sábado, 12 de agosto de 2017

JOATAN 8.0


Um bolo, sobre a mesa central do salão de um Clube à beira do Lago Sul, em Brasília, destacava o número 8.0 e exibia decoração com partituras e versos de músicas memoráveis (‘Gracias a la Vida!’, ‘Besame Mucho’, ‘Eu amanheço pensando em ti’ ...). As paredes, enfeitadas com os dantes famosos Long Plays, que a vox populi batizou de “discos de vinil”. No palco, um grupo musical embalava os presentes com um selecionado repertório de clássicas composições dos tempos áureos do cancioneiro nacional, em que letra e música rivalizavam quanto à soberania do conteúdo. Entes queridos, amigos dos mais variados quadrantes do território nacional, ex-colegas de labor na caserna, parentes de sangue e coração formavam um humano e invisível parque de energia eólica, acionado pelos ventos planaltinos da ternura e amizade.

Era o ápice das celebrações pelos oitenta bem vividos anos de Antonio Joatan Bonfim, o quarto filho do casal crateuense Donzinha Bonfim Leitão e Raimundo Bonfim, cujo habitat era o lendário e mais antigo casarão de alvenaria da cidade. Efusivo e camarada, corpulento e generoso, Joatan, com sua dilatada fraternidade, é um imã de atração de seres vivos, um ecossistema de agregação familiar, uma porção de terra que avança sobre o mar da generosidade humana. Parece que adotou como mantra o conselho de Goethe: “Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas.”

Desde as madrugadas mais priscas até o desabrochar das modernas auroras civilizacionais, é comum vermos na entrada dos espaços sagrados - sejam eles aureolados pelos contornos das incógnitas ou revestidos pelo mármore do mistério - a construção de dois pilares, como que a reavivar as duas colunas sagradas do Templo de Salomão, símbolos de estabilidade e força.

Joatan, nome hebraico que significa Rei de Judá, é um dos fidalgos da nossa família, um dos nobres pilares de convergência e sustentação do nosso pórtico familiar. Os solfejos da sensibilidade certamente lhe foram dadivados mercê de uma maternal herança, adquirida na alfaiataria da infância, quando costumava ajudar a mãe a movimentar a inesquecível máquina de costura. Recebia pelos serviços prestados uma bela moeda, um poema de Francisco de Paula Monteiro de Barros, intitulado Igualdade Ilusória ou “Mocidade e Primavera”.
Eí-lo:

“A primavera é uma estação florida,
Cheia de imenso, divinal fulgor;
De flores enche o coração da vida,
E enche de vida o coração da flor.

A mocidade é uma estação ditosa,
Cheia de risos, de ideal prazer;
E as almas sentem um viver de rosa,
Na mocidade, a rosa do viver.

Na primavera, há profusão de cores;
As flores brotam no rochedo bruto
Depois... o fruto que há de vir das flores,
E as novas flores que hão de vir do fruto.

Na mocidade, há melopeias calmas;
Tremem dos lábios os vermelhos frisos;
Os risos cantam no brotar das almas,
Cantam as almas no brotar dos risos.

Ambas se adornam de um viver risonho,
Iguais parecem – ambas são de amor
Se a mocidade faz nascer o sonho,
A primavera faz nascer a flor.

Tão iguais parecem quando a vida as solta,
E no entretanto, elas não são iguais:
A primavera passa e depois volta,
E a mocidade não nos volta mais.”


No divinal fulgor da mocidade, Joatan deixou Crateús para cavalgar nos prados do Exército Brasileiro, principiando pelo vizinho estado da Paraíba. Ali, em uma festa de São João, sentiu arder a fogueira d’alma ao divisar a beleza de uma sulista chamada Elci Cardoso Machado, com quem firmou um consórcio amoroso com selo de definitividade. Renovando o idílio há mais de cinquenta primaveras, o casal – que gerou Symone Maria, Carlos Antonio, Silvio Eduardo e Anna Izabel – adora receber e alegrar, servir e confraternizar.

Em sua longa peregrinação cívica e patriótica nas colunas do Exército, Joatan firmou laços de camaradagem e colecionou amizades duradouras, que perduram até os dias atuais.

Essa sua inclinação gregária o tornou um garimpeiro das esmeraldas da sua linhagem que estavam perdidas nos minérios do anonimato, um dos principais bandeirantes na exploração da floresta familiar, um autêntico “caçador de Bonfim”. Resgatou crônicas antigas, alfarrábios perdidos, preciosos manuscritos, minuciosas anotações e saiu recompondo raízes e folhas da nossa oiticica genealógica, nascida nas barrancas do Rio Poty. Depois, passou esse material às delicadas mãos de sua prima Maria Olivia Beserra Macedo, que nos brindou com o belo livro “Bonfim & Bezerra – No Início Uma Só Família”.

Estimado Joatan, que nos próximos oitenta anos, continues ostentando a intrínseca vitalidade e a espontânea jovialidade de quem ergue os olhos aos céus e movimenta os lábios, em solene gratidão, para dizer ao Criador: “Gracias à la Vida, que me ha dado tanto...”

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Boaventura Bonfim disse...

Estimado primo Júnior Bonfim:

Pleno de emoção, parabenizo-o por essa pérola literária, haurida de uma das mentes mais prolíferas da literatura cearense, senão brasileira.

Nosso dileto primo Joatan Bonfim, um dos maiores musicófilos e um dos seres humanos da alma mais leve que conheço, merece esse primoroso regalo e todas as dádivas do mundo.

Boaventura Joaquim Furtado Bonfim

Fortaleza, Ceará.

13 de agosto de 2017 01:46


Um comentário:

Boaventura Bonfim disse...

Estimado primo Júnior Bonfim:
Pleno de emoção, parabenizo-o por essa pérola literária, haurida de uma das mentes mais prolíferas da literatura cearense, senão brasileira.
Nosso dileto primo Joatan Bonfim, um dos maiores musicófilos e um dos seres humanos da alma mais leve que conheço, merece esse primoroso regalo e todas as dádivas do mundo.
Boaventura Joaquim Furtado Bonfim
Fortaleza, Ceará.