacionais quando, em Quixadá, recebeu de Rachel de Queiroz o óleo batismal para brindar o planeta com a arte de coser as linhas da língua, ornamentar os causos e nomear as cousas – não sem antes receber a admoestação de que deveria priorizar as falas e os costumes do ambiente nativo. Proprietária da editora Sol Literário, tem o magistério como estuário. A consultoria é um dos seus pilares, além dos projetos que toca no Colégio Antares. Para ela foi reservada a cadeira de número 04, que tem como patrono o médico mítico, historiador que fez história, libertador e militante abolicionista, Guilherme Chambly Studart, o Barão de Studart. Anuncio que sucederá a Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos no quarto assento desta Casa a professora, poetisa e romancista Angélica Cecília Freire Sampaio de Almeida.

A segunda é um presente que ganhamos da terra de Genuíno Sales. Nascida na bela Teresina, a Cidade Verde, também conhecida como Mesopotâmia Brasileira (porque banhada por dois rios: o Poty e o Parnaíba), ela exibe diploma de mestrado educacional e sentimental. Como os lençóis freáticos de seu estado natal, ela carrega nos subterrâneos da alma um aquífero copioso, uma fonte termal de envolvente ternura. Missionária da inclusão social, hasteia diariamente a bandeira da acessibilidade, abrindo mentes e dobrando corações para que tenhamos um aumento da produção livresca em braile. Partiu dela a ideia de que esta festa fosse animada pelo Antoniel Batista e equipe, que, a despeito de problemas oculares, se revelam brilhantes artistas. Premiada aqui e alhures, essa mulher de espírito musical vai cuidar da poltrona que tem como patrono o compositor, pianista, organista e professor Alberto Nepomuceno. Para suceder a escritora e poetisa Rita de Cássia Araújo na cadeira 02, apregoo que a Academia Fortalezense de Letras disporá do talento e da genialidade de Elinalva Alves de Oliveira.


Proclamo, com eco em todas as Colunas deste Edifício, que a terceira empossada nasceu sob a brisa de Iracema e sempre esteve destinada à ribalta. Sabemos que, conforme a lição sagrada, a candeia não pode ser posta debaixo do alqueire. A luminosidade desta dama está na fronte e tem como fonte uma secreta palma que brota do sacrário d’alma! Carrega em si a solenidade da simplicidade. Esbanja a fidalguia da singular alegria. Há poucos dias, neste mesmo salão, teve celebrada a sua triunfal entrada na mais alta Casa de Letras estadual. Ariana, combina alento e movimento. Tem o espírito pascal: seu foco é sempre o essencial. Por isso, apraz-nos acompanhar, com indisfarçável fascínio e fulgor admirativo, cada nível que ela sobe no podium das olímpicas conquistas. Ela vai lustrar a poltrona auspiciada por um vanguardista em planos e posturas que revolucionaram a atmosfera Alencarina, o Senador Pompeu, e que estava, até bem pouco, sob a guarda do médico, orador, escritor e cantor Maurício Benevides. Doravante zelará pela cadeira 39 a doutora Grecianny Carvalho Cordeiro.

Quanto a mim, catecúmeno que aprecia o ritual da poesia, gerado à sombra de uma frondosa oiticica na ribeira do Poty, posso lhes adiantar que fio minha vital fantasia sob três efes: o forense (abracei a profissão de Santo Ivo), o familiar e o filantrópico-literário. Minha carreira de vida, ou curriculum vitae, é germinação de jitirana, cultivo terreno de básicas crenças celestes como a do efeito invisível do fermento no alimento e na mão do Onipotente conduzindo a vida da gente. Minha rotina se concentra em acariciar a aurora com o ósculo da gratidão, pois tudo que em nós se faz verso é mimo do universo; estender as mãos e dilatar a ternura para o lócus afetivo primeiro, que é essa interativa ilha chamada família; manter acesa, e com fidelidade, a fogueira da amizade; adentrar nos fóruns aquecidos pelo sol do nosso sertão e nos tribunais bafejados pela brisa do litoral com alegria e paixão; laborar pela geral felicitação, a partir da compreensão de que uma existência digna e saudável há de ser um bem colocado em comunhão. E aqui, na cadeira 12, farei uma dúzia de esforços para lapidar minha rima sob os auspícios do maiúsculo poeta e educador Filgueiras Lima. Ele, que lecionava com a solenidade litúrgica de quem rezava, certamente me estenderá a mão no cumprimento dessa missão. Com o apoio do saudoso Genuíno Francisco Sales, meu dileto antecessor, farei desta empreitada um ofício de amor!

Academia Fortalezense de Letras! Passamos hoje pelo teu imperceptível túnel de espadas e pisamos o tablado do teu dispositivo reverencioso para receber a unção de luz e celebrar a renovação dos votos sacramentais de culto ao idioma!

Adentrar no teu Pórtico, no entanto, reclama mais. Muito mais! Exige que esse consórcio afetivo se estenda à cidade que representas, a Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção!

Mulher híbrida, águia bicéfala, ora se nos apresenta como uma arrebatadora morena, uma virgem com lábios de mel; ora nos sacode com o desfilar deslumbrante de uma loira desposada do sol. Fortaleza revira-se na cama dos desejos ansiando por impulsos vitais, como que a implorar um solavanco inédito, como que a almejar a inauguração de um tempo de realização de intuitos nunca dantes imaginados.

Ao sermos admitidos nas colunas desta Confraria e nos dispormos a decifrar os hieróglifos do presente, não podemos descurar do solo em que pisamos, uma urbe de punho e pujança, de velas e ventos, de aldeota e varjota, de verdes mares e escuros esgotos, de coco e cocó, de jardim das oliveiras e vila união, de conjunto esperança e praia do futuro...

E aqui, para não abusar da vossa generosa paciência, ousamos compartilhar uma ponderação derradeira, que imaginamos ser comum a todos os que caminham pela orla do tempo mirando o oceano das humanas possibilidades.

No escuro da noite ou no clarão do dia, estamos sob uma travessia. A indagação que se agiganta parece simplória: o que está na raiz dessa inquietude civilizatória?! Qual o motivo dessa turbulência conceitual, dessa confusão de papéis que soa irracional?!

Na raiz de todo esse embaçamento, que a cada dia se agrava, está a nossa relação com a Palavra...

E o que nos dizem os mais qualificados guardiões do verbo, aqueles por cuja verve o oráculo ferve?! Revelam que a palavra é poder fundante, manancial fecundante, pia que tudo cria, inalcançável monte, inesgotável fonte!

Ai, Palavra! Oh, Palavra, como és açoitada, ultrajada, banalizada, vilipendiada...

O maior desafio às gerações atuais não é senão te retirar da sala dos passos perdidos em que te lançaram e reconduzir, como merecimento albergado, ao teu altar sagrado!

Deveríamos ter, em nosso músculo de articulação fonética, uma balança e uma fita métrica, a fim de realizarmos um filtro prévio dos nossos esperneios verbais. Porque os vocábulos, mademoiselles e varões, os vocábulos têm pesos e dimensões. Não deveríamos deles lançar mão sem o experimento antecedente da valoração. A lâmina do insulto, o petardo da injúria, o torpedo da calúnia, a explosão difamatória e tantas outras violações ao sacrário da intimidade alheia poderiam ser evitadas se antes de proferirmos os veredictos maledicentes os submetêssemos às peneiras Socráticas...

Sobretudo, deveríamos optar pelo uso frequente da palavra em sua forma de brasa mais ardente: a não palavra, aquela que produz o barulho mais estrepitoso, o silêncio cerimonioso.

Não desistamos da tranquila alegria. Vivemos sob uma aragem que prenuncia uma catarse. Atinge-nos uma rajada de purgação. Pisaremos a plataforma da libertação!

Se entre nós estivesse, Carlos Drummond de Andrade certamente diria, com seu moderado elã, que lutar com palavras é a luta mais sã.

Eis que, sob o candeeiro dessa prédica, nossa prática condoreira, além da virtude guerreira, ganha também vestimenta alvissareira. Por ela, descobrimos o mais atual excerto: o mundo tem conserto! É através da lavoura da palavra, em especial do seu semear mais profundo, que poderemos realizar a assepsia do mundo!

Aqui chegamos, irmãs e irmãos dessa agremiação literária com cheiro de mar e plena de luz solar, para simplesmente somar. Cada um de nós traz nas mãos um punhado de húmus, em seu duplo significado latino de terra e humildade. Vimos para jurar o exercício do sagrado ofício de todo ser que se dedica a cunhar éditos, doirar pergaminhos, fiar missivas e esculpir escaninhos: cumprir a tríade criar, caminhar e cantar!

Criar. Ao semeador da palavra cabe a humana tarefa de animar os semelhantes no labor onírico da criação. Todos somos convidados a pertencer ao que é fecundo e germinal: à vontade de nascer – das sementes; à teoria silenciosa – das noites; à fúria juvenil – dos ventos; à claridade derramada – das manhãs; à floração colorida – das primaveras!

Caminhar. O magistério dos mestres do Oriente nos legou que o Caminho, ou o Tao, é o principal, o essencial. “Se você conhece o Caminho, conhece o objetivo, pois o objetivo não está no final do percurso, mas ao longo de todo o Caminho; a cada momento e a cada passo ele está presente”. (Osho)

Cantar. Cantar é fazer a alma bailar. Como leciona a sabedoria popular: devemos cantar para os males espantar. A canção traz em si o gérmen da verdadeira emancipação. Cantar atrai calma, engrandece a alma! – segundo nos revelou a Mãe do Mestre.

Criar, caminhar e cantar resume a trajetória do escritor perante a História.

Criemos, caminhemos, cantemos!
Pois para isto nascemos!


Gracias!
Merci!
Thank you!
Obrigado!

(Júnior Bonfim, na noite de 23 de abril de 2019, no Palácio da Luz, Fortaleza, Ceará)

domingo, 27 de janeiro de 2019

FREI HERMÍNIO BEZERRA



Frei Hermínio e eu somos oriundos de um mesmo e sedutor aquífero familiar, situado sob o leito do Rio Poty, nos sertões de Crateús. Somos parte de uma Pátria comum, a Pátria Alexandrina, o clã Bezerra Bonfim, cuja fundação ocorreu por engenho de um Ferreira Santiago - militante do servir, nobre de alma, usuário do gibão, rebento da civilização do couro que se tornou Promotor Público e foi registrado por uma tia, dita Bela, como Alexandre Ferreira do Bonfim.

A bússola do destino me conduziu para os poços termais da advocacia e crismou Frei Hermínio como um missionário da fé e confessor das sílabas ousadas. Juntamo-nos aqui nesta loira cidade desposada do sol, no terreiro da Academia Metropolitana de Letras de Fortaleza (AMLEF), ao lado de outros amantes das letras que trazem no peito as orquídeas das nossas serras ou exibem na pele as jitiranas do nosso sertão ou conservam na espinha dorsal a altivez dos coqueiros do nosso litoral. Todos, cortejando uma índia de lábios de mel de nome Iracema, beijamos a sagrada flor da literatura, piano divino que torna mais doce a existência.

A Literatura é uma literal criatura cujas raízes costumam nos consumir do talo dos pés à palma das mãos. Costumeiramente, lança-nos à légua tirana das rotas surpreendentes, sob o tufão do espanto e da admiração. A trilha Herminiana como bandeirante dos radicais fonéticos, tal qual os percursos do trem da sua infância, está marcada por algumas indeléveis estações. Ele mesmo as cita: Rosa Ferreira de Moraes, a primeira Professora, sacerdotisa da educação à margem do Rio Poty, na Crateús do Senhor do Bonfim; Fernanda e Helena Mattos Brito, na terra do pássaro vermelho, a aprazível Guaramiranga; Lúcia Dummar, sob o embalo dos verdes mares desta Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção; e José Lopes dos Santos, debaixo da verde cabeleira de árvores da Capital do Piauí.

Suponho que outros filhos de Deus cruzaram sua vereda existencial e também salpicaram de estrelas os seus aposentos literários.

Na década de 1960, no Mosteiro dos Capuchinhos, em Guaramiranga, entre aquele conjunto de espaços curvados em forma de arco e sob o adorno de belos jardins, Frei Hermínio conheceu um outro jovem vindo do interior – que “adoçava o pranto e o sono, no bagaço de cana do engenho e era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais/ Como um galo, quando havia… quando havia galos, noites e quintais”, então chamado Frei Sobral e que, alguns anos depois, despontaria como o maior nome da Música Popular Brasileira: Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes – ou, simplesmente, Belchior, o mais alado e elevado letrista germinado no Brasil dos últimos cinquenta anos.

O clã Bonfim & Bezerra - ao qual pertence Frei Hermínio, nascido Afonso Bezerra de Oliveira em uma sexta-feira, 13, do ano da graça de 1945, na antiga Freguesia de Pelo Sinal, depois Município de Independência e, hoje, Quiterianópolis – tem vínculos soteropolitanos. Explico. A imagem do Senhor do Bonfim que guarda a Catedral de Crateús (Imagem e Igreja, réplicas do templo situado na Sagrada Colina, na península de Itapagipe, em Salvador) veio da Capital da Bahia para o Ceará nos ombros de escravos. O sobrenome Bonfim, de Alexandre, Patriarca da Família, homenageia o Padroeiro de Crateús.

No início dos anos 1970, a mão do destino conduziu Frei Hermínio para cursar Psicologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde se familiarizou com celebridades como a formosa Martha Vasconcellos, a miss universo de 1968, que fez psicologia após seu reinado no ano de 1969, destacando-se pela simplicidade; bem como Paloma Jorge Amado, filha de Jorge Amado, que possibilitou ao Capuchinho Cearense conversar algumas vezes com o famoso autor de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, em sua casa no Rio Vermelho. Amado, que escrevia numa velha Remington, certa feita confidenciou: “Frei, eu sou um trabalhador braçal”.

Salvador da Bahia, naquela quadra frenética, hospedava, além do casal Jorge Amado e Zélia Gattai, outros letristas famosos como Vinicius de Morais, Carybé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo Coelho e Raul Seixas. Este último, que filosofava na mesma Universidade em que Frei Hermínio estudava, cabeludo e irreverente, gritava nos corredores: “Pare o mundo, que eu quero descer!”

Essa convivência plural fez brotar esse ser misticamente singular: filósofo, teólogo, psicólogo, professor, numismata, filatelista, dicionarista, colecionador de palavras e objetos que hoje felicito. Felicito o ardente sertanejo, terceiro filho de Miguel Fernandes de Oliveira e Luíza Bezerra de Oliveira, uma mulher de fibra extraordinária! Felicito esse Hermínio, variante de Hermes, que significa ‘apoio, sustentáculo’. Felicito aquele que, segundo Zacharias Bezerra de Oliveira, um seu irmão que fez peregrinação profissional por vários países a serviço do Ministério das Relações Exteriores, é o mais assemelhado com a mãe, apesar de ser o que com ela menos conviveu. Felicito-o pela maior de suas virtudes, o apoio à simplicidade!

(Júnior Bonfim)

domingo, 16 de setembro de 2018

DOM FRAGOSO, A FLAGRÂNCIA PROFÉTICA!


Pisando as babugens da infância e inebriado com as jitiranas de luz do sertão, o primeiro contato que tive com um religioso foi na fazenda Mondubim, do meu avô Tetero Bonfim. Um padre solene e sério, vestido em uma bela batina, passava para as festas religiosas do distrito de Assis, em Crateús. Seu nome: José Maria Moreira do Bonfim, que veio ao mundo no dia 16 de novembro de 1911, um dia após a elevação de Crateús à categoria de cidade. Era mais que um simples pároco, era um pai plúrimo, um padrasto severo, um professor dedicado, um pedreiro eclesial, um patrono civilizatório...

1980. Segundo ano de uma estiagem que se prolongaria pelos três anos seguintes. Inúmeras bocas falavam em abertura, palavra que eu pouco entendia. Na segunda quinzena do mês de junho, a eufórica expectativa nacional estava voltada para um homem que também eu pouco conhecia: João Paulo II. Os poros dos Meios de Comunicação Social do Brasil exalavam e exaltavam a personalidade de Sua Santidade. Certa tarde de abrasado sol, ao passar numa banca de revista, comprei um livrinho. Em casa, li-o de um só fôlego. Após a leitura, senti-me impulsionado por uma força estranha, invadido por algo novo, indescritível – como se uma tempestade divina transpassasse o meu corpo. Dirigi-me à minha mãe e, sem medir consequências, exclamei imatura e naturalmente: - Mamãe, quero ser Padre!

Guardo com carinho aquele livrinho. Ele conta a história de Karol Józef Wojtyla, o Santo Papa João Paulo II, esse homem que eu pouco conhecia. E foi através da leitura de sua biografia que nasceu em mim as primeiras vontades de conhecer o trabalho do Reino Celeste. Devo parte de meu despertar a ele.

Através de Osvaldo Fernandes, amigo do meu pai, entrei em contato pela vez primeira com o bispo de Crateús, D. Antonio Batista Fragoso, a quem expus o meu desejo de abraçar o sacerdócio. Ele me falou entusiasmadamente de uma experiência que estava em gestação - “seminaristas no meio do povo” – um projeto idealizado por ele e por Dom Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife.

Nesse ínterim, minha genitora compartilhou com sua madrinha, a professora Rosa Morais, o meu propósito de trilhar a íngreme vereda religiosa. A veneranda sacerdotisa da educação crateuense ponderou que poderia levar o assunto para o seu irmão e Vigário de Ipu, Monsenhor Morais, e esse abrir-me-ia as portas do Seminário de Sobral, que ela considerava mais adequado para mim. Pouco tempo depois, recebemos a notícia de que o Monsenhor Morais havia conseguido a vaga.

Vi-me diante de duas propostas concretas e tinha que optar. Fui conversar com Dom Fragoso e escolhi viver a experiência iniciante. Acho que minha decisão fez germinar um certo desconforto no coração do Cura do Ipu. Quis Deus que nos seus últimos agostos de vida nos aproximássemos, nascendo daí uma recíproca admiração e uma fraterna amizade.

Em 1981, precisamente na noite de 30 de março, iniciei com outros quatro colegas aquela inovadora experiência vocacional. Naquela inolvidável noite fomos abençoados por Dom Aloísio Lorscheider; Dom Fragoso, com sua firmeza de aço, dizia com convicção vinda da alma que aquela experiência abriria caminho em termos de formação vocacional; Padre Alfredinho, cheio de infância, originalidade missionária e alegria evangélica, batizava o grupo de “Fraternidade Nova” e nos convidava a ser, como Francisco de Assis, “Loucos pelo Evangelho”; nossos pais, comovidos, contritamente felizes, nos entregavam à Comunidade presente.

Após a detida leitura deste livro essas doces e amabilíssimas memórias irrompem e se esparramam, qual cachoeira tranquila, na serra e na várzea da minha alma.

Este grande caderno de mensagens airosas me transporta para uma época inesquecível, plena de bons faróis referenciais.

Como os fastos – livros que, entre os Romanos, registravam fatos memoráveis - estamos diante de um compêndio memorial lavrado em um invisível tabernáculo portátil, sob o bálsamo da poesia. E aqui reside sua distinção. Como bem pontuou Pablo Neruda, “as memórias do memorialista não são as memórias do poeta. Aquele (o memorialista) viveu talvez menos, mas fotografou muito mais, recreando-nos com a perfeição dos pormenores. Este (o poeta) entrega-nos uma galeria de fantasmas sacudidos pelo fogo e pela sombra da sua época”.

Este álbum de memórias poéticas passeia pela história brasileira desde a República Velha, visita a Igreja Católica, notadamente no Ceará, para desenhar o tronco do qual se originou a Diocese de Crateús e, sobretudo, para remeter ao platô da dignidade o seu primevo pastor: Dom Antonio Batista Fragoso. (Jamais olvidarei sua silhueta severa e simples: a metálica voz, o andar inconfundível, o olhar cortante, a firmeza de aço na defesa dos ideais, a verdejante convicção brotando da alma árida de sertanejo. Era, flagrantemente, um Profeta, que se fez fogueira de sabiá sob as nuvens frias das noites trevosas...)

A antífona de entrada dessa empreitada de louvor teve lugar às margens da artéria vital da formosa Paris, o rio Sena, e se estendeu por outros espaços do planeta com os quais o homenageado teve relação: desceu aos subterrâneos de Roma para visitar as mais antigas e impressionantes catacumbas romanas, as Catacumbas de Domitila, local em que Dom Fragoso foi signatário do famoso Pacto das Catacumbas, “um dos momentos mais belos da história da Igreja Católica”; recebeu a benção silenciosa de Dom Thomaz Balduíno, bispo emérito de Goiás; sentiu o abraço de ternura e grande amizade do eterno pastor de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga; subiu às alturas peruanas de Macchu Picchu para, como o poeta, ‘mergulhar a mão no mais genital do terrestre’, e, em Lima, revisitar a memória do protetor dos índios, Bartolomeu de Las Casas, e conhecer o patriarca da Teologia da Libertação, Frei Gustavo Gutierrez; e, por fim, como um viajante imóvel, realizou uma romaria literária pelos principais expoentes desse modelo teológico de leitura do evangelho sob a ótica dos mais sofridos. Foi uma missionária peregrinação, de exigente respiração e prazerosa inspiração.

Não raro a carruagem da História suscita um fenômeno paradoxal: quanto mais nos distanciamos da paisagem dos fatos que vivenciamos, mais nítidos se tornam os seus detalhes, as distinções sutis, as variações essenciais.

Durante muitos anos os Crateuenses se dividiram entre apoiadores de Dom Fragoso e defensores do Padre Bonfim. Estas páginas, com sabedoria salomônica e humildade evangélica, removem a cor baça dessa rivalidade e nos devolvem à harmonia fundada no respeito entre diferentes, realizando uma imprescindível sublimação.

Particularmente, me impulsionaram para um reencontro íntimo com quatro seres especiais, quatro homens virtuosos, quatro colunas de sustentação, meu particular ‘quadrivium’, cruzamento e articulação de ramos ou caminhos fundamentais na minha formação pessoal: de um lado, Dom Fragoso e Padre Alfredinho; do outro, meus parentes Monsenhores, Bonfim e Moraes. Em vida, sob a combustão das convicções que os abastecia, percorreram trilhas distintas, em que pese realizarem a mesma busca terrena pelo Reino de Deus.

José Maria Bonfim Morais e seu primo Zacharias Bezerra Oliveira dedilham os fonemas deste livro como quem acaricia uma coroa de rosas, como quem se posta genuflexo, usando as vestes sagradas da serena alegria, diante de um altar: sob o incenso da poesia e com sabedoria oracular!

Esta escritura, cunhada em pergaminho sacro, há que ser apalpada com mãos cerimoniosas.

Antes de ser lida, com silenciosa reverência, há que ser contemplada sob a solenidade essencial dos monastérios. É uma missa completa! Namastê!


(Júnior Bonfim, na apresentação do livro Dom Fragoso - O Profeta do Inobtido)

sábado, 25 de agosto de 2018

JOSÉ CORIOLANO DE SOUSA LIMA

No meio da praça havia um busto. Um busto, robusto, em meio aos arbustos, um organizado labirinto de algarobas que enfeitava a praça principal, a geradora de todas as agendas da urbe. Era a pedra angular, o pátio do povo, a praça, a praça da matriz. Menino sem hino, ainda não havia descoberto a fonte da alegria, a poesia, sempre perto da nossa mais perfeita tradição. Mas sabia, com emoção, que alguma coisa ocorria no meu coração.

Sem susto, me intrigava aquele augusto busto. Indagava: quem é este? Respondiam-me: é o doutor José Coriolano de Sousa Lima... Depois descobri tratar-se de um dos maiores gênios da poesia no século XIX.


A LITERATURA PIAUIENSE FOI FUNDADA POR UM CRATEUENSE

Nascido na fazenda Boa Vista, quando Crateús era conhecida por Vila Príncipe Imperial, Coriolano foi um fidalgo das letras que teve a graça de alcançar os píncaros da glória. Morou em São Raimundo Nonato, no Piauí, em seguida cursou direito na lendária Faculdade de Direito do Recife e, depois, teve atuação destacada no Maranhão e no Piauí. Magistrado, poeta, político, jornalista. Foi deputado provincial pelo Piauí, por duas legislaturas, e presidente da Assembleia Legislativa. Participou ativamente da imprensa no Recife e Teresina. Foi eleito Príncipe dos Poetas Piauienses (pois à época em que viveu Crateús pertencia ao Piauí).

Mais: segundo o escritor Francisco Miguel de Moura, da Academia Piauiense de Letras, o crateuense José Coriolano – patrono da cadeira de número oito daquela Arcádia - foi o fundador da literatura piauiense:

Ícone da nossa literatura, diria mesmo que, com seu livro póstumo “Impressões e Gemidos”, de 1870, torna-se o fundador da literatura piauiense. Antes dele, praticamente não havia o instituto da literatura em nosso meio, como a conhecemos hoje, pelo menos com tantos autores e livros e, sobretudo, leitores e estudiosos.

(Esse fato lança por terra o estereótipo de que somos uma terra sem grandes luminares no campo das letras, desprovida de escritores de nomeada, carente de escribas fulgurantes. Escritores, de pena luminosa e asas de condor, sempre tivemos.)

Com efeito, uma boa maneira de se aferir ou conferir a contribuição existencial de um ser é observar o que os seus contemporâneos registraram, para a ribalta da posteridade, por ocasião de seu passamento. O olhar post mortem (depois da morte) costuma ser desembaçado. A opinião viaja para o patamar do equilíbrio e passa a repousar na lúcida e superior região da sensatez.

Na capital do Piauí, a edição trinta e cinco do Jornal Liberal Piauiense, de 4 de setembro 1869, destacou na primeira de suas colunas a morte do poeta nos seguintes termos:

“O Dr. José Coriolano de Souza Lima, juiz de direito da comarca de Pastos Bons, na província do Maranhão, acaba de falecer na vila de Príncipe Imperial. Quis a providência que, depois de uma peregrinação de muitos anos, ele fosse deixar os ossos na terra do seu berço, ao lado de seus progenitores, lá onde pela primeira vez a esperança lhe sorriu, nos lábios puros da virgem que tanto amou, e depois foi sua esposa.

Havia já alguns meses que o anjo da morte adejava-lhe em torno, e segredava ao coração de seus amigos palavras d’além túmulo. Mas, por fim, parecia que a saúde voltara a garantir por mais tempo a existência do ilustre magistrado. De Príncipe Imperial escrevia o Dr. José Coriolano, pouco antes de morrer, a um seu amigo desta capital: passo os dias contente, bebo leite suculento das vacas destes sertões, banho-me nas águas cristalinas do açude, respiro o ar puro de minha terra – que vida, meu amigo!”

Três dias depois, outro periódico – A IMPRENSA – na edição de número duzentos e quinze, estampou em suas páginas:

“Acabamos de receber uma infausta notícia que nos veio comover em extremo!

Neste momento os olhos se arrasam de amargo pranto, e os nossos corações se enchem de infinitas saudades!

Com voz entrecortada pela dor, temos a lamentar a morte prematura de um irmão de crenças, que era um atleta inspirado; um amigo leal, que era um tesouro de sinceras afeições, um pai de família sempre carinhoso e desvelado; um cidadão ilustre pelo seu saber e pelas suas virtudes!

Nossas frontes atribuladas – curvam-se hoje sob as ramas sombrias de um esguio cipreste plantado à beira de um túmulo venerável!...

Choramos sentidamente a morte de José Coriolano de Souza Lima, em quem a província perdeu, não só um dos seus mais dignos filhos, como, uma das suas mais viçosas esperanças. Incansável cultor das ciências e das letras, desde os bancos de academia; jurisconsulto que se enriquecia em constantes lucubrações; prosador castiço e elegante; poeta quase sempre inspirado; - José Coriolano era certamente um dos piauienses que mais honra fazia à sua terra natal. Hoje, apenas resta dele a memória de um nome puro; a lembrança de um belo talento que se pode dizer malogrado em vida, porque a maior parte de suas obras ainda não viram a luz da publicidade.

Oxalá que não se percam tão preciosos inéditos; muitos dos quais tivemos ocasião de apreciar, na intimidade que gozávamos junto ao distinto poeta”.

O apelo final do conceituado órgão de imprensa quedou-se insuficiente para evitar que cerca de cento e trinta poesias inéditas de José Coriolano sumissem no cânion do tempo. Apenas dois livros seus foram à linotipia: O Touro Fusco, concluído em 22 de fevereiro de 1856, publicado em 1858; e Impressões e Gemidos, publicação póstuma de 1870 viabilizada através de amigos seus.

A obra inicial de Coriolano, “O Touro Fusco”, foi escrita quando o jovem crateuense cursava o primeiro ano de Direito na Faculdade de Recife, que era uma das mais prestigiadas do País à época. Em 23 de agosto de 2005 nosso venerando Norberto Ferreira filho, o Ferreirinha, presenteou-me com um exemplar desse vigoroso aboio poético. Prefacialmente há dois apontamentos do autor, nos quais explica a origem do poema e as razões da publicação. Primeiro a origem:

“Passava eu as férias do meu primeiro ano de direito na cidade de Olinda. Em outra qualquer parte poderão escassear as inspirações, poderá gelar-se o estro; porém nessa encantadora cidade, tão bela e deliciosa como o seu mesmo nome, (Ó linda) tão pitoresca e poética, como o panorama que ela desenrola aos olhos do poeta e do pensador. – Sempre as inspirações serão freqüentes e o estro vigoroso, sempre o filho saudoso, o irmão terno, o amigo ausente, o amante apaixonado, encontrarão objetos, receberão impressões que lhes façam recordar os mimos, as delícias, os sonhos, os amores de uma idade que já não é do presente. Aí eu estava, um dia, embriagado na saudosa contemplação dos meus primeiros anos. Lembrei-me da Boa Vista, antiga fazenda de meus queridos pais, onde eu dera o primeiro grito da infância, onde eu vira pela primeira vez a luz. Nela havia eu aprendido a sorrir com minha doce mãe, - a fazer-me esperto com o meu querido pai e a brincar com os meus irmãos e com meus amigos. Nela havia eu visto pela primeira vez nascer o sol e a lua, por cima da pitombeira que havia em frente da nossa casa. Nela havia eu visto pela primeira vez cantarem os passarinhos, saltando alegres pelos ramos das laranjeiras que nos davam os seus amarelos frutos. Lembrei-me que nela tivera meu pai um “touro fusco”, que fora enjeitado, feio, barrigudo e cabeludo quando pequeno; - bonito, delgado e cachaçudo* quando grande. Lembrei-me que esse touro havia conseguido muitas vitórias, por mim testemunhadas; que nesses momentos sublimes de triunfos – meu coração pulava e se expandia de gosto. Lembrei-me finalmente que aquele touro tinha um urro tão saudoso e retumbante, que eu ao ouvi-lo estremecia como a terra e tremia como os matos. Cantei esse touro em algumas oitavas rimadas. Com isto fiz mais do que arquivar uma simples inspiração: levantei, à memória desse valente e brioso animal, um monumentosinho grotesco cujos hieróglifos, talvez pelo autor somente entendidos, serão para mim uma fonte inexaurível e deleitável de belas tradições, de queridas reminiscências, de infinitas associações de idéias.”

Na outra apresentação, dirigida “Aos Leitores”, esclarece que “algumas considerações me determinaram a publicar o Touro Fusco: eu as submeto ao critério de quem m’o ler”(assim no original). Após detalhá-las, faz um reparo para que não censurem o seu gosto e adverte:

“Assim, leitores, não admireis que o herói do meu poemeto seja um touro, e que esse touro seja descrito com caracteres mais próprios da humanidade do que da alimária. Eu o descrevi a princípio – pequeno, infeliz e vituperado; depois, grande, venturoso e respeitado. Eu o descrevi – bom, arrazoado e prudente. Eu o descrevi, finalmente, grande até nos reencontros da sorte nos seus últimos momentos de vida!”

Ao final, cônscio da carga de ineditismo contida na saga desbravadora que protagonizava e prevendo possíveis petardos de incompreensão, finca os mourões do seu território lúdico e soa eloquente, profético, desafiador:

“Agora, quem ousará impor balizas ao gosto do poeta? Quem ousará cercear-lhe as asas da inspiração, para que não voe livremente pelo imenso e risonho espaço da fantasia? Eu renego o poeta que despreza ou deturpa a inspiração que lhe veio, se ela não é ofensiva à moral; porque esse, está subentendido, também renegou a sagrada missão que Deus lhe confiou”.

Os primeiros versos de O Touro Fusco bem demonstram por que José Coriolano obteve primazia sobre os versejadores de seu tempo. João Crisóstomo da Rocha Cabral extasia-se ante a obra do poeta e diz:

“E ele cantou. Cantou como ninguém mais, com tanta doçura e entusiasmo, simplicidade e heroísmo, alma religiosa, olhar panteísta, a expressão própria de seu povo. O valoroso Touro Fusco é um poemeto que ainda não teve igual em nenhuma literatura, pela audácia de cantar em versos heróicos a estória de um novilho famoso, que luta e morre como herói, e nos deixa saudades, como as figuras humanas ou semidivinas de uma epopéia homérica ou virgiliana.”

Composto de quatrocentos e oito versos, hendecassílabos simétricos e numerosos, distribuídos em três cantos iguais, cada qual com dezessete oitavas, o Touro Fusco é uma inspirada canção de louvor a um animal, símbolo da humanidade, em especial da gente humilde e lutadora. Sintamos, nos três primeiros versos, a impulsão épica, o estilo superior do nosso Camões:

I

Não vou cantar heróis, nem esses feitos

Que adornam os anais da humanidade;

Nem incensos queimar, nem render preitos

À precária e terrena potestade:

A um bruto vão meus versos feitos.

Pois que aos brutos deu vida a Divindade;

E eu, louvando do bruto o fino instinto,

Mais amor e respeito por Deus sinto.

II

Ó minha doce infância suspirada,

Que o tempo estragador levou consigo;

Terna lembrança dessa vida amada,

Que há de sempre viver, morrer comigo;

Campos em que brinquei, onde fadada

A vida me pulava sem perigo,

Fazei que, embora pobre, o meu assunto

Seja do meu sentir fiel transunto.

III

No belo Crateús, sertão formoso,

Obra sublime do Supremo Artista,

Num terreno coberto de mimoso,

Está sita a Fazenda Boa Vista”;

Do Príncipe Imperial, pravo e rixoso,

Vila do Piauí, seis léguas dista:

Ai, num massapé torrado e brusco,

Nasceu o valoroso “touro-fusco”.


Sobre aquele animal, razão do poema, emblema do povo, o poeta faz questão de pontuar:

“Se o fusco fosse gente, ele seria

Mais herói que esse herói de Alexandria.”

Em Impressões e Gemidos, a segunda obra do poeta, publicada no ano seguinte à sua morte, identificamos o invulgar poder verbal e a original força telúrica que caracterizaram seu extasiante vale poético.

O amor à argila que deu luz à sua retina está presente na poesia ‘A Virgem do Crateús’:

Há na minha província uma ribeira,

Um sertão, onde eu vi a vez primeira

Sorrir-me da existência a doce luz:

Tem o nome da tribo que o habitava,

Quando ao rude tapuia entregue estava,

Esse nome, sabei-o, - “Crateús.”

No ‘Hino à Tarde’ exsurge o homem que se entregava aos bons fluídos da meditação:

I

Tarde meiga e gentil, se tu não fosses

Mais triste que a manhã, mais melancólica,

Quantas vezes comigo meditando,

Precursora do sol te julgaria!

Mas, depois, atentando em teus langores,

Na dor, na compaixão que em ti transluzem,

Conheço o teu fadário neste mundo

Não és ditosa, - não – e só tens risos

Para o filho infeliz da desventura.

Tarde meiga e gentil, amo-te muito!

Que peito pode haver ingrato e rude

Aos influxos suaves que respiras,

Sem do passado refletir saudoso

Nos dias de prazer que já gozamos!

Ou em que em teu seio, ébrio de saudade,

Não gema e não suspire, e aos tristes olhos

Não mande um pesaroso pranto – amigo!

Oh! sim – eu chorarei, porque meu peito

Às vezes no chorar encontra alívio.

Tarde meiga e gentil, amo-te muito.


Composta de cento e vinte três belíssimos hendecassílabos, ‘A Grandeza de Deus’ é uma dessas peças que nos suscita a dúvida: será uma típica pintura mural antiga ou um envolvente quadro de poesia que nos convida ao deleite das maravilhas da Criação?!

Foi Deus, que às flores também deu aroma,

Macio e fresco ciciar às brisas,

Sibilos ao tufão, sussurro às folhas,

Brandura à fonte, correnteza ao rio;

Foi Deus que fez os mares procelosos,

Que lhes deu ondas, escarcéus e vagas,

Que às campinas deu relvas e matizes,

Ao sol fulgores, às estrelas brilho,

E à lua doce luz que a mente aplaca;

Foi Deus que deu um pugilo informe, inerte,

Fez o homem moral à imagem sua!


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Senhor! – o teu poder é grande, imenso!

O mar no-lo revela em seus gemidos,

A terra nos seus verdes atavios,

A flor no seu perfume, o sol nas cores,

As aves no seu canto deleitável,

O céu no seu azul que se marcheta

De milhões de prodígios luminosos,


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Meu Deus! Senhor meu Deus! quanto és sublime!

Ao teu gesto potente a fronte curvam

O grande, o rico, o pobre, o sábio, o néscio!

O mar que enfurecido em flor rebenta,

O bravo furacão que os bosques prostra,

A fera que rugindo atroa os ares,

O raio que resvala pelo espaço,

O trovão que estrondeia retumbando,

A nuvem que desata em catadupas

E o corisco veloz que caracola,

Tudo, tudo a teus pés, ó Deus se humilha,

Tudo, tudo a teu nome um hino entoa!


É por isso que Lucídio Freitas, em “História da Poesia no Piauí” (1918), pinta-o como:

“um delicioso evocador, um paisagista capaz de plasmar toda a grandeza triste da nossa terra. E há nas suas descrições um pequeno beijo de saudade, leve como uma pluma, apaixonado como uma carícia nupcial. Nenhum poeta de seu tempo o iguala”.

Praticamente na mesma esteira Franklin Távora sentenciou que só o grande Juvenal Galeno rivalizava com ele:

“Na fiel pintura dos costumes do norte, musa elegante, generalisadora, erudita, só encontra rival em Juvenal Galeno”.

Foi esse ser extraordinário que encantou o trineto Ivens Roberto de Araújo Mourão, ainda entre nós, e que o fez um pesquisador e organizador desse incomensurável espólio lúdico. Ivens revela que José Coriolano descende do primeiro Mourão cearense: Alexandre da Silva Mourão. Pertence, pois, à mesma frondosa árvore genealógica de Gerardo Mello Mourão, o maior Poeta do Século XX.

O trineto narra a emocionante aventura que viveu ao realizar o resgate do acervo de José Coriolano e, ao mesmo tempo em que compõe um retrato primoroso do poeta, mostra como foi se envolvendo com a sua magnética força:

À medida em que me aprofundava na leitura de suas poesias, comecei a perscrutar os mistérios daquela alma sensível. A sua filosofia de vida, o temperamento apaixonado, a grandeza interior, a imensa cultura humanística, as idéias, a capacidade de amar deste antepassado que até então era simplesmente o trisavô poeta, me impressionaram! E, o debruçar-me sobre os originais num trabalho de resgate cultural e, vezes outras, de restauração, juntando fragmentos de papéis desgastados pelo tempo, fez-me sentir remontando a minha própria história. Muitas vezes, ao transcrever uma poesia inédita há 150 anos, tinha a sensação de que o poeta estava renascendo, reescrevendo-a agora, em um computador.

José Coriolano, como disse, era um apaixonado. Um apaixonado pela vida, pela realidade que o cercava. Preocupado com os problemas políticos e sociais de sua época que, guardadas as devidas proporções, são de certa forma atuais. Era um abolicionista e republicano. Entusiasta pela natureza, hoje seria um ecologista atuante. Com sua lira, pintou-a com cores tais, que quase podemos ver as campinas, os prados verdejantes, as fontes, as flores. E, se apurarmos o ouvido, nos deleitamos com os maravilhosos trinados dos pintassilgos, rolinhas e sabiás!

(...)

Homem dotado de uma profunda fé e sentimento cristão escreveu belíssimos poemas dedicados a Deus. Porém, mesmo nas poesias comuns, a sua fé e os seus sólidos princípios morais perpassam nitidamente.

Por felicidade, encontrei uma correspondência de Ivens, datada de 11 de julho de 2001, dirigida ao Executivo Municipal. Segundo Ivens, dona Maroca Mourão, que era neta de José Coriolano, em nome da família retirou o busto da praça “devido ao descuido em que se encontrava”.

Focado no futuro, e sem demonstrar qualquer ressentimento, Ivens elenca cinco sugestões, que continuam atualíssimas:

1. Realização de um seminário literário sobre a obra de José Coriolano;

2. Colocar na Matriz, ao lado da lápide existente, um resumo da vida do grande poeta e uma de suas poesias;

3. Criação de um Memorial em honra ao Poeta (onde poderiam ficar expostos objetos pessoais, originais escritos de próprio punho, fotografias etc.) e que também poderia abrigar as obras de outros poetas;

4. Engajar a Universidade nessa empreitada;

5. Reeditar sua obra, acrescentando poesias inéditas, que chegam a quatro dezenas.

Acho que este é o instante mais apropriado para materializarmos essas sugestões.

Júnior Bonfim (em 2011, na celebração do Centenário de Crateús).

sábado, 12 de agosto de 2017

JOATAN 8.0


Um bolo, sobre a mesa central do salão de um Clube à beira do Lago Sul, em Brasília, destacava o número 8.0 e exibia decoração com partituras e versos de músicas memoráveis (‘Gracias a la Vida!’, ‘Besame Mucho’, ‘Eu amanheço pensando em ti’ ...). As paredes, enfeitadas com os dantes famosos Long Plays, que a vox populi batizou de “discos de vinil”. No palco, um grupo musical embalava os presentes com um selecionado repertório de clássicas composições dos tempos áureos do cancioneiro nacional, em que letra e música rivalizavam quanto à soberania do conteúdo. Entes queridos, amigos dos mais variados quadrantes do território nacional, ex-colegas de labor na caserna, parentes de sangue e coração formavam um humano e invisível parque de energia eólica, acionado pelos ventos planaltinos da ternura e amizade.

Era o ápice das celebrações pelos oitenta bem vividos anos de Antonio Joatan Bonfim, o quarto filho do casal crateuense Donzinha Bonfim Leitão e Raimundo Bonfim, cujo habitat era o lendário e mais antigo casarão de alvenaria da cidade. Efusivo e camarada, corpulento e generoso, Joatan, com sua dilatada fraternidade, é um imã de atração de seres vivos, um ecossistema de agregação familiar, uma porção de terra que avança sobre o mar da generosidade humana. Parece que adotou como mantra o conselho de Goethe: “Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas.”

Desde as madrugadas mais priscas até o desabrochar das modernas auroras civilizacionais, é comum vermos na entrada dos espaços sagrados - sejam eles aureolados pelos contornos das incógnitas ou revestidos pelo mármore do mistério - a construção de dois pilares, como que a reavivar as duas colunas sagradas do Templo de Salomão, símbolos de estabilidade e força.

Joatan, nome hebraico que significa Rei de Judá, é um dos fidalgos da nossa família, um dos nobres pilares de convergência e sustentação do nosso pórtico familiar. Os solfejos da sensibilidade certamente lhe foram dadivados mercê de uma maternal herança, adquirida na alfaiataria da infância, quando costumava ajudar a mãe a movimentar a inesquecível máquina de costura. Recebia pelos serviços prestados uma bela moeda, um poema de Francisco de Paula Monteiro de Barros, intitulado Igualdade Ilusória ou “Mocidade e Primavera”.
Eí-lo:

“A primavera é uma estação florida,
Cheia de imenso, divinal fulgor;
De flores enche o coração da vida,
E enche de vida o coração da flor.

A mocidade é uma estação ditosa,
Cheia de risos, de ideal prazer;
E as almas sentem um viver de rosa,
Na mocidade, a rosa do viver.

Na primavera, há profusão de cores;
As flores brotam no rochedo bruto
Depois... o fruto que há de vir das flores,
E as novas flores que hão de vir do fruto.

Na mocidade, há melopeias calmas;
Tremem dos lábios os vermelhos frisos;
Os risos cantam no brotar das almas,
Cantam as almas no brotar dos risos.

Ambas se adornam de um viver risonho,
Iguais parecem – ambas são de amor
Se a mocidade faz nascer o sonho,
A primavera faz nascer a flor.

Tão iguais parecem quando a vida as solta,
E no entretanto, elas não são iguais:
A primavera passa e depois volta,
E a mocidade não nos volta mais.”


No divinal fulgor da mocidade, Joatan deixou Crateús para cavalgar nos prados do Exército Brasileiro, principiando pelo vizinho estado da Paraíba. Ali, em uma festa de São João, sentiu arder a fogueira d’alma ao divisar a beleza de uma sulista chamada Elci Cardoso Machado, com quem firmou um consórcio amoroso com selo de definitividade. Renovando o idílio há mais de cinquenta primaveras, o casal – que gerou Symone Maria, Carlos Antonio, Silvio Eduardo e Anna Izabel – adora receber e alegrar, servir e confraternizar.

Em sua longa peregrinação cívica e patriótica nas colunas do Exército, Joatan firmou laços de camaradagem e colecionou amizades duradouras, que perduram até os dias atuais.

Essa sua inclinação gregária o tornou um garimpeiro das esmeraldas da sua linhagem que estavam perdidas nos minérios do anonimato, um dos principais bandeirantes na exploração da floresta familiar, um autêntico “caçador de Bonfim”. Resgatou crônicas antigas, alfarrábios perdidos, preciosos manuscritos, minuciosas anotações e saiu recompondo raízes e folhas da nossa oiticica genealógica, nascida nas barrancas do Rio Poty. Depois, passou esse material às delicadas mãos de sua prima Maria Olivia Beserra Macedo, que nos brindou com o belo livro “Bonfim & Bezerra – No Início Uma Só Família”.

Estimado Joatan, que nos próximos oitenta anos, continues ostentando a intrínseca vitalidade e a espontânea jovialidade de quem ergue os olhos aos céus e movimenta os lábios, em solene gratidão, para dizer ao Criador: “Gracias à la Vida, que me ha dado tanto...”

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Boaventura Bonfim disse...

Estimado primo Júnior Bonfim:

Pleno de emoção, parabenizo-o por essa pérola literária, haurida de uma das mentes mais prolíferas da literatura cearense, senão brasileira.

Nosso dileto primo Joatan Bonfim, um dos maiores musicófilos e um dos seres humanos da alma mais leve que conheço, merece esse primoroso regalo e todas as dádivas do mundo.

Boaventura Joaquim Furtado Bonfim

Fortaleza, Ceará.

13 de agosto de 2017 01:46


DATAS GALAXIAIS


Há datas que são galaxiais. Embora únicas, circulam pela via leitosa e constituem uma aglomeração de estrelas, um conjunto imorredouro de fulgurâncias.
A data de nascimento é uma delas.

Talvez seja porque a relembrança da data em que nascemos nos remeta ao mais íntimo e profundo de nós mesmos, refazendo o itinerário fantástico que nos fez romper com a cápsula de ternura, com a nave de conforto protetivo, com a bolsa de afeto do útero materno e permitiu que abríssemos os olhos marejados para o espasmo do universo, para o espetáculo da existência, para o êxtase da vida!

É por isso que, movidos por uma manivela invisível, somos estimulados a celebrar natalícios.

Hoje nos reunimos ao redor de uma dessas atrativas molduras de tempo.

É a festa de aniversário do nosso nascimento coletivo em uma instituição em que sobranceia a bela insígnia do serviço à humanidade. Nosso edifício constitutivo está assentado sob as colunas entrelaçadas do companheirismo e nosso átrio convida ao exercício do auto conserto e da renovação por uma prova quádrupla que nos impulsiona a relações lastreadas no respeito, na compreensão e na tolerância.

Quis o Acaso, aquela protetora Força Superior, que nascêssemos para o companheirismo rotário em um 18 de maio, o mesmo dia em que, no ano de 1920, nasceu Karol Józef Wojtyła, o São João Paulo Segundo, coincidentemente o patrono na Academia Brasileira de Hagiologia do nosso querido e estimado fundador Seridião Correia Montenegro.

A mim me coube falar sobre esta Medalha que, desde 2015, a cada festa de aniversário é outorgada.

A “Medalha José Freire de Sena” é destinada a laurear rotarianos com postura destacada em favor do desenvolvimento e progresso do companheirismo e da fraternidade.

O Companheiro José Freire de Sena, que passou para o platô espiritual dia 29 de dezembro de 2014, foi um dos maiores estimuladores dos postulados de fraternidade e companheirismo no âmbito do nosso Clube.

Nas veias do cidadão de fulgurante álbum curricular - Advogado, Professor Universitário, Consultor de estratégia e gestão de negócios e investimentos privados internacionais – corria o sangue azul da nobreza feita companheirismo.

O poliglota Freire – que falava e escrevia com fluência e proficiência o Espanhol, o Francês, o Inglês, o Alemão e com extenso conhecimento do Latim, dominava, em especial, a linguagem simples do amor e da amizade.

O executivo de projeção e com vasta experiência internacional era um entusiasta do Rotary porque era nesta Instituição que vislumbrava o maior tesouro: dar de si antes de pensar em si.

A sólida formação religiosa cristalizou na alma do cristão Freire de Sena os altos princípios que devem nortear a existência de um bom varão: o ardor profético, o labor ético, o pendor estético!

A “Medalha José Freire de Sena” tem o objetivo de manter acesa, entre nós, a centelha memorável de um companheiro exemplar!

Por isso, nesta noite de memorável fulgurância, estremeço de emoção para anunciar que neste ano da graça de 2017 o agraciado, por deveres de consciência e razões do coração, é Seridião Correia Montenegro.

Foi Seridião o responsável pela tarefa delicada de arregimentar pessoas, escriturar papéis, realizar contatos e remeter para o banco de sêmen do Rotary Internacional o embrião do Rotary Clube de Fortaleza Dunas. Como o cantor Ednardo, ele carrega musicalmente nas veias o espírito original do nosso Clube: veio das dunas brancas, tem a mão que aperreia, tem o sol e a areia e é da América. Ou pela nata do lixo ou pelo luxo da aldeia, é do Ceará. Na aldeia ou na aldeota, está sempre batendo na porta, pra nos aperrear, pra nos aperrear... Sempre de olho à frente, ou na praia do futuro, onde para o velho e o novo, são os olhos do mar. Olhando a vida espalhou que, na praia, luzindo na madrugada, os braços e corpos, devem estar falando amor.

Por reverência ao altar da história, por amor à janela do anúncio, por impulso de gratidão, devemos consignar que Seridião era para ter sido o primeiro a receber as honras desta Medalha. Se isso não ocorreu, foi por culpa dele mesmo, que na sua extensa generosidade sempre teve a iniciativa de sugerir outros nomes. Este ano nós o driblamos. Omitimos a submissão do nome do agraciado à sua apreciação.

Seridião, responsável pelo alicerce fundacional e pela pedra filosofal desta Confraria do Servir, conseguiu desbancar a máxima de Nelson Rodrigues e provar que é possível – e de maneira decente – a construção de uma unanimidade inteligente. Não vou fazer referência ao álbum de ações, não vou mencionar a extensa trilha de serviços prestados por Seridião a este lar de companheiros. Em outra oportunidade já disse que nos cômodos das palavras jamais caberão os latifúndios afetivos que ele logrou matricular no cartório sagrado do nosso coração.

Aniversariante individual de antes de ontem, aniversariante coletivo de hoje, afilhado de São João Paulo Segundo, Companheiro e Irmão, Parabéns, Seridião!


(Júnior Bonfim - discurso proferido por ocasião da entrega da Medalha Freire de Sena para Seridião Correia Montenegro, na festa de aniversário do RCF DUNAS, em 18.05.2017)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

FELIZ ANIVERSÁRIO, CRATEÚS!


Existem vínculos que subsistem ao caminhar das eras. São imorredouros, eternos.

Como olvidar a protetora cavidade materna que, durante meses, foi o nosso refúgio terno e profundo antes de abrirmos os olhos ao latejar do mundo?!

Como esquecer o pedaço de chão que serviu de fraterno abrigo para que enterrássemos o cordão do nosso umbigo?!

Carregamos indelevelmente, no pomar do coração, o aroma da terra que nos pegou pela mão.

Mãe e terra, incansáveis germinadoras, fábricas de vida, explosões de rebentos, incubadoras de sementes selecionadas...

No próximo 06 de julho vamos proclamar louvores à terra de José Coriolano. É mais um natalício de Crateús. É um momento de abrirmos o baú memorial, retirarmos os retratos antigos e relembrarmos a imagem do nosso nascedouro.

Não temos escrituras dos índios, nossos antepassados mais remotos. Nas cabeceiras do rio Poty encontrava-se uma das duas dezenas de tribos indígenas do esquadro territorial denominado Siará. A tradição oral registra que eram índios amantes da festa e da alegria. Em tudo viam motivo para comemoração. (Talvez por isso a gente que aqui habita é vibrantemente festiva. A cidade já ostentou título de uma das urbes com vida noturna das mais agitadas do interland cearense.)

O povoamento branco destas terras principiou no meio do século XVII. No século seguinte estas terras foram adquiridas por Dom Ávila Pereira, da dinastia da Casa da Torre, na Bahia.

Crateuenses, temos raízes baianas!

Crateús integrava o imenso latifúndio comandado da Bahia pelos descendentes de Garcia D’Ávila. A Casa da Torre, sede dos então proprietários destas glebas, é o único castelo medieval existente no continente americano e está em processo de restauração. Localizado ao lado da Praia do Forte, dista cerca de cinquenta quilômetros de Salvador. Foi construído a partir de 1551 por Garcia D’Ávila Pereira, o almoxarife real que chegou ao Brasil com a expedição de Tomé de Souza, o primeiro Governador Geral do Brasil, que veio para fundar a cidade que hoje é a capital baiana.

Da Bahia também veio para Crateús a imagem do nosso Padroeiro, Senhor do Bonfim. A tradição de celebrar e festejar o Senhor do Bonfim, no Brasil, relaciona-se com a figura de Teodósio Rodrigues de Faria, Capitão de Mar e Guerra da Marinha Portuguesa, nascido na cidade de Setúbal, donde se originou a devoção ao Senhor Bom Jesus do Bonfim.

Em 1742, ao enfrentar uma tempestade, o Capitão Teodósio, fervoroso devoto do Senhor do Bonfim, fez uma promessa: se escapasse com vida daquela turbulência, traria para o Brasil a imagem do Santo.

De retorno a Salvador em 18 de abril de 1745, o capitão Teodósio trouxe consigo uma imagem do Senhor Bom Jesus do Bonfim em pinho de riga medindo 1,06 metro de altura.

Em 1792, quarenta e sete anos após sua chegada a Salvador, uma réplica da Imagem foi transportada, nos ombros de escravos, para a Capela da Fazenda Piranhas (hoje Crateús). 38 anos depois, já no século seguinte, nascia Alexandre Ferreira Santiago, cujo nome – por influência de uma tia que residia atrás da Igreja, viria a ser alterado para Alexandre Ferreira do Bonfim, tornando-se Patriarca de uma nova família, a família Bonfim.

Essa festa de aniversário é, também, um momento de nostálgica reflexão. Além de relembrarmos nossa herança indígena, que nos bafejou com essa índole festiva e boêmia, cabe também relembrarmos a sincrética mística de fé e luta que nos tocou do legado baiano com sua faceta libertária. Não por acaso Crateús sempre hasteou, com destacado fulgor vanguardista, a bandeira das liberdades democráticas.

Por isso o momento é propício, também, para crisma, sacramento de ratificação da graça batismal de poder sonhar. Sonhar com que esta cidade seja – como era para os antigos gregos - um espaço seguro, ordenado e pacífico, onde os homens possam se dedicar à busca da felicidade, à construção da dignidade, à insuflação do amor, à propagação da esperança e à ampliação da paz!

Feliz Aniversário, Crateús!


terça-feira, 20 de junho de 2017

OITO ANOS DA ACADEMIA DE LETRAS DE CRATEÚS!


O poeta, romancista, dramaturgo e estadista alemão Johann Wolfgang von Goethe certa feita advertiu que o artista tem de ser original. E explicou: “original é o que brota das origens”.

Sem ter a imodéstia de ser original, foi para as nossas raízes mais priscas que direcionei o pensamento por ocasião da Solenidade, realizada na Câmara Municipal, que homenageou os oito anos da Academia de Letras de Crateús – ALC.

Perquiri mentalmente o ponto de partida dessas confrarias que albergam os amantes das letras.

Registros históricos dão conta que, nos arredores de Atenas, havia um espaço com uma ampla residência, uma densa biblioteca e um bosque sagrado de oliveiras dedicado a Atena, a deusa da sabedoria. Nessa ambiência, ao redor de 300 anos antes de Cristo, estremeceu a primeira Academia, assim denominada em louvor a Academus - herói ateniense da guerra de Tróia.

Talvez até sem verbalizar isso, mas naquele espaço com três instituições distintas (casa, livros e jardim) encontramos os três vértices essenciais do triângulo literário: a interação mítico-sócio-ecológica – sintetizada pelo bosque sagrado; o fermento de ideias que habita o pão das palavras – cujo símbolo é a biblioteca; e a intimidade congregacional entre os seres – tão bem representada pela edificação residencial.

Com esse estuário na mente, proferi três palavras na Sessão Solene que marcou os oito juninos exercícios da ALC.

As primeiras foram sílabas de gratidão pela realização do evento, seguidas de um apelo às autoridades e à população: está na hora de pensarmos em erigir uma sede para a Academia de Letras de Crateús que esteja à altura do seu contributo à cidade. A ALC, em que pese ser um patrimônio imaterial, merece ser agraciada com um ponto físico referencial. De preferência, em um local estratégico, com jardim e biblioteca.

Na sequência opinei sobre aquilo que considero uma das razões para o sucesso da nossa Arcádia: o peitoral generoso do ecletismo, o seu estrelado firmamento voltado para a agregação, a magnética e acolhedora cortina da pluralidade!

Fundado em um 13 de junho, dia em que celebramos Antonio, o Santo do Matrimônio, o Sodalício de Letras Crateuense armou uma fogueira de sabiá e se instalou no invisível e sábio terreiro sertanejo que une a elaboração erudita e a rima inaudita, o fino papel e o popular cordel, a concepção vocálica rebuscada e a singela construção da palavra despojada. Com efeito, trocou alianças definitivas entre as atuais e vindouras gerações de discípulos das musas, os catadores dos fonemas que bailam sobre o leito do Poty.

Por fim, mencionei aquilo que, para mim, é indiscutivelmente visível, cristalinamente palpável: o contributo da ALC à mobilização da inteligência, à florada cultural, à insuflação de rebentos literários e, sobremaneira, à recuperação da nossa linha memorial, à reposição das nossas torres históricas.

Por ocasião das comemorações do centenário da Cidade, a ALC, após uma longa gestação, presenteou os conterrâneos com o livro CRATEÚS: 100 ANOS! – quatrocentas e uma páginas de hercúleo trabalho, amalgamando lavor e louvor, materializados em febril pesquisa e terna dedicação.

Constantemente os memorialistas da ALC – através do Jornal Gazeta do Centro Oeste, da Revista Gente de Ação ou da internet – brindam-nos com a reposição de fatos e cousas do passado, devolvendo-nos os elementos essenciais para a recuperação da nossa memória coletiva.


Para citar apenas uma de suas ações: a ALC – por intermédio dos acadêmicos Flávio Machado, Edmilson Providência e Raimundo Cândido – devolveu à praça principal da cidade o busto do doutor José Coriolano de Sousa Lima, um dos maiores gênios da poesia no século XIX. Nascido na fazenda Boa Vista, quando Crateús era conhecida por Vila Príncipe Imperial, Coriolano foi um fidalgo das letras que teve a graça de alcançar os píncaros da glória. Cursou direito na lendária Faculdade de Direito do Recife, a top do Brasil naquela época, e depois teve atuação destacada no Maranhão e no Piauí. Magistrado, poeta, político, jornalista. Foi deputado provincial pelo Piauí, por duas legislaturas, e presidente da Assembleia Legislativa. Participou ativamente da imprensa no Recife e Teresina. Foi eleito Príncipe dos Poetas Piauienses (pois à época em que viveu Crateús pertencia ao Piauí) e foi considerado o fundador da literatura piauiense.

Só um povo com a história na mão, é capaz de unir consciência e coração. Só quem repõe a própria trajetória, obtém a vitória da memória! Só um povo que conhece o próprio sumo, é capaz de trilhar um rumo com prumo.

Os escritores e seus coletivos organizados, as Academias, servem exatamente para isto: para colaborar na consecução dos maiores desejos dos terrestres, para alimentar os maiores sonhos dos humanos: a conquista da terra prometida, onde escorre o leite da paz e o mel da felicidade!


Viva, pois, Academia de Letras de Crateús – ALC!


(Júnior Bonfim, na edição de hoje do Jornal Gazeta do Centro Oeste, Crateús, Ceará).